Minha Vida de Caracol

O que define o limite entre uma vida normal e uma vida de aventuras? Será que precisamos escalar montanhas para sermos considerados aventureiros? E isso é bom ou mal? 

A arte me ensinou a olhar as mesmas coisas de outra forma, um outro olhar. Isso abriu minha perspectiva em relação ao que eu via e me deu novas possibilidades.  

Um dia, sem notar, comecei a utilizar o mesmo conceito na minha vida. De repente percebi que ao prestar atenção nos detalhes e usar meu outro olhar, as coisas rotineiras e comuns se transformaram em aventuras. Pelo menos para mim…

I – Chegando em Madri

Chegamos em Madri no dia 06 de abril de 2005. Exaustos! Vindos de Atlanta, após uns oito meses de espera e nove horas dentro de um avião – com um gato! Nem a classe executiva foi capaz de me distrair totalmente. Claro que tinha que chegar de classe executiva, sinto muito! Economizasse milhas, economizasse dinheiro, mas queria entrar pela porta da frente! Eu merecia! 

Pelo processo burocrático com normas e regras novinhas em folha, chegou Luiz com seu visto de residência e eu de turista. Apesar de ser totalmente legal, tivemos a precaução de entrar em filas separadas na imigração, acho que resquício da neurose americana. 

Todas as malas chegaram, coisa que nem sempre acontece. Seis malas grandes, bolsa de mão do Luiz com computador, bolsa de mão da Bianca com um gato. Aliás, pensando bem, ainda havia uma malinha de mão com as coisas do gato e outro laptop. Melhor que em Atlanta, onde chegamos com umas treze malas! Aprendemos um pouquinho e Luiz trouxe algumas antes de mudarmos de vez. Tínhamos malas conosco, no escritório em Madri e em Paris com um amigo. Malas muito internacionais! Um mar de malas… 

Recolhendo as bagagens já reconheci o característico cheiro de cigarro da cidade, mas dessa vez tinha coisas mais importantes para me preocupar. Providenciamos com antecedência toda a documentação do gato, Jack Daniels, que estava espremido em sua bolsinha mais de doze horas, sem direito a nem um xixizinho! Dividindo nosso colo é lógico! Eu é que não mandaria meu gatinho naquele bagageiro frio! Ninguém nos perguntou nada, acho que nem o viram ou acharam que era uma bolsa de viagem normal e, enquanto Luiz explicava porque trazia tantas malas, usei minha habilidade de passar invisível por portões e o esperei do lado de fora. Eu sei fazer aquela cara número 11 de faço-isso-todo-dia-sei-o-que-estou-fazendo-e-não-me-pergunte, passo com ela em todas as portas e portões do mundo!  

Ele não demorou, quando mostrou o visto de residência, os fiscais o deixaram passar. Quem muda de país e não leva, pelo menos, meia dúzia de malas? Também, se tivesse sido parado, nada além de roupas usadas e lembranças para revistar. Nosso maior crime foi trazer oito garrafas de bebidas que não pudemos deixar para trás. Enfim, como era bom entrar em um país de bom senso outra vez! 

Pela primeira vez relaxei um pouco. Lembro da minha visão passando pela porta de saída das bagagens, olhei as pessoas em volta e vi a claridade da rua vindo na direção dos meus olhos. Saía de uma cesariana difícil. Não estava novamente em minha zona de conforto, se é que ainda me resta alguma, mas ali queria viver.

II – O taxi

Próximo passo: o taxi! É claro que na fila de taxis não havia nenhuma grande perua onde coubessem nossas malas. E me lembro durante a fila em pensar, muito bem, mais uma vez daremos uma chance ao caos! E como sempre, “o caos” resolveu  nosso problema.  

O motorista nos cobrou cerca do dobro do percurso, garantindo que poderia levar toda nossa bagagem. Topamos sem ter a menor idéia de como ele realizaria a façanha em um carro relativamente pequeno. Ele colocou algumas no bagageiro, uma no banco da frente, pegou uma corda, empilhou o restante das malas no teto e as amarrou com cara espanhola de quem sabia o que estava fazendo, cara parecida com a minha dos portões! E ái você de reclamar! Eu e Luiz nos olhamos com a cara 35, a de será-que-isso-vai-dar-certo e entramos resignados no taxi.  

Olhando a sombra daquele carro cheio de malas empilhadas no teto e dentro nós dois com um gato no colo, pensei: estou mesmo na Espanha ou na Índia?  

Definitivamente, na Espanha. Em pouco tempo, o motorista, que era até educado conosco, começou a reclamar do trânsito infernal da cidade. Luiz reclamava junto com ele, o que rapidamente gerou uma certa cumplicidade entre os dois. Para mim, todo aquele barulho da discussão e do trânsito era música! Como era bom estar em uma cidade viva outra vez! 

Vim em transe olhando pela janela por  todo o caminho em direção ao apartamento turístico alugado. Os prédios não eram tão bonitos, a cidade e a paisagem eram marron barro, tom quebrado eventualmente por toldos verdes meio gastos. Na minha cabeça tocava Sampa com a voz do Caetano dizendo que “Narciso acha feio o que não é espelho…quando te olhei frente a frente não vi o meu rosto… chamei o que vi de mal gosto”. Mas assim como em São Paulo alguma coisa já acontecia no meu coração.  

Minha alma era livre novamente e a cidade começou a aparecer linda!

III – O primeiro apartamento alugado

Cafona e impessoal é claro! Mas arrumado, limpo e bom preço, o que era o suficiente para chegarmos. O apartamento foi alugado por três semanas, tempo para procurarmos um lugar para morar. Quase escrevo um “lugar definitivo para morar”, o que seria praticamente uma heresia, afinal o que nos era definitivo? 

Jack cheirou cada centímetro do imóvel, que deveria ter mil cheiros das mil pessoas que passaram por ele. O gato ainda estava desconfiado, mas estava bem. 

O apartamento ficava na região da Plaza de España, local central e com metrô próximo. Porém isso veríamos depois, naquele momento o que queria mesmo era tomar um banho e dormir como uma pedra. O tal sono dos justos! 

Era primavera e ainda fazia um pouco de frio. O aquecimento não funcionava. Descobrimos que havia uma data, no inverno, em que o governo por lei estabelecia que a caldeira deveria ser ligada. Além desses dias, era uma decisão do condomínio. Nosso condomínio, aparentemente, decidiu que não estava frio o suficiente, opinião que eu não compartilhava. 

Abri o chuveiro quente para aquecer o banheiro e descobri que a água calcária já havia entupido boa parte do cano por onde escorria um fio de água. Só me faltava essa, Luiz vai ter um troço quando ver esse chuveiro! Mas quer saber, ou por cansaço ou porque estava muito difícil tirar meu bom humor, encarei meu banho de presidiária. 

Luiz foi logo depois, enquanto eu já me esparramava na cama com colchão marcado por vários corpos de tamanhos e pesos diferentes. O azul-calcinha do quarto, que em outra ocasião me valeria comentários bem sarcásticos, naquele momento até me ninou. Nem me lembro se quando Luiz voltou ao quarto  estava acordada ou desmaiada, mas acho que até o Jack desistiu de cheirar o apartamento e se entregou. Dormimos bem e acordamos no início da noite com fome.

IV – Onde jantar?

Passada a sonolência inicial, a curiosidade e a fome falaram mais alto. A fome, principalmente, falava bem alto no meu estômago! Sou uma gulosa, uma Magali! E ainda por cima, quando estou com fome meu humor é deveras alterado! Mas passa nos primeiros 15 segundos que sento à mesa do restaurante. Resolvemos sair para jantar. 

Antes de mudarmos, Luiz passou meses indo e voltando entre Atlanta e Madri. De todos os restaurantes e bares que ia na cidade, me ligava dizendo que eu iria adorar aquele lugar… como era a decoração… o que ele estava comendo… enfim, acho que era a forma dele se sentir acompanhado enquanto fazia uma refeição. Ele detesta comer sozinho! 

Por isso imaginei que, ao chegar, ele teria uma lista completa de locais onde pre-ci-sa-va me levar. E fiz a pergunta de onde iríamos, quase de maneira retórica, só para saber em qual dos trocentos lugares interessantes citados ele me levaria naquela noite. 

Ele me olhou com a tradicional expressão de interrogação e achei que ele estivesse brincando. Após alguns segundos franzindo a testa, no que parecia um esforço sobre humano, de repente seu rosto se animou: Ah! Tem um japonês bonitinho na Castellana! 

Eu queria matá-lo! Juro! 

Nada contra restaurantes japoneses, pelo contrário, mas na minha primeira noite como moradora madrileña, após meses e meses de expectativa, eu queria, no mínimo, uma paella… tapas… chorizos… qualquer coisa espanhola, né? 

Bom, depois do meu também tradicional incomensurável bico e conhecendo o risco de me deixar com fome muito tempo, ele se lembrou de um restaurante bem pequeno próximo ao Palácio Real, que tinha no máximo uma meia dúzia de mesas. Apesar da localização, não era muito frequentado por turistas. O problema é que ele não tinha certeza como chegar. Tudo bem, arriscamos. 

Chegar… chegamos, mas estava fechado não me lembro porque. No caminho, prevenida e faminta, gostei de um restaurante e examinei o cardápio. Quando encontramos o primeiro fechado, já tinha o “plano B”. Comemos bem e em um restaurante bem espanhol!  

Valeu pelo passeio ao Palácio Real, lindo à noite! Lembrava-me dele menor, não estou segura, mas acredito que haviam obras em sua frente na minha visita anterior a Madri. 

A primeira viagem internacional juntos que eu e Luiz fizemos foi a Madri, acredito que uns oito ou nove anos antes de mudarmos. Claro que não tínhamos a menor idéia do que nos esperava, mas ficamos com a vontade de morar na cidade em algum momento. Cuidado com o que desejas… 

A propósito, semanas depois, quando não aguentava mais comida com paprika e com o estômago desarranjado, fomos finalmente ao tal restaurante japonês bonitinho. Era realmente bonitinho e com uma ótima comida! Mas tudo tem seu tempo.

V – Onde morar?

Luiz não quis decidir sozinho onde morar, preferiu me esperar chegar e ajudar a escolher o bairro e o apartamento – um sábio!  

Conhecia a cidade como turista, o que é bem diferente. Além do mais, já havia passado uns nove anos e, mesmo na europa, muita coisa pode mudar nesse período. Luiz nesse vai-e-vem entre Atlanta e Madri, sempre estava a trabalho e ocupado, também não estava seguro de onde morar. 

Desde Atlanta, através de sites de busca e guias, tinha um bairro de preferência: Salamanca. O que não é muito difícil, considerando que, agora que conheço, é uma das melhores regiões por aqui. No fim de semana, sugeri que caminhássemos pelo bairro, não havia encontrado muitas ofertas de aluguel pelos jornais na internet. Foi ótima idéia, pois as pessoas colocam placas com telefone na portaria e nas janelas dos edifícios. Daí eu ia escolhendo alguns lugares e Luiz, com o espanhol bem melhor que o meu, ligava para perguntar preço e se poderíamos visitar o imóvel.  

Vimos apartamentos em outras regiões também, mas como suspeitava, acabamos nos encantando por Salamanca. O apartamento que alugamos fica em um prédio meio feinho, mas limpo e estava reformado. Depois, da minha janela via prédios lindos e o preço era razoável. Fiquei pensando: o que será melhor? Morar em um prédio lindo, ou olhar para um prédio lindo? Não importava muito, era alugado mesmo, e apenas por um ano. E o fundamental, tinha dois banheiros que não me davam nojo e elevador! 

Engraçado como o conceito de qualidade de vida das pessoas é diferente, além de mudar de tempos em tempos. Para umas pessoas é ter uma refeição por dia, para outras é possuir uma Ferrari! Conhecia esses dois tipos. Morar em cidade de praia, morar em cidade tranquila, morar em uma metrópole onde se encontra de tudo, ser casado/a, ter filhos, ser independente, estudar, ter bom emprego, ter dinheiro, ter saúde, animais de estimação, canto de passarinhos, silêncio total, paz, agitação, oportunidades, tradição, novidades… tantas coisas diferentes! 

A primeira vez que tentei categorizar o que acreditava ser qualidade de vida foi em São Paulo, pouco depois de mudar para lá. Cheguei a conclusão que era poder morar mais de três dias da semana na mesma casa que meu marido e que nessa casa me sentisse segura. Alguns anos mais tarde, adicionei a essa lista a vontade de não ter medo da violência cada vez que saísse na rua. 

Chegando em Madri, minha qualidade de vida era morar em um apartamento de pelo menos dois quartos e dois banheiros, elevador, perto de metrô, onde eu pudesse caminhar pela rua e fazer minhas compras a pé. Pronto! Com isso eu poderia ser feliz.

VI – Entretanto

Entretanto, antes de chegar ao céu, demos uma paradinha no purgatório! 

Entre o fim da nossa estadia contratada no primeiro apartamento da Plaza de España e a entrada no “meio definitivo”de Salamanca, havia um espaço de aproximadamente uma semana sem ter onde morar. Tivemos que correr para  encontrar outro apartamento nesse período. 

Luiz encontrou um estúdio charmosinho, não tão barato, na Calle de Postas, uma ruazinha simpática e movimentada que leva à Plaza Mayor. Ponto positivo: bem no meio da muvuca; ponto negativo: BEM no MEIO da MUVUCA! 

De qualquer forma, não tínhamos muita alternativa, o jeito foi encarar! E lá fomos nós com a casa na cabeça e o gato no colo, em três viagens de taxi, mudando para o segundo apartamento em Madri! Deveria ter guardado o telefone do motorista de taxi do aeroporto que fez tudo em uma viagem só com as malas amarradas no teto. Poderia não ser tão elegante, mas seria tão mais prático! 

O apartamento era bem pequeno, porém estiloso e havia acabado de ser reformado, um charme! Acontece que o prédio, histórico, também passava por reformas e era uma poeira fina horrorosa que insistia em invadir nossa casa temporária. Mas eu a combatia com muita coragem! Colocava panos tampando o buraco da porta e tirando os sapatos ao entrar em casa, hábito que acabei criando depois. 

O fato do prédio estar em obras e dos seus inquilinos serem em boa parte turistas, fazia com que a portaria vivesse aberta. Para uma brasileira criada no meio da paranóia do medo, uma portaria aberta, bem no centro da cidade, com mil pessoas sabe-se lá da onde circulando pela calçada, era a morte lenta e dolorosa! Entrar e sair do prédio, para mim era sempre uma zona de desconfiança. 

Nisso, Luiz precisava ir até Barcelona a trabalho, por três dias eu acho. Imagina! Eu ia ficar so-zi-nha com meu Jack ali? Nem fodendo, Marquinho! Catei o gato e fui atrás dele! Pobre Jack, o gato mais viajado do mundo… 

Não foi má idéia, ainda não conhecia a cidade e gostei muito de Barcelona. Na volta para casa, descobrimos que a portaria sempre aberta nem era o pior dos nossos problemas! Afinal, os turistas não invadiram o prédio, os mendigos não passaram da porta, apesar de sentarem constantemente nos degraus da frente. E para nossa sorte, se existiam ladrões, também não se animaram. 

Há bastante tempo o medo da violência havia entrado na minha vida sem eu perceber, e se instalou na minha cabeça como um reflexo condicionado. Às vezes o medo é bom, porque te protege, mas muitas vezes ele dá trabalho e gasta muita energia. 

Descobrimos que, apesar de todo aquele movimento, estávamos em um local seguro. Talvez até devido ao movimento! Por outro lado, quem conseguia dormir? Um barulho infernal dia e noite! De dia era o barulho da obra, felizmente iniciava depois das 10:00hs, como quase tudo no centro de Madri. Pela noite era gente passando, cantando, berrando… Sem falar que havia um interfone por andar e não por apartamento. No nosso andar haviam dois estudantes franceses, aparentemente muito populares na cidade, e a merda do interfone não parava de tocar, fosse a hora que fosse! Nem sei porque aquela bosta tocava tanto, a porta estava sempre aberta mesmo! 

Também tinha um elevador preservado pelo patrimônio histórico. Daqueles com portas de madeira que fecham manualmente. Estranho, mas charmoso. Porém, se alguém esquecesse de fechar as portas, ele ficava travado no andar em que parou. E é claro que todos os amigos dos populares franceses nunca lembravam de fechar a porcaria das portas! Nem do elevador, nem da portaria! Nós fomos parar justamente no andar dos franceses mais simpáticos e comunicativos do mundo! Não, porque eles tinham que ser muito, mas muito simpáticos mesmo para ter aquela quantidade de amigos! E o pior, amigos que detestavam fechar portas! 

Deu para perceber que foi um saco, né? Mas como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe…

VII – Jack Daniels, nosso gato

Quem chegou até aqui, percebeu que existe uma certa figurinha peluda presente em nossa vida. Aos que não gostam de animais, sinto muito! Mas preciso falar um pouco desse felino, que depois de dividir tantas aventuras, elevou seu status de bichinho de estimação para participante fundamental da nossa pequena família. 

Chegou em nossa casa com apenas 40 dias, junto com sua irmã da mesma ninhada. Fui visitá-los pouco depois que nasceram, os rabos eram do tamanho do meu dedo mindinho. Na época, queria uma única gata. Tinha que ser fêmea, pois não queria minha casa como um território marcado por urina felina! Haviam me dito que o macho, quando atingia a adolescência, iniciava a marcação do seu território dessa maneira. 

Quando olhei a gata-mãe, com aqueles filhotinhos muito fofos, reconheci logo um olhar cheio de personalidade e dignidade de uma pequena gatinha persa, muito vermelha. Na hora sabia que seria a minha, ou eu dela, no caso dos gatos! Não me deixava pegá-la no colo, que ficasse bem claro que era dona de seu destino, mas não saía de perto de mim com o rabo empinado. Para quem não conhece, o rabo empinado do gato equivale ao rabo balançante do cachorro. Nesse momento, um gatinho distraído levantou sua cabeça e me olhou. Ele era o gato mais apaixonante que tinha visto, tinha cara de neném, lindo! Veio em minha direção, subiu no meu colo e decidiu que eu seria sua dona. 

Mas havia dois  problemas, eu já estava doida pela gatinha e ele era um macho! Portanto: mijão! A dona do gatil me perguntou porque não levava os dois e expliquei a situação. Ela me informou que, se castrarmos o macho em sua adolescência, ele usa sua caixa de areia normalmente, assim como a fêmea. Pronto, então decidido, a gata eu escolhi, o gato me escolheu. 

Luiz me deu o casalzinho como presente de aniversário de 30 anos. Chegaram em nossa casa, em São Paulo, exatamente no dia 9 de novembro de 1999. Batizamos os dois de Jack Daniel’s e Buchannan’s, um bourbon e um whisky pelos quais tínhamos um carinho especial. Eram irmãos, mas muito diferentes, chamados com sotaque bem brasileiro de “Diequi” e “Bucana”. Buchaninha era a nossa inteligente sensível e Jack, nosso pateta feliz. 

Os dois foram conosco para Atlanta, não era a  primeira experiência com mudanças. Infelizmente, Buchanan já chegou bem doente nos EUA. Fizemos o possível.  Enquanto ela respondia à medicação e tinha uma boa qualidade de vida, fizemos de tudo. Um dia ela decidiu que já estava cansada e, com muita dificuldade em respirar,  parou de comer. Aceitamos sua vontade e diminuímos seu tempo de sofrimento. Sofremos os três juntos nosso luto pela gatinha que, com metade do peso e tamanho de Jack, era a dona da casa e cuidava de todos nós. 

Jack ficou triste e resolveu que era hora de ser um adulto. Não era mais nem tão pateta, nem tão feliz. Foi há alguns meses antes de nos mudarmos para Madri. 

Não acaba tão mal. Quando chegou na nova cidade, com quase seis anos de idade, cerca de 42 se fosse um humano, usou mais uma de suas sete vidas, recuperou sua vitalidade e animação. Mas essa é uma outra história…

VIII – Barcelona

Um intervalinho para falar de Barcelona, para onde fugi por dois dias, durante a semana no apartamento-purgatório da Calle de Postas. 

Luiz estava ocupadíssimo trabalhando, já conheço esse esquema e me torno o mais invisível possível! Sei que pode parecer uma heresia, mas o que queria mesmo era uma bela noite de sono! 

O hotel era ótimo, mas um pouco afastado do centro. Tudo bem, havia metrô próximo e facilitava bastante a locomoção. Aproveitei para conhecer os museus de Tapies, Picasso, arte contemporânea e andar pela cidade. Adoro caminhar pelas cidades, acho a melhor maneira de conhecer um lugar. 

Gostei. Arquitetura muito interessante, principalmente as coisas do Gaudi. 

Em uma das noites, Luiz teve uma folguinha e jantamos juntos com uma amiga brasileira, que morava em Barcelona. Muito simpática e nos levou a um restaurante ótimo! Temos essa sorte, quase todo local que viajamos encontramos alguém conhecido.  

Acho que é por isso que gosto tanto de receber amigos em casa. Acredito que seja um tipo de empatia. É tão bom encontrar algum amigo ou conhecido quando estamos em uma cidade que não é a nossa!  E quando é uma lingua que não falamos? 

Me lembrei de uma história: uma vez fomos a Munique, na Alemanha. Bom, até que a gente se vira muito bem em idiomas, mas alemão… não falamos chongas! E esse negócio de dizer que é parecido com inglês é uma grande bobagem! Falo inglês fluentemente, até morei nos EUA e não entendo alemão. Tem uma palavrinha ou outra, claro! Mas se procurar mesmo, vai achar até alguma parecida com português, entretanto, isso é muito diferente de possibilitar o entendimento de um idioma.  

Muito bem, voltando a história, escolhemos um restaurante muito bonitinho, um grego. Veio o cardápio, obviamente em grego, mas com tradução dos pratos… em alemão, claro! Consegui, ao mesmo tempo, não entender nada em dois idiomas! Qual foi nossa sorte? Estávamos com um casal de amigos que moravam lá, ele alemão, ela brasileira. Viu como é bom ter amigos? Você consegue até comer bem em um restaurante grego com os pratos descritos em alemão! 

Enfim, o que quero dizer é que é muito bom poder oferecer a mesma hospitalidade que sempre recebo, para mim é um prazer.

IX – Cortei o cabelo

Na volta de Barcelona, tinha uma coisa muito importante que precisava fazer: cortar o cabelo! 

Eu sou do tipo cabelão, daquelas que quando corta o cabelo sai do salão com um pouco de vergonha. Parece até que estou descalça, levo um tempo para me acostumar. Mas de tempos em tempos, preciso fazer. É como uma renovação simbólica. Cortar o cabelo não muda a vida de ninguém, mas muitas vezes, quando mudamos de vida, cortamos o cabelo. Pelo menos, nós mulheres! 

Em Atlanta, meu cabelo caiu muito. Era bem longo, quase pela cintura. Comecei a notar no chão e no ralo do banheiro que estavam caindo demais. Só não chegou a ser um problema sério porque tenho tanto, que não fez falta. Mas eu sabia que não era uma coisa normal. Depois de um tempo comecei a recolher os fios e a guardá-los. Sou artista plástica e sabia que um dia isso seria material para um trabalho bem pessoal. Alguma coisa tinha que levar de lá, nem que fosse meu próprio cabelo! Quem sabe um dia eu conte essa história. 

E, voltando a Madri,  precisava resolver essa questão capilar tão significativa! Queria estar mais moderna, mais aberta, começar outra vez. Precisava de um marco, um ritual de passagem. E assim foi! 

De cabelos curtos e alma leve fui sentindo o vento se alternando no rosto e na nuca até chegar em casa. Estava pronta e fresca.

X – Jantar com o pessoal do trabalho do Luiz

Foi um grande risco cortar o cabelo naquele dia! Chegava um pessoal do trabalho do Luiz para uma reunião em Madri. Como ele estava, ou melhor, era da cidade, foi eleito o anfitrião natural e, como consequência, eu a primeira-dama-penetra. Naquela noite, houve um jantar da equipe, do qual acabei participando mesmo sem ter nada com isso. Já pensou se tivesse errado no corte de cabelo? Estaria escondida em casa por, pelo menos, três meses! Olha só que importância isso tem para a humanidade! 

Enfim, fomos jantar no Botín, ou mais precisamente no El Sobrino de Botín, considerado o restaurante mais antigo do mundo. Atualmente é um pouco turístico, mas como não ir a um restaurante de 300 anos funcionando no mesmo lugar? Tem que ir, né? Depois o cochinillo (nosso leitão) é ótimo! O lugar é bem grande, mas aconchegante, pois são vários ambientes pequenos, em andares e níveis diferentes, parece um labirinto de escadas. 

Nesse jantar, descobri um pouco melhor como funcionavam as gorjetas em restaurantes por essas bandas. Aqui não há um percentual da conta que você deixa de gorjeta. Ou não deixa nada, ou se for um pouco menos pão-duro, deixa umas moedas. Agora, em jantares de grupos maiores, acima de seis pessoas, quando a conta dá mais que 300 euros, é de praxe se deixar 40 euros de gorjeta. Assim, se a conta for 300 euros, deixa-se 40; se a conta for 1000 euros, deixa-se 40. Mas se você não deixar nada, o garçon não vai sair atrás de você te xingando como nos estados unidos, ok? Por outro lado, também não espere muitos sorrisos e atenção. 

Depois do Botín, saímos para caminhar um pouco na Plaza Mayor. Não me canso da Plaza Mayor, é um desses lugares que você pode ir todos os dias e sempre haverá um detalhe diferente. Não sei se todos sabem, eu pelo menos não sabia, mas boa parte das janelas que vemos da praça são de apartamentos residenciais. Em um dos dias que passamos por lá, havia uma festa animadíssima literalmente no telhado. Achei o máximo! Preciso fazer amigos ali.  

A noite foi muito agradável. Gostei das pessoas que conheci e foi bom reencontrar algumas que já conhecia. Acabamos marcando outro jantar para o dia seguinte. Fomos ao Orixe, um restaurante gallego que se tornou um dos nossos favoritos. 

O Orixe me conquistou na primeira noite que lá jantei. O maitre era muito simpático e com muito boa vontade em explicar o cardápio, coisa que não é tão comum aqui. Talvez pela falta de esperança das improváveis gorjetas. Mas continuando, pedimos um vinho de Ribera del Duero. Expliquei a ele que não conhecia os vinhos dessa região, a maior parte dos vinhos espanhóis que tive acesso até aquele momento eram os de Rioja, que chegam ao Brasil. Ele nos apresentou um dos vinhos e devo admitir que, ao provar, não percebi grandes problemas, mas a verdade é que não tinha muita referência para comparação. Antes que eu desse o segundo gole, ele voltou aflito à mesa e pediu para trocar a taça. Acredito que ao dizer que não conhecia o vinho, ele foi prová-lo logo após nos servir e notou um pouco de gosto de rolha. Voltou correndo antes que eu pudesse pensar em reclamar dizendo que não queria que eu tivesse uma impressão errada dos vinhos de Ribera. Na segunda taça, percebi que ele tinha razão, estava bem melhor! Um ótimo vinho! Achei sua atitude muito civilizada e correta, até meio patriótica. E como a comida também era ótima, me conquistou.

XI – A tal da internet

         Oi, sou Bianca e sou viciada em internet…

         Oi, Bianca! 

Olha, o dia em que for fundado o IA (internaulatras anônimos), serei a primeira a frequentar as reuniões e o diálogo acima fará parte da minha rotina. Admito, sou uma completa viciada em internet, não vivo sem ela, tenho tremedeiras, pesadelos, minha vida se torna miserável! 

Uma das primeiras coisas que tivemos que fazer ao chegar em Madri, foi procurar um local público para checar minhas mensagens. Descobri os tais centros de ocio. Adorei esse negócio de lazer ser chamado ocio! E mais ainda, adorei poder checar minhas mensagens que se acumulavam impiedosamente entulhando a caixa postal. 

A primeira vez que me interessei pela tal da internet foi, no mínimo, curioso. Logo que a rede foi viabilizada para os réles mortais, Luiz começou a me encher o saco para ter um e-mail, navegar na rede etc. Mas a verdade é que nessa época quase nenhum amigo meu tinha e-mail e ia procurar o que na rede? Ia sair visitando enciclopédia? Olha só que santa ignorância, né? 

Daí eu quis fazer um currículo novo para buscar novas oportunidades no mercado, o que no popular quer dizer: procurar outro emprego. Achei que soaria moderno colocar um e-mail nos meus dados pessoais. Assim, pela primeira vez passei a ter um endereço na internet. Como havia colocado no currículo, é claro que alguém poderia me responder por e-mail. Portanto, comecei a também checá-lo. Pronto, a partir desse momento nunca mais fui a mesma! Descobri essa janelinha que me leva onde quero e me ajuda a achar quase tudo: restaurantes, endereços, vinhos, amigos, informações, cidades, hospitais… 

Mas o principal mesmo é a comunicação. Com essa minha vida meio nômade, é a única forma garantida de me encontrarem e também a maneira mais acessível para não perder o contato com as pessoas. Não sou muito de telefone, sempre acho que estou ligando em hora errada, e quando me ligam estou sempre meio fora do ar, nunca reconheço a voz de quem ligou… sei lá, ligações telefônicas me deixam meio nervosa. Freud deve explicar! Já as mensagens escritas são perfeitas! Elas sempre serão lidas na hora que o destinatário puder e ele te responderá se quiser. 

Quando estava para me mudar do Brasil, meus pais, principalmente minha mãe, perceberam rapidamente que a internet seria valiosa para mantermos a comunicação. Luiz ensinou o “b-a-bá” e deu uma webcam para meus pais e para os dele. Com isso, eles poderiam nos ver a hora que quisessem, pois também temos uma. Definitivamente, foi uma aquisição importantíssima! Acho que o mesmo bicho que me mordeu, mordeu também minha mãe, que agora discute profundamente os detalhes técnicos do seu computador e já até fez aula de informática. 

E o poder libertador dos e-mails? Aquela piada infame, aquela foto de baixaria, aquela corrente ridícula… tudo aquilo que nunca teríamos coragem de mandar ao vivo, de repente, pela internet vira arte! É tudo permitido! Bom, permitido é uma coisa, tolerado é outra, por favor! Eu por exemplo, odeio correntes e mensagens de anjinhos em que as palavras caem letra por letra m-u-i-t-o d-e-v-a-g-a-r!

XII – Finalmente em Salamanca

No início de maio, finalmente nosso apartamento no bairro de Salamanca estava liberado! Mais uma vez, sairíamos com a casa nas costas para a nova residência. Agora ainda tínhamos mais malas, pois Luiz foi trazendo gradativamente as guardadas em seu escritório e em Paris. Cheguei a conclusão de que eu era um caracol!

A dona do imóvel nos alugou por um ano, quase se desculpando, pois é um contrato muito curto. É que talvez ela precise do apartamento para morar. Para nós, um ano era uma vida! É mais do que já morei na maior parte dos meus endereços. Esse é meu 30o (trigésimo – não foi erro de digitação). Estou com 35 anos, faço 36 em novembro. Faça as estatísticas, se quiser.

Quando criança mudava por causa dos meus pais, depois mudava em função do meu trabalho, agora pelo trabalho do Luiz. O fato é que, por um motivo ou por outro, essa era a minha vida, o meu destino. Muita gente me pergunta se não me faz falta ter raízes. Claro que eu tenho raízes! É que elas são aquáticas e vão comigo. Com o tempo você aprende que resistir é pior. Depois, nem pensa mais, vai de acordo com a maré!

E voltando ao nosso apartamento, havia muitas malas, mas não tinha móveis. A previsão é que nossa mudança chegasse em uma semana. Achamos uma previsão fantástica, pois em Atlanta esperei apenas quatro meses por isso! De qualquer forma, ainda havia uma semana para dormir… sem cama!

E lá fomos nós procurar uma cama para ontem! Na verdade, um sofá-cama que, posteriormente, ficaria para as visitas. Quando estávamos quase desistindo e nos conformando em dormir sobre o edredon, esse veio em uma das malas, descobrimos no caminho para o apartamento uma loja de móveis na mesma rua, cerca de duas quadras do imóvel. E não é que tinha o tal do sofá-cama para pronta entrega? Luiz ainda teve o disparate de perguntar se havia outra cor! Cor? A essa altura? Aquela estava ótima! Só um probleminha, não tinha quem entregasse no prazo que precisávamos. O dono, meio sem graça, mas vendo nossa necessidade, perguntou se morávamos longe dali. Quando dissemos que era quase na próxima esquina, ele se ofereceu para levar com o Luiz, se ele não se incomodasse. Se a gente se incomodava? Eu me incomodava era em dormir no chão! Saímos da loja a pé pela rua, com Luiz e o vendedor carregando o sofá-cama e eu as almofadas e o forro. Mantive a elegância! Fui andando como se estivesse fazendo a coisa mais normal do mundo. Toda vizinhança conhece nosso sofá! Que mico!

E assim foi a primeira noite em Salamanca. Com um sofá-cama, muito confortável (ou será que era o cansaço?), duas cadeiras esquecidas pela dona do apartamento e várias malas!

O telefone, a internet e a televisão ainda demorariam mais de um mês para serem instalados! Quase enlouqueci! Mas Luiz descobriu que conseguia roubar uma conexão wi-fi, lentíssima, de um vizinho distraído. Às vezes, funcionava.

Abrimos uma garrafa de vinho, nacional é claro, e sentamos no chão da sala para comer jamón. Jack corria pelo apartamento feliz da vida! Ele gostou de cara daqui. Fazia muito tempo que não o via tão alegre e à vontade. Voltou a ser nosso pateta feliz!

XIII – Chegou a mudança!

Nossa mudança veio de navio. Levou um mês para chegar, o que é um ótimo prazo! Como os primeiros apartamentos alugados eram mobiliados, ficamos sem móveis apenas por uma semana. 

Quando saímos do Brasil para Atlanta, nossa mudança demorou quatro meses para chegar! Como já tínhamos duas camas de casal e a esperança que elas chegaríam um dia, compramos uma cama inflável provisória que virava uma mala e podia ser guardada sem ocupar muito espaço. Olha, para uma visita dormir um fim-de-semana… umas duas semanas… até um mês, vá lá! Muito prático e não é tão desconfortável. Mas dormir q-u-a-t-r-o meses sobre um balão! Me poupe, ninguém merece! Não há cristão que aguente! Era assim, se eu estivesse na cama antes e o Luiz entrasse muito rápido, eu pulava do outro lado. Quando ele levantava pela manhã, eu rolava para o meio da cama. Um dia não aguentamos e dormimos no chão. Foi uma merda! Mas pelo menos variamos um pouquinho e foi mais fácil aturar a porcaria da cama inflável outra vez! 

E os móveis improvisados em Atlanta? O escritório onde Luiz trabalhava estava mudando de local e eles estavam dando ou vendendo alguns móveis a preço de banana. Óbvio que eram móveis de escritório. Arrecadamos duas mesas desmontáveis, quatro cadeiras rígidas e duas poltroninhas de recepção. Fora dois aparelhos de fax, em perfeitas condições de funcionamento, que iriam para o lixo! Um amigo sul-africano do Luiz, que passou por um calvário pior, pois já ficou nove meses esperando pela mudança, nos emprestou alguns acessórios como luminárias, espelho, aparelho de CD. O resto a gente foi improvisando com caixas. Por exemplo, compramos uma TV e a caixa de papelão da TV virou seu próprio suporte, assim, como uma mesa pós-moderna. As caixas da cafeteira e do forno elétrico se converteram nas nossas mesinhas de cabeceira. Em linguagem artística, podemos dizer que minha casa seguia uma linha de “arte povera”. Bom, uma hora os móveis chegaram e pasme, não havia nem um copinho de cristal quebrado.  

Portanto, pode acreditar que, ao saber que nossa mudança chegava em Madri após apenas um mês, eu dava pulos de alegria! Só não conseguia entender onde o caminhão ia estacionar, pois se achar uma vaguinha para carro era um parto, imagina achar umas quatro ou cinco vagas juntas para parar o tal do caminhão? E os móveis subiriam como? O elevador era mínimo e subir com tudo pela escada… imaginei o que eles iam xingar! E mais uma vez, por que não darmos uma chance ao caos? 

Muito bem, olha que incrível, alguém no governo pensa! As empresas de mudança pedem uma autorização para prefeitura, que marca as vagas na frente do endereço da entrega por um determinado prazo. Ou seja, no dia que minha mudança chegou, as vagas na frente do edifício, estavam separadas para o caminhão. Isso não evita que um ou outro engraçadinho arrisque parar por pouco tempo, antes do caminhão chegar, mas você pode chamar a polícia ou a grua (nosso reboque). 

Segundo passo, ainda não estava segura que meus móveis entrariam e como eles fariam isso. Entrou o responsável da equipe no apartamento para verificar as condições da entrega. Ele nem mediu porta ou corredor, foi direto para a janela da sala, disse que o espaço era tranquilo para passar tudo e achou ótimo. Fiz a cara 17, a de o-que-ele-está-vendo-que-eu-não-estou. O apartamento é pequeno, o elevador é mínimo, a escada é alta, o corredor é apertado, a abertura da janela é estreita e meus móveis são grandes! Mas se tem uma coisa que tenho aprendido ultimamente é ter fé! Se ele disse que era fácil… E olha que coisa linda, eles tinham uma solução! 

Em, literalmente, dois segundos eles desmontaram a janela da sala, cuja abertura ficou excelente! Encostaram um tipo de elevador elétrico portátil que ia do chão da rua até nossa janela, e subiram com todas as caixas e móveis por fora do edifício. Inclusive, foi rapidíssimo! 

Agora era moleza! Só tinha que arranjar lugar para tudo que havia nas trocentas caixas de papelão em um apartamento quase sem armários! Tudo bem vai, pelo menos ia dormir na minha caminha!

XIV – Joder… Claro… Vale

Meu espanhol de rua, aos poucos vai melhorando. Acho muito divertido o falar cantado das pessoas e presto atenção nos assuntos alheios como se fossem música. Entender é muito fácil, já falar… falo, mas fico sempre na dúvida se estou falando certo ou inventando algumas palavras. O famoso “portunhol”. 

E já que toquei no assunto música, como as músicas são cafonas! Cassilda! E todo mundo conhece as letras, canta junto, um mico compartilhado! Entretanto, depois de um tempo, o cafona é tão cafona que vira trash e me divirto! Agora também canto tudo! 

Comecei a perceber que algumas palavras são muito mais faladas que outras. Há três palavrinhas fundamentais: joder, claro e vale. Sem elas, o castellano não existe! 

Joder, pronunciado “rôder”, quer dizer “foder” mesmo! Acontece que aqui perdeu seu status de palavrão e virou uma palavra corriqueira. É mais ou menos como o “puta” do paulista ou o “porra” do carioca, se converteu em “vírgula” e ninguém mais nota seu real significado. Homens, mulheres, velhinhas, crianças… todos falam. Joder! 

Claro, é igual ao nosso. A diferença é só no sotaque, dando mais ênfase na segunda sílaba. Acredito que ele seja tão usado como o nosso “é” ou o “huhum”. Afinal de contas, se uma pessoa está falando com você, é importante frisar que você está acompanhando, claro! 

Agora, o campeão é o vale! Vale, pronunciado “bale”,  serve para tudo, é um bom-bril usado em diversas situações. Pode ser uma afirmação, exclamação ou interrogação. Funciona como: “é?”, “sim!”, “hein?”, “tem certeza?”, “ok”, “certo?” etc. Posso escrever uma página de sentidos para vale. 

Com essas três palavras, você fala espanhol como um nativo! Está em casa! Pode negar, afirmar, exclamar, perguntar… o que quiser! Vale? Claro, joder!

XV – Hombre!

O seu significado é simples, mas a forma como é usada a palabra hombre para mim é muito estranha. Hombre, ou “homem” em português, é muito utilizado na forma de gíria ou expressão para ganhar tempo ao pensar. Acredito que a tradução mais próxima seria “cara”. Mas a maneira de usar é bem mais parecida com o “ué”, ou “uai” no caso dos mineiros. 

O que acho engraçado é que tanto faz se você é homem, mulher ou que idade tenha, pois as frases começam com hombre do mesmo jeito. 

Vejo cenas hilárias, como de um pai falando com sua filhinha de uns cinco anos: Hombre! Maria que… Deu para entender que o “hombre” era a pobre da Marizinha de cinco anos, né?  

Senhorinhas também! Uma conversa com a outra, iniciando o diálogo: Hombre… E ainda por cima dão uma engrossadinha na voz para reforçar a entonação. 

Hombre, o pior é que já me escapa um ou outro quando falo! É contagioso, vale? Joder!

XVI – Minhas primeiras hóspedes

Essa mudança me deu trabalho para arrumar! Demorei mais do que o usual. Tenho muita prática e arrumo tudo em, no máximo, uma semana. Também, né? Depois de mudar tanto! Mas aqui foi um verdadeiro quebra-cabeças. Sabe cobertor curto? Que você puxa de um lado e falta do outro? 

Arrumei logo a cozinhae os quartos. O resto, empilhei no canto da sala para ir arrumando com mais calma. Além de definir a necessidade de novos armários, desde que fossem portáteis! 

Antes das caixas esfriarem, recebemos a notícia: uma amiga de São Paulo e outra de Brasília chegando na cidade! Uma coincidência, pois nem se conheciam! Beleza! Que venga el toro! A casa nova já começou animada. Avisamos que as caixas de papelão ainda estavam espalhadas, mas o quarto de hóspedes estava pronto (ou quase!). Se elas não se incomodassem… eu é que não fico mais constragida por tão pouco! Umas caixinhas de papelão aqui, uma baguncinha ali… bobagem! 

Foi ótimo! Aqui nós faremos amigos, é uma questão de tempo. Mas é que o espanhol é desconfiado, demora mais para se aproximar. Foi muito bom tê-las logo que chegamos, me ajudou a lembrar que ainda não tinha amigos aqui, mas iria acontecer.   

Acho que houve até uma certa simbologia na visita das duas. Gosto de prestar atenção nesses detalhes. Uma foi praticamente amiga de infância, coisa de mais de 20 anos atrás! A outra de São Paulo, último lugar que morei no Brasil. Esse trançado no tempo e o fato de nos encontrarmos em outro país, com vidas tão diferentes e tão próximas em alguns aspectos, parecia poesia. 

Em Atlanta não tivemos hóspedes. Na verdade, só meus pais, depois da chantagem sentimental do Luiz! Minto, pensando melhor, também houve um amigo que foi fazer uma entrevista de emprego, mas acho que ele só dormiu uma noite. Coisa rara, pois tem sempre alguém passando pela nossa casa. Mas também, convenhamos, qual o apelo turístico de Atlanta, né? Oi, gente… vamos visitar o museu da Coca-cola?! Ninguém sai do Brasil, ou de outro país, para isso! Sinto muito Coca-cola!  

Por outro lado, fizemos amigos incríveis em Atlanta! Definitivamente foi a melhor parte da nossa temporada por lá! Uma amiga em especial, que era minha companheira de cozinha, de compras e de desabafos. Com o cuidado de não desmerecer os outros, cada um com seu jeito de ser e sua própria história que tive o prazer de conhecer e aos poucos espero poder ir contando. Cantora de rap, imitador do Lombardi, admiradores do Balão Mágico, coreógrafas da Ivete Sangalo, churrasqueiros… Amigos brasileiros, americanos, mexicanos, alemães, sul-africanos… Acho que fizemos umas 35 festas de despedida! Juro! A primeira eu achei que era sério, depois, cada vez aparecia um novo passo a ser cumprido antes da nossa próxima mudança para Madri. Daí virou piada e todas as festas a gente dizia que eram de despedida. Bom, a última foi mesmo, com direito a rifa do que não conseguiríamos levar na mudança e o sacrifício de tomar quase tudo alcoólico que não caberia nas malas. 

Em São Paulo também tenho amigos muito, mas muito queridos mesmo! Animados e alto astral! Aqui conto os milagres, mas não conto os santos. Até porque, acredito que isso deixaria as pessoas com medo de vir na nossa casa e virar assunto! Podem ficar tranquilos que jamais revelarei os nomes, ok? Cada um que vista sua carapuça. Tem festeiros, caseiros, família, dorminhocos, lulus, furões, pontuais, casados, solteiros, separados, cachaceiros, afilhados, gulosos, artistas, executivos…  

Mas voltando a São Paulo e falando em festas de despedida, na nossa última, além do DJ na sala, rolou até polícia reclamando do barulho. É verdade que um certo amigo nosso que abriu a porta para o policial, quando viu do que se tratava, entrou em pânico e bateu a porta na cara do indivíduo! Como sempre, no final deu certo. Não acabou em pizza, mas em sopa. Sempre rolou a sopa do fim da noite. Ah! E esclarecendo o mistério, quem chamou a polícia foi a ex-vizinha-penetra-com-dor-de-cotovelo, assim que der, conto essa história também.

A sopa é tradição que veio do Rio. Meu querido Rio de Janeiro, afinal de contas, ainda não deu para perceber, mas para quem não me conhece, sou carioca da gema! Branquela e com sotaque misturado, afinal ninguém é perfeito! Enfim, do nosso grupo de amigos cariocas, eu e Luiz fomos os  primeiros a casar e, portanto, a ter uma casa que não era a dos nossos pais. Logo, o lugar mais provável para festas e reuniões, certo? 

Bom, me casei na ponte-aérea Rio/São Paulo, história longa que conto outra hora. Mas o fato é que, no primeiro ano de casada, eu passava a semana em São Paulo trabalhando e voltava no fim-de-semana ao Rio para encontrar o Luiz. O tempo era curto para ver todo mundo e eu adorava festas. Por isso, a melhor solução era receber os amigos em casa no sábado. Nos primeiros, a gente convidava, depois nem precisava. Lá pelas quatro da tarde o telefone começava a tocar: E aí? Vai rolar? Claro que vai!

A gente não se preocupava muito com o que oferecer, pois cada um aparecia com sua contribuição. Era engraçado ver a geladeira lotar de cerveja e ir esvaziando ao longo da noite. A partir das nove horas o pessoal começava a chegar. Rolava uns turnos, alguns chegavam mais tarde… alguns iam embora mais cedo… um queria colocar alecrim na minha sopa… Porque depois de um tempo, eu é que não ia deixar o povo bebendo a noite toda sair dirigindo para casa, né? Juízo não tenho, mas felizmente me resta um pouco de responsabilidade. Então, no fim da madrugada, fazia um sopão para dar um mínimo de sobriedade à galera! Uma coisa é certa, sempre acabava com dois cantando um rock pesado do Body Count na janela – voodoo – e duas velhinhas do prédio da frente assistindo. No início achei que elas se incomodavam, depois cheguei a conclusão que elas achavam divertido. Os outros vizinhos não deviam entender porque durante a semana era um silêncio sepulcral no apartamento, e no sábado aquela zorra! Mas nunca reclamaram, talvez se divertissem também.

Agora preciso incluir os amigos virtuais de Brasília, onde também morei mais jovem. Nesse ano de 2005, tenho a felicidade de reencontrá-los pela internet e compartilhar lembranças de infância e adolescência.

Além dos espalhados pelo mundo, que adoro um bom pretexto para encontrá-los!

Resumindo, sei que não digo o suficiente aos meus amigos – nacionais, internacionais e virtuais – o quanto eles são importantes e queridos. Mas definitivamente, minha vida seria muito chata sem eles!

XVII – Hamman

Hamman, é o conhecido banho árabe ou banho turco. Aqui em Madri tem um que adoro. É misto, você frequenta usando traje de banho e, antes que comecem as piadinhas, é super família!  

O local é formado por cisternas centenárias, reformadas com os materiais da época. São três piscinas com temperaturas diferentes e uma sauna a vapor. Além disso, se quiser pode receber uma massagem. Não são só os banhos, o ambiente é mágico, você se transporta para outra região em outra época! Como já deve ter dado para perceber, o local é um culto ao relaxamento. 

A primeira vez que fui, estava com uma hóspede em casa e marcamos com amigos no local. Claro que perdemos a hora, acordamos afobadíssimas e fomos correndo como duas loucas! Em situações de pressão, na vida ou no trabalho, sou muito eficiente, porém, uma “generala”. E ainda por cima com sono! Pode imaginar como devia estar simpática. Chegando lá, uma das amigas já estava, e seu marido com a irmã chegaram correndo esbaforidos como a gente, alguns minutos depois. Caramba! Nunca vi um relaxamento tão estressante, viu! 

Bom, mas apesar dos pesares, conseguimos chegar bem em cima da hora e entrar. Uma das regras do local é manter o silêncio. Puxa vida! Depois daquela correria, dentro de um local maravilhoso e exótico, alguém acha que é possível manter quatro mulheres mudas? Que tortura! A gente ficava catando uns cantinhos mais vazios para dar uma fofocada básica. Depois de um tempo, baixada a adrenalina, conseguimos finalmente relaxar. Infelizmente, já era hora de irmos embora. 

Pequeno detalhe, naquela pressa toda, ninguém conseguiu comer antes de ir. E assim que saímos de lá, o estômago colava nas costas. Acho que já contei aqui o que ocorre com meu humor quando estou faminta, né? Entretanto, eram quatro da tarde e essa hora os restaurantes já fecharam. Foi um custo para achar um caro e ruinzinho aberto, mas fazer o que, pelo menos matou a fome. 

Comemos setas, que são nossos cogumelos. Se pronunciam “sêtas”. Dá para imaginar o potencial de piada que isso proporciona. E aí? Comeu as sêtas? Gosta de sêtas? Posso pegar sua sêta? Enfim… aquela baixaria! Mas até que foi engraçado! É verdade que o garçon não devia entender o que de tão divertido havia em dividir um prato de setas, talvez ele tenha pensado que errou na qualidade dos cogumelos… 

Voltei ao hamman algumas vezes, sem a mesma pressa nem gaiatice. Mais relaxante, admito, mas não tão divertido!

XVIII – Pues… yo creo que estoy estupenda!

Há um comercial de TV que gosto muito. É de uma maionese light. Começa com uma moça se olhando no espelho, conversando com a amiga e dizendo algo como: Pablo disse que tenho o peito pequeno… Pablo disse que tenho um pouco de barriga… Pablo disse… de repente, ela enche o saco e diz: Pues…yo creo que estoy estupenda! E eu creio que a frase dispensa tradução. 

É um comercial normal, nada demais, mas acho que tem muito a ver com o universo feminino. Essa coisa da gente estar preocupada com a comparação, com o que o parceiro acha… e finalmente, a própria aceitação. O alívio e o prazer de acreditar: quer saber, estou ótima! Não é mais uma questão de ser ou não perfeita, mas de se sentir bem assim. 

Outro dia conversava com amigas que reclamavam que aqui na Espanha é muito difícil você levar uma cantada na rua. É uma coisa cultural, o espanhol não é um azarador! Elas diziam, talvez com outras palavras, que uma boa cantada podia recuperar seu estado de espírito. Sentiam falta disso aqui. Achei engraçado e me diverti com os comentários, mas lá no fundo fiquei pensando se não seria um pouco de carência ou insegurança da parte delas.  

A verdade é que, pessoalmente, sempre achei esse negócio de ganhar cantada na rua um saco! Fico muito sem graça e, em relação a isso, me sinto mais confortável aqui. Não sei, também acontece que sou mais preparada para uma crítica do que para um elogio. Acho uma distorção, mas é a verdade. Quando recebo um elogio, tenho vontade de me enterrar embaixo da primeira mesa; já uma crítica, posso ouvir e não dar a menor bola ou, se estiver de bom humor, até tentar entender para melhorar. 

Muito bem, sabe toda essa segurança? Foi à PQP por causa de um simples botãozinho! A porcaria do botão da calça jeans que custou a fechar! Merda… engordei! Me arrumando para levar o Jack na veterinária, tive essa infeliz constatação: minha calça estava mais apertada!  

Acho que o processo cerebral que ocorre na mulher quando ela percebe que engordou é muito parecido ao do homem quando ele quer transar. Há uma completa falta de bom senso, a gente perde a noção das coisas e não consegue ver nada em uma perspectiva razoável! Fome na África, guerra no Iraque,  corrupção no Brasil… nada disso importava: eu en-gor-dei! 

Saí do edifício com os ombros arrastando no chão, arrasada! E ia pensando comigo mesma: Merda, tô gorda! Não… sou uma gorrrrrrda! E que idéia de jirico vir com esse saltinho… gorda e de saltinho… putz! Mas eu devo tá muito ridícula mesmo! Ainda bem que é perto… 

Nisso, acho que o anjo da guarda das mulheres desesperadas cutucou um transeunte, que deu aquela parada na calçada para eu passar e me soltou algo em espanhol que poderia ser traduzido como “gostosa!”. Sério, a maneira de falar do cidadão era de uma falta de respeito comovente! Lembrei das minhas amigas reclamando da falta de cantadas! Ok, hoje e só por hoje, vou baixar a bandeira feminista um pouco.

Meus próximos passos foram absolutamente desconcertados e tive que prestar muita atenção para não dar de cara em um poste ou tropeçar. Assim que recuperei o rebolado, só uma coisa podia vir à minha mente: Pues… Yo creo que estoy estupenda! 

Fui rindo sozinha o resto do caminho. Na veterinária tem uma parede espelhada e, me olhando nela, nem me achei tão mal. Pensando bem, até que não tinha engordado tanto assim…e o saltinho, tinha lá seu charme. 

E mais uma coisinha, que eu mesma deveria escutar. Atenção meninas! Já dizia Buda, quem gosta de osso é cachorro!

XIX – O dançarino do metrô

Sou fã do Almodóvar! Gosto de tudo que ele faz. Sempre achei seus personagens de uma criatividade fantástica. Pois bem, continuo gostando dele, entretanto, já não sei mais se ele é assim tão criativo ou simplesmente sai na rua com um bloco de anotações. Sério! Sabe aquelas pessoas esquisitas dos filmes? Elas existem! Estão todas nas ruas de Madri! 

Então, aí vai a viagem de metrô mais engraçada que fiz – até agora. Infelizmente, estava sozinha e não tinha uma câmera, pois duvido que consiga reproduzir a cena em todos os seus detalhes. Almodóvar conseguiria! 

Aqui tem sempre músicos pelo metrô, boa parte fica nas estações, mas alguns entram nos vagões e, entre uma estação e outra , fazem suas apresentações-relâmpago. Nesse dia, o vagão estava razoavelmente cheio, mas não lotado. Entrou uma mocinha com uma guitarra e um aparelho de som, começou a tocar e cantar aquela música do gordinho da internet que fica dançando na frente da webcam. Bom, se não conhece qual é a música, só imagine que era uma animadinha. Sabe que até dava vontade de dançar? Mas claro que era só na imaginação. 

Imaginação para quem cara-pálida? Do outro lado do vagão, um homem dos seus 45 anos, de chapéu preto, começou a pular e dançar freneticamente com a música! Ele tinha uma voz rouca e ia cantando alto bem debochado: ai, que bom! Agora se pode dançar no metrô! E pulava… balançava o chapéu… dançava para as pessoas… 

Ninguém sabia o que fazer. A verdade é que dava vontade de ficar olhando e rindo, era contagiante, mas e o medo dele ver e resolver vir dançar com você? Começou um olhar para o outro e fazer piadinhas do tipo “E agora? A gorjeta a gente dá para quem?”. 

Na próxima parada, a menina da guitarra saiu sem nem tentar recolher seu dinheiro, acho que ela percebeu que a concorrência ali estava alta para ela!