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Archive for the ‘Troca de Pele’ Category

Troca de pele

Após um ano morando em Madri, mais de dois fora do Brasil, meu olhar novamente mudou. Em um primeiro momento, minha atenção era voltada para o exterior, para o que via ao redor, como quem observava. Agora, preciso confrontar o fato de que faço parte desse contexto, olho para dentro, como quem aprende.

 

Não estou segura se por consequência ou coincidência, às vezes é difícil diferenciar, mas preciso me reconstruir. A questão da identidade é minha prioridade, recorro à memória e à experiência vivida no meu limite.

 

De uma maneira ou de outra, continuo achando a vida difícil e interessante. Espero ainda ter um longo trajeto pela frente e, aos que decidirem participar desse caminho, sejam bem vindos!

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Há uma teoria que planteia que mudamos de fase de vida, aproximadamente, de sete em sete anos. Verdade ou lenda, tenho observado que esses ciclos coincidem com minhas grandes fases de mudança pessoal. Acho que nos primeiros ciclos de sete, somos muito jovens e olhamos ao redor na busca de modelos. Depois esse processo passa a ser mais consciente, pelo menos, foi para mim.

 

A primeira vez que dei conta que estava me reconstruindo a sério foi no meu quarto ciclo, por volta dos 28 anos. Nesse momento, era consultora de negócios de uma multinacional, formada em Administração de Empresas como primeira colocada e pós graduada em Administração Financeira. Do que podia reclamar? Bem casada, bem empregada, ganhando bem, morando bem… Então, o que faltava? Da onde vinha aquela angústia toda?

 

Sempre fui meio precoce, o que não conto como uma vantagem, simplesmente acho que a vida me levou a isso. Desejei minha independência com uma gana fora do comum e entendi os mecanismos de poder muito rápido. Portanto, não foi tão difícil como imaginava, ou melhor, não tão demorado, chegar onde queria profissionalmente.

 

O problema é que, ao chegar, olhei em volta e tive aquela sensação de, mas era aqui? Foi para isso que corri tanto? E agora?

 

Meu nível de realização era baixíssimo e desproporcional ao grau de agressividade com que buscava os objetivos. Sofria uma culpa enorme de me sentir tão miserável estando tão bem, em um país onde os miseráveis sorriam. Briguei um bom tempo com esse sentimento e neguei de diferentes formas minhas reais vocações.

 

Tive a sorte de possuir um amigo que me introduziu aos mitos, o que me ajudou a entender e a passar por todo esse processo. Ainda que naquela época, agisse de forma muito intuitiva. No primeiro momento da minha crise existencial ele percebeu e me disse que o ambiente em que estava não me proporcionava mais elementos para crescer. Levei quase dois anos para entender exatamente o que aquilo queria dizer. Não tinha nada a ver com cargos, salários, sequer com profissão. Eu queria ser uma pessoa melhor. O contexto em que estava não me proporcionava mais as ferramentas necessárias, não era o suficiente. Precisava aprender generosidade e fé, exercitar outras dimensões de pensamento, expandir minha consciência. Mal sabia o rolo em que estava me metendo.

 

Entretanto, sabia que não gostava do que via no espelho. Queria ser diferente e tinha a oportunidade de me refazer como quisesse ou pudesse, mas sob meus parâmetros, não mais com a negação ou confirmação dos modelos ao redor.

 

No dia em que abandonei tudo e me dispus a tocar o fundo do poço, me perguntei quem queria ser de verdade. Independente de dinheiro, segurança, esforço, tempo, qualquer coisa, o que eu morreria se não fizesse? Depois de me perguntar por quase dois anos, finalmente me perguntei sem máscaras e sem mais nada a perder. A resposta veio imediata, como uma revelação bíblica.

 

Eu era uma artista e fugi minha vida inteira dessa vocação. O perfil que acreditava que um artista precisava ter era incompatível com a vida que acreditava que queria levar. Acontece que, nesse momento, essa tal vida que achava que queria levar era uma pequena fração de tempo, um quase nada. Eu não fazia nenhuma diferença e por um instante acreditei que poderia fazer. Dei meu salto para o precipício escuro e acordei viva no dia seguinte, artista.

 

Conversar isso com Luiz foi uma das situações mais difíceis que passei. Ele se casou com uma tentativa de executiva segura e resolvida e eu havia decidido que não era mais essa pessoa. Tive muito medo que ele não me amasse mais e sabia que não tinha outra alternativa, não podia voltar atrás. Foi quando descobri que, com todas as dificuldades, o mais importante para ele é que eu fosse feliz.

 

Ao longo dos anos, fomos dando nosso jeito e nos adaptando aos nossos novos caminhos. Ele também foi mudando, em um processo menos radical e aparente que o meu, mas mudou muito. E foi mais fácil aceitar minha própria mudança quando senti que também era mais importante para mim que ele fosse feliz.

 

Pouco mais de sete anos se passaram e aqui me encontro novamente com as perguntas de polícia rodoviária fazendo blitz: Quem sou e para onde vou?

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Morando há mais ou menos umas três semanas no apartamento novo, chegou o segundo casal de hóspedes, amigos de São Paulo. E para falar desses amigos, preciso voltar um pouco o tempo.

 

Em 1997, Luiz foi trabalhar em uma empresa que organizou um treinamento para seus funcionários com a duração de dois meses, em Campinas. Isso quer dizer que um grupo de profissionais ficou internado tempo integral em um hotel estudando. Quando se coloca tanta gente junta por um período tão longo, há duas alternativas: ou se matam, ou ficam amigos. Por sorte, a segunda opção vingou.

 

Nesse período, ainda trabalhava como consultora de negócios e, por uma coincidência formidável, parte do meu projeto acontecia em Campinas. Portanto, procurava visitar esse cliente ou na sexta ou na segunda-feira e, assim, passava os fins de semana no hotel com Luiz. E claro, acabei conhecendo o pessoal todo.

 

Resumindo, desse grupo surgiu um tipo de núcleo de amigos queridos, com os quais temos contato até hoje. Nos chamamos de “a Diretoria”. A Diretoria está sempre presente nas festas, fica até mais tarde e tem alguns privilégios secretos.

 

Quando os diretores se casam ou namoram sério, os respectivos e respectivas acompanhantes recebem o status de diretor. Mas antes, passam por uma prova de iniciação. Desse casal que nos visitou, ele é sócio-fundador, como nós, e ela passou na prova de iniciação com louvor.

 

Além disso, por outra coincidência, temos mais um casal de amigos, morando aqui em Madri, que também são sócio-fundadores. Logo, organizamos o primeiro encontro internacional da Diretoria, filial Madri. Estarmos todos aqui na maior farra e falando português, foi razoavelmente surreal.

 

Uma visita relâmpago, mas que aproveitamos muito e foi super divertida. Eles trouxeram o kit arataca completo, contendo carne seca, paio e cachaça. De quebra, ainda veio um vinho português muito bom, da família desse nosso amigo.

 

Não foi só a visita, foi ao que ela me remeteu. A memória desses amigos é muito importante para mim, faz parte das coisas que fiz certo e das erradas perdoadas, porque afinal somos amigos. É reconfortante saber que importa menos onde estamos e mais com quem. E foi muito bom.

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Há um bom tempo senti que precisava ver Praga. Foi exatamente assim, senti que precisava ir. Não foi porque gostei de uma foto ou de um programa, foi uma intuição. A partir daí, comecei a sonhar com a cidade.

 

Sonhar com uma cidade desconhecida é um problema pois, nos nossos sonhos, tudo se encontra em condições extraordinárias de temperatura e pressão. Na vida real, quase nunca é assim.

 

Na Praga dos meus sonhos, chegava em uma viagem romântica com Luiz, nos hospedávamos em um super hotel de elegância despojada, fazíamos nosso roteiro cultural e gastronômico e, inclusive, arriscava algumas frases em tcheco.

 

Bom, começou que não me preparei bem para a viagem. Na tentativa de não aumentar mais ainda minhas expectativas, e considerando que não íamos sozinhos, tentei deixar as coisas um pouco ao acaso. Só na saída do aeroporto me dei conta que nem eu nem Luiz falávamos uma palavra do idioma, nem tinha idéia de onde ficava o hotel.

 

Quando tentávamos pegar um taxi, alguém que falava inglês ofereceu uma condução a um preço melhor. Vi que era uma van, mas Luiz não percebeu e topou. Nossa chegada começou assim, dividindo uma van com mais três casais estranhos, cada um indo para um hotel.

 

Enfim, pensei que havíamos começado meio mais ou menos, mas meu lado Polyana me dizia que poderia ser mais seguro assim, que era uma forma de conhecer outros pontos da cidade e tal. Chegamos ao centro histórico e fui me animando, me pareceu exótico e interessante. A van fez a primeira parada e me empolguei toda. Não durou mais que 30 segundos, até que percebi que não era meu hotel. A partir daí, a coisa se complicou mais, fomos o último casal a ser deixado e cada vez nos afastando mais do centro.

 

No caminho feio, fui murxando e entristecendo, muito decepcionada.

 

O hotel não era ruim, mas muito diferente do que havia idealizado.  Atravessamos um longo corredor de pé direito muito baixo e de onde tive vontade de voltar para casa. Chegando ao quarto, a primeira surpresa boa, era enorme, acho que uns 40m2.

 

Mal baixamos as malas, o telefone tocou. Alguns dos nossos amigos já estavam na recepção e saímos com eles. Caminhando pelas ruas, achei a cidade sem graça. Não conseguia mais disfarçar meu desânimo. Uma das amigas comentou que não estava achando nada demais na cidade, o que de certa forma me serviu de alívio por saber que não era a única.

 

Nesse momento, decidi tentar aproveitar um pouco. Se não pudesse ser a cidade, quem sabe um bar e a companhia das pessoas. Entretanto, a paisagem começou a ficar mais interessante. Encontramos um restaurante de aspecto agradável e com mesas ao ar livre. Sentamos por ali mesmo, começamos a beber e conversar.

 

Estávamos em três casais e um quarto casal chegou para nos encontrar. Conversa divertida e foi anoitecendo. Estava animada para dançar e descobri que embaixo do restaurante havia uma boite. Acontece que quando li o cartaz de propaganda dizia que havia “sexy dancers”. Ops! Que estranho, o lugar parecia tão normal.

 

A cozinha fechou e decidimos caminhar um pouco em direção ao centro da cidade. Logo notei que a frequência era muito masculina, muitos grupos de homens sozinhos e mocinhas de aparência ambígua.

 

Entramos na parte mais antiga da cidade. Caminhando pelas ruazinhas de paralelepípedos irregulares, finalmente, me senti chegando em Praga. Tudo mudou!

 

Passamos pela praça central, claro, muito turística, mas isso não me incomodou. Não tinha nenhuma chance do centro não ser turístico, simplesmente abstraí e me relacionei diretamente com a cidade, sem intermediários. Sua arquitetura era misturada e rara aos meus olhos.

 

Não pude deixar de notar novamente a incoveniente presença masculina. Não digo inconveniente por serem homens, mas por sua atitude perante o lugar. Descobri que é de praxe os ingleses irem em grupos para fazer suas despedidas de solteiros ou outras bandalheiras. Acho que turistas de outros lugares também, que pena.

 

Chegamos a Karlúv most, a ponte do Rei Carlos. É um dos pontos mais famosos da cidade. De lá vemos o Rio correr em diferentes níveis, com sua margem rodeada com os prédios, agora sim, dos meus sonhos. Também víamos o Castelo de Praga, que conheceria no dia seguinte.

 

Nossos amigos queriam entrar em algum lugar para dançar e curtir a noite. Para ser muito sincera, também queria, poderia dançar a noite toda. No caminho, ao ver aquela quantidade de homens muito jovens e muito bêbados e a tristeza das mulheres de vida não tão fácil, me senti mal. A cidade não merecia. Tive a impressão de estar na sala de visitas de uma senhora idosa e sábia que assistia em silêncio a falta de educação de seus hóspedes. Achei bom que o pó negro cobrisse os olhos das estátuas. Entre nós, Luiz e eu nos aproveitamos das desculpas fáceis de frio e sono, mas no fundo, abdiquei da balada por puro respeito. Desconfio que Luiz também.

 

Durante o dia, o astral do lugar melhora muito, e olha que sou uma notívaga!

 

Estávamos em um grupo de dez pessoas que chegaram de direções diferentes. Todos muito legais, mas para mim é muito difícil passear em um grupo tão grande em uma cidade que não conheço. Conciliar os gostos e os tempos de todos é uma arte que não domino. Sempre estou em uma velocidade diferente, quero comer outra coisa, parar em outro lugar… Enfim, sempre acho que estou atrapalhando. Achei que seria mais fácil nos separarmos durante o dia e nos encontrarmos, quando possível. Além do mais, acabou sendo necessário, pois Luiz teve que trabalhar todos os dias de manhã.

 

No fim da manhã de sábado, Luiz e eu nos dirigimos ao Castelo de Praga. Fomos sozinhos, mas sabíamos que nossos amigos estariam por lá. Assim, tentaríamos nos encaixar na programação nos momentos que nossos gostos coincidissem.

 

O dia estava chuvoso, mas não me atrapalhou. O Castelo não é um um único prédio, é todo um complexo contendo catedral, galeria de arte barroca,  torre, jardins etc. Leva-se uma boa parte do dia para conhecer tudo com calma.

 

Há algumas viagens atrás, me prometi nunca mais subir em nenhuma torre que não tivesse elevador! É sempre roubada! Mas dessa vez, Luiz me convenceu e subi os 287 degraus! Joder, tío que fuerte! Em compensação, a vista realmente me tirou o fôlego, ou será que foi a escada? Enfim, vi uma Praga linda! E cada vez gostava mais dela.

 

Visitando a basílica, descobrimos que no fim da tarde haveria um concerto de música clássica com a orquestra real de Praga. Como poderia perder essa? Eu amo concertos e se forem ao ar livre ou em igrejas, melhor ainda. As igrejas possuem uma acústica interessante e um tipo de energia que favorecem o clima, e não sou religiosa, simplesmente é um fato. Muitas vezes vejo cores e penso em outras dimensões. Totalmente sóbria, juro! Nesse dia, o que senti foi a música girando em espiral sobre a orquestra e alternando a iluminação para mais claro e mais escuro. Ficamos e viajamos com Mozart, Grieg, Sibelius, Dvorak. Mas foi Tchaikovsky quem me explicou o que faltava.

 

Não é comum me surpreender dessa maneira com uma cidade, levei um tempo para entendê-la. Gosto de muitos lugares, mas não me parecem mais novidade. Praga foi diferente de tudo, me surpreendeu em muitos sentidos, a começar pelo idioma que, mesmo sem entender absolutamente nada, me soava estranhamente familiar. Foi como um quebra-cabeças de fragmentos soltos, em que Tchaikovsky me deu um fio condutor. A música me ajuda a entender os lugares. É um idioma que não falo, mas entendo com fluência.

 

Ao fim do concerto, descemos a escadaria em direção a Malá Strana. Ia flutuando, feliz da vida. A maior parte das atrações já estavam fechadas e pudemos desfrutar a vista e o caminho com tranquilidade. Achei a região muito bonitinha e acho que talvez queira me hospedar por ali em uma próxima viagem. Passamos pelo museu de Kafka e nos dirigimos à Karlúv most.

 

A idéia era ir para o hotel trocar de roupa e encontrar com nossos amigos para jantar. Havia esfriado razoavelmente e eu de sandália e uma sueter fininha. Apesar do que, não sentia tanto frio assim, acho que meus hormônios enlouqueceram ou estou realmente resistente ao frio. Só que daí passamos pela praça e havia um show de rock. Era um tremendo contraste, considerando que acabávamos de sair de um concerto clássico, em uma igreja! Mas exatamente esse contraste nos pareceu divertido. Quer saber, que voltar para o hotel nada!

 

A banda não era má, e ouvir rock em tcheco me pareceu bizarro. Como sou uma palhaça, apesar de disfarçar bastante e ter um jeito sério, participei ativamente dos aplausos, dancei, fiz mímica de quem cantava os refrões… e tudo com a maior cara de quem sabia o que estava fazendo. Depois disse ao Luiz que adoraria saber do que estava participando. Já pensou se a gente estivesse no meio de um concerto de rock religioso? Pronto, depois disso ele não conseguiu mais parar de imaginar refrões de música crente na boca do roqueiro tcheco. Foi engraçado e definitivamente ajudou a espantar o frio.

 

Em seguida, entrou uma dupla de apresentadores e falaram um monte de coisas. Após uns dez minutos, completamente concentrados no discurso, Luiz e eu nos olhamos e nos perguntamos por que estávamos prestando tanta atenção… em tcheco! E o pior é que estávamos prestando a maior atenção mesmo,  nem era deboche!

 

Depois disso, resolvemos sentar em um dos bares da praça, com mesas exteriores, e esperar nossos amigos por ali. Apesar de ser um restaurante turístico, as cadeiras eram muito confortáveis, tinha aquecedores externos, a bebida era boa e os aperitivos bem caprichados. Aproveitei para comer um pouco antes do jantar. É que sou uma Magali e acabo comendo mais que todo mundo. Dessa maneira, quando sentasse para jantar com o grupo, não destoaria tanto.

 

Nesse meio tempo, entraram duas bandas, bem ruinzinhas, mas a essa altura, já estava com o astral alto e tomando meu vinhozinho. Então, tudo era festa. A primeira, era um trio de mocinhas tentando fazer algum tipo de dança sexy, mas que no fundo era bem cafoninha. Depois entrou uma banda que não sabemos se era turca, tcheca, cigana ou alguma coisa do gênero, mas com um jeitão de gipsy kings.

 

Nisso, os amigos chegaram e, enquanto decidiam onde comer, fugimos correndo para a praça e demos uma dançadinha, só para ter um mico em Praga. Jantamos em um restaurante que gostei, aliás, comi muito bem sempre. O bom gosto na preparação e apresentação dos pratos superou minhas expectativas. E o preço era muito razoável, considerando que o euro é bem mais forte que a moeda tcheca.

 

Depois do jantar, Luiz, eu e outro casal voltamos para o hotel. Queríamos aproveitar melhor o dia, que nos pareceu bem mais interessante.

 

Na manhã de domingo, Luiz trabalhou e só saímos próximo a hora do almoço. Queria ir a um restaurante tradicional ou que se parecesse a um. Fomos ao Sarah Bernhardt, restaurante do Hotel Paris, de pé direito alto, paredes em mozaico azul turquesa e luminárias douradas. Para completar o clima, um trio tocava jazz e bossa nova. Tomamos um brunch e nos encorajamos a experimentar o vinho local. O vinho branco não estava nada mal. Não tinha grandes personalidades, mas era ligeiro, agradável e combinou bem com a comida, cardápio internacional, mas com sotaque francês, principalmente nos queijos, toques orientais e uma interessante oferta de pescados defumados. Luiz se atreveu a experimentar o vinho tinto. Felizmente, não fui tão ousada, porque era bem ruinzinho. Voltou o mais rápido possível para o branco.

 

Chovia enquanto comíamos, mas não demorou muito a estiar. Assim que terminamos, pudemos voltar a caminhar pela cidade. Fomos até o bairro judeu, também bonito e com as lojas de marcas famosas. Nesse dia ocorreu uma maratona e estavam terminando de desmontar a pista que passava por ali.

 

De lá, resolvemos fazer um passeio de barco. Adoro um barco! Escolhemos um menorzinho em que o trajeto não fosse tão longo. O passeio não foi divino, mas deu para tirarmos boas fotos. Além disso, caiu a maior tempestade e estávamos bem abrigados. Outra vez, salvos da chuva.

 

Quis caminhar de novo por Malá Strana, e assim fizemos. Luiz ficou com vontade de ir ao banheiro e resolvemos sentar em um café. Poucos minutos depois de sentados e, novamente abrigados da chuva, caiu uma tromba d’água ainda maior. Pela terceira vez no dia, nos livramos do inconveniente de nos ensoparmos, não sei se por sorte ou se a velha senhora nos agradecia o respeito com sua educação discreta.

 

Passada a chuva, estava quase na hora de nos encontrarmos com um dos casais de amigos para assistir a um outro concerto de música clássica, em outra igreja. Há uma série de concertos em igrejas espalhadas pelo centro da cidade. Infelizmente, esse já não foi tão bom, não pelos músicos, mas achei o repertório demasiado religioso, me senti em um casamento chato. Vá lá, também não doeu.

 

Quando saímos do concerto, fomos nos encontrar com todos os amigos no Jazz Club Reduta. Fiquei muito empolgada com esse programa. O lugar fica na parte mais nova da cidade, que para ser sincera, não me pareceu tão nova assim. De qualquer forma, era um clube pequeno, com sofás verdes apertados e decorado com fotos de pessoas famosas que  o visitaram. O grande destaque foi dado as fotos do ex-presidente Clinton. Na verdade, nada disso importa em um bar de jazz, o importante é ter um bom whisky e música boa. E tinha!

 

Entraram no palco nada menos que dezessete músicos, um maestro e o cachorro do pianista. Não é que o pianista fosse um cachorro, ele levou seu cachorro mesmo, que inclusive passeava pelo local com a maior intimidade. Muito bem, com tanto homem no palco, me perguntei se isso daria certo. Só posso fazer um comentário: uau! Aliás, uau três vezes! O maestro se chama Milan Svoboda, e conduziu o show com guitarra, tuba, bateria, piano, baixo, quatro trumpetes, três trombones e cinco saxofones.

 

O único problema é que o local estava muito iluminado. Jazz pede uma luz mais baixa. Principalmente para mim, que faço caretas, bocas, toco com os dedos e conduzo junto. Puxa, no claro dá um pouco de vergonha, né? No escurinho o mico é menor e não preciso ficar me controlando.

 

Bom, o show foi dividido em duas partes. No fim da primeira, todos os amigos estavam com fome e queriam sair para jantar. Eu queria ter um filho pela orelha! Ensaiei ficar, mas percebi que Luiz ficou meio sem graça e com razão porque passamos quase o tempo todo do dia separados deles. Paciência, comprei o CD e na próxima ida a Praga o local estará definitivamente no meu roteiro.

 

Saímos pela rua tentando achar um lugar para comer,  já era bem tarde e não foi fácil. No final encontramos um até bonitinho, um tipo de cave. Para ser franca, mal consegui me concentrar na conversa, na minha cabeça ainda tocavam muitas músicas e tinha muitas informações para digerir. Estava em transe.

 

De lá fomos todos para o hotel em três taxis diferentes, com os quais negociamos os preços. Isso é uma coisa bem chata lá, os taxis quase nunca seguem taxímetro, você meio que chuta e negocia os valores que podem variar muito. Fora o fato que os homens me dão um pouco de medo. São muito grandes e com cara de mau.

 

Aliás, me senti uma baixinha! Como tinha gente grande! No Brasil sou normal, aqui na Espanha sou super alta, inclusive mais alta que boa parte dos homens. Mas ali eu não tinha a menor chance, fiquei pequena.

 

Na segunda-feira, nosso último dia de viagem, novamente Luiz trabalhou um pouco pela manhã e saímos na hora do almoço. Já tinha em mente onde queria almoçar, queria fechar com chave de ouro. Fomos a um restaurante bem na margem do Rio, com vista para a ponte, um cartão postal. Novamente, arriscamos o vinho tcheco, dessa vez um chardonnay que não decepcionou. Comi um tartar de salmão divino, um tempura de atum mal passado sobre pure de batatas com um toque suave de wasabi e uma torta de maçã com sorvete de nozes. Clima agradável e ensolarado, serviço simpático, dia perfeito.

 

Voltamos para o hotel com o primeiro taxista honesto da cidade e ainda deu tempo de nos despedirmos de nossos amigos na recepção. Nos sugeriram fazer o passeio de pedalinho, o que deve ser realmente interessante, mas com a quantidade de vinho que tínhamos na cuca, ni hablar! Demos uma cochiladinha básica e acordamos na hora de ir para o aeroporto.

 

Na fila para entrar no avião, reconhecemos rapidamente nossos companheiros latinos. Primeiro que espanhol adora fazer uma fila, eles começam super cedo a se juntar na porta. Ninguém despacha bagagem e para se acomodar tudo é um caos! Até que achei divertido e foi muito bom voltar a me sentir alta outra vez.

 

Sou do tempo em que o pouso de vôos internacionais era aplaudido pelos passageiros. Achei que isso fosse coisa antiga. E não é que a espanholada toda aplaudiu o pouso? Mas essa não foi a melhor parte. Na saída do avião, a senhora que estava na minha frente deu umas moedinhas de gorjeta para a aeromoça. Juro! A pobre da menina não sabia o que fazer. Não aguentei, caí na gargalhada de tão chocada, essa eu nunca tinha visto!

 

Voltar para casa foi um pouco difícil. Fiquei com gosto de quero mais. Não é só mais férias, é mais tudo. Queria saber mais da cidade, do país, da cultura, da língua… me deu vontade de ser um pouco tcheca. É verdade que a essa altura da minha vida, preciso ter muito cuidado com o que desejo.

 

Chegando ao apartamento, um felino gordo e carente nos aguardava ansioso. Meu gato me ajuda a achar melhor acabar uma viagem. Voltei diferente, mas aqui ainda é minha casa.

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Dia 20 de maio de 2006 foi nossa primeira festa no apartamento da Calle Montesa. Como meio mundo sabe, sempre que mudamos de casa, fazemos uma festa de inauguração, o que nos ajuda muito a começar com o pé direito. Amigos fazem que a energia do lugar melhore.

 

Uma coisa que acho legal é que, por motivos óbvios, as pessoas que Luiz conhece costumam ser muito diferentes das que conheço. Isso nunca foi um problema, pelo contrário, porque adoro conhecer gente de distintas tribos. E no fim das contas, todos passam a ser nossos amigos. Muito bem, quando damos uma festa maior, chamamos a todos e é uma mistura geral de profissões, vocações, idades e interesses. Ultimamente, também uma mistureba de nacionalidades. Mas não é que dá certo?

 

Essa festa foi bem informal, pedimos aos amigos para trazerem bebidas e fiz algumas comidinhas. Estava sem muita inspiração sobre o que cozinhar, mas uma amiga me passou duas receitas que foram um sucesso, uma de um antepasto de beringela e outra de um molho para comer com kani. Além disso, outra amiga trouxe um tabule que ajudou no clima de integração internacional, cultural, tribal ou sei lá como definir o que seríamos todos juntos.

 

Vieram mais de trinta pessoas. Considerando que não somos adolescentes e o apartamento é pequeno, era muita gente! Não tinha como convidar menos, aliás, infelizmente nem deu para convidar todos, quem sabe em uma próxima festa.

 

O som estava alto para burro e um vizinho veio pedir para baixar. Ele foi muito educado e tinha razão, baixamos. Mesmo assim, acho que incomodamos um pouco, vou tentar me redimir.

 

Não sei exatamente que horas acabou a festa. Só me lembro de perguntar aos últimos convidados se eles queriam ir ao El Junco para dançar e Luiz me dizer que já estaria fechando, pois eram quase cinco da manhã. Como assim? Para mim era no máximo umas duas e meia! Passou voando!

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Muito, mais muito perto da nossa casa, tem um restaurantezinho chamado El Fogón de Trifón. Quase não chama atenção, parece um pequeno bar, com seu balcão apertado e cheio de gente conversando. Não é raro aqui se ter o bar em frente e o restaurante atrás ou embaixo. Nesse caso, o salón comedor fica atrás. Possui cinco mesas e isso não é maneira de falar, comporta um máximo de vinte e duas pessoas.

 

O lugar é tão pequeno que chega a intimidar na entrada, pois todos te olham. Entretanto, alguns segundos depois, o barman abre um sorriso largo, solta um simpático buenas noches e você se sente como se conhecesse os outros clientes, como  se fossem parte do mesmo grupo. O truque é responder buenas com jeito de que vai ali todos os dias.

 

Poucas vezes vi em Madri atendimento tão simpático e atencioso. Garçons preocupados com o que é servido e orgulhosos quando você elogia a comida. Parece que foi a mãe deles que cozinhou, é assunto pessoal. Cá entre nós, não é nada difícil elogiar, pois absolutamente tudo o que comemos é maravilhoso.

 

Meus destaques, dou para os chipirones encebollados, umas lulinhas aceboladas e o rabo de toro, nossa rabada. Enfim, difícil escolher um prato, porque tudo é bom. Não utilizam muitos ingredientes, é uma cozinha clássica e de uma simplicidade refinada. Eles sabem fazer o igual diferente e isso não é para qualquer chefe de cozinha.

 

Ontem fomos lá com um casal e outro amigo, todos espanhóis. Estamos tentando montar uma empresa, que não posso contar do que se trata porque é segredo secreto, totalmente diferente de tudo o que nós fazemos, dá para fazer em paralelo a nossas carreiras e o investimento é irrisório. Parece milagre, né? Também acho. A verdade é que sempre comemos, bebemos e nos divertimos muito mais do que trabalhamos. Acho que, no fundo, a tal da quem-sabe-empresa é um belo de um pretexto para nos reunir e comer bem. Ou seja, já começou como um excelente negócio, pelo menos para a gente.

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Há alguns meses atrás, compramos entradas para assistir ao Cirque du Soleil em Valência, junto com um casal de amigos. É difícil nos planejarmos com tanta antecedência, mas, nesse caso, foi a única maneira de conseguir bons ingressos.

 

Por coincidência, temos outro casal de amigos que tem casa em Dénia, uma pequena cidade de praia a cerca de 80km de Valência. Eles sempre nos ofereciam essa casa para nos hospedarmos e dessa vez aceitamos.

 

Fomos em dois casais e o Jack, meu gato gordo que não tive coragem de deixar para trás mais um fim de semana. Meu felino educadíssimo se comportou muito bem na viagem de ida e de volta, ele é muito internacional.

 

Há cerca de um ano e meio não ia a uma praia e estava muito animada com essa idéia. Tão animada, que me esqueci completamente que estávamos indo ver o show do Cirque du Soleil! Só no carro, na ida para Dénia, minha amiga comentou algo do espetáculo e me lembrei o porquê da viagem. Francamente, eu mesma me surpreendo com esse meu lado altista! Alguém tão desligada não pode ser normal!

 

Muito bem, a viagem durou umas cinco horas e chegamos em Dénia na sexta-feira, quase meia-noite. Em uma cidade pequena que vive de veraneio, é claro que estava praticamente tudo fechado. Mesmo assim, tentamos aproveitar um pouco. Por isso, deixamos Jack acomodado em casa e partimos guerreiros na busca de um bar.

 

No primeiro ensaio de movimento, gritamos em coro do carro: páaaaara! Ali!

 

Bom, movimento é jeito de falar, era mais assim algum sinal de vida. O local era um tipo de comércio com alguns restaurantes fechando, aquela coisa de garçonetes desmontando mesa, fim de festa mesmo. Daí, minha amiga ouviu música e fomos seguindo o som como quem segue o caminho feito em migalhas de pão. Soava Dire Straits, promissor. Vimos luzes no teto e acreditamos que poderia ser uma boite. Resumindo e acabando com o suspense, era um karaokê! Que mico!

 

Mas, na dúvida que fosse o único lugar aberto, sentamos por alguns minutos para eu e nossa amiga tomarmos um vinho ruim e Luiz e nosso amigo tomarem uma cerveja que parecia melhor. Estávamos de bom humor e conseguimos achar a situação engraçada.

 

Dalí, nos dirigimos ao casco histórico, como se costuma chamar o centro das cidades na Espanha. Era mais bonitinho e tinha aquele clima de cidade praiera que nem sabia que sentia tanta falta. Sentamos em um bar chamado Jamaica in. O lugar não era mal, mas também estava no fim de noite e não havia mais nada para comer. Ou melhor, tinha batata chips, uma tal de Lolita, que foi a pior batata que comi na minha vida.

 

Resolvemos dar a noite por encerrada e tentar melhor sorte no dia seguinte. Chegando em casa, preparamos uns sandubas de frango que havia trazido de Madri. Bateram uma bola. Claro que levei comida, logo eu, a gulosa! Ia correr o risco de chegar em uma cidade com os restaurantes fechados e dormir com fome, nunca!

 

No dia seguinte, não acordei tão tarde. Estava preocupada com o gás a ser ligado. É que simplesmente odeio banho frio e só de imaginar essa possibilidade, estremecia. No dia anterior, Luiz e nosso amigo não acertaram ligar o dito cujo, mas como estávamos com um pouco de pressa para sair, deixamos para fazer isso de manhã. Enfim, a manhã havia chegado e a primeira coisa que fiz foi cutucar o Luiz e pedir para ele tentar ligar o gás. Fui logo em seguida, para tomar café e tentar ajudá-lo. Apanhamos um pouco, mas no fim deu certo. Ufa! Banho quente!

 

Nisso, nossos amigos também levantaram e fomos para a praia. Como estava seca por uma praia! Normalmente, não ligava muito, mas acho que era porque sabia da facilidade de chegar até uma. De repente, praia se tornou algo tão distante e difícil que fui me esquecendo como era bom.

 

Não é só isso, é que sou muito branca e o sol sempre é sinônimo de trabalho e cuidado para mim. Perdi esse prazer. Fui bronzeada uma época, quando morava em Brasília. Juro que não é mentira. Nesse período tinha piscina em casa, ía ao clube todos os fins de semana e as férias eram sempre em região de praia. Ou seja, estava convencida que era morena! Tinha a pele curtida e colorida pelo óleo de côco com urucum.

 

Depois mudei para o Rio e a praia não era tão limpa. Das poucas vezes que tentei frequentar, voltava com alguma micose para casa e ficava arrasada. Depois, comecei a trabalhar e cada vez tinha menos tempo. O sol também mudou, ficou mais agressivo, já não podia mais usar bronzeador e minha pele se tornou indefesa sem proteção. Descobri que era branquela feito leite. E branquela me mantive ao longo dos anos. Além de ter passado por algumas experiências desagradáveis, como queimaduras nos pés por esquecer de passar protetor nessa região.

 

Enfim, depois de tanto tempo, o mar me chamava, dessa vez do lado mediterrâneo, tentava me convencer a recomeçar nossa relação. Aceitei o convite.

 

A princípio, estranhei um pouco a areia escura. Gosto daquela areia branca e fininha, mas em Dénia não é assim, é avermelhada e grossa. É época de algas vermelhas, o que também escurece um pouco o mar. Mas onde as algas permitem clareiras, a água é limpa e esverdeada.

 

Ainda por cima, encontramos um quiosque que alugava barracas e espreguiçadeiras. Aí foi correr para o abraço! Poderia morgar o dia todo.

 

Acontece que não tínhamos o dia todo, era sábado, dia do show do Cirque du Soleil. Queríamos chegar um pouco mais cedo em Valência, para dar uma volta na cidade e conhecer os arredores.

 

Fomos almoçar. Na saída da praia, havia um restaurante chamado “Chiringüito”, é como se chamam os quiosques aqui. O cheiro bom de peixe frito estava arrasador e, depois de uma breve  polêmica se almoçávamos ali ou em um restaurante grego, o tal do Chiringüito venceu. O lugar era aberto e administrado por uma família. A comida estava simplesmente de-li-ci-o-sa! Ainda tomei um vinho branco geladinho, na temperatura perfeita. Companhia agradável, vista para o mar, o que mais poderia pedir?

 

Deu a maior preguiça, mas precisávamos ir logo para Valência. E assim, fomos meio sonâmbulos no carro. Quer dizer, eu fui sonâmbula, porque Luiz foi apagado ninando uma garrafa de água. Realmente, invejo a capacidade que ele tem de dormir tão bem em qualquer lugar!

 

Achei a cidade uma graça! Pelo menos na parte do centro histórico, o que deu tempo de conhecermos. Gostaria de voltar lá com mais calma qualquer dia desses. A verdade é que mal pudemos caminhar pelo local e já estava na hora do show.

 

Saímos em disparada para o Cirque du Soleil, correndo sérios riscos de chegarmos atrasados e com Luiz estressadíssimo, dessa vez dirigindo. Fui orientando o caminho como pude, também não conhecia a cidade e não tínhamos um mapa. No fim, chegamos a dois minutos de começar o espetáculo. Na verdade, os palhaços já estavam entretenendo o público.

 

Caramba, como contar o espetáculo? O Cirque du Soleil não dá para explicar, tem que ver e ouvir, é uma experiência, simplesmente emocionante! Acho fabuloso como eles conseguiram fazer uma releitura do circo sem perder as origens e com a capacidade de impressionar gente que já viu um pouco de tudo. Esse show se chamava  “Dralion”. Em Atlanta, assisti ao “Allegria”. E sempre que houver oportunidade, assistirei aos próximos.

 

Quando acabou, voltamos os 80 km de carro para Dénia. Outra vez sonolentos, só que agora ia sonhando acordada.

 

É verdade que não consegui abstrair totalmente, tinha uma preocupação na cabeça. Na semana anterior meu avô internou, estava inchado com um problema renal. Pelo telefone, as notícias que me davam eram positivas, mas sempre fico na dúvida se é realmente assim, afinal de contas, ele tem 88 anos. Queria telefonar para Belo Horizonte, onde ele está, para saber se estava tudo bem. Mas ao mesmo tempo, também não queria ligar e receber uma má notícia. De qualquer forma liguei, mas tinha o telefone errado, faltava um número. Decidi telefonar de casa, no domingo, quando chegasse.

 

Acho estranho essa coisa da vida ser tão misturada. Estamos sempre no limite das ambiguidades. Prazer e dor, tristeza e alegria, medo e coragem… e a culpa sempre tentando se fazer presente, margeando. Estava um pouco dividida, mas optei por tentar me divertir. Afinal, meus pais tinham nosso telefone celular, se houvesse algo realmente ruim, me ligariam. No news, good news.

 

No dia seguinte, domingo, acordei doida para ir para praia. O tempo estava nublado, o que me desanimou um pouco. Mesmo assim, resolvemos ver no que dava. Ainda bem, porque o céu abriu e fez um dia estupendo! O mar, inclusive, estava mais limpo das algas.

 

Fizemos basicamente o mesmo programa do dia anterior, só que com menos pressa e sem o compromisso de ir a Valência. Morguei na espreguiçadeira alternando entre sol e sombra, mais sombra porque fiquei com medo da minha brancura. Aliás, não era nem de longe a mais branca, o que me fez sentir outra vez morena. Porque não dizer, morena e sexy, pois por sorte também não estavam presentes os corpaços jovens cariocas e, na comparação, até que me saí bem. Atenção meninas! Ministério da saúde adverte: praia espanhola faz bem ao ego.

 

Caminhei um pouco com os pés na água, minha maneira favorita de aproveitar a praia. Fiz de conta que queimava muitas calorias a serem devolvidas no almoço próximo.

 

Claro que novamente almoçamos no Chiringüito. O bom atendimento se repetiu. Pedimos outros pratos, para variar, e o que felizmente não variou foi o quanto estavam deliciosos. Um dos nossos pratos foram as kokotxas, pronunciado mais ou menos côcôtias, que é basicamente a parte da garganta do peixe, se é que peixe tem garganta. Costuma ser de merluza ou de bacalhau. É lógico que depois de uma dose de gaiatice e meia de vinho, voltamos aos cinco anos e as kokotxas se transformaram rapidamente em xoxotias ou algo que se pronunciasse parecido. O pior é ter que confessar publicamente que as xoxotxas, digo kokotxas do chiringüito, eram realmente saborosas. Ainda bem que foram de merluza e não de bacalhau.

 

Entonces, tentando aumentar um pouco o nível que já vai rasteiro, nossa preguiça também não variou, mas era hora de voltar para casa. Ai, que vontade de ficar uma semana! Por que nunca estou satisfeita?

 

No caminho de volta, Luiz veio chutando o balde. Acho que estava se divertindo com o brinquedo novo, um carro alugado poderoso que deu vontade nele de ter um. Para falar a verdade, também me deu vontade, mas estava mais preocupada com Jack, que mareou um pouco no início da estrada. Depois que entramos nas retas, segurou a onda e se comportou como um legítimo gato de ciganos.

 

Chegamos bem e com luz, anoitece tarde agora, por volta das 22:00 horas, às vezes depois. Madri animada e cheia de gente na rua. A primavera está se despedindo e o calor do verão chega com toda força.

 

Jack entrou em casa cheirando tudo, como sempre, e ao reconhecer seus cheiros e seus cantos ficou feliz da vida. Pode ser de ciganos inquietos, internacional e viajado, mas ainda é um gato e adora chegar no que é seu. Tenho muito que aprender com esse felino.

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