Tudo ótimo! Só difícil de contar…

Pois é, não sei exatamente o que anda acontecendo, mas tem me faltado inspiração para escrever no blog. E nem é por falta de assunto, afinal tenho passado por um verdadeiro bombardeio de novas informações, sensações, sabores etc.

Portanto, passo hoje para dizer que está tudo realmente bem. Continuo me apresentando a algumas pessoas que não conheço e tentando fortalecer os laços com quem já faz parte da nossa vida, por mais ou menos tempo.

Comecei a frequentar uma academia de ginástica, que fica em um parque pertíssimo da nossa casa. Há algum tipo de subsídio do governo e é realmente barato, pelo menos para os padrões britânicos. Achei melhor assim, prefiro me exercitar ao ar livre, até cheguei a tentar correr sozinha na pista comunitária, mas não dá para contar com a boa vontade do clima.

parque

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Luiz também me deu uma lâmpada que “substitui” a luz solar. Não é para bronzeamento, é justamente para minimizar os efeitos da falta do sol. É bastante comum por essas bandas as pessoas terem algum tipo de depressão de inverno ou carência de vitamina D.

Assim que, com exercício, cuidando da alimentação e essa tal lâmpada, estou tentando me prevenir de problemas futuros. E nos dias de sol (sim, eles existem!), sempre saio para aproveitar um pouco.

Voltei a cozinhar! Não é que tivesse parado, mas Luiz andou muitos meses sem jantar, o que acabou me desestimulando. Até sou do tipo que cozinha para mim mesma, mas vamos combinar que no dia à dia não é a coisa mais motivadora do mundo. Isso, sem falar de toda a loucura que foi a mudança.

Outra coisa, é que leva um tempo até você se acostumar com os ingredientes locais, o que é mais fresco, o que é de temporada e tal. É engraçado, mas passei bem um mês travada, sem saber o que preparar.

Aqui em Londres, tenho muito mais opções e alimentos provenientes das origens mais diversas! Agora mesmo, por exemplo, estou morrendo de amores pela tal de alcachofra de Jerusalém. É como uma raiz, ainda que lembre, tanto na aparência quanto no sabor, a uma alcachofra tradicional.

alcachofra

Fiz minha própria mini-horta de ervas e estou adorando usar meus temperos direto da janela!

horta

Enfim, ando testando receitas, fazendo jantares só para a gente ou contando com a presença de amigos e assim, vou esquentando os motores. Realmente, quero tentar trabalhar com isso de alguma maneira.

É curioso porque já observei que boa parte das minhas atividades tem alguma necessidade de expressão, ainda que se alternem. Foi assim com artes plásticas, que de certa maneira, ficou à parte quando comecei a escrever. E, talvez, agora escrever não seja tão prioritário, porque quero cozinhar. Algum dia, preciso aprender a conviver com todas essas formas de comunicação em paralelo.

E não é que de vez em quando dá certo? Hoje mesmo, aqui estou e tenho uma panela cheirando no fogo. Vou lá!

Aprendendo a marcar compromissos em Londres

Sexta-feira, resolvi esquentar o umbigo no fogão. Tinha uma peça boa de cordeiro marinado com alecrim e era um pouco grande para Luiz e eu. Chamei alguns amigos para ver se alguém se interessava. Um amigo estava disponível e se interessou.

Isso é uma coisa um pouco complicada aqui, pelo que entendi, as pessoas se planejam literalmente com meses de antecedência. E não estamos falando apenas das férias ou grandes festas, mas de simples jantares e encontros entre amigos.

Por um lado, acho importante ter algo de planejamento, mas pelo que conheço do nosso histórico, se fosse muito rígida em relação a isso, estaríamos bem ferrados, porque nossa vida muda a todo momento. Posso e quero tentar me adaptar à cultura local, não me custa tanto, mas não pretendo perder a espontaneidade.

Assim que chamo quando dá, mas sem grandes expectativas nem cobranças se as pessoas poderão comparecer ou não. Me contaram que algumas podem se sentir ofendidas se forem convidadas muito próximo ao evento, imagino que conosco, ou elas também se adaptarão um pouco, ou vão nos ignorar. Paciência, parte da seleção natural, e na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe e todo mundo samba! Eu chamo, quem quer e pode vem.

Enfim, um amigo veio e a conversa se estendeu pela madrugada, ele acabou dormindo por aqui. Dia seguinte, nós três meio de ressaca, mas não acordamos muito tarde. É que fazia bom tempo e isso aqui é coisa muito séria! A gente não quer desperdiçar um dia assim dormindo.

Levantamos meio na marra e fomos ao Borough Market, meu mercado favorito em Londres. Ainda vou escrever sobre ele, com direito a fotos e tudo! Mas hoje, só vou contar que fomos para lá, comemos um sanduíche de carne seca e nosso amigo comeu um hambúrguer com várias fatias de bacon (daquele inglês, com pouca gordura). Com o PH mais equilibrado, sentamos em um restaurante de ostras e nos acabamos de comer ostras com um Chablis corretíssimo. Ainda demos uma volta pelo mercado para comprar coisinhas gostosas, como queijos fedidos, azeite de trufa, manteiga com alho…

Domingo, aproveitamos para descansar um pouco. Luiz embarcava para Alemanha ridiculamente cedo na segunda-feira.

Tomei coragem para me pesar, coisa que vinha adiando com frequência. Lógico que milagres não existem e é evidente que a balança não ia mentir só porque eu queria. É Bianquita, melhor tomar uma providência que o negócio está ficando sinistro para o seu lado!

Aproveitei o dia, que amanheceu lindo e fui tentar correr em um parque aqui perto de casa. Mais andei que corri, mas foi um começo. Nesse parque, há uma academia de ginástica, mas queria tentar sozinha primeiro.

Cheguei em casa, já com vontade de ir para a rua outra vez. Realmente, o dia estava provocador!

Recado de uma amiga. Havia combinado na terça-feira de ir até a sua casa, em Surbiton, e fazer um passeio pelas margens do Thames. Ela me perguntava se não queria adiantar o programa para segunda mesmo e aproveitar o sol.

Por que não? Achei ótimo!

Ainda bem que fui, porque acho que deve ter sido se não o dia mais bonito, um dos mais bonitos desde que cheguei a Londres. Não é que não faça sol, mas é que o tempo é muito instável. E nesse dia, fez sol o dia inteirinho!

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Surbiton

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Passeio ótimo, companhia melhor ainda! Dia seguinte, veio ela aqui em casa e também passeamos pela redondeza. O tempo não estava tão mau, mas nem se comparava ao dia anterior.

É engraçado isso, nunca morei em um lugar em que o clima fosse tão instável. Às vezes, acordo com o sol no rosto, levanto correndo para aproveitar, afinal isso é algo muito apreciado por essas bandas. Daí, dou aquela passadinha no banheiro para escovar os dentes e quando chego na cozinha está cinza e uma tempestade! Como assim? Ok, então não vou para rua, deixa eu tomar meu café. Termino o café e já faz sol outra vez… Caraca! Dá para decidir?

Na quarta, outra amiga veio almoçar no The Elgin, nosso pub da esquina. Também aproveitamos para fofocar um pouco durante a tarde.

Estou achando ótimo isso de ter sempre alguém legal para sair ou encontrar. Realmente, acho que sou uma privilegiada de encontrar amigos pelo caminho, seja ele qual e onde for.

Até que finalmente, resolvemos inaugurar a casa decentemente. Não dava para fazer aqueles festões de Madri, já havia decidido pegar mais leve, pelo menos no início. Assim que fizemos uma degustação de cachaças para uma média de 15 pessoas. Era bom que teria uma oportunidade de testar a quantidade de gente que a casa comportava e dar mais atenção aos convidados individualmente.

Uma amiga já havia me prevenido que o povo por aqui é muito furão. Que a média de assistência às festa era de 30% dos convidados! Como assim? Veja bem, pelo nosso histórico, desde o nosso casamento, costuma vir 10% a mais do que esperamos!

Fiquei grilada! Será que o pessoal viria mesmo?

Tratei de sair confirmando com todo mundo! Sei lá, acho que esse fracasso de comparecimento se deve justamente a eles marcarem as coisas com muita antecedência. Fica difícil controlar qualquer imprevisto e vamos combinar, eles acontecem. Não é possível que aconteça só com Luiz e eu!

Encurtando o suspense, o povo veio! E é lógico que adorei!

Sim, são pontuais, praticamente não tive atrasos. E os que houveram, nem poderiam ser considerados atrasos, mas a margem da educação. É o seguinte, você pode chegar até uns 15 minutos depois da hora marcada, não é gravíssimo como a gente pensa. Se não for jantar, até um pouco mais. Entretanto, nunca se deve chegar mais cedo, isso é muito, mas muito mal visto.

Se for a primeira vez que você vai à casa, é educado levar um vinho, flores ou chocolate. Essa regra não é apenas inglesa, mas eles levam a sério.

Tentei simplificar e avisei logo que quem quisesse trazer sobremesa, algo fácil, era bem vindo! De certa maneira, acho que quebra a formalidade e, francamente, facilita minha vida.

Fiquei na dúvida do que cozinhar, porque era a primeira vez que a grande maioria passava aqui em casa. Portanto, atirei para todos os lados para ver o que gostavam mais. Usei algumas receitas já conhecidas, como o quibe e o bolinho de bacalhoada e testei algumas receitas novas, como a de bolinho de tutu com paio, que se provou um sucesso de bilheteria!

A única coisa muito diferente é que quase todo mundo vai embora igual a Cinderela. Porque o metrô e os trens acabam e o taxi é caro pacas! A vida noturna britânica acaba muito cedo comparada à vida em Madri.

Sem problemas. Começamos cedo essa festinha inaugural e já entendi o esquema. Próxima festa, começamos à tarde!

Ainda assim, teve gente que bravamente topou esticar à noite e um amigo dormiu em casa. Então, lógico que terminei a madrugada quase engatinhando para cama, mas bem feliz.

Enfim, mais lições aprendidas e começando a trabalhar a boa energia da casa. E, algo fundamental, nenhum vizinho reclamou!

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Ajustar a rotina

Quinta-feira e a casa ficou vazia com a ida do meu irmão e minha cunhada. Paciência, melhor me manter ocupada. Aprendi a conviver com despedidas de uma maneira muito madura: faço de conta que elas não aconteceram. Simplesmente, tento não pensar e me ocupar com outra coisa.

Do que iria reclamar? Um mês que mudei para um país novo e já tive visita de alguém da família! Não é uma sorte?

A casa ainda precisava terminar de ser arrumada e foi o que tentei fazer. No final do dia, com tudo mais organizado e limpo, sentei na sala e me toquei que ainda não havia feito isso desde que a mudança chegou. Com a chegada dos nossos hóspedes, preferi desfrutar da companhia e da cidade, o que acredito ter sido a melhor opção.

Agora, tinha um tempinho para curtir o apartamento, reencontrar objetos, pensar no que cozinhar, fazer umas compras decentes…

Resolvi fazer minhas primeiras compras por internet. Sim, porque enquanto as visitas estavam por aqui, nossa internet começou a funcionar. Teoricamente, a TV também, mas só fomos, quer dizer, Luiz só foi instalar tudo depois que já estávamos sozinhos.

Enfim, nesse período que moramos aqui, havia visto umas duas entregas na rua do Ocado, inclusive, uma no exato dia da nossa mudança, quando sua van estacionou no mesmo local proibido que o nosso. Verdade que a entrega deles era muito mais rápida que nossa mudança.

Muito bem, fui para internet, decobri o website, me cadastrei, fiz minhas compras direitinho. Já adianto que chegou tudo perfeitamente e no horário, gostei. Você vai recebendo mensagens no seu celular, avisando que suas compras estão chegando, se tem tudo que você pediu, o nome de quem fará a entrega, todos os detalhes. Ótimo, menos um pepino! Compro o que for mais pesado por lá e os frescos pela redondeza, até bom ter algum pretexto de passear aqui em volta.

Fui a um açougue na Clifton Road, onde anunciam que a carne é orgânica! Acho engraçado isso, a outra opção seria carne de plástico? Mas enfim, escaldada de comprar carne bombada de hormônios nos EUA, achei melhor nem arriscar aqui e ir direto a um açougue que me inspirasse confiança. Ali chegando, fui tentar identificar os cortes ingleses, não tinha muita certeza do que comprar. Achei um lombo de cordeiro com boa cara e pedi um pouco de paciência ao açougueiro, porque era minha primeira vez comprando carne por essas bandas e ainda estava entendendo os cortes. Ele me pergunta simpático de onde eu era e logo em seguida, me disse que era português. Perfeito, então vou te perguntar tudo! E agora é o açougue que frequento.

Na sexta-feira, tinha uma consulta para definir quem será meu médico. O sistema de saúde na Inglaterra é basicamente público, há algo de medicina privada, mas a maioria frequenta o do governo mesmo. Nós temos direito a um plano de saúde privado pelo trabalho do Luiz, mas quis fazer a coisa direito.

Para ser sincera, ainda estou entendendo como funciona essa história por aqui, mas acho que é parecido à Espanha, com o sistema público ainda mais forte.

É assim, você precisa ter um “médico de cabeceira”, eles chamam de “GP” (General Practitioner), que é um tipo de clínico geral que acompanha seu histórico. Tudo que você sente de diferente, é no GP que você vai primeiro, e dali, ou ele mesmo resolve, ou vai te encaminhar para um especialista.

Então, logo que você chega ou muda de endereço, precisa procurar qual é o centro de saúde mais próximo, vai até lá com seu documento de identidade (passaporte), um comprovante de residência (contrato de aluguel, correspondência etc) e faz sua inscrição.

Perto da nossa casa, havia dois centros de saúde. Luiz pesquisou pela internet e um era muito mal avaliado e o outro muito bem avaliado (vai entender). Claro que fui no bem avaliado, mas não sabia se iriam me aceitar. Não foi complicado nem burocrático.

Como tenho mais de 40 anos, precisei passar por um tipo de triagem, algo simples, uma consulta com uma enfermeira para contar a ela meu histórico de família, medir pressão, anotar meus dados pessoais etc. Achei até muito bom e ela foi bem simpática.

Ela me perguntou há quanto tempo eu não fazia meu “smear test”, que não sabia, mas entendi que se tratava do exame ginecológico preventivo, o tal papanicolau. No Brasil, a recomendação é que façamos esse exame anualmente, mas já haviam me avisado que aqui eles faziam de 3 em 3 anos. Então, menti logo: acho que tem uns 3 ou 4 anos que fiz o último… E assim ela já marcou no mês que vem para eu fazer.

Igualmente pela idade e porque estava iniciando meu processo naquele GP, ela me disse que tinha o direito a pedir um exame de sangue para saber o estado geral de colesterol, açúcar etc. Perguntou se eu queria, claro que quero, não me custa nada saber como ando. Também já marquei para o mês que vem.

E o detalhe é que o tal centro médico é na esquina de casa. Espero que realmente seja bom, mas pelo menos a primeira impressão foi positiva. Verdade que não tenho a intenção de ir com frequência, isola! Mas são coisas que fogem ao nosso controle e é bastante complicado dividir o pouco tempo que tenho no Brasil de férias, para consultar médicos de confiança.

Há coisas que parecem bobas, mas como diz o ditado, o diabo mora nos detalhes. E resolver esses “detalhes” de arrumar a casa, receber correspondência no meu nome, ter instalada a internet, descobrir onde fazer as compras, fazer a entrevista para ter meu NINo, me cadastrar no centro médico e ser encaminhada a um GP… era fundamental para eu começar uma rotina. Francamente, não me considero uma pessoa rígida e estou disposta a me adaptar às mudanças pelo caminho, mas há uma diferença gigantesca quando você começa certo em qualquer lugar.

E eu queria começar certo.

Por um lado, isso me trouxe uma ansiedade adicional no primeiro mês. Não foi fácil chegar. Não cheguei adorando nem deslumbrada (como em Madri, por exemplo). Nem quero entrar na comparação de países, porque como costumo dizer, quem compara sempre perde. Só estou usando a referência porque a gente aprende com a experiência, ou deveria aprender. E por experiência, sabia que tinha passos a dar, problemas a resolver, expectativas que eliminar ou minimizar.

É engraçado porque as pessoas são imediatistas e é uma pergunta normal o: e você está gostando?

Para mim, era muito difícil responder essa pergunta até agora. Porque não podia gostar (ou não gostar) se eu ainda não conhecia.

Falta muito por fazer e conhecer, e acho estimulante que seja assim, mas só após o primeiro mês e esses, digamos, detalhes resolvidos, agora posso dizer: sim, eu gosto!

O clima poderá ser um problema em algum momento, é o que todo mundo sempre diz, morando ou não morando aqui. Talvez em algum momento, mas agora não. Não está me deprimindo e estou dormindo que é uma beleza! Durmo cedo e acordo cedo sem sofrimento. Acho que o único lugar que dormi tão bem tantos dias seguidos foi no deserto da Jordânia. Mesmo assim, estava de férias e foi por pouco tempo. Portanto, se algum dia o cinza de Londres for um problema, a gente vê o que fazer para resolver. Por enquanto, não é.

A distância da família é um problema? Sim, mas convivo com ele há quase 10 anos, não é novidade. Se considerar a mudança dentro do Brasil para São Paulo, há 20 anos! Se eu gostaria de participar mais, de ver mais, de estar mais? Claro! Mas não acho que isso me converta em ausente. Da maneira que posso, da melhor possível, sigo parte da família.

A distância dos amigos é um problema? Não, é uma saudade. Não conheci outra vida que não fosse mudando, me distanciando e reencontrando. Assim que chegou o momento que entendi que esse é o meu normal, não uma contingência. Só me faz valorizar mais as pessoas no presente, quando posso estar com elas, estou de verdade, me esforço, procuro, chamo. Tem gente que precisa de um pouco mais de espaço, de distância, e respeito isso também. Se não posso estar pessoalmente, daremos nosso jeito, e quando a gente tiver que se despedir ou se reencontrar, não vou fazer drama, será como se fosse ontem.

Gastro-Londres em menos de uma semana!

Oficialmente, recebemos nossos primeiros hóspedes! Digo oficialmente, porque um amigo dormiu aqui em casa logo na primeira semana, mas de maneira bastante improvisada e sem os móveis. Dessa vez, tínhamos hóspedes programados, meu irmão e minha cunhada!

No final do ano passado, pouco antes da gente sequer decidir formalmente que viria para Inglaterra, meu irmão me ligou pensando em vir para Europa na época de carnaval. Na dúvida se passava por Madri ou alguma outra cidade. O incrível é que uma das possibilidades na sua cabeça era exatamente Londres. Talvez estivesse escrito nas estrelas.

Falei para ele esperar um pouco, porque se duvidasse, estaríamos morando em Londres no ano seguinte.

De maneira que eles já tinham a passagem comprada antes mesmo de termos um endereço fixo na cidade! Ele ficava agoniado me ligando toda semana, perguntando se ia atrapalhar, se a mudança ia chegar a tempo, se daria para arrumar a casa… enfim, todas as perguntas que eu não tinha a menor ideia! Só dizia para ele relaxar e aparecer que a gente daria um jeito.

Três dias antes deles aterrissarem, havia quase uma centena (literalmente) de caixas de papelão entulhadas pela casa.

No sábado, pela manhã, dia de sua chegada, juro que o apartamento estava bem decente. Ainda faltavam, e faltam, detalhes de arrumação, mas estava totalmente operacional e já parecia um lar.

Eles iriam embora na quinta-feira pela manhã, assim que tínhamos menos de uma semana para conseguir montar uma programação razoável pela cidade.

O sábado que eles chegaram era o de carnaval. E por mais que meu irmão deteste essa época do ano, afinal, não é à toa que fugiu do Rio de Janeiro para cá, sinto muito, eu gosto e tinha uma aliada, porque minha cunhada também gosta. Assim que lá fomos nós para um baile de carnaval no Guanabara.

Voltando um pouco no tempo, logo que cheguei em Londres e comecei a fazer contatos entre velhos e novos amigos, perguntei se havia alguma festa de carnaval por essas bandas. Todo mundo indicava um lugar brasileiro chamado Guanabara. Conversa daqui, conversa dali, uma amiga se propôs a fazer a reserva do que começou como uma tímida mesa de meia dúzia de amigos e acabou com umas 15 pessoas animadíssimas.

O local é bem maior do que imaginava e a festa estava bastante organizada. Não fui com uma expectativa muito alta e confesso que me surpreendeu positivamente. O principal era estar em boa companhia e isso estava garantido. Encurtando a história, foi ótimo! Me diverti pacas e conheci gente super legal! Amigos de amigos, leitora do blog, gente que puxamos papo por lá… me acabei!

Mas não ficamos até tão tarde, porque além de nossos hóspedes terem chegado naquele dia do Brasil, também não queríamos perder a manhã do dia seguinte de ressaca. Imagina, ressaca em libras!

Acordamos bem no domingo e fomos para Picadilly, caminhar pela região. Honestamente, o dia estava horroroso! Um frio, chovendo, ventando… mas o que a gente pode fazer? Ficar em casa não dava, né?

Nessa área, acho uma parada imperdível a loja Fortnun & Mason. É tudo uma fortuna, mas uma tentação ao paladar e aos olhos.

Enfim, rodamos por ali, almoçamos no Toku, um japonês bem honesto, daqueles onde a frequência de clientes japoneses é alta. Sou tarada por um prato que eles fazem com unagui e arroz! O Missoshiro também foge do lugar comum, pode acreditar.

De lá, eles queriam ir na London Eye, aquela roda gigante, aliás gigantesca, de onde se tem uma vista geral de Londres. Eu e minha vertigem a-do-ra-mos esse programa, né? Mas se não fosse, eles não iam, então, resolvi acompanhar até o local, de onde disse que dali eles seguiam e eu voltaria para casa.

Para que?

Começou um se eu não for, Luiz não vai, se Luiz não vai, eu não vou… caraca, que saco! Por que não vão logo e me deixam em paz? Cada um faz o que tem vontade, certo? Ainda por cima um vento e uma chuva do caramba! Eu entendo que eles queriam aproveitar, mas eu já estava precisando vir para casa! E principalmente Luiz, que já tinha me torrado a paciência que queria ir lá, mas não queria ir sozinho, por que não aproveitava de uma vez a oportunidade de ir com eles?

Resultado, para agradar a gregos e troianos, porque as cafeterias da região eram ruins e porque não tenho o menor saco para esse blá blá blá, lá tive eu que entrar naquela bosta! Imagino que para pessoas normais seja um excelente programa, mas para mim, um completo desperdício! Porque tive que passar 2/3 do etinerário olhando para o chão ou algum ponto fixo para não enjoar, uma delícia. No início, ainda tentaram fazer alguma gracinha, tirar foto, fazer carinha de peninha… ninguém merece! Já sou obrigada a fazer o que não quero e ainda por cima tenho que fingir que estou adorando? Quer que eu vomite? Me deixa quieta e mantenha uma distância segura!

Muito bem, uma hora acabou aquela tortura. Pessoal, sinto muito, mas daqui vou embora mesmo! Está frio, chovendo, ventando e eu moro aqui! Passei um mapa para minha cunhada, expliquei minha parada de metrô e eles já sabiam como ir do metrô ao meu apartamento. Beleza!

Luiz também veio comigo e eles ainda seguiram, acho que para Tower Bridge. O que estava certíssimo, acho mais que eles tinham que aproveitar todos os minutos!

Com meu banho quentinho tomado, meu bom humor recuperou-se totalmente!

Eles chegaram e fomos ao Warrington, um pub clássico, próximo aqui de casa. Nos domingos, há uma tradição dos pubs servirem o Sunday Roast(o assado de domingo) e aproveitamos para mostrar a eles e desfrutar de um bom assado.

Segunda-feira, Luiz foi trabalhar e saí com eles para passear pelas redondezas do nosso bairro. Fomos a “Little Venice”, um canal bem charmoso que não costuma estar na rota turística. Verdade, que essa época do ano não tem o charme habitual, mas vale o passeio. Qualquer dia escrevo mais sobre lá.

Também fomos a “Abbey Road”, aquela rua que saiu na capa de um disco dos Beatles, com eles atravessando uma faixa de segurança. Trata-se de uma esquina normal e corrente, que fica cheia de turistas pentelhando o trânsito para tirar uma foto atravessando a rua. Se você não estiver dirigindo, pode ser até divertido.

Dali demos uma volta por St. John’s Wood, que é uma graça e fomos almoçar na Clifton Road, outra rua charmosinha pelos arredores. Costumo ir ali para comprar flores. Comemos no Café Rouge, uma cadeia de restaurantes franceses que acho boa e de preço razoável.

Eles seguiram passeando, foram ao Madame Tussauds e voltei para casa. A companhia deles é bem agradável, mas melhor deixar os dois sozinhos um pouco, né? Acho que quem viaja também quer algo de privacidade em algum momento.

Fomos jantar no Nobu, que pessoalmente considero, se não o melhor, um dos melhores restaurantes japoneses que conheci. O ambiente é elegante, talvez um pouco barulhento, mas não chegou a me incomodar. E o principal, a comida é divina! O tartar de toro com caviar é um absoluto escândalo! De ajoelhar e rezar! Melhor preparar o bolso, porque o padrão é alto, mas francamente, acho que merece! Aviso que é muito difícil conseguir mesa sem reservar com antecedência.

Na terça-feira, eu tinha uma entrevista com o governo. Assim que não acompanhei os dois. O local dessa entrevista é próximo ao trabalho do Luiz, por isso, acordei cedo e fui junto com ele. É o seguinte, com a cidadania europeia, posso entrar e trabalhar no país, mas preciso de um número de identificação, chamado NINo (National Insurance Number). É como se fosse uma identidade/CIC, o número de conta para pagar contribuições e impostos, funciona como referência para todo o sistema de seguridade social.

Luiz já tinha tirado o dele, afinal, sem isso ele não receberia o salário. Ele usou o endereço de um amigo, porque tinha pressa. Mas no meu caso, deu para esperar ter um endereço fixo de residência.

Em teoria, seria uma entrevista tranquila, a do Luiz foi. Mas sou tão escaldada com esse negócio de burocracia para documentação, que sempre fico com meu pé atrás. A Espanha me traumatizou um pouco com essa história.

Chegando lá, percebi que a maioria das pessoas ao meu redor eram estrangeiras. Isso, de certa forma, me tranquilizou, não me senti a única (esse documento é o mesmo para ingleses e estrangeiros).

A entrevista é séria, havia um pouco de tensão da minha parte, mas nada exagerado. Acho que é como deve ser mesmo. Ela pergunta o que deve perguntar, nacionalidade(s), porque veio, se está trabalhando, se pretende trabalhar, se é casada etc. Você apresenta alguns documentos, mas também nada exagerado, levei meus passaportes (ela quis ver os dois), contrato de aluguel, certidão de nascimento e casamento e identidade espanhola. Ela olhou tudo, tirou cópias lá mesmo dos passaportes e do documento espanhol. As certidões de nascimento e casamento ela nem quis saber. Nada daquele negócio de ter que levar trocentas cópias autenticadas, originais de não sei o que, tradução juramentada, fotos e tal. O processo é simples, se restringe ao fundamental.

Ela me deu um protocolo e avisou que a resposta costumava levar entre uma e duas semanas. Se levasse mais de quatro semanas, que eu ligasse para o número tal.

Vou acelerar o filme para contar que hoje, exatos sete dias corridos após minha entrevista, dia 20 de fevereiro, chegou à minha porta o envelope com meu NINo. Sim, tudo aprovado e certinho!

Posso trabalhar.

Não sei se vou, não sei em que, mas saber que posso e pelos meus próprios pés é uma sensação que nem sei explicar. Ainda estou digerindo.

Mas vamos seguir a história anterior, ainda na terça-feira, fomos jantar no Gilgamesh, um restaurante asiático, recomendação do meu irmão, que havia estado ali anteriormente. O lugar é bem interessante, exótico e boa comida. Os pratos são condimentados, coisa que é bastante apreciada por aqui, e por nós também. Principalmente no inverno, não custa dar uma força para a endorfina, o humor agradece. Nesse dia, uma amiga se juntou a nós quatro. Ótimo jantar, ótima companhia!

Na quarta-feira, último dia que eles tinham disponível para passear, fomos a Greenwich. Como o próprio nome indica, é exatamente por onde passa o Meridiano de Greenwich. Há um museu no local e você pode tirar fotos, literalmente, com um pé no oriente e outro no ocidente.

Como todos sabem, é esse o meridiano que serve como referência para se calcular distâncias em longitudes e os fusos horários.

Pois é, minha cunhada é muito engraçada e espontânea, ela se atrapalha direto para sair de casa e reclamava que vivia atrasada. Queria mudar essa característica e ficava de onda dizendo que finalmente, agora que ela havia passado por Greenwich, seria uma nova mulher, extremamente pontual!

Brincadeiras à parte, acho que vale o passeio e tem uma vista bacana desde o observatório. Fora a gaiatice de tirar fotos na linha do meridiano, é lógico!

Greenwich

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Almoçamos no Goddards, um restaurante datado de 1890. Não espere nada elegante, o local é muito simples, com jeito de bandejão de faculdade (de fato, muitos estudantes comem por ali). Servem a tradicional combinação “Pie&Mash” (uma tortinha parecida a um empadão e purê de batata, os molhos costumam ser o “gravy” ou “eels”). Frequentemente, há fila até o lado de fora. Acredito que o sucesso da casa se deva, além da tradição, ao fato de servirem uma comida honesta a um preço para lá de razoável. Você pode comer tranquilamente por 5 libras, se for estudante, ainda tem desconto, ou seja, uma verdadeira barganha!

Há outras boas opções nas redondezas de Greenwich e nos fins de semana, fazem um tipo de feirinha que fica lotada. Como fomos em uma quarta-feira, havia apenas algumas barraquinhas abertas.

Em uma delas, que funciona durante a semana, parei para comprar um chapéu, desses impermeáveis. Acho que aqui me será muito útil. Pois bem, o curioso dessa história é que aprendi o melhor eufemismo que já escutei na vida! A vendedora me ajudou a encontrar o que buscava e insistia em me mostrar a marca do chapéu, um Burberrys… por 15 libras! Respondi, é para um Burberrys o preço me parece muito bom (quase irônica). Ela me responde: it was loved before! Achei o máximo! Aqui as coisas não são usadas ou de segunda mão, elas foram “amadas anteriormente”!

Perfeito, saí eu com meu chapéu amado anteriormente e que seguirá sendo amado futuramente!

De lá, ao invés de pegar o metrô, pegamos um barco até London Bridge. Também é um bom passeio, mesmo no inverno, pois você tem toda a vista das margens do Tâmisa e fica protegido do frio pelas janelas. Acho o ponto alto passar sob a Tower Bridge. Digamos, um outro ângulo de visão.

Da estação de London Bridge, se o tempo estivesse melhor, daria para caminhar até a Tate Modern, nossa próxima parada, mas com a combinação frio, vento e chuva, pedi arrego e pegamos o metrô. Visitamos o museu, meu favorito em Londres.

Dali, voltei para a casa e eles foram para umas últimas comprinhas em Picadilly. Acho que se deixasse, meu irmão morava em Picadilly!

Jantamos no Raoul’s da Clifton Road, é uma cadeia de restaurantes italianos. Nada extraordinário, mas um italiano correto que eu gosto. A comida é honesta e o serviço simpático.

Na volta para casa, quisemos fazer uma parada no The Elgin, um dos nossos pubs favoritos da região. O local é modernoso, o cardápio é curto, mas original, com toques espanhóis. Já não conseguíamos mais comer, mas pelo menos tomamos uma tacinha de vinho para despedir.

Na quinta-feira, logo cedo, eles foram para o aeroporto, embarcar para o Rio.

Foi rápido, porém intenso. Acho chato que a casa ficou vazia, deixou o gostinho de quero mais. Achei legal ver os dois juntos, parecem felizes o que me alegra muito. Deu uma animada no ambiente. Um lar precisa de energia de gente, de movimento!

Enfim, acho que eles gostaram da viagem também e já fizeram planos para voltar em abril. Não sei se virão mesmo, porque sempre depende de algumas variáveis, mas fico na torcida.

E agora, toca a fechar a boca e fazer regime, porque com tantos passeios gastronômicos daqui a pouco não passo pela porta! Mas foi tão bom…

Bota as pilhas e liga o turbo!

Acordei na quarta-feira, 6 de fevereiro, fui tomar um café da manhã, na medida do possível e me deparei com o seguinte cenário…

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Pois é, me diz se não dava vontade de sair correndo?

Acontece que meu irmão e minha cunhada chegariam no sábado de carnaval e ficariam hospedados aqui em casa. Ou seja, tinha 3 dias para deixar o apartamento em condições decentes.

Além disso, a irmã do Luiz estava de passagem a trabalho por Londres e jantaríamos nessa mesma noite. A gente queria que ela passasse antes para conhecer a casa nova, e de lá comeríamos na rua. No dia seguinte, ela já iria embora cedo e não dormiria conosco. É claro que não esperava organizar tudo até o fim do dia, mas queria pelo menos ter algum ambiente da casa apresentável para ela ter uma ideia melhor do apartamento.

Arrumar uma mudança em pouco tempo não é uma novidade para mim, entretanto, é mais fácil quando você muda para um lugar maior e com armários de sobra. Nós nos mudávamos para um apartamento com dois quartos a menos, um único armário bom no nosso quarto, um armário meia boca de duas portinhas no escritório, os armários da cozinha… e só! Por sorte e pelo nosso histórico de mudanças, temos algumas estantes mil e uma utilidades com rodinhas, caixas organizadoras e uma habilidade ímpar em resolver quebra-cabeças!

Tenho um método de trabalho. E sim, o negócio é profissional! Lembra que é meu 37º endereço? Pois é, modéstia às favas, tenho experiência para dar um curso no assunto!

O quarto de casal já dormiu arrumado desde a primeira noite. É fundamental você ter reservado e separado com antecedência um jogo de lençóis e outro de toalhas de banho. Porque quando a equipe de mudança sai da sua casa, você quer tomar um banho e dormir na sua caminha, faz toda a diferença do mundo!

Depois disso, o primeiro ambiente que arrumo é sempre a cozinha. Ela é o coração da casa. Demora um pouco mais, porque tenho que lavar toda a louça antes de ir para os armários, mas vale à pena. Com um quarto arrumado e a cozinha operativa, a casa já funciona independente da zona de caixas que siga pelos outros espaços.

De maneira que, quando minha cunhada chegou, já havia uma cozinha razoavelmente apresentável e umas vinte e poucas caixas prontas para serem levadas ao lixo.

Essa é uma dica que parece óbvia, mas é importante. Assim que for abrindo as caixas, elas já devem ser desmontadas e empilhadas. O plástico bolha deve ser enrolado imediatamente após cada caixa. Caso contrário, você ficará com um volume papelão e plástico impensáveis ao seu redor, não dá para se locomover nem abrir as demais caixas.

Aqui em casa, a gente se organiza assim, durante o dia abro as embalagens, organizo o conteúdo e preparo grupos de caixas desmontadas e sacos de plástico bolha enrolados. Quando Luiz chega, ele leva esse material todo ao lixo reciclável.

Enfim, final da quarta-feira, cozinha praticamente arrumada e jantar com a irmã do Luiz para dar uma relaxada.

Quer dizer, teoricamente, o jantar seria relaxante. E até começou dessa maneira animada. No meio da refeição, toca o telefone, era minha sogra, meu sogro precisaria ser operado. Ai, Cassilda! Bom, mas parecia não ser nada grave, uma hérnia que precisava ser retirada há algum tempo, mas vinha sendo adiado até que agora havia se tornado necessário.

Não tínhamos muito que fazer a não ser torcer pelo melhor e conversar com eles para tentar acalmar. Além disso, por coincidência, minha cunhada já estava com passagem marcada para estar na semana seguinte no Rio e isso nos deixava mais tranquilos. Resumindo a ópera, ele foi operado no dia seguinte, correu tudo bem e no sábado ele já voltou para casa. Ufa!

Na quinta-feira, segui alucinada com a arrumação da casa! Terminei a cozinha e parti enfurecida para atacar a sala! Ficou faltando uma ou outra caixa que iriam para o escritório. Na verdade, só não consegui acabar a sala, porque cismei que iria cozinhar. Estava com saudades das minhas panelas e havia achado dois sacos de feijão brasileiro que vieram escondidos em uma das caixas de mudança. Bom, isso sem falar de umas 40 garrafas de bebidas que também vieram enroladas entre lençóis e toalhas.

Enfim, fui para cozinha e fiz uma feijoada! Não chegou a ser uma feijoada completa, mas um belo feijão incrementado. Cheguei a chamar uma amiga que mora aqui perto para jantar, mas ela não viu a mensagem a tempo.

Na sexta-feira, perdi a manhã porque precisava ir ao centro da cidade buscar meu cartão do banco. Sim, já tenho conta em banco! Luiz foi comigo e, como era perto do seu trabalho, almoçamos juntos no Chamberlain’s. Fica em um mercado relativamente pequeno e bem charmoso pela zona de Aldgate. A especialidade da casa são os frutos do mar, comi um peixe fresquíssimo, delicioso e de apresentação impecável!

Voltei para a casa e mergulhei nas caixas que faltavam. Luiz tentou não chegar tão tarde e me ajudou também. Resultado, o único ambiente do apartamento onde ainda havia uma meia dúzia de caixas era o escritório, são mais complicadas, porque não há mais armários para armazenar o conteúdo. Já veremos como fazer. Mas pelo menos, todo o resto estava bem arrumadinho e pronto para receber nossos hóspedes!

Só mais um pequeno grande detalhe para dar suspense. Voltando um pouco no tempo, na quarta-feira, quando voltamos do jantar com a irmã do Luiz, notamos que o apartamento estava mais frio. Abrimos a água quente e nada. Caraca, deu pau no aquecedor a gás!

Por acaso, fiquei com o telefone do “contractor”, um tipo de mestre de obras que faz um pouco de tudo e era o responsável pela reforma do apartamento onde moro. Um irlandês simpático, casado com uma brasileira e acho que gostou de saber que éramos brasileiros também. Já tinha conversado com ele umas duas vezes, uma quando vim visitar o apartamento antes de mudar e outra quando ele veio arrumar um pequeno vazamento que havia ficado para trás. Pois é, só que era quase meia noite, não é hora de ligar para casa de ninguém, muito menos aqui em Londres.

Mas o que a gente ia fazer? Ficar sem aquecimento e sem água quente nessa temperatura é impensável! Luiz se armou de coragem e ligou para o cidadão. Que até foi bem compreensivo e disse que enviaria alguém no dia seguinte pela manhã.

Por sorte, havia encontrado um aquecedor/radiador elétrico, trazido de Madri, por via das dúvidas. Com ele dormimos sem passar frio no quarto, mas água quente para o banho do Luiz de manhã… necas!

O consertador do aquecedor de gás chegou na quinta-feira cedo, e em mais ou menos 15 minutos conseguiu solucionar o problema, ou melhor, achou que solucionou.

Respiramos aliviados e quentinhos até sexta-feira à noite, quando o tal aquecedor parou de funcionar outra vez! Taquiupariu três vezes e amanhã temos hóspedes!

Luiz ligou para o “contractor” e para o dono do apartamento. O aquecedor é novo e está na garantia, de maneira que o dono do apartamento queria usar a assistência autorizada. O que até entendo, mas eles só tinham agenda para a terça-feira seguinte!

Como é que a gente ia ficar entre 3 e 4 dias sem aquecimento, sem água quente e com hóspedes?

O “contractor” se sensibilizou e veio no sábado de manhã aqui em casa. Veio até com a esposa, uma brasileira bióloga e muito simpática. Ela ficou conversando comigo, enquanto o marido tentava fazer algum “gato” para quebrar nosso galho até o pessoal da assistência técnica aparecer. Mas não era sua especialidade e ele estava preocupado em mexer muito.

Deu certo, não sei que raio ele arrumou, mas funcionou e fiquei mais do que agradecida. Eles deixaram conosco um outro radiador elétrico emprestado, no caso da gente precisar, o que achei extremamente gentil e atencioso.

Mais ou menos uma hora depois deles saírem aqui de casa, chegou meu irmão com a noiva. E a gente se borrando de medo do aquecedor pifar com eles hospedados. Muitas emoções!

As aventuras com nossos hóspedes, conto em alguma próxima crônica, mas só para não deixar a bola no ar, aviso que o aquecedor e o “gato” resistiram bravamente até terça-feira, quando apareceu o técnico oficial e consertou oficialmente o aparelho. Parece que havia um problema de pressão alta, ou seja, nosso aparelho novinho já é hipertenso coitado! Mas foi medicado e realmente espero que não nos dê mais problemas.

A bendita mudança chegou!

Aproximadamente, 3 semanas depois que a mudança saiu de Madri, chegou a Londres. Na verdade, de estrada mesmo foram dois dias, o restante do tempo de espera foi por conta da documentação que a empresa transportadora deveria ter e não tinha. Mas tudo bem, importa que chegou tudo direitinho.

Acontece que é lógico que para a gente não poderia ter sido pelo caminho normal.

Porque como contei anteriormente, descobrimos alguns dias antes que a empresa não havia solicitado local para estacionar o caminhão em frente ao nosso endereço. Sabendo disso, tínhamos algum plano B na manga, que consistia basicamente em parar de maneira irregular, após o horário de fiscalização. É assim, se houvesse alguma denúncia, ferrou! Mas se ninguém se queixasse, ficava por isso mesmo. Não tínhamos outra alternativa além da de contar com a sorte.

De maneira que por volta dàs 19h30, aparece um caminhão enorme na frente da minha casa, com dois indivíduos que levavam dirigindo desde às 6 da matina, simplesmente para entender onde era o local e combinar de voltar no dia seguinte cedo.

Olha só, meus amigos, entendemos perfeitamente vosso cansaço, acontece que sua empresa não reservou estacionamento. E se vocês voltarem amanhã pela manhã, não vão conseguir estacionar. Se quiserem, ajudamos vocês agora. É fogo, mas é a melhor alternativa. Amanhã, no horário que vocês viriam para cá, vocês descansam à vontade, façam o que quiserem!

Um deles achava essa alternativa melhor, mas o responsável estava meio reticente com essa história. Com toda razão, morto de cansado e aborrecido. Aborrecidos também estávamos nós, afinal, além de todo esse rolo, saiu do nosso bolso uma quantia bastante razoável justamente para a gente não se preocupar. No final das contas, Luiz conseguiu convencê-lo que era a melhor solução.

Estacionaram como deu (e vamos combinar que não era um caminhãozinho muito pequeno) e começaram a desembarcar as coisas. Mas lembra que eram só dois homens, né? A velocidade ficava meio comprometida. Por isso, Luiz e eu tratamos de por a mão na massa, porque era assim ou não era. Honestamente, eu nunca carrego nada pesado, até porque não dou conta mesmo, mas ajudo bastante na organização das caixas e móveis, afinal já tinha tudo programado, e também carrego coisas que sejam mais leves (cadeiras, mesinhas…). Luiz ajudou inclusive fisicamente, para apressar no que fosse possível. A gente não queria que passasse das 23h, hora do silêncio aqui, para não correr o risco de ninguém reclamar.

Claro que fazia um frio do caramba, choveu, um dos carregadores escorregou na escada da portaria, mas felizmente não se machucou. Passaram uns três carros de polícia pela nossa rua, e todas as vezes Luiz tinha um filho pela orelha, certo que era por nossa causa! Mas não era, eles mal olhavam para o caminhão, acho que tinham coisa mais importante para fazer.

Até um vizinho maluco resolveu bater boca com Luiz na entrada, eu achando que era por causa da mudança, mas não, era por uma besteira de correspondência. Parece que o cidadão é louco de tacar pedra mesmo. Mas imagina, a gente sabendo que estava completamente errado (por causa da mudança e não pela correspondência), é sempre um perrengue a mais. Acabou que ele não fez denúncia nenhuma e não perturbou mais do que meia dúzia de bobagens que falou enquanto atirava umas cartas no Luiz. Coisa de filme pastelão surreal! Naquele dia, Luiz não queria criar caso, afinal, estávamos no meio dessa confusão que estou contando. Mas já tenho minha estratégia se o maluco vier para o meu lado no futuro, vou dar uma de louca também e começar a berrar com ele em português!

Às 22h30, a última caixa entrou em casa! Nem acreditei! Parecia tudo nos conformes, coisa que constatei nos dias seguintes.

Agradecemos aos dois, demos uma gorjeta que eles nem esperavam, mas vamos combinar que mereceram. E eles também pareciam agradecidos porque não esperavam que fôssemos realmente ajudar tanto na bendita operação descarregamento! Tudo bem, quando acaba bem.

Luiz, será que conseguimos comer alguma coisa essa hora? Ele disse que nem estava com fome. Também não estava, mas sabia que era só pela adrenalina, em poucos minutos meu estômago daria voltas! Voamos para o restaurante tailandês da esquina, o único que tem comida até às 23h, e ainda conseguimos algo comestível e honesto para essa noite.

Fui dormir exausta, com cara de acabada e meio desesperada pensando como conseguiria arrumar aquilo tudo dentro de casa! Era até difícil acreditar que estava feliz, e juro que estava. Saber que nossas coisas estavam sob nosso teto e dormiríamos na nossa cama era tudo de melhor!

E fim dessa novela mexicana!

Os lados bom e mau da mudança

Passados os primeiros micos, vamos tentando entrar em alguma rotina. Ainda é complicado, porque seguimos em um apartamento sem móveis e com mil pequenos detalhes para resolver.

Mudar de país, ou melhor, mudar até só de cidade, implica em recomeçar absolutamente tudo! Emprego e casa para morar é só o básico e mais urgente, digamos assim. Tem que abrir conta em banco, se registrar no governo para ter direito a atendimento médico, pedir telefone, internet, televisão, mudar todas as contas de nome… e encerrar todos os ítens acima no anterior endereço.

Boa parte dessas atividades é Luiz quem faz. Tento ajudar em alguma coisa, mas é complicado quando você dispõe apenas de um celular pré-pago e conexão de internet em um ipad no café da esquina. Além do que, o contrato de trabalho está no nome dele. Apesar que, quanto a isso, aqui parece ser mais simples. O fato de chegar com uma cidadania européia nos abriu muitas portas, mais para mim do que para ele, que de certa forma, não tinha seus direitos tão limitados.

Cabe a mim fazer a casa começar a funcionar com o que dispomos. Porque também é importante descobrir como é o comércio local, o que comprar onde, opções de lazer pelas redondezas, iniciar uma vida social… tudo isso conta também e dá mais trabalho do que parece.

E se esse conjunto de atividades pode ser bastante complicado quando você muda de vizinhança, imagina quando muda de país? Porque você tem que descobrir como funciona coisas que todos em volta tomam por certo que você já sabe!

Pois eu não sei. A maioria delas não sei nem por onde começar! Depois, tudo parece óbvio, mas esse primeiro momento de como-é-que-faço-isso me suga energias! Vivo no paradoxo de achar que deveria me envolver mais e ajudar mais e na vontade de sair correndo e só voltar com tudo resolvido! Francamente, por mais que me encante ser um espírito independente, quando Luiz chega e diz que resolveu qualquer um desses pepinos sozinho, amo de paixão e agradeço do fundo da alma!

Assim que não estou me queixando em mudar. Quem me conhece um pouquinho entende que não saberia viver de outra forma, simplesmente, estou colocando as coisas sob uma perspectiva realista. Uma mudança não é feita em um só passo, são várias etapas. E aviso que esse comecinho é um pé no saco! Esquece o glamour! Quem te faz parecer que é tudo uma delícia, ou se esqueceu dessa chatice inicial, ou é muito rico e tem quem faça, ou é pura historinha.

Mas depois sim, pode e costuma ser bacana. Sabendo disso, procuro pensar que esse caos inicial vai se assentar e a vida vai melhorar. Sigo acreditando que o bom humor pode ajudar muito. E, tanto Luiz como eu, tentamos intercalar esses momentos de chatice com atividades mais agradáveis. Porque não adianta esperar tudo ficar perfeito para começar a sair e se divertir, esse momento não existe. Se há alguma brecha entre um furacão e outro para tomar nosso vinho, dar uma volta ou encontrar com amigos, a gente aproveita.

Fim de semana passado, tínhamos programação para todos os dias entre sexta e domingo. Fiquei toda animada. Acabou que Luiz não passou muito bem, teve que entrar no antibiótico e cancelamos a ida a uma festa baiana na sexta e sair com um casal de ingleses no sábado. Nada grave, mas vai entrando nessa lista de pepinos do dia para solucinar.

Juro que chegou o momento que comecei a acordar pensando: caraca, qual será a encrenca de hoje? Desanimei. Mas foi amenizando e, paralelamente, as coisas realmente pareceram melhorar, comecei a ver alguma luz no fim do túnel.

Tirei um dia na semana para sair e aproveitar a cidade. Não quis nem saber se tinha ou não tinha alguma coisa para resolver, porque sempre tem. Um amigo nosso brasileiro que mora aqui, o mesmo que tem nos ajudado nesse comecinho de mudança, namora uma argentino-paraguaia que vive nos EUA. Para quem acha que uma pontezinha aérea é complicada, aviso que eles fazem a ponte transatlântica! Ela veio encontrá-lo em Londres, mas durante o dia ele trabalha. Pensei, ela vai ficar entediada esperando ele em casa ou vai sair sozinha, vou chamar ela para sair comigo e assim nos fazemos companhia.

Ando me especializando em “blind dates”! É engraçado você combinar qualquer coisa com alguém que nunca viu na vida, mas faço isso direto! Normalmente, tenho algum contato pela internet, mas nesse caso, nem isso! Só sabia que era a namorada do meu amigo. E quer saber, foi ótimo! Achei ela bem legal e passeamos o dia todo. Fomos a Piccadilly Circus bater perna e de lá fomos a Tate Modern.

Final do dia, estava de humor bem melhor.

Luiz foi melhorando, que era o mais importante, afinal sem saúde a gente não é nada! Seguia no antibiótico, sem beber, mas animava de sair durante o dia para algo mais tranquilo. No sábado, fomos ao Borough Market e, inclusive, acabamos encontrando o casal transatlântico por lá. Qualquer dia, escreverei um post inteirinho só sobre o Borough Market, como indica o nome, um mercado. Tem mil comidinhas para comprar e levar ou comer ali mesmo. Nós optamos por sentar em um bar de ostras muito bom, o Wright Brothers, que inclusive quero voltar com mais calma. Também compramos queijinhos, azeite trufado, salames e outras delícias.

Domingo, com Luiz já melhor, jantamos na casa de um casal de novos amigos. Ela é brasileira e ele neo-zelandês. Foi mais um casal, uma brasileira (que conhecíamos desde Madri) e ele italiano, Luiz e eu. Estávamos em uma mesa bem internacional! O chef responsável foi o amigo neo-zelandês, que preparou um belíssimo cordeiro suculento e cozido à perfeição, com vinhos de sua origem. Papo ótimo e bom para fechar a noite com melhor astral.

Essa semana promete, nossa mudança deve chegar hoje (isola!). Voltando um pouco no tempo e dentro da linha dos pepinos, na quinta-feira passada nós descobrimos que nossa mudança chegaria na terça-feira seguinte, hoje, o que achamos uma maravilha. Mas como tudo tem sempre uma encrenca, descobrimos também que a mocinha que nos atendeu não fez nenhuma reserva para estacionar o caminhão em frente a nossa casa.

Porque na Europa, pelo menos em Madri e sabemos agora que igualmente em Londres, você pode reservar as vagas para o caminhão diante da sua casa no dia da mudança. Entretanto, isso costuma ser pago e é necessário reservar com antecedência. Em Madri, essa permissão pode sair em um dia ou em um mês, dependendo da região. No centro, onde precisa se parar a rua, pode levar um mês.

No dia que descobrimos que a indivídua não fez a reserva para a gente, Luiz achou um website, onde se explicava esse procedimento, dizendo que aqui na zona onde moramos a autorização leva 10 dias para sair. Ou seja, já não dava mais tempo!

E por que ela não fez a bendita reserva? Porque não fala inglês. Dizem que fazem mudanças na Europa, me cobraram o preço de um olho, e não tem ninguém no escritório que fale a bosta do inglês! Assim que ela se fez de desentendida e enviou a mudança sem pedir autorização nenhuma, contando que a gente se viraria. Legal, né?

Enfim, “tô paganu” e não quero nem saber, eles que se virem! E se tiver multa, problema deles também! Não me custa tentar ajudar, afinal, tenho todo interesse do mundo que meus móveis cheguem sãos e salvos, e tenho um plano B de onde imagino que eles possam estacionar. Também avisamos que hora a fiscalização vai embora, se quiserem evitar uma multa. Já descobriremos o rolo que vai dar!

A irmã do Luiz passa por Londres entre hoje e amanhã. E meu irmão chega com a noiva nesse sábado para passar uns 10 dias conosco. Ou seja, que apesar de meio histérica com a mudança chegando, estou empolgada com nossos visitantes.

No sábado, temos reserva para um baile de carnaval no Guanabara. Nossa mesa foi crescendo e, como independente de onde seja, me divirto com a companhia de gente boa, estou animada com isso também. Aliás, na linha dos “blind dates”, vou encontrar uma amiga-leitora do blog e o marido por lá. Família, amigos antigos, novos amigos, amigos virtuais… a noite promete!

Enfim, deixa eu tomar um cházinho, meu novo costume local, e esperar a bendita mudança chegar, coisa que não tenho idéia de que horas será, mas imagino que seja no fim da tarde.

Saúde para todos nós e o resto a gente dá um jeito!

Mudança, micos e afins

A última semana em Madri, arrumando a mudança foi razoavelmente tranquila. As sensações eram ambíguas, vontade de ir, vontade de ficar, euforia e cansaço. Fiquei um pouco ilhada em casa, mas havia muito o que fazer. Mais para o fim da semana tive companhia para sair e no sábado chegou Luiz dos Estados Unidos para ajudar na mudança, que sairía na segunda-feira.

A verdade é que ele chegou absolutamente insuportável! Chato, ranzinza, mal humorado… e juro que tive vontade de mandá-lo logo para Londres e que me deixasse fazer a mudança sossegada! Mas tudo bem, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença… nos dias melhores e nos piores, fazer o que? Eu também não devia estar exatamente uma lady.

Sorte termos uma festa para ir o próprio sábado, o aniversário de uma amiga e temos vários amigos em comum. Acabou nos funcionando indiretamente como uma despedida e deu uma aliviada no peso de ir embora.

Na segunda-feira, cedinho, chegou o pessoal da equipe de mudança. Já conhecia todos pelo nome! O bom foi que, devido a confiança, já tinha umas vinte caixas fechadas, obviamente com nossas cachaças misturadas às roupas e lençóis, umas 40 garrafas! Não é ilegal transportar bebida, mas podem encher o saco, porque teoricamente seria necessário tributar a um custo absurdo. E vamos combinar, não sou comerciante, no nosso caso, elas realmente são para consumo próprio e dos amigos, é claro! O responsável pela mudança deu aquela olhada por cima das caixas e disse, estão bem embaladas, não precisamos refazer, só passou a fita em volta e levou como estavam.

Enfim, não foi uma mudança complicada, estava tudo mais ou menos adiantado e preparado para partir, afinal, ali só havia profissional no assunto, né? Assim que por volta das 13h, o caminhão partiu.

Infelizmente, não partiu diretamente para Londres. Faltavam ainda algumas autorizações, o que acabou atrasando essa saída umas duas semanas. Os móveis foram para o guarda-móveis da empresa aguardar a documentação. Mas nós pudemos liberar e entregar o apartamento de Madri, no dia 21 de janeiro.

Nossa passagem estava marcada para às 21h do mesmo dia. Tentamos adiantar o vôo para não chegarmos tão tarde, mas o custo dessa alteração seria astronômico. Daí decidimos relaxar, fomos almoçar no nosso restaurante favorito, o El Fogón de Trifón e, na sequência, fomos fazer hora na casa de uma amiga que mora pelo centro da cidade.

De lá fomos para o aeroporto, devolvemos o carro alugado e o avião saiu pontual. Admito que ia meio surumbática, não foi muito simples deixar Madri, é uma confusão de sentimentos, queria ir, mas um lado meu queria ficar também. Talvez fosse mais fácil se estivesse indo ao Brasil, não sei. Sei que sempre quero mais, queria todas as vidas ao mesmo tempo, universos paralelos.

Pelas 22h, uma hora menos em Londres, aterrizamos. Um motorista indiano foi nos buscar. Aparentemente, a assistente do Luiz fez uma reserva para que o carro buscasse duas pessoas com bagagem de mão. Nós tínhamos, além das duas bagagens de mão, mais quatro malas! Não sei na cabeça de quem alguém se muda com bagagem de mão, mas enfim, o indiano reclamava que o preço estava errado. Levamos um tempo para entender, me desculpei, expliquei a história e pela terceira vez que ele disse que o preço estava errado, perguntei: perfeitamente, e qual é o preço certo? Porque não ia entrar em um carro de um sujeito que não conheço, para no final da corrida ele me meter a faca, figurada ou literalmente.

Daí ele recuou e disse que não ia mudar o preço, que já estava certo. Pensei, então por que você está me pentelhando? Mas a partir disso ele não reclamou mais. Na hora de pagar, Luiz havia decidido dar uma arredondada para cima, foi quando descobrimos que a corrida já estava paga e ele foi honesto a ponto de não nos cobrar uma segunda vez. Ou seja, ele não estava querendo nos enganar, foi um mal entendido mesmo. E aprendemos que, ao fazer a reserva de um mini cab, é importante definir o número de malas levadas!

Muito bem, como chegamos tarde, a imobiliária onde estava a chave do nosso apartamento estava fechada. Além do mais, o apartamento estava vazio e não pensávamos em dormir no chão. Reservamos um quarto o mais barato possível, simplesmente para dormirmos enquanto resolvíamos essa questão.

Por isso, fomos a um Easy Hotel (é da Easy Jet). Eles tem um conceito interessante de hotéis simples, baratos e bem localizados. O quarto é mínimo, cabe só a cama e pouco mais e tem um banheiro pequeno. Custa entre $25 e $40 por noite, o que para Londres é uma barganha! É limpo e só para dormir quebra bem o galho.

Pois é, mas lembra que tínhamos 4 malas razoáveis, 1 mala de mão e uma mochila! Imagina como ficamos no quarto? Entulhados!

Pensei, beleza, porque amanhã pela manhã pego a chave do nosso apartamento e quando Luiz chegar do trabalho, levamos essas malas para lá. Podemos só vir aqui para dormir, até comprarmos o sofá cama que entregam no mesmo dia.

Tudo controlado, né?

Só se fôssemos outras pessoas, porque desde quando a gente consegue seguir o plano A até o final?

Na manhã seguinte, estava terminando de me arrumar para buscar a chave do apartamento, toca meu telefone, era Luiz, tenho que ir para Alemanha agora, vou dar uma passada aí no hotel só para pegar uma roupa.

O que vou dizer? Não, você não vai! Se ele tem que ir, tem que ir, ué!

Esperei com aquela cara de nádegas, caraca o que faço eu agora com 5 malas? Nem que eu queira tenho braço para subir a escadaria (claro que não tinha elevador) com tudo sozinha. Nessas horas, odeio ser o sexo “frágil”!

Bom, vamos uma coisa de cada vez. O pior que pode passar é ter que dormir sozinha aqui nesse hotel entulhada outra noite. Fazer o que?

Encontrei com ele que entrou esbaforido no micro quarto, colocou uma camisa e um pijama na mochila e saiu do mesmo jeito.

Saí em seguinda, em direção à imobiliária. Porque até esse momento, tudo parecia ir bem, mas não tinha em mãos nem a chave do apartamento, nem o contrato assinado pelo proprietário. E se não estivesse tudo certo? A simples possibilidade me gelava a espinha.

Encurtando o suspense, estava tudo certo. Peguei a chave, o contrato e fui para minha casa nova. Meu humor voltou a melhorar, gosto do nosso novo apartamento, nada é perfeito, mas acho que podemos ser felizes aqui. Bom, podemos ser felizes em qualquer lugar, mas em uns mais do que em outros.

A questão é que depois de pegar a chave, me parecia ridículo dormir em um quartículo de hotelzinho, quando tinha a minha disposição e já pago todo um apartamento. E melhor, o apartamento estava mais limpo do que esperava!

Quer saber, meu mal é fome! Tudo isso havia acontecido e eu estava ainda em jejum. Porque só ficaria tranquila com a chave na mão.

Fui para um café simpático da vizinhança, o Café Roma, que mais tarde se tornaria meu quartel general de internet, comi com calma, conectei no wi-fi gratuito para clientes e comecei a raciocinar melhor. Aproveitei, escrevi para um amigo português, perguntando se ele não teria um colchão para me emprestar.

Com as idéias mais claras, saí de lá decidida, vou mudar hoje nem que a vaca tussa!

Voltei ao hotel, minha mala eu aguentava. A mala que tinha roupa de cama, toalha e um edredon era a mais pesada, porque trazia outras coisas também. Então, esvaziei uma mala menor do Luiz, tudo por cima da cama, é lógico, e usei a mala dele para guardar o essencial. Com essas duas malas, eu podia. Peguei um taxi e trouxe para o apartamento.

Montei o edredon no chão, como se fosse um colchão, além do carpete novo que era fofinho. O forro do edredon virou minha coberta. Achei que se me colocasse bem perto da calefação, podia funcionar. Beleza, é aqui mesmo que fico!

Mas no hotel ainda estavam uma máquina fotográfica e jóias. Não me pareceu razoável deixar isso por lá. Voltei com a mala do Luiz vazia, dessa vez de metrô. No quarto, voltei a arrumar a mala dele outra vez. Peguei minha mala de mão, coloquei a máquina fotográfica, as jóias e o vinho mais caro que veio na bagagem, um Vega Sicilia. E novamente, pela terceira vez no dia, vim para o apartamento.

Dizem que faz frio em Londres, mas para ser sincera, com esse para lá e para cá, eu já suava em bicas! De frio, nada!

Fui no comércio local comprar o essencial para sobrevivência, papel higiênico, água, suco de laranja para o café da manhã, pão e requeijão. Vale comentar que, se em Madri o pequeno comércio é controlado pelos chineses, “chinos” como dizemos ali, aqui em Londres me parece que são os árabes ou indianos. Perto da minha casa tem umas quatro lojinhas, todas de árabes. Desconfio que são família, qualquer dia escrevo sobre isso.

Enfim, deixei tudo em casa, tomei meu primeiro banho quentinho e marquei meu território!

Foi engraçado quando fui beber água e não conseguia abrir a garrafa. Sempre peço esse tipo de coisa ao Luiz ou uso um tipo de abridor de potes que temos em casa. Fiquei rindo sozinha, isso Bianca, tão independente, se virando em outro país, fazendo na marra uma mudança improvisada… e incapaz de abrir uma bosta de uma garrafa de água! Ao final, consegui, era uma questão de orgulho, né? (e também de prestar atenção que havia um lacre nada difícil de ser aberto)

Nisso já era noite, não sei exatamente que horas porque aqui escurece bem cedo.

Pensei, já que vou encarar esse chão, melhor me preparar psicológicamente. Fui para o pub da esquina, The Elgin, onde teria wi-fi e álcool!

Apesar de ter passado por altos e baixos no dia, e ainda sem saber que essa oscilação seguiria pela semana, só de pensar que dormiria na minha casinha, me sentia melhor e até bem animada.

Pedi meu vinho, alguns aperitivos e abri meu ipad para ver como andava o mundo.

Nisso, liga meu amigo português que vive por essas bandas, o mesmo que escrevi de manhã, perguntando se tinha um colchão para emprestar. Ele tinha! A única coisa é que estava saindo para a Ópera naquela hora. Sem problemas, para hoje estou tranquila. Mas para o dia seguinte seria ótimo, porque Luiz não ia querer dormir no chão e estava sem vontade de voltar para nosso mini quarto de hotel (verdade que agora menos apertado de malas). Combinamos de almoçar na terça e ele traria o colchão para mim. Fantástico!

Outro amigo ligou, perguntando se precisava de alguma coisa, mas estava com tudo encaminhado. Combinamos de ir ao Ikea na quinta-feira, já com Luiz na cidade. É que ele tem carro e tem nos quebrado o maior galho nesse comecinho de mudança.

Falei com Luiz também, na Alemanha, parecia de melhor humor, talvez porque soubesse que as coisas estavam caminhando tanto aqui, quanto em seu trabalho. Ele jantaria com clientes e me ligaria no fim da noite.

Depois fiquei papagaiando pelas redes sociais e é engraçado como levei algum tempo para cair a ficha que era uma mulher sozinha em um pub, em um novo país. Porque me sentia acompanhada e absolutamente à vontade tomando meu vinho.

Pela terceira ou quarta taça, achei que estava de bom tamanho. Não sei se pelo vinho ou pelo cansaço do dia, me entrava um pouco de sono. Aliás, essa é uma coisa que notei aqui, provavelmente pela luz ou ausência dela, tenho mais sono. Para algumas pessoas, isso pode ser um problema, mas para mim que durmo mal, é bastante bem vindo. Principalmente, naquela noite.

Voltei para casa, encarei o chão, mas honestamente, não era tão ruim. Nem custei muito a cochilar. Pelas tantas, já passava da meia noite, ligou Luiz, tinha acabado seu jantar. Devia estar mortinho, coitado! Mas estava satisfeito com o clima de camaradagem e a empatia que rolou com os novos clientes. Beleza!

Fiquei naquela preguiça até o sono voltar outra vez e pensei: essa noite está bem melhor para o que me preparei!

Para que? Lei de Murphy total! Pelas duas ou três da matina, acordo com um tipo de apito! Hein? Que isso? É aqui dentro? É lá fora?

Se ouvia um apito, parava uns dois minutos e outra vez… apitava, parava uns dois minutos… outra vez! Taquiupariu, eu mereço!

Levantei e saí pela casa procurando, comecei pela cozinha e não achava nada. Quando passo pelo corredor, a porcaria apita sobre minha cabeça! Era o alarme de incêndio, um tipo de detector de fumaça que havia enlouquecido! Não soava tão alto nem continuamente, parecia estar com a bateria fraca, sei lá! Só sei que era torturante e ficou impossível dormir.

Por que não tentei desarmá-lo? Porque o infeliz ficava sobre um pé direito altíssimo e lembra que não tinha nenhum móvel em casa? Pois é… Depois de pensar um pouco até lembrei que poderia usar um pedaço de um cabideiro solto no armário embutido. A questão é que não tinha certeza que se apertasse um tal botão vermelho aquela porcaria se desarmaria ou desataria a apitar mais forte. Daí não só eu não dormiria, como sacanearia toda a vizinhança! Ou seja, bela maneira de fazer amizades no novo edifício, né?

Optei por entubar e escutei aquela bosta a noite inteira. Liguei o ipad com música no meu ouvido. Amenizava o ruído, mas também não me deixava dormir.

Quando deu um horário razoável, levantei para me arrumar e esperar meu amigo português.

Juro por qualquer coisa, na hora que resolvi levantar e passei no corredor para entender como devia funcionar a merda do alarme, acredita que ele parou de soar?

Eu devo ter tacado pedra na cruz!

Liga meu amigo português, avisando que não sabia, mas o marido havia emprestado o colchão para a irmã. Ui, e agora? Nada, sem problemas, ele podia buscar mais tarde, assim que a irmã voltasse do trabalho. Almoçamos assim mesmo? Claro!

Assim, recebi minha primeira visita! Mal ele entrou, a porta tocou novamente. Era o zelador do edifício. Simpático e doido para conversar. Feliz da vida que a obra no meu apartamento havia acabado, afinal, significava menos sujeira para ele limpar no corredor. Me mostrou o contador de luz, para que eu não precisasse pagar uma energia que não havia consumido e me avisou que, se eu quisesse, era só deixar o lixo pela manhã até as 10h, ao lado da porta, que ele recolhia. Nem acreditei! Achei que tivesse entendido errado! Sorte meu amigo estar comigo e confirmar, não foi isso mesmo, pode deixar o lixo fora que ele leva! Notícia que me fez cair de amores por estar morando aqui!

Quando comecei a mostrar o apartamento, adivinha o que começou a apitar? Ah, danado, mas agora é dia e estou acompanhada! Peguei o pedaço de pau do armário e escalei uma janela que ficava em frente, afinal, agora podia me apoiar no amigo visitante. Mas não parou. Acho que não apertei com vontade, mas quer saber, que se dane esse alarme, vamos para a rua e o caos que se encarregue! Agora já sei que se apertar o tal do botão vermelho, não dispara o bicho!

Fomos tomar um lanche e colocar o papo em ordem, era seu dia de folga, assim que estava tranquilo. Devidamente alimentados, me perguntou, quer tomar um vinho? Ele estava fazendo hora para voltar para casa e buscar o tal colchão na casa da cunhada (são vizinhos) que chegaria pelas 18h. Pensei, não vou fazer ele voltar aqui carregando um colchão para mim, também é abuso, né?

Peraí, vamos nos organizar! A única coisa que preciso fazer hoje é deixar minha chave no hotel onde dormimos a primeira noite. Porque a idéia era Luiz passar lá na volta do aeroporto e aproveitar o taxi para trazer o restante das malas para nossa casa. Havia perguntado a ele se queria que estivesse junto, mas ele disse que não precisava, porque chegaria tarde e não tinha certeza da hora.

Então, fazemos assim, passamos no hotel, que era perto, deixo a chave e pego uma das garrafas de vinho que trouxemos. Assim, garanto que tomaremos um vinho excelente e ainda diminuo o peso que Luiz carregará!

Fomos para casa do meu amigo português e ficamos conversando e tomando vinho bom, enquanto a cunhada não chegava. Na hora marcada, fomos até lá, buscamos o colchão inflável, que sim, era um pouco pesado para eu carregar sozinha muito tempo. Daí, como ele tinha que sair e viria na minha direção, pegamos a sacola e o metrô juntos. Mas ele saltava uma estação antes e eu não faria ele vir aqui outra vez. Deixa comigo, me viro, você já me ajudou bastante! O metrô é perto de casa, não terei que andar tanto. Se você diz… mas me manda uma mensagem quando chegar, para eu ficar tranquilo.

Subi a escadaria do metrô parecendo uma sacoleira e a bolsa parecia ficar mais pesada. Quer saber, a elegância que se dane! Mico, mico e meio! Apoiei o sacolão no ombro, no melhor estilo estivadora, e fui equilibrando entre o braço e a cabeça até a portaria. Que glamour é a vida européia!

Montei o colchão, mais confortável do que esperava, porque era alto e ficava como uma cama. Comparado ao edredon fino que havia dormido a noite passada, todo um luxo! Escrevi para meu amigo: sã, salva e com cama para dormir!

O alarme voltou a dar sinal de vida! Dessa vez, apertei o botão vermelho com vontade, acho que o próximo passo seria dar uma cacetada naquela porcaria e jogar longe! Fez um barulho mais forte e, ou adivinhando que seria eliminado ou porque finalmente fiz direito, parou de perturbar.

Luiz acabou chegando mais cedo do que pensava. Fiquei de olho na janela para ajudá-lo a saltar do taxi com o restante das malas. Dessa vez, estava bonzinho e carinhoso, sem as rabujices da semana anterior. Que alívio!

Lá fomos nós para o pub, comer alguma coisa, tomar um vinhozinho e conectar na internet.

Dia seguinte, quinta-feira, havíamos marcado de ir com um amigo ao Ikea, lembra? A única coisa é que havia decidido não comprar o sofá cama e sim um colchão inflável mesmo. Ainda precisaríamos de uma mesinha para computador, duas cadeiras baratas dobráveis e alguns cabides para quebrar um galho antes da mudança chegar. Mas isso seria só no fim da tarde.

Fui para o Café conectar e vi fotos de um evento gastronômico em Madri. Aconteceu exatamente na semana que me mudei para cá e, se não houvesse sido assim, teria a chance de participar. Indiquei gente que participou. Fiquei feliz por eles, mas triste por haver perdido a oportunidade. Essa sensação que conheço bem de morrer na praia, de quando começo a me estruturar para algo, simplesmente me vou. Meu humor não estava dos melhores.

Durante o dia, fiquei resolvendo coisas de casa, limpeza, compras básicas… Tento abrir as janelas, nada! Tento abrir a porta dos fundos, nada! Tudo grudado! Até que resolvi lavar a roupa, aqui temos máquina de lavar e secar. Geralmente, não gosto tanto de máquina de secar, mas em Londres, muito húmido, é bastante útil.

Ligo a máquina de lavar e cadê que sai água? Achei uma válvula que parecia a entrada de água, mas não consegui virar a chave para confirmar.

Caraca, mas vai ser assim todos os dias? Fico esperando qual vai ser a encrenca de hoje? Que saco! O que estou fazendo aqui? Tudo outra vez… foi apenas um momento, mas me senti só, cansada e um pouco triste.

Liga Luiz que está chegando e nosso amigo chegando também. Terminei de me arrumar e sentei na bancada da janela, afinal não tínhamos cadeira, para esperar.

Luiz entra em casa com um novo colchão inflável, começa a trocar de roupa rápido. Avisei que o problema do dia era a máquina de lavar roupa que não tem água. Ele não dá muita atenção e pergunta se é só isso. Não, não é só isso, as janelas não abrem, a porta dos fundos não abre, o radiador vaza quando fecha, a máquina de lavar não lava, a mudança não dá sinal de vida… quer a lista?

Ele respondeu que são coisas normais que iam acontecer. Voltei a sentar na bancada da janela calada e apenas pensei, normal para você que passa o dia na rua e chega à noite achando que os pepinos se resolvem sozinhos. Por acaso quando você chega preocupado eu digo que não há motivo porque seu trabalho é besteira?

Veio ele me perguntar, mas você já está puta com o apartamento? Acho que não era intencional, mas o tom era de cobrança e eu já havia chegado ao meu limite de paciência! O que ele esperava, que ficasse pulando de alegria feito uma maluca em volta dele? Casou com a Pollyana? Estourei e já com vontade de chorar. O que você quer que eu faça? Onde você quer que eu sente? Onde você quer que eu espere? Não tem uma merda de um móvel nessa casa, só posso ficar aqui! Não me enche! Me deixa em paz!

Ele me olhou com expressão arregalada de interrogação masculina, aquela do “Ih, apertei o botão errado!”. Me abraçou, pediu desculpas e disse que não queria brigar. Sábia decisão de homem casado. Também não estava afim de brigar, só queria um pouco de sossego.

Chegou nosso amigo, da carona ao Ikea. Amenizou um pouco o clima e começamos a mostrar o apartamento. Chegamos onde ficam as máquinas de lavar e mostrei ao Luiz onde achei que era a válvula que não consegui abrir. Claro que ele conseguiu! Já fiquei mais feliz e, consequentemente, ele também.

Bem em frente, fica à porta dos fundos que não abria. Na verdade, não é uma porta de saída, mas dá para uma pequena bancada externa, onde posso guardar algumas tranqueiras que não me caibam.

Os dois machos se interessaram pelo tema, principalmente Luiz, que só faltou quebrar o ombro, mas finalmente, conseguiu arrombar a tal porta, grudada pela tinta e sabe-se lá mais o que! A sensação que tive era que ele seria capaz de se rasgar todo mas ia abrir a tal da porta, em plano herói da mocinha em perigo!

Quer saber, achei lindo! As feministas que me perdoem, mas amo ter homem em casa! Principalmente, um que tem força para abrir coisas e se alegra em me exibir seus dotes!

Com o humor bastante melhor, saímos todos em direção ao Ikea. Compramos o que precisava, deixamos em casa e fomos ao pub jantar juntos.

Nosso amigo estava um pouco na dúvida, porque não queria jantar sem beber, nem beber e dirigir depois. Olha, Luiz acabou de trazer um outro colchão inflável para casa, só não temos roupa de cama. Ele pareceu pouco se importar, na verdade, pareceu nem se importar de dormir no chão mesmo, desde que estivesse liberado para aproveitar o jantar tranquilo.

Pelas 23h, voltamos para casa. Para mim, parecia ser no meio da madrugada!

Lá fomos nós encher o segundo colchão inflável. Pequeno detalhe, descobrimos que a bomba enchedora levava 24h para carregar! Ups! Mas… poderia ser inflado desde o isqueiro de um automóvel. Hein? Mas isso não faz o menor sentido! Pensamos nosso amigo e eu.

Bom, mas Luiz insistiu que era o que estava escrito. Então, se não há outra alternativa, vamos ao próximo mico!

Fomos para o meio da rua, com o colchão na cabeça, porque claro que não queria que ele tocasse no chão, e ligamos o tal motorzinho no carro do nosso amigo. Não é que funcionou? Fora o vexame de inflar e carregar um colchão pela rua à noite, deu tudo certo! Tiramos até foto!

E nessa noite, sem móveis na casa, além de dois colchões infláveis, um deles emprestado, tivemos nosso primeiro hóspede!

No sábado, menos de uma semana que morávamos na cidade, mais uma estreia. Um casal de amigos de Madri visitava a cidade e combinamos de nos encontrar. Foi legal e um pouco surrealista, como um deslocamento de tempo e espaço. E bom também para me lembrar que o mundo segue pequeno e as distâncias podem ser menores se nos empenhamos.

E nessa noite, tivemos nossa primeira visita internacional!

Faltou contar mais um detalhe das encrencas de começar na casa nova. Havia no apartamento algumas tranqueiras velhas, panelas, multiprocessador, cafeteira… muito sujos e tenho tudo dobrado, além de poucos armários e falta de espaço. Ou seja, já havia pedido duas vezes que fosse retirado. Na segunda vez, a corretora me indicou que guardasse em uma caixa de plástico no balcão de fora da cozinha. Ou seja, guardar lixo em casa em um espaço útil para mim. Hã-ham… pode deixar comigo!

Já havia separado tudo para jogar fora, quando recebemos um inventário detalhadíssimo sobre o que constava no imóvel, e incluía as velharias. Sendo que afirmava que não haviam sido testadas. Ah, é? Esse é o sistema? Então, jogamos com o sistema.

Passei ítem por ítem do inventário, fazendo observações tão detalhadas quanto. Mesmo o que estava disposta a conviver, deixei bastante claro que existia e que estava fazendo uma concessão.

Em respeito às janelas que não abriam, escrevi que me preocupava por não ser seguro nem saudável. O que em outras palavras é o mesmo de dizer que se houver algum acidente (isola), eles seriam responsabilizados. Americanos e ingleses tem um medo que se pelam disso!

No caso das velharias, não disse mais que não queria, disse que não estavam adequadas ao uso e se quisessem, poderiam checar, levar eles mesmos ou poderia gentilmente jogar no lixo. Como constava em inventário, se disse que não estava adequado ao uso, eles teriam que repor por iguais objetos em boas condições e claro que não estavam afim de comprar e investir em algo que eu nem precisava. Portanto, dessa vez não houve nenhum problema que eu me disfizesse do assunto.

Se foi pela metodologia utilizada ou por simples boa vontade do proprietário, nunca vou saber, mas sei que resolveu.

E vamos ao próximo mico, que é o último que contarei nessa tacada!

Acordo pela manhã, estou tomando meu café e toca o interfone. O interfone aqui faz um esporro impossível de ser ignorado!

Se identificou um rapazinho para medir o gás e luz. Abri a portaria, achando que seria do lado de fora, mas ele tocou na minha porta.

Vou eu atender, mas lembra que tinha acabado de acordar, né? Pois é, estava ainda meio descabelada e com pijama de vaquinha! E assim abri, tentando inutilmente me esconder um pouco atrás da porta.

Ele me diz que o medidor de luz era do lado de fora, mas que não estava achando o medidor de gás. Não seria na minha cozinha?

E eu, olha, acabei de mudar, não tenho idéia, mas espera que vou dar uma olhada. Fui na cozinha e não achei nada!

Voltei com o tal inventário que tinha uma foto do aparelho de gás. Falei para o indivíduo que não havia encontrado o medidor, mas tinha aquela foto. Ele olhou o valor, perguntou se eu usava muito o gás, quanto tempo havia mudado… acho que estava tentando calcular mais ou menos quanto poderia ser.

Mas ao mesmo tempo, como boa brazuca, poderia estar meio desconfiada de um estranho batendo à minha porta, dizendo que era leitor de energia e fazendo perguntas sobre nossos hábitos. Ele estava uniformizado, tinha um aparelho leitor na mão… enfim, parecia sério.

Pedi desculpas, disse que ia me informar, mas não poderia fazer muito mais. Ele foi educado e disse que tudo bem e iria verificar o contador de luz, do qual tinha a chave.

No que entro e com a imagem da foto que mostrei na memória, lembrei de uma caixa no banheiro que poderia ser, fui verificar e era!

Saio eu, com meu modelito bovino quitapasiones, atrás do indíviduo: achei! Bom, não dava mais para me esconder na porta, porque ele precisava entrar em casa.

Ele marcou o que constava no leitor de gás e se retirou rápido.

Pensei, beleza, se era um funcionário oficial, sua meta está cumprida. Se era algum ladrão, deve ter saído com a seguinte informação: cara, vamos assaltar outra casa, essa é esquisitíssima! Não tem móveis e a dona é uma louca que não sabe onde é nada e, ainda por cima, se veste de vaca!

O primeiro fim de semana foi inacreditavelmente de sol! Não um solaço, um solzinho tímido, mas suficiente para alegrar um pouco o espírito. Assim que começo a semana mais otimista e animada.

Um pepino aqui, um mico ali, mas vamos levando. Começos são complicados, mas também há sempre um lado instigante. E é inegável que há coisas bacanas.

O que tenho gostado mais é da diversidade de gente e sotaques pela rua. Quando a diferença é o padrão, com um mínimo de boa vontade, todos podem fazer parte. Não me sinto estrangeira quando falo, pelo menos por enquanto. Não me incomoda não falar perfeitamente, desde que me comunique. Não há nada em minha aparência capaz de chamar atenção, a não ser que eu mesma provoque. E toda essa mistura me faz sentir bem e com a confiança de que uma hora, o que quer que seja, vai dar certo.

A primeira semana em Londres

De turismo, não teve nada! Fomos com uma missão: arrumar um apartamento com urgência para morar no primeiro ano.

Não é simples achar um bom apartamento no centro de Londres, nem digo que por um bom preço, mas por algum preço possível de se pagar. E não basta só achar, você tem um tempo de negociação da proposta, uma parte burocrática até assinar o contrato… enfim, não é algo que se consiga fazer do dia para a noite.

Para complicar, nosso tempo era limitado. Chegávamos no dia 2 de janeiro, à noite e saíamos no dia 13, um domingo. Eu voltava para Madrid e Luiz seguia a trabalho para os EUA. Ou seja, nem adiantava eu ficar em Londres sozinha para agilizar nada, porque dependia do Luiz para assinar o contrato, apresentar comprovante de renda etc. Assim que tínhamos, no máximo, uma semana para fazer todo o processo.

O que fiz para ganhar tempo foi buscar uma série de opções por internet, além de pedir informação para os amigos. Os amigos ajudaram com dicas, mas às vezes ficavam sem graça de me dizer que determinado bairro era ruim ou desaconselhável, o que acho besteira. Nesse caso, realmente, preferia a sinceridade pura e dura para direcionar melhor os esforços.

Enfim, o bairro que achei que ia morar não nos agradou muito, mas havia um apartamento muito bom, que nos empolgou. Chegamos a fazer uma proposta, mas o proprietário relutava em baixar um pouco o preço. Acho que com mais tempo poderíamos haver conseguido, mas os corretores não são bestas e sacaram que tínhamos pressa.

Mas sei lá, houve um momento que empaquei e disse, não subo nem um centavo! Se tiver que perder, a gente perde. Ficou um clima meio chato entre a gente, acho que no fundo Luiz concordava comigo, mas estava preocupado em resolver logo. Quer saber, tinha alguma coisa que não estava agradando, nem a mim nem a ele, e acho que muito relacionado às redondezas do imóvel. Tem vezes que não é para ser e não era.

Ainda assim, a gente tentava à noite ir a algum bar e tomar um vinhozinho para relaxar. No dia que perdemos esse apartamento que contei, fomos a um pub onde o dono e a clientela eram quase todos russos (ou alguma nacionalidade parecida, como não falo o idioma, todos se parecem). O lugar é agradável e perto de onde estávamos hospedados, em Kilburn, chama-se Queens Arms. Era uma sexta-feira, tinha música ao vivo e estava bem cheio. A música era ótima! Até teria aproveitado mais, caso não estivesse com a cara embutida no meu ipad, buscando apartamentos como uma louca para visitar no sábado pela manhã. Depois vou querer voltar lá com mais calma.

Selecionei um monte de imóveis e Luiz ligava para tentar marcar visita. Entre esses, marcamos em uma imobiliária, em Maida Vale, para ver dois apartamentos. Vimos três, mas achamos pequenos. Conversando com a corretora, contamos do primeiro apartamento que quase fechamos negócio em Kilburn, mas estava um pouco acima do que queríamos pagar e tal.

Ela disse que, por aquele preço, havia um apartamento que acabara de entrar, mas estava terminando uma reforma e não haviam tirado fotos e anunciado ainda. Querem ver?

Macaco quer banana? Lógico!

Resumindo a ópera, foi justo esse apartamento que alugamos.

Mas não foi tão rápido, levamos toda semana para passar a documentação requisitada e assinar o contrato.

É assim, a primeira coisa que costumam te pedir é um valor, no nosso caso, referente a duas semanas de aluguel, para reservar o apartamento. Isso quer dizer que outros corretores da mesma imobiliária já não podem mais mostrar esse apartamento. Se o proprietário não concordar em assinar o contrato, te devolvem esse dinheiro. Se o negócio for fechado, entra como parte da fiança.

Quando você paga essa reserva, também preenche uma ficha para se candidatar ao apartamento. As perguntas são basicamente sobre sua documentação, fonte de renda e referências de antigos proprietários. Depois de preencher essa ficha, você deve enviar alguns documentos que comprovem o que disse.

Logo, há taxas de administração, como por exemplo para checarem se seus dados são verdadeiros (emprego e salário), se você tem algum problema de crédito e tal. Não é caríssimo, mas também não é barato, algo na ordem de grandeza de 200 libras e, acredite se quiser, pagos pelo potencial inquilino.

Se o proprietário te aprova, te enviam um contrato. Geralmente, é um contrato padrão e pode ter algumas cláusulas absurdas, como cuidar de um jardim que você nem tem, enfim, nesse caso, você simplesmente ignora porque não aplica.

Apenas no sábado seguinte, ou seja, uma semana após o dia que fizemos a proposta, conseguimos assinar o contrato. Entretanto, só nós assinamos, o proprietário ficou de assinar quase uma semana depois (que será amanhã). Mas entendemos que isso já está certo (espero!).

Daí, tivemos que pagar 3 meses como fiança e o valor do primeiro aluguel. Felizmente, não pedem que ninguém te assine como fiador.

Ainda bem que isso deu certo, porque caso contrário, estaríamos meio ferrados, pois no dia seguinte, embarquei eu para Madri e Luiz para Atlanta.

Vale dizer que Luiz começou a trabalhar já no dia 7 de janeiro. E não tínhamos o dia inteiro para resolver pepinos. Ele ainda precisou tirar o número da seguridade social, ou não teria salário, providenciar conta em banco, essas coisas. No meu caso, é possível esperar até estar morando de vez.

Durante todo esse processo, conseguimos encontrar um único amigo, na casa de quem inclusive ficamos hospedados nos últimos dias. Só no sábado, após fechar o contrato de aluguel, conseguimos uma pequena brecha para almoçar com mais duas amigas. Fomos a um pub simpático, chamado Eagle, em Clifton Road. Aliás, essa rua é bem legal, havia outras opções de restaurantes, talvez até melhores, mas estavam lotados. É perto do meu novo endereço e tem uma loja de flores show, que já fiquei de olho.

Cheguei a me comunicar virtualmente com antigos e novos amigos, aproveitei os dias que ficamos hospedados fora do centro e eu não tinha muito mais o que fazer do que esperar o contrato ser assinado. Mas um encontro mesmo, só na próxima ida a Londres.

Já temos um jantar, no início de fevereiro, marcado com uma das meninas que almoçaram conosco no sábado. A conheci pessoalmente naquele dia mesmo. Gosto de gente assim, que mal te conhece e chama para ir em casa, me identifiquei no ato!

Aos poucos, começo a pensar na minha vida na cidade. Normalmente, levo uns 15 minutos para me adaptar a um novo endereço, mas para isso, preciso de um ponto fixo, uma casa para visualizar. Daí tudo fica mais fácil.

Já comecei a imaginar um vaso enorme de flores brancas na mesa de centro, os primeiros hóspedes chegando, uma moqueca na nova cozinha, a festa de inauguração com Luiz agoniado porque convidei vários desconhecidos, a escova com a polonesa do salão de cabeleireiro perto do metrô, uma caminhada no parque próximo ainda que vá estar meio nublado, um capuccino descafeinado na esquina de onde poderei atualizar meu blog enquanto não tiver internet (e talvez depois que tiver também), o brunch com ovos beneditinos no italiano da rua de trás…

A festa de Ano Novo e despedida de Madri

Como andei dizendo em textos passados, bem no olho do furacão da mudança, decidi fazer uma festa.

 

Primeiro porque amo Ano Novo, é minha celebração favorita. Depois, porque acho que devíamos aos amigos um fechamento de ciclo recíproco e à altura. Nunca pretendi dizer adeus a ninguém, mas certamente a nossa vida muda e a deles também. Precisava desse ritual de passagem.

 

Assim que, apesar do momento ser um pouco estranho, acreditei que ia dar certo e planejei a festa como qualquer outra. O único detalhe é que nossa passagem para Londres estava marcada no dia 2 de janeiro. Por isso, teríamos apenas o dia primeiro para curar a ressaca, arrumar o apartamento e as malas. Um pouco cansativo, mas acho que valeu à pena.

 

Foi legal, a casa não estava lotada, muita gente viajou e Las Rozas não é o lugar mais fácil do mundo para transporte. Havia uma ordem de grandeza de pouco menos de 40 pessoas queridas, o que garantiu a animação.

 

Achei que podia rolar uma certa choradeira ou algum mico da minha parte, mas isso não aconteceu (ou não lembro!). Bebi, falei minhas besteiras, mas não exagerei nem fiquei deprimida. Aproveitei, curti e admito que bateu algo de nostalgia. No fundo, sabia que minha ficha ainda levaria um tempo para cair.

 

Celebramos, comemos, bebemos, cantamos, tocamos, soltamos fogos de artifício, brincamos… e quando me dei conta, já era quase de manhã. Acabei cansada e feliz.

 

A única perda foi que no fim da festa percebi que um dos meus brincos havia caído. Ainda que não seja muito apegada às coisas, adoro esses brincos. São feitos com peças de leques antigos de madrepérola, no passado os pais presenteavam as filhas quando se casavam. Uma prima do Luiz, que é designer de joias, comprou um lote desses leques e desenvolveu peças exclusivas. Ele quem me deu de presente. Mas enfim, um deles caiu e fiquei meio triste, com alguma esperança de encontrá-lo no dia seguinte.

 

Conto essa história porque é meio bobinha, mas com um fim inacreditável. Na manhã seguinte, Luiz quebrou meu galho e foi limpar a casa. Nisso, achou metade desse brinco, ou seja, ele se rompeu. Guardei apenas por uma questão afetiva, porque a probabilidade de achar a segunda metade era mínima. Ainda assim, busquei pela casa toda e nada.

 

Muito bem, viajamos para Londres e já contarei esse pedaço em outro momento. O que importa é que umas duas semanas depois estava de volta em casa, arrumando a mudança.

 

O tempo em Madri anda horroroso, ventando bastante. Por isso, um regador de plástico que tenho saiu passeando pelo corredor da varanda. Fiquei com preguiça de ir fora buscá-lo e ignorei o barulho chato que fazia às vezes.

 

Estava tratando de deixar o apartamento direito antes de entregá-lo. Tem coisas que não são minha obrigação, mas se posso colaborar, não me custa. Então, comecei a tapar todos os buracos de pregos que havia deixado pela casa, para o próximo inquilino encontrar tudo lisinho e ajeitar a seu gosto.

 

Em função disso, precisei buscar umas tintas que guardei do lado de fora, na varanda. E já que precisava sair mesmo, resolvi buscar o tal regador passeante, que inclusive já tinha rolado para mais longe.

 

Quando abaixo para pegar o regador, bem ao lado, no meio de umas pedrinhas, o que encontro?

 

Sim, a outra metade do meu brinco! Não acreditei! Provavelmente, caiu quando fomos ver os fogos de artifício que Luiz soltou no réveillon. Porque e como metade estava do lado de dentro e o resto do lado de fora, não tenho ideia!

 

Gostei de pensar que gentileza gera gentileza, mesmo quando a gente não imagine de onde venha. Se não tivesse me preocupado em deixar o apartamento melhor para o próximo morador, não teria buscado as tintas na varanda, não teria esperado o regador rolar até exatamente esse lugar, nem ido buscá-lo no justo momento que se encontrava ao lado do que procurei tanto.

 

Por causa dessa bobagem, me senti novamente protegida e tomei como um sinal de como devo me comportar esse ano. Quero ser mais gentil e acreditar nas pessoas. Por piegas que pareça.

 

Há alguns meses atrás, disse a mim mesma e aos meus amigos que a temporada de festas em casa havia se encerrado. Foi quando fui roubada embaixo do meu próprio teto por gente conhecida. Isso dói, porque faz você perder a crença nas pessoas e me deixou como mensageira da desconfiança alheia, o que é bastante feio.

 

Com o tempo, a poeira baixou e cheguei a conclusão que a culpa não era minha por confiar e sim de quem  não soube merecer essa confiança. E além do mais, seria muito injusto fazer gente querida e bacana se sentir mal por causa de um único idiota, seja quem for.

 

Quando surgiu o convite para mudar de Madri, refleti e voltei atrás na decisão de não receber as pessoas em casa. Não seria justo com ninguém. Sou o que sou, gosto de gente. E não me arrependi em abrir as portas novamente, porque assim é como deve ser, aqui ou em qualquer lugar.

 

Alguns dias depois, jantando e conversando com Luiz em Londres, ele me falava que ainda estava entendendo como funciona o preconceito no país. No sentido de se proteger ou de saber navegar nesse próximo mundo. Parei mais ou menos três segundos para pensar a respeito e simplesmente desisti. Quer saber, não me interessa! Ignorance is bliss (a ignorância é uma alegria).

 

Honestamente, não quero saber se terão ou não preconceito em relação a mim. Esse problema, por contraditório que pareça, não é meu, é de quem o levar. Continuarei tentando seguir meus princípios, me esforçando para ser gentil e dando um voto de confiança aos demais. Exatamente, o mesmo que quero que me concedam.

 

Posso estar mais atenta? Posso. Devo. Até por não querer ofender nem incomodar ninguém. Mas não quero me proteger de gente nem da vida.

 

Por tudo isso, assim comecei 2013, novo ano de portas e coração abertos.

 

Em algum momento, é bem provável que vá me machucar, tudo tem seu preço. Também posso machucar alguém, porque erro. Não sou santa e não tenho o privilégio de estar imune, mas realmente acredito que a couraça da gentileza e o acaso me protegerão. E que assim seja!

 

Começando pelo começo: procurar casa para morar em Londres!

Quem mais resolve mudar de país na época das festas de fim de ano? Fala sério, como diriam meus conterrâneos cariocas: tá de sacanagem comigo, aê!

Comecei a escrever essa história no dia 28 de dezembro, sem casa para morar em 2013. As imobiliárias todas de férias e com viagem marcada para Londres no dia 2 de janeiro. Menos mal que teremos até o fim de janeiro para tirar os móveis e liberar o apartamento de Madri. Mas dia 1º de fevereiro, tudo isso precisa estar resolvido e a mudança dentro do novo apartamento britânico!

Quem mais resolve mudar de país na época das festas de fim de ano? Fala sério, como diriam meus conterrâneos cariocas: tá de sacanagem comigo, aê!

Comecei a escrever essa história no dia 28 de dezembro, sem casa para morar em 2013. As imobiliárias todas de férias e com viagem marcada para Londres no dia 2 de janeiro. Menos mal que teremos até o fim de janeiro para tirar os móveis e liberar o apartamento de Madri. Mas dia 1º de fevereiro, tudo isso precisa estar resolvido e a mudança dentro do novo apartamento britânico!

Tudo bem, porque os ingleses são super flexíveis, né?

É assim, na nossa vida a gente não pode respeitar os prazos normais que as atividades necessitam. É ao contrário, a gente tem um cronograma com datas limite e eu que me vire para fazer caber!

Então, enquanto isso, o que poderíamos fazer? Uma festa, lógico!

Sim, no meio desse caos e com a casa meio de cabeça para baixo, resolvi fazer um Réveillon-despedida. Não tem problema, os amigos são todos de casa e a gente se vira. É um ritual de passagem. São oito anos em Madri, é importante encerrar um ciclo. Além do mais, a festa de Ano Novo para mim é a melhor de todas! É fundamental iniciar uma etapa com energia renovada e, dessa vez especificamente, uma vida literalmente nova.

Mas sobre a festa, conto depois, era só para descrever o contexto.

Vamos a questões práticas, como procurar apartamento em Londres?

Fui para internet, achei vários websites. O meu favorito foi o http://www.zoopla.co.uk/to-rent/property/london/ . O que achei legal foi a possibilidade de eleger não só a região em geral, como especificar suas delimitações, através do “map view”. Há outros que também andei olhando http://www.primelocation.com/to-rent/property/london/  e http://www.rightmove.co.uk/property-to-rent/London.html .Uma vantagem de todos esses é o fato de haver fotos e detalhes dos imóveis.

Fiquei vesga de tanto apartamento que vi fotografia! Acho que posso passear por Londres agora e saberei descrever quase todas as plantas de apartamento de dois dormitórios pela cidade.

O preço é ultrajantemente caro! Quem pensa em morar pela cidade, pode ir se preparando! O custo de aluguel é o dobro que Madri, para um apartamento com a metade do tamanho.

Assim que Bianquinha mal chegou em um apartamento com área útil parecida ao que tinha no Brasil e lá vamos nós nos desfazer de um monte de coisas outra-vez-de-novo! Exercício de desapego, lembra? Exercita… exercita…

A última vez que fiz algo parecido tem uns 10 anos, quando fomos de São Paulo para Atlanta. Confesso que agora, aos 43 anos, está me custando um pouco mais abrir mão do conforto.

Mas voltando a parte prática, como fizemos para caçar uma casa?

Alugamos um apartamento mobiliado, um studio, por uma semana para chegar e nos localizar. Casa de amigos é sempre uma possibilidade, mas geralmente, em Londres o pessoal mora em locais pequenos e com pouca estrutura para receber (lembra que os preços são abusivos, né?). Depois, a gente estaria em uma rotina meio pauleira para achar um apartamento a jato e não estávamos com muito tempo para vida social, infelizmente.

Usei uma empresa chamada “shortlet” (aluguéis curtos, eles trocaram de website). Alugam pequenos apartamentos mobiliados pela cidade a um preço bastante acessível. Acho que compensa para quem vai de férias também e não quer gastar muito com hotel. Foram honestos e as fotos do apartamento correspondiam à realidade. Não é nada de luxo, até bastante simples, mas limpo e bem aquecido. Eles também oferecem serviço de “mini cab” ou “transfer”. É o seguinte, taxi em Londres, daqueles que saem nas fotos turísticas, grandes e tradicionais, é bastante caro. Mas existe essa opção de carros que parecem mais aos nossos taxis normais que fazem esse trabalho a um preço melhor, mas tem que reservar. Enfim, esse pessoal faz o pacote completo, se você quiser. Buscam e levam ao aeroporto e alugam os apartamentos.

Bom, admito que me deu um pouco de medo no início, é que nos buscou um russo. Não sei nem explicar muito o porquê, mas tenho um medo que me pelo de máfia russa! Tento não ser preconceituosa pela origem, meu problema é que tenho muita dificuldade em entender os valores e comportamento do leste europeu em geral, por absoluta ignorância da minha parte. Não conheço os códigos.

Mas voltando ao meu medo sem sentido, nos buscou um russo, até relativamente simpático e nos levou para o imóvel alugado. Só que a entrada do edifício era em um tipo de beco meio escuro e esquisito. De dia, nem era tão ruim, quando você conhece, tudo bem, mas para a gente que estava acabando de chegar, sem saber direito sobre aquela zona e tarde da noite, foi um pouco assustador.

Ainda por cima, o que só entendi no dia seguinte, eles estavam reformando uma série de pequenos apartamentos nesse tal edifício. Assim que havia material de construção pelo caminho e dava uma impressão inicial ruim.

Felizmente, estava com o Luiz, porque se estivesse sozinha ia me borrar toda achando que estavam me vendendo como escrava branca! E o pior, por preço baixo, afinal já sou meio usadinha, né?

Mas isso foi fantasia da minha cabeça, nada de mau aconteceu e no final da semana até me sentia bastante segura. Russos alugavam os apartamentos e árabes faziam as obras, ou seja, desde que pagássemos direitinho nossa parte, o que fizemos logo ao chegar, nenhuma chance da gente ser assaltado no recinto!

Resumindo a ópera, os primeiros dias de busca de um apartamento definitivo foram bastante estressantes. Nem tanto pelo ato em si, mas pelo pouco tempo que tínhamos disponível. Basicamente, uma semana para resolver tudo.

Finalmente, encontramos um imóvel que nos interessou muito e fizemos nossa proposta. Levou alguns dias para sermos aprovados. Examinaram nosso crédito… se Luiz estava trabalhando mesmo onde disse que estava… confirmaram o salário citado… pediram referências de antigos proprietários de quem alugamos etc. Não pedem fiador, mas pedem entre 2 e 3 meses de fiança.

Uma coisa importante de saber é que, em Londres, é bastante normal darem o preço do aluguel por semana e não por mês. Há também um imposto anual que paga o inquilino (e não o proprietário), correspondente a mais ou menos 1/3 do valor de um aluguel mensal.

Assinamos o contrato em um sábado, pela hora do almoço. Sendo que no dia seguinte eu embarcaria para Madri de volta, afim de organizar a mudança. Ou seja, nos 45 minutos do segundo tempo! Mas o importante é que funcionou.

Os últimos dias, quando já tínhamos o apartamento definido e só aguardávamos a parte burocrática, ficamos hospedados na casa de um amigo do Luiz do tempo que eram adolescentes ainda (e isso faz tempo pacas!). Foi bom porque tinha mais jeito de casa, fiquei mais à vontade e pude cozinhar um pouco. A única coisa é que ele morava longe do centro, pelo que entendi, o que a grande maioria  do pessoal faz. Mas como já não estávamos mais na caça ao apartamento, não atrapalhou em nada, pelo contrário. Foi com ele que saímos a maior parte dos dias, para jantar, fazer compras ou ir ao Ikea (e sim, o Ikea de Londres também lota!). Ajudou bastante.

No sábado, logo após assinar o contrato de aluguel, na hora do almoço, fomos com esse amigo e mais duas amigas comemorar em um pub. Uma delas, nós conhecemos quando ela morou em Madri há alguns anos, a outra era amiga de amiga, só havíamos nos falado por internet e, por coincidência e porque o mundo é minúsculo, as duas se conheciam! Foi bem legal, estava mais relaxada por ter conseguido onde morar e deu para me distrair e me sentir chegando na cidade com algumas dicas importantes.

E, vamos combinar, chegar em outro país conhecendo alguém faz toda a diferença do mundo. E conhecendo gente boa, muito mais!

Aliás, esse negócio de amigo de amigo está até divertido. O bom é que já temos alguns amigos que gostamos morando na cidade, mas além desses, houve algumas pessoas que, ao descobrir que nos mudávamos, perguntavam se queriam que apresentasse alguém que eles conheciam e também morava por aquelas bandas. Lógico que eu disse que sim para todo mundo e saí me apresentando virtualmente para metade de Londres! Bom, tudo bem, estou exagerando um pouco, mas não muito…

Resultado, comecei a fazer um monte de amigos e, de momento, achando o pessoal bem bacana. Vamos ver quando conseguiremos nos conhecer pessoalmente. Também estou doida para encontrar os que já conhecemos. Enfim, louca para fazer uma festinha de inauguração!

Infelizmente, acho que precisarei me policiar um pouco e não chutar o pau da barraca. Londres parece bem mais rígida e tranquila que Madri. As pessoas não estão acostumadas a ruído e horários tardios. No meu contrato de aluguel, por exemplo, proíbe cantar e tocar instrumentos musicais em casa, é mole? Bom, vamos pouco a pouco, também não quero chegar e arrumar logo confusão.

Hoje é domingo, 13 de janeiro e acabei de desembarcar em Madri. De volta à terrinha para organizar a mudança. O plano A é sair no dia 21, de mala e cuia. Depende um pouco de conseguir as autorizações para a mudança e não sei como é esse esquema pelas terras britânicas, aqui é relativamente fácil, desde que você não more bem no centro da cidade.

Vim sozinha, Luiz vai trabalhar nos EUA essa semana e vem para Espanha no sábado, para me ajudar com a saída dos móveis de casa.

Realmente, torço para que nosso cronograma dê certo, porque é bem ajustado. Mas pelo menos, por enquanto, conseguimos cumprir os prazos.

Um casal de amigos me buscou no aeroporto. Ainda bem, porque, além de já não ter mais carro, cheguei meio destemperada. Nem a chave de casa conseguia encontrar! Duvidei de que botão de elevador deveria tocar. Estou meio lá e meio cá. Com vontade de chegar na minha casa que não é mais minha, de ir para a outra casa que ainda não é minha e sabendo que minha mesmo não é nenhuma das duas. Ou talvez, só esteja com sono.

Não reclamo, tenho muita sorte, recebo ajuda sempre que preciso e por isso agradeço. Só estou um pouco cansada mesmo e meio dividida. Agora a ficha está realmente caindo que vou, minha vida vai mudar, meu endereço, minha língua e meus caminhos.

O jogo já começou e só quero chegar ao fim da próxima partida com fôlego, inteira e maior. Apenas peço saúde para todos nós. O resto, a gente vai planejando ou improvisando o melhor possível.

De caracol a camaleão

Há alguns anos atrás, escrevi uma crônica sobre como me sentia em ser uma “cidadã do mundo”. Basicamente, o que antes soava como internacional e cosmopolita, naquele momento me fazia questionar sobre minha identidade. Achava que um cidadão do mundo era um cidadão de canto nenhum.

 

Muita água rolou nesse período, era o primeiro de oito anos que vivi em Madri, e nem era minha primeira grande mudança. Sigo tendo meus problemas e questionamentos, mas sei muito bem quem sou. E mesmo que mude, o que é bastante provável, já não dói.

 

Tenho, literalmente, uma nacionalidade a mais, sou brasileira e espanhola. Falo, melhor ou pior, cinco idiomas. Caminho para meu endereço número 37, entre cinco países e oito cidades. Dou as estatísticas apenas como referência e para manter a memória registrada, porque já começa a me falhar.

 

Há anos meu país é minha casa, meu lar é minha cama, meus amigos são minha família, minha família de sangue é meu porto seguro e Luiz é meu norte (às vezes sul, leste, oeste…).

 

Descobri que não basta carregar a casa nas costas, o que sigo fazendo, mas a gente também precisa se adaptar à paisagem. Na verdade, precisar, não precisa, mas torna a experiência mais intensa e enriquecedora.

 

Pratico o desapego regularmente, por necessidade ou por disciplina, ou talvez porque seja minha natureza. Nunca passei grandes privações e nem sempre por mérito meu, tenho sorte, mas também nunca sofri muito tempo pelo que não podia ter. Minha linha de decisão é bastante primária e simples: quero ou não quero, posso ou não posso. O resto é circunstancial.

 

Não defendo que essa seja a melhor ou mais certa maneira de ser, há infinitas! Mas para quem pensa em optar por uma vida nômade, é melhor saber onde está se metendo, porque nem tudo são flores e aventuras. Ser razoavelmente livre dá o maior trabalho!

 

Em janeiro de 2013, desembarcaremos em Londres, nossa próxima estação. Como de costume, só temos data de chegada.

 

E quem quiser compartilhar essa próxima viagem, que seja bem vindo!

Querida Madrid,

Não foi você, nem fui eu, foi a vida.

 

Você me acolheu, divertida e generosa, e nos apaixonamos à primeira vista. Cheguei a achar que seria para sempre.

 

A rotina se instalou e nossa paixão se foi. Por um tempo, quase ficamos de mal. Você foi dura e preconceituosa, te praguejei e prometi te abandonar.

 

Seu rechaço era só medo do que não conhece e minhas palavras só frustração de quem se sente não compreendida.

 

Quando caía a noite, fazíamos as pazes, descobríamos que nos adorávamos e, quando você não queria me forjar, também não precisava me impor a você.

 

Finalmente, nos entendemos e nos aceitamos, cada qual com seu espaço. Podíamos seguir com o que tínhamos de melhor, sem perder nada. Ficamos mayores.

 

E descobrimos que a paixão não havia se perdido, mas se transformado em amor.

 

Acontece que amor não prende, deixa ir, porque sabe que sempre seguirá.

 

Vou com saudade e melhor que seja assim. Os caminhos que me levam são os mesmos que podem me trazer de volta e logo nos reencontraremos. Não com a intensidade de amantes apaixonados, mas com a amizade indestrutível de duas velhas senhoras.

E só nadou na parte rasa…

Tem coisa mais chata para criança na piscina do que mãe insistindo: fulaninho, fica na parte rasa!

 

Entendo o desespero materno, mas também me lembro de achar as piscinas infantis um verdadeiro tédio. Bom mesmo eram aquelas enormes (ou pelo menos, na época me pareciam gigantes) dos clubes. Onde dava pé só me servia para plantar bananeira. Se não fosse para andar de cabeça para baixo, o fundo era muito mais interessante.

 

Fui cedo para uma escola de natação, nunca perguntei, mas imagino que minha mãe achou mais prudente que eu aprendesse a nadar de uma vez. Mas me lembro que mesmo antes de saber nadar, o fundo não me assustava. Aprendi que se não gastasse energia me debatendo e, ao contrário, me deixasse afundar, era muito mais simples de empurrar o chão com as pernas, pegar impulso e subir. Por isso, não tinha medo, sabia que do chão não passava. Bom, e também porque criança não tem juízo mesmo e portanto, a gente faz merda o tempo todo sem se preocupar com os riscos.

 

Já um pouco mais velha, e ainda sem o menor juízo, também na praia preferia o fundo. Com mais cautela, afinal um caldo na frente de todo mundo seria bastante constrangedor. Mas, ainda que nadar no mar fosse bem diferente que em uma piscina, havia um conceito parecido, reagir te faz gastar energia à toa, o mar era infinitamente mais forte que eu, melhor não brigar contra a correnteza.

 

Não tenho mais a mesma ousadia física, a consciência do risco me fez mais atenta. Entretanto de alguma forma, e felizmente, algo dessa lição ficou. Sigo preferindo o medo ao tédio; sigo sabendo que do chão não passo, pelo contrário, ele pode te impulsionar para cima; é burrice nadar contra correnteza e, sobretudo, detesto só nadar na parte rasa.

 

E dito isso, vamos a nossa próxima história!

 

Indo direto ao ponto: nos mudaremos de Madri para Londres. Foi assim, de repente, não mais que de repente!

 

Na verdade, a possibilidade surgiu por volta de uns dois ou três meses. Acontece que como essa, várias outras possibilidades já haviam surgido e se foram, é normal. A gente não para nem guia nossa vida só por isso. Simplesmente, vamos fazendo plano A, plano B, plano C… e tocamos o barco. Mas não nego que dessa vez tinha uma intuição que ia acontecer.

 

Tinha muita vontade de escrever a respeito para clarear as ideias, mas ao mesmo tempo, era uma informação que não podia divulgar, poderia comprometer no trabalho do Luiz. Posso me responsabilizar pelo que conto da minha vida, mas não posso prejudicá-lo. Assim que simplesmente me travou a escrita.

 

Há umas duas semanas, ou pouco menos que isso, ele aceitou a proposta. Ainda assim, tivemos que esperar ele comunicar na empresa que trabalha aqui, afinal, as saídas precisam ser muito bem feitas. A gente nunca sabe que voltas o mundo dá.

 

Ele não será transferido, está trocando de emprego.

 

É arriscado? Lógico que sim! Dá medo? Pânico! Tomamos nossas precauções? Todas as possíveis! Isso garante que vá dá certo? Óbvio que não, mas afinal, quem quer só nadar na parte rasa? E, a propósito, estatisticamente, há mais gente que se machuca escorregando na borda da piscina, que se afogando.

 

Os ventos indicam que a correnteza vai para esse lado, então, há um momento que a gente precisa acreditar que do chão não passa e tentar.

 

Então, tá bom, agora vamos aos micos!

 

Primeiro passo, achar um lugar para morar. Simples, né? Só que moramos em outro país e estamos no meio de dezembro! A última semana e a primeira do ano que vem são meio mortas e tive a semana passada e essa semana para encontrar alguma solução.

 

Luiz começa a trabalhar na nova empresa no dia 7 de janeiro. Precisamos ir um pouco antes para agilizar alguns detalhes de documentação. Assim que o melhor dia seria por volta de 3 de janeiro.

 

No mundo ideal, alugaríamos um apartamento não mobiliado para o princípio do ano e mandaríamos nossa mudança junto com nossa ida para lá.

 

Acontece que, para começar, ainda não encontrei nada que caiba todos nossos móveis, ou um mínimo de móveis que não estou disposta a me desfazer.

 

O preço da mudança, pelo menos o primeiro orçamento, me pareceu exorbitante, estamos buscando soluções alternativas, que incluem alugar um caminhão e irmos dirigindo com a mudança nas costas!

 

Nosso apartamento atual foi alugado por um período mínimo de um ano e só levamos seis meses aqui. Ou seja, que em teoria teríamos uma multa de 6 meses! Ui! Luiz já conseguiu negociar, para um máximo de 3 meses de multa, mas se alugar antes para novos inquilinos, eles não cobrariam. Assim que já liberamos a casa para visitas e, apesar do momento nada propício, os recebo com sorriso de orelha a orelha e o apartamento impecável!

 

Pois é, acontece que, se alguém resolver alugar o apartamento para ontem, nós é que não vamos reclamar ou dar para trás, certo? Então, se não tivermos para onde enviar a mudança, precisaremos fazer duas, a primeira para um guarda-móveis e a segunda para Inglaterra.

 

E, nesse caso, ainda teremos um outro passo que é alugar um apartamento mobiliado temporário, enquanto a mudança espera no guarda-móveis e a gente encontra um segundo apartamento para mudar de vez.

 

Ou seja, temos o pano A, B, C… um alfabeto inteiro! Ficou fácil? Quer complicar mais um pouco?

 

Até um par de dias atrás, meu marido estava achando que tínhamos tempo pacas e que estava estressada à toa! Até entendo que ele precisa se preocupar com temas mais sérios e políticos dessa saída e entrada em nova empresa, mas não, não tínhamos tempo! Por mais que tentasse explicar, ele não registrava que teríamos, brincando, umas duas semanas mortas para qualquer negociação. Amor, agiliza que a água bateu nos fundilhos! Se a gente não correr atrás disso a sério e agora, vai dar merda e vai sair caro!

 

Finalmente, não sei se ele entendeu ou se não me aguentou mais pentelhando, mas resolveu botar as pilhas e nos últimos dias a gente conseguiu ver alguma luz no fim do túnel. Nada ainda certo, mas a neblina está se abrindo.

 

Enquanto isso, na sala de justiça, deixa contar um episódio bizarro, mas engraçado. Eu fico procurando apartamentos pela internet. Daí, quando comecei a ver que talvez precisássemos de um apartamento intermediário antes de alugar o definitivo, lá fui eu para os classificados buscar “short term rental” (aluguel de curto tempo/termo). Abriu uma página que achei meio estranha, na primeira foto, uma mulher em roupa íntima e logo abaixo outros tantos anúncios de apartamento. Que esquisito… mas enfim, segui minha busca, achei uns dois apartamentos que pareciam interessantes e enviei a mensagem dizendo estava interessada. Pois é, então você recebe uma confirmação que sua mensagem foi enviada na sua caixa postal. Beleza. Fui checar pelo meu link se tinha as fotos dos tais apartamentos para enviar ao Luiz. Só que ao invés de ir direto ao apartamento, o link ia para a “home page”. Sem problemas, fui no motor de busca e digitei “short time rental”. Pois foi parar numa sessão que oferecia garotas de programa! Um monte de fotos de putas! E eu, caraca, que raio eu fiz? Será que ao invés de me candidatar a um aluguel de apartamento, me candidatei a uma suruba? Taquiupariu quequeufiz! Ainda deixei claro que era para meu marido e eu!

 

Bom, logo depois descobri que havia feito confusão com as palavras “term” (termo) com “time” (tempo), que quer dizer quase a mesma coisa, mas descobri que a conotação era outra! Menos mau, não estava buscando um ménage à trois.

 

Havia outra coisa bizarra nessa história, que era o preço cobrado. Sabe quando está bom demais para ser verdade? No início, preocupada se tinha feito alguma cagada e enviado meu e-mail a um cafetão, não havia me dado conta. Não ficava claro se o preço era por dia, por mês… Por isso, pedi informação a dois diferentes (apartamentos, não cafetões!). A resposta veio muito parecida, trocando uma palavra por outra, esquema seis por meia dúzia. Até aí, vai ver o website tem uma resposta padrão. Enviei por separado algumas outras perguntas e perguntei se poderia visitar o apartamento. Resumo da ópera, era golpe. Novamente, as respostas vieram super parecidas, o preço era estranhamente barato e eles só aceitavam visita depois de fazer um depósito. Ou seja, uma roubada total! Assim que, de uma maneira ou de outra, o objetivo do anúncio era me joder.

 

Hoje, novas portas se abriram. Luiz conseguiu falar com um apartamento que me pareceu muito bom, em princípio, se não perfeito, nos viria muito bem para começar. A imobiliária fecha nessa quarta-feira (depois de amanhã) e só abrirá no início do ano. Mas ele conseguiu, com um depósito, segurar o apartamento na primeira semana de janeiro. Realmente, espero que não seja outro golpe, não parece ser, mas em algum momento, precisávamos arriscar. E Luiz também entendeu o que estava querendo dizer quanto a não termos mais tempo. Agora é cruzar os dedos, torcer para esse apartamento ser o que parece pelas fotos e para a imobiliária ser honesta. Tenho bom pressentimento, se é que isso ajuda.

 

Compramos algumas caixas de papelão no fim de semana e amanhã começo a empacotar algumas coisas. Ainda não sei se faremos a mudança nós mesmos ou alguma empresa, mas pelo sim pelo não, melhor aproveitar esse tempo morto.

 

Também estamos doando e vendendo coisas e móveis. Já havia começado a fazer uma limpeza despretensiosa, como faço todos os anos, sem saber que mudaríamos. Com a notícia, ampliamos a oferta. Porque os aluguéis em Londres são radicalmente mais caros que na Espanha, e pelo menos no início, iremos para um apartamento de dois quartos, até nos localizarmos melhor.

 

Tenho pensado se faço uma festa de despedida, talvez um réveillon-despedida, para os exilados em Madri. Muita gente viajou, mas sempre tem quem fique. Não preciso nem dizer que com todo esse caos, não pensamos em por o nariz fora da cidade durante as festas. Assim que pode ser que funcione. A vantagem é que se os vizinhos reclamarem, não fará a menor diferença! Ainda que nas festas de fim de ano, as pessoas sejam mais razoáveis.

 

Minha ficha ainda não caiu totalmente, talvez porque tenhamos outras prioridades para resolver. Ou talvez, porque não seja tão longe daqui, não é complicado voltar para visitar os amigos. Também porque não é meu país de origem, digamos assim, até difícil encaixar isso na cabeça, porque há anos meu país é minha casa.

Não é minha primeira vez, nem a segunda, já conheço os passos. Não sei as respostas, mas sei boa parte das perguntas e isso faz muita diferença. A experiência nos dá atalhos e, principalmente, a companhia de um parceiro que navega na mesma onda, traz coragem recíproca. Se é com ele, eu vou.

Em alguns momentos, já me aperta o coração, sei que vem mais saudade para meu currículo, mas também sei que se por um lado ela dói, por outro me faz mais generosa e consciente de que somos efêmeros. Não sei se outras vidas terei, nem me importa, dessa, a única que tenho certeza, levarei até o osso! Tudo que não quero para meu epitáfio é a frase: e só nadou na parte rasa…

 

E assim, me despeço das “crônicas madrileñas”, deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar sorrir para não chorar e se alguém por mim perguntar, diga que só vou voltar depois que me encontrar…

 

Agradeço a companhia nessa viagem e espero vocês na próxima, que venham as crônicas britânicas! E quem quiser acompanhar, seja mais que bem vindo! Até breve!

http://www.youtube.com/watch?v=plOTKOJ32Os

Chegou dezembro

E o ano se vai, assim, correndo! Acho que meus anos não passam mais, eles seguem uma enxurrada e me levam junto. Até gosto dessa sensação de movimento, mas às vezes a velocidade é vertiginosa.

 

Faz agora uns seis meses que saímos do centro de Madri para Las Rozas. Não tive problema para me adaptar, poderia ser mais difícil, mas não foi. Achei bom estar um pouco afastada da muvuca, não para sempre, mas por esse período teve suas vantagens.

 

Gostei de voltar a dirigir, de estar em um apartamento grande e mais confortável, fazer nossos trocentos churrascos, com amigos ou somente Luiz e eu.

 

A cidade já não é como quando chegamos, a crise pegou os espanhóis de jeito. Próximo de onde morávamos, há praticamente um protesto nas ruas por semana, com direito a policiais de choque, latas de lixo destruídas e por aí vai. Os noticiários anunciam despejos e escândalos. É triste, mas estar afastada fisicamente desse olho de furacão acabou me preservando um pouco. Tenho consciência de quão egoísta soa esse pensamento e sinto muito, estou sendo sincera, não conviver com o problema não faz o mundo melhor, mas faz minha vida mais fácil.

 

Aproveitei para cuidar de mim. Descansei, dormi melhor, fiz alguns tratamentos estéticos e, pouco a pouco, vou recuperando minha forma anterior à paulada hormonal. Ainda me falta perder algo de peso, mas não tenho mais o eterno corpo de grávida recente que me acompanhou no último ano. O cabelo está quase comprido outra vez e vermelho, como eu gosto. Fútil, né? Estou sabendo… e pouco me importando.

 

Esse período não se resumiu a cuidar do meu umbigo. Sigo com meus mil planos, só não ando com muita vontade de contá-los, nem sei porque.

 

Tenho o costume de usar meu cotidiano para me exercitar, em vários sentidos, porque não só o físico precisa de ginástica. E tenho usado os últimos meses para tonificar alguns músculos meio adormecidos. Acho legal saber que algumas habilidades ainda estão lá, só dar uma azeitadinha na máquina que ela funciona.

 

Ando pressentindo mudanças de ventos, ainda não sei para que lado soprarão, mas estou pronta para voar na mesma direção, seja ela qual for.

 

Esperando 2013, pode chegar!

E a festa, como foi?

Foi o máximo!

 

Meu aniversário cai em um feriado e muita gente viaja. Não é de todo ruim, assim diminui a angústia de ter que escolher quem convidar. Porque, por mim e para o desespero do meu marido, sempre chamaria todo mundo!

 

Portanto, contei que morando fora do centro, ou seja, agora é difícil vir na minha casa sem carro e, ainda por cima sendo feriado, podia ficar à vontade para chamar a galera. Mas no meu cálculo pessoal, imaginei que seriam umas 50 pessoas, nessa ordem de grandeza, e assim foi.

 

Estava louca por uma festa!

 

Os últimos meses foram duros, com a confusão de mudança, morte do Jack, doenças diversas na família e tal, ficou difícil encontrar ânimo para comemorações.

 

Acontece que problemas fazem parte da vida, não tenho mais a expectativa de passar todo um ano com tudo absolutamente bem. Não existe mais essa possibilidade. Na verdade, talvez nunca tenha existido, na infância seus pais te poupam desses momentos ou a gente nem entende direito. Uma vez que a inocência se vai, o jeito é se acostumar às calmarias e tempestades. E a minha já se foi há muitos anos!

 

Assim que, resumindo, deu um intervalo entre furacões, em maior ou menor intensidade, eu sempre comemoro! Sabe-se lá quando será a próxima oportunidade. E adoro porque Luiz pensa igual e embarca junto.

 

Como não escondo de ninguém o quanto gosto de celebrar aniversário, acho até que a família, se tem algum problema, encobre e espera passar.

 

Acredito que gentileza, felicidade, alto astral e coisas do bem são contagiosas. Assim que deflagrada a onda, os amigos também seguem e se animam. A gente sabe que vai passar bem, se divertir e todo mundo precisa disso. Eu preciso disso.

 

Gosto de festas com alguma temática, porque você acaba encarnando algum personagem e se libera. Dessa vez, custei a encontrar um tema, porque queria e me pediam várias coisas. Daí fizemos um samba do criolo doido e fundimos aniversário, carnaval fora de época e descarrego, tudo-junto-ao-mesmo-tempo.

 

Os convidados foram incentivados a vir vestidos em três cores: azul para abrir novos caminhos; verde para deixar o de ruim para trás e branco para agradecer. Podia combinar cores, na verdade, podia qualquer coisa, era só de farra. E lógico que o pessoal é show e todo mundo entra na brincadeira.

 

Tinha “fogueira” em sal grosso para queimar uruca, fitinhas do senhor do Bonfim, espada de São Jorge, sete ondas para saltar e por aí vai.

 

Música ao vivo, não preciso nem contar, né? Claro que sim!

 

Começamos cedo, assim os amigos que trabalham na noite podem aproveitar e também evitamos problemas com vizinhos, afinal era a primeira festa nesse apartamento, sabe como é? A gente tem que ir adestrando aos poucos! Assim que tentei ser razoável e não enlouquecer Luiz, sem deixar a festa ficar chata. Aos poucos fomos diminuindo a intensidade do som. De maneira que, sim, fizemos barulho, mas procurei manter o respeito.

 

Ou por isso, ou pela minha teoria que os vizinhos sempre tem medo da gente, funcionou. Ninguém reclamou.

 

Como de costume, faço as comidinhas e os amigos trazem o que quiserem beber. Ainda bem que os fumantes ficam na varanda, porque pela quantidade de bebida, qualquer farpinha explodia o apartamento! O bolo, felizmente, ganhei de presente, porque só lembrei no dia anterior que não tinha pensado em nenhuma sobremesa! Geralmente, tenho um pouco de vergonha de cantar parabéns, mas esse ano estava no pique e com vontade.

 

Eu fui na minha cachacinha e nem tenho porque negar, lógico que chutei o pau da barraca! Sem esquecer de tomar litros e litros de água, porque sou profissional no assunto e tenho uma fama a zelar.

 

Toquei, cantei, dancei, dei novecentos e trinta e nove abraços etílicos e conselhos inúteis importantíssimos! Ganhei um monte de presentes e sorrisos legais! Enfim, me diverti horrores!

 

Luiz teve ajuda para arrumar o apartamento, porque afinal, de algo vale a intimidade e sempre tem quem desça o lixo, quem dê uma ajeitada na louça, quem dê uma limpada no chão… nossos convidados são muito independentes!

 

Infelizmente, uma hora a festa precisa acabar, eu sempre acho que foi pouco, mas me conformo.

 

Fui dormir feliz da vida. E será assim que me lembrarei desse aniversário.

Uma coisa bem desagradável

Pois é, enrolei bastante para escrever sobre o aniversário. A festa foi o máximo, me diverti pacas e esse nem foi o problema. O caso é que fui roubada, isso mesmo que você leu, fui roubada dentro da minha casa. Então, não queria ofuscar uma história legal com um baixo astral desses.

 

Agora que a poeira baixou e posso até fazer piadas a respeito, resolvi contar o que ocorreu, mas vou fazer de trás para frente. Primeiro a parte ruim, assim me liberto para que na memória fique só o que houve de bom.

 

O festão foi no sábado, acordei no domingo nas nuvens, amarradona! Sem ressaca, sem uruca, feliz!

 

Chegou à tarde e comecei a procurar meu celular e nada! Que estranho…

 

Não sou uma pessoa ligada em celular, todos meus amigos sabem disso, no entanto, em dia de festa, eu deixo sempre sobre a mesa de centro, caso alguém ligue querendo informação. De modo que, se eu não escutar tocar (coisa comum), algum convidado dá o alerta.

 

Assim que na noite anterior, tive o cuidado de carregar a bateria e acordei com ele, afinal, é o meu despertador.

 

Com cinquenta e tantas pessoas em casa, obviamente, não estava preocupada em tomar conta de um telefone. Tinha muito o que fazer. Presentes estavam os amigos de sempre e alguns acompanhantes de amigos, ou seja, todo mundo conhecido e próximo, se não diretamente, trazido por alguém de confiança.

 

Portanto, deveria haver alguma explicação lógica e provavelmente até engraçada. O primeiro que pensei foi que deveria haver sido levado por engano. Bastante razoável, com pouca iluminação, o pessoal bebendo, é fácil se confundir e pegar o celular errado.

 

Como é um iphone e tem GPS, fomos buscá-lo para ver se estava aqui em casa em algum canto improvável, ou em outro endereço. Acontece que o GPS só funciona se o celular estiver ligado e me aparecia que ele havia sido desligado. Mais estranho ainda, porque bateria eu sabia que tinha. Alguém pega o celular trocado e ainda desliga?

 

Muito bem, esquisito, me deixou com uma pulga atrás da orelha, mas ao mesmo tempo, não queria acreditar no pior. Não havia nenhum estranho em casa. Tinha que haver alguma explicação.

 

É comum nas festas aqui em casa ter sempre alguém que esqueceu alguma coisa. Daí rola um tipo de “achados e perdidos” pelo próprio Facebook, até a gente localizar os distraídos. Coloquei eu um aviso que não encontrava meu celular, se alguém havia pego por engano. Juro, na maior boa vontade! Para os amigos que sei que não checam tanto a internet, cheguei a mandar mensagens pessoais para confirmar o equívoco. Qualquer pessoa poderia haver se enganado ou se distraído e, praticamente todo mundo se dispôs a procurar nas suas coisas se havia sido o causador da situação.

 

No início, surgiram algumas brincadeiras ou hipóteses absurdas, que não achei graça, porque sabia que a história estava esquisita. Cortei logo.

 

Seria possível que houvesse ido para o lixo sem querer? Impossível não é, mas bastante improvável. Vamos combinar, com tanta gente em casa, usei tudo descartável. Alguém pega um guardanapo junto com um iphone, que pesa, e não sente? As pessoas não estavam tão bêbadas assim e quem estava para lá de Marrakesh nem estava ajudando a recolher nada. Daí, ainda por cima, no caminho para o lixo, alguém consegue “sem querer” desligar o celular (precisa segurar o botão um tempo e ainda correr o dedo na tela em um local específico) e jogar fora. Não cola, né?

 

Para complicar, acabei recebendo informação em mensagens que já havia ocorrido roubo em outra situação. Fala sério! O problema é que ninguém quer divulgar essas coisas porque fica chato e provoca um mal estar generalizado.

 

Acontece que eu já tinha perguntado pelo celular e não podia simplesmente encerrar a conversa com um: ah, foi mal, acho que me enganei então…

 

Sinto muito, a merda foi para o ventilador!

 

O que acho é que quem levou não tinha idéia que o tal celular era meu e muito menos que daria essa repercussão. Porque se fosse de qualquer outra pessoa, sempre ficaria a dúvida. Poderia ter caído na rua, no carro… Além do mais, ninguém ia abrir o jogo dessa maneira, dizendo que foi roubado na casa alheia, cheia de amigos.

 

Acontece que foi comigo. Por um lado, felizmente, porque a situação ficou evidente. Por outro, não me lembro na minha vida de haver ficado tão aborrecida e decepcionada. Alguém para quem abri a porta da minha casa e recebi com carinho me roubou. E, pior, poderia haver roubado algum amigo meu.

 

Se eu sei quem é? Sei. É muito difícil enganar a intuição escorpiana. Mas nunca terei certeza, porque se tivesse, já haveria ido à polícia. E se não for?

 

E é essa dúvida que não tem preço. Alguém foi responsável por deixar constrangidas pelo menos 50 pessoas absolutamente inocentes. A lei do retorno é infalível e não gostaria de estar na pele dessa criatura infeliz.

 

Infelizmente, a noção de ética das pessoas vem se deteriorando, um dia você não devolve o troco que veio a mais… no outro acha normal aproveitar a confiança de quem acredita que é seu amigo e roubar um objeto de alguém que você convive. Que feio.

Quase nada na vida é imperdoável, essa carga não levarei eu, leve quem a mereça. Perdoado já está, nunca me faltará e o valor é o meu menor problema. Mas com pesar anuncio que no que depender do meu grão de areia, Madri estará mais desanimada, a temporada de festas e de portas que sempre estiveram abertas se encerrou indefinidamente.

Crônica de aniversário – Smells Like Teen Spirit

Acabo de cumprir 43 anos! Quero falar um monte de coisas e não quero contar nada. Paradoxal, talvez, mas é assim.

 

Estou feliz, amo fazer aniversário! Nem quero dormir para esticar um pouco mais as horas.

 

Comemoro no próximo sábado, quero um festão com tudo de direito. Não quero saber se vizinho vai reclamar, se terá comida suficiente, se vai chover… eu quero é mais! No final dá certo e o principal é ter gente querida por perto.

 

Sinto saudade dos que não estão, sinto raiva pelo que não consegui, sinto mágoa pelo que não vou ter. E ainda assim, estou feliz. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

 

Eu quero e mereço uma festa!

 

Também tenho saudade de quem sou, ou fui. Corro atrás do corpo que eu era, dos sorrisos que me abrem portas, da falta de juízo. Quero por minhas asas de fora. Afinal, já faz um tempo que as tenho tatuadas na pele. Estão escondidas porque é inverno, mas estão lá e sempre estarão.

 

Não sou a executiva que achei que seria, nem a artista reconhecida, nem a mãe de ninguém e nem nada demais. E que? Sigo aqui, ainda não desisti. Sei um monte de coisas.

 

Outro dia Luiz brincou insinuando que eu tinha síndrome de Peter Pan. Será? Acho que não. Não me importa envelhecer, não quero parecer uma garota, sou uma mulher e gosto dessa condição.

 

O que não quero são limitações, hora para dormir, momento para beber, prazo para terminar. E pensando agora, talvez seja mesmo um pouco de atitude adolescente. E por que não? Eu posso. E adoro poder qualquer coisa.

 

Hoje tenho um dia inteiro que eu posso qualquer coisa! E amo fazer aniversário!

 

Fora de foco

 

Muito bem, senão, vejamos…

 

Assim que chegamos do Brasil, estava mais ou menos de-ses-pe-ra-da para sair e ver gente! Sinto muito a falta de vida social e esse negócio de ficar mais quieta, às vezes, é necessário, mas me cansa rapidamente.

 

Daí, na sexta-feira, assim que Luiz chegou do trabalho, insisti que queria jantar fora. Podia ser por aqui perto mesmo, queria tomar meu vinhozinho sossegada com ele. Na verdade, para ser mais sincera, estava era afim de chutar o pau da barraca!

 

Fomos a uma marisquería (já não sei se existe essa palavra em português, mas acho que é bem traduzível) bem bacaninha e comemos muito bem. Quando acabamos de jantar e com a primeira garrafa de vinho, não estava com um pingo de vontade de vir embora. Luiz, resolveu pedir uma segunda garrafa-surpresa, um “Termanthia” avassalador de bom! Está entre meus vinhos espanhóis favoritos, ainda que o nome não pareça tão conhecido.

 

Duas garrafas, para nosso padrão etílico, não é nenhum absurdo. Mas há dias e dias, e nesse, saí lararí larará do restaurante! Lembro parcialmente de como chegamos em casa, ainda que não reclame nem um pouco do fim da noite.

 

Acordei meio torta no sábado, mas não tão tarde, porque tínhamos um churrasco para ir, onde estariam vários amigos que estava desejando rever!

 

Foi ótimo, como sempre! Era um chá de bebê do jeito que eu gosto, sem frescura, com maridos e esposas presentes, enfim, um encontro de amigos normal e animado. 

 

Fui logo pedindo às amigas: pelamooordedeus, alguém me conta alguma fofoca! Daquelas cabeludas! O que andei perdendo por esses tempos?

 

Engraçado, porque como estava meio de ressaca da noite anterior, acabei tomando uns dois ou três copos de coca-cola, coisa que não faço praticamente nunca, afinal, não gosto de refrigerante. O que me esqueci é que na coca vai cafeína, ingrediente que saiu da minha dieta há mais de dois anos. Dali a pouco comecei a notar que estava meio trêmula e levei algum tempo para entender que não era ressaca da noite anterior e sim a cafeína da coca-cola! Putz, já sei: equilibrar o PH com cachaça!

 

Fofocamos… tomei minha cachacinha… dessa vez sem grandes alterações, afinal felizmente tinha sócios para a bebida. Enfim, deu para matar um pouco a saudade dos amigos e é como fôlego novo.

 

Mas não ficamos até tão tarde, Luiz viajava pela hora do almoço no dia seguinte e ainda tinha que fazer as malas etc.

 

No domingo, acordamos cedo, arrumamos o que tinha para arrumar e levei Luiz ao aeroporto. De lá, fui a um aniversário de uma amiga, em um bar no centro de Madri. Começava pelas 15 horas. 

 

Fui sozinha.

 

Geralmente, prefiro chegar aos lugares acompanhada, acho que todo mundo. Mas não sei, de vez em quando, eu gosto de andar sozinha, não de ficar sozinha, mas de sentir um pouco o gostinho de ser independente e livre. 

 

Eu gosto de ser casada e gosto dos meus amigos, é que de vez em quando quero saber que fico pelo prazer da companhia e não pela necessidade dela. Não sei se me explico. Talvez seja só um momento de reflexão.

 

Assim que poderia escolher entre beber à vontade e dormir na casa de alguma amiga, ou simplesmente, curtir a sobriedade e voltar para meu canto à noite. Fiquei com a segunda opção.

 

Não vou negar que ser sóbria, entre o pessoal que está mais empolgado, às vezes, é um pouco chato. Mas aproveito para observar melhor, ver o que realmente pinto na fotografia. Enfim, fico mais séria, certamente menos divertida e com pouca paciência, ainda que desfrute à minha maneira.

 

O aniversário foi bem legal, muitos músicos bons, como sempre. Daí, rolou uma roda de samba de primeira. Eu levei meu tamborim e um caxixi, que toquei discretamente no meu canto e depois um pouco mais, junto com a roda. Também curti um neném muito fofo, que ainda não havia conhecido pessoalmente, e estava sendo introduzido à primeira saída a um bar. Pai músico e mãe animada, tem que ir acostumando desde cedo.

 

Princípio da noite, quando começou a me dar muita vontade de tomar uma caipirinha, resolvi puxar meu carro, literalmente. Não tenho maturidade, se começo, chuto o balde! 

 

Voltei para casa pensando que precisava me esforçar mais para não me afastar tanto. Com esse negócio de morar fora do centro, é fácil me distanciar e não acho legal. Havia mais dois eventos ao longo da semana, e me propus a não faltar, mesmo que tivesse que ir só novamente.

 

E assim foi. Na terça-feira, concerto de um amigo na Sala Clamores e na quinta, inauguração de uma escola de música em um espaço alternativo bem bacana.

 

Marquei de encontrar com uma amiga nos dois eventos, mas fui só. Luiz ainda sugeriu que fosse buscá-la, assim já chegava acompanhada. Mas o espírito da coisa era exatamente chegar sozinha. Queria me provar, ver como me sentia. Não são muitas cidades do mundo que uma mulher pode sair só sem a preocupação extra de um assédio. Madri te dá esse direito e resolvi merecê-lo.

 

Não é tão mau quanto parece, na verdade, é bastante normal. Você chega, paga sua entrada, senta em uma mesa, pede alguma coisa para beber… nada demais! Não cai nenhum pedaço. Minha amiga chegou em seguida e ficamos ouvindo o show e fofocando um pouquinho entre intervalos. Quando acabou, fomos com o cantor para um bar tomar uma última rodada e falar besteira. Bom, eles tomaram uma rodada, eu só fiquei conversando, mas não estava na pilha de beber álcool essa noite. Já de falar minhas besteiras… bem que gostei.

 

E na quinta, foi a inauguração da tal escola de música. Conheço o organizador, gosto do estilo musical dele, mais contemporâneo, foge do lugar comum, por isso, ajudei um pouco a divulgar. Pessoalmente, fui interessada em um curso de percussão, a primeira aula era gratuita. Na sequência, haveria alguns concertos, também gratuitos, mas não tinha grandes expectativas, não sabia se iria ficar e tal. 

 

Acontece que fui ficando e os concertos eram um melhor que o outro! Era uma quinta-feira, sendo que sexta era feriado. Ainda assim, Luiz não animou, estava cansado. Tudo bem, mas nesse caso, não me sentia culpada de estar lá, ele não precisava acordar cedo no dia seguinte, certo? De maneira que fui encontrando amigos, conhecendo outros e ouvindo música de primeiríssima!

 

Confesso que aí sim tive vontade de beber alguma coisa, me fazia falta um bom whiskão! Mas paciência, fiquei só na água. Isso é meio chato, porque não tomo refrigerantes nem sucos industrializados, assim que se não bebo álcool na noite, me resta: água! Bom, me acabar estava fora de cogitação, então, só me restava mudar o modus operandi para observadora e pronto!

 

Aí, fiquei observando e curtindo a música. Conversava com uma amiga de como a gente se sentia privilegiada de estar presente nesses momentos e conhecer tanta gente talentosa. A gente não ouve só por CD, a gente participa ao vivo e a cores, e isso é muito bom. Toda uma experiência.

 

Ficou tarde para os vizinhos e tiveram que fechar as portas com o povo dentro. O problema é que, quando se fecha as portas, já não há mais o controle de fumo em espaço fechado e daí vira sauna de fumaça. Ops! Me inclua fora dessa! No terceiro cigarro aceso do meu lado, saí praticamente correndo do lugar e o ambiente já se encontrava insalubre e esfumaçado quando alcancei a porta de saída. Que pena, porque o último concerto, de Trance, prometia.

 

Fui andando para o estacionamento, havia parado há uns 10 minutos de caminhada dali. A temperatura já estava meio maluca, transição para o outono. Gente de camiseta, gente de casaco, gente de cachecol… um samba do criolo doido na maneira de se vestir. Eu ia de camiseta e sandálias, não estava com calor, tampouco com frio. Queria curtir esses últimos momentos do ar fresco na pele, nem me incomodava arrepiar de leve, em breve já não seria mais possível e eu sabia.

 

Eu sempre resisto ao máximo colocar um casaco no outono, como se isso fosse capaz de adiar o inverno. Logo, me acostumo. Mudanças, boas ou más, são sempre dolorosas, depois a gente se acostuma. E, pelo menos para mim, são necessárias.

 

Subi pela Calle de Fuencarral, que conheço tão bem e agora já não tão bem assim. Há lojas novas, bares novos. Ainda me é bastante familiar, mas já estranho os rostos jovens, me parecem jovens demais, alcoólicos demais. Me senti um pouco fora de lugar, meio fora de foco. Eu acabei de mudar, na verdade, ainda estamos nesse processo de mudança de ciclo, mas ainda é pouco. Quero mais e a gente precisa ter muito cuidado com o que deseja.

 

Ou talvez, seja só o outono chegando.

E como foi no Rio?

Deixa eu me organizar! São tantas pontas que às vezes me dá preguiça de começar a contar!

 

Não gosto de deixar ninguém no suspense, portanto adianto que foi tudo bem, dentro do que poderíamos fazer e do tempo disponível. Não somos perfeitos e alguma coisa deve ter passado, mas o importante para mim é que nesse momento, meus pais e os pais do Luiz estão todos em suas próprias casas, uns melhores que outros, mas todos em uma situação de saúde estabilizada.

 

Essa situação pode mudar a qualquer momento? Claro que sim! Nossa vida também pode mudar a qualquer momento, mas a gente precisa ir um passo de cada vez.

 

Então, vamos por parte, chegamos no Rio dia 23 de setembro e passamos pouco  mais de uma semana. Estava bastante complicado para Luiz passar mais tempo do que isso. Na verdade, dar essa fugida de Madri já foi razoavelmente constrangedor no seu trabalho. Tudo bem que as pessoas entendem, todo mundo tem família… mas é a quarta vez que ele vai ao Rio esse ano, não vejo mais muita margem em relação a essas ausências. Assim que tínhamos a preocupação em deixar o máximo de coisas resolvidas e possíveis planos de emergência ou apoio em situações futuras.

 

Bom, no domingo mesmo, já chegamos no fim do dia e mortos de cansados. Dormimos cedo, na casa dos meus pais, para na segunda-feira, pela manhã, já começarmos a entender o que era preciso providenciar.

 

Sobre meus pais, posso dizer que os achei bem, com os problemas que tinham, que podem durar dias, meses ou anos. Mas felizmente, achei que na média estavam com a saúde estabilizada. Com um detalhe que meu pai anda muito ofegante nos últimos 6 meses e achamos que talvez isso pudesse melhorar. Aproveitando que eu já estava lá mesmo, marcamos com uma cardiologista que achamos muito fera, entretanto, fora do plano de saúde deles. Ou seja, é legal para uma segunda opinião ou pontos específicos, mas difícil para seguir um tratamento mais a longo prazo. No meio da semana, me dividi com Luiz, fui com eles nessa cardiologista e gostei da consulta, vamos ver se com as próximas ações ele começa a melhorar essa respiração e a volta a dormir normalmente. O caso é que também é necessário que ele perca peso, e aí é que porca torce o rabo! Achei ele um pouco mais convencido dessa necessidade, vamos ver se a força de vontade prevalece.

 

Mas a verdade é que nossa principal preocupação nessa viagem eram os pais do Luiz. Assim que logo na segunda-feira, fomos visitar e conversar com o seu pai. Ele já estava em casa, mas com necessidade de atendimento de uma acompanhante por 24h. Para que isso funcione, são necessárias três pessoas, que se alternam em turnos. Essas três pessoas começaram a trabalhar para eles meio que em caráter de emergência, assim que ninguém sabia muito bem por quanto tempo seria, ou seja, só agora começamos a nos informar em relação à parte trabalhista. A ideia é mantê-las, então, melhor fazer tudo redondinho para não ter dor de cabeça depois.

 

Muito bem, acontece que minha sogra seguia internada e queríamos tirá-la da clínica psiquiátrica. Só que, para isso, era importante que a estrutura da casa estivesse preparada e não tínhamos muita certeza de qual seria o quadro. Ela, felizmente, está muito bem fisicamente, mas a cabeça ficou meio confusa e chegou a estar agressiva. Não sabíamos o que encontrar. Poderia ser que ela nos recebesse muito bem ou muito mal.

 

Estava preparada para os dois casos. Isso não mudaria o que sinto por ela, mas acho que esse aspecto era menos difícil para mim que para Luiz, que é filho. De certa forma, havia uma carta na manga de eu ser usada como coringa para ajudar nessa aproximação com a família. Papel esse, que meu sobrinho, seu neto, fez os primeiros movimentos.

 

Assim que esse encontro era algo bastante tenso para nós dois. A gente tinha algumas estratégias, mas teríamos que adaptar conforme o que encontrássemos. Fomos instruídos pela psiquiatra a não incentivar confrontos. Ou seja, se surgisse algum assunto que pudesse ser ou se tornar conflitante ou negativo, deveríamos simplesmente mudar de assunto.

 

Devo dizer que estávamos preparados para ser muito pior do que realmente foi. Na prática, foi muito bom encontrar minha sogra, abraçá-la e conversar com ela. Estava sensível, mas tranquila e recebeu muito bem a visita do Luiz. Das poucas vezes que o assunto poderia caminhar para um lado desagradável, a gente fazia cara de paisagem, mudava o curso e ela mudava junto com a gente. Funcionou muito bem e foi uma dica excelente!

 

Fomos todos os dias visitá-la, levá-la para fazer exames e ao longo da semana sentíamos cada vez mais confiança em levá-la para casa.

 

A rotina básica consistia em visitar meu sogro pela manhã; resolver o que precisasse de pepinos durante à tarde (consertar chuveiro, comprar poltrona, se reunir no escritório de advocacia, orçar câmeras de segurança etc); às 17 horas, hora da visita na clínica, íamos ver minha sogra. De lá, voltávamos no meu sogro para dar notícias e, finalmente, íamos jantar e dormir na casa dos meus pais.

 

Não saímos nem um diazinho de nada com amigos, acabávamos os dias exaustos! São muitos detalhes e a gente queria fazer o melhor possível.

 

Mas na quinta-feira à noite, quando meu pai sempre janta fora, dei um jeito de catar minha mãe para jantarmos só nós duas. Às vezes, sinto falta de ter um tempo só com ela. Acho que ela fica muito em casa em função do meu pai e precisa sair mais um pouco, relaxar, desconectar. Assim que sempre que tenho uma oportunidade, boto ela para tomar um vinho, ou como costumo dizer, seu “remedinho”.

 

Finalmente, na sexta-feira, minha sogra teve alta e voltou para casa. Em uma das visitas, ela tinha me comentado que viria nos visitar na Espanha para comer meu feijão. Então, que não fosse por isso! Fiz uma bela de uma feijoada para recebê-la em sua casa. Como feijoada não se faz pouco, fiz um panelão nos meus pais e dividi entre as duas casas, ainda sobrou para meu irmão e minha cunhada! Ou seja, que a “Tradicional Feijoada do Luiz” acabou acontecendo no Rio!

 

Tanto meu sogro como minha sogra comeram de repetir! Isso me deixou contente, não só nesse dia, ambos estão se alimentando bem como nunca vi antes! E também me pareceram começar a dormir melhor. Não vou negar que achei simplesmente o máximo os dois voltarem a dormir juntinhos novamente, depois de toda essa confusão. Vamos combinar, com quase 60 anos casados, é muito romântico!

 

Enfim, ao longo da semana, resolvemos que ela também precisava de uma acompanhante só para ela, mas que poderia ser apenas durante o dia. É que, apesar de estar bem, ela não pode ainda sair sozinha. No futuro, quem sabe, mas no momento, melhor não correr esse risco. Contratamos então, as duas acompanhantes que ela gostava mais na clínica. Precisam ser duas, porque se revezam diariamente.

 

As enfermeiras e acompanhantes dessa clínica são terceirizadas. Funciona como um “pool” de pessoal, e esse grupo vai se alternando de acordo com a necessidade dos clientes. Podem estar dentro da clínica, em algum hospital ou na própria residência dos pacientes.

 

Resumindo, agora na casa dos meus sogros são 5 acompanhantes, 3 para meu sogro e 2 para minha sogra, e uma faxineira… é mole? Haja orçamento! O apartamento parece uma empresa!

 

Os primeiros dias, dormimos por lá, para ver como funcionava a dinâmica entre elas e meus sogros. Porque não é simplesmente ter acompanhantes, a rotina da casa precisa seguir, ou seja, as compras precisam ser feitas, alguém tem que cozinhar, os papéis de cada uma precisam estar claros, enfim, a logística não é de todo simples, tampouco barata. E algo que nos preocupa, queremos que esteja tudo organizado perante a lei.

 

Meu irmão é advogado trabalhista e se propôs a nos ajudar nessas questões. Nos reunimos algumas vezes durante a semana e acho que dá para gerenciar essa encrenca.

 

De maneira que, com toda essa “movida”, meus sogros mesmo começaram a pensar na possibilidade de se mudarem para uma residência de pessoas idosas. A gente já havia pensado nessa opção, mas até então, eles não queriam se mudar do apartamento. Acontece que a situação mudou e, talvez, seja uma tranquilidade para todo mundo, principalmente, para eles.

 

Fomos com minha sogra visitar duas residências. A primeira, nenhum de nós gostou, parecia mais um hospital. Mas a segunda, era bastante interessante. Um lugar que mais lembrava um resort  (juro!), só que com assistência médica. Cada hóspede pode decorar seu quarto como queira, se não quiser esquentar a cabeça, eles possuem os móveis padrão. Mas se quiser levar os móveis do seu quarto, sua poltrona, sua televisão ou algo do gênero, você também pode. Então, dá um aspecto mais de sua casa, não é impessoal. O refeitório é bom, possuem uma série de atividades sociais, fisioterapia, jardins bem cuidados etc. Enfim, todos gostamos, mas eles não tem vaga de imediato.

 

De certa forma, até achei bom, porque também ganhamos um tempo para que essa ideia amadureça na cabeça deles e ninguém faça nada que não se sinta confortável ou que pareça que foi uma barra forçada.

 

Na última noite no Rio, dormimos na casa dos meus pais, para também dar uma atenção do lado de lá, né? Jantamos uma lagosta divina, feita de maneira bem simples, só com molho beurre blanc, um risotto de camarões e umas batatas panaderas. Tudo uma delícia e ainda derrubamos uma garrafa de cava e outra de vinho branco. Fechado com chave de ouro! Não me importa o tamanho do buraco em que me meta, se der uma brechinha para celebrar, pode contar com isso!

 

Foi duro, difícil e cansativo. Mas também houve momentos felizes, gratificantes e muito importantes. Posso dizer que foi uma semana intensa, onde fizemos o que acreditamos que eram as melhores alternativas. Luiz e eu temos nossas diferenças e problemas, como qualquer casal, mas quando realmente importa, trabalhamos bem em equipe. Pelo menos, eu acredito nisso. Foi bom ter ido com ele, não é uma questão de poder ou não poder realizar sozinho, mas compartilhar, delegar, contar com alguém, pode contribuir bastante.

 

Não são meus pais, mas poderiam ser e chega um momento que transcende a questão do sangue do meu sangue. Ajudar, contribuir, me ensina e me prepara a aceitar ajuda e a viver melhor. Faz diferença para mim, me importa. É o velho chavão do você querer ser parte do problema ou da solução. De você escolher buscar todos os mínimos defeitos passados com o intuito de culpar, magoar, e assim tirar o foco dos seus próprios erros, ou olhar para frente e decidir ser feliz a ter razão. Há alguns anos, decidi ser feliz.