E na hora que penso, agora ferrou, resta tentar… “with a little help from my friends”…

Para quem não fala inglês, a tradução de “with a little help from my friends” é “com uma ajudinha dos meus amigos“, referência da música que ganhou fama na voz do Joe Cocker e foi tema de série.

Como o diabo e boa parte das minhas histórias reside nos detalhes, vou contar uma parte da saga anterior dos bastidores que ficou faltando, a viagem maluca que fizemos para assinar a procuração em Portugal, a mesma usada para comprar a Quinta do Vianna.

Abre parênteses e vamos esquecer a Quinta por um minuto. Nós temos dupla nacionalidade, brasileira e espanhola, mas é como cidadãos espanhóis que vivemos na Europa. Aqui na Inglaterra, toda nossa documentação é atrelada aos documentos espanhóis e, a possibilidade de viver em Portugal algum dia também é vinculada a essa situação.

Pois bem, nossos passaportes e identidades venciam no mesmo dia, em maio e poderíamos renovar com até 6 meses de antecedência. Até aí, lindo! Só tinha um problema, estávamos todos em lockdown rigoroso! Não conseguíamos viajar, nem tinha voo! Era impossível agendar qualquer coisa no consulado espanhol de Londres. Quando chegou abril, a gente começou a surtar…

Em paralelo, uma história não tão grave, mas que estava acontecendo. Minha carteira de motorista (espanhola) venceu no ano passado e renovei em março de 2020. Exatamente uma semana antes da pandemia estourar, estive em Madri para resolver pepinos, aproveitei para renovar a carteira. Teoricamente, a habilitação seria enviada por correio para a casa de uma amiga, que nunca a recebeu! Estourou o raio do COVID e isso foi embolando cada vez mais. A verdade é que ninguém sabia a duração dessa loucura, sempre esperávamos que já fosse resolver e com isso o tempo foi passando.

Em outubro, quando fui a Portugal conhecer a Quinta comprada, aproveitei uma oportunidade que surgiu na mesma semana e comprei também um carro. Velhinho, mas muito bem conservado e bom para aguentar o tranco de estrada de terra. Pode me chamar de louca, como é que comprei um carro para ficar em um quinta que nem era minha ainda? Mas enfim, foi uma boa oportunidade e aproveitei. O carro ficou guardado esse período com meu primo.

Acontece que, se tinha um carro e precisaria dirigir, também voltou a necessidade de resolver o “mistério da carteira de motorista”, perdida no limbo! Óbvio que nada é fácil e o número da DGT (Departamento de Trânsito espanhol) era daquele de 3 dígitos, que você só consegue ligar se estiver no país. E eu não estava! Lá fui eu pedir socorro para uma amiga: liga lá para mim, por favor! Descobre, pelo menos, onde está minha carteira! Responderam para ela que estava na própria sede da DGT, em Madrid, e que precisaria buscar pessoalmente. Se não fosse pessoalmente, minha representante precisaria levar uma procuração e o original da minha identidade (ou uma cópia autenticada, eles dizem “copia compulsada“). Bom, ok, pensei, assim que as fronteiras abrirem, vou lá buscar minha carteira. Isso em outubro.

Lógico que fronteira abriu coisa nenhuma… o tempo passou e chegou março! Agoniada, resolvi tentar outra vez, mas a primeira amiga que ligou para mim (e era a do endereço onde minha carteira estava direcionada) viajou para o Brasil e ficou alguns meses por lá, sem conseguir voltar. Caraca, para quem eu peço esse favorzinho enjoado? É difícil até explicar a história, que dirá resolver!

Bem sem graça, procurei uma outra amiga que gosto muito e pedi, sem nenhuma obrigação, você poderia me ajudar a resolver essa encrenca? Ela foi super gente boa e me ajudou a solucionar o tal mistério da carteira e a marcar um horário para buscá-la na DGT. Outro detalhe, na total impossibilidade de se fazer uma procuração pelo consulado espanhol ou de autenticar minha identidade, enviei o documento original para ela por correio! E todos os papéis que eu tinha do processo, protocolo etc. Ela com a maior boa vontade do mundo, mas nada de conseguir uma data na instituição para agendar e buscar a carteira.

Nisso, chegou abril e aquela agonia dos passaportes vencendo… abriram uma brecha para viagens entre Inglaterra e Espanha, mesmo assim, só se fosse por absoluta necessidade. Super burocrático, milhões de formulários, 4 PCRs para cada um, quarentena na volta… um inferno! Mas era possível!

Bianquita somou 2 +2 = 22! Vou botar tudo no mesmo pacote! Luiz, vamos aproveitar essa brecha, renovar os passaportes e identidade (na Espanha você faz isso em um único dia e já sai de lá com os documentos novos) e vou eu mesma buscar a carteira de motorista na DGT. Daí, a gente aluga um carro e vai dirigindo até Portugal. As fronteiras terrestres são sempre mais fáceis, a gente tem o passaporte espanhol, o carro com placa da Espanha, o termo de compromisso de compra e venda da Quinta assinado e eu sou registrada como moradora em Braga. Ninguém precisa saber que a gente foi da Inglaterra. Fazemos a procuração para meu primo e deixamos as coisas por lá encaminhadas também. Convenhamos, um plano completamente insano, mas bastante prático, certo?

Aqui há um dito popular que adoro, “where is a will there’s a way“! A tradução literal seria, onde há um desejo há um caminho. Ou seja, se há uma real vontade que algo aconteça, sempre haverá uma maneira de conseguir. Ou na popular versão tupiniquim, fé, foco e foda-se!

E vamos combinar, não é que eu quisesse simplesmente passar férias ibéricas, a gente precisava muito resolver tudo isso! Não estávamos inventando nada!

Certo, mas temos dois gatos! Quem fica com os bichanos por uma semana? Procura daqui, procura dali… no final do ano passado, o filho de uma amiga da minha mãe precisava vir para Londres. Ele tinha tudo muito estruturado, mas era fundamental ter um endereço aqui para correspondência e documentação. Não seja por isso, ajudamos no que pudemos e, sinceramente, na maior boa vontade. Porque sim e porque sempre que precisamos, alguém nos ajuda também! Acabamos ficando amigos. Pelas voltas que o mundo dá, justamente esse novo amigo faria um treinamento relativamente próximo à nossa casa, justo quando precisávamos viajar! Resumo da ópera: ficou ele aqui cuidando dos bichanos enquanto a gente viajava! Mais karma positivo que isso, impossível!

Claro que foi um perrengue alucinado… a Inglaterra chegou a abrir fronteira para Portugal… mas Portugal fechou fronteira para Inglaterra… achar hospedagem em Madri foi enrolado… conseguimos AirBnB… na semana anterior, Espanha e Portugal resolveram fechar fronteira também… agendar trocentos PCRs… fomos parados na fronteira terrestre na ida e na volta, mas os documentos que levei justificavam as entradas e saídas… nosso voo de volta de Madri para Londres foi cancelado… Luiz conseguiu remarcar… e lógico que deu tudo certo!

Contando só uma gracinha no meio desse turbilhão, na hora de preencher os formulários da volta para a casa, Luiz ficou na dúvida se dizia que tinha ido para Portugal ou não. Eu já disse logo, eu não vou dizer! Por que? A gente tomou todos os cuidados possíveis, para que vou criar uma razão para encrencarem? Eu acho que era legal, mas na dúvida, melhor ficar quieta. O caso é que nós dois chegamos a ser meio bobos de tão “caxias”, a gente gosta de fazer tudo certinho! Ele vira para mim todo dramático, com aquele olhar de indignação decepcionado: e você vai… meeeentirrrrr? Oi? Sério? Depois de todo esse estresse ele quer ser mais certinho que os próprios ingleses? Respondi gutural e maiusculamente: VOU! Vou mentir! Vou fazer o que eu precisar fazer! I’m a woman in a mission! Ele resmungou um pouquinho, mas pergunta se colocou no formulário dele que foi para Portugal? Na volta para casa, inclusive recebemos um elogio do agente britânico de imigração ao mostrarmos nossos documentos: nossa que organizados!

Bom, mas contei o final sem contar o meio da história. Espanha estava com suas restrições, mas os restaurantes e comércio estavam abertos. Para a gente que já levava 5 meses fechados em casa, foi uma brisa fresca! As ruas de Madri tem um burburinho alegre de fundo, de gente falando e eles não falam baixo, risadas, reclamações… e eu amo! Assim que, com todo perrengue e toda a tensão, a gente estava feliz pacas de estar ali!

Conseguimos mesa no nosso restaurante favorito, El fogón de Trifón! O dono também se tornou um grande amigo e sempre que vamos lá, temos essa sensação de estar em casa. Havia mais de um ano que não podíamos nos encontrar. Coincidiu de irmos justo no dia em que ele havia sido vacinado contra Covid, nós havíamos sido vacinados também. Nosso encontro foi uma festa!

Fomos quase que em segredo para Espanha, por vários motivos, primeiro porque seria praticamente impossível encontrar alguém com a agenda maluca que estávamos! Depois, porque tinha até medo de anunciar nas redes sociais, o governo achar que fomos passear e multar a gente! A multa era a bagatela de £10 mil. E, claro, entendemos a preocupação das pessoas em evitar saídas e encontros nesse momento, algo que compartilhávamos. Admito que um lado meu sentia uma falta gigante de marcar um encontrão daqueles e abraçar todo mundo, outra vez será!

Bom, mas queria falar um pouco mais dessa questão de como somos privilegiados por nossos amigos e também pela família que muitas vezes exerce esse papel. Aliás, constantemente essa coisa de amizade e família é simbiótica.

Enfim, lembra da minha amiga que conseguiu descobrir sobre minha carteira de motorista e estava com meu documento original? Então, precisava encontrá-la antes de ir renovar a documentação, o que era uma excelente desculpa para a gente se ver. Na maior boa vontade, ela se candidatou a nos buscar no aeroporto, favorzão que aceitei de bom grado! Acabamos jantando juntos e foi uma delícia, a gente gosta muito deles! Verdade que não era um grupo grande, mas tenho valorizado também esses encontros limitados entre dois casais ou poucos amigos, a gente consegue dar mais atenção individual e conversar melhor.

E havia também outro amigão, que não víamos há anos! Nos conhecemos em Madri, ele ficou várias vezes lá em casa com nosso gato quando a gente viajava, temos muitas histórias… daí ele mudou para Hong Kong… nós mudamos para Inglaterra… nós fomos para o Brasil… voltamos para Inglaterra… ele voltou para Madri e, finalmente, uma chance da gente se encontrar na mesma cidade! Maravilha, bora jantar! Atualizamos os anos de conversa e contamos para ele porque estávamos indo para Portugal.

Pouquíssima gente sabia sobre a compra da Quinta. E nem porque eu quisesse guardar grandes segredos, afinal, como costumo brincar, minha vida é um blog aberto! Eu não tenho essa paranóia de achar que alguém pode torcer contra e tal, até porque, quando sei sobre os projetos dos meus amigos, fico amarradona! Mas para mim, não fazia sentido sair divulgando algo que poderia nem rolar! Na minha opinião, o negócio só está fechado despois de assinada a escritura! Mas enfim, o fato é que ele curtiu muito a história e trocamos algumas mensagens sobre isso depois!

Dali seguimos para Portugal, onde nossos primos, como sempre, deram o maior apoio para a gente resolver as coisas. Vamos combinar, eles visitaram a Quinta antes da gente, foram nossos olhos e ouvidos para fechar o negócio, meu primo topou ser nosso procurador e acabou também assinando a escritura em nosso nome. Por mais que nós tentássemos ser organizados ou não incomodar, seria absolutamente impossível fazer esse negócio sem o suporte deles.

Tudo bem, mas uma vez fechada a compra, agora estávamos no sufoco seguinte: como é que a gente vai fazer para isso funcionar? Porque as fronteiras melhoraram, mas seguem limitadas, as viagens seguem complicadas e caras. Nós temos as duas doses da vacina, mas o tal passaporte de viagem dos vacinados ainda é um ideal não implantado. E nós precisamos urgente de pessoas trabalhando na Quinta do Vianna! Mesmo que contrate pessoas é fundamental ter alguém por lá cuidando.

Conseguimos marcar passagem para ficar uma semana em Portugal, resolvendo os incêndios! Vamos no dia 12 de junho e ficaremos até dia 18.

Ok, tudo muito bom, tudo muito bem… mas outra vez, com quem ficam os gatos? Eu já sem cara de pedir para as pessoas… lembrei de um casal de amigos… perguntei toda sem graça… eles toparam! Vou deixar a casa igual a um hotel! Comidinha na geladeira, tudo para eles adorarem ficar aqui!

Seguindo o bonde, com a escritura fechada, me deu a ideia de criar um perfil no Instagram, uma outra categoria aqui no blog… enfim, começar a divulgar o projeto. Em princípio, para nossos amigos mesmo, mas quem sabe no futuro, se converta em algo mais comercial. Não sei, vamos descobrir com o tempo. A verdade, é que gosto de compartilhar situações felizes, principalmente em um momento em que tudo parece tão sombrio. E, assim como eu busquei tantas informações sobre a vida às margens do Douro, talvez outras pessoas também tenham a curiosidade de saber como é. Se posso ajudar alguém a viver um pouco dessa aventura conosco, virtualmente ou pessoalmente, por que não?

Depois, tem o outro lado da moeda, porque tem um monte de coisas que não sei ou não consigo fazer sozinha. Feliz o dia em que aprendi a ser menos orgulhosa e a aceitar ajuda! Não é incomum que, ao expor uma situação, do nada me aparece alguém com uma resposta, uma dica, um contato… e eu escuto!

Dito isso, lembra daquele nosso amigo que encontramos em Madri e contamos sobre a Quinta? Então, lendo a história aqui no blog, ele teve uma ideia e nos procurou. Com a pandemia, ele não está trabalhando direto ou poderá trabalhar remoto. Ou seja, está com tempo e não é casado, não tem raízes ou nada que o prenda. Nos perguntou, quer que eu more lá por uns meses? Para ele seria uma experiência diferente, onde não precisaria de um salário, mas também não teria custos. Ele não se importa que a casa esteja velha e precisando de reformas, a vista é um desbunde e o trabalho é interessante. E para a gente, seria uma tranquilidade ter alguém morando lá direto, cuidando da casa e resolvendo os pepinos das vinhas. Mesmo que tenhamos que contratar ajuda, com alguém lá administrando facilita horrores! Além de não termos que nos preocupar com fronteiras fechando e abrindo. Sabe aquelas situações onde parece que todo mundo ganha? Conversa daqui, conversa dali, vamos nos encontrar em Portugal na semana que vem e ver o que rola. Torcendo para dar certo, desde que seja bom para ambos os lados!

E fiz questão de contar tudo isso hoje, porque sempre falo das sagas, aventuras e encrencas que a gente se mete, e vamos combinar, não são poucas! Mas a vedade é que dificilmente conseguimos resolver tudo sozinhos. Quantas vezes, quando a gente acha que não tem mais jeito, ou o que raios a gente vai fazer… a ajuda aparece! Às vezes de amigos antigos, outras de absolutos desconhecidos que acabam por se tornar amigos novos. E acho tão bom e sou tão grata que sempre que existe alguma maneira de também ajudar outra pessoa, para mim é um privilégio! Acredito sinceramente na gentileza que gera gentileza!

Portanto, hoje agradeço aos meus amigos e amigas, aos que me ajudaram diretamente ou que simplesmente estão aí, aos que serão amigos um dia, aos estranhos que abracei pelo caminho com a sensação mútua de pertencer e também aos que precisaram de mim e me deram essa oportunidade de retribuir ao universo.

Porque é uma delícia saber que na hora em que o bicho pega, sempre contamos com nossos amigos! Eu acredito em vocês e me torno melhor porque sinto que essa crença é recíproca, mesmo nos meus projetos mais improváveis ou absurdos. Por vocês acreditarem em mim, eu sou.

Muito obrigada.

2 comentários em “E na hora que penso, agora ferrou, resta tentar… “with a little help from my friends”…”

  1. Querida Bianca dou Antonia aqui da Galicia,quer dizer era da Galicia, vendi minha imensa casa depois da morte de meu marido, e agora moro em Huelva na cidade de Cartaya.olha só queria dar um pitaco, na região do Minho normalmente essas vinhas já tem as quadrilhas que cuidam delas, a sua não deve ser diferente, chegando lá busca essa gente,se faz contratos por obra, por prazo, a uva vc pode vender ou entregar na cooperativa não sei que vinho se produz ali, mas dentro da categoria da uva se costuma fazer um mais popular, rum mais gourmet.Vc claro vai fazer isso aos poucos, e descobrindo suas soluções.Um conselho, leia se informe ,não se mostre ignorante,não fofa nunca jamais que nunca fez, a ignorância se paga muito caro.Tens meu email se precisar um beijo grande

  2. Oi, Antonia! Quanto tempo! Sempre muito bom te encontrar por aqui! 🧡Quer dizer que agora está em Hueva? Espero que esteja tudo bem por suas bandas! Estou com alguns contatos na manga, mas boa dica de não dizer que nunca fiz. Até escrevi na crônica passada, que o pessoal gosta de levar vantagem sim, a gente ter que tomar um certo cuidado. Obrigada e até breve! Beijo

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