XXXIII – Cidadã do Mundo

Hoje no curso de espanhol, um dos temas a serem discutidos foi “esteriótipos de cada nacionalidade”. Além de treinar o idioma, também foi uma forma de conhecer um pouco de cada cultura. Sou a única brasileira de aproximadamente vinte pessoas.

Discutimos em grupos de três, depois cada um apresentou para turma um pouco sobre seu país. Ao final, foi a vez da professora falar da cultura espanhola. Independente do que foi dito, percebi em todos um certo orgulho em expôr seu país de origem e uma facilidade em se encaixar no perfil exposto. Havia uma identidade muito clara em cada um deles. Menos em mim.

Fui a última a falar, mesmo assim, sem querer muito, é porque não tinha jeito. Fiz meu teatrinho e ressaltei as coisas boas. Na hora, achei que estava com um pouco de preguiça, o que justificaria a falta de boa vontade.

Mas não pude notar que, quando a tal professora expunha os pontos positivos na cultura espanhola – coisas que eu concordava absolutamente – me incomodava. Eu concordava com tudo, muitas vezes me ouvi contando os mesmos tópicos; então porque me incomodava tanto ouvir de outra boca? E as outras bocas de outros países também me incomodaram.

No caminho do metrô, não achei graça nas figuras caricatas dos passageiros. Hoje eles me pareciam pobres, meio sujos, antipáticos. Mas eram os mesmo. Eu que não era a mesma.

Hoje eu conheci a inveja e me envergonho disso.

Não posso dizer que nunca invejei ninguém, mas nunca assim. Tenho muitos defeitos, mas esse sentimento não pertence a minha natureza. Eu invejo uma amiga que fez alguma coisa que também queria fazer. Quando a gente diz: Ai, que inveja! A chamada inveja boa. No fundo, estou feliz por ela, mas gostaria de compartilhar a experiência. Eu invejo aquela modelo lindíssima que diz que só come besteira, e quando perguntam porque ela é tão magra, ela responde irritantemente simpática que é seu metabolismo. Ai, que inveja!

Mas hoje não foi essa que eu senti.

Fui chamada muitas vezes, de brincadeira ou não, de cidadã do mundo. Eu gostava disso. Essa sensação de internacionalidade me caía bem. Mas hoje me pareceu que um cidadão do mundo pode ser um cidadão de lugar nenhum. Minha nacionalidade eu sei bem, e ainda me orgulho dela, mas não sei mais qual a minha identidade. Não é de agora, mas só hoje me incomodou.

Eu tive inveja de quem morou a vida toda em uma cidade, de quem mora na mesma rua da família, de quem cresceu com um amigo de infância, de quem lembra da sua cama quando tinha dez anos, de quem tem um lugar dos sonhos para colocar a casa desejada, de quem já construiu essa casa, de quem teve filhos porque parecia natural, de quem não percebeu que a parede precisa de pintura, de quem não precisa explicar qual é a sua profissão, de quem fala uma só língua, de quem tem um sotaque que todos reconhecem e de quem tem um livro favorito. Amanhã não me importará mais, mas hoje, e só hoje, eu me incomodei muito com isso.

Hoje eu aprendi a inveja, estou gris e fiquei com vergonha.

Uma consideração sobre “XXXIII – Cidadã do Mundo”

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