Por que é ruim quando as bolsas de valores caem?

Tenho observado algumas opiniões pela internet em relação à economia um tanto estapafúrdias. Até aí, normal, desisti de mudar a opinião alheia há tempos! Mas me ocorreu que, em alguns casos, talvez na maioria, possa ser por puro desconhecimento e não má intenção.

Pessoalmente, acredito que desconhecimento hoje em dia vem em função de certa preguiça em buscar fontes de informações mais aprofundadas. É mais fácil ler um parágrafo com alguma frase de efeito em uma rede social qualquer e compartilhá-lo com empolgação.

E me dói um pouco a vista quando vejo comentários de gente teoricamente instruída manipulando informações por interesse político. Bom, quem sabe pode ser uma opinião diferente, que se for embasada, estarei encantada em ouvir! Quantas vezes já mudei de ideia!

Entretanto, me ocorreu que também pode ser por falta de fontes que expliquem alguns conceitos básicos sobre o tema de maneira menos complicada.

Então, vamos lá, vou tentar ajudar na parte em que me cabe. Não sou economista, nem analista de mercados, nem dona da verdade, nem nada demais! Simplesmente, quando não entendo alguma coisa, sento meu rabito, leio, pesquiso, estudo! Por acaso, me interessa o mercado financeiro e sou pequena investidora em bolsa de valores. Diferente do imaginário popular, você não precisa ser rica para investir.

Esse não é um post para te ensinar a aplicar em ações, infelizmente não vou dar dicas para ninguém ganhar dinheiro. Não porque não queira, mas porque não saberia e só assumo meus próprios riscos. Não vou te vender nenhum curso e, provavelmente, seja um post único. Minha intenção é explicar rapida e leigamente o que são ações e como funciona uma bolsa de valores.

A bolsa de valores é uma instituição que regulamenta e controla o mercado de ações. Imagina um enorme mercado, com vários quiosques de empresas, cada uma colocando à venda uma parte do seu próprio negócio. Para você ter um quiosque nesse mercado, você precisa seguir determinadas regras, como: apresentar quanto você fatura, quais são seus custos, quanto você tem em caixa, o que você tem de dívidas etc. Daí, você tem clientes interessados em comprar pequenas partes de alguns desses quiosques. Esses clientes irão pesquisar essas informações que foram dadas ao mercado para escolher qual quiosque interessa mais, qual tem o preço que pode pagar etc. Esse mercado, para viabilizar todas essas transações entre os quiosques e os clientes cobra um tipo de comissão pelas negociações. E o governo também cobra impostos sobre essas transações realizadas. Funciona mais ou menos assim, só que de maneira eletrônica.

Agora, vamos entender que essas empresas (representadas acima pelos quiosques) que participam da bolsa (o grande mercado) vendam suas ações. Ações são pequenas partes dessas empresas. Quando alguém (cliente) compra uma ação, ou seja, uma parte de qualquer empresa, essa pessoa se torna um tipo de sócia desse negócio.

Na prática, essas transações funcionam parecido à compra de um imóvel. Você precisa ter uma conta em uma corretora financeira, onde você deposita o dinheiro que quer investir e define o que você quer comprar. A decisão é sua, o dinheiro é seu, mas a operação técnica são eles que fazem, geralmente com algum tipo de comissão ou taxa de administração.

Sabe quando você compra um imóvel e faz uma escritura para oficializar? Então, se mais de uma pessoa for dona do imóvel, a escritura precisa ser feita em nome de todos os donos, correto? Pois imagine que a ação é como se fosse uma escritura que você tem daquela pequena parte da empresa que comprou. Só que, ao invés de ficar registrado em um cartório, fica resgistrado em uma corretora.

Sempre acho mais fácil entender as coisas com analogias de situações cotidianas, logo darei um exemplo de como conceitualmente funciona a emissão e compra de ações.

Vamos supor que tenha um açougue no seu bairro, que você frequenta há alguns anos, gosta da qualidade da carne, acha os atendentes bem preparados, boas condições de higiene e tal. Então, um dia, o dono desse açougue resolve que quer crescer, aumentar seus negócios. Ele percebeu que muitos dos seus clientes compram carne para fazer churrasco e quer também vender cerveja, gelo e carvão.

O dono do açougue sozinho não tem o dinheiro suficiente para fazer essa ampliação, por isso ele busca algumas alternativas. Poderia pedir um empréstimo no banco. Só que aí ele teria que pagar juros para o banqueiro… Então, ele tem outra ideia, resolve perguntar aos seus clientes mais leais se não querem comprar uma parte do açougue dele e se tornarem pequenos sócios.

Ele chega para alguns clientes que ele conhece melhor e os convence que o açougue dele vale 100 “dinheiros”. Ele vende 10 partes (ações) que custam 10 dinheiros cada uma e investe no negócio.

A questão é a seguinte, os clientes conhecem o açougue hoje e parece que vai tudo bem. Mas nem o dono do açougue, nem seus investidores, nem seus futuros clientes tem certeza que o negócio seguirá sendo bom nos próximos meses.

Porque, no mês seguinte, as vendas dele podem aumentar e o negócio crescer; o açougue passaria a valer 120 dinheiros! Ou seja, cada parte que valia antes 10 dinheiros, passou a valer 12! As ações subiram.

Mas ele pode ter se enganado, porque os clientes que frequentavam o açougue na verdade preferiam comprar a cerveja no supermercado e o gelo no posto de gasolina. E o pobre do açougueiro acabou tendo prejuízo! O negócio que valia 100 dinheiros, depois de empacar com o estoque adicional, passou a valer 80. Ou seja, aquele pequeno sócio que comprou uma parte por 10 dinheiros, passaria a ter somente 8. As ações cairam.

No mercado financeiro, funciona um pouco dessa mesma maneira. Os investidores que compram determinadas ações não tem certeza absoluta se elas vão subir ou cair. É, de certa forma, uma aposta que fazem no futuro daquela empresa. Entretanto, não é, ou não deveria ser uma aposta cega. Cabe ao empresário mostrar porque seu negócio tem valor e pode crescer, cabe à bolsa de valores verificar se o que esse empresário está dizendo corresponde à realidade atual e cabe ao investidor analisar a empresa que quer investir e que riscos quer correr no futuro.

Ah, mas é tudo tão fácil assim? Já estou pronta para investir na bolsa? Não, é mais complexo e não tem muito bobo nessa praia, nem duram muito tempo no mercado. Não tenho a pretensão de entrar no detalhe. Tem gente muito mais competente que eu para isso. Mas não é nada impossível ou inacessível aos reles mortais, como euzinha.

O ponto principal de todo esse texto é para dizer que atrás de cada ação, existe uma empresa de verdade! Não é um número abstrato. Não são pessoas trocando papéis ou simplesmente dinheiro trocando de mão.

Quando a bolsa “quebra” não quer apenas dizer que o investidor parrudo ou o especulador mercenário perdeu dinheiro. Isso pode acontecer sim, mas é o de menos! O que realmente importa é que, se a bolsa quebrar, significa que as pessoas acreditam que as empresas que fazem parte dela podem quebrar também! Aqueles quiosques dentro do mercado, lembra? É o açougue que valia 100 dinheiros e, de repente, só vale 30, e talvez tenha que fechar as portas.

Ah, mas essas empresas que fazem parte da bolsa são todas grandes! Não correm risco de quebrar! Caríssimos, uma empresa grande tem risco menor de falir que uma pequena, é verdade, mas segue tendo riscos e quando isso acontece o impacto também é maior, impostos não são pagos, pessoas ficam desempregadas, famílias ficam sem sustento! Porque sendo um açougue de bairro ou um grande frigorífico, emprega igualmente gente simples, pais e mães de família. Sobra para todo mundo!

Não tem solução fácil, infelizmente! Assim que, antes de atirar a primeira pedra, cuidado, seu telhado também é de vidro ou pode ser um espelho na sua frente.

Nesse momento de tanta incerteza, talvez o melhor investimento seja se informar.

… e se é para me reinventar, que seja de verdade!

Esse é um daqueles textos que acho difícil escrever, repletos de entrelinhas, onde só vale se eu me expor sem pudores e chamar meus demônios pelos seus nomes. É pessoal.

Há um certo tempo, tenho sentido uma vontade grande de raspar minha cabeça. E talvez, seja um ato melhor entendido pelas mulheres, porque nossos cabelos tem milhões de simbologias e estão intimamente vinculados a como queremos nos apresentar, nos descrever, nos (re)definir. Para uma mulher, decidir cortar os cabelos bem curtos é sempre, pelo motivo que for, um ato de coragem.

Já escrevi sobre isso antes, não venho aqui me repetir, apenas coloco em contexto.

Em novembro passado fiz 50 anos e isso marcou para mim o fim de um ciclo. Eu funciono entre ciclos e rituais. E ainda precisava do meu ritual de passagem. Escolhi duas metas, ou metáforas, fortes para marcar fisicamente esse ciclo e esse ritual, uma tatuagem grande (que ainda não fiz, mas está nos planos) e cortar meus cabelos bem curtos.

Não estabeleci datas nem prazos, era algo a ser feito no momento que sentisse estar pronta. Assim que percebesse que uma mudança real estivesse prestes a acontecer ou houvesse iniciado, que estivesse à vontade com meu rosto sem maquiagem, tranquila com o peso que meu corpo carrega, sem culpa nem arrependimentos, mas querendo muito, sinceramente, renascer melhor.

Estou pronta.

Nova parceria do blog: Programa Almanaque RN

Recebi um convite do Aquiles Medeiros para participar do seu Programa Almanaque RN, uma revista eletrônica semanal do canal NMP no Facebook.

O NMP é um canal de Smart TV HD com programações ao vivo. O Programa Almanaque RN faz uma participação semanal nesse canal, toda terça-feira, às 22h (horário local). O programa tem 1h de duração, sendo trinta minutos de entrevista com um convidado que aborda assuntos de interesse geral da sociedade; e trinta minutos para um convidado musical que fala da sua carreira. Entre uma conversa e outra, o músico convidado toca e canta suas canções, acompanhadas pelo próprio Aquiles na percussão.

Enfim, esse Programa Almanaque RN tem uma página no Facebook e fui convidada para contribuir com geração de conteúdo.

Achei bem bacana e estou empolgada com o novo projeto! Nada melhor do que compartilhar experiências, se informar e ouvir música boa!

Enfim, que venham bons frutos dessa parceria e, certamente, entre Londres e Natal não nos faltará assunto!

PS: Por enquanto, participo pelo Facebook, mas quem quiser acompanhar o programa pelo Youtube estará disponível através do link https://www.youtube.com/channel/UCSGIXJ6zEw9ut9qTo1eDD3w e quem quiser seguir pelo Instagram, @programaalmanaquern.

Vírus não segue ideologia política!

Hoje é dia 31 de março de 2020, estou em quarentena desde o dia 07. Em princípio, quarentena (mais ou menos) voluntária e, logo após as duas primeiras semanas, em quarentena oficial.

Não, não é fácil. É melhor do que para muita gente e pior do que para outras pessoas. Exatamente como a vida era antes, desigual, mas não é fácil para ninguém. E não vim aqui julgar nem defender meu ponto de vista, venho apenas fazer um alerta. Porque eu mesma já mudei de ideia algumas vezes e não tenho certeza de nada. Francamente, acho que ninguém tem.

Não vejo essa crise com olhos românticos de arco-íris, como uma oportunidade para evoluirmos, para a terra descansar, para deixarmos de ser tão individualistas… e blá, blá, blá… Tampouco vejo motivo para pânico, não porque seja algo simples de se resolver, mas porque não temos alternativa diferente da que manter a calma. E, veja bem, não condeno quem pense dessa ou daquela maneira, cada um tem sua própria forma para tornar sua realidade mais tolerável, suas crenças, seus valores e, à essa altura, nem importa mais. Simplesmente, sou fatalista, acho que deu merda, ponto! E agora, como a gente faz para sair dela?

Uma vez, fui assistir a um jogo de futebol com Luiz, na arquibancada que é onde eu gosto, estádio lotado! Bem na nossa frente, do outro lado do campo, uma tragédia aconteceu. A grade da arquibancada cedeu e as pessoas começaram a cair. Lembro que no início não havia entendido que era gente caindo, achei que eram balões coloridos, quase achei bonito. Mas de repente, meu sorriso se desfez, era gente e era sério. Meu primeiro instinto de sobrevivência foi observar ao lado para me defender, buscar as rotas de fuga mais seguras, tive medo que as pessoas entrassem em pânico e começassem todas a correr ao mesmo tempo. Não teria resolvido o problema de quem já havia caído e poderia se converter em uma tragédia muito maior. Mas isso não aconteceu. Quem estava próximo ao acidente tentou ajudar, quem não podia ajudar, abriu o caminho e quem estava mais afastado da cena se sentou em silêncio. Como se houvéssemos sido treinados a vida inteira para isso. Sim, caríssimos, isso aconteceu em pleno Maracanã, jogo do Flamengo, povão mesmo! Imperou o bom senso e essa atitude, literalmente, salvou vidas.

É um pouco como me sinto agora, no início, achei que não era tão ruim; em seguida me dei conta da gravidade da situação. Até o momento, só posso agradecer não estar do lado da grade que despencou, abrir caminho e aguardar as instruções em silêncio o suficiente para ouví-las.

Tenho observado bastante, tudo, tentando entender, tentando decifrar os códigos, buscando analogias, tentando prever que passos tomar, que direção seguir. Mas acho que mais do que tudo, tenho aprendido a ouvir e ser resiliente.

A sensação que tenho é de estar vivendo a 3a. Guerra Mundial. Porque não tenho ilusões, já não importa de onde veio ou de quem é a culpa, estamos mundialmente nesse barco. Nunca imaginei que o que nos uniria a todos seria justo um inimigo comum. Menos ainda, que o enfrentaríamos vestidos com pijamas.

E, quanto a isso, o Brasil em especial tem uma enorme desvantagem, porque nunca viveu em campo um período de guerras mundiais. Temos algumas situações similares, quase que mini guerras civis e desorganizadas, mas é diferente. De certa forma, os tempos de guerra ainda estão no DNA europeu. Em situações assim, há uma tecla automática na cabeça das pessoas e elas sabem como se comportar. Sabe tiroteio no morro? As pessoas se jogam no chão imediatamente, crescem ouvindo que precisam fazer isso e o fazem quase que por instinto. É parecido em conceito. Levei um tempo extra para entender, por não ter sido criada aqui, mas estou aprendendo a me comportar em um período de guerra.

Aprendi rapidamente algo que ainda não entrou na cabeça dos brasileiros, vírus não segue ideologia! Não tem vírus de direita ou de esquerda, ele mata ou danifica igualzinho! Não se cura vírus na marra com discussão política! Vírus não é machista nem feminista! Vírus não tem preferência sexual! Vírus não respeita prazo eleitoral! Vírus não quer saber em quem você votou ou deixou de votar, muito menos quem você acha que é ou não idiota!

O brasileiro em geral está tratando uma situação de guerra da mesma forma com que trata suas preferências políticas, religiosas ou futebolísticas. Ao invés de se concentrar em uma solução, querem definir quem está certo.

E quem está certo? Vamos lá, no momento, há um presidente que acredita que algo capaz de mudar a economia do planeta não é mais que uma gripezinha; governadores absolutamente radicais que não medem as nuances e diferenças sociais existentes em função das suas próprias ambições pessoais; e há também as lideranças mudas, com medo de tomar algum lado que os atrapalhe o futuro político. De quebra, praticamente um golpe parlamentarista montado tentando buscar uma brecha a todo custo. Para mim, estão todos loucos! E até aí, morreu neves afogado em cuspe! Porque o que eu acho ou deixo de achar também não importa.

O que me ferra é ver as pessoas, ao invés de estarem se unindo e buscando soluções, estarem mais preocupadas em xingar os covardes que organizam carreatas ou os hipócritas que só ficam em casa porque não querem trabalhar… e tantos outros absurdos que me provocam vergonha alheia. Galera, não importa. Não importa se você votou certo ou errado, nem se o outro lado seria muito pior ou melhor… foda-se! O passado passou e o que vem pela frente vai precisar um pouco mais do que paixões pessoais.

A verdade é muito mais complexa e tem vários lados! O isolamento social tem se provado eficiente pelo mundo? Sim! É importante seguirmos essa linha? Fundamental! Podemos usar uma solução que funciona em países desenvolvidos e acreditar que vai funcionar igualzinho em países pobres ou em desenvolvimento? Hummm… sério!

Vou dar um exemplo. Na casa da minha mãe trabalha uma diarista há “trocentos” anos! Obviamente, ela não consegue ir até lá, porque não pode pegar o trem. Ah, mas minha mãe deve ser mais uma aproveitadora dessas que está mais preocupada em ter que fazer ela mesma o terrível trabalho de casa… Certo, então, ao invés de julgar tão rápido, deixa eu terminar a história. Minha mãe estava tentando pagar as diárias, mesmo sem ela ir e sem fazer o trabalho, afinal, o marido dela está desempregado e sem o valor da faxina, a família não come! Lindo, né? Só um detalhe, a diarista simplesmente não tem conta bancária! Como é que faz? Você acha que essa é uma exceção? Porque eu acho que é a regra.

E, por favor, esse é só um exemplo! Não estou definindo que o comportamento do país precise ser assim ou assado exclusivamente considerando a diarista da minha mãe, ok? Tem gente irresponsável sim, tem gente preguiçosa, gente egoísta, no mundo existe de tudo! Mas também tem muita gente tentando se proteger, se adaptar, ajudar. O mundo e, nesse caso em especial o Brasil, precisa de soluções razoáveis e não de um debate político!

É fácil falar desde Londres? Claro que sim! Agradeço todos os dias por estar fora, mas minha família e muitos amigos ainda estão dentro e me preocupo legitimamente com isso. Também lembro que a distância traz perspectiva e o fato de vivenciar primeiro aqui na Europa o ocorrido ajuda a prever alguns possíveis acontecimentos.

Galera, é guerra e é sério, se preparem! Assim como nas outras guerras, há luz e vida no fim do túnel, mas o preço é alto. Não é que o mundo não será mais o mesmo, o mundo já não é mais o mesmo. Entuba, levanta e se adapta rápido!

Não quero terminar de maneira pessimista, confesso que independente da motivação, mais ou menos nobre, tenho notado muita coisa bacana também. Sempre esperei um momento Saramago (“Ensaio sobre a Cegueira”) em situações assim e, na prática, o que tenho visto é uma maturidade, generosidade e bondade que me emocionam. Quero acreditar que sairei dessa uma pessoa melhor, talvez seja eu agora tendo um momento arco-íris. Porque preciso acreditar que tudo vai dar certo.

Importa menos o que seu presidente disse, importa menos o que seu governador ou parlamentar disse, simplesmente, busque seu instinto, seja humano. Olhe para seu vizinho, procure fazer o que é certo. Se você está próximo, ajude. Se não puder ajudar, abra caminho. Se estiver do outro lado, sente em silêncio e aguarde.

26 anos de casamento, nossa primeira festa virtual

No dia 18 de março, completamos a respeitável marca de 26 anos de casados!

A pessoa aqui doida para comemorar… escolhendo qual o restaurante fabuloso e romântico sairía para jantar… viagem programada para Malta no final da semana… Luiz reservou férias… meu irmão vinha do Brasil para nos encontrar… tudo certo!

Só que não.

Pois é, não deu e todo mundo sabe o motivo. Tudo cancelado! Meu bico arrastando no chão de frustração! Reclamei, resmunguei… depois entubei, né? Fazer o que?

Daí tive uma ideia…

Havia assistido um concerto de um amigo músico de Madrid pelo Youtube e até que foi bem legal. Os músicos são de uma categoria que está penando com o raio da quarentena, afinal, como trabalhar? Por conta disso, estão buscando soluções criativas, como essa, para se manter nesse período complicado.

Pensei, e seu eu juntasse tudo? Posso ajudar uma pessoa a trabalhar, levar um pouco de distração para quem está isolado pelo mundo e, claro, meu objetivo final, conseguir celebrar, compartilhar algo de felicidade e leveza com gente querida.

E como fazer isso? Sei lá! Fomos aprendendo pelo caminho dentro dos recursos que conhecia naquele momento!

Contratamos nosso amigo músico para fazer um concerto privado no Youtube para nós e nossos convidados. Montei um grupo (gigantesco) no whatsapp, convidando para nossa primeira festa virtual! Quem eu não tinha o número de whatsapp, ainda perguntei num post geral pelo Instagram se queria participar! Pedindo um pouco de paciência aos convidados, porque um grupo tão grande gera milhões de comentários e isso assusta muita gente que não tem tempo para tantas notificações. Acho que essa foi a parte mais complicada de gerenciar. Porque dá vontade de conversar e responder todo mundo, mas seria enlouquecedor! Assim que o grupo foi criado meio que na véspera do evento.

Marcamos com as pessoas no dia da festa, exatamente no dia 18 de março, em determinado horário, para todos se conectarem ao mesmo tempo. Mais ou menos uns 10 minutos antes de começar o concerto no Youtube, liberamos o link de acesso.

Aviso que me arrumei como se fosse para uma festa de gala! Usei o mesmo vestido longo das minhas bodas de prata, me maquiei e tudo! O cara-de-pau do meu marido, só se arrumou da cintura para cima, porque disse que era só o que ia aparecer!

A partir de aí, ficamos com as duas plataformas abertas, o Youtube com o concerto para a gente rolando e a possibilidade de participar de um chat; e no whatsapp enviando fotos de onde estávamos, o que estávamos bebendo, comendo, fazendo brincadeiras… enfim, cada um buscando sua maneira de estar presente!

E estávamos presentes, nas nossas próprias casas, mas com uma energia bacana concentrada em uma única direção. E quer saber, me diverti pacas! Às vezes, até esquecia de toda essa loucura que se apoderou do planeta. Cantei, dancei, toquei meu surdo, tomamos vinho, comemos bem… exatamente o que fazemos em uma festa real! Quero acreditar que passou o mesmo com quem estava presente e, pelo menos, por um par de horas, algo de alívio e de alegria.

O retorno que recebemos dos convidados foi tudo de melhor, compraram a ideia, entraram na bagunça com vontade. Pessoal se arrumando, fazendo aperitivos de festa, pegando sua bebida, chamando a criançada para partipar, dançando de se acabar. Recebemos fotos incríveis e muito espontâneas! O concerto foi o máximo! Repertório 10, animadíssimo e dentro do espírito da festa. O fato de ser ao vivo fez toda a diferença do mundo, as pessoas conseguiam interagir, pedir música, foi realmente especial!

Foi o mesmo que encontrar as pessoas ao vivo e a cores? Claro que não! Lógico que faltaram os abraços, micos, fotos em grupo… Mas também é verdade que muita gente que “compareceu” tampouco poderia vir em uma festa presencial. Porque apareceu gente do Brasil, da Espanha, da Itália, da Inglaterra, da Holanda, da Alemanha, da Dinamarca, do Canadá, da Suíça, dos Estados Unidos, da França, de Portugal, do Japão… e devo estar esquecendo algum país, com certeza!

Meu único dilema foi não conseguir responder a todos individualmente, porque não dá tempo de responder todos os comentários, ouvir música, cantar e dançar ao mesmo tempo! Mas talvez seja como numa festa grande de verdade, em que você se esforça ao máximo para dar atenção a todo mundo igualmente, mas nunca consegue parar mais que 5 minutos com cada um! Logo tem que repor uma bebida, receber alguém que chegou ou simplesmente chutar o pau da barraca como se fosse mais uma convidada (geralmente, meu caso!). Pensando bem, não foi tão diferente assim…

Mas depois que o grupo foi desfeito, por algumas vezes eu li cada comentário, vi cada foto e ouvi o concerto que Luiz salvou. E digo o seguinte, todas as vezes que repito esse ato, fico feliz, me deixa mais leve. Ver as fotos de amigos sorrindo que não encontro pessoalmente há dias, ou meses, ou até mesmo alguns anos… não tem preço!

Agradeço à família e aos amigos que temos por um presente desses e por poder viver esse momento ao lado de alguém que amo.

Saúde!

OBS: Para quem quiser ouvir o show que o músico, Pitú, fez para nossa festa, o link no Youtube é https://youtu.be/0RY_St90eJ8. E sejam bem-vindos a uma festa virtual que aconteceu de verdade!

Quarentena em Londres

Esse não é um post motivacional para ninguém. Não darei mil dicas ótimas para quem quer aprender grego on line ou arrumar perfeitamente o armário da cozinha. Tampouco posso informar como vai a vida na cidade, como eu saberia? Estou em casa. Não busco consolo nem explicações e, por favor, mas por favor mesmo, não me enviem outros 329 vídeos sobre o tema!

Sabe qual é a única coisa que eu quero nesse momento?

Eu quero reclamar!

Reclamar em paz! Sem comprovações científicas! Sem todas as histórias de que poderia ser muito pior! Sem lições de moral! Sem parecer a louca da teoria da conspiração! E, sério, o pior de tudo, sem paternalismo barato! I don’t need to be patronized!

Eu só quero re-cla-mar!

E, taqueopareo, que saco é ter que ficar em casa!

Estou de quarentena desde o dia 07 de março, hoje é dia 23.

Veja bem, Londres só lançou medidas mais severas recomendando que evitássemos ao máximo sair a partir da última sexta-feira, dia 20. Entretanto, eu havia chegado da Espanha pouco antes deles fecharem tudo. Itália já estava complicada… Luiz achou melhor a gente ficar em casa, por via das dúvidas e só sair para o essencial.

Saímos rapidamente para fazer compras, quando necessário, fizemos isso apenas um par de vezes. A maior parte dos suprimentos, consigo que me entreguem com compras on line. E eu já comprava on line antes, assim que não mudou tanto a rotina. A não ser pelo fato de estar bastante difícil conseguir datas de entregas, tive que deixar reservado alguns espaços semanais. Mantenho um pequeno estoque de não perecíveis, nada tão gigantesco, nem tenho espaço para isso no apartamento. Além da consciência me pesar um pouco em deixar alguém sem produto. Não me falta nada e não faltará.

Das duas vezes que saímos rapidamente para compras, Luiz foi de máscara, eu não. Normal, ele é sempre mais preocupado e precavido com essas coisas do que eu.

Francamente, não estava com um pingo de medo do raio do corona vírus, aliás, continuo sem estar. Mas entubei a quarentena em consideração a ele e aos demais. Hoje faz 17 dias que estamos em reclusão, seguiremos enquanto faça falta, mas acho que adquiri o direito de, ao menos, poder reclamar!

E para quem começou seu “distanciamento social” agora, vou logo avisando, não fica mais fácil! Prepare seu espírito. O problema é o seguinte: qual seria a opção? Contribuir para a morte de alguém? Você quer colocar essa na sua conta?

Fingir que um problema não existe não faz com que ele vá embora.

Veja bem, disse e repito, euzinha yo myself, não tenho medo do vírus no que se refere à minha saúde. Posso mudar de ideia na semana que vem, mas hoje eu não tenho. Sou relativamente jovem e tenho uma saúde de leoa! Exceto pela quarentena, os hábitos e os alimentos aconselhados nesse período para a prevenção, fazem parte da minha rotina há anos! Não acho impossível que eu contraia a doença, nem sei se já não contraí, mas não vejo como uma ameaça eminente (nem iminente) para mim.

E essa não é uma postura que tenho em relação a esse vírus especificamente, mas a postura que tenho em relação a qualquer doença.

A questão é, não importa o que eu pense em relação a mim. O “eu” não importa, porque o que está em jogo aqui é o “outro”. É por quem não tem a mesma resistência, quem não tem o mesmo acesso a cuidados básicos, quem não pode fazer uma quarentena, quem não tem escolha.

Ah, mas é um sacrifício que farei por uma pessoa que eu nem conheço?

É, a vida é assim, foda-se (com carinho). Hoje eu não conheço, amanhã pode ser com alguém muito querido e depois de amanhã, pode bater à minha porta.

Porque não se iluda, o que toca a um, nos tocará a todos. Portanto, faça pelo motivo que quiser! Por altruísmo, por heroísmo, por medo, por amor ao próximo ou pelo mais legítimo egoísmo… não importa!

Fique em casa!

Ah, mas essa história certamente foi inventada em laboratório pelos chineses com intenções sórdidas…

É possível! Cá entre nós, teóricos da conspiração, porque eu sempre fui e sempre serei, também acho. Mas outra vez, não importa o que eu ache! Se foi um plano, funcionou. Criado em laboratório ou na natureza, está aí e tem gente morrendo, ponto. Primeiro a gente resolve o problema, depois a gente busca um culpado, ok? Até porque, quem seria capaz de provar essa história? Se tivesse alguém que pudesse realizar essa façanha, na China, você realmente acha que ainda estaria vivo?

Então, enquanto a gente não prova nossa conspiração, tenho uma ideia: fique em casa!

Quanto tempo a gente vai conseguir segurar essa panela de pressão? Não sei, difícil dizer, acho que ninguém sabe com certeza. Economicamente, politicamente… não seremos os mesmos. Não é que o mundo vá mudar, já mudou, só não sabemos o tamanho da encrenca!

De uma maneira ou de outra, a vida seguirá. E meu ponto é, eu quero seguir com ela. Por isso, o que eu puder fazer, enquanto eu puder fazer, farei.

Hoje, só me resta uma opção, ficar em casa.

E reclamar…

“Quando os nazis vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era um social-democrata. Quando eles vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era um sindicalista. Quando eles buscaram os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era um judeu. Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar.” Martin Niemoller

50 anos, saúde!

Fiz 50 anos de idade. Soa mais assustador do que realmente é, ainda que não vou negar, tenha seu peso. E é óbvio que eu não seria eu mesma se não quisesse celebrar a data à altura!

O mais coerente seria fazer um festão daqueles! Só tinha um probleminha, nós já fizemos um festão daqueles esse ano, o de Bodas de Prata. Sem querer chorar miséria, porque nunca farei isso na vida, dois grandes eventos em um ano custariam mais do que o programado no nosso orçamento. E, considerando que nossos amigos e familiares estão espalhados pelo mundo, acredito que também para eles.

Beleza, a festa fica para outra ocasião. Por exemplo, posso fazer a festa dos 51, aliás, uma boa ideia!

Tem uma piadinha do mineiro que a gente sempre usa em casa como piada interna. O mineirinho encontrou a lâmpada… esfregou… saiu o gênio e concedeu três pedidos. O primeiro pedido, mineirinho pensou… pensou… já sei! Quero um queijo! O gênio achou o pedido meio simples, mas enfim, concedeu e o mineirinho adorou! O gênio perguntou, e seu segundo pedido? Mineirinho pensou… pensou… quero outro queijo! O gênio perguntou, tem certeza? Posso realizar qualquer desejo! Você quer só um… queijo? E o mineirinho, meio tímido, disse sim com a cabeça. Perfeito! O gênio fez surgir um queijo ainda maior e mais gostoso! Pronto, agora seu terceiro e último pedido, o que você quer? Mineirinho pensou… pensou… coçou a cabeça… tá bom, eu quero a Gisele Bündchen apaixonada por mim! O gênio ficou intrigado, e disse a ele, ok, posso realizar, mas só por curiosidade, seus pedidos foram tão diferentes… por que você pediu a paixão da Gisele agora? Mineirinho meio sem graça, se encolheu e disse… eu queria mesmo era outro queijo… mas deu uma vergonha do senhor…

Então, cada vez que a gente tem várias opções e quer algo bem básico ou repetir algum programa, a gente sempre fala um para o outro… eu queria mesmo era um queijo!

Muito bem, então, voltando ao aniversário, ainda que não fosse um super festão, celebrar eu queria e precisava ser algo especial, de preferência, também simbólico. Perfeito, então vamos viajar! Pensei literalmente nos quatro cantos do mundo! Lugares exóticos… desconhecidos… aventuras… para onde raios eu queria viajar? Qual seria o país perfeito e tão diferente para essa ocasião?

Pensei… pensei… Luiz, quer saber, eu quero mesmo é um queijo! Vamos para a França comer muito bem e tomar todas?

Para quem mora no Brasil, talvez ir a França seja complicado e caro, mas para a gente que mora em Londres, é um voo quase que de ponte áerea. E para ser bastante sincera, era para onde eu queria ir.

Já faz um tempo, Luiz teve um cliente em Épernay, uma cidadezinha francesa bem charmosa, conhecida como a capital da Champagne (ok, há controvérsias, alguns defendem que é Reims… mas tudo bem!). Ficamos de ir juntos até lá em algum momento.

Na hora de decidir para que região viajaríamos, pensei, que bebida poderia ser mais apropriada para uma celebração em grande estilo? Champagne, é logico! Poderia haver lugar mais simbólico do que justo a capital geradora da tal divina bebida? Pois decidido, Épernay e arredores!

Adianto que não poderia haver escolha melhor! Foi um escândalo de bom! Uma semana inteira comendo divinamente e tomando champagne da melhor qualidade! Já se passou uns dois meses dessa viagem e parte da experiência ainda segue (literalmente) em meus quadris, mas está valendo! Porque cada vez que me lembro, minha boca saliva e tenho vontade de sorrir!

Então, começamos pelo princípio, tomamos um avião de Londres até Paris, onde alugamos um carro e dirigimos cerca de 160Km a nordeste, até Épernay. Chegamos na cidade no limite da hora do jantar e, admito, um pouco cansada. Mas feliz e disposta a iniciar os trabalhos, era a véspera do meu aniversário, o último antes de entrar na seguinte década para mim e para o mundo!

Ficamos hospedados no Hotel La Villa Eugène , que por sinal, adorei! Mas na chegada, só tivemos tempo de fazer o check in, largar as malas e correr para algum restaurante antes que fechassem todos!

Fomos jantar na Brasserie de la Banque, um lugar muito simpático, situado em uma antiga sede bancária, despojado e com a maior carta de champagnes que havia visto até o momento! Como não tinha a menor ideia do que optar e queria sair do lugar comum, pedi orientação ao maître, que nos sugeriu uma garrafa que, por coincidência, levava o nome do meu irmão. Perfeito! Aviso divino! Preço super acessível e excelente!

Voltamos para o hotel, agora alimentados e com um pouco mais de calma. Queria que chegasse logo o dia seguinte, 09/11/2019, oficialmente meu aniversário de 50 anos!

Comecei o dia feliz e muito bem acompanhada!

La Villa Eugène

Nosso hotel ficava exatamente na Avenue de Champagne, onde são sediadas as principais casas produtoras da bebida local. Além do mais, a cidade não é tão grande e podíamos fazer a maior parte dos passeios a pé mesmo. Aliás, considerando nosso teor alcoólico, era melhor não dirigir!

Como atividade do dia, elegi uma visita à casa da Moet & Chandon, obviamente, com direito a degustação! O ideal é que você compre com antecedência os ingressos para sua visita por internet. Como tudo nosso é decidido de última hora, pedimos ajuda à recepcionista do hotel, que foi bastante solícita e telefonou diretamente para lá.

Recomendo fortemente a visita! Aprendi um monte de coisas sobre a história da champagne, sobre a marca, sobre o processo, sobre armazenagem… passei, inclusive, a valorizar mais ainda a bebida. Digamos, que aumentou meu respeito. Além do que, é toda uma experiência você se meter por aqueles túneis intermináveis, que mais lembram uma sociedade secreta. Aviso que a temperatura é constante de 10 o.C, independente da estação do ano, ou seja, leva um casaquinho, ok?

Bom, como acho que já ficou bastante claro, foi uma viagem gastronômica, logo, os assuntos desse texto serão basicamente sobre comida e bebida! Quando disse lá atrás que queria viajar para comer muito bem e tomar todas não era apenas uma figura de linguagem.

Portanto, na sequência, o esperado jantar comemorativo dos 50! A escolha foi o restaurante Le Royal, que possui uma estrela Michelin e é localizado no Royal Champagne Hotel & Spa. E foi um escândalo de bom! O salão tem uma elegância discreta, simplesmente chic! Um olhar um pouco mais treinado irá perceber que tudo está pensado em detalhes, desde a escolha da louça, ao espaço entre as mesas, a decoração, as toalhas e os guardanapos bem passados… tudo em equilíbrio e correto! Serviço impecável e, ao mesmo tempo, simpático.

Nós escolhemos o “menu découverte”, ou seja, era um menu às cegas, o Chef decide e Bianquita obedece! Fizemos a mesma opção em relação à harmonização dos vinhos. Também já fui logo fazendo amizade com o garçon e sommelier porque assim fica melhor a experiência.

Como previsto, estava tudo maravilhoso! Como única observação, achei que o Chef foi pouco ousado. Entendo que um Michelin não tem margem de erro, mas para clientes que escolhem um menu surpresa e dizem que não tem absolutamente restrição alguma, acho que ele teria liberdade para arriscar um pouco mais. Dito isso, não tenho nada a reclamar. Tudo foi absurdamente perfeito, lindo, equilibrado e delicioso!

Estava onde queria estar, sem concessões, bem na minha própria pele e com a melhor companhia possível! Foi um dia completamente feliz!

E era só o início da viagem… porque ainda tenho mais para engordar… digo, contar!

No dia seguinte, começamos a explorar os arredores. Não tínhamos nada muito definido, então, saí buscando nomes que parecessem charmosos, encontrei uma cidadezinha chamada Châlons-en-Champagne e me pareceu que, com um nome desses, só poderia ser chic! Na verdade, não era nada demais, mas o passeio até lá até que compensou.

A parte engraçada é que paramos para almoçar em um dos poucos restaurantes abertos, tinha uma boa rotatividade e estava cheio de gente que parecia local. Ficava numa praça que deveria ser a principal da cidade, com casas muito tortas, que lembravam um desenho animado. Até aí, beleza!

Gosto de arriscar na comida e não tenho muita frescura para experimentar coisas consideradas estranhas. A linguiça típica dessa região é a Andouillette, que dentre sua composição, leva intestino de porco. Eu, metida a valente, pedi a especialidade da região, né? O garçon virou para mim com aquele olhar de desdém e me perguntou se eu sabia o que estava pedindo. Você acha que tinha alguma chance de eu dar meu braço a torcer?

Fiz a cara que era a coisa mais óbvia do mundo e aí é que resolvi pedir mesmo a tal da Andouillette (e não, claro que não tinha certeza do que era feita nem havia comido antes). Ficamos Luiz e eu rindo, imaginando que porcaria ia chegar para eu comer e eu já avisando que ia morrer dura, mas não ia perder a pose.

Pois bem, a aparência não é terrível, parece mesmo uma linguiça, o problema é o aroma… putz! Não me fiz de rogada, comi assim mesmo e quando o garçon passava por mim ou me olhava, ainda fazia aquela cara de “hummm, que delícia…”. Ele deve estar achando que sou louca até hoje! Mas foi divertido!

Mudamos de cidade e, consequentemente, também de hotel. Fomos para o Château d’Etoges, classificado como monumento histórico, construído em princípios do século XVII. Todo um charme, quarto enorme, atendimento prestativo e um excelente restaurante. Ficamos em uma suíte que levava meu nome, Chambre Blanche. Sério, me senti uma rainha no meu castelo!

Nosso seguinte passeio foi para Reims, a cidade é normal, nada que chamasse tanta atenção, mas nosso objetivo principal era visitar a Casa Veuve Clicquot. Você deve comprar as entradas antecipadamente para a visita com direito à degustação e precisa confirmar que tem mais de 18 anos para entrar no website.

Eu nem deveria contar, mas vamos lá que os micos de viagem também são importantes! Com toda essa vida de princesa, comendo feito uma louca refugiada e bebendo todos os dias sem dó nem piedade, claro que à essa altura eu havia acordado completamente desarranjada! Desconfio que a “Andoillette” teve algo a ver com isso. E, como não poderia deixar de ser, com os ingressos para a visita da Veuve Clicquot já comprados!

Daí, o que uma pessoa sensata faria? Ficaria sossegada no hotel para não correr riscos e não tomaria álcool pelo menos nesse dia, certo? O problema é que… eu não sou uma pessoa sensata! E não ia perder essa visita nem a pau! Resolvi arriscar, jejuei desde o café, tomando água sem parar, fiz cursinho de planta toda a manhã, não almocei, comi umas torradinhas e Luiz ainda conseguiu ter a brilhante ideia de comprar um Imodium na farmácia da esquina (olha que providencial, no hotel no meio do nada, numa cidadezinha minúscula, tinha uma farmácia a 20 metros). E assim, pegamos a estrada em direção a Reims!

Chegamos um pouco cedo, o que foi até legal, porque há uma sala de espera com uma mesa de futebol totó e eu amo jogar! E vamos combinar, até jogar totó na Veuve Clicquot soa mais elegante, né? Enfim, visita recomendadíssima e adorei conhecer um pouco mais da história da champagne. Para quem não sabe, “veuve” significa viúva em francês e a bebida leva o nome exatamente da viúva do Clicquot, uma mulher extraordinária e muito à frente do seu tempo, responsável por fazer a casa se consolidar como marca importante.

Como era de se esperar, terminamos com uma degustação!

Degustação na Casa Veuve Clicquot

Não vou deixar a história anterior em suspense. Não passei mal e nenhum acidente, graças a nossa senhora dos alcoólicos desesperados! E provavelmente, também ao santo Imodium!

Mas admito que minhas risadas foram bastante cuidadosas e que a champagne depois do dia praticamente em jejum subiu que foi uma maravilha! Tudo bem, sobrevivemos!

Seguindo a viagem, deixamos a região e fomos para Rouen, que tem um lado um pouco sinistro, onde Joana D’Arc foi queimada. Entretanto, não deixa de fazer parte da história e, apesar disso, a verdade é que a cidade é muito bonitinha.

Ficamos hospedados no Hôtel Littéraire Gustave Flaubert, agora num esquema mais tranquilo, bom custo vs. benefício, bem localizado, limpo e atendimento bem simpático. Você precisa tomar cuidado se ficar hospedado no centro da cidade, porque o acesso a carros é restrito e as multas podem ser altas. E esse hotel, oferece a possibilidade de estacionamento.

Quanto ao jantar, preciso confessar que tudo que eu queria à noite era tomar uma sopinha com água! Não estava passando mal nem nada, mas até para os abusos há um limite, juro que o corpo reclamou! Um diazinho só de recuperação não foi mal.

De Rouen, tomamos rumo a Paris, mas sem pressa, aproveitamos para curtir o outono visto da estrada e queria parar em Giverny para almoçar.

Giverny fica na região da Normandia, Claude Monet viveu e trabalhou lá de 1883 até sua morte, em 1923. Infelizmente, não era a melhor época para se visitar, porque o Museu dos Impressionistas estava fechado, ficará para outra visita. Havíamos nos programado para almoçar no Ancien Hôtel Baudy, frequentado por Renoir, Rodin, Sisley, entre outros, mas também estava fechado, uma pena! Ainda que cheguei a ficar contente só pela oportunidade de passar na sua porta e cumprimentar seus fantasmas!

E, finalmente, o último destino dessa viagem: Paris!

Não tem jeito, sou a-pai-xo-na-da por essa cidade! Quando vejo a torre Eiffel apontar pela janela do carro, alguma coisa acontece no meu coração… é até covardia!

Faltava a última chutada de balde da viagem, uma que já venho negociando com Luiz há anos e nada dele se animar a ir, dessa vez não tinha desculpa, para fechar essa viagem com chave de ouro eu tinha porque tinha que comer o pato prensado no Tour D’Argent!

Reza a lenda que o restaurante funciona no mesmo local desde 1582 e chegou a ser frequentado por Henrique IV. O carro chefe da casa é o pato prensado, hoje servido em dois tipos de cocção. Em 1890, Frédéric Delair teve a brilhante ideia de numerar os patos consumidos por seus clientes, uma jogada de marketing sensacional! Até hoje, ao pedir tal iguaria, você recebe um cartão com o número do seu pato consumido!

Mas vamos desde o início, o restaurante funciona no sexto andar do edifício localizado na 15, Quai de la Tournelle, com vistas para o Sena. Você é recebido no primeiro andar, onde há uma lojinha com produtos da marca e espera para ser encaminhado pelo elevador por onde só sobe os integrantes de cada mesa por vez. A decoração, na minha opinião, está um pouco decadente, mas ainda guarda algo de elegância e a vista, definitivamente, rouba a cena. O número de garçons é bastante grande, considerando a média européia, o que demonstra prestígio.

Recebemos a carta de vinhos, que juro, parecia mais uma bíblia! Acho que nunca havia visto uma carta tão extensa! A adega deles é impressionante. Achamos mais fácil pedir recomendação ao sommelier, que foi bem simpático.

Mas vamos ao que interessa, e o pato? Era isso tudo mesmo? Pois sim, era. Nos apresentam nosso pato inteiro, ele é destrinchado em nossa presença para ser finalizado em duas maneiras. A primeira com o molho derivado do suco retirado com a prensa dos ossos e a segunda grelhado. Tudo perfeito!

Assim chegou ao fim nossa viagem! Toda uma semana de celebrações! Feliz por estar viva, por ter quem amar e por me sentir querida, com saúde para me exceder, com liberdade para exagerar e com gente bacana para compartilhar!

Pronto! Agora eu podia voltar para casa, aproveitei cada segundo, até a última gota. Não faltou nada! Não sobrou nada!

Preciso resolver problemas diariamente, tenho um monte de defeitos, muitas coisas queria ou posso ainda mudar, mas o importante é que sigo aqui. Sigo aqui. Às vezes, um pouco envergada, mas inteira e aberta para a segunda metade do meu primeiro século.

Fiz 50 anos! Francamente, acho que mereci meu conto de fadas particular. Sabia que um dia acabaria, sei que um dia acabará, mas hoje não.

Saúde!