A cerimônia japonesa do chá

Há alguns meses, só para variar um pouquinho, tivemos hóspedes em casa . Um casal com a filha, moram nos EUA. Essa minha amiga é de origem japonesa e, por coincidência, tinha uma prima que não via há muitos anos morando aqui em Londres. A prima veio deixar alguma coisa aqui em casa para ela e, acabei a conhecendo rapidamente.

Mas claro, que a convidei para entrar e conversamos um pouco. Pelo que entendi e, para ser sincera, nem tinha entendido tão bem assim, essa prima e o marido eram como representantes da cultura japonesa e ofereciam cursos sobre a cerimônia do chá por essas bandas.

Fiquei muito curiosa a respeito e, na minha ignorância, perguntei se a gente poderia ir um dia a uma dessas cerimônias, no esquema como se fosse ir até lá e tomar um chá da tarde, da mesma maneira que iríamos em alguma casa comercial especializada.

Ela explicou mais ou menos que não era bem assim, que a casa era um tipo de escola e, eventualmente, eles faziam alguma demonstração. Novamente, não entendi muito bem, mas aceitei. Demonstrei meu interesse e se surgisse alguma oportunidade, ótimo! Sem grandes expectativas, também não queria ser invasiva. Sei lá, quando a gente não conhece tão bem a cultura, e eu não conheço, poderia estar dando alguma rata, né? Melhor não forçar nada.

Até que há cerca de um mês ela me procurou pelo whatsapp e fez o convite para que participássemos de uma sessão. Era um dia em que os alunos do marido estariam colocando em prática seus dotes como anfitriões. Achei o máximo! Claro que quero!

Perguntei se tinha algum tipo de preparação, alguma coisa que eu precisava saber, alguma vestimenta definida, enfim, mas não havia muitos detalhes. Para mim, tinha um certo “que” de mistério e resolvi também não me preocupar, simplesmente estaria aberta e atenta ao que viesse. Infelizmente, não podia fotografar, assim que adianto que não tenho imagens.

Muito bem, aviso adicionalmente que contarei minha experiência como leiga. Descobri que a cerimônia do chá não é simplesmente um tipo de refeição, é bem mais amplo, é uma filosofia de vida. Portanto, não seria em algumas horas de um domingo que eu teria alguma legitimidade para falar profundamente do assunto. Mas achei tão bacana que vale o registro.

Começa logo na entrada, você tem a sensação de ter passado em algum tipo de teletransporte, onde de um lado da porta é Londres e do outro, alguma cidadezinha no Japão. Juro! E, obviamente, já se tira os sapatos ali mesmo. Até aí, normal, na minha casa é igualzinho, os sapatos são barrados logo de cara!

Fomos recebidos pela prima da minha amiga, vestida em seu quimono japonês, assim como as pessoas envolvidas na preparação de todo evento. Chegamos um pouco antes, como recomendado, e ficamos em uma sala pequena, recebendo algumas informações, aguardando nossa hora e todos convidados se juntarem. Éramos um grupo de 7 convidados, incluindo a prima da minha amiga, que fala português e foi nos orientando como deveríamos nos comportar durante toda a cerimônia.

Foi nesse momento que comecei a perceber que o buraco era mais embaixo, ficou mais do que claro que não era somente ir até lá e tomar um cházinho. Ao mesmo tempo, ressalto que não era nada tenso para mim, era mais uma preocupação em não fazer nada que ofendesse ninguém, mas fui deixada bastante à vontade. Bastava que copiasse o que a “primeira convidada” fizesse (explicarei um pouco adiante esse papel).

Pois bem, a tradição Urasenke chado é baseada nos princípios de harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. A ideia é aprender a importância real de como se comportar e viver. São princípios simbolizados e executados durante uma determinada cerimônia, mas que são metáforas e regras a serem seguidas na vida de maneira geral. Bom, isso foi o que entendi nessa pequena experiência.

Uma coisa que achei muito interessante é que, na cerimônia, você aprende a ser anfitrião e convidado. Ou seja, não basta entender o que é servir ou como fazê-lo, você também precisa entender como se comportar para receber o que alguém está te oferecendo. A humildade e a gratidão são vias de mão dupla.

Os papéis do grupo são definidos com clareza. Havia uma anfitriã, uma ajudante, a primeira convidada e os outros convidados. Todos os convidados são servidos individualmente, com a devida sequência de reverências e na ordem em que serão sentados. Essa ordem de entrarmos na sala de chá e nos sentarmos foi estabelecida assim que chegamos, ainda na sala de recepção. A anfitriã é a figura principal, quem recebe os convidados, define desde os aperitivos até a decoração da sala, escolhe as louças, prepara o chá e serve os convidados. A ajudante, como o nome sugere, ajuda a anfitriã. A primeira convidada é como se fosse uma convidada especial, ela é sempre servida primeiro e tem inclusive a responsabilidade de ajudar a manter o bom entretenimento dos convidados, enquanto a anfitriã está ocupada.

Muito bem, seguindo essa ordem definida dos convidados, fomos primeiro levados ao jardim para lavarmos as mãos e a boca. Isso é feito individualmente, você tem que esperar sua vez e há uma maneira padronizada para fazê-lo. É como um ritual de purificação.

Daí, seguimos para uma sala forrada por tatame e decorada com um arranjo floral. Entramos na ordem definida e se senta sobre os joelhos, em semi-círculo. Eu tenho problemas nos dois joelhos, infelizmente, e só consigo sentar de pernas cruzadas. Não é o padrão, mas não foi um problema.

A anfitriã estava nervosa e parecia emocionada, era sua primeira vez oficialmente executando a cerimônia. Achei bacana, me senti honrada de alguém estar tão preocupada em me servir bem.

Entendo esse conceito, de uma maneira muito mais intuitiva e informal, percebi que também usava vários dos príncípios utilizados na tal cerimônia. Quando recebo alguém em casa, minha ambição é que essa pessoa se sinta como um rei ou rainha! Que saiba que os detalhes foram pensados para cada convidado. Às vezes, é difícil quando o grupo é grande, mas essa é a intenção durante toda a preparação de cada evento.

A anfitriã nos serviu uma entrada fresca, biscoitos e chocolate, além do chá. Tudo é feito individualmente e se serve uma pessoa por vez. Começando sempre pela “primeira convidada”. Há um conjunto de reverências e agradecimentos que se faz para quem oferece, para quem recebe, para seu vizinho… até para a louça utilizada! Falando assim, parece um exagero, mas acredito que isso seja uma demonstração de respeito e gratidão. Na prática, é bonito. Acho que a gente deveria demonstrar mais às pessoas quando estamos gratos, nem que seja por um gesto de gentileza.

Ter que esperar sua vez é algo que te faz exercitar a paciência. Ao mesmo tempo, gera uma sensação de tranquilidade. Você sabe que terá sua vez e quando ela irá acontecer, então, não há necessidade de ansiedade. Entender que os outros também terão seu tempo e atenção, traz uma sensação de harmonia, equilíbrio. Não sei se me explico, mas é parecido a fazer um tipo de meditação.

Ou seja, são gestos simples, mas com analogias importantes que podemos trazer para nosso estilo de vida e comportamento. Como coloquei no início, mais do que uma mera cerimônia, é uma filosofia.

Poderia gastar toda uma tarde descrevendo os detalhes e os papéis de cada participante, mas acho que a ideia principal foi passada. Na verdade, muito mais do que uma descrição, o que vale é toda a experiência.

E sou muito grata por tê-la vivido.

PS: para quem se interessou pelo assunto, esse é o website da Urasenke Foundation, e se estiver por Londres, eles fazem algumas apresentações com os alunos no The British Museum. Em 2019, estarão nos dias 12 e 26/ julho; 9/agosto; 27/setembro; 12/outubro; 8 e 22/novembro e 13/dezembro. É grátis e aberto ao público!

Relacionamentos que terminam

Muita calma nesse momento, não estou falando do meu (isola!). Mas nos últimos meses, tenho recebido notícias sobre alguns casais de amigos queridos que se separaram ou estão nesse processo.

Até aí, normal, faz parte da vida, ou deveria fazer, só que há casais que você não espera que isso aconteça. Imagino que, em condições normais de temperatura e pressão, todos (ou quase todos) casais que assumem um relacionamento acreditem realmente que queiram ficar juntos, pelo menos no início. Mas para quem está de fora, costuma haver alguns que parecem mais prováveis de funcionar. E, principalmente, depois de algum tempo juntos, quando você sabe que passou a fase da paixão, da empolgação, e a relação amadureceu, fica aquela sensação de “prova superada”, agora vai planando em voo tranquilo.

Infelizmente, nem sempre é assim e fico triste quando sei que aconteceu uma separação entre casais. Por mais que não tenha nada com isso, por mais que saiba que muitas vezes seja melhor, por mais que nem veja as pessoas com tanta frequência, por mais que o universo siga seu curso… me bate aquela sensação de que o mundo saiu um pouco do lugar.

Sabe quando você lê aquela notícia sobre um acidente grave que ocorreu em um caminho que faz parte da sua rotina? Por algum motivo, você não passou lá naquele dia, mas poderia haver passado, poderia ter sido com você… poderia ter sido comigo.

Procuro não me influenciar ou buscar um lado positivo. No fundo, há algo de alívio culpado em pensar que não foi comigo. Será que estou me comunicando bem? Será que dou o suficiente? Será que está certo? Tento usar como alerta e rever se estou fazendo direito meu papel.

A questão é que nem sempre há o que fazer ou exista algum culpado, às vezes, simplesmente os caminhos se dividem. Triste, mas fato. E deve ser muito duro revisitar tantas histórias e buscar onde estaria o erro ou o que poderia ser feito diferente. Talvez, ou muito provavelmente, não houvesse o que ser feito de outra maneira, as pessoas são o que são. É possível que nem valha a pena buscar esses potenciais enganos, para que apontar dedos se esse bonde já partiu?

Mas há vezes que ainda dá tempo. E, o melhor dos casos, talvez a crise ainda não tenha chegado. Então, não espere ou conte que não chegue, se não chegou, ela vai chegar! Pode ser fraca ou forte, breve ou duradoura, pode até passar batido e te errar, quem sabe… mas ela vem.

Não trate sua relação como garantida, não há garantia de nada nesse mundo! Não existe amor absolutamente incondicional, ele precisa ser cuidado, alimentado, regado. Eu decido continuar casada todos os dias, nos alegres e nos tristes, nos fáceis e nos difíceis. Há 25 anos eu decido que sim e que assim seja.

Mas se não for o caso, que assim seja também, que as pessoas sigam seus caminhos em paz e com mais experiência para compartilhar amor. Afinal, ninguém melhor do quem perdeu para valorizar o que é importante. Que possam entender que o que passou deu certo, pelo menos pelo tempo que tinha de ser.

E, mais do que tudo, mesmo que o amor “não seja imortal, posto que é chama”, que o respeito “seja infinito enquanto dure”.

Autenticação de documentos e reconhecimento de firma na Inglaterra

Sabe como funciona a autenticação de documentos aqui? A pessoa olha para você, olha para o documento com foto… e reconhece!

E reconhecimento de firma, como faz? A pessoa olha sua assinatura, compara com um documento com foto… e reconhece!

Tá bom, vai, vou complicar um pouquinho… Às vezes, quando é algo mais importante, no máximo, você precisa assinar na frente da pessoa. Ou já aconteceu comigo, quando estava em outro país e não podia comparecer no momento da assinatura, você tem que assinar e pedir para “alguém institucionalizado” reconhecer. Na prática, um médico, uma dentista, advogado… alguém que tenha um carimbo com um número de identificação. Essa pessoa escreve: reconheço essa assinatura, carimba e assina. Pronto!

Ah, mas você não precisa de alguém específico que faça isso? Porque afinal de contas, reconhecer uma foto ou uma assinatura deve requerer um perfil ex-tre-ma-men-te especializado! Puxa, não é fácil achar alguém que enxergue! Por isso, é fundamental se pagar uma fortuna, por exemplo a um cartório, para exercer essa atividade essencial e super exclusiva… não?

Que simplistas são esses ingleses, viu? Precisam aprender muito com os latinos…

O 46o. endereço, uma mudança inédita!

Sim, se você chegou agora no blog, aviso que não entendeu errado, estou nesse momento no meu quadragésimo quinto endereço e de malas encaminhadas para o quadragésimo sexto!

Nem sou eu a autora da frase, mas se existe algo de constante em minha vida, definitivamente, é a mudança! (Bom, e o casamento, né? Isola!) Mas vamos lá, o que há de diferente agora?

É a primeira vez que mudamos dentro do mesmo edifício. Mudaremos apenas de andar!

Ai, Bianca, sério que você vai passar por todo esse perrengue para ficar no mesmo prédio? Por que mesmo? Então, como em todas as outras dezenas de vezes, não é que eu quisesse mudar, simplesmente aconteceu! Eu apenas não reluto.

Para início de conversa, meu vizinho é um dos meus melhores amigos, viramos família. A gente sai para caminhar diariamente e fala mais que o homem da cobra, trabalhamos em alguns projetos juntos, se eu viajo ele cuida dos meus gatos, a (nossa) sobrinha janta aqui em casa… ou seja, parece bobagem, mas não é, o fato é que minha vida é melhor e mais fácil com essa proximidade. Portanto, precisaria haver alguma razão muito forte para eu pensar em sair daqui.

Pois bem, há cerca de um mês, descobrimos um vazamento estranho… que foi puxando outros vazamentos misteriosos… todos aparentemente sob controle, mas deixando aquela certeza amarga que, mais cedo ou mais tarde, seria necessário uma investigação definitiva. Isso quer dizer, quebrar o chão, fazer obra etc… com a gente aqui! Hum… acho que vai dar ruim! Só de imaginar a possibilidade, arrepiou os cabelos do sovaco!

No desespero, Luiz começou a buscar alternativas pelas redondezas. E eu já reclamando por antecipação: mas não quero ficar longe daqui! Pois muito bem, por uma enorme coincidência do destino, não é que estava para vagar outro apartamento exatamente no mesmo edifício! No mesmíssimo, nem do lado, nem perto, no próprio!

Não acreditei! Hoje vivemos em um primeiro andar, bem de frente para o Tâmisa. A vista e o tamanho são boas vantagens, mas o fato de ser na altura da rua, nos cobra pouca privacidade; e por ser primeiro andar, é onde há a maior probabilidade de problemas, como vazamentos, por exemplo. Esse próximo é no quinto andar, não é bem de frente para o rio, mas tem a vista lateral, tem varanda e ainda por cima é mais barato! E onde está a pegadinha? É um pouco menor e a reforma é mais antiga. Tudo bem, posso viver com menos, até aproveitei para fazer nova limpeza e me livrar de mais algumas coisas. Tenho síndrome de Diógenes ao revés, fico feliz em me desapegar das coisas.

Claro que a negociação foi um parto de mamute, porque nada na nossa vida é simples. Coloquei algumas condições e me plantei. Juro que achei que não fosse rolar, mas a proprietária aceitou. Embora se passassem dias para responder daqui, dias para responder dali… até quando me enchi e falei para Luiz, ou é amanhã ou não quero mais! Aparentemente, deu certo.

Ou seja, lá vamos nós para o endereço #46! Juro que com tanta experiência no tema, ando pensando em seguir uma carreira paralela ao estilo Marie Kondo!

Alguém por aí, quer me contratar? Faço sua mudança, arrumo seu armário, resolvo problema de mau-olhado e trago a pessoa amada em 3 dias! E parafraseando Tim Maia, só minto um pouquinho… Vai?

A cup of tea? (Uma xícara de chá?)

O chá na Inglaterra é definitivamente uma instituição! Se não igual, acredito que talvez até mais forte que o café no Brasil. Absolutamente todo mundo toma!

Até aí, não é uma grande novidade para muita gente. Mas o curioso e que queria contar hoje é o fato de não ser incomum alguém que vá na sua casa te pedir chá. E não estou falando apenas dos seus amigos, pode ser simplesmente alguém que for prestar algum serviço, um ilustre desconhecido! Da mesma maneira que te pediriam, por gentileza, um copo de água, aqui pedem chá.

A primeira vez que isso aconteceu, achei engraçado. Havia ido em casa um “contractor” (como um mestre de obras) fazer alguns reparos e em determinado momento perguntei se ele queria uma água. Ele me respondeu que não, mas que ele aceitaria um chá. Sabe quando você fica na dúvida se era um abuso ou se era normal? Tipo, alguém vai prestar um serviço na sua casa, você oferece uma água e a pessoa vira e responde: não, mas quero um refrigerante!

Como assim? E se eu não tiver refrigerante na geladeira? Pois é, talvez você não tenha refrigerante ou suco, mas com a mais absoluta certeza, se você mora na Inglaterra, é lógico que você tem chá!

Claro que não liguei, quem me conhece sabe que todo mundo que vem na minha casa é bem recebido e não me custou nada fazer um chazinho. Só fiquei sem saber se era algo comum ou se foi só aquela pessoa.

Acontece que esse fato se repetiu e acabei descobrindo que não era abuso de quem pedia, era normal. Eu é que deveria ter oferecido antes! Mas que mal educada…

_ So, would you fancy a cup of tea?

A festa da minha vida!

Estou falando das minhas bodas de prata. Não gosto de classificar ou comparar coisas, vivo dizendo que quem compara sempre perde, mas posso dizer que, até hoje, essa foi a festa mais incrível que fui responsável por organizar. E vou contar o porquê.

Primeiro de tudo e correndo o risco de ser piegas, porque foi por amor. Amor a uma pessoa com quem compartilho mais da metade da minha existência por opção; amor a uma família que entre defeitos e qualidades são e me levaram a ser quem sou hoje; amor aos amigos que me fazem sentir parte de algo maior e acreditar no ser humano; amor à minha vida imperfeita e ainda assim feliz no limite do possível. Por tudo isso e muito mais, eu queria celebrar!

E celebrei, celebramos juntos, porque juntos era a única maneira de fazer sentido.

Quando começamos a planejar a festa, com mais de um ano de antecedência, admito que me deixou um pouco ansiosa. Foi só porque não tínhamos outra alternativa, afinal, nosso orçamento era limitado, são milhões de detalhes, as pessoas precisavam se programar etc. Então, ou nos programávamos ou não ia rolar! Mas juro que depois mudou minha visão, entrei naquela máxima de aproveitar o caminho e não só o destino final. Assim que aproveitei por todo ano!

Lógico que quando foi chegando mais perto, a pressão aumentou e foi batendo um certo nervoso. Vamos combinar, quando você negocia com pessoas que nunca viu na vida, em outro país, sem ter provado nada, sem grandes referências, pagando tudo adiantado… dá um pouco de medo de receber gato por lebre. Os únicos contratados que a gente conhecia com antecedência foram os músicos, o resto todo, foi um salto no escuro.

Mas confiamos! E recebemos de volta toda a confiança depositada! O apoio no local da festa, Château de Mauriac, foi impecável! O responsável pelo castelo nos ajudou na organização do evento, na contratação do buffet, na indicação de locais para os convidados se hospedarem, na arrumação do salão… foi de um apoio fundamental! O pessoal do buffet, Le Colombier, não falhou em nada do que se propôs, foram simpáticos, se esforçaram com os mil idiomas presentes no evento, me deixaram absolutamente tranquila em relação à comida (e isso vindo de mim é um elogio e tanto!). Os vinhos, comprados com meses de antecedência no castelo vizinho, Château de Salettes, foram entregues pontualmente no dia combinado, ainda nos entregaram (sem nenhum papel assinado ou pagamento) duas caixas extras de bebida em consignação. Enfim, sou toda elogios! Recomendo todos de olhos fechados!

Os músicos, que já conhecíamos, realmente arrasaram na apresentação! Botaram o pessoal para dançar mesmo! Infelizmente, acabaram antes do combinado. O líder da banda, que me prometeu terminar a festa no esquema cachaça, banquinho e violão tocando até o amanhecer, se recolheu logo após o concerto. E nem deixou um violãozinho para a gente seguir por conta própria. E o DJ, que deveria ficar até às 6h da manhã, recolheu seu equipamento logo depois das 2h sob meus protestos e com o vocalista, com quem negociei, já desaparecido. Uma pena, mas não estava afim de me aborrecer em um dia tão especial. E, como a festa começou bem cedo, a maioria dos convidados nem ficou sabendo disso, melhor assim! Mas a diretoria do fim de noite ficou com o gostinho de quero mais e eu também. Chato, mas foi a única frustração de uma noite sensacional. Portanto, vamos falar das coisas boas!

Mas vamos por partes! Saímos de Londres na sexta-feira, dia 05 de abril, a festa foi no dia seguinte. Eu estava semi-histérica, com vontade de pular, porém mantendo a pose. Chegaríamos no final da tarde em Mauriac, ainda para arrumar o salão e adiantar as coisas para o dia seguinte. Fui eu mesma que levei a decoração da festa, vasinhos, velas, pequenos arranjos, luzes, coisas assim que coubessem em uma mala! E não, não tinha orçamento para arranjos de flores, decoradores ou qualquer tipo de mordomia.

Em Londres, no caminho para o aeroporto.
Começando a relaxar e com o bronzeado francês!

No aeroporto em Londres, começamos a encontrar convidados. No mesmo avião que a gente, havia mais dois casais da festa. Comecei a me animar! Quando pousamos em Toulouse, entre a saída do avião até o local de aluguel de carros, encontramos mais outra galera que ia para festa! Comecei a me sentir local!

Quando chegamos ao castelo, o salão estava arrumado direitinho como enviei desenhado em uma planta. Nos adiantou um bom trabalho! As toalhas estavam forradas, como havia pedido por email ao buffet e ainda fizemos uma rápida reunião para acertar os detalhes do dia seguinte. Tudo certinho, conforme combinado, o que me tranquilizou bastante. Montei com Luiz as decorações que havia trazido de Londres e conseguimos nos liberar para jantar com amigos!

Château de Mauriac

Nesse momento, ainda rolava um nervosinho, mas era gostoso. Sentia que a gente tinha feito tudo que podia e agora era começar a aproveitar!

Chegamos no restaurante, no castelo ao lado, o Château de Salettes, e basicamente todas as mesas eram de convidados da festa! Foi engraçado! É uma cidade muito pequena e de gente amável, assim que considerando a quantidade de pessoas que se movimentaram para o evento, viramos assunto da comunidade!

Tentando encurtar um pouco a história, compareceram às bodas 110 convidados dos quatro cantos do mundo! E eu me arrepio quando penso nisso. Sim, nós gostaríamos de ter condições de convidar mais gente… sim, havia muita gente querida que não pode comparecer… sim, havia gente que nem está mais entre nós que deveria estar ali… mas nesse momento, sinceramente, isso não importava. O casal de convidados que morava mais perto da festa estava há 3 horas de carro do local. O restante veio do Brasil, da Espanha, da Itália, da Inglaterra, dos EUA, da Dinamarca, da Austrália, da Holanda, da Alemanha, da Suécia… pense em um país e havia alguém de lá! Mauriac é um povoado no interior da França sem projeção internacional (pelo menos, não até esse momento). Quem compareceu se esforçou muito para estar presente. E todos que estavam presentes, amigos antigos e recentes, fizeram e fazem parte da nossa história. Saber que Luiz e eu conseguimos mover tanta gente tão querida para uma celebração foi de uma emoção que nem sei como descrever.

Festa é feita de convidados. Você pode ter tudo perfeito e se a combinação de pessoas não for legal, não acontece tão bem. Mas imagina o oposto, uma centena de pessoas, com um astral altíssimo, uma energia positiva paupável no ar, se reunindo, abertos a conhecer gente nova, se encontrando para celebrar um momento feliz! Eu só posso passar mais um ano agradecendo o privilégio de ter vivido essa experiência. A gente precisa ter feito alguma coisa certa na vida para ter essa honra, porque foi uma honra! E sou eternamente grata!

Uma coisa muito bacana é que conseguimos reunir alguns grupos que normalmente não se encontravam, mas de alguma maneira já haviam ouvido falar uns dos outros. Porque leram no blog, porque comentamos ou por algum outro motivo. E, de repente, as próprias pessoas foram se reconhecendo e se apresentando. Não rolou ninguém deslocado, não teve ninguém intimidado, não ficou ninguém sem carona. Tudo fluiu naturalmente.

Recebemos os convidados às 19h para um coquetel, depois subimos para o salão de festa. Luiz fez um discurso de abertura e agradecimento. Em seguida, nossa madrinha de casamento (sim, do casamento mesmo, há 25 anos!) também fez um discurso muito legal.

Abrimos o salão dançando New York, New York, fizemos o mesmo no nosso casamento.

Nós optamos por não fazer jantar sentado. Achamos que seria muito formal e as pessoas acabam interagindo apenas com quem está na sua mesa. Então, servimos umas mini-comidinhas, arroz de pato e pasta com molho de tomates e pesto. Depois deixamos à disposição um buffet de queijos e frios variados por toda à noite. Todos os produtos, vinhos, queijos, eram de produtores locais.

E, literalmente, nos acabamos de dançar! A banda estava muito show!


E claro que paguei meus micos! Todos muito bem acompanhada, diga-se de passagem!

De repente, ganhei uma grinalda, que estavam com medo que eu não fosse gostar. Imagina, achei divertidíssimo! Mas para merecê-la e porque não poderia faltar, uma amiga me o-bri-gou a tomar uma cachacinha! Glamour total!

Eu poderia morar nessa festa! Não queria que acabasse, por mais exausta que estivesse. Para mim, o tempo passou voando como os últimos anos, passou em 5 minutos! Queria uma festa cigana, dessas que duram dias! Acho que é da minha natureza sempre querer mais!

Eu não tive “dia da noiva”, fui eu mesma que fiz meu cabelo e minha maquiagem. Queria ter tido mais tempo. Queria ter perdido mais peso. Queria ter dormido melhor. Queria um sapato mais confortável. Mas sou o que sou e tenho o que posso. E vou confessar que à tarde, quando me arrumei para a festa e me olhei no espelho pronta, me senti o máximo! Confortável na minha pele, feliz da vida, radiante, poderosa! O bom de ter quase 50 anos é que não preciso mais de modéstia, quando acho que estou podendo, eu posso mesmo!

E agora vou esnobar, sabe o cara mais gato da festa, vestindo elegantemente seu smoking? Pois é… tô pegando… há mais de 25 anos!

“Set design”, meu novo “crush”

Há anos, desde que abandonei a carreira de consultoria de negócios, navego por diferentes atividades e descubro vocações. Brinco que cada vez me especializo mais em profissões que não dão dinheiro… mas me deixam feliz!

Já estou careca de superar a fase de autoafirmação financeira e tenho o privilégio de estar casada com alguém que entende que somos um time, independente de onde o dinheiro venha e de onde o trabalho saia. Aliás, trabalho nunca faltou para ninguém aqui em casa!

Mas vamos ao que interessa! No papel de artista plástica, um par de vezes ouvi a pergunta se eu não tinha interesse em trabalhar com cenografia. Realmente, faço algumas instalações que, mesmo em tamanhos menores, lembram bastante ambientes inteiros. Respondia a verdade, adoraria, mas que não tinha nenhuma referência nessa área, nem saberia como começar a trabalhar com isso!

Além do que, vejo como propostas bastante diferentes. Quando faço uma obra de arte, é sempre um trabalho autobiográfico. Em uma cenografia, ou como chamamos por essas bandas, um “set design”, você executa a visão e a intenção de outra pessoa. É uma forma de materializar ideias que não são necessariamente suas. E é fundamental entender e aceitar que um cenário nunca será o protagonista, se for, está errado. Ele é criado para que @ protagonista apareça em sua melhor forma.

Não tenho nenhum problema em assumir o protagonismo, se essa for a proposta. Eu gosto do palco, mas independente do que esteja fazendo, também adoro os bastidores! Para mim, o backstage é um caminho que aproveito tanto quanto o destino final. Acho que atrás das cortinas há um mundo extremamente interessante, me sinto parte de algo secreto e privilegiado. Gosto das preparações, de montar exposições para mim ou para estranhos. Amo entrar nos estoques dos museus! Curto poder estar em um camarim! Levo os ensaios musicais tão a sério quanto as apresentações, simplesmente há objetivos diferentes.

Dito isso, estou eu na minha vida de pau-para-toda-obra-e-sem-mi-mi-mi e fico muito amiga do meu vizinho. Por caso do acaso, ele tem duas revistas de moda masculina que adoro! Conversa para cá, conversa para lá… quer me ajudar? Claro que quero, por que não? Achei o máximo! Fui dando meus pitacos, me envolvendo naturalmente em pontos diferentes e que tinha alguma experiência formal ou informal.

Em uma dessas vezes, ele me pediu para fazer o set design para algumas fotos. Se tratava de uma instalação incluída em uma matéria de moda que questionava em paralelo o impacto ecológico do plástico. Aliás, é uma coisa que gosto muito nessa revista, não é uma moda oca e futil, há sempre um aspecto de questionamento político ou cultural como fio condutor.

Foi uma experiência super produtiva! Eu gostei de fazer e ele gostou do que eu fiz. Ainda que tenha surgido de maneira informal, eu sempre levo a sério tudo que faço, não importa se é por amizade, por trabalho, por necessidade… acho que quando você se propõe a fazer alguma coisa, o outro conta com isso, certo? Mas ainda não tinha me caído a ficha que era uma possibilidade concreta de atividade profissional. Eu registrei o que fiz, guardei as revistas com carinho, mas era mais por uma questão afetiva que profissional.

Acho que temos um pouco desse resquício de que se for divertido, não é exatamente trabalho. O que é louco, mas observo que é frequente. Luiz costuma dizer que se trabalhar fosse bom, não te pagariam para isso. E se te pagam muito, deve ser pior! Claro que é uma brincadeira, entretanto esse sentimento é real. Então, talvez porque me divertisse, não associei a trabalho no primeiro momento.

Até essa semana, quando fizemos o último ensaio fotográfico em um estúdio bem interessante. Logo que chegamos para montar o circo, meu amigo me falou: você podia começar a montar seu portfólio com esses trabalhos… Ficou na cabeça, mas estava mais preocupada em deixar tudo organizado para as fotos e só respondi que tenho registrado esses cenários, caso precise usar como referência. Inclusive, as próprias revistas são o melhor portfólio que posso apresentar.

O dia foi bem cheio e mal paramos para comer! Também, nem fome eu tive, estava bastante focada. Montei uns quatro ou cinco cenários, onde se podia acrescentar alguns elementos que levamos ou que havia no próprio local. Eram quatro modelos, ótimos! Uns meninos lindos, super profissionais, colaborativos, uma vibe boa! Marcas fortes, algo em torno de £10.000 em roupas e acessórios, olha a responsabilidade!

Abro um parênteses como me impressiona o fato dos modelos serem tão jovens e tão responsáveis. No caso, falo dos modelos masculinos, mas imagino que é o mesmo no universo feminino. Eles saem para morar sozinhos cedo, muitas vezes em outros países, com idiomas conhecidos ou não e se viram! Um ensaio fotográfico dá um trabalho danado! Verdade que não só para eles, é maquiadora, cabeleireira, estilista, fotógrafo, set designer (olha eu aí! U-huu!)… toda uma estrutura montada! Mas no geral, os outros profissionais envolvidos não são tão jovens como os modelos. Enfim, todo um trabalho bastante sério e elaborado, e eles seguem passando pelo estígma do rostinho bonito que não precisa se esforçar tanto. Dou aqui meu depoimento desde dentro: precisam sim e eles encaram! Palmas para eles! Fico feliz em trabalhar com uma revista e uma equipe que respeita e cuida da imagem desses garotos, porque nesse mercado tem de tudo. Bom, também é verdade que me sinto um pouco dinossaura, tipo aquela tia coroa preocupada se os sobrinhos estão comendo direito em casa… se lembraram de levar o casaco… Vamos voltar ao assunto, né? Fecha parênteses!

Onde quero chegar é que, ao acabarmos esse último ensaio, foi a primeira vez que me senti fazendo essa atividade profissionalmente. Não era uma amiga dando uma força, era para valer. Sempre foi, mas só aí realizei que era trabalho, tinha valor, fazia diferença e era bom pacas!

Acho que os próximos trabalhos vão surgir tão naturalmente como esses que o universo colocou no meu colo e aceitei. Entretanto, posso me preparar melhor, dar uma ajudinha para que o acaso se concretize. As oportunidades aparecem quando estamos abertos e estou.

Ganhei mais uma possibilidade em trabalhar com cenários fotográficos ou de vídeos e sou grata por isso. É uma delícia ver uma foto bacana publicada em uma revista show e saber que tem um dedinho meu ali, em uma composição com a cor, em um objeto que dá ao modelo algo para interagir ou qualquer detalhe que permita ampliar o olhar.

Se estou na linha de frente, sei a falta que me faz uma retaguarda confiável e tenho absoluta consciência de que não consigo ser tão boa sozinha. Essa empatia é fundamental quando a retaguarda sou eu. O sucesso de quem está na frente é meu sucesso também! Aquele prazer muito pessoal e íntimo, um resultado que não preciso contar para ninguém, porque o legal é deixar o outro melhor, é o que me fará maior.

E, principalmente, fico muito feliz em ainda ser capaz de descobrir e desenvolver novas habilidades. Ajuda a manter a cabeça ativa, as ideias jovens, é desafiador de uma maneira leve. Ainda tenho tempo e é muito bom ter paixões!