Querida amiga,

Poderia ter te escrito antes, mas soaria como despedida e você não iria gostar. Eu não iria gostar. Por isso, não vou me despedir de você, vou te fazer um brinde!

Eu lembro do dia em que te conheci, apresentada por uma amiga em comum. A partir desse encontro, houve vários outros, frequentamos muitas festas, dançamos forró, cantamos juntas, rimos pacas juntas, não sei se choramos juntas, acho que não. Se choramos, não lembro.

Você cuidou do meu gato, eu fui no hospital com você. Te apresentei vários amigos, você me apresentou outros tantos, às vezes parece que somos todos de uma única grande família que se conhece desde sempre.

Exceto pela insensibilidade dos médicos madrilenhos, nunca ouvi você reclamar ou falar mal de ninguém. E nunca ouvi uma única crítica sobre você! Pensa em uma pessoa do bem, positiva e gentil com absolutamente todos!

Corajosa e aventureira com letras maiúsculas! Não me recordo agora conhecer ninguém que houvesse praticado esportes radicais e viajado tanto como você! Saltar de pontes, voar de asa delta, mergulhar… nada te assustava ou, se assustava, nunca te impediu de seguir adiante e experimentar. Viver no limite.

Nenhuma doença jamais iria te definir. Honestamente, a maior parte do tempo que compartilhamos, eu nem pensava a respeito. A gente tinha muito mais o que fazer! Você entendeu rapidamente que ninguém tem dia certo para partir, não temos esse controle. Mas como viver cada dia sim, essa decisão é nossa. E, com você, aprendi isso de verdade, pelo seu exemplo, seu legado. Não foi lendo uma frase piegas de um texto qualquer, foi tendo o privilégio de te ver viver por 11 anos aproveitando e fazendo valer cada dia da sua vida. Você me acostumou a presenciar milagres.

Ainda me emociona ver sua imagem ou ouvir sua voz em algum audio, mas confesso que não chorei muito. Quando o choro quer chegar, eu engulo, como aprendi a engolir cada momento rápido de tristeza em que te encontrei e senti que seu tempo acabava. Porque eu jamais te olharia com qualquer resquício de pena.

Guerreiros e guerreiras conhecem e são donos dos seus destinos, se vão lutando. Não morrem, apenas partem orgulhosos e serenos com a sensação de dever cumprido.

Pode ir em paz, querida. Saúde!

Vidas pretas importam

Há alguns dias quero escrever sobre o tema e não sabia como. Em primeiro lugar, porque sou branca. Ainda que meu DNA seja misturado, não faz tanta diferença, minha aparência é européia. Além do mais, nunca passei por nenhum período sério de dificuldade financeira, o que não quer dizer que seja rica, mas definitivamente, privilegiada.

Se me sinto culpada por ser branca e privilegiada? Não, não me sinto culpada. Mas não creio que seja esse o ponto! Nunca foi. O ponto é: o que faço com isso?

Eventualmente, escrevo sobre racismo ou preconceitos de modo geral, quando acho que de alguma forma posso colaborar. Mas dessa vez, me pareceu um movimento diferente, talvez pelo momento em que surgiu. Minha dificuldade é porque estou tentando ainda entender a dimensão dessa questão. Caberia a mim vir aqui e explicar alguma coisa? Porque eu acho que nunca vou conseguir explicar com a mesma propriedade que o faria uma pessoa negra.

Ao mesmo tempo, não acredito que não tocar no assunto ajude. O que fiz, então? Dei um passo atrás e observei. Tentei buscar uma melhor perspectiva, a de quem vive o problema todos os dias.

E acredito que a melhor postura que nós brancos podemos ter nesse primeiro momento é recuar, observar e aprender. Tentar realmente ouvir o que as pessoas pretas estão dizendo. Precisamos falar mais baixo, ou mesmo fazer silêncio e dar voz a quem não está sendo escutado.

Quando a gente diz que “todas as vidas importam, não só as pretas…”, “e a vida dos índios…”, “e o aborto…” ou traz outros temas complicados de preconceito para a discussão, como, machismo, liberdade de gênero etc, estamos na verdade tirando o foco do problema em questão! É lógico que todas as vidas importam! É claro que há outros preconceitos no planeta! Mas não dá para colocar tudo no mesmo pacote e resolver! Vamos por prioridade, por urgência.

Sabe quando você vai para o hospital e entra na emergência? Então, eu mesma estive um par de vezes, em hospitais públicos (europeus). Ninguém vai para a emergência de um hospital porque está feliz ou saudável! Todo mundo ali tem dor, tem incômodo, tem risco… e, certamente, quando estive no banco de espera foi difícil e dolorido. Mas, ao mesmo tempo, tinha a convicção de que não estava correndo risco de vida. De verdade, confiei na triagem que fizeram e, se chegou alguém mais grave que eu, que passe minha frente, foda-se! Problema meu, não tinha espaço para mimimi, eu não estava morrendo, mas alguém podia estar.

Então, queridíssimos, minha vida não é um mar de rosas, trabalhei e trabalho pacas! Ainda que me considere privilegiada, já sofri também, por ser mulher, por ser imigrante… consigo relacionar e ter empatia por quem passa por qualquer tipo de preconceito. Pelo menos, tenho uma ideia do que é. A diferença é a seguinte, uma coisa é eu perder uma vaga no trabalho por ser imigrante ou ter um salário menor que um homem; outra completamente diferente é ter um policial com o joelho na minha garganta! Todos são problemas. Mas qual é o mais urgente? Qual deveria ser a prioridade?

Ficou mais ou menos claro? Desenho?

Não foi um caso isolado. Não foi uma coincidência. Não foi um simples acidente. E a gente não pode mais olhar para o lado, ou apenas pedir paz. Não tem paz sem justiça! Não tem paz com o joelho na sua garganta!

Não há movimento que realmente revolucione sem o apoio de classes dominantes! Eu não acredito, por exemplo, em um movimento feminista que não tenha respaldo masculino. Assim como não vejo possível um movimento anti-racismo ter sucesso enquanto não tiver apoio dos brancos. Ainda que esse apoio não seja total, o que seria utópico, é fundamental que tenha massa crítica! O volume faz muita diferença.

O fato é, como dar esse suporte fora da área de protagonismo ou sem paternalismo? Não vejo outra maneira que não seja: ouve o que eles estão falando, caraca! Sabe o que eles estão falando? Eles estão dizendo: vidas pretas importam!

E, se vidas pretas importam, por que morrem tantas pessoas negras sem a gente se revoltar? Por que a gente olha em volta nas salas de aula das escolas particulares e não acha estranho não haver praticamente ninguém negro? Por que a gente sai para jantar nos restaurantes e não parece esquisito que os negros do local estejam apenas nos postos de trabalho? Por que as cotas são tão polêmicas? Por que a imensa maioria das bonecas são brancas? Quantos super-heróis negros você conhece? E se nada disso te incomodou, você acha que é uma atitude normal? Você realmente acha que não é racista? Você acha que basta simplesmente não ser racista, ou seja, não fazer nada contra? Porque eu só consigo pensar que não fiz o suficiente.

Eu não sei exatamente o que fazer para ajudar, mas de verdade, quero muito. Porque é o mínimo que posso fazer como ser humano. Caso tenha algum leitor preto ou preta, estou aberta a te ouvir e, se isso colaborar de alguma maneira, também disposta a amplificar seu discurso.

Vidas pretas importam.

Desvios do Caminho de Santiago

Uma pequena pausa para os comerciais! Acabo de lançar meu segundo livro! Está à venda através das plataformas da Amazon do seu país. Basta buscar por: Bianca Rocha, Desvios do Caminho de Santiago. Estão disponíveis as versões impressa e e-book, em português.

A ideia de trilhar o Caminho começou a rondar pela minha cabeça por volta de 2006, quando ainda morava em Madri. Em maio de 2007, meus planos se concretizaram.

Em um primeiro momento, não me via em uma fase de grandes transformações e minhas expectativas eram baixas. Não buscava revelações nem respostas, apenas queria usar o privilégio de poder pensar um pouco na vida fora do contexto habitual. Queria ocupar o pensamento com coisas básicas, como, quantos quilômetros vou andar, o que comer, onde dormir… Acreditava que esse era um luxo primário que nem todos querem ou podem dispor.

Obviamente, nem tudo foi como planejei. Conscientemente ou não, mais do que um roteiro rural, tratava-se de uma jornada interior, um encontro com quem eu era.

Portanto, conto no livro sobre a primeira vez que estive no Caminho de Santiago Francês, quando decidi caminhar pouco mais de 200 Km, partindo da cidade de Pontferrada até Santiago de Compostela. Quando escrevi esse depoimento, não sabia que voltaria a realizá-lo por outras três vezes, todas elas experiências bem diferentes. E muito provavelmente, retornarei em outros momentos. Nem tudo penso da mesma maneira, afinal lá se vão cerca de 13 anos, mas procurei manter o que havia escrito e sentido naquele momento.

Convido vocês a participarem dessa viagem comigo! Buen Camino!

Alguns links de compra para facilitar: Livro impresso e e-book no Brasil; Livro impresso e e-book em UK; Livro impresso e e-book na Espanha; Livro impresso e e-book nos EUA.

Londres-Madri-Londres: a saga!

Vou logo avisando que lá vem textão! Daqueles com direito a humor, suspense, raiva, mistério, amizade… tudo de direito!

Simplesmente, porque a pessoa aqui precisou vender um imóvel em outro país em plena quarentena. Mas vamos por partes, afinal toda saga merece ser contada em detalhes.

Nasci em 1969… Ok, menos detalhes! Vamos começar do ano passado.

Em 2019, nós compramos um apartamento pequeno em Madri, como investimento. Alugamos rápido, apenas duas semanas anunciado e, em princípio, tudo ótimo! Como já gerencio imóveis à distância, achei que não seria tão complicado administrar um apartamento em Madri desde Londres. Até bom ter alguma desculpa para ir pelas bandas espanholas de vez em quando. Um par de meses depois, começamos a ter problemas com o inquilino. Essa parte da história, vou abreviar porque é bem chata. O apartamento é mínimo, por contrato era para uma pessoa sozinha, ele colocou outra pessoa no apartamento para morar com ele sem nos informar, nos atrasava o pagamento com mil desculpas, logo parou de pagar, colocamos advogado, uma preocupação do cão porque é um bairro onde há algumas invasões… enfim, um perrengue total!

Com o primeiro comunicado legal que o inquilino deveria pagar ou sair, as negociações ficaram um pouco mais tensas, mas começamos a ver que ele deixaria o imóvel, provavelmente até maio, data que estava programado o julgamento final. De toda maneira, jogamos como policial bom e policial mau e Luiz manteve o contato civilizado com ele. Eu vinha de vez em quando bater um pouco.

No dia 02 de março, Luiz conseguiu convencê-lo a sair, devolvendo metade da fiança. Sim, uma merda você ainda devolver dinheiro a uma pessoa que está te devendo, mas a gente achou que valia para encerrar a preocupação. Nem sei como ele topou, acho até porque como moramos em Londres, ele deve ter pensado que não conseguiríamos negociar pessoalmente pegar as chaves e dar o dinheiro.

Acontece, que quem tem amigos tem tudo! E pedimos a um amigo nosso o IMENSO favor de ir até lá, pagar a ele, mas obviamente, só entregar o dinheiro com o inquilino uruca do lado de fora do imóvel e trocando a fechadura na mesma hora.

Foi muito tenso, mas deu certo!

No dia seguinte, Bianquita pegou o primeiro voo e estava em Madri para recuperar o apartamento, ver se tinha algum problema, passar a conta de luz para meu nome, limpar o imóvel e entregar as novas chaves para uma imobiliária tentar vendê-lo. E assim foi.

Dia 07 de março, voltei para Londres, naquele clima esquisito de COVID-19 começando… aeroportos meio vazios… sem encontrar álcool gel para comprar… tá faltando papel higiênico… mas o que está acontecendo?

Luiz resolveu que deveríamos começar uma quarentena voluntária, mesmo só eu tendo ido a Madri. Enfim, essa parte da história foi contada por aqui há alguns posts.

O que não contamos é que conseguimos tirar um inquilino complicadíssimo apenas uma semana antes de fechar as fronteiras e começar o confinamento espanhol. Uma semaninha depois e não teríamos conseguido tirá-lo de lá nem a fórceps! Inclusive, legalmente não poderíamos!

Ah, então nós ficamos tranquilos, né? Só que não. Porque, como comentei, é um bairro sujeito a algumas invasões e nessa situação, fica difícil controlar o que está acontecendo. E nós com o apartamento vazio não era exatamente tranquilizador. Vai que o ex-inquilino resolve voltar e invadir o imóvel?

Daí, já com o burburinho de que ia fechar tudo em Madri, o corretor ainda conseguiu mostrar o apartamento para vários potenciais compradores e não é que um deles se interessou de verdade? Ou seja, pelo meio de março, com tudo fechado, nós conseguimos vender o apartamento e receber um sinal simbólico. Contrato assinado à distância. Maravilha!

Veja bem, estou falando do meio de março. Nesse momento, a gente não tinha ideia da proporção que as coisas tomariam. Achávamos que íamos esperar umas semaninhas, talvez um mês e logo iríamos a Madri para assinar a escritura e receber o pagamento.

As semaninhas se transformaram em quase três meses e a água foi subindo. Não tínhamos mais certeza se o negócio seria fechado, todo mundo com medo do que vai acontecer economicamente, quem vai ter emprego, e se não vendesse agora sabe-se lá quando alguém resolveria comprar o apartamento. A gente com o apartamento preso e sem receber. E aí?

Pequeno detalhe, no próximo mês, faria um ano que compramos esse imóvel e a faixa de tributação muda! Além do que, estavam por aprovar uma série de medidas no edifício que aumentaria nossos custos e, se a gente votasse a favor dessas medidas, teríamos que arcar com a despesa, mesmo tendo vendido o imóvel. Assim, surreal! Ou seja, a gente tinha porque tinha que fechar o negócio até o final de maio. E ponto.

Conseguimos comprar as passagens e marcamos a escritura para o dia 27 de maio. Vamos de máscara! Vamos plastificados! Foda-se, vamos! O corretor conseguiu agendar tudo, beleza!

Dia seguinte, dá no noticiário espanhol que todo mundo que entrasse no país precisaria fazer quarentena de 14 dias. Como assim? A gente não pode ficar 14 dias em Madri. Cancela a passagem!

Então, Luiz buscou o consulado para tentar fazer uma procuração para um amigo nosso assinar a escritura. O próprio consulado indicou um notário espanhol que trabalha aqui em Londres. Tudo absolutamente legal, o cidadão faz isso há 20 anos, o procedimento é reconhecido pelo colégio de notários da Espanha, custou uma baba, o corretor manteve a escritura para dia 27 de março, foi um perrengue conseguir enviar tudo com antecedência e… vejam vocês… o notário da Espanha não quis aceitar a procuração.

Hein?

É, ele não QUIS.

E isso dele não querer pode? Não, não pode. Nós poderíamos entrar com uma demanda judicial, que levaria sabe-se lá quanto tempo para ser resolvida. Ele insistia que a procuração só seria válida com o carimbo do consulado e não o do ministério das relações exteriores, como constava. Balela, até porque o consulado estava fechado e foram eles próprios quem indicaram a solução para a gente!

Ah, mas o comprador poderia mudar de cartório? Claro que sim. Mas ele também não quis. Disse que era amigo pessoal desse notário desde criancinha e só confiava nele.

Em espanhol castizo: hay que joderse, no?

Meu palpite? Os dois combinaram. Acho até que o comprador queria fazer negócio, mas considerando que tudo em Madri estava fechado e ele não conseguiria alugar nem fazer nada, muito melhor que seguisse em meu nome. Claro, eu pagando todas as despesas e me responsabilizando por tudo e, ainda por cima, guardando o apartamento para ele, né?

Francamente, no meio a uma situação como estamos vivendo, com todo mundo tentando fazer o melhor, e um cidadão nos faz arriscar a vida, encarar dois aeroportos e dois voos, correr o risco de não conseguir voltar, gastar uma fortuna num período difícil… por capricho? Do fundo do meu coração, já perdoei, mas acho um tremendo de um mau karma. Não quero esse povo perto de mim nem em pensamento. Pronto, xô da minha cabeça!

Acontece queridos que o que eu acho ou deixo de achar vale 2 centavos. Como é que a gente fazia para resolver?

Luiz queria entrar novamente com o pedido de procuração via consulado. E aí, Bianquinha deu um ataque de piti!

Eles estão enrolando a gente! Até o consulado resolver essa bosta a gente já poderia viajar, é claro! É só mais despesa e mais tempo! Não aguento mais, vamos para Madri!

Mas e os 14 dias de quarentena?

Dane-se! O que eles vão fazer? Colocar um guarda do meu lado? Como eles vão controlar? Entrar, nós entramos, porque somos espanhóis. O problema é como vamos sair…

Ganesha, tá contigo! Abre nossos caminhos aê!

Bom, o voo anterior que havíamos marcado no dia 27 foi cancelado. Só dava para ir no domingo 24, os últimos dois lugares do voo, e voltar na segunda-feira 25. É assim ou não é! Pagamos um rim nas passagens, mas a essa altura…

Ligamos para o corretor na sexta-feira: es lo que hay! Te vira e marca para segunda-feira! Ele se virou! Aliás, um corretor de imóveis fora de série! Só tenho a agradecer! Daqueles que foi na parceria com a gente, fazendo de tudo para achar soluções.

Certo, então, porque era uma situação muito simples, um outro detalhe, onde é que a gente ia dormir no dia 24?

O lugar onde costumo ficar, fechado! Buscamos alguns outros… fechados também! Luiz achou um bastante caro. E o problema não era apenas ser caro, me dava medo de no hotel poderem controlar o raio da quarentena e sermos forçados a ficar 14 dias! Imagina?

Sim, temos trocentos amigos em Madri, mas cadê a coragem de pedir para dormir na casa deles depois de passar por dois aeroportos e um avião? Porque, por mais que estivéssemos nos cuidando há 3 meses, a nossa exposição seria complicada.

Fui pensando nas pessoas e eliminando quem tinha filhos, quem tinha gente idosa em casa… lembrei de uma amiga solteira e escrevi para ela, completamente sem graça. Em seguida, me arrependi da mensagem e apaguei. Não vou deixá-la nessa saia justa, né? Só que ela viu, me perguntou como estavam as coisas e contei o que houve. Ela respondeu algo como, eu me acabo de medo, mas na rua vocês não ficam. Peraí que vou falar com o fulano (que é muito amigo dela, mas eu só conhecia de vista). Ele tem um apartamento que aluga para AirBnB e está vazio por motivos óbvios. Vou pedir para você ficar lá. Maravilha! Fechou, eu alugo o apartamento dele por uma noite. Ela achava que ele nem ia querer que eu pagasse. Tudo bem! Eu acharei alguma forma de retribuir a gentileza! O importante é que estava resolvido onde ficar e foi um alívio gigantesco!

Abrindo um parênteses, é fato público e notório que falo com deus e o mundo, trato completos desconhecidos como amigos de infância! Às vezes, Luiz se preocupa e fica no meu ouvido: cuidado, porque nem todo mundo é seu amigo… Pois é, por que contei essa história? Por que eventualmente me pergunto se não deveria ser menos espontânea e mais seletiva, é possível que realmente pudesse me preservar mais. Acontece que lembrei de uma coisa e comentei com Luiz, você lembra uma vez que estávamos no LiberArte e fiquei conversando com uma pessoa. Daí ele saiu, acho que para fumar e você me falou meio mal-humorado, quem é esse cara? Respondi, é amigo da nossa amiga, muito gente boa, estava me dando umas dicas de como alugar apartamento aqui em Madri. Luiz respondeu sua célebre frase, nem todo mundo é seu amigo…

Então, como a vida dá muitas voltas, esse “estranho” que eu estava conversando feliz da vida é o amigo da nossa amiga que nos cedou o apartamento para dormir. Assim que, ainda que nem todo mundo seja meu amigo… muitas vezes, eles são!

Tem gente mesquinha, tem gente aproveitadora, tem de tudo! Mas também há muita gente boa e disposta a ajudar! Assim que prefiro correr o risco de me ferrar algumas vezes e seguir sendo gentil, acreditar nas melhores intenções.

Mas seguimos o barco. Por mais que acreditasse que tudo ia dar certo. Vai que prendem a gente por 14 dias na Espanha? Nós temos 2 gatos em casa. De um dia para o outro não é grave, mas duas semanas!

Liguei para meu vizinho, também meio sem graça. Olha a gente não apresentou nenhum sintoma em 3 meses, estamos seguindo todas as recomendações, mas tem essa situação. Você pode cuidar dos gatos se acontecer alguma coisa? Ele também foi super gentil e me deixou tranquila que os felinos não ficariam desassistidos!

Luiz, o que podíamos fazer, está feito! Vamos na raça mesmo e nos virar para dar certo! Levamos na bagagem a escritura do apartamento de Madri, para garantir que tínhamos casa lá e conseguir entrar; assim como o contrato de aluguel do apartamento aqui de Londres, para conseguir voltar. E seja o que tiver que ser!

Ele preparou o arsenal de máscaras, luvas e álcool gel. Combinamos o que falaríamos caso a gente fosse parado na imigração, juntos ou separados. Agendei carro para nos levar. Enfim, estratégia toda montada!

Nosso voo saía às 19h20 de Londres, pousando às 22h30 em Madri. Saímos de casa com antecedência bem razoável, às 15h30. Porque não sabíamos como seriam os controles e esse era o único voo do dia. Não havia margem de erro!

Pontualmente, às 15h30 o carro chegou, um motorista muito simpático, ex-lutador de boxe. Um pouco atrapalhado com a máscara, acho que como todos nós. E sim, estávamos de máscaras, aquela super fodástica que não lembro o nome.

Dessa maneira começou nossa viagem.

No caminho, muitas sensações diferentes, que ainda estou absorvendo. Meus sentidos à flor da pela, minha atenção plena. Uma mistura de alegria, medo, esperança, nostalgia, aborrecimento, frustração, coragem, otimismo, raiva, emoção… tudo junto ao mesmo tempo. Definitivamente, nada me parecia normal, ainda que a maioria das pessoas agisse com estranha naturalidade, inclusive eu mesma! Talvez seja esse o tal novo normal.

Depois de quase três meses em casa, com algumas caminhadas pelo bairro e uma única saída em transporte público por absoluta necessidade, sair de carro e atravessar a cidade foi bizarro. Foi ruim e foi bom demais.

A quarentena em Londres está sendo mais branda que boa parte da Europa. A máscara não é obrigatória em lugares abertos, apenas dentro do transporte público e locais fechados.

Domingo fez um dia de primavera absolutamente lindo! A temperatura agradabilíssima! Dias assim em Londres são um luxo! A rua estava cheia de gente andando de bicicleta, praticando esportes e caminhando pelas calçadas. E nós passando de carro, protegidos por nossas máscaras. Foi tudo tão estranho…

Um lado meu condenava os transeuntes incautos, sem máscaras e sem medo. Outro lado meu morria de inveja. E outro lado ainda estava extremamente feliz de ver as pessoas corajosas e bem. Apostando na vida. Ou não deveriam pensar assim? Será que tem um preço?

Janelas abertas, vento no rosto, me sentindo um cachorro feliz passeando de carro. Outras vezes, completamente abafada pela máscara negra. Preocupada com o que ainda encararíamos, tentando nos visualizar no dia seguinte, aliviados, com tudo resolvido, e em casa.

Curiosamente, tanto tempo na expectativa para sair e agora que estava fora, tudo que queria era conseguir voltar para casa bem e em segurança com Luiz. Logo eu, que me sinto tão valente!

Tudo muito bom, tudo muito bem, perdida em meus pensamentos… praticamente chegando ao aeroporto, que é longe pacas da nossa casa, Luiz quica no banco, caramba, esqueci minha carteira! Precisamos voltar!

Oi? Como assim?

Exatamente, meu caríssimo marido esqueceu seus documentos em casa! Sem eles, não assinaríamos a malfadada escritura.

TAQUEOPARIULÁLONGEDOCARAMBA! Isso não pode estar acontecendo!

Mas estava. Tivemos que voltar o caminho inteiro e ir novamente para o aeroporto. Pelas nossas contas, daria tempo, mas seria literalmente em cima da hora e não podia acontecer mais absolutamente nada de errado!

Então, você xingou, reclamou, brigou? Não, não abri minha boca! Por que iria piorar uma situação como essa? Quem faz isso por querer? Ainda bem que não fui eu ou estaria cortando meus pulsos! Quer saber, vou mentalizar meus mantras! Ai, meus deuses, lá vou eu torrar o saco do Ganesha para abrir os caminhos! Lembrar meus exercícios de meditação… fazer os mudras de Yoga que aprendi… respirar quadrado… o que estivesse ao meu alcance! Sei lá o que funciona ou não funciona, só queria tirar os pensamentos ruins da minha cabeça para não surtar. E funcionou.

Do caminho, Luiz ligou para nosso vizinho e pediu para ele checar se a carteira estava em casa. Após um suspense danado, estava embaixo de um caderno! Sério? O vizinho deixou em um lugar fácil, bem na entrada de casa.

Chegamos no edifício, saímos os dois correndo, com o plano de um ficar segurando o elevador! Naquele esquema, qualquer segundo conta! O elevador chega no nosso andar e… enguiça! A porta não abre! Nossos celulares no carro, e nem adiantava berrar porque está todo mundo dentro de casa.

Luiz tentando abrir a porta na marra, eu apertando botões de emergência. De repente, a porta tornou a fechar, subiu mais um andar e… abriu!

Voamos para fora do elevador, conseguimos pegar a carteira e descemos os cinco andares de escada correndo!

O motorista fez o que dava para fazer, nervoso tentando ajudar, um perrengue só!

Fechei meus olhos, respirei fundo, fui meditando e mentalizando o mantra, om gam ganapataye namah… Ganesha é o removedor dos obstáculos e aquele que abre os caminhos para nossa evolução. Normalmente, se canta para ele antes de qualquer ritual, cerimônia ou trabalho, para que sejamos bem sucedidos.

Tomei uma decisão: eu vou assinar esse documento amanhã e pronto! Ou sim, ou sim! Vou nadando, mas vou! Pensei inclusive no plano B, alugar um carro no aeroporto e tentar atravessar o Eurotunnel!

Mas não foi necessário, chegamos em um horário que acreditávamos ser possível embarcar. No limite, mas paciência, o aeroporto estaria vazio, certo? E havíamos feito o check in em casa.

A partir daí, entramos em um filme de ficção científica. O aeroporto de Heathrow completamente vazio! Corremos para passar nos controles de segurança. Havia uma única loja aberta, que vende coisas de farmácia, água e sanduíches. Como chegaríamos super tarde em Madri e não haveria nada aberto, Luiz foi comprar alguma coisa para comer e eu fui verificar no painel o nosso portão.

O placar eletrônico meio apagado, exceto por uns quatro ou cinco voos marcado. Nenhum deles para Madri. Gelei! Caraca, essa porcaria foi cancelada!

Mas não foi, eu é que não tinha enxergado bem, em outro espaço acima, estava o portão, é que já iria começar o embarque.

Chegamos no portão de embarque cerca de 32 segundos antes de anunciarem a abertura das portas. Acredite se quiser, fomos os primeiros a entrar. Porque foi o tempo de chegar correndo na frente para ler se estávamos no lugar certo e abriram o embarque!

Apesar do sufoco, quero acreditar que talvez tenha sido para nosso bem. Uma das minhas preocupações era ficar ali no grupo, exposta esperando por horas no aeroporto. E isso não foi necessário.

Verdade que o elevador em casa enguiçar foi sacanagem, né? Mas ok, sou uma nova criatura que agradece (quase) tudo agora! A gratidão traz boas vibrações!

Respira aí, que ainda não acabou, falei que era uma saga…

No avião, absolutamente to-dos de máscara! Nos enviaram uma mensagem anteriormente por email avisando que quem não estivesse de máscara não embarcaria. O que concordo em gênero, número e grau.

É claro que teve um único engraçadinho que tentou burlar a regra e ainda se fez de machão. Quase perdeu o voo, tomou uma chamada do lado de fora e usou uma máscara cedida por outra passageira. Fala sério! Não teve apoio de ninguém.

Levei uns lencinhos para desinfetar meu banco, os lugares para o braço, cinto, bandeja… enfim, saí limpando sem a menor cerimônia! Fiz igualzinho à indiana que pegou o voo comigo vindo de Madri havia quase três meses. Naquele momento, achei tão engraçado. Paguei com a língua e repeti o gesto! Devo dizer que ineditamente os aviões estão terminando seus voos mais limpos do que antes da viagem!

Decolamos no horário! Pensei, ufa, mais uma etapa importante vencida! Valeu, Ganesha!

A comissária anunciou que iria passar um formulário a ser preenchido para ser entregue às autoridades de segurança sanitárias espanholas em solo, em função da tal quarentena de 14 dias.

Caraca! Lá vem! Luiz preencheu tudo e ficamos naquela expectativa de como seria.

Participo de uma vigília de mantras diariamente, dessa vez, o foco nem é para mim, é para quem esteja necessitando. Bom, até pode ser para mim, de vez em quando, mas normalmente no meu caso é mais uma doação de energia que o contrário. Não tinha como me conectar por internet, como fazemos de costume, mas paciência, me conectei sozinha mesmo e mentalizei os mantras usuais. Dessa vez, incluindo todas as pessoas que estavam nos ajudando a passar por esse desafio. Foi o tempo de terminar e abrir os olhos, o avião anunciou a aterrissagem.

Passamos pelo controle de passaportes. Beleza! Não era ali que entregaríamos o tal formulário. Eu me acabando de medo de carimbarem alguma data de chegada no passaporte, mas nada!

Fomos andando o mais rápido possível, porque fiquei imaginando o tamanho da fila, com distância de 2 metros entre si, para entregar aquela papelada toda. O voo foi lotado.

Muito bem, a fila ficou realmente gigante, mas estávamos bem na frente, então foi rápido. Primeiro vem alguém com aquela roupa de astronauta e mede sua temperatura com um aparelho que nem te toca. Daí você fala com outro agente que recebe seu formulário e te passa instruções que você precisa medir sua temperatura duas vezes ao dia e anotar. Caso sentir qualquer sintoma, procurar as autoridades imediatamente.

Perfeitamente, moço, deixa com a gente! Ele não falou em que país deveríamos fazer isso, certo?

Entramos! Pensei, maravilha, assinatura garantida! Passo importantíssimo! Gratidão!

Corre para pegar um taxi! Dali, catei o celular avisei ao nosso novo amigo do apartamento que estávamos a caminho. Ele mora no apartamento de baixo e o de cima ele aluga como AirBnB. Contei lá atrás no post, lembra? Então, precisávamos pegar a chave com ele. As mensagens, quem lia para mim era Luiz, porque a cerejinha do bolo é que esqueci de colocar as lentes de contato antes de viajar e nem estava enxergando nada direito! Já quase na rua dele, faltando uns 400 metros para chegar, nosso taxi fica detido, porque havia um carro da polícia parado na frente, bloqueando a rua. Alguns policiais dando uma dura tremenda em um indivíduo! Aquilo ia longe!

Quer saber, estamos próximos do apartamento, resolvemos saltar e fazer o resto do trajeto a pé… na su-bi-da! Sério, para coroar o final da viagem, né? Chegamos suados, com cara de meio mortos, mas chegamos!

Nosso novo amigo e dono do apartamento nos recebeu com um sorriso. Na verdade, se recusou a receber qualquer pagamento, nem para limpeza! Imagina, um prazer ajudar, vocês ficam aqui! Sério, nem tenho palavras! O apartamento uma graça, estava tudo lindo, ele ainda teve a gentileza de deixar comida para o café da manhã, vinho e cerveja! Naquele esquema, relaxa que vocês já tem muita preocupação para resolver. Juro, fiquei emocionada. Não é pelo valor, é pelo carinho e pelo aconchego em um momento de estresse total, e vindo de uma pessoa que mal nos conhecia! Veio como um fôlego, pensei, daqui para frente, tudo só pode dar certo!

No avião, tive uma ideia para retribuir a gentileza. Nosso restaurante favorito em Madri é o El Fogón de Trifón e o Trifón, dono do restaurante, se tornou nosso amigo pessoal. Nessa fase de confinamento, os restaurantes sofreram muito sem trabalhar. Há pouco tempo, ele resolveu fazer entrega a domicílio, coisa que seu restaurante não fazia antes. A gente queria muito prestigiá-lo e senti por ir a Madri nessa correria e não ser possível encaixar uma refeição na nossa agenda. Então, veio a ideia de oferecer um jantar entregue ao dono do apartamento que ficamos. Se a gente não consegue desfrutar, que alguém legal desfrute!

Bom, seria impossível ter uma ótima noite de sono, concordam? Dentro das possibilidades, foi boa sim, mas acordando bastante durante à noite, com medo de perder a hora. A escritura estava marcada para às 11h. Dalí iríamos para o banco, depositar o cheque, passar na companhia de luz para cancelar e seguir direto para o aeroporto. Nosso voo era às 17h e não queríamos chegar depois de 15h em Barajas.

Chegamos cedo ao cartório e eu exercitando toda a minha capacidade de perdoar e tentar não estar de má vontade com o comprador nem com o notário que nos fizeram enfrentar toda essa confusão absolutamente à toa! O importante era resolver.

Confesso que até me surpreendi comigo mesma, porque meu bom humor durante o processo não foi nenhum esforço. Eles não me incomodaram.

Todo mundo de máscara! O notário, de máscara e viseira de proteção. Na mesa havia separações em acrílico, parecia um local de visitas de presídio. Estranho, mas a essa altura, estou achando tudo normal!

E foi tudo certo! Documento assinado e cheque administrativo entregue em nossas mãos. Negócio fechado!

Comentamos que de lá iríamos ao banco, depois à companhia de luz e aeroporto. O corretor pediu que não desligássemos a luz ou seria muito mais complicado religar. Ele mesmo se comprometeu a fazer a transferência de titularidade para a gente. Perfeito! Menos um trabalho e ganhamos tempo!

Aliás, devo confessar que normalmente tenho má vontade com corretor. Acho sempre um valor de comissão exagerado, costumam me encher o saco e muitos deles chegam inclusive a atrapalhar o negócio. Pois paguei com minha língua outra vez! Nesse caso, o trabalho deles valeu cada centavo! Conseguiram um comprador em plena quarentena, no preço que me interessava, deram a maior assistência para gerenciar esse conflito para a assinatura da escritura, me orientaram com a documentação e, ainda por cima, eram legais! Portanto, faço aqui minha propaganda, a imobiliária foi a Tecnocasa.

Bom, fomos direto para o banco depositar o valor. Não sabíamos bem como estariam funcionando, mas foi tranquilo também. Só podíamos entrar de máscaras e luvas. Eles tinham luvas descartáveis para oferecer, mas nós levamos as nossas. Funcionários simpáticos. Nenhum problema!

Na verdade, toda interação que tivemos, com funcionários do banco, motoristas de taxi… qualquer pessoa, foi bacana. Acho que estavam todos carentes de se relacionar socialmente, todos queriam falar qualquer coisa. E sempre com muita gentileza. Lógico que a questão financeira pesa também, mas senti uma vontade genuína da parte deles em se comunicar.

Esqueci de contar outro detalhe, dia 25 de maio foi o primeiro dia da flexibilização da quarentena espanhola, quando parte do comércio pôde abrir, dentro dos protocolos de segurança. Os bares e restaurantes ganharam o direito a abrir suas terrazas, ou seja suas mesas externas, mantendo certa distância entre essas mesas. Ou seja, ainda por cima, tivemos a sorte de estar presentes em um momento tão especial na cidade!

Para quem não conhece Madri, é preciso entender que eles possuem uma cultura callejera muito grande. O povo gosta de passear na rua! Seja para encontrar amigos, para sentar nos bares ou simplesmente andar nas calçadas. É verdade que ninguém no mundo gosta de ficar preso, mas garanto que para um madrileño castizo, é a morte lenta e dolorosa.

Então, imagina um dia lindo e ensolarado de primavera quase verão, quando finalmente o comércio pode começar a abrir e as pessoas, que estavam presas há quase 3 meses, são liberadas para estar na rua! De máscaras, lógico, não importa, porque essa liberdade condicional passou a significar muita coisa!

Havia um clima de otimismo bonito, aquela sensação de haver uma luz no fim do túnel. De saber que o número de pessoas morrendo ou sofrendo diminui a cada dia. A consciência de que dias melhores virão e que, quem sabe, talvez o pior já tenha passado.

Saímos do banco aliviados. Sabíamos que não havia acabado, a volta seria outro desafio. Mas foda-se, na vida não há nada garantido e acho que depois de tudo que havíamos passado, merecíamos um momento de celebração.

E modéstia às favas, tenho essa habilidade de no olho do furacão pedir altas! No esquema: ô problema, espera aí um minutinho que já volto para te resolver! Agora estou ocupada sendo feliz um instantinho!

Checamos a hora, tínhamos algum tempo. Buscamos em volta alguma terraza aberta para comer alguma coisa e desfrutar da rua. Encontramos quase em frente ao banco, um bar de champagne, imagina isso? O que poderia ser mais perfeito para celebrar?

Preciso dizer o que foi que pedimos para tomar? A garçonete numa felicidade contagiante! Mesmo de máscara, podíamos notar seu sorriso largo! Nos disse que era a primeira garrafa de champagne que abriam no bar nos últimos três meses! Celebramos todos o som da rolha, inclusive as mesas ao lado. Da outra ponta, alguma desconhecida me fez um aceno de aprovação e retribuí!

Não sei exatamente quanto tempo ficamos e não acho que era importante, mas aquela sensação que o relógio parou. Ao fundo aquele som de burburinho gostoso, como só em Madri e que me faz sentir tão em casa. Eu nem sabia que tinha saudades nesse nível de detalhes.

Mas nossa saga ainda não havia acabado. Precisávamos voltar para casa. Pés no chão novamente, bora lá!

Pegamos um taxi para o aeroporto, dessa vez chegamos sem afobação. Novamente, entramos em um filme de ficção científica. Nunca vi, nem quero ver outra vez Barajas vazio e triste assim.

Rolou algum suspense, claro, mas não tivemos problemas. Na verdade, a volta foi bem mais fácil. Tem sempre aquele momento tenso de olharem seu passaporte, checarem no sistema e você ficar esperando alguém te perguntar, ué mas você não chegou ontem? Só que isso não aconteceu. Entramos direto, embarcamos e o voo dessa vez estava vazio.

No aeroporto em Londres, por coincidência, o mesmo motorista que havia nos levado foi nos buscar. Bom que assim descobriu que havíamos conseguido chegar a tempo.

Dessa vez, era uma segunda-feira e as ruas estavam bem desertas. Passar pelo centro da cidade e quase não ver ninguém, onde normalmente você nem consegue enxergar a calçada, foi totalmente surreal. Dá um aperto no coração.

Na praça de Trafalgar, um carro blindado dando proteção à distribuição de alimentos. Uma fila longa para recebê-los, com distanciamento entre as pessoas.

Vim lembrando de mim mesma passando por aquelas ruas lotadas em outras ocasiões e nem sei dizer bem o que sentia, não era exatamente saudade, talvez um tipo de nostalgia. Tudo tão igual e tão diferente.

Chegamos em casa, sãos e salvos! Meus gatos bem, sem ideia do tamanho do caminho que havíamos percorrido do lado de fora. Quantas coisas podem acontecer em 24h?

Tomei meu banho, fui dormir completamente exausta! Acordei no dia seguinte mais velha e mais consciente de tudo que passamos e teremos que passar. Não sei o que vai acontecer, ninguém sabe. Sei que não tem volta.

Mas sei o que vi e senti, para o bem e para o mal, e hoje vou escolher o bem. Hoje decido pela esperança em dias melhores e ensolarados, de vento na nuca, som de copos brindando, ruído de gente ao fundo rindo, de estranhos contando suas vidas e da possibilidade de perceber sorrisos atrás das máscaras.

É bom saber que a vida encontra seu curso e que, muitas vezes, verdadeiras sagas acabam bem. Deu tudo certo!

Fim.

E daí?

Daí que não se cura vírus com decreto. O COVID-19 não se assusta com berros.

Daí que a gente deveria aprender com a experiência alheia. Quando a economia de todo um planeta é alterada, não pode ser uma simples invenção de algum país.

Daí que é verdade que nem todas as nações podem combater seus problemas da mesma forma. É possível que parar radicalmente o Brasil trouxesse mais destruição. Mas o MÍNIMO que as pessoas precisam ouvir é a verdade, que é uma doença séria e que mata. E que precisa haver algum protocolo de segurança a ser seguido, como o uso de máscaras, luvas ou algum outro tipo de proteção. Não é uma gripezinha e não afeta apenas idosos ou pessoas fragilizadas.

Daí que o resto do mundo está evitando aglomerações, o Brasil está promovendo passeatas, carreatas e manifestações, com apoio do seu principal governante.

Daí que não entender as proporções do alcance desse problema é ignorância. Entender e ignorar é genocídio.

Daí que pessoas inteligentes mudam de ideia, prepotentes e loucos querem apenas ter razão.

Daí que quem tem alguma condição ou melhor informação e pode estar em casa está sendo acusado de covardia ou preguiça.

Daí que o mundo está se unindo para vencer um inimigo real: o vírus! O Brasil está se dividindo e impondo absurdamente uma ideologia e uma classe social a uma doença.

Daí que a população está perdida e desgovernada. Não sabe o que seguir ou acreditar e isso está custando sangue. Tem muita gente morrendo desnecessariamente.

Daí que a imprensa é tendenciosa sim, mas melhor ter alguma que possamos reclamar do que nenhuma. Independente da tendência em que se mostre, o vírus é real, as mortes são reais, não estão sendo inventadas por alguma cadeia de televisão.

Daí que quando se elege um presidente não se assina um cheque em branco. Isso foi dito sobre a oponente anterior e segue se aplicando.

Daí que a independência dos três poderes existe para garantir a soberania de uma nação, não apenas seus próprios privilégios.

Daí que a força militar de um país está para proteger o Estado, não para zelar pelas vontades de uma única família.

Daí que um ditador manda, um presidente lidera.

Para as mães felizes e para as tristes também

Eu cresci sem querer ser mãe. Não queria, não sentia falta nem necessidade de ter uma criança. Tenho 50 anos, casada há 26, não tenho filhos e tudo bem.

Isso é uma fase… quando chegar a hora você muda… só as mães amam… apenas quem é mãe entende o amor incondicional… quem não tem filhos é egoísta… quem vai cuidar de você na velhice… quando você casar você vai querer… você tem algum problema… seu marido tem algum problema… você passou por algum trauma… um dia você vai realizar esse sonho… quem não tem filhos não tem coragem… quem não tem filhos é incapaz de um amor maior… quem não tem filhos não sabe o que é amar de verdade…

Eu ouvi todos esses absurdos e, pode ter certeza, muitas outras aberrações durante a minha vida. Faz um tempo que não ouço mais, não sei se pela minha idade e as pessoas desistiram, ou porque passa pelos meus ouvidos diretamente, como um ruído desagradável porém rápido. Como o som chato de mosquito, que incomoda, mas se vai sem deixar maiores memórias e sem nenhuma relevância.

A propósito, da minha mãe mesmo, nunca ouvi nenhuma das frases acima.

Pois muito bem. Eu nunca quis, até que um dia eu duvidei da minha vontade. Não pelas besteiras que escutei ou por motivos alheios, mas pelos meus próprios motivos. E muito, talvez, pela idade em que me aproximava, o tal relógio biológico.

E sim, queridas mulheres mais jovens, o relógio biológico bate, independente das suas crenças. Porque te lembra que, em breve, não será mais uma possibilidade ou uma escolha. Para mim, o fato de não poder ou não ter escolha é algo que me questiona. Hoje, talvez menos que antes.

Foi um momento bastante forte, que tirou algo do meu chão, me deixou um pouco perdida na época. Mas que, ao mesmo tempo, admito que também me trouxe uma força bastante grande. Na verdade, talvez o mais certo seja dizer que não me trouxe, mas me despertou, porque a força estava em mim, assim como em todos.

Contra as minhas previsões, eu decidi ser mãe. E fui. Engravidei aos 42 anos, mas perdi a criança com dois meses de gravidez.

Foi o luto mais forte que enfrentei. E não quero aqui colocar a responsabilidade da minha dor em ninguém, ela foi e é só minha. Mas preciso compartilhar uma situação para que outras mulheres se sintam compreendidas e, quem sabe, melhor acolhidas. Acho que esse é um luto absolutamente subjulgado. Porque para quase todos à sua volta, você perdeu uma gravidez. Para a mulher, para a mãe, você já sentia a criança dentro de você. Eu não perdi uma gravidez, perdi um filho.

E me parece estranho as comparações com os níveis de dor. Porque teoricamente, você é levada a crer que “foi melhor assim”. Pior seria se perdesse depois de nascido. É como se você não tivesse o direito a passar pelo luto de um filho. Te negam o direito de assumir uma maternidade que existiu pelo único critério de haver sido breve.

Pergunto aqui, sofre mais uma mãe que perde seu filho aos cinco anos do que a que perdeu quando o seu só tinha três? Sofre mais a mãe que perdeu seu filho aos 32 do que aos 23 anos? E por que há necessidade de se estabelecer um ranking de sofrimento?

A dor é minha. Perdi um filho. Respeitem meu luto que existiu. E passou.

Honestamente, apesar de tudo que me trouxe e, também, por tudo que me trouxe, sou grata. Porque hoje posso dizer com convicção, ninguém precisa ser mãe para amar de verdade. A capacidade desse amor está lá, essa força de leoa está lá, todos seus instintos estão lá… só precisam ser despertados. E sim, ter um filho é uma forma de despertar todo esse amor, que não caiba nenhuma dúvida sobre isso! Mas há outras, tão intensas e generosas quanto.

Portanto, não venho aqui tirar o mérito de ninguém, muito pelo contrário. Quero apenas dizer que, todas e todos nós, mães ou não, temos direito e merecemos um dia feliz.

Feliz dia para todas nós! Feliz dia para minha mãe! Feliz dia para mim!

Lady Bianca of Glencoe

Porque também há espaço para gaiatices durante a quarentena…

Estou eu trabalhando sossegada no meu computador, aparece Luiz na sala: já sei o que vou te dar de presente!

Oi?

Ele achou uma empresa que vende pequenos pedaços de terrenos de nobres, coisa de 30 cm2. E sim, você leu certo, são centímetros, não metros, mal caberia uma pessoa em pé, mas é o suficiente legalmente para te justificar ter um título de lady ou lord daquele local. Ou seja, uma maneira de comprar um “título de nobreza”.

Como é que é esse negócio? Acho que eu quero… Mas vou ter que esperar até novembro para virar lady? E você, como é que eu vou ser lady casada com um plebeu?

Resumo da ópera, claro que não esperamos e ele comprou dois mini-pedaços de terra e agora somos oficialmente Lord e Lady de Glencoe! Juro, com certificado e tudo!

Lógico que passamos o dia com milhões de piadinhas infames, My Lord para cá e My Lady para lá! E se fosse só por isso, já teria valido a história. Só que tem mais, o título literalmente pode ser passado para seus herdeiros! Tipo, é piada, mas é sério!

Na prática, o que muda na nossa vida? Nada, é um certificado em papel e a garantia de 30 cm de terra (ou 60 cm no nosso caso por sermos dois) em algum lugar que provavelmente nunca iremos. Mas não quero nem saber, achei o máximo!

Estou me sentindo até mais fina! Será que ainda posso falar palavrão? Melhor não, né? Afinal, agora sou uma lady… Lady of Glencoe

Sobre generosidade e gratidão

Sinto que ando meio monotemática, né? Acho que todos estamos um pouco, faz parte do momento atual. Parece que tudo gira em torno do tal COVID-19. Difícil não pensar que estamos ainda no centro de uma pandemia e tentando entender como devemos nos posicionar.

Nos aproximamos de quase 50 dias em distanciamento social e, como escrevi anteriormente, no início foi bem mais difícil que agora. Meu tom era muito mais sério, acreditava e sigo acreditando que estamos em período de guerra. Mas como costumo pensar, uma guerra não se vence em um dia, são várias batalhas que devem ser celebradas. Perdemos algumas, mas estamos ganhando e realmente acredito nisso. Gosto de frisar esse fato, porque para quem começou depois de nós e possa estar numa fase depressiva, é sempre bom ouvir que as coisas podem melhorar.

Tenho observado uma coisa bacana que é o fato de muitas pessoas estarem compartilhando de tudo com os demais, desde habilidades e dicas a máscaras ou comida. Verdade, que há quem aproveite o momento como uma oportunidade de negócio, o que não vejo como nenhum problema, por que não? Para que julgar? As pessoas seguem precisando pagar suas contas. Mas também percebo, em grande parte, uma generosidade genuína.

Em contrapartida, me sinto muito grata por tudo que tenho conseguido aprender e receber nesse período. É um fôlego de esperança ver tanta gente se esforçando para dar o seu melhor, ou para si mesmo, ou para sua família ou para completos estranhos.

Isso me dá muita vontade de oferecer alguma coisa também, como uma vontade de não romper a corrente. Acho que no início, quando não estava tão bem, não enxergava o que poderia oferecer. Talvez fosse realmente um momento em que precisasse receber mais, pedir mais, o que para quem me conhece, sabe que me é muito mais difícil. Mas até essa lição de humildade me veio bem a calhar. Porque eu recebi bastante e sou grata.

Então, talvez tenha chegado minha vez. E antecipo que honestamente não tenho nada tão extraordinário para oferecer. Porém, me ocorreu que, quem sabe o que muita gente precise seja mesmo ouvir coisas simples, dicas rotineiras ou um mero reforço de outra pessoa que esteja fazendo coisas parecidas ou sentindo algo semelhante. É bom a gente se sentir parte de algo, saber que não somos os únicos a pensar de determinada forma.

Para algumas pessoas, foi importante criar rotinas em casa. Tanto em horários, maneira de se vestir etc. Acho super válido! No nosso caso, isso não foi tão impactante, porque as minhas principais atividades eram mesmo praticadas em casa; e Luiz, há quase um ano vinha trabalhando bastante em “home office“. Ou seja, acredito que seja um passo que ajude de modo geral, só que já havíamos dado.

Muita gente também aproveitou para arrumar casa, armários, fazer limpeza… Veja bem, acho que funciona para alguns, para mim, não. Sou minha própria faxineira há anos! Vida européia, lembra? Não me queixo em fazer, mas são atividades que não estavam atrasadas em casa e não me proporcionam nenhum prazer. Num momento de privação, fazer algo que sempre achei chato não me ajudou nada!

Daí busquei uma atividade que gosto de fazer: amo cozinhar! A comida na nossa casa sempre foi nosso maior luxo! Então, pronto, algo que me dava o maior pazer! Claro que o cardápio aqui ficou um escândalo! Bom por um lado, porque serviu de compensação; e mau por outro, exatamente porque também serviu de compensação. Não estamos passando nenhum tipo de privação na categoria gastronômica, e sou muito agradecida por conseguir fazer compras regularmente, de ingredientes importantes e frescos. Que nunca nos falte!

E se eu cozinhava bem, e modéstia às favas eu cozinho pacas, estou matando a pau! Isso sem falar dos vinhos, né? Que para mim entram na categoria alimentação da mesma maneira!

Entretanto, é verdade que, além da alimentação saudável, também estamos comendo todo tipo imaginável de besteiras: pizza (que eu nem gosto!), chocolates (adoro!), pão (gosto, mas não costumo comer), bebidas (antes só nos finais de semana), carboidratos à vontade (com tanta gente chata no mundo, vou cortar logo carboidrato da minha vida?), tira-gostos, bacon, embutidos etc. Deu vontade, a gente come!

Lógico que engordamos! Estou me sentindo uma cadela Shar-pei, cheia de dobrinhas! E o que ainda não sei se é bom ou mau, não estou infeliz com meu corpo.

Mas sei que não é legal seguir assim. Funcionou bem para trazer alegria, e trouxe, porém tudo que sai do equilíbrio não é bacana. Sinto que é hora de, não digo cortar de uma vez, mas entrar no eixo. Paciência! Esse setor da vida ainda está em fase de aprimoramento!

Exercício físico: putz, que dificuldade! Estou tentando, mas tá foda! Não vou desistir, mas estou longe do ideal, sei que é algo que ajuda muito em todos os sentidos e preciso dar um jeito de recriar o hábito. Fico me iludindo que quando as “fronteiras” se abrirem novamente será uma ótima motivação, mas no fundo, sei que esse chip precisa ser instalado na minha cabeça antes.

E por falar em hábitos, o que tem me ajudado EXTREMAMENTE (com letras garrafais) é fazer meditação. Sério, está mudando minha vida! E foi uma das coisas que precisei de ajuda. Não costumo citar nomes no blog, mas faço algumas exceções quando acho que pode ajudar tanto quem oferece, quanto quem procura, então citarei alguns, vamos lá.

Fazer meditação é algo presente desde a adolescência, quando fiz um curso chamado “Silva Mind Control“. Foi a primeira vez que ouvi falar a respeito e achei muito bom aprender algumas metodologias. Mas não vou mentir, não são práticas que usei continuamente, é algo que esquecia por anos… depois fazia por um tempo… depois esquecia… e por aí vai!

Acho que pelo meio do ano passado, senti a necessidade de voltar a meditar. Comecei a desenvolver esse hábito ao acordar, antes de me levantar. Era um pouco complicado, porque com Luiz trabalhando de casa, era difícil não me desconcentrar com sua voz nas suas reuniões, ele não fala muito baixinho. Fora o fato dele resolver entrar no quarto pela manhã para me dar bom dia e me interromper diversas vezes no meio da história! Tive a feliz ideia de começar a ouvir música relaxante durante a meditação. Foi ótimo! Primeiro, porque se tem música no quarto, ele não entra para me interromper, ou pelo menos, não fala comigo. Mas, principalmente, porque descobri que alavancava minha capacidade de concentração. E, mesmo quando não estava meditando, colocava a mesma lista de músicas no fundo e isso me tranquilizava instantaneamente. Não era perfeito, afinal, tudo na vida é prática e força de vontade, mas funcionava relativamente.

Quando estourou a pandemia e tivemos que ficar em casa, a depressão me bateu. Eu precisei muito, primeiro, reclamar. Acho que precisava colocar a pressão para fora! Cada vez que ouvia que eu era uma privilegiada por estar na situação que estávamos, por saber que havia gente bem pior e blá, blá, blá… me irritava mais! Era como se eu não tivesse o direito de me aborrecer por nada, afinal, sempre haveria gente pior!

O que eu precisava era ter o direito de estar triste, de estar aborrecida, frustrada, irritada, com medo, preocupada… enfim, aceitar que eu tinha problemas ou como costumo dizer, chamar meus demônios pelos seus nomes!

Pois reclamei, escrevi, coloquei para fora! E foi ótimo! Porque no minuto seguinte em que parei de precisar negar o que me perturbava ou minhas “fraquezas”, estava pronta para fazer algo mais profundo a respeito.

Agora vamos falar das maluquices! Tenho consciência do quanto pareço séria, mas de perto, sou doida de pedra! Então, eu sempre me regulo pelos extremos. Não tenho um pingo de juízo, portanto, preciso ser super responsável, ou me mato em algum exagero. Sou completamente distraída, mas muito mesmo, por isso, preciso de foco absoluto para cumprir tarefas. E ainda por cima, completamente controladora, o que me fez desenvolver uma disciplina tibetana ou me perco!

No meu dia-a-dia normal, trabalho com duas ou três telas de computador abertas. Provavelmente, haverá uma onde estarei escrevendo textos para o blog ou potenciais livros, outra com jornais, índices das bolsas de valores e “trocentas” planilhas abertas sobre nossa vida financeira em três países, outra com whatsapp e mensagens que vão desde fofocas da família a resolver pepinos de obras e inquilinos (claro, nunca no país em que estou), o celular na frente com o Instagram… tudo junto ao mesmo tempo, em idiomas diferentes e com o fone de ouvido escutando música barroca (geralmente, Mozart, que é muito produtivo!). Eventualmente, interrompida pelo meu gato, que quer deitar no lugar do teclado, ou pelo Luiz que quer fazer um intervalo do trabalho dele. Entre uma coisa e outra, faço a comida e arrumo a casa. Arrumar a casa… é meio nas coxas. Fazer a comida é meu momento de lazer, de certa forma, não deixa de ser um tipo de meditação.

Não contei isso para me exibir, mas para ilustrar o quanto sou control freak! Então, imagina essa pessoa que controla tudo, de repente entender que o mundo mudou e eu não sei mais se meus planos cabem no que vem pela frente. Tipo, para tudo! Fodeu!

Meu nível de ansiedade foi na estratosfera! Eu não tinha vontade de levantar da cama! Bianquita, esquece o futuro, esquece o passado, porque não há nada, absolutamente nada que você possa fazer agora a esse respeito. Ou eu aprendia a viver no presente, ou enlouquecia de vez!

Primeiro passo, voltar ao meu centro de equilíbrio! Como faço isso? Não sei, então, deixa eu olhar para dentro… ah, meditação é isso, não? Olhar para dentro! Beleza, decidi, entre outras coisas, focar na meditação. Acontece que tinha poucas ferramentas, uma ou outra técnica aprendida há anos ou coisas que eu lia… Ok, sozinha não vou muito longe, deixa procurar em volta.

Tenho uma grande amiga que é terapeuta transpessoal, tipo assim, na minha cara, né? E eu ralando sozinha por que mesmo? É a Katia Pattaro, que tem um canal no Youtube, chamado Círculo Consciente. Quem quiser saber mais a respeito, passa por lá, mas o que me chamou a atenção foi uma quarentena de exercícios diários para ajudar a desenvolver a atenção plena, Mindfulness Dia a Dia. Comecei a seguir e me ajudou bastante, porque tem me dado uma série de ferramentas para lidar com ansiedade, frustrações, enfim, situações presentes na vida de todo mundo, mas que ficam superdimensionadas em momentos como esse. E por isso, sou grata!

Segui com minhas meditações, todos os dias pela manhã, agora, com mais possibilidades.

Mas, ainda não era o suficiente, estava precisando de drogas mais duras, porque não queria apenas voltar ao eixo, queria ir mais além. A meditação tem uma dificuldade extra para mim, me distraio com muita facilidade e meus pensamentos são muito intensos, aliás, acho que tudo meu é intenso, né? Arrego! Sou dos extremos: ou hiper concentrada ou lararí larará! Estou me esforçando, melhorando essa capacidade, mas faltava algo.

Talvez o universo conspire, ou talvez estivesse prestando mais atenção… mas nesse ínterim, estou eu olhando o Instagram e vejo um aviso que meu ex-mestre do surdo estava entrando com vídeo ao vivo. Achei que seria algo relacionado à percussão e entrei, mas nada a ver! Na verdade, era uma vigília de mantras.

Oi? Vigília de mantras, o que é isso? Bom, não cabe a mim contar essa história, porque não é minha, mas resumidamente ele enveredou há alguns anos para o estudo de mantras, entre outras coisas, e nesse mesmo período também iniciou uma quarentena, onde todos os dias, às 18h30 do Brasil, passa alguma orientação sobre o assunto e canta determinados mantras em sânscrito.

Fiquei curiosa e, por instinto, achei que poderia ser bom para mim. Afinal, o que teria a perder em ouvir? Comecei a escutar bem quieta no meu canto, sem me pronunciar, tentando captar os mantras de ouvido e seguir. Obviamente, conhecimentos de sânscrito não são, digamos, exatamente meu forte, mas tudo bem, decidi não me cobrar, nem julgar, só segui o som e a energia. Por minha conta, fui buscar no google as letras, fiz uma “colinha” com fonte grande para eu enxergar sem óculos, coloquei meu despertador para o horário de início e comecei a frequentar todas as noites, completamente aberta a receber.

Quando me dei conta, estava eu, cantando em sânscrito, absolutamente concentrada. Na verdade, foi muito mais fácil para conseguir me concentrar. Em parte, porque estava mais preparada, talvez pelas ferramentas extras que estou aprendendo; em parte, porque queria de verdade e precisava; mas definitivamente, porque a vibração funciona para mim. E, hoje em dia, na minha vida, se algo funciona, nem quero me preocupar em buscar explicações complicadas, eu vou!

Ah, mas você não é ateísta? Sou. Ah, mas então, como você está cantando para deuses indianos? Com a boca. Ah, mas como alguém que não tem fé pode sentir a energia? Com o corpo, sinto fisicamente. Talvez seja mais difícil para mim do que para outras pessoas mais evoluídas, honestamente, nem me importa. Foi algo que me trouxe paz, pôs meus pés no chão. Melhorou minha capacidade de meditação, me tranquilizou não só durante a vigília, mas durante o dia, quando me pego várias vezes entoando mantras e, inclusive, me ajudou bastante a dormir, coisa que é muito difícil para mim. Por tudo isso, sou grata.

Pois muito bem, acho que acompanhava os mantras há um par de semanas e meu ex-mestre (aparentemente, atual também, né?) pediu um retorno das pessoas, o que estavam achando e tal. Imaginei que seria difícil você estar falando ao vivo com pouco retorno, no sentido que as pessoas te veem, mas você não sabe se elas estão conseguindo acompanhar, se tem dúvidas, enfim, até aquele momento, não havia pensado nessa possibilidade e ainda estava calada. Resolvi escrever para ele e contar mais ou menos essa história e dizer o quanto estava me ajudando.

Aliás, faço aqui um parênteses, isso está entre as coisas que estou tentando exercitar: dizer para as pessoas o que de bom elas me trazem. Muitas vezes, para não “incomodar”, a gente se omite. Talvez pelo medo da rejeição, ou de interromper, ou de ser mal interpretado, ou vergonha… Mas, na prática, todo mundo gosta de saber que ajuda, que faz algo bem, que importa para alguém… Eu também gosto, então, por que não compartilhar?

Voltando à história, resolvi escrever para ele e contar como estava me ajudando e o retorno foi muito bacana! Recebi mais orientações importantes, descobri que nem precisava ter feito minha “colinha”, porque ele já havia disponibilizado o material todo, enfim, foi muito bom! Foi legal também me sentir bem recebida no grupo, é importante a gente se sentir parte de coletividades, principalmente nesse momento de distância física entre as pessoas. Acabou que a esposa dele orienta meditação pela manhã, comecei a tentar seguir também, é um horário não muito fácil para mim, mas tento e igualmente está me ajudando. Fico mais atenta com alguém orientando. Outra vez, sou grata.

Para quem ficou curioso, a vigília de mantras está sendo feita no Instagram, diariamente às 18h30 do Brasil, o perfil é @mariomouraom. E a meditação matinal é feita pela esposa dele, às 6h30 do Brasil, no perfil @nandajank. Ambos os perfis são abertos à participação, claro, com o devido respeito a um trabalho sério.

Muito bem, já falei bastante desse lado meditativo, mas é porque realmente foi o que me deu a base para as mudanças pessoais que estou enfrentando, e acho que enfrentar é a palavra certa. Não tem sido fácil, é algo que tenho que me dobrar, mas cada dia é melhor. E acho que pode ajudar outras pessoas também.

Quando esse processo de mudança se iniciou, eu precisava de um ritual de passagem. Aliás, não só por isso, acho que nunca é uma coisa só. É sempre uma cadeia de fatos que leva aos inícios e finais de ciclos. No meu caso, foi no início da quarentena, quando raspei minha cabeça, escrevi um pouco sobre isso antes. Acho que marcos desse tipo nos ajudam a entrar no clima. Ninguém precisa sair por aí raspando a cabeça, é só um exemplo e que tenho observado se passar com outras pessoas. Cada um é capaz de encontrar seu próprio marco pessoal, mas com certeza é uma coisa que ajuda. É o índio que pinta o rosto de vermelho antes de ir para a guerra. Pode ser um batom vermelho também e tá beleza! O que importa é o que simbolize para você. É o seu ritual.

Pausa para gaiatice! Meio careca e meditando direto, tô uma monja budista, né? Nem vou falar que também meio gordinha dos excessos gastronômicos… porque aí é o cão chupando manga, mas tudo bem, seguimos!

A partir de todas essas iniciativas juntas, comecei a notar que minha vida melhorou, mas melhorou muito! Não tenho hora exata para levantar da cama, mas quando levanto é com vontade, é pronta para o dia. Ainda me distraio, às vezes, mas tenho mais ferramentas agora para me trazer de volta e faço um esforço contínuo para buscar a tal atenção plena. E quando vou dormir, estou em paz. De repente, me dei conta que consegui mudar mais de um hábito, numa tacada só. Não é fácil, ainda não é totalmente automático, mas tudo bem. E sou grata por haver me permitido tentar.

Tenho produzido bastante, mudei minha mesa do escritório, que dividia com Luiz para a sala, estou escrevendo com ritmo parecido a quando morava em Madri. Era o fato de caminhar nas suas ruas que me inspirava a contar histórias. Curiosamente, é justo quando menos ando agora que me bate onda similar de inspiração.

Ao ficar mais produtiva, meu humor melhorou horrores! O que imagino estar fazendo a vida do Luiz melhor. Achei que ele também ficou mais leve, pelos próprios motivos, mas talvez por um respiro do meu lado. Acho que uma coisa vai influenciando a outra.

Algo que também me ajudou bastante foi mudar a atitude de me ver presa. Comecei a notar que boa parte dos meus dias, estaria realmente em casa de qualquer maneira, independente de quarentena ou vírus. Então, por que esse momento deveria me incomodar tanto? Sei que não é a mesma coisa estar em casa porque quer e não porque precisa, mas ainda assim, se você pensar, por exemplo, durante à noite, você estaria dormindo na sua mesma cama de todo jeito. Se você dorme, sei lá, 8h por dia, mais uma ou duas horas para se arrumar e sair para o trabalho, ao invés de imaginar que está há 24h presa, você estaria apenas 14h, as outras 10h faziam parte da sua rotina. É psicológico, eu sei, mas para mim fez diferença. Eu tinha menos horas do meu dia para achar ruim estar em casa… e, de repente, tinha menos horas na semana para achar ruim estar em casa. Porque minha cabeça estava livre, minhas ideias estavam fluindo.

Se você não pensa assim, não tem problema nenhum! A gente não precisa concordar nem ser igual, só estou falando que quando não tem jeito, é possível buscar alternativas. E se não houver alguma opção, tudo bem se aborrecer e reclamar. Solta o ar, alivia a pressão e… calma, vai passar.

Outra coisa muito bacana! Estou retomando ou fazendo contato com gente que não teria possibilidade de encontrar pessoalmente com a mesma frequência. Levo vida de expatriada há muitos anos, lido bem com a saudade e as ausências, acredito que isso até me deu uma vantagem e estou sabendo aproveitar. Eu acho o máximo os encontros virtuais, adorei usar o tal Zoom! O Youtube faz parte importante da minha vida agora! Viva a tecnologia!

Todo sábado, assisto um concerto de um amigo músico de Madri. Já sou figurinha carimbada, não perco um! Acho uma delícia encontrar pelo chat os amigos de tantos anos ou gente que não conheço, mas aprendi os nomes que usam virtualmente. Aliás, faço a propaganda porque é ótimo! Informações no website dele, www.pitumusica.com.br. Sempre aos sábados, às 20h de Madri, a gente paga 3 euros pelo link de acesso e assiste mais de 2 horas de música boa ao vivo pelo Youtube, muitas vezes damos pitaco no repertório, não me sinto distante. Na verdade, lembra que não bato muito bem, né? Nesse dia, eu me maquio e me arrumo toda, coloco brinco, perfume, tudo de direito! Como se fosse realmente sair para o show! Preparo os aperitivos, escolho um vinho bom, canto junto… eu realmente curto o programa! E sou grata por isso.

Luiz, nem sempre assiste o concerto todo comigo, porque também é um dia que se reúne pelo Zoom com amigos do tempo de colégio (ou de algum outro grupo, ele tem mais de um, posso estar fazendo confusão). De toda maneira, fico eu na sala num concerto em Madrid e ele no quarto, com amigos de adolescência espalhados pelo mundo! De vez em quando, ele vem dar um oi na sala e no final da música, vou eu lá bater papo no grupo dele!

Domingo passado, toca o celular, uma amiga aqui de Londres, que normalmente me enviaria uma mensagem, me ligou com imagem pelo whatsapp, e aí, pode falar? Como não? Peraí que vou pegar meu vinho!

Não há o que substitua os abraços, não há comparações aqui! Mas a possibilidade de ver as pessoas e saber que estão bem, que estão lá e que parte do seu tempo gastam comigo é um privilégio! E sou grata por isso.

Ao meu redor, vejo frequentemente atitudes de generosidade. Médicos aposentados retornando como voluntários aos hospitais para atender; aluguéis não cobrados a comerciantes fechados; gente postando e compartilhando o que sabe fazer pelas redes sociais; ou compartilhando compras, máscaras, luvas; horários especiais nos supermercados para pessoas idosas ou que trabalhem no sistema de saúde; amigos que perguntam como você está sem ser de maneira retórica; gente que envia Reiki a completos desconhecidos diariamente; mães que apesar de preocupadas ou enlouquecidas inventam brincadeiras para os filhos com paciência de Jó; a alegria que é parar às 20h e ir aplaudir da janela… a lista é extensa! E talvez ande meio sensível, mas me dá vontade de chorar cada vez que penso nesses atos de tanto que acho bonito!

Como adiantei lá no início do texto, acho que nada do que contei é extraordinário ou novidade para a maioria das pessoas que está passando pela mesma ou similar situação. Mas, às vezes, é só uma questão do prisma em que se olhe, ou do momento em que se encontre.

Espero, de coração, que você esteja bem, ou esteja o melhor possível! E, se ainda não vê a luz no fim do túnel, calma, o pior pode até já ter passado.

E, por tudo isso, pela parte boa e pela ruim, posso finalmente dizer sem demagogia e em paz, que hoje sou grata!

40 dias de cativeiro

Hoje completo 40 dias em distanciamento social por conta do COVID-19, a palavra quarentena já não é apenas uma maneira de falar.

Muita gente fez diários desses momentos, talvez eu devesse ter feito para me lembrar de maiores detalhes no futuro, mas para ser sincera, até perdi um pouco a noção do tempo durante esse período. O que nem foi de todo mau, porque se logo no início alguém me contasse que eu ficaria mais de 40 dias nessa situação, sem uma previsão definida de saída, provavelmente eu tivesse surtado de cara!

Admito que não dei importância quando tudo começou na China, me parecia distante e exagerado. E, de repente, o que deveria ser uma marola entrou como um Tsunami, devagar e constante.

No início de março, fui a Madri e não a turismo. Fui para resolver alguns problemas pendentes que tinham certa urgência. Eu não tinha um pingo de medo do vírus, sigo não tendo medo de ficar doente, mas essa é uma outra história que não vem ao caso agora. O fato é que não estava levando a sério e não tinha ideia que tudo escalaria tão rápido. E, sem querer tirar minha responsabilidade, acho que a maioria das pessoas também não imaginava que se tomaria essa proporção.

Portanto, me expus bastante. Estive em dois aeroportos de alto tráfego, Heathrow e Barajas, peguei dois voos, andei de metrô, ônibus, a pé, fui a restaurantes e bares, dividi comida, abracei amigos, estive em pelo menos três ou quatro estabelecimentos públicos para resolver os assuntos que precisava… e voltei para Londres.

Na ida, estava tão centrada no meu próprio umbigo e com as complicações que tinha que resolver, que nem tive tempo de pensar em vírus. Mas ao longo da viagem, comecei a notar que algo estava diferente, meio que fora de ordem. Os aeroportos estavam bem vazios, assim como os voos, as próprias ruas de Madri, apesar do comércio todo aberto, não tinham o movimento habitual. Não consegui comprar álcool gel em nenhuma farmácia (eu usava com frequência mesmo antes da pandêmia, para mim era uma compra que fazia parte da minha rotina).

No voo da volta, a passageira indiana que vinha do meu lado higienizou o banco, a janela e a bandeja em frente. Confesso que achei engraçado. Acabou que ela mudou de lugar para ir sozinha e eu vim deitada nos três bancos, incluindo o dela, higienizado. Para ver o quanto eu estava preocupada!

Mal cheguei em casa, tentei revisar minhas compras pela internet que chegariam no dia seguinte (como também sempre fazia por costume) e não consegui, o website completamente colapsado! A pulga bateu na orelha, será que eu era a única boba sem me preocupar? Porque quando só você está tranquila… talvez não estivesse vendo o tamanho real da encrenca! Quer saber, e se rolar um isolamento, como já havia iniciado na Itália? Ou mesmo se não rolar quarentena, se as pessoas surtarem e começarem a comprar por pânico, vai faltar mercadoria… Nós somos estrangeiros aqui, não estamos acostumados com país que viveu guerra, eles reagem muito mais rápido que a gente! Pensei, acho melhor eu ficar mais esperta! Saímos no mesmo dia para ir ao supermercado.

Prateleiras vazias… papel higiênico esgotado… tudo meio estranho. Resolvi fazer um pequeno estoque de alimentos não perecíveis, até porque nem cabe grandes estoques em casa mesmo. Consegui comprar papel higiênico, Luiz havia encomendado máscaras e álcool gel com antecedência, afinal, meu marido é virginiano e, pelo sim, pelo não…

Também pelo sim, pelo não, iniciamos uma quarentena voluntária. A ideia foi dele, eu achava um exagero sem tamanho. Acontece que, assim que deixei Madri a cidade fechou as fronteiras, de certa forma, dei uma sorte tremenda de sair nos 45 minutos do segundo tempo. De toda maneira, como coloquei antes, havia me exposto bastante e, no fundo, na dúvida, não queria colocar outras pessoas em risco. Pensei, vá lá, um par de semanas não vai me matar de tédio, seguro a onda e depois reclamo bastante com Luiz, pronto!

Eu não sabia ainda, mas estava em fase de negação.

Essas duas primeiras semanas foram as piores de toda quarentena, pelo menos até agora. Nós tínhamos férias marcadas, meu irmão vinha do Brasil, celebraríamos nosso aniversário de casamento, estávamos preparando a casa para receber meus primos no início de abril… enfim, tínhamos uma série de planos bacanas que foram adiados, na minha cabeça, por uma porcaria de uma gripe!

E mesmo não levando nada disso tão a sério, mesmo estando absolutamente frustrada e me sentindo confinada, mesmo num mau humor do cão… fiquei em casa.

O par de semanas culminou com nosso aniversário de casamento. Acabei tendo a ideia de fazer uma festa virtual, como contei há alguns posts e, apesar dos pesares, foi bem legal.

Mas quando a festa acabou, segui bebendo um pouco mais, a ficha me caiu finalmente que o bicho tinha pegado e que não era uma onda rápida, não seriam apenas duas semanas e não seguiríamos iguais. Londres decretou quarentena oficial, não era mais uma opção nossa.

Acordei séria e com a sensação de perda. Acho que foi meu fundo do poço, não sei se estava deprimida, talvez, para mim é um pouco difícil reconhecer. Mas o golpe foi duro, passei alguns dias triste e observando bastante.

Ok, não me restava nada além de absorver o golpe, respirar fundo, tocar o chão e impulsionar para cima. Não tinha jeito, precisávamos passar por isso e nos preparar para o que vem pela frente. Não era mais o que eu queria fazer, mas o que poderia fazer.

O que de bom eu poderia e posso tirar dessa experiência e como me preparo para o pior que possa acontecer?

E, a partir desse momento, sem chavões ou clichês, comecei a melhorar. Porque passei a atuar no pouco que podia efetivamente controlar, ou seja, minha própria cabeça. Adianto que ainda passo por altos e baixos, mas sem sofrer ou me sentir presa.

Seria muito difícil eu ter outra oportunidade como essa para realmente parar tudo que estava fazendo e me observar, pensar e legitimamente mudar. Eu resolvi aproveitar essa chance, foi minha opção. E isso, eu podia controlar.

Como também foi minha opção não entrar na paranóia de falar ou ter contato com outras pessoas. Cumpro o distanciamento, cumpro as regras de segurança e os protocolos por respeito e disciplina, mas o medo não entrou na minha rotina.

Acredito que não seja só eu, imagino que outras pessoas devam ter experiências parecidas, ou pelo menos, parecidas em algum momento. Afinal, os seres humanos não são tão originais como imaginam. Temos a tendência a repetir determinados comportamentos. E hoje essa é uma das razões pela qual compartilho essa vivência, porque talvez alguém que leia possa estar passando agora pelo pior do confinamento e, quem sabe, seja bom saber que pode melhorar.

Passado o tédio profundo, as fases de negação e depressão, comecei a ter vontade de fazer meditação, de cortar o cabelo, de comer o que tivesse vontade, de tomar vinho durante a semana… a gente começa a prestar mais atenção em atividades rotineiras, resgata prazeres em pequenas coisas, o bom humor começa a voltar… até que entende, de verdade, que a liberdade está muito mais dentro de nós mesmos.

Não estou dourando a pílula, sei que tenho uma posição cômoda para pensar assim, é verdade. Mas isso não tira a dificuldade da equação. E não estou dizendo que fica tudo uma maravilha, não fica, mas melhora. Estou aprendendo a viver sinceramente o meu presente. Tenho me esforçado bastante nesse sentido e isso fez minha vida melhor.

Ainda assim, penso no futuro, porque acho importante a gente se preparar para todas as mudanças que virão e, nesse sentido, minha maior preocupação é ao inevitável período de recessão que enfrentaremos. Isso sim me tira um pouco o sono, acho que virá por aí uma fase pós-guerra onde a atitude consciliatória e solidária será fator crítico de sucesso. Vejo essa atitude na Europa, não vejo ainda nas Américas. Como a onda começou mais tarde por lá, espero que isso mude, por bem ou por mal.

Atualmente, busco mais notícias sobre economia do que sobre o vírus. Na verdade, sobre o COVID-19 tenho até evitado ler a respeito, infelizmente acho que a imprensa mundial tem feito um imenso desserviço tratando o tema como uma notícia que vende. Acho que é uma ala que ainda não entendeu que o mundo mudou. A sensação que tenho é que, por não saber exatamente o que mais dizer sobre o vírus, afinal é tudo novo em muitos sentidos, a mídia tem sempre tido a tendência a voltar a divulgar o que sabe como funciona com seu público. Uma pena, estão perdendo um bonde gigantesco e uma grande janela para ajudar!

Termino por aqui, dizendo que estou cautelosamente otimista em relação à Europa e Inglaterra, acho que passaremos ainda por alguma turbulência forte, mas aterrissaremos em razoável segurança.

O que tenho visto à minha volta tem me surpreendido positivamente em relação às pessoas, até me emocionado muitas vezes. Por incrível que pareça, o bem dá sinais que está ganhando. Não podemos nos iludir, talvez seja porque não atingimos um ponto tão drástico. Mas também talvez seja porque, no fundo, haja mais pessoas boas do que ruins. É nisso que decidi acreditar, esse é o cão que alimentarei, porque quero ser boa também.

Sigo preocupada em relação ao Brasil, acho que as pessoas estão confusas e desgovernadas por que caminho seguir e é muito complicado só contar com a sorte. Mas sobre isso, não temos controle.

Portanto, foco nas decisões em que cada um pode controlar. Se o que está fora está difícil de enxergar, olhe para dentro. Se não sabe em quem acreditar, acredite nos seus instintos e ponha os mais frágeis em primeiro plano. Se pode ficar em casa, fique. Não saia por capricho nem por ansiedade, o preço é alto. Você estará arriscando a saúde de quem não tem essa opção. Pense duas, três, dez vezes se realmente é necessário. E se não tiver outra maneira, saia com cautela, cumpra os protocolos, use a máscara, se cuide e cuide de quem está ao seu lado.

Não há outra maneira de sair dessa que não seja coletivamente. Não é hora de dividir, se você ainda não entendeu que nessa partida não há ganhadores, está jogando errado.

Por que é ruim quando as bolsas de valores caem?

Tenho observado algumas opiniões pela internet em relação à economia um tanto estapafúrdias. Até aí, normal, desisti de mudar a opinião alheia há tempos! Mas me ocorreu que, em alguns casos, talvez na maioria, possa ser por puro desconhecimento e não má intenção.

Pessoalmente, acredito que desconhecimento hoje em dia vem em função de certa preguiça em buscar fontes de informações mais aprofundadas. É mais fácil ler um parágrafo com alguma frase de efeito em uma rede social qualquer e compartilhá-lo com empolgação.

E me dói um pouco a vista quando vejo comentários de gente teoricamente instruída manipulando informações por interesse político. Bom, quem sabe pode ser uma opinião diferente, que se for embasada, estarei encantada em ouvir! Quantas vezes já mudei de ideia!

Entretanto, me ocorreu que também pode ser por falta de fontes que expliquem alguns conceitos básicos sobre o tema de maneira menos complicada.

Então, vamos lá, vou tentar ajudar na parte em que me cabe. Não sou economista, nem analista de mercados, nem dona da verdade, nem nada demais! Simplesmente, quando não entendo alguma coisa, sento meu rabito, leio, pesquiso, estudo! Por acaso, me interessa o mercado financeiro e sou pequena investidora em bolsa de valores. Diferente do imaginário popular, você não precisa ser rica para investir.

Esse não é um post para te ensinar a aplicar em ações, infelizmente não vou dar dicas para ninguém ganhar dinheiro. Não porque não queira, mas porque não saberia e só assumo meus próprios riscos. Não vou te vender nenhum curso e, provavelmente, seja um post único. Minha intenção é explicar rapida e leigamente o que são ações e como funciona uma bolsa de valores.

A bolsa de valores é uma instituição que regulamenta e controla o mercado de ações. Imagina um enorme mercado, com vários quiosques de empresas, cada uma colocando à venda uma parte do seu próprio negócio. Para você ter um quiosque nesse mercado, você precisa seguir determinadas regras, como: apresentar quanto você fatura, quais são seus custos, quanto você tem em caixa, o que você tem de dívidas etc. Daí, você tem clientes interessados em comprar pequenas partes de alguns desses quiosques. Esses clientes irão pesquisar essas informações que foram dadas ao mercado para escolher qual quiosque interessa mais, qual tem o preço que pode pagar etc. Esse mercado, para viabilizar todas essas transações entre os quiosques e os clientes cobra um tipo de comissão pelas negociações. E o governo também cobra impostos sobre essas transações realizadas. Funciona mais ou menos assim, só que de maneira eletrônica.

Agora, vamos entender que essas empresas (representadas acima pelos quiosques) que participam da bolsa (o grande mercado) vendam suas ações. Ações são pequenas partes dessas empresas. Quando alguém (cliente) compra uma ação, ou seja, uma parte de qualquer empresa, essa pessoa se torna um tipo de sócia desse negócio.

Na prática, essas transações funcionam parecido à compra de um imóvel. Você precisa ter uma conta em uma corretora financeira, onde você deposita o dinheiro que quer investir e define o que você quer comprar. A decisão é sua, o dinheiro é seu, mas a operação técnica são eles que fazem, geralmente com algum tipo de comissão ou taxa de administração.

Sabe quando você compra um imóvel e faz uma escritura para oficializar? Então, se mais de uma pessoa for dona do imóvel, a escritura precisa ser feita em nome de todos os donos, correto? Pois imagine que a ação é como se fosse uma escritura que você tem daquela pequena parte da empresa que comprou. Só que, ao invés de ficar registrado em um cartório, fica registrado em uma corretora.

Sempre acho mais fácil entender as coisas com analogias de situações cotidianas, logo darei um exemplo de como conceitualmente funciona a emissão e compra de ações.

Vamos supor que tenha um açougue no seu bairro, que você frequenta há alguns anos, gosta da qualidade da carne, acha os atendentes bem preparados, boas condições de higiene e tal. Então, um dia, o dono desse açougue resolve que quer crescer, aumentar seus negócios. Ele percebeu que muitos dos seus clientes compram carne para fazer churrasco e quer também vender cerveja, gelo e carvão.

O dono do açougue sozinho não tem o dinheiro suficiente para fazer essa ampliação, por isso ele busca algumas alternativas. Poderia pedir um empréstimo no banco. Só que aí ele teria que pagar juros para o banqueiro… Então, ele tem outra ideia, resolve perguntar aos seus clientes mais leais se não querem comprar uma parte do açougue dele e se tornarem pequenos sócios.

Ele chega para alguns clientes que ele conhece melhor e os convence que o açougue dele vale 100 “dinheiros”. Ele vende 10 partes (ações) que custam 10 dinheiros cada uma e investe no negócio.

A questão é a seguinte, os clientes conhecem o açougue hoje e parece que vai tudo bem. Mas nem o dono do açougue, nem seus investidores, nem seus futuros clientes tem certeza que o negócio seguirá sendo bom nos próximos meses.

Porque, no mês seguinte, as vendas dele podem aumentar e o negócio crescer; o açougue passaria a valer 120 dinheiros! Ou seja, cada parte que valia antes 10 dinheiros, passou a valer 12! As ações subiram.

Mas ele pode ter se enganado, porque os clientes que frequentavam o açougue na verdade preferiam comprar a cerveja no supermercado e o gelo no posto de gasolina. E o pobre do açougueiro acabou tendo prejuízo! O negócio que valia 100 dinheiros, depois de empacar com o estoque adicional, passou a valer 80. Ou seja, aquele pequeno sócio que comprou uma parte por 10 dinheiros, passaria a ter somente 8. As ações cairam.

No mercado financeiro, funciona um pouco dessa mesma maneira. Os investidores que compram determinadas ações não tem certeza absoluta se elas vão subir ou cair. É, de certa forma, uma aposta que fazem no futuro daquela empresa. Entretanto, não é, ou não deveria ser uma aposta cega. Cabe ao empresário mostrar porque seu negócio tem valor e pode crescer, cabe à bolsa de valores verificar se o que esse empresário está dizendo corresponde à realidade atual e cabe ao investidor analisar a empresa que quer investir e que riscos quer correr no futuro.

Ah, mas é tudo tão fácil assim? Já estou pronta para investir na bolsa? Não, é mais complexo e não tem muito bobo nessa praia, nem duram muito tempo no mercado. Não tenho a pretensão de entrar no detalhe. Tem gente muito mais competente que eu para isso. Mas não é nada impossível ou inacessível aos reles mortais, como euzinha.

O ponto principal de todo esse texto é para dizer que atrás de cada ação, existe uma empresa de verdade! Não é um número abstrato. Não são pessoas trocando papéis ou simplesmente dinheiro trocando de mão.

Quando a bolsa “quebra” não quer apenas dizer que o investidor parrudo ou o especulador mercenário perdeu dinheiro. Isso pode acontecer sim, mas é o de menos! O que realmente importa é que, se a bolsa quebrar, significa que as pessoas acreditam que as empresas que fazem parte dela podem quebrar também! Aqueles quiosques dentro do mercado, lembra? É o açougue que valia 100 dinheiros e, de repente, só vale 30, e talvez tenha que fechar as portas.

Ah, mas essas empresas que fazem parte da bolsa são todas grandes! Não correm risco de quebrar! Caríssimos, uma empresa grande tem risco menor de falir que uma pequena, é verdade, mas segue tendo riscos e quando isso acontece o impacto também é maior, impostos não são pagos, pessoas ficam desempregadas, famílias ficam sem sustento! Porque sendo um açougue de bairro ou um grande frigorífico, emprega igualmente gente simples, pais e mães de família. Sobra para todo mundo!

Não tem solução fácil, infelizmente! Assim que, antes de atirar a primeira pedra, cuidado, seu telhado também é de vidro ou pode ser um espelho na sua frente.

Nesse momento de tanta incerteza, talvez o melhor investimento seja se informar.

… e se é para me reinventar, que seja de verdade!

Esse é um daqueles textos que acho difícil escrever, repletos de entrelinhas, onde só vale se eu me expor sem pudores e chamar meus demônios pelos seus nomes. É pessoal.

Há um certo tempo, tenho sentido uma vontade grande de raspar minha cabeça. E talvez, seja um ato melhor entendido pelas mulheres, porque nossos cabelos tem milhões de simbologias e estão intimamente vinculados a como queremos nos apresentar, nos descrever, nos (re)definir. Para uma mulher, decidir cortar os cabelos bem curtos é sempre, pelo motivo que for, um ato de coragem.

Já escrevi sobre isso antes, não venho aqui me repetir, apenas coloco em contexto.

Em novembro passado fiz 50 anos e isso marcou para mim o fim de um ciclo. Eu funciono entre ciclos e rituais. E ainda precisava do meu ritual de passagem. Escolhi duas metas, ou metáforas, fortes para marcar fisicamente esse ciclo e esse ritual, uma tatuagem grande (que ainda não fiz, mas está nos planos) e cortar meus cabelos bem curtos.

Não estabeleci datas nem prazos, era algo a ser feito no momento que sentisse estar pronta. Assim que percebesse que uma mudança real estivesse prestes a acontecer ou houvesse iniciado, que estivesse à vontade com meu rosto sem maquiagem, tranquila com o peso que meu corpo carrega, sem culpa nem arrependimentos, mas querendo muito, sinceramente, renascer melhor.

Estou pronta.

Nova parceria do blog: Programa Almanaque RN

Recebi um convite do Aquiles Medeiros para participar do seu Programa Almanaque RN, uma revista eletrônica semanal do canal NMP no Facebook.

O NMP é um canal de Smart TV HD com programações ao vivo. O Programa Almanaque RN faz uma participação semanal nesse canal, toda terça-feira, às 22h (horário local). O programa tem 1h de duração, sendo trinta minutos de entrevista com um convidado que aborda assuntos de interesse geral da sociedade; e trinta minutos para um convidado musical que fala da sua carreira. Entre uma conversa e outra, o músico convidado toca e canta suas canções, acompanhadas pelo próprio Aquiles na percussão.

Enfim, esse Programa Almanaque RN tem uma página no Facebook e fui convidada para contribuir com geração de conteúdo.

Achei bem bacana e estou empolgada com o novo projeto! Nada melhor do que compartilhar experiências, se informar e ouvir música boa!

Enfim, que venham bons frutos dessa parceria e, certamente, entre Londres e Natal não nos faltará assunto!

PS: Por enquanto, participo pelo Facebook, mas quem quiser acompanhar o programa pelo Youtube estará disponível através do link https://www.youtube.com/channel/UCSGIXJ6zEw9ut9qTo1eDD3w e quem quiser seguir pelo Instagram, @programaalmanaquern.

Vírus não segue ideologia política!

Hoje é dia 31 de março de 2020, estou em quarentena desde o dia 07. Em princípio, quarentena (mais ou menos) voluntária e, logo após as duas primeiras semanas, em quarentena oficial.

Não, não é fácil. É melhor do que para muita gente e pior do que para outras pessoas. Exatamente como a vida era antes, desigual, mas não é fácil para ninguém. E não vim aqui julgar nem defender meu ponto de vista, venho apenas fazer um alerta. Porque eu mesma já mudei de ideia algumas vezes e não tenho certeza de nada. Francamente, acho que ninguém tem.

Não vejo essa crise com olhos românticos de arco-íris, como uma oportunidade para evoluirmos, para a terra descansar, para deixarmos de ser tão individualistas… e blá, blá, blá… Tampouco vejo motivo para pânico, não porque seja algo simples de se resolver, mas porque não temos alternativa diferente da que manter a calma. E, veja bem, não condeno quem pense dessa ou daquela maneira, cada um tem sua própria forma para tornar sua realidade mais tolerável, suas crenças, seus valores e, à essa altura, nem importa mais. Simplesmente, sou fatalista, acho que deu merda, ponto! E agora, como a gente faz para sair dela?

Uma vez, fui assistir a um jogo de futebol com Luiz, na arquibancada que é onde eu gosto, estádio lotado! Bem na nossa frente, do outro lado do campo, uma tragédia aconteceu. A grade da arquibancada cedeu e as pessoas começaram a cair. Lembro que no início não havia entendido que era gente caindo, achei que eram balões coloridos, quase achei bonito. Mas de repente, meu sorriso se desfez, era gente e era sério. Meu primeiro instinto de sobrevivência foi observar ao lado para me defender, buscar as rotas de fuga mais seguras, tive medo que as pessoas entrassem em pânico e começassem todas a correr ao mesmo tempo. Não teria resolvido o problema de quem já havia caído e poderia se converter em uma tragédia muito maior. Mas isso não aconteceu. Quem estava próximo ao acidente tentou ajudar, quem não podia ajudar, abriu o caminho e quem estava mais afastado da cena se sentou em silêncio. Como se houvéssemos sido treinados a vida inteira para isso. Sim, caríssimos, isso aconteceu em pleno Maracanã, jogo do Flamengo, povão mesmo! Imperou o bom senso e essa atitude, literalmente, salvou vidas.

É um pouco como me sinto agora, no início, achei que não era tão ruim; em seguida me dei conta da gravidade da situação. Até o momento, só posso agradecer não estar do lado da grade que despencou, abrir caminho e aguardar as instruções em silêncio o suficiente para ouví-las.

Tenho observado bastante, tudo, tentando entender, tentando decifrar os códigos, buscando analogias, tentando prever que passos tomar, que direção seguir. Mas acho que mais do que tudo, tenho aprendido a ouvir e ser resiliente.

A sensação que tenho é de estar vivendo a 3a. Guerra Mundial. Porque não tenho ilusões, já não importa de onde veio ou de quem é a culpa, estamos mundialmente nesse barco. Nunca imaginei que o que nos uniria a todos seria justo um inimigo comum. Menos ainda, que o enfrentaríamos vestidos com pijamas.

E, quanto a isso, o Brasil em especial tem uma enorme desvantagem, porque nunca viveu em campo um período de guerras mundiais. Temos algumas situações similares, quase que mini guerras civis e desorganizadas, mas é diferente. De certa forma, os tempos de guerra ainda estão no DNA europeu. Em situações assim, há uma tecla automática na cabeça das pessoas e elas sabem como se comportar. Sabe tiroteio no morro? As pessoas se jogam no chão imediatamente, crescem ouvindo que precisam fazer isso e o fazem quase que por instinto. É parecido em conceito. Levei um tempo extra para entender, por não ter sido criada aqui, mas estou aprendendo a me comportar em um período de guerra.

Aprendi rapidamente algo que ainda não entrou na cabeça dos brasileiros, vírus não segue ideologia! Não tem vírus de direita ou de esquerda, ele mata ou danifica igualzinho! Não se cura vírus na marra com discussão política! Vírus não é machista nem feminista! Vírus não tem preferência sexual! Vírus não respeita prazo eleitoral! Vírus não quer saber em quem você votou ou deixou de votar, muito menos quem você acha que é ou não idiota!

O brasileiro em geral está tratando uma situação de guerra da mesma forma com que trata suas preferências políticas, religiosas ou futebolísticas. Ao invés de se concentrar em uma solução, querem definir quem está certo.

E quem está certo? Vamos lá, no momento, há um presidente que acredita que algo capaz de mudar a economia do planeta não é mais que uma gripezinha; governadores absolutamente radicais que não medem as nuances e diferenças sociais existentes em função das suas próprias ambições pessoais; e há também as lideranças mudas, com medo de tomar algum lado que os atrapalhe o futuro político. De quebra, praticamente um golpe parlamentarista montado tentando buscar uma brecha a todo custo. Para mim, estão todos loucos! E até aí, morreu neves afogado em cuspe! Porque o que eu acho ou deixo de achar também não importa.

O que me ferra é ver as pessoas, ao invés de estarem se unindo e buscando soluções, estarem mais preocupadas em xingar os covardes que organizam carreatas ou os hipócritas que só ficam em casa porque não querem trabalhar… e tantos outros absurdos que me provocam vergonha alheia. Galera, não importa. Não importa se você votou certo ou errado, nem se o outro lado seria muito pior ou melhor… foda-se! O passado passou e o que vem pela frente vai precisar um pouco mais do que paixões pessoais.

A verdade é muito mais complexa e tem vários lados! O isolamento social tem se provado eficiente pelo mundo? Sim! É importante seguirmos essa linha? Fundamental! Podemos usar uma solução que funciona em países desenvolvidos e acreditar que vai funcionar igualzinho em países pobres ou em desenvolvimento? Hummm… sério!

Vou dar um exemplo. Na casa da minha mãe trabalha uma diarista há “trocentos” anos! Obviamente, ela não consegue ir até lá, porque não pode pegar o trem. Ah, mas minha mãe deve ser mais uma aproveitadora dessas que está mais preocupada em ter que fazer ela mesma o terrível trabalho de casa… Certo, então, ao invés de julgar tão rápido, deixa eu terminar a história. Minha mãe estava tentando pagar as diárias, mesmo sem ela ir e sem fazer o trabalho, afinal, o marido dela está desempregado e sem o valor da faxina, a família não come! Lindo, né? Só um detalhe, a diarista simplesmente não tem conta bancária! Como é que faz? Você acha que essa é uma exceção? Porque eu acho que é a regra.

E, por favor, esse é só um exemplo! Não estou definindo que o comportamento do país precise ser assim ou assado exclusivamente considerando a diarista da minha mãe, ok? Tem gente irresponsável sim, tem gente preguiçosa, gente egoísta, no mundo existe de tudo! Mas também tem muita gente tentando se proteger, se adaptar, ajudar. O mundo e, nesse caso em especial o Brasil, precisa de soluções razoáveis e não de um debate político!

É fácil falar desde Londres? Claro que sim! Agradeço todos os dias por estar fora, mas minha família e muitos amigos ainda estão dentro e me preocupo legitimamente com isso. Também lembro que a distância traz perspectiva e o fato de vivenciar primeiro aqui na Europa o ocorrido ajuda a prever alguns possíveis acontecimentos.

Galera, é guerra e é sério, se preparem! Assim como nas outras guerras, há luz e vida no fim do túnel, mas o preço é alto. Não é que o mundo não será mais o mesmo, o mundo já não é mais o mesmo. Entuba, levanta e se adapta rápido!

Não quero terminar de maneira pessimista, confesso que independente da motivação, mais ou menos nobre, tenho notado muita coisa bacana também. Sempre esperei um momento Saramago (“Ensaio sobre a Cegueira”) em situações assim e, na prática, o que tenho visto é uma maturidade, generosidade e bondade que me emocionam. Quero acreditar que sairei dessa uma pessoa melhor, talvez seja eu agora tendo um momento arco-íris. Porque preciso acreditar que tudo vai dar certo.

Importa menos o que seu presidente disse, importa menos o que seu governador ou parlamentar disse, simplesmente, busque seu instinto, seja humano. Olhe para seu vizinho, procure fazer o que é certo. Se você está próximo, ajude. Se não puder ajudar, abra caminho. Se estiver do outro lado, sente em silêncio e aguarde.

26 anos de casamento, nossa primeira festa virtual

No dia 18 de março, completamos a respeitável marca de 26 anos de casados!

A pessoa aqui doida para comemorar… escolhendo qual o restaurante fabuloso e romântico sairía para jantar… viagem programada para Malta no final da semana… Luiz reservou férias… meu irmão vinha do Brasil para nos encontrar… tudo certo!

Só que não.

Pois é, não deu e todo mundo sabe o motivo. Tudo cancelado! Meu bico arrastando no chão de frustração! Reclamei, resmunguei… depois entubei, né? Fazer o que?

Daí tive uma ideia…

Havia assistido um concerto de um amigo músico de Madrid pelo Youtube e até que foi bem legal. Os músicos são de uma categoria que está penando com o raio da quarentena, afinal, como trabalhar? Por conta disso, estão buscando soluções criativas, como essa, para se manter nesse período complicado.

Pensei, e seu eu juntasse tudo? Posso ajudar uma pessoa a trabalhar, levar um pouco de distração para quem está isolado pelo mundo e, claro, meu objetivo final, conseguir celebrar, compartilhar algo de felicidade e leveza com gente querida.

E como fazer isso? Sei lá! Fomos aprendendo pelo caminho dentro dos recursos que conhecia naquele momento!

Contratamos nosso amigo músico para fazer um concerto privado no Youtube para nós e nossos convidados. Montei um grupo (gigantesco) no whatsapp, convidando para nossa primeira festa virtual! Quem eu não tinha o número de whatsapp, ainda perguntei num post geral pelo Instagram se queria participar! Pedindo um pouco de paciência aos convidados, porque um grupo tão grande gera milhões de comentários e isso assusta muita gente que não tem tempo para tantas notificações. Acho que essa foi a parte mais complicada de gerenciar. Porque dá vontade de conversar e responder todo mundo, mas seria enlouquecedor! Assim que o grupo foi criado meio que na véspera do evento.

Marcamos com as pessoas no dia da festa, exatamente no dia 18 de março, em determinado horário, para todos se conectarem ao mesmo tempo. Mais ou menos uns 10 minutos antes de começar o concerto no Youtube, liberamos o link de acesso.

Aviso que me arrumei como se fosse para uma festa de gala! Usei o mesmo vestido longo das minhas bodas de prata, me maquiei e tudo! O cara-de-pau do meu marido, só se arrumou da cintura para cima, porque disse que era só o que ia aparecer!

A partir de aí, ficamos com as duas plataformas abertas, o Youtube com o concerto para a gente rolando e a possibilidade de participar de um chat; e no whatsapp enviando fotos de onde estávamos, o que estávamos bebendo, comendo, fazendo brincadeiras… enfim, cada um buscando sua maneira de estar presente!

E estávamos presentes, nas nossas próprias casas, mas com uma energia bacana concentrada em uma única direção. E quer saber, me diverti pacas! Às vezes, até esquecia de toda essa loucura que se apoderou do planeta. Cantei, dancei, toquei meu surdo, tomamos vinho, comemos bem… exatamente o que fazemos em uma festa real! Quero acreditar que passou o mesmo com quem estava presente e, pelo menos, por um par de horas, algo de alívio e de alegria.

O retorno que recebemos dos convidados foi tudo de melhor, compraram a ideia, entraram na bagunça com vontade. Pessoal se arrumando, fazendo aperitivos de festa, pegando sua bebida, chamando a criançada para partipar, dançando de se acabar. Recebemos fotos incríveis e muito espontâneas! O concerto foi o máximo! Repertório 10, animadíssimo e dentro do espírito da festa. O fato de ser ao vivo fez toda a diferença do mundo, as pessoas conseguiam interagir, pedir música, foi realmente especial!

Foi o mesmo que encontrar as pessoas ao vivo e a cores? Claro que não! Lógico que faltaram os abraços, micos, fotos em grupo… Mas também é verdade que muita gente que “compareceu” tampouco poderia vir em uma festa presencial. Porque apareceu gente do Brasil, da Espanha, da Itália, da Inglaterra, da Holanda, da Alemanha, da Dinamarca, do Canadá, da Suíça, dos Estados Unidos, da França, de Portugal, do Japão… e devo estar esquecendo algum país, com certeza!

Meu único dilema foi não conseguir responder a todos individualmente, porque não dá tempo de responder todos os comentários, ouvir música, cantar e dançar ao mesmo tempo! Mas talvez seja como numa festa grande de verdade, em que você se esforça ao máximo para dar atenção a todo mundo igualmente, mas nunca consegue parar mais que 5 minutos com cada um! Logo tem que repor uma bebida, receber alguém que chegou ou simplesmente chutar o pau da barraca como se fosse mais uma convidada (geralmente, meu caso!). Pensando bem, não foi tão diferente assim…

Mas depois que o grupo foi desfeito, por algumas vezes eu li cada comentário, vi cada foto e ouvi o concerto que Luiz salvou. E digo o seguinte, todas as vezes que repito esse ato, fico feliz, me deixa mais leve. Ver as fotos de amigos sorrindo que não encontro pessoalmente há dias, ou meses, ou até mesmo alguns anos… não tem preço!

Agradeço à família e aos amigos que temos por um presente desses e por poder viver esse momento ao lado de alguém que amo.

Saúde!

OBS: Para quem quiser ouvir o show que o músico, Pitú, fez para nossa festa, o link no Youtube é https://youtu.be/0RY_St90eJ8. E sejam bem-vindos a uma festa virtual que aconteceu de verdade!

Quarentena em Londres

Esse não é um post motivacional para ninguém. Não darei mil dicas ótimas para quem quer aprender grego on line ou arrumar perfeitamente o armário da cozinha. Tampouco posso informar como vai a vida na cidade, como eu saberia? Estou em casa. Não busco consolo nem explicações e, por favor, mas por favor mesmo, não me enviem outros 329 vídeos sobre o tema!

Sabe qual é a única coisa que eu quero nesse momento?

Eu quero reclamar!

Reclamar em paz! Sem comprovações científicas! Sem todas as histórias de que poderia ser muito pior! Sem lições de moral! Sem parecer a louca da teoria da conspiração! E, sério, o pior de tudo, sem paternalismo barato! I don’t need to be patronized!

Eu só quero re-cla-mar!

E, taqueopareo, que saco é ter que ficar em casa!

Estou de quarentena desde o dia 07 de março, hoje é dia 23.

Veja bem, Londres só lançou medidas mais severas recomendando que evitássemos ao máximo sair a partir da última sexta-feira, dia 20. Entretanto, eu havia chegado da Espanha pouco antes deles fecharem tudo. Itália já estava complicada… Luiz achou melhor a gente ficar em casa, por via das dúvidas e só sair para o essencial.

Saímos rapidamente para fazer compras, quando necessário, fizemos isso apenas um par de vezes. A maior parte dos suprimentos, consigo que me entreguem com compras on line. E eu já comprava on line antes, assim que não mudou tanto a rotina. A não ser pelo fato de estar bastante difícil conseguir datas de entregas, tive que deixar reservado alguns espaços semanais. Mantenho um pequeno estoque de não perecíveis, nada tão gigantesco, nem tenho espaço para isso no apartamento. Além da consciência me pesar um pouco em deixar alguém sem produto. Não me falta nada e não faltará.

Das duas vezes que saímos rapidamente para compras, Luiz foi de máscara, eu não. Normal, ele é sempre mais preocupado e precavido com essas coisas do que eu.

Francamente, não estava com um pingo de medo do raio do corona vírus, aliás, continuo sem estar. Mas entubei a quarentena em consideração a ele e aos demais. Hoje faz 17 dias que estamos em reclusão, seguiremos enquanto faça falta, mas acho que adquiri o direito de, ao menos, poder reclamar!

E para quem começou seu “distanciamento social” agora, vou logo avisando, não fica mais fácil! Prepare seu espírito. O problema é o seguinte: qual seria a opção? Contribuir para a morte de alguém? Você quer colocar essa na sua conta?

Fingir que um problema não existe não faz com que ele vá embora.

Veja bem, disse e repito, euzinha yo myself, não tenho medo do vírus no que se refere à minha saúde. Posso mudar de ideia na semana que vem, mas hoje eu não tenho. Sou relativamente jovem e tenho uma saúde de leoa! Exceto pela quarentena, os hábitos e os alimentos aconselhados nesse período para a prevenção, fazem parte da minha rotina há anos! Não acho impossível que eu contraia a doença, nem sei se já não contraí, mas não vejo como uma ameaça eminente (nem iminente) para mim.

E essa não é uma postura que tenho em relação a esse vírus especificamente, mas a postura que tenho em relação a qualquer doença.

A questão é, não importa o que eu pense em relação a mim. O “eu” não importa, porque o que está em jogo aqui é o “outro”. É por quem não tem a mesma resistência, quem não tem o mesmo acesso a cuidados básicos, quem não pode fazer uma quarentena, quem não tem escolha.

Ah, mas é um sacrifício que farei por uma pessoa que eu nem conheço?

É, a vida é assim, foda-se (com carinho). Hoje eu não conheço, amanhã pode ser com alguém muito querido e depois de amanhã, pode bater à minha porta.

Porque não se iluda, o que toca a um, nos tocará a todos. Portanto, faça pelo motivo que quiser! Por altruísmo, por heroísmo, por medo, por amor ao próximo ou pelo mais legítimo egoísmo… não importa!

Fique em casa!

Ah, mas essa história certamente foi inventada em laboratório pelos chineses com intenções sórdidas…

É possível! Cá entre nós, teóricos da conspiração, porque eu sempre fui e sempre serei, também acho. Mas outra vez, não importa o que eu ache! Se foi um plano, funcionou. Criado em laboratório ou na natureza, está aí e tem gente morrendo, ponto. Primeiro a gente resolve o problema, depois a gente busca um culpado, ok? Até porque, quem seria capaz de provar essa história? Se tivesse alguém que pudesse realizar essa façanha, na China, você realmente acha que ainda estaria vivo?

Então, enquanto a gente não prova nossa conspiração, tenho uma ideia: fique em casa!

Quanto tempo a gente vai conseguir segurar essa panela de pressão? Não sei, difícil dizer, acho que ninguém sabe com certeza. Economicamente, politicamente… não seremos os mesmos. Não é que o mundo vá mudar, já mudou, só não sabemos o tamanho da encrenca!

De uma maneira ou de outra, a vida seguirá. E meu ponto é, eu quero seguir com ela. Por isso, o que eu puder fazer, enquanto eu puder fazer, farei.

Hoje, só me resta uma opção, ficar em casa.

E reclamar…

“Quando os nazis vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era um social-democrata. Quando eles vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era um sindicalista. Quando eles buscaram os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era um judeu. Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar.” Martin Niemoller

50 anos, saúde!

Fiz 50 anos de idade. Soa mais assustador do que realmente é, ainda que não vou negar, tenha seu peso. E é óbvio que eu não seria eu mesma se não quisesse celebrar a data à altura!

O mais coerente seria fazer um festão daqueles! Só tinha um probleminha, nós já fizemos um festão daqueles esse ano, o de Bodas de Prata. Sem querer chorar miséria, porque nunca farei isso na vida, dois grandes eventos em um ano custariam mais do que o programado no nosso orçamento. E, considerando que nossos amigos e familiares estão espalhados pelo mundo, acredito que também para eles.

Beleza, a festa fica para outra ocasião. Por exemplo, posso fazer a festa dos 51, aliás, uma boa ideia!

Tem uma piadinha do mineiro que a gente sempre usa em casa como piada interna. O mineirinho encontrou a lâmpada… esfregou… saiu o gênio e concedeu três pedidos. O primeiro pedido, mineirinho pensou… pensou… já sei! Quero um queijo! O gênio achou o pedido meio simples, mas enfim, concedeu e o mineirinho adorou! O gênio perguntou, e seu segundo pedido? Mineirinho pensou… pensou… quero outro queijo! O gênio perguntou, tem certeza? Posso realizar qualquer desejo! Você quer só um… queijo? E o mineirinho, meio tímido, disse sim com a cabeça. Perfeito! O gênio fez surgir um queijo ainda maior e mais gostoso! Pronto, agora seu terceiro e último pedido, o que você quer? Mineirinho pensou… pensou… coçou a cabeça… tá bom, eu quero a Gisele Bündchen apaixonada por mim! O gênio ficou intrigado, e disse a ele, ok, posso realizar, mas só por curiosidade, seus pedidos foram tão diferentes… por que você pediu a paixão da Gisele agora? Mineirinho meio sem graça, se encolheu e disse… eu queria mesmo era outro queijo… mas deu uma vergonha do senhor…

Então, cada vez que a gente tem várias opções e quer algo bem básico ou repetir algum programa, a gente sempre fala um para o outro… eu queria mesmo era um queijo!

Muito bem, então, voltando ao aniversário, ainda que não fosse um super festão, celebrar eu queria e precisava ser algo especial, de preferência, também simbólico. Perfeito, então vamos viajar! Pensei literalmente nos quatro cantos do mundo! Lugares exóticos… desconhecidos… aventuras… para onde raios eu queria viajar? Qual seria o país perfeito e tão diferente para essa ocasião?

Pensei… pensei… Luiz, quer saber, eu quero mesmo é um queijo! Vamos para a França comer muito bem e tomar todas?

Para quem mora no Brasil, talvez ir a França seja complicado e caro, mas para a gente que mora em Londres, é um voo quase que de ponte áerea. E para ser bastante sincera, era para onde eu queria ir.

Já faz um tempo, Luiz teve um cliente em Épernay, uma cidadezinha francesa bem charmosa, conhecida como a capital da Champagne (ok, há controvérsias, alguns defendem que é Reims… mas tudo bem!). Ficamos de ir juntos até lá em algum momento.

Na hora de decidir para que região viajaríamos, pensei, que bebida poderia ser mais apropriada para uma celebração em grande estilo? Champagne, é logico! Poderia haver lugar mais simbólico do que justo a capital geradora da tal divina bebida? Pois decidido, Épernay e arredores!

Adianto que não poderia haver escolha melhor! Foi um escândalo de bom! Uma semana inteira comendo divinamente e tomando champagne da melhor qualidade! Já se passou uns dois meses dessa viagem e parte da experiência ainda segue (literalmente) em meus quadris, mas está valendo! Porque cada vez que me lembro, minha boca saliva e tenho vontade de sorrir!

Então, começamos pelo princípio, tomamos um avião de Londres até Paris, onde alugamos um carro e dirigimos cerca de 160Km a nordeste, até Épernay. Chegamos na cidade no limite da hora do jantar e, admito, um pouco cansada. Mas feliz e disposta a iniciar os trabalhos, era a véspera do meu aniversário, o último antes de entrar na seguinte década para mim e para o mundo!

Ficamos hospedados no Hotel La Villa Eugène , que por sinal, adorei! Mas na chegada, só tivemos tempo de fazer o check in, largar as malas e correr para algum restaurante antes que fechassem todos!

Fomos jantar na Brasserie de la Banque, um lugar muito simpático, situado em uma antiga sede bancária, despojado e com a maior carta de champagnes que havia visto até o momento! Como não tinha a menor ideia do que optar e queria sair do lugar comum, pedi orientação ao maître, que nos sugeriu uma garrafa que, por coincidência, levava o nome do meu irmão. Perfeito! Aviso divino! Preço super acessível e excelente!

Voltamos para o hotel, agora alimentados e com um pouco mais de calma. Queria que chegasse logo o dia seguinte, 09/11/2019, oficialmente meu aniversário de 50 anos!

Comecei o dia feliz e muito bem acompanhada!

La Villa Eugène

Nosso hotel ficava exatamente na Avenue de Champagne, onde são sediadas as principais casas produtoras da bebida local. Além do mais, a cidade não é tão grande e podíamos fazer a maior parte dos passeios a pé mesmo. Aliás, considerando nosso teor alcoólico, era melhor não dirigir!

Como atividade do dia, elegi uma visita à casa da Moet & Chandon, obviamente, com direito a degustação! O ideal é que você compre com antecedência os ingressos para sua visita por internet. Como tudo nosso é decidido de última hora, pedimos ajuda à recepcionista do hotel, que foi bastante solícita e telefonou diretamente para lá.

Recomendo fortemente a visita! Aprendi um monte de coisas sobre a história da champagne, sobre a marca, sobre o processo, sobre armazenagem… passei, inclusive, a valorizar mais ainda a bebida. Digamos, que aumentou meu respeito. Além do que, é toda uma experiência você se meter por aqueles túneis intermináveis, que mais lembram uma sociedade secreta. Aviso que a temperatura é constante de 10 o.C, independente da estação do ano, ou seja, leva um casaquinho, ok?

Bom, como acho que já ficou bastante claro, foi uma viagem gastronômica, logo, os assuntos desse texto serão basicamente sobre comida e bebida! Quando disse lá atrás que queria viajar para comer muito bem e tomar todas não era apenas uma figura de linguagem.

Portanto, na sequência, o esperado jantar comemorativo dos 50! A escolha foi o restaurante Le Royal, que possui uma estrela Michelin e é localizado no Royal Champagne Hotel & Spa. E foi um escândalo de bom! O salão tem uma elegância discreta, simplesmente chic! Um olhar um pouco mais treinado irá perceber que tudo está pensado em detalhes, desde a escolha da louça, ao espaço entre as mesas, a decoração, as toalhas e os guardanapos bem passados… tudo em equilíbrio e correto! Serviço impecável e, ao mesmo tempo, simpático.

Nós escolhemos o “menu découverte”, ou seja, era um menu às cegas, o Chef decide e Bianquita obedece! Fizemos a mesma opção em relação à harmonização dos vinhos. Também já fui logo fazendo amizade com o garçon e sommelier porque assim fica melhor a experiência.

Como previsto, estava tudo maravilhoso! Como única observação, achei que o Chef foi pouco ousado. Entendo que um Michelin não tem margem de erro, mas para clientes que escolhem um menu surpresa e dizem que não tem absolutamente restrição alguma, acho que ele teria liberdade para arriscar um pouco mais. Dito isso, não tenho nada a reclamar. Tudo foi absurdamente perfeito, lindo, equilibrado e delicioso!

Estava onde queria estar, sem concessões, bem na minha própria pele e com a melhor companhia possível! Foi um dia completamente feliz!

E era só o início da viagem… porque ainda tenho mais para engordar… digo, contar!

No dia seguinte, começamos a explorar os arredores. Não tínhamos nada muito definido, então, saí buscando nomes que parecessem charmosos, encontrei uma cidadezinha chamada Châlons-en-Champagne e me pareceu que, com um nome desses, só poderia ser chic! Na verdade, não era nada demais, mas o passeio até lá até que compensou.

A parte engraçada é que paramos para almoçar em um dos poucos restaurantes abertos, tinha uma boa rotatividade e estava cheio de gente que parecia local. Ficava numa praça que deveria ser a principal da cidade, com casas muito tortas, que lembravam um desenho animado. Até aí, beleza!

Gosto de arriscar na comida e não tenho muita frescura para experimentar coisas consideradas estranhas. A linguiça típica dessa região é a Andouillette, que dentre sua composição, leva intestino de porco. Eu, metida a valente, pedi a especialidade da região, né? O garçon virou para mim com aquele olhar de desdém e me perguntou se eu sabia o que estava pedindo. Você acha que tinha alguma chance de eu dar meu braço a torcer?

Fiz a cara que era a coisa mais óbvia do mundo e aí é que resolvi pedir mesmo a tal da Andouillette (e não, claro que não tinha certeza do que era feita nem havia comido antes). Ficamos Luiz e eu rindo, imaginando que porcaria ia chegar para eu comer e eu já avisando que ia morrer dura, mas não ia perder a pose.

Pois bem, a aparência não é terrível, parece mesmo uma linguiça, o problema é o aroma… putz! Não me fiz de rogada, comi assim mesmo e quando o garçon passava por mim ou me olhava, ainda fazia aquela cara de “hummm, que delícia…”. Ele deve estar achando que sou louca até hoje! Mas foi divertido!

Mudamos de cidade e, consequentemente, também de hotel. Fomos para o Château d’Etoges, classificado como monumento histórico, construído em princípios do século XVII. Todo um charme, quarto enorme, atendimento prestativo e um excelente restaurante. Ficamos em uma suíte que levava meu nome, Chambre Blanche. Sério, me senti uma rainha no meu castelo!

Nosso seguinte passeio foi para Reims, a cidade é normal, nada que chamasse tanta atenção, mas nosso objetivo principal era visitar a Casa Veuve Clicquot. Você deve comprar as entradas antecipadamente para a visita com direito à degustação e precisa confirmar que tem mais de 18 anos para entrar no website.

Eu nem deveria contar, mas vamos lá que os micos de viagem também são importantes! Com toda essa vida de princesa, comendo feito uma louca refugiada e bebendo todos os dias sem dó nem piedade, claro que à essa altura eu havia acordado completamente desarranjada! Desconfio que a “Andoillette” teve algo a ver com isso. E, como não poderia deixar de ser, com os ingressos para a visita da Veuve Clicquot já comprados!

Daí, o que uma pessoa sensata faria? Ficaria sossegada no hotel para não correr riscos e não tomaria álcool pelo menos nesse dia, certo? O problema é que… eu não sou uma pessoa sensata! E não ia perder essa visita nem a pau! Resolvi arriscar, jejuei desde o café, tomando água sem parar, fiz cursinho de planta toda a manhã, não almocei, comi umas torradinhas e Luiz ainda conseguiu ter a brilhante ideia de comprar um Imodium na farmácia da esquina (olha que providencial, no hotel no meio do nada, numa cidadezinha minúscula, tinha uma farmácia a 20 metros). E assim, pegamos a estrada em direção a Reims!

Chegamos um pouco cedo, o que foi até legal, porque há uma sala de espera com uma mesa de futebol totó e eu amo jogar! E vamos combinar, até jogar totó na Veuve Clicquot soa mais elegante, né? Enfim, visita recomendadíssima e adorei conhecer um pouco mais da história da champagne. Para quem não sabe, “veuve” significa viúva em francês e a bebida leva o nome exatamente da viúva do Clicquot, uma mulher extraordinária e muito à frente do seu tempo, responsável por fazer a casa se consolidar como marca importante.

Como era de se esperar, terminamos com uma degustação!

Degustação na Casa Veuve Clicquot

Não vou deixar a história anterior em suspense. Não passei mal e nenhum acidente, graças a nossa senhora dos alcoólicos desesperados! E provavelmente, também ao santo Imodium!

Mas admito que minhas risadas foram bastante cuidadosas e que a champagne depois do dia praticamente em jejum subiu que foi uma maravilha! Tudo bem, sobrevivemos!

Seguindo a viagem, deixamos a região e fomos para Rouen, que tem um lado um pouco sinistro, onde Joana D’Arc foi queimada. Entretanto, não deixa de fazer parte da história e, apesar disso, a verdade é que a cidade é muito bonitinha.

Ficamos hospedados no Hôtel Littéraire Gustave Flaubert, agora num esquema mais tranquilo, bom custo vs. benefício, bem localizado, limpo e atendimento bem simpático. Você precisa tomar cuidado se ficar hospedado no centro da cidade, porque o acesso a carros é restrito e as multas podem ser altas. E esse hotel, oferece a possibilidade de estacionamento.

Quanto ao jantar, preciso confessar que tudo que eu queria à noite era tomar uma sopinha com água! Não estava passando mal nem nada, mas até para os abusos há um limite, juro que o corpo reclamou! Um diazinho só de recuperação não foi mal.

De Rouen, tomamos rumo a Paris, mas sem pressa, aproveitamos para curtir o outono visto da estrada e queria parar em Giverny para almoçar.

Giverny fica na região da Normandia, Claude Monet viveu e trabalhou lá de 1883 até sua morte, em 1923. Infelizmente, não era a melhor época para se visitar, porque o Museu dos Impressionistas estava fechado, ficará para outra visita. Havíamos nos programado para almoçar no Ancien Hôtel Baudy, frequentado por Renoir, Rodin, Sisley, entre outros, mas também estava fechado, uma pena! Ainda que cheguei a ficar contente só pela oportunidade de passar na sua porta e cumprimentar seus fantasmas!

E, finalmente, o último destino dessa viagem: Paris!

Não tem jeito, sou a-pai-xo-na-da por essa cidade! Quando vejo a torre Eiffel apontar pela janela do carro, alguma coisa acontece no meu coração… é até covardia!

Faltava a última chutada de balde da viagem, uma que já venho negociando com Luiz há anos e nada dele se animar a ir, dessa vez não tinha desculpa, para fechar essa viagem com chave de ouro eu tinha porque tinha que comer o pato prensado no Tour D’Argent!

Reza a lenda que o restaurante funciona no mesmo local desde 1582 e chegou a ser frequentado por Henrique IV. O carro chefe da casa é o pato prensado, hoje servido em dois tipos de cocção. Em 1890, Frédéric Delair teve a brilhante ideia de numerar os patos consumidos por seus clientes, uma jogada de marketing sensacional! Até hoje, ao pedir tal iguaria, você recebe um cartão com o número do seu pato consumido!

Mas vamos desde o início, o restaurante funciona no sexto andar do edifício localizado na 15, Quai de la Tournelle, com vistas para o Sena. Você é recebido no primeiro andar, onde há uma lojinha com produtos da marca e espera para ser encaminhado pelo elevador por onde só sobe os integrantes de cada mesa por vez. A decoração, na minha opinião, está um pouco decadente, mas ainda guarda algo de elegância e a vista, definitivamente, rouba a cena. O número de garçons é bastante grande, considerando a média européia, o que demonstra prestígio.

Recebemos a carta de vinhos, que juro, parecia mais uma bíblia! Acho que nunca havia visto uma carta tão extensa! A adega deles é impressionante. Achamos mais fácil pedir recomendação ao sommelier, que foi bem simpático.

Mas vamos ao que interessa, e o pato? Era isso tudo mesmo? Pois sim, era. Nos apresentam nosso pato inteiro, ele é destrinchado em nossa presença para ser finalizado em duas maneiras. A primeira com o molho derivado do suco retirado com a prensa dos ossos e a segunda grelhado. Tudo perfeito!

Assim chegou ao fim nossa viagem! Toda uma semana de celebrações! Feliz por estar viva, por ter quem amar e por me sentir querida, com saúde para me exceder, com liberdade para exagerar e com gente bacana para compartilhar!

Pronto! Agora eu podia voltar para casa, aproveitei cada segundo, até a última gota. Não faltou nada! Não sobrou nada!

Preciso resolver problemas diariamente, tenho um monte de defeitos, muitas coisas queria ou posso ainda mudar, mas o importante é que sigo aqui. Sigo aqui. Às vezes, um pouco envergada, mas inteira e aberta para a segunda metade do meu primeiro século.

Fiz 50 anos! Francamente, acho que mereci meu conto de fadas particular. Sabia que um dia acabaria, sei que um dia acabará, mas hoje não.

Saúde!

De volta ao Brasil… a passeio!

Muita calma nesse momento!

Acredito que por volta de uns 13 anos morando fora (descontando o tempo que fiquei no Brasil) é a primeira vez que consigo ficar mais de um ano sem ir ao país. E leia-se isso como boa notícia! Não é que não aproveitasse ou não quisesse, mas basicamente porque a imensa maioria de vezes que precisava ir era de emergência para resolver pepinos!

Pois bem, dessa vez, não tinha uma urgência (isola!), eu precisava decidir ir de propósito. E confesso que enrolei um pouco, até porque minha mãe e meu irmão vieram nesse período, eu tinha festa de bodas para fazer, queria viajar para outros lugares também… e o tempo foi passando.

O problema é que tenho dois sobrinhos ainda muito pequenos, que não viajam essa distância, e estava há 1 ano e 4 meses sem vê-los! É muito tempo nessa idade! Com a mais velha, de quatro anos e meio, ainda consegui estabelecer um vínculo maior durante os três anos que morei lá, e nos falamos pela câmera na internet sempre que possível. Mas o outro, vi recém-nascido, aliás, o motivo da minha ida anterior ao Rio. Vejo pela câmera também, mas ele ainda é novo para entender.

O engraçado é que vou comprando presentinhos para eles ao longo do ano, coisas que vejo e acho que iriam gostar e tal… até alguém da família passar por aqui ou vice-versa. Só que como essa vez demorou um pouco mais, a saudade foi apertando e, quando finalmente resolvi ir, tinha uma mala enorme de presentes para os dois! Sério, foi uma mala normalzinha de roupa para mim, uma lembrancinha ou outra para minha mãe ou irmão… e outra mala gigante cheia de “muamba” para as crianças!

Mal exemplo, né? Fica querendo comprar as crianças… Então, fico mesmo, suborno na maior cara-de-pau! Sou tia!

Admito que não estava muito animada no início para ir. Não pela família, é óbvio, mas por toda a situação do país. Não suporto o presidente atual, não suporto os anteriores, não suporto a oposição… ou seja, olhando para à direita ou para esquerda, não me reconheço nem me representam. E, francamente, havia perdido completamente a paciência para conversar com as pessoas por lá. De uma hora para outra, parecia haver baixado uma escrizofenia coletiva, onde todos repetem o mesmo discurso com sujeitos diferentes. Fora toda a violência! Eu tenho medo de sair na rua no Brasil e, convenhamos, o Rio de Janeiro está quebrado!

Por isso, de certa forma, me preparei para o pior. Pensei, a prioridade são meus sobrinhos, família e amigos próximos que não me encham o saco! Nem uso mais o Facebook, então nem tinha como organizar grandes encontros.

Juro, até o dia da viajem, não estava nem um pouco animada! Mas sei lá, já dentro do avião comecei a pensar nas crianças, nas pessoas, nas coisas que gosto, na música e fui literalmente sendo invadida por uma sensação boa, de saudade, de amor, talvez do restinho de brasilidade que ainda me reste.

E vou logo adiantando, sem fazer suspense, que foi tudo de bom! Bem melhor do que me preparei! Para começar, nenhum pepino de saúde nem comigo nem com a família! Ufa! Só daí melhorou tudo uns 150%! O resto era lucro.

Fugi léguas de qualquer assunto relacionado à política, chega! Nem moro mais lá! Não preciso passar por isso, não preciso convencer ninguém, nem deixar usarem meu ouvido de penico!

Sempre chego com um pouco de medo no aeroporto. Atravessar aquela linha vermelha ou amarela à noite (ou em qualquer horário) é a primeira barreira de entrada. Mas minha mãe foi me buscar com o namorado, viemos conversando e nem me lembrei de me preocupar tanto durante o caminho.

Dia seguinte, montei um “sofá de presentes” para meus sobrinhos (valorizar um pouco, né? A pessoa faz set design…). Fui buscar minha sobrinha na creche, digo escolinha, afinal, segundo ela, já é uma “menina grande”, não vai mais em creche (mesmo sendo no mesmo lugar)! O sobrinho chegaria mais tarde, na hora da mãe buscá-la.

Claro que a criatura ficou louca! Nem sabia com o que começar a brincar primeiro! E eu arrumei uma encrenca para mim mesma, porque a partir de agora, o padrão foi colocado lá em cima e ai de mim se aparecer só com uma bonequinha! Mas tudo bem, isso é assunto para a próxima viagem! Meu sobrinho também gostou, os dois juntos tocaram um barata voa na casa que nem conto!

Vi os dois quase todos os dias do par de semanas que passei por lá! E foi muito bom para mim poder criar esses momentos, tirar fotos, gravar vídeos, de alguma maneira ainda fazer parte da vida deles.

Se fosse só por isso, já teria valido a pena! Mas foi mais. Fui aos lugares que minha mãe começou a frequentar e me contava por mensagens, conheci pessoas novas que ela passou a conviver. Assim como também saí com meu irmão, primos, amigos queridos, amigos que acabei reencontrando depois de anos, gente nova que conheci… enfim, muito legal!

Fui ao Circo Voador, que adoro… me enfiei com meu irmão nos camarins da Festa Ploc para tietar um pouco… consegui ir à praia um par de dias… tomei ótimas cachacinhas e melhor papo ainda no Adega Pérola na criada “segunda-feira sem lei”… saí pelas ruas de Copacabana de madrugada a pé sem lembrar de ter medo… fui com minha mãe nos bailes de dança de salão do Iate… comi uma carne ótima no Osbar do Centro… brinquei no chão… fiz comidas de mentirinha com minha sobrinha… quase enverguei a coluna pegando o tourinho do meu sobrinho no colo… aprendi músicas novas… e no final, minha mãe ainda resolveu fazer uma festa! Decidida de última hora, por isso foram só umas 40 pessoas! O DNA é forte… E foi divertidíssimo!

Muito bom voltar ao Rio com uma boa experiência! Sei que não é mais meu lugar, talvez nunca mais seja, mas me faz bem saber que ainda tenho meu crachá carioca na gaveta (porra!).

Um concerto, umas coisas esquisitas e a festa de inauguração do apartamento

É, assim desse jeito, tudo junto ao mesmo tempo, afinal é como tudo na minha vida!

Começando pelo concerto, fiquei sabendo que a Anitta faria um show em Londres! E sim, estou falando da funkeira carioca, a própria! E pode torcer o nariz à vontade, eu adoro, acho ela poderosa!

Convenci o pobre do Luiz a ir comigo. Nem foi tão difícil, tendo lugar para sentar, ar condicionado e bebida… ele topa quase tudo!

E como foi? Vamos lá, sendo preciosista, o som não estava dos melhores, o figurino poderia ser mais caprichado e a cenografia era fraca . Foi o que eu esperaria de um show de funk no Brasil. Entretanto, considerando que hoje ela é uma atração em turnê internacional, está na hora de investir mais na produção.

Dito isso, na prática, me diverti pacas! E digo mais, é raríssimo ver qualquer show na Europa onde as pessoas não estejam todas sentadas comportadas, principalmente em um teatro. Inclusive, se alguém levantar, as pessoas reclamam. Foi o primeiro concerto que fui por essas bandas de cá do oceano onde estavam absolutamente todos de pé dançando o tempo inteiro! Bom, todos menos meu marido, que era o único sentado com sua bebida, mas também não me perturbou. E, no fundo, mas bem lá no fundo, acho até que ele se divertiu também!

Antes, durante o “esquenta”, dois DJs começaram a animar o público. Segundo um deles, estilo “Rio Old School” e era mesmo! Assim que, quando entrou Anitta, já estava rolando um clima de festa no teatro. E acho que ela realmente comparece e não decepciona. Gosto muito da sua atitude e a considero uma feminista.

Não é música erudita, nem se propõe a ser. As letras não são sofisticadas ou filosóficas, e novamente, também não se propõem a ser. Para mim, é simplesmente uma batida boa para dançar e soltar a franga! E esse propósito é muito bem cumprido.

Beleza! Acabou o concerto e resolvemos comer alguma coisa antes de vir para casa. Já tinha bebido um par de whiskeys durante o show, estava bem animadinha, mas nada que não estivesse acostumada e, ainda assim, no jantar, só tomei água. Afinal, além de estarmos em plena terça-feira, estou dando esse detalhe pela sequência da história.

Voltamos para casa, tudo muito bom, tudo muito bem!

No meio da madrugada, por volta das três da matina, acordei com vontade de ir ao banheiro. Não estava me sentindo muito bem, algo tonta, achei que podia ser da bebida e o jantar estava me pesando um pouco. Mas nada que me chamasse tanta atenção. Por isso, não me preocupou, só pensei, faço meu pipi rapidinho e volto para dormir. Levantei rápido e fui.

Estou acostumada a levantar durante à noite. Nem acendo as luzes, faço tudo no piloto automático.

No banheiro comecei a passar mal de verdade, uma sensação de mal estar como se fosse vomitar, mas não estava exatamente enjoada. Pensei, vou lavar o rosto antes de ir para cama para ver se melhoro. Mas de pé, nem consegui abrir a torneira da pia. Percebi que piorava exponencialmente e decidi voltar logo para cama. Só que não deu tempo. Apaguei completamente ali mesmo. Desmaiei.

Eu nunca desmaiei antes na minha vida, não tinha ideia que isso poderia acontecer nem qual era a sensação. Mas foi como se tivesse tomado anestesia geral. Lembro do que descrevi acima e lembro de acordar ao ouvir a voz do Luiz me chamando. Abri os olhos no chão, sem ter certeza de onde estava e ver seu rosto assustado. Extendi a mão para ele.

Foi tudo muito rápido, questão de segundos. Pela versão do Luiz, ele ouviu o barulho forte vindo do banheiro, me chamou e eu não respondi. Ele foi atrás de mim e quando chegou na porta eu já estava abrindo os olhos e com a mão pedindo ajuda para levantar.

Não senti nada, mas durante a queda, bati forte com a parte de trás da cabeça e me abriu um corte. Ficou manchado de sangue onde caí e Luiz viu.

Cheguei na cama bastante tonta e suando muito. Ele acha que tive alguma queda de pressão. Honestamente, não tenho ideia, mas acho que faz sentido.

Ele começou a perguntar se queria ir para um hospital e a dizer que minha cabeça estava sangrando. Sinceramente, eu mal escutava, só me preocupei em dizer para ele: Luiz, eu não caí, eu desmaiei. Porque não sabia o que poderia acontecer e achei que ele poderia precisar dessa informação.

Em meus pensamentos, no primeiro momento o corte da cabeça não me preocupou, o desmaio sim. Comecei a pensar tudo que precisava checar em mim. Tive um pai com todos os problemas do mundo e eu tinha um check list do que precisávamos checar eventualmente.

Então, primeiro fiz o movimento do sorriso com a boca. Quem sofre um derrame não consegue sorrir. Derrame não era. Lembrei o número da minha identidade e data de nascimento. A memória não estava afetada. Meus braços não estavam dormentes e não tinha dor no peito. Não era coração. Minhas frases saíam com lógica, eu não trocava as palavras, meu corpo obedecia os movimentos, provavelmente não era AVC… e fui me auto diagnosticando. Ok, aparentemente não tenho nenhum dano neurológico.

A partir daí, comecei a prestar mais atenção ao que Luiz falava e ele, durante esse período, teve a ideia de pegar um pouco de papel higiênico branco para estancar o sangue. E também foi uma forma de literalmente me mostrar que estava sangrando ainda, porque meu cabelo é escuro e absorvia boa parte do líquido, não dava para saber bem o que tinha acontecido. Minha cabeça até doía um pouco, mas com toda a adrenalina, não fazia muita diferença.

Comecei a me preocupar com a pancada. Será que era seguro dormir? Fiquei bolada e resolvi ouvir o Luiz. Também havia melhorado a sensação de mal estar e era mais fácil levantar.

Lá fomos nós para a emergência do hospital!

Resumo da ópera, realmente não parecia haver nenhum dano neurológico e não dava para ter certeza do que havia se passado. A queda de pressão era uma das possibilidades. Provavelmente, foi um evento isolado. O médico não achou necessário fazer uma ressonância, porque não bati a cabeça e desmaiei, foi ao contrário. Além dos meus reflexos estarem normais. Mas o corte na cabeça precisava ser costurado. Na verdade, optamos por usar um tipo de cola cirúrgica ao invés de dar pontos. O médico orientou ao Luiz o que ele deveria reparar em mim nas próximas horas, já que eu mesma poderia não notar se fosse algo mais grave, e nos liberou.

Saí de lá pela manhã, dia claro, com a cabeça literalmente colada.

Daria um jantar nessa mesma noite, pensei em manter porque estava tudo engrenado. Para mim, se estava resolvido era que eu já estava boa, pronto, sem drama! Mas considerando que não havia dormido nada e não sabia bem como o corpo iria reagir, adiei o jantar para o dia seguinte.

Foi bom, porque durante o dia me caiu a ficha do que havia passado. Não tive maiores consequências. Adianto que ficou tudo bem, felizmente. Mas me dei conta de todos os riscos e de tudo que poderia haver acontecido.

Quantas histórias havia escutado de gente que caiu no banheiro, bateu a cabeça e morreu? Diversas! Isso quando não havia algum dano cerebral. Porque tudo em um banheiro é duro e se já é complicado você cair consciente, imagina sem nenhuma defesa! Você não põe a mão para proteger, você não desvia a cabeça… fica completamente vulnerável.

Uns centímetros um pouco para lá ou para cá, alguns segundos antes ou depois… e seu destino está traçado, é simples assim! Definitivamente, ou tenho muita sorte, ou sou muito protegida, ou minha cabeça é muito dura! Por outro lado, mais maluca do que sou, difícil ficar! Então, tudo bem, mas foi um susto da porra!

Difícil não te fazer repensar o quanto a vida é efêmera. E o que deveria ter sido apenas uma “bobagem”de um tombo, me afetou mais do que eu esperava. Realmente, senti medo de me levantar durante à noite por alguns dias.

Depois voltei à rotina. Mas admito que, mesmo tendo passado alguns meses, o local ainda é um pouco sensível e sinto um tipo de “dor fantasma”. Às vezes, é como se estivesse doendo no local, mas passo a mão na cabeça e não sinto nada. Deve passar em algum momento.

Bom, na semana seguinte ao desmaio, veio uma amiga da Alemanha nos visitar, nossa madrinha de casamento, que conheço desde os tempos de solteira. A gente recebe muitas visitas e muitos hóspedes, mas como estou falando de coisas esquisitas, quero contar um evento muito curioso que aconteceu durante a sua visita. Entre o evento da cabeça quebrada e a chegada dela, estava pensando a semana inteira em uma outra amiga que faleceu há muitos anos, se suicidou. É uma história longa e complicada, mas a memória dela me volta de tempos em tempos por razões que nem quero explicar agora, mas enfim, apesar das minhas crenças e descrenças, todo mundo fala tanta coisa ruim sobre quem se suicida… que era inegável para eu pensar se ela estaria bem.

As duas se conheceram e foram muito presentes na minha “vida de solteira”. Mas isso não significa que a gente fique tocando sempre nesse assunto, afinal, fará pouco menos de uns 30 anos que isso aconteceu.

A primeira vez que encontrei minha amiga que faleceu foi em um réveillon, em Búzios. Foi amizade à primeira vista, instantânea! Tudo bem, eu faço amizades de infância em 15 minutos… é verdade… mas nesse caso, a gente realmente se entendeu muito bem, não éramos tão parecidas, mas nos complementávamos, nos entendíamos, tínhamos problemas parecidos… e um tipo de sintonia que eu costumava chamar de “efeito catalizador de merdas”! Tudo que uma sugeria, por mais absurdo que fosse, a outra sempre, mas sempre, topava! Bora? Bora!

Nessa noite de Ano Novo, encontramos na areia da praia uma garrafa fechada de vodka Smirnoff, reza a lenda que em uma macumba. Veja bem, a gente era meio dura nessa época, estudantes, começando a trabalhar, a gente fazia vaquinha para comprar Kovak! Imagina se a gente ia ficar de mimimi para tomar uma Smirnoff na faixa! A gente nem quis saber, pedimos licença para os santos e matamos a bebida sem pensar duas vezes!

Foi um ano muito legal! As portas começaram a se abrir, a vida melhorou! Foi o ano, inclusive, que conheci o Luiz. E sempre brincávamos que o segredo daquele ano foi a tal vodka de macumba que a gente tomou!

E contei esse caso para dizer que em uma das noites que saímos com a amiga visitante da Alemanha, do nada ela lembrou da outra amiga durante a conversa. E falei, que engraçado e que coincidência, pensei nela essa semana passada toda! Muito louco, né?

Pois é, passamos uma noite ótima, divertida, ouvindo música ao vivo no Nightjar, um bar pequeno que adoro com uma história de clandestinidade no passado, quando os donos fabricavam (e contrabandeavam) sua própria bebida. Até hoje, não há um letreiro, é uma porta discreta, entre dois pontos comerciais.

Quando fomos embora, pela hora resolvemos pedir um carro e ficamos ao lado da porta para aguardar. Nesse minuto que a gente saiu e Luiz pegou o celular para chamar o Uber, minha amiga e eu olhamos para o lado e, bem no chão da calçada, uma garrafa vazia… de vodka Smirnoff!

Qual a probabilidade de aparecer em Londres uma garrafa de vodka e dessa mesma marca na calçada, em frente ao bar que saímos e acabamos de falar no assunto? Foi de arrepiar!

Não sabemos e nunca saberemos o real motivo da extrema coincidência, mas para nós, ou principalmente para mim, foi um momento tão bacana. Como uma resposta que estava tudo bem e que ia ficar tudo bem.

Dia seguinte, festa de inauguração do apartamento novo, meu endereço #46! De cabeça quebrada mesmo, com hóspede da vez e com futura hóspede, com amigos novos e antigos, entre memórias e possibilidades, esquisitices e normalidades… como a vida costuma ser, pelo menos a nossa.

E ficou tudo bem.

Restaurante Pétrus em Londres

O Pétrus, aberto em 2010 no local onde hoje funciona, faz parte do grupo de restaurantes do Gordon Ramsay e possui uma estrela Michelin, além de cinco AA Rosettes.

Quem me conhece, sabe a relação afetiva e, ao longo dos anos, até profissional que tenho com a comida e, sempre que possível, busco essas experiências gastronômicas, o que considero bastante enriquecedor.

Mas nesse caso, foi inclusive melhor, porque uma amiga nos deu de presente um almoço para duas pessoas nesse restaurante, em função das bodas de prata com Luiz.

Eles oferecem essa possibilidade de você comprar vouchers de valores diferentes para oferecer aos seus amigos ou familiares. Vamos combinar, presentão, né?

Bom, conseguimos acertar nossas agendas e marcar nosso super almoço por lá! Adianto que foi tudo ótimo e conto os detalhes abaixo.

A decoração é relativamente discreta, mas elegante. O destaque fica para uma enorme adega de vidro redonda bem ao centro do salão. E falando nisso, o nome do local foi inspirado no vinho Pétrus, favorito de Ramsay.

A cozinha é de inspiração francesa moderna. Não há serviço à la carte, são opções de menus completos, sendo que o mais comedido inclui amouse-bouche, entrada, prato principal e sobremesa ou queijos. Também oferecem harmonização dos pratos com vinhos em dois preços diferentes, sendo um deles para chutar o pau da barraca!

Considerando ser uma estrela Michelin e o padrão do serviço oferecido, aliás, bastante simpático e nada arrogante, o preço é justo. Obviamente, não é nem poderia ser um restaurante popular, mas em comparação a outros no mesmo padrão, suas opções de preço são bastante razoáveis.

Não espere invenções estapafúrdias ou nada absolutamente surpreendente, é um restaurante honesto, de ingredientes conhecidos. Entretanto, tudo muito fresco, paladar absolutamente bem equilibrado, pratos bonitos e tudo executado com perfeição. Ele é o que se propõe a ser, aliás, a cara do Ramsay! O responsável pela cozinha é Russell Bateman, que em 2014 ganhou a competição National Chef of the Year (o chef do ano).

Então, vamos lá, o que a gente comeu?

De amuse-bouche um gazpacho de tomate e cereja; de entrada, Luiz escolheu o Mackerel (peixe) e eu um spelt risotto (tipo de trigo); de prato principal, Luiz foi de Côte de porc (porco) e eu de Sea bream (peixe); como sobremesa ele pediu uma tortinha de damasco com sorvete de amêndoas e eu um merengue de pera com sorvete spiced (nem sei como traduzir, são ingredientes usados para temperos e um pouco picantes); café com chocolates e pequenas madalenas recém-saídas do forno!

Côte de porc
Côte de porc
Sea bream
Sea bream
Apricot tart
Pear meringue

Para acompanhar os pratos, escolhi a harmonização de vinhos sugerida pelo sommelier da casa. Gostei muito, escolhas não tão óbvias, eu não teria pensado, mas bastante interessantes.

Tudo uma delícia! Nada a acrescentar ou tirar! E esse equilíbrio e excelência na execução é algo que levo bastante em consideração.

Enfim, experiência aproveitadíssima! Recomendo!