A Quinta do Vianna

Tudo começou há uns dois anos, quando fomos passar Natal de 2019 com nossos primos em Portugal, eles haviam se mudado recentemente para Braga. Na realidade, ela é a minha prima de verdade, mas está casada há séculos, assim como eu, e nossos maridos também se dão muito bem, de maneira que nos chamamos todos de “primos” e facilitamos a história!

Até aquele momento, meu plano com Luiz era de nos aposentar em Madri, por milhões de motivos que nem vou entrar em todos os detalhes agora, mas entre eles, o fato de termos muitos amigos que consideramos nossa família extendida.

Enfim, a estadia na casa dos primos durante o Natal fez a gente repensar essa questão da aposentadoria e de onde morar. Francamente, acredito que, quando somos adultos, nós mesmos elegemos a nossa família em função da afinidade. Acontece que quando essa afinidade bate e ainda por cima existe o real grau de parentesco… o sangue fala alto e pesa na decisão. E pesou!

Saí de lá revendo meus paradígmas e avaliando: por que não Portugal? Não seria bacana poder envelhecer perto de quem a gente conhece e gosta? Além do que, minha mãe e a mãe da minha prima são super unidas. Se algum dia elas precisarem morar conosco, facilitaria muito estarmos próximas e em um lugar onde ambas falem o idioma.

E assim, tudo começou, a ideia estava plantada na minha cabeça! Mas… será que Luiz toparia? Pois conversamos e ele achou válido analisar a possibilidade.

Em termos financeiros, o custo dos imóveis em Portugal é muito mais atraente! Principalmente, porque não estávamos interessados em Lisboa. Queríamos algo na região do Porto, de preferência, Braga e arredores. Chegamos a quase fazer uma proposta em um uma casa na mesma rua da minha prima, mas não deu certo.

A essa altura do campeonado, Bianquita já havia aberto o leque e começado a investigar outras possibilidades na região. Comecei a vasculhar websites de busca a propriedades e a história de ter uma quinta, foi ganhando espaço na minha imaginação.

Quinta é um terreno, como um sítio, por exemplo. Esses terrenos são chamados “artigos”. Cada artigo pode ser rústico (plantação), urbano (casa/construção) ou de natureza mista (parte plantação e parte construção). Eu queria uma quinta de natureza mista, onde eu pudesse morar e cultivar a terra.

Cada vez mais, me interessava um lugar onde eu pudesse plantar, produzir minha própria energia, hospedar pessoas, organizar eventos, ter um pequeno restaurante… enfim, uma propriedade autossustentável, com uma gama de possibilidades.

Só tinha um pequeno detalhe, eu nunca tive a menor experiência agrícola na vida! Não entendo chongas de terra! Sou urbana até os ossos! O que vou fazer no meio de Portugal profunda e rural?

Ah, mas o Luiz entende do assunto, certo?

… claro que não! Acho que talvez menos que eu! A ideia maluca foi mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa!

Luiz sabia que eu vinha buscando oportunidades por terras lusitanas, mas nem imaginava o tamanho da encrenca! Honestamente, nem foi algo que saiu inteiro planejado no mesmo dia, a ideia foi desenvolvida aos poucos. Não sou uma pessoa que tem sonhos, nem sei se isso é uma coisa boa ou não. Mas outro dia, li algo como “não tenho sonhos, tenho planos”, e me senti totalmente identificada. Não sonho, eu planejo e faço. E, apesar de só poder falar por mim, acho que Luiz também é assim.

Até que por meados de 2020, compartilhei o pensamento com Luiz. Por sua vez, me olhou num primeiro momento como quem olha para um ET! Mas alguns segundos depois, senti que avaliava seriamente a possibilidade. No fundo, sabia que ele tinha gostado. Provavelmente, mais por mim do que por ele, mas a ordem dos fatores nem sempre altera o produto. Dei o tempo dele amadurecer a ideia, mesmo porque, não havia pressa.

Estávamos em pleno início de pandemia do COVID, há uns 3 meses fechados em casa e, não tenho a menor dúvida, que essa situação teve grande influência nas nossas decisões. Como todos, no princípio quase enlouqueci, mas encontrei meu caminho, com muita meditação e muito canto de mantras! Percebi que meu corpo é a única casa que posso controlar e que levo comigo para onde for. Nada mais parecia me assustar. Por quantas mudanças nós já passamos? Quantas vezes nos reconstruímos? E por que não? Além do que, nós dois somos um time e tanto!

Luiz não só comprou a ideia, como adicionou e incorporou de tal maneira que hoje posso dizer que o plano é nosso! Óbvio que ele profissionalizou a história… me pediu para fazer “business plan“… foi buscar investidores… e eu pensando, caracas, o povo ali nem endereço definido tem! Cada vez que você pergunta onde alguém mora ou onde encontrar é algo como: duas ruas depois da igreja… à direita da casa rosa antes da praça… na bomba de gasolina…

O que importa é que estava decidido! Era nosso novo plano e parecia bastante interessante! Um lugar para vivermos nossa pré-aposentadoria, que nos proporcionasse algum tipo de renda e boa qualidade de vida. Eu cuidaria nos primeiros anos, enquanto Luiz manteria seu emprego e garantia as contas pagas. Ficaríamos nessa ponte-aérea até que pudéssemos fazer uma transição definitiva, no que é possível chamarmos algo de definitivo na nossa vida!

Perfeito! Tudo muito bom, tudo muito bem… mas como a gente coloca isso em prática? Porque como disse, estávamos em plena pandemia e as viagens eram super complicadas, às vezes nem eram possíveis!

Entretanto, acho que por volta de junho, conseguimos marcar uma semana em Portugal, hospedados na casa dos primos. Explicamos tudo a eles, que adoraram saber que teriam companhia muito em breve e se propuseram a ajudar no que pudessem. Aliás, apoio fundamental, como já contarei!

Com a viagem marcada, selecionei pela internet as propriedades que nos interessavam e entrei em contato com os corretores. A intenção era ter todas as visitas agendadas e não perder tempo, afinal, sabe-se lá quando poderíamos viajar novamente!

A primeira Quinta que nos interessou, ficava em Vila Marim, muito próxima a Mesão Frio, com uma vista do Rio Douro de impressionar! Era a favorita do Luiz, mas quando entrei em contato com a corretora, ela já estava sendo negociada e por um preço acima do que nós poderíamos pagar naquele momento. Paciência! Se não é essa, outra será!

Viajamos para Portugal e passamos uma semana ótima e super produtiva! Além da delícia de ver a família, sair um pouco, mudar a rotina… fomos visitar várias propriedades com os primos! Chegamos a fazer proposta em uma delas e marcar assinatura do compromisso de compra e venda… mas o proprietário amarelou na hora de assinar o contrato! Putz, ninguém merece!

Mas também não sofremos! Nessa minha nova fase de vida, penso logo em Ganesha me colocando os obstáculos corretos pelo caminho. O que é nosso viria e pronto!

Tivemos que voltar para Inglaterra, quando nos esperava uma mudança de endereço, uma complicação danada que nem vem ao caso aqui, mas o fato é que só pude pensar em voltar para Portugal pelo final de setembro, início de outubro.

Lá fui eu fuçar na internet outra vez! Quando, de repente, me aparece as fotos da tal primeira Quinta que Luiz gostou, em Vila Marim. E eu pensando… ué, mas não havia sido vendida? Será que o anúncio ficou esquecido aqui? Na dúvida, liguei para a corretora novamente.

Pois não havia sido vendida, o negócio havia furado! Depois viemos entender que a pessoa que tentou comprar da primeira vez o faria através de hipoteca bancária e a documentação estava um pouco enrolada. O banco não espera, mas a gente poderia esperar. Acontece que sempre tem um detalhe, não é mesmo? Havia outro cliente marcado para visitar justamente naquele final de semana e as chances de vender eram boas.

Não conseguíamos marcar passagem para a mesma semana, afinal, as viagens continuavam complicadas. Mas consegui que meus primos fossem visitar no nosso lugar, antes do outro cliente que estava marcado. Acompanhamos toda a visita virtualmente pela câmera do celular, com Luiz no meu ouvido ansioso: fecha agora, fecha agora!

E assim foi! Acreditamos no julgamento dos primos, que afinal, conheciam nossos gostos e o que estávamos buscando. E, claro, pelas imagens que acompanhamos, nos pareceu um ótimo negócio! No final da visita, pelo celular mesmo, fechamos com a corretora: te envio o depósito como sinal e parte do pagamento agora por transferência bancária! Mas não quero que o o próximo cliente vá visitar a propriedade.

Exatamente dessa maneira, compramos uma Quinta vinícola em outro país, que será nossa casa e fonte de renda na pré-aposentadoria, ou seja, foi literalmente, pelas câmeras de um celular, sem visitar pessoalmente!

Na semana seguinte, em outubro de 2020, consegui passagem e visitei o local… sem o Luiz, que não pôde viajar. Nem vou fazer suspense, eu amei o lugar! Arrependimento zero! Gostei ainda mais do que através das câmeras e das fotos. Aliás, ainda bem, né? Porque os 10% de sinal estavam pagos e não tinha volta!

Aproveitei a semana para abrir conta em banco, me registrar como residente na casa dos primos… enfim, começar a preparar a estrutura. E, porque não devo ter um pingo de juízo, acabei comprando também um carro para ficar lá! Foi uma oportunidade, meu primo vende automóveis e apareceu um Kia pé-de-boi, preço bom, com 20 anos de idade, mas baixíssima kilometragem e muito bem cuidado. Pronto! Fica resolvido isso também!

Agora era só esperar a documentação ficar pronta para terminarmos de pagar e assinarmos a escritura. Honestamente, não tínhamos nenhuma pressa, com todas as viagens dificílimas e nosso exímio desconhecimento dos trabalhos necessários, o tempo estava a nosso favor.

A pandemia ficou mais complicada ainda, o ano virou e só conseguimos ir novamente a Portugal em abril de 2021. Em outro momento, contararei a saga que foi, mas finalmente Luiz conheceu a propriedade, 6 meses depois de negociada! A documentação não estava pronta, mas poderia ficar a qualquer momento. Por isso, tivemos a boa iniciativa de fazer uma procuração para meu primo.

Foi a melhor coisa que fizemos, porque em maio, após uma espera de 7 meses, a documentação foi regularizada! E como não poderia deixar de ser, essa história foi coroada com a escritura sendo assinada pelo meu primo, através de uma procuração!

O que importa é que agora é oficial, somos os felizes proprietários de uma propriedade em Vila Marim, com 3 hectares e produção de 7 mil pés de uvas! Prometo contar todos os detalhes, em breve!

Hoje, venho registrar que no dia 27 de maio de 2021, nasceu a Quinta do Vianna! Aqui, compartilharei essa aventura entre erros, acertos, sustos, descobertas, alegrias, preocupações, aprendizado e muito trabalho! E quem quiser fazer parte dessa aventura conosco, seja mais que bem-vindo!

18 comentários em “A Quinta do Vianna”

  1. Feliz demais com essa nova conquista. Vocês merecem. Muito trabalho pela frente, mas muita coisa boa tb. Bjs.

  2. Estamos muito felizes por vocês. Parabéns!!!!!! Acho que não poderia existir escolha melhor. Isso tido é a cara de vocês! 👏🏼👏🏼👏🏼 Que sejam muito felizes nessa jornada ♥️😘😘

  3. E
    S
    P
    E
    T
    A
    C
    U
    L
    A
    R….

    A cara de vocês, ôpá, peço-vos perdão, a vossa cara. Sereis muito felizes… afinal, …”o tejo não é o rio que corre pela vossa aldeia,
    O Tejo tem grande navios
    E navega nele ainda,
    Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
    A memória das naus.
    O Tejo desce de Espanha
    E o Tejo entra no mar em Portugal.
    Toda a gente sabe isso.
    Mas poucos sabem qual é o rio da vossa aldeia”… é o Douro… o Douro nasce Duero em Espanha, demarca um bom trecho da fronteira com Portugal e passa ao pé da Quinta do Vianna, pouca gente sabe disso… eu sei!

  4. Obrigada, Adriana! Exatamente, sabemos que tem muito trabalho pela frente e também acreditamos que trará muita coisa boa! Sejam bem-vindas! Beijo

  5. Parabéns para o casal. Fico imensamente feliz pelo sucesso de vocês e pela determinação para alcançar os seus objetivos. Espero um dia degustar um vinho produzido por vocês na Quinta dos Vianna. Beijos!

  6. Com certeza, Romildo! Será um prazer recebê-los por lá e compartilhar o “vinho da casa”! 😀

  7. Bianca e Luiz, vocês são exemplo de determinação e cumplicidade. Parabéns, Deus permita que eu, como uma boa portuguesa pela cidadania herdada do pai, possa visita-los e degustar os vinhos e as deliciosas guloseimas feitas por você. Beijos

  8. Eu vou (ia) praticamente todo ano para Portugal e quero muito poder conhecer esse paraíso português! Adorei a história, encantadíssimo. Sensacional! Continue contando as histórias da Quinta do Vianna! E dá até título de livro, hein? hahaha “As histórias da Quinta do Vianna”. Demais! Beijos do Victor François.

  9. Oi, Victor! Quanto tempo! Tudo bem com você? Vamos adorar receber sua visita! 😃 Olha, as histórias da Quinta do Vianna já viraram categoria aqui no blog e perfil no Instagram @quintadovianna… só falta virar livro! 😂 Mas estou pensando seriamente em fazer vídeos da evolução do projeto e criar um canal no Youtube… vamos ver… pouco a pouco!😘

  10. Obrigada, Lee! Bom ver você por aqui e esperamos vê-los por lá também! 🥰😘

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