XX – La Daniela e o bom humor de seus garçons mal humorados

Perto da minha casa tem um restaurante chamado “La Daniela”. Creio que é um dos tradicionais por aqui, bastante conhecido por seu cocido madrileño. Uma boa parte dos restaurantes, incluindo o Daniela, tem um balcão onde as pessoas comem as tapas e bebem de pé.  

Uma dica, não sei por que raios, mas todo mundo tem a mania pouco higiênica de comer e jogar (ou deixar cair) os guardanapos usados, palitos, guimbas de cigarro etc no chão mesmo. Ou seja, se quer avaliar o quanto um bar é popular, averigue o quanto o chão está sujo em volta do balcão! Se estiver muito limpinho… xiiiii… caído! 

Voltando ao caso do Daniela, na primeira vez que tentamos jantar por lá estava muito cheio e não tive o menor saco com o atendimento meio confuso e mal humorado. Fomos embora. Mas tinha ouvido falar bem da comida e Luiz estava curioso para voltar. Muito bem, para provar que não sou uma pessoa de todo rancorosa, um belo dia, tomei uma dose de paciência e me propus a encarar o desafio. 

Quando chegamos estava cheio, como sempre, e perguntamos ao gordinho do balcão se havia mesa. Ele mal olhou para nossa cara, apontou para trás e disse algo como, tem que falar ali com a minha “companheira”. A companheira chamava Lola e, por sua vez, nos disse que não tardaria muito a vagar uma mesa. Sentamos pelo balcão, enquanto esperávamos, e ficamos observando o local e as pessoas. Sei que ela chama Lola, graças a outra garçonete – uma baixinha que devia bater no meu umbigo, mas de uma voz poderosa – que berrava: Looooooolaaa… sluoxvmeo%^&ajfnvoa*f#ijoaiganfaoifñugoer! E a Lola respondia bem alto também: Pues… hombre! Laljfo#aiugal*gj%odgogoaivones! E quando eu achava que elas iam se pegar pelo cabelo e rolar no chão brigando, as duas morriam de rir! Foi quando começamos a entender como funcionava o esquema! 

Não era uma questão de mal humor, era o jeito deles se comunicarem. No fundo, eram uns debochados! Além do que, era uma zorra! Uma reclamava da outra que não escutava direito, que demorava a entregar os pedidos, o barman fumava enquanto servia as bebidas, quando algum pedido ficava pronto e o garçon não sabia para quem era, berrava o nome do prato até um cliente berrar também “é meu!”. Um caos! 

No meio daquela bagunça o que mais eu poderia pensar: caramba, mas esse lugar é ótimo! 

Finalmente, nossa mesa vagou e nos sentamos. Fomos atendidos pela baixinha invocada. Quando ela dava as costas, eu ficava de onda com Luiz, dizendo: olha, o que ela recomendar você aceita, hein! O que ela disser a gente obedece, entendido? Pois, no fim da noite ela já fazia algumas piadinhas e buscava nosso olhar de cumplicidade. 

Resumindo, com um pouco de boa vontade e respeito pela cultura local, tivemos um jantar divertidíssimo! Além da melhor tortilla espanhola de Madri!

XXI – La Tortilla Española

A tortilla española é uma instituição, uma espécie de orgulho nacional! Acho que é o “arroz-com-feijão” daqui. 

Da primeira vez que experimentamos, tanto eu quanto Luiz não achamos lá essas coisas. Muito cá entre nós, hein? Porque se algum espanhol me escutar dizer isso, é capaz de eu ser extraditada! Me pareceu um omeletão de batata meio sem graça. Com o tempo, fui pegando gosto e vendo que também depende muito se é bem feita. Atualmente, adoro! 

Receita: 

Cortar a batata em rodelas finas ou pedaços pequenos, secar e fritá-las em azeite. O azeite tem que cobrir as batatas e elas não precisam ficar morenas, mas cozidas. Adicionar cebola picada na fritura e deixar o cheiro subir (aquele cheirinho delicioso da cebola fritando no azeite…hummm).  

Em paralelo, bater os ovos, como em um omelete. Quando as batatas e a cebola estiverem no ponto, misturar rapidamente aos ovos batidos, adicionar um pouco de sal e fritar tudo, também como um omelete. Tem que fritar dos dois lados. Pessoalmente, prefiro quando o interior fica um pouco molhadinho. 

Pues… hombre! É muito bom! 

Essa combinação de ovos com batatas aqui é comum. Putz! É mortal! Mas como resistir? Falando nisso, tem também os huevos rotos, que são os ovos mexidos. Entretanto, costumam vir com batata frita no azeite e cubinhos de jamón curado. Um chute no balde! 

E os pinchos e as tostas? São torradões, o pincho do tamanho de uma bruschetta e as tostas maiores. Varia a cobertura: camarões, gulas, jamón, queijos… combinações criativas. Também perto de casa, tem um bar de copas que serve uma dessas torradas com camarõezinhos ao alho e óleo, que estou segura que um certo amigo meu,  também hóspede aqui, vai mexer na cadeira só de ouvir! 

Tem as croquetas, mas essas merecem um capítulo especial. 

Para terminar de meter o pé na jaca mesmo, só pedindo o vinho da casa para acompanhar. Ultimamente, nem me preocupo em saber a marca, pois é sempre bom. Me conformo em pedir pela região e estamos conversados. 

Bom, agora preciso ir, porque me deu uma fome…

XXII – El Corte Inglés

Para quem nunca veio a Madri, El Corte Inglés é um tipo de loja de departamentos que tem absolutamente tudo: supermercados, perfumaria, roupas, CDs, eletrônicos… tudo! E para quem já veio, é impossível que não tenha notado algum pela cidade. Eles são tantos que parecem saltar na sua frente quando você passeia. Acredito que eles se reproduzam à noite. Não tem como fugir! 

Então, se não pode com eles… por que não dar uma entradinha, né?  

Claro que perto da minha casa também tem El Corte Inglés! Na verdade, acho que perto da casa de todo mundo. Mas enfim, é onde faço a maior parte das minhas compras de supermercado. 

Sabe aqueles carrinhos de fazer compra na feira? Aqueles que normalmente são usados pelas velhinhas? Pois é, tenho um. É um pouco mais chic, porque é revestido de um material térmico. Até porque há uma variação de temperatura maior aqui que no Brasil. Continua parecendo um andador de velhinha, inclusive muitas o utilizam também com essa função. Mas não quero nem saber, carregar compras no braço não é tarefa simples e o tal do carrinho quebra o maior galho! 

Além do que, faz parte da minha “malhação” gratuita. Preciso arrumar alguma forma de gastar os milhões de calorias que a gente tem consumido. Portanto, enquanto ando, malho perna; nas escadas do metrô e me equilibrando em seus vagões, malho bumbum; com o carrinho de compras, malho braço; e por aí vai. 

Você pode optar por te entregarem as compras em casa. Se as fizer até às 14:00 horas, eles te entregam no mesmo dia. Se passar desse horário, só no dia seguinte. As compras mais pesadas, peço que me entreguem porque não tenho automóvel. 

Os entregadores fazem seu trabalho a pé, porque estacionar é um inferno! Normalmente, usam um tipo de carrinho de mão onde se empilham pequenos containers de plástico rígido. Param na calçada, em frente ao edifício do cliente, sobem com suas compras, e deixam as outras ali na calçada mesmo esperando. Assim, sozinhas! Ninguém mexe! Nunca chegou faltando nada para mim. 

O restante das compras, faço nas lojas menores e mais específicas. Nunca entre 14:00 e 17:00 horas! Não insista que isso é considerado pecado mortal! Nesse horário, quase todo o comércio está fechado para a siesta. É impressionante! Os únicos mercados que não fecham nessas horas são os administrados por orientais e, lógico, o El Corte Inglés.

XXIII – El Museo del Jamón

…se a loja do El Corte Inglés se reproduz à noite, quem será seu parceiro? Na minha opinião, só pode ser o Museo del Jamón! De vez em quando, ele dá uma escapadinha e também se relaciona com a Zara, outra espécie muito fértil! 

Numa cidade onde se cultua a boa (e calórica) comida, faz todo sentido do mundo haver um museu do presunto! O Museo del Jamón é uma cadeia de bares/restaurantes muito popular que, como o próprio nome denuncia, é especializada em jamón. Seu preço é bem razoável e sua decoração inconfundível! São vários presuntos crus espanhóis pendurados ao teto. Quando digo vários, quero dizer centenas! 

O jamón é outra instituição por aqui! O espanhol adora e come mesmo com frequência. Entretanto, não é tão barato, como muita gente imagina. É preciso entender também sua classificação e não pagar gato por lebre ao comprar. Essa classificação é extensa, mas vou falar só do básico.  

Há o jamón serrano, que é mais comum e muito bom; o jamón ibérico é de qualidade superior e, portanto, mais caro que o serrano. O ibérico é proveniente de uma raça específica de porcos, de capa negra, que possuem como característica a capacidade de acumular gordura embaixo da pele e infiltrá-la em seus músculos. Outro fator importante que os diferencia é serem criados livres no campo, e não confinados nem com alimentação forçada. Digamos assim, são porquinhos felizes.   

Ainda falando dos ibéricos, eles são subdivididos em “de recebo” ou “de bellota”. A diferença está em quanta alimentação provém exclusivamente dos pastos ou é complementada com ração. Os ibéricos de bellota possuem a alimentação mais natural e são os melhores. 

Essa questão da alimentação natural e de serem criados livres não é simplesmente ecológica. Interfere diretamente no sabor do jamón e, consequentemente, no seu preço. 

Conclusão: nesse momento, os judeus ortodoxos devem me odiar e me deu fome outra vez. Vou comer jamón!

XXIV – O dilema, não muito difícil, de não ter carro

Quando cheguei aqui, tomei uma decisão que nunca me passou pela cabeça antes. Não quero mais dirigir! Cansei. 

Há muitos anos o carro era quase uma parte do meu corpo, um prolongamento das minhas pernas e braços. Dirigir já não me dava tanta satisfação como no início, mas minha vida simplesmente foi se tornando inviável sem quatro rodas. 

Tirei carteira aos dezoito anos e uma semana. Nem fiz auto escola porque as aulas demorariam mais de um mês. Um mês quando a gente tem dezoito anos é uma eternidade para se esperar. Tive um tutor e, no próprio dia do aniversário dei entrada no processo no Detran para fazer as provas. Uma semana depois, a carteira estava na minha mão. Nessa época, morava em Brasília e o transporte público era caro e ruim.

Ainda por cima, os ônibus paravam à meia-noite. Um carro era minha independência! Ainda aos dezoito anos, voltamos a morar no Rio, onde realmente aprendi a dirigir. Eu gostava! Foi também quando comecei a viajar de carro, e era um prazer indescritível pegar a estrada. Era a minha liberdade. Cheguei até a entender um pouco de mecânica, muito importante quando seu carro é usado! 

Em São Paulo, os carros não eram tão usados e até bem confortáveis. Tinham que ser, quando você precisa passar mais de duas horas do seu dia no trânsito… Além de se adicionar a essa equação o fator “status”.  A marca do seu carro era algo fundamental até a violência crescer tanto, que as pessoas passaram a buscar os modelos mais simples para não chamar atenção. Aos poucos, fui perdendo o gosto por dirigir, mas não via outra alternativa. 

Em Atlanta então, nem se fala! É uma cidade construída para se andar de carro, muitas vezes as ruas nem tem calçada. E ainda por cima, para ter a carteira de motorista americana, tive que fazer prova de direção, teórica e prática, outra vez. O lado bom é que o trânsito não era tão ruim como o de São Paulo e o melhor ainda, não tinha motoboy! 

Enfim, quando cheguei aqui, já de saco muito cheio de dirigir, percebi que o transporte público era ótimo e as ruas razoavelmente seguras, não tive a menor dúvida: me aposentei do volante! O trânsito não é muito melhor que São Paulo e estacionar é bem mais difícil. É irritante! 

O melhor de tudo foi voltar a caminhar na rua. Engraçado que foi um prazer muito parecido ao de quando tirei minha carteira. De uma maneira antagônica, também significou independência e liberdade. Parece exagero, mas tive que reaprender a andar. Utilizar músculos que não me lembrava, proteger meus joelhos, selecionar os sapatos de forma diferente, calcular o tempo para cobrir determinada distância. Caminhando pela rua é quando vejo e penso mais. 

Por que demorei tanto a fazer algo tão fácil?

XXV – Os velhos amigos que andam de braços dados

Há muitas pessoas que caminham pela rua. Jovens, velhos, mulheres, homens, grupos, pessoas sozinhas… todo mundo! Tirando a hora da siesta, quando as calçadas se esvaziam, o resto do dia ou da noite, elas estão sempre movimentadas. 

Voltei a usar o verbo “passear”. As pessoas passeiam! Parece não ser muito importante onde estão indo, nem haver uma hora definida para chegar. Recuperou-se a sabedoria canina de aproveitar a delícia de sair de casa. 

Moro em um bairro onde as pessoas são mais velhas, aqui são chamados de “mayores”. Acho muito inteligente isso de quanto mais velho, mayor. E eles também saem para passear. 

Vejo muitos desses casais mayores passeando de braços dados. Vão com um ritmo e sincronia de quem anda junto há muito tempo. São como antigos parceiros de dança. É comum também se ver mulheres mayores andando com seus braços dados. Talvez viúvas, irmãs ou amigas. Mas o que me impressionou mesmo foi ver homens mayores com seus braços dados, normalmente com alguma dificuldade de locomoção. 

Dois homens de braços dados não é algo comum de se ver em uma cultura latina. Há um direcionamento imediato e preconceituoso ao homossexualismo. É algo difícil de se ver com naturalidade, pois por algum motivo louco isso choca. A homossexualidade não me choca e mesmo assim, não tinha em minha memória uma imagem de dois homens de braços dados com tanta naturalidade. Das vezes que vi, sempre me pareceu um pouco constrangido, provocador ou com intenção de humor. Não quero nesse momento levantar bandeiras, talvez o faça outro dia, mas hoje não. Só estou colocando a carga de pudor que existe em um gesto que é razoavelmente simples, ou que deveria ser. 

E não é só isso, acredito que também há um peso da masculinidade, onde esse gesto poderia significar assumir uma fraqueza publicamente. Ao homem foi dada a função de protetor e nunca de protegido. É difícil para meu marido me ver com frio sem me dar seu casaco, é difícil para meu pai me deixar carregar a mala mais pesada. Vai muito além de um machismo bobo, simplesmente é difícil para eles. 

Portanto, quando vejo dois homens mayores passeando de braços dados na rua, isso me emociona. É definitivo e não requer explicações! Eles colocam os pudores e preconceitos no seu devido lugar, pois há muitos anos estão acima dessas bobagens. Um homem mayor que tem um amigo para apoiar o braço e lhe ajudar a caminhar, só pode ter feito alguma coisa certa na vida. E o amigo que lhe dá esse braço sem a menor vergonha, só pode ser um homem bom. 

A vontade que me dá é de parar na calçada e fazer uma reverência, dessas que a gente faz para reis. Dois velhos amigos caminhando de braços dados é lindo!

XXVI – Aulas de Espanhol

Cansei de falar igual turista! Finalmente, resolvi e tive tempo de entrar em um curso de espanhol. Não há mais problema algum para falar na rua, mas queria fazer uma pós graduação ano que vem, e já me imaginou escrevendo textos com “nóis vai, nóis foi”! Não dá, né? 

Pesquisei e acabei optando pelo curso da Universidade Complutense, que é a maior aqui de Madri. É super bem recomendado. São todos os dias da semana, três horas por dia, de outubro a dezembro. No primeiro dia de aula, é realizado um teste para saber em que nível você está e se dividir as turmas. O limite mínimo de idade é de dezesseis anos (ui!). 

No primeiro dia, havia cerca de 150 alunos em um auditório para a abertura do curso e a divisão dos grupos a serem testados. Apavorada com o limite mínimo de idade, dei aquela olhada geral para ter uma idéia da faixa etária. Não estava tão mal. Definitivamente, a maior parte tinha mais de vinte anos. Infelizmente, não muito mais. 

Por outro lado, eu não era a mais velha. Acho que era, pelo menos, a 5a mais velha… dos 150! Tudo bem, enquanto não me chamarem de Mrs. Robinson, tá bom! 

Atrás de mim, aquela conversinha pós-adolescente: meu namorado atual… ah, nós não estamos mais juntos, mas nos tornamos grandes amigos… Putz! Ninguém merece! Como elas falavam em inglês, fiquei na esperança que fossem muito básicas e não caíssem na minha turma. Passei para o curso avançado, aparentemente, alguém acha que falo melhor do que acredito. 

No caminho de volta fui me sentindo assim, um pouco antiga. Peguei o metrô. A faculdade é longe da minha casa e não dá para ir a pé. Quando terminei de me sentar, tinha o casaco amarrado na cintura e ficou um pouco incômodo. Levantei para tirá-lo bem no momento que o metrô andou, claro! O maquinista devia estar de sacanagem só esperando para me derrubar. 

Saí catando cavaco uns três metros, até conseguir me segurar. Um senhor tentou me ajudar, quando falou mujer!. Olha, e eu achando que eles só diziam hombre!. 

Bom, me sentei outra vez e dei aquela verificada se havia me machucado, mas estava tudo ok. Foi quando percebi que ali havia uma mensagem divina! Olha que bom que eu tinha mais de trinta anos! Se eu tivesse vinte, naquele momento estaria morta de vergonha! Se houvesse um menino bonitinho no vagão, então? No dia seguinte eu mudaria meu horário ou me disfarçaria com enormes óculos escuros!  

Com trinta e cinco, eu não estava nem aí! Minha única preocupação eram meus joelhos! Pode?

XXVII – O bar da Plaza Paja

No caminho para Plaza Paja, em la latina, tem um bar que gosto muito. Ele oferece umas mesas do lado de fora, encostadas no muro de pedra da Igreja de San Izidro. Na frente das mesas há uma calçada larga por onde passa muita gente. 

Além de ir com Luiz, também levei uns dois ou três hóspedes ali. Depois de caminhar pelo centro, é um bom ponto para sentar, descansar um pouco e aproveitar o intervalo para um pipizinho básico em um banheiro limpo. Enquanto isso, fazer o que? Tomar uma cava para refrescar e, se a cozinha estiver aberta, comer umas tapas.  

Todas as vezes que vou lá, tem sempre um homem que vai de boné, óculos escuros, umas revistas e sua cachorrinha. Ele mesmo a gente não nota tanto, mas a cachorrinha faz o maior sucesso. É uma puggy muito sociável que senta na cadeira igual gente. Muitas pessoas que passam gostam de cumprimentá-la. 

Nos dias mais movimentados, há músicos que param e fazem suas apresentações. Sempre demos sorte e foi um instrumento clássico, tocando jazz ou bossa nova. Podia ser bem pior, na frente do Palácio Real, costuma ser acordeon tocando Macarena. Da última vez, tinha uma mocinha muito simpática que tocava flauta e nos apresentou uma música do maestro “xopim”. Só entendi de quem era quando iniciou “Garota de Ipanema”.  

Mas o mais interessante é olhar o pessoal passar na calçada. Também é daqueles lugares onde a gente senta um do lado do outro, olhando para rua. Ninguém quer ficar de costas. Ao Admirar as pessoas, francamente, não soube como categorizar seus estilos de se vestir. O estilo mais preciso que encontrei é o “estilo esquisito”. Como tem esquisito! Passa um mocinho com sapato azul turquesa de bico fino, mocinha com chapéu cor-de-rosa e aplique de flor, cintos metálicos localizados embaixo da bunda (tá segurando o que?), cortes de cabelos estapafúrdios… o difícil é achar alguém normal. 

Em uma das vezes, estava com Luiz e desceu um grupo de uns quinze esquisitos juntos. Assim, de uma vez só, em bando. Não tive dúvidas: Luiz, acho que aí embaixo tem uma reunião daqueles grupos de auto ajuda! Ficamos rindo e inventando nomes para a reunião do dia – “Sou esquisito, é daí?”, “Estranho, porém feliz”… Não demorou muito, desceu outro bando. Acho que era a outra sessão que iniciava em 20 minutos! 

Na hora de ir embora, depois de reparar e rir de um monte de gente, me olhei  bem e cheguei a conclusão que a esquisitinha deveria ser eu. Quem sabe se eu correresse conseguisse pegar também a próxima sessão!

XXVIII – Filho de Peixe

As pessoas quando viajam tem o costume de levar presentes ou lembranças para seus familiares. Os presentinhos de viagem variam dependendo do dinheiro, paciência ou tamanho da mala. Camisetas com o nome da cidade, bolsas de marca, miniaturas dos principais monumentos, aparelhos eletrônicos, coisas assim. 

Minha família leva comida! E o pior é que costuma ser o presente que mais agrada. 

Meus pais vieram nos visitar em outubro. Ainda no Brasil, me perguntaram o que queríamos que trouxessem. Do que sentíamos falta? Minha lista saiu rapidamente: carne seca, paio, costelinha defumada, pimenta malagueta, cachaça… Digamos, um kit-arataca. 

Não sabíamos se isso tudo passaria pela alfândega, porque oficialmente é proibido entrar com carnes no país, mas não custava tentar. Ao passarem pela saída do desembarque, a primeira frase do meu pai não foi “oi” nem “que saudade”, mas feliz da vida me disse: a feijoada passou! E eu mais feliz ainda, é claro! 

É verdade que ainda tinha carne seca no congelador. Recebo carne seca pelo Sedex! Meu pai compra no mercado embalada à vácuo e minha mãe põe no correio em Copacabana. Chega aqui em Madri na minha porta. A carne seca mais cara do mundo! Mas como me deixariam passar essa vontade? Pensando bem, acho que sou meio mimada, né? 

Bom, quando chegaram aqui, antes de mostrar o Museo do Prado e a Plaza Mayor, fui logo ensinando onde ficavam os mercados e restaurantes mais próximos. Vai que o armário e a geladeira, abarrotados de comida, não fossem o suficiente! Porque, lógico, havia comprado uma seleção de frios, queijos e comidinhas típicas. 

Comida para gente é coisa séria! Não é um ato realizado unicamente para se matar a fome. Tem um ritual de carinho, amizade, expectativa e, porque não, também uma boa dose de gula. Todos sabem cozinhar, não é uma coisa de homens ou mulheres. E gosto muito que seja assim. 

Como qualquer família, tivemos bons e maus momentos, nossos problemas também. Mas ao redor da mesa, não me lembro de nada de ruim, sempre era bom! A mesa era a Suíça da casa, território neutro. Talvez seja o motivo de até hoje eu gostar de alimentar as pessoas. É quase impossível para mim receber alguém e não oferecer comida. 

E, certamente, na volta ao Brasil, as malas também foram cheias de guloseimas: uma peça inteira de jamón (ibérico de bellota, é óbvio! O alucinante pata negra!), lomo ibérico, fuet, azeitonas com e sem anchovas, mariscos enlatados… afinal de contas, do lado de lá também havia seus amigos e meu irmão.

XXIX – Ora, pois!

Passamos um fim de semana em Portugal. Pegamos um avião para Lisboa e lá alugamos um carro para passear pelos arredores. Fomos a Caiscais, Estoril, Sintra, Queluz e Mafra. Além de passear por Lisboa mesmo. 

Fui a Lisboa quando tinha uns sete anos, no máximo. Lembrava-me de algumas coisas, mas muito pontuadas e nebulosas. Agora voltando adulta, aos poucos fui me lembrando de outras e o resto conheci como se fosse a primeira vez. A cidade me lembrou muito o Rio de Janeiro, na sua parte mais antiga, e São Paulo, na mais moderna. Natural, né? Meus destaques, daria para Castelo de São Jorge, Monastério dos Jerônimos, Torre de Belém e Docas.  

No Castelo de São Jorge, quando criança, me lembrava de perseguir algumas galinhas-da-angola. Essas não estavam mais lá, devem ter virado canja faz tempo! Dessa vez haviam pavões. 

O que achei engraçado foi a minha dificuldade com o sotaque português. É que agora estou fora do Brasil há uns dois anos e me acostumei a mudar a chave na cabeça para “idioma estrangeiro”. Quando escuto o português de Portugal, me soa como estrangeiro e, automaticamente, tenho o reflexo de falar outro idioma. É ridículo! Mas paguei o mico de ter dificuldade em falar minha própria língua! Fiz um passeio de bonde, com narração por onde passávamos. Preferi usar a opção “espanhol” e o Luiz “inglês”, ficava mais fácil!  

Claro que teve a parte gastronômica! Comemos uns camarões enfurecidos no restaurante Ribadouro, próximo à praça dos restauradores, daqueles que devem dar surra em lagostas, juro! Cada dois camarõezinhos pesavam meio kilo – e isso não é linguagem figurativa! Também aproveitamos para ir a uma churrascaria brasileira, a Búfalo Grill, ai que delícia! Aqui em Madri, comemos muito bem, mas falta uma boa churrascaria. 

Em Atlanta havia excelentes churrascarias, todas brasileiras. Eram caras e bem frequentadas. Acho que nem no Brasil comi tanta picanha na vida! Além do que, conhecemos um amigo americano que se apaixonou pelo churrasco brasileiro. Na sua casa, Luiz o ajudou a improvisar uma churrasqueira com tijolos refratários. As carnes, podíamos comprar no “Brazileirão Supermercados” ou no “Coisas do Brasil” (os nomes eram exatamente assim, e lá dentro só o gerente sabia falar inglês!).  Esse amigo apaixonado por churrasco. Mudou-se depois para Vermont. Na sua bagagem, levou várias peças de picanha congelada. Passamos um Reveillon com ele e fizemos um churrasco, abaixo de zero, no meio da neve, daqueles que precisava se colocar papel alumínio em cima das carnes. As cervejas eram enterradas no chão, também na neve, para gelar. 

Caramba, e não é que estou falando de comida outra vez! Mas já que o assunto é esse… voltando a Lisboa, quase ao lado do Jerônimos, você compra o melhor pastel de belém do mundo! Sai quentinho, uma delícia! Tem sempre fila na porta. Também, a casa foi fundada em 1837. Depois de quase 200 anos, eles tinham que aprender, né? 

Gostei muito da parte moderna da cidade, onde fica o Parque das Nações. Foi fundado um shopping, Vasco da Gama, que apesar do nome é lindo! A sua volta tem um centro de exposições, prédios modernosos, teleférico, é bem interessante.  

Domingo à noite, voltamos para Madri. Exaustos! Adorei a viagem!

XXX – Eu e Jack

Depois de ficarem conosco por duas semanas, meus pais voltaram ao Brasil. De quebra, Luiz também viajou a trabalho para Boston. Que Boston! Caramba, como a casa fica vazia de repente!  

Já é a segunda vez que tenho hóspedes que vão embora com Luiz viajando. Fico com aquela cara de bunda. Desculpe, mas não sei como descrever de forma mais educada essa expressão de nádegas! Essas coisas tem que ter regulamento! Não pode ser assim! Vamos combinar, quem vier a partir de agora está proibido de dizer que está indo embora. Diz que vai comprar cigarros e não volta, pode ser?  

Vou saber que é mentira, quase ninguém que conheço fuma! Mas, pelo menos, consigo manter minha pose. Posso fazer a cara 43 e dar aquela olhadinha distraída por cima do ombro e dizer, ok! Dá para trazer pão também? Daí vocês respondem, claro, então vou levar a mala para ajudar a trazer tudo… E dessa forma nos despedimos civilizadamente! 

Ainda bem que eu sou flamengo e tenho meu Jack, que além de gato é um cavalheiro. Faz questão de fingir que precisa da minha companhia o tempo todo. Quando a casa se esvazia ele fica elétrico, faz um monte de gaiatices e quase me derruba para correr na minha frente se embolando nos meus pés. Depois vem dormir comigo e interrompe meu sono leve com seu ronco. Ele ronca! Acordo com um rosto de gato, colado no meu, com o bigode me fazendo cosquinha e ronronando bem alto. É hora de levantar e voltar à quase-rotina.

XXXI – As traduções

Por aqui, tudo se traduz! Inclusive nomes próprios. Acho que é resquício da ditadura do Franco, quando as traduções eram obrigatórias. Mas não tenho certeza disso, simplesmente ouvi em uma entrevista na TV. 

O fato é que da primeira vez que fui a um cinema em Madri, quase tive um treco! Descobri que os filmes são sempre dublados e não legendados. Há a possibilidade de vê-los legendados também, mas só em alguns cinemas específicos. Sem brincadeira, a experiência de ver o John Travolta com sotaque cucaracho é algo inesquecível! Ainda bem que não era sotaque portenho, ou juro que subiria na cadeira e berraria: saia desse corpo!  

Foi engraçado também quando fui ao Museu do Prado e havia uma exposição temporária chamada “Durero”. Não conhecia o significado da palavra e fiquei curiosa para saber do que se tratava. Só entendi quando entrei e vi a primeira gravura: Dürer! Aqui o pobre do Albrecht Dürer, se tornou o Alberto Durero. Assim como o príncipe Carlos de Inglaterra, pai do Guilhermo. 

Agora, dose mesmo foi quando compramos nossa passagem para Bordeux e ficamos na dúvida se haviam nos vendido o bilhete correto. É que quando lemos o destino da viagem, constava “Burdeus”. Francamente, você prefere tomar um vinho de bordeux ou de burdeus? Eu acharia que era alguma falsificação paraguaia mal feita! 

Estou pensando seriamente em adotar esse esquema. Já estou quase dizendo que me chamo “Blanca”, é menos mal do que ver meu nome escrito “Vianca”. Viu a anca de quem?

XXXII – Falando em Burdeus

Temos um casal de amigos franceses que gostamos muito. A forma que nos conhecemos foi curiosa. Acompanhei Luiz a um treinamento na Inglaterra, em uma cidadezinha minúscula há mais de uma hora de Londres. Quando estava quase morrendo de tédio, resolvi gastar os últimos dias em Paris. Nesse curso do Luiz, ele fez um amigo francês e lhe contou que eu estava indo para lá. O amigo, por sua vez, também lhe disse que a esposa estava só em Paris. Eles haviam acabado de se mudar e ela ainda não tinha achado emprego. Daí o Luiz deu meu telefone celular ao seu amigo, que repassou para a esposa dele. 

Eu nunca acreditei que ela iria me ligar, mas ela ligou logo em seguida. Ficamos super amigas e saímos a semana toda. O fato curioso é que Luiz ficou amigo do marido, sem eu nunca vê-lo; e eu fiquei amiga da esposa, sem Luiz conhecê-la. Mantivemos o contato e, quase um ano depois, ficamos hospedados na casa deles por um fim de semana, quando finalmente nos conhecemos os quatro juntos! 

Bom, esse ano, essa minha amiga fez 30 anos e o marido lhe preparou uma festa surpresa. Eles agora moram em uma cidadezinha próxima a Bordeaux. Fomos convidados para festa e ficamos hospedados novamente com eles, em Marmande. 

Foi quando descobrimos que os espanhóis chamavam Bordeaux de Burdeus! 

Marmande é uma gracinha. Pequena e interessante, com algumas construções datadas do ano de 1300. 

Os donos da casa onde foi a festa eram os pais do nosso amigo. Um casal muito gentil e simpático. Nem sempre nos entendíamos no idioma, mas íamos misturando as línguas e apelando para mímicas. Funcionou! Como a temperatura estava agradável, quase todas as refeições foram servidas no jardim. Fazia tempo que não relaxava tanto. 

Aparentemente, na região é comum, quando um filho nasce, os pais comprarem uma caixa de determinado vinho e guardarem para as datas de aniversário importantes. No caso, no dia da festa, tomamos um Bordeaux 30 anos. Fantástico! 

Finalmente, estava preparada para tomá-lo e entendê-lo. A primeira vez que tomei um vinho tão antigo e importante quanto esse, não estava pronta. Foi há alguns anos atrás e meu sogro que ofereceu. Na minha ignorância, acreditava que o vinho deveria ser mais gostoso. Acontece que mais gostoso é chocolate. 

O que faz um vinho assim ser inesquecível é a falta de sabores e aromas comparáveis. Ele é único! Apesar da minha boca salivar em lembrá-lo, acho inútil descrevê-lo. Além do mais, é fundamental você se sentir especial a ponto de alguém achar que você mereça dividí-lo. Ter essa possibilidade junto com Luiz e entre amigos, não tem preço!

XXXIII – Cidadã do Mundo

Hoje no curso de espanhol, um dos temas a serem discutidos foi “esteriótipos de cada nacionalidade”. Além de treinar o idioma, também foi uma forma de conhecer um pouco de cada cultura. Sou a única brasileira de aproximadamente vinte pessoas.

Discutimos em grupos de três, depois cada um apresentou para turma um pouco sobre seu país. Ao final, foi a vez da professora falar da cultura espanhola. Independente do que foi dito, percebi em todos um certo orgulho em expôr seu país de origem e uma facilidade em se encaixar no perfil exposto. Havia uma identidade muito clara em cada um deles. Menos em mim.

Fui a última a falar, mesmo assim, sem querer muito, é porque não tinha jeito. Fiz meu teatrinho e ressaltei as coisas boas. Na hora, achei que estava com um pouco de preguiça, o que justificaria a falta de boa vontade.

Mas não pude notar que, quando a tal professora expunha os pontos positivos na cultura espanhola – coisas que eu concordava absolutamente – me incomodava. Eu concordava com tudo, muitas vezes me ouvi contando os mesmos tópicos; então porque me incomodava tanto ouvir de outra boca? E as outras bocas de outros países também me incomodaram.

No caminho do metrô, não achei graça nas figuras caricatas dos passageiros. Hoje eles me pareciam pobres, meio sujos, antipáticos. Mas eram os mesmo. Eu que não era a mesma.

Hoje eu conheci a inveja e me envergonho disso.

Não posso dizer que nunca invejei ninguém, mas nunca assim. Tenho muitos defeitos, mas esse sentimento não pertence a minha natureza. Eu invejo uma amiga que fez alguma coisa que também queria fazer. Quando a gente diz: Ai, que inveja! A chamada inveja boa. No fundo, estou feliz por ela, mas gostaria de compartilhar a experiência. Eu invejo aquela modelo lindíssima que diz que só come besteira, e quando perguntam porque ela é tão magra, ela responde irritantemente simpática que é seu metabolismo. Ai, que inveja!

Mas hoje não foi essa que eu senti.

Fui chamada muitas vezes, de brincadeira ou não, de cidadã do mundo. Eu gostava disso. Essa sensação de internacionalidade me caía bem. Mas hoje me pareceu que um cidadão do mundo pode ser um cidadão de lugar nenhum. Minha nacionalidade eu sei bem, e ainda me orgulho dela, mas não sei mais qual a minha identidade. Não é de agora, mas só hoje me incomodou.

Eu tive inveja de quem morou a vida toda em uma cidade, de quem mora na mesma rua da família, de quem cresceu com um amigo de infância, de quem lembra da sua cama quando tinha dez anos, de quem tem um lugar dos sonhos para colocar a casa desejada, de quem já construiu essa casa, de quem teve filhos porque parecia natural, de quem não percebeu que a parede precisa de pintura, de quem não precisa explicar qual é a sua profissão, de quem fala uma só língua, de quem tem um sotaque que todos reconhecem e de quem tem um livro favorito. Amanhã não me importará mais, mas hoje, e só hoje, eu me incomodei muito com isso.

Hoje eu aprendi a inveja, estou gris e fiquei com vergonha.

XXXIV – Sai pra lá uruca!

Tenho um limite máximo de três dias para ficar muito triste ou aborrecida. Depois disso, me cansa! Das duas uma, entubo ou tomo uma atitude. Nesse caso (raro), resolvi entubar!

 

Tá bom, posso não ter mais uma identidade muito clara, mas pensando bem, faz parte do brasileiro essa capacidade de se adaptar a novas influências e de mesclar culturas diferentes. Nesse sentido, posso dizer que mantenho alguma identidade, certo? Também se não for, que se dane! Tudo na vida tem um preço, fazer o que?

 

Acho que foi o faxinão que fiz hoje em casa. Aqui não temos empregada. Nada como uma boa faxina para colocar as coisas sob perspectiva, não é mesmo? Parece aquelas frases machistas do tipo “vai lavar um tanque de roupa suja!”. Mas juro que não é esse o espírito da coisa.

 

Falando em faxina, desde que mudei para Atlanta, sou eu que faço a limpeza da casa, com alguma ajuda do Luiz, se possível. A diária de uma faxineira nos EUA, para um apartamento, estava por volta de US$ 80; aqui em Madri, por volta de E$ 40. Obviamente, realizada por imigrantes sul americanas. Lembrando que essa diária é por três horinhas de trabalho e só inclui limpeza. Nem pensar em passar uma roupinha ou limpar um vidrinho!

 

Cheguei a conclusão que não me adiantaria tanto e resolvi cuidar disso eu mesma. Aliás, como a maioria das pessoas faz. Não é só uma questão de dinheiro, é que parece estranho alguém de fora cuidando da sua casa. Entendo isso melhor agora.

 

Por outro lado, as coisas são mais práticas. Além do apartamento ser menor, os produtos são bons e há todo tipo de paninhos de limpeza descartáveis. Aqui não existe ralo, não se pode lavar um banheiro ou uma cozinha porque não há por onde escorrer a água. Se eu jogar um balde de água no chão da cozinha, vaza lá embaixo na cabeça do vizinho! Também não tem tanque. Isso quer dizer que se eu precisar lavar um pano de chão, posso escolher entre a pia do banheiro ou a pia da cozinha! Eca! Nojenta do jeito que eu sou, uso tudo descartável.

 

Lembrei de uma história, uma vez, brincando com esse negócio que eu faço a faxina, escrevi em uma mensagem para amigos dizendo que a faxineira aqui em casa é universitária e dorme com o patrão. Um dos amigos não entendeu e nos achou muito modernos! A minha piada, em si, era até meio sem graça. Mas ter que explicá-la para ele foi hilário!

 

Outro hábito que adquirimos foi o de tirar os sapatos ao entrar em casa, normalmente, pedimos aos hóspedes que também os tire. As visitas, a gente deixa meio opcional, algumas pessoas ficam desconfortáveis e não é nosso objetivo, por isso não insistimos. Mas é que o Jack – e batatinha quando nasce – se esparrama pelo chão, e depois sobe na nossa cama e no sofá branco. A casa fica mais limpa também quando tiramos os sapatos, facilita minha vida. Adoro a casa arrumada, com cheiro bom de incenso. Pronto! Casa limpa, sai pra lá uruca! 

XXXV – O Mariuzin de Madri

No Rio de Janeiro havia uma casa noturna que foi uma das melhores que conheci, o Mariuzin. Ainda existe, mas mudou de lugar e de frequência. O novo não conheço. O antigo lugar devia ter, no máximo, uns 30 m2. Vermelho com espelhos, num estilo cabaret francês. Na porta, uma senhora de seus 70 anos, de vestido de veludo negro e maquiagem carregada recebia as pessoas. Tenho certeza que ela foi a musa inspiradora do Toulouse-Lautrec! O público do lugar era o mais variado e democrático possível: jornalistas, patricinhas, intelectuais, prostitutas, estudantes, executivos… e tudo mais que você possa imaginar. Mas por algum motivo, ao passarem pela porta, eram todos muito civilizados. Nunca vi uma briga, nunca faltou respeito e nunca ouvi uma música ruim! 

Finalmente, achei algo parecido por aqui, chama-se Berlin Cabaret, fica em La Latina. Uma amiga de Barcelona me apresentou o lugar. Tem um jeitão de Mariuzin, só que maior. Também é vermelho com espelhos. Ao longo da noite, são feitas apresentações por travestis ou drag queens. 

No meio da pista de dança tem um pequeno palco redondo móvel da onde surge uma figura cantando, dançando e fazendo piadinhas com as pessoas. A drag de hoje, vestia um vestidinho vermelho curto e meia arrastão. Uma peruca loira estranha e uns olhos incomensuráveis! Alguém lembra no filme Blade Runner, de uma loira com o cabelo espetado que era uma das robôs? Pois é, parecia com ela, em uma versão mais corpulenta e andrógena. Imagina essa figura surgindo no meio do gelo seco imitando a Lisa Minelli! É surreal, concorda? 

As apresentações são curtas e divertidas, e depois volta o som eletrônico. As músicas excelentes! Isso sim é difícil! Até já relaxei e passei a curtir as músicas cafoninhas da cidade, mas não é nada mal ouvir música boa para dançar de vez em quando. Será que é o mesmo DJ do Mariuzin? 

XXXVI – Nossa comunidade

Quero falar das pessoas do meu prédio. Oficialmente, só conheço o porteiro, mas fico prestando atenção em tudo. Não sei se deveria contar isso, pois parece coisa de matilde fofoqueira, mas vá lá. Digamos que observe antropologicamente falando, assim, como se fosse um estudo científico. Vale? 

Acredito que deva começar pelo porteiro, um espanhol mais alto que a média, de seus 45 anos, com a voz bem grossa e rosto sério. A parte engraçada é que não dá para entender chongas do que ele fala! E não sou só eu não, Luiz que fala fluentemente também não entende boa parte. Cheguei a conclusão que isso é mundial: porteiros falam enrolado e ponto! Nesse sentido, posso dizer que aqui me sinto em casa. Não entendia meu porteiro no Rio nem São Paulo e também não entendo em Madri. Mesmo assim, me arrisco e puxo papo com ele. No início ele ficava meio desconfiado e sem graça, aos poucos vai ficando mais simpático. Com meus pais até conversou. Apesar do que, minha mãe também não entendia nada do que ele falava. Ela sempre descia de escada e nós de elevador, por isso ela descia antes e o porteiro conversava com ela para fazer companhia. Segundo minha mãe, de cinco minutos que ele ficou falando, ela só entendeu a palavra “marido”. Mas na dúvida, ela sorriu e concordou com tudo. Espero que ele estivesse perguntando pelo meu pai e não lhe propondo em casamento! 

É um bom porteiro. Aqui os prédios não tem muitos funcionários. O nosso só tem ele e já é considerado luxo. Fica na portaria na parte da manhã, até às 13:00 horas,  e depois volta de 18:00 às 20:00 horas, quando também aproveita para recolher o lixo. É normal nos prédios os próprios moradores descerem com seu lixo no fim do dia, costuma ter um horário limitado para isso. Aqui, só precisamos por na frente da porta por volta das sete da noite e o porteiro recolhe. De novo, é considerado um luxo. As garrafas e o papelão a gente separa e leva na esquina, onde há containers para lixo reciclável. 

A portaria é só a porta do prédio mesmo. Não tem esse negócio de grades por aqui. Muitas vezes a porta fica aberta sem ninguém. É normal, vejo isso em muitos prédios. 

Meus vizinhos são mayores. O mais novinho tem uns 80 anos! Meu vizinho de andar é o velho-cuco. A porta do apartamento dele é bem de frente para o elevador. Quase todas as vezes que aperto o botão do elevador, ele abre sua porta e põe o rosto para fora, igual a um cuco! Daí falo bom dia, ele responde, vira para trás, finge que alguém o chamou e fecha a porta outra vez. Totalmente pancada! 

Tenho uma vizinha que faz peixe frito todos os dias, literalmente! Outra que não sabe fazer torrada, sempre queima o pão. Poucos fazem carne de boi. Todos cozinham com azeite e muito alho, o que é quase uma regra por aqui. Sei pelos cheiros que sobem na janela. 

Tem outro casal que possui um gato persa branco lindo. Não tenho certeza se é gato ou gata, mas pelo tamanho, acho que é macho. Me dá um pouco de nervoso porque eles deixam a janela aberta sem proteção. Tenho medo de brincar com ele e fazê-lo cair. Mas não resisto a cumprimentá-lo e ele já me conhece. Falo baixinho da minha janela: oi, gato emprestado! E ele me escuta, vira na hora para mim. Eles têm uma audição fenomenal. Tentei mostrar o Jack uma vez, mas o meu gordo deu o maior pulo para trás, não gostou muito da história. O gato emprestado nem ligou ou dissimulou. 

Definitivamente, há um surdo que escuta a TV em alturas absurdas! Sempre tem alguém que reclama na janela, daí ele abaixa. Até o Luiz mesmo já reclamou. Agora, faz um bom tempo que não o tenho escutado mais. Não sei se é porque o frio começou e as janelas estão fechadas, ou se pela idade das pessoas… mór-reu! Credo! Aqui no prédio uma se foi, fiquei com pena, mas não sei quem era. Soube da história porque colocaram um convite para missa em sua memória no elevador. E não é que o elevador começou a pifar sem parar! Parece filme de terror! Eu, hein! Será que temos direito ao nosso próprio fantasma? 

Tem outro surdo (ou será o mesmo) que deixa o despertador tocando horas! Um saco e em horários estapafúrdios. 

Também rola o casal baixaria. Para ser sincera, não sei se é um casal ou mãe e filho. Devem ter aprendido espanhol com meu porteiro, não se entende muito. Eles normalmente escolhem os domingos que tenho hóspedes para dar escândalo. Ultimamente, se quietaram. Vai ver que, também pela chegada do frio, resolveram fazer as pazes. 

Há uma cantora lírica e todos nós escutamos seus exercícios diários. Por sorte, é uma voz bonita e ela não costuma treinar em horários impróprios. Mesmo assim, às vezes, eu e Luiz a copiamos de casa imitando sua voz de ópera. 

Dos outros, não escuto nada. Umas risadas, um cheiro de comida, um barulho de chaves, passos de salto… nada comprometedor. Parecem normais, sempre educados. De um modo geral, aqui é tranquilo. Vamos ver quando eu der a primeira festa! 

Escuto isso tudo, porque os prédios normalmente tem uma área de ventilação interna, onde se estendem as roupas. O som sobe por ali e todo mundo sabe da sua vida. Ainda não me acostumei com esse negócio de estender as roupas do lado de fora. Sei lá, tem coisas meio íntimas, né? Fico constrangida em estender minhas calcinhas assim em público, puxa! Tudo bem que é um pátio interno, mas mesmo assim, da mesma maneira que vejo as coisas dos vizinhos, eles não são cegos! Apesar do que, acho que ninguém liga, só eu. De qualquer forma, comprei um tendedor de armar dentro de casa. Se não tenho visitas, uso o banheiro social como área de serviço e fico mais tranquila. 

Só mais uma fofoquinha. Outro dia, na corda de estender roupa havia um sutiã incomensurável! Parecia um pára-quedas! Sério, era assustador! Preto com estamparia cafonérrima colorida! Se já era difícil acreditar que alguém podia comprar aquela peça, imagina alguém que a utilizava! Visualizar essa cena quase comprometeu minha vida sexual para sempre! Devia ser proibido como atentado violento ao pudor! Será que é da vizinha que frita peixe ou da que faz torrada queimada? 

XXXVII – Luiz perdeu todos os documentos

Meu quarto é muito escuro de manhã. Como se não bastasse minha dificuldade natural em acordar, pois troco a manhã pela noite. Raramente, durmo antes das três e acordo antes das dez. Na prática, depois que passei a trabalhar por conta própria, não faz tanta diferença, simplesmente vivo em outro fuso. 

Mas estava eu naquele soninho bom de manhã cedo, quarto escurinho… e toca o telefone! Se não fosse engano, muito raro de acontecer, só podia ser o Luiz. E a essa hora? Só podia ser encrenca! Pois não deu em outra! Era o Luiz desesperado porque esqueceu sua carteira no taxi com todos os documentos. Se perder sua carteira em seu país já é complicado, perder em outro é multiplicar a encheção de saco por dez!  

Perdeu de uma só vez todos os cartões de crédito (o que era a parte mais fácil), sua carteira de motorista americana (a única que ele tem no momento) e o documento de identidade da espanha (o tal do NIE que levou meses para ficar pronto). Pequeno detalhe, meus pais chegando no fim de semana e a gente querendo sair, viajar, alugar carro etc.  

Ele estava tão angustiado que nem tive coragem de reclamar! Notou a mancada assim que saltou do taxi, mas não a tempo de conseguir ser ouvido. Ficou pulando de raiva sozinho na rua. Posso imaginar a cena. 

Nossa esperança era que no NIE do Luiz constava o endereço de casa e quem sabe o motorista tivesse a alma boa de nos devolver a carteira. 

Fiquei tentando pensar o que podia fazer para ajudar, enquanto tomava um café. O interfone tocou. Nem acreditei! Será que seria resolvido assim tão rápido? Atendi, mas nada a ver com a carteira, e sim com o carteiro. Era o correio, uma encomenda para mim. Parecia até filme de suspense, viu! 

Fui até o ponto onde Luiz pegou o taxi pela manhã para ver se dava sorte, mas ninguém sabia de nada. Além do mais, não é um ponto oficial e sim um local onde os taxis costumam parar para esperar clientes aleatoriamente. A boa notícia é que todos me informaram a respeito de um “objetos perdidos” e me deram o endereço. Disseram-me que era melhor esperar uns dois dias, para dar tempo de entregarem a carteira por lá. 

Na volta, conversei com meu porteiro, contei a história toda e avisei que podia aparecer um motorista de taxi nos procurando e tal. Ele também ficou alerta e todos nós na torcida pelos documentos. 

E não é que por volta das 13:00 horas, nem tinha saído para a aula ainda, me aparece o motorista com a carteira do Luiz e TODOS os documentos e cartões de crédito! É verdade que o dinheiro sumiu e não era pouco, mas era o menor dos problemas. Não dá para saber se foi o motorista ou algum cliente espertinho. Prefiro pensar que foi distribuição de renda. Alguém precisava mais que nós! E que faça bom proveito! 

Liguei correndo para o Luiz, que ficou muito aliviado. Até ouvi uma ou outra voz no fundo da ligação perguntando algo como “achou?”. Ou seja,  todo mundo no trabalho já devia saber da história. Deve ter sido uma manhã muito produtiva! 

Enfim, tudo bem quando acaba bem! 

XXXVIII – Aula de dança flamenca

O curso de espanhol que estou fazendo oferece uma série de atividades culturais complementares. As aulas são obrigatórias e vão de 15:00 às 18:00 horas. Depois disso, há uma parte opcional, onde são oferecidas palestras sobre filosofia ou arte espanhola, filmes e aulas de dança flamenca. Acho interessante essa preocupação cultural que vai além da língua. 

Nas primeiras semanas, não consegui fazer nada além das aulas de idioma. Não tive tempo e depois tive visitas. Enfim, essa semana resolvi correr atrás do prejuízo. Estava muito interessada na aula de dança flamenca, mas não sabia se conseguiria frequentá-la. As vagas são limitadas e havia perdido umas três aulas. Como um “não” eu já tinha, resolvi perguntar se poderia assisti a tal aula. Dei sorte, hoje faltou gente e me encaixei.  

Fiquei um pouco apreensiva no início porque não sabia o nível da turma e se havia perdido o bonde. Por outro lado, o fato de ser latina e gostar de uma boa farra, me dá uma certa segurança nesse tipo de situação. Além do mais, frequentávamos alguns bares onde se dança um pouco de flamenco-pop, se é que esse termo existe, e eu tentava imitar os ciganos dançando. Afinal de contas, se rio das pessoas, preciso dar-lhes a chance de rirem um pouco de mim também, né? É justo! 

Não destoei da turma, mas não dei nenhum show, viu? O fato é que, enquanto a dança está nos pés e nos quadris, me viro bem. O problema são mãos e braços. Não sei dançar com mãos e braços! A expressão “não consegue andar e mascar chiclete ao mesmo tempo” nunca me fez tanto sentido! Já vi que vou ficar igual a uma maluca pela casa com as mãos de carmem-miranda-alucinada. Mas uma hora vou aprender! 

Pelo menos hoje entendi o compasso da batida: 1,2…123, 456, 78910. Também descobri que existe um “palmeiro” oficial. Ou seja, há gente especializada em bater palmas em ritmo flamenco! As palmas até que bati direitinho, tem jeito para batê-las, sabia? Posição das mãos, intensidade, altura do som… não é à toa que há o palmeiro! 

Será que conseguirei assistir as aulas novamente na semana que vem? 

XXXIX – Cigarros

Cacete! Como se fuma aqui! E se me achou mal educada, queria ver cheirar essa porcaria todos os dias! Chego a ter um tipo de ressaca de cigarro nos dias seguintes que saio à noite, e nem fumo! 

Quer dizer, cigarros normais não fumo e odeio! Charutos, fumo de vez em quando, mesmo assim, apenas se não há ninguém comendo por perto e em áreas arejadas. Por outro lado, ficar ao lado de quem fuma charuto, sem fumá-los é a morte lenta e dolorosa. 

Estou mais tolerante. Fiz um trabalho psicológico antes de mudar para não me estressar muito. Afinal de contas, se for radical, aqui não terei amigos. Todo mundo fuma em Madri! 

Não sou contra fumantes, mas acho que um pouco de civilidade e respeito ajudaria muito. Se estamos em um bar, é complicado separar os ambientes, e entendo que seja difícil para os fumantes evitarem os cigarros enquanto bebam. Mas em restaurantes é o fim da picada! Atrapalha muito o paladar. 

Em toda Europa é assim, mas nem sempre pelos mesmos motivos. Aqui há um resquício pós-franquista, a coisa da “movida madrileña”, que não sei se posso explicar em poucas palavras. A ditadura na Espanha foi coisa séria, deixou a do Brasil parecendo brincadeirinha de criança. Quando acabou, houve uma explosão de agora-faço-o-que-quero. Depois disso, qualquer tentativa de ordenar ou se criar alguma regra, soa como autoritarismo. Na cabeça deles não é só uma “coisa de americanos”, como acreditava antes de chegar, e sim um início de regular o que eles devem ou não fazer.  

Aos poucos, mas muito aos poucos mesmo, há algum progresso nesse sentido. Já existe uma meia dúzia de restaurantes onde há espaço para fumantes e não fumantes. Acredite, já é um grande avanço!