Um concerto, umas coisas esquisitas e a festa de inauguração do apartamento

É, assim desse jeito, tudo junto ao mesmo tempo, afinal é como tudo na minha vida!

Começando pelo concerto, fiquei sabendo que a Anitta faria um show em Londres! E sim, estou falando da funkeira carioca, a própria! E pode torcer o nariz à vontade, eu adoro, acho ela poderosa!

Convenci o pobre do Luiz a ir comigo. Nem foi tão difícil, tendo lugar para sentar, ar condicionado e bebida… ele topa quase tudo!

E como foi? Vamos lá, sendo preciosista, o som não estava dos melhores, o figurino poderia ser mais caprichado e a cenografia era fraca . Foi o que eu esperaria de um show de funk no Brasil. Entretanto, considerando que hoje ela é uma atração em turnê internacional, está na hora de investir mais na produção.

Dito isso, na prática, me diverti pacas! E digo mais, é raríssimo ver qualquer show na Europa onde as pessoas não estejam todas sentadas comportadas, principalmente em um teatro. Inclusive, se alguém levantar, as pessoas reclamam. Foi o primeiro concerto que fui por essas bandas de cá do oceano onde estavam absolutamente todos de pé dançando o tempo inteiro! Bom, todos menos meu marido, que era o único sentado com sua bebida, mas também não me perturbou. E, no fundo, mas bem lá no fundo, acho até que ele se divertiu também!

Antes, durante o “esquenta”, dois DJs começaram a animar o público. Segundo um deles, estilo “Rio Old School” e era mesmo! Assim que, quando entrou Anitta, já estava rolando um clima de festa no teatro. E acho que ela realmente comparece e não decepciona. Gosto muito da sua atitude e a considero uma feminista.

Não é música erudita, nem se propõe a ser. As letras não são sofisticadas ou filosóficas, e novamente, também não se propõem a ser. Para mim, é simplesmente uma batida boa para dançar e soltar a franga! E esse propósito é muito bem cumprido.

Beleza! Acabou o concerto e resolvemos comer alguma coisa antes de vir para casa. Já tinha bebido um par de whiskeys durante o show, estava bem animadinha, mas nada que não estivesse acostumada e, ainda assim, no jantar, só tomei água. Afinal, além de estarmos em plena terça-feira, estou dando esse detalhe pela sequência da história.

Voltamos para casa, tudo muito bom, tudo muito bem!

No meio da madrugada, por volta das três da matina, acordei com vontade de ir ao banheiro. Não estava me sentindo muito bem, algo tonta, achei que podia ser da bebida e o jantar estava me pesando um pouco. Mas nada que me chamasse tanta atenção. Por isso, não me preocupou, só pensei, faço meu pipi rapidinho e volto para dormir. Levantei rápido e fui.

Estou acostumada a levantar durante à noite. Nem acendo as luzes, faço tudo no piloto automático.

No banheiro comecei a passar mal de verdade, uma sensação de mal estar como se fosse vomitar, mas não estava exatamente enjoada. Pensei, vou lavar o rosto antes de ir para cama para ver se melhoro. Mas de pé, nem consegui abrir a torneira da pia. Percebi que piorava exponencialmente e decidi voltar logo para cama. Só que não deu tempo. Apaguei completamente ali mesmo. Desmaiei.

Eu nunca desmaiei antes na minha vida, não tinha ideia que isso poderia acontecer nem qual era a sensação. Mas foi como se tivesse tomado anestesia geral. Lembro do que descrevi acima e lembro de acordar ao ouvir a voz do Luiz me chamando. Abri os olhos no chão, sem ter certeza de onde estava e ver seu rosto assustado. Extendi a mão para ele.

Foi tudo muito rápido, questão de segundos. Pela versão do Luiz, ele ouviu o barulho forte vindo do banheiro, me chamou e eu não respondi. Ele foi atrás de mim e quando chegou na porta eu já estava abrindo os olhos e com a mão pedindo ajuda para levantar.

Não senti nada, mas durante a queda, bati forte com a parte de trás da cabeça e me abriu um corte. Ficou manchado de sangue onde caí e Luiz viu.

Cheguei na cama bastante tonta e suando muito. Ele acha que tive alguma queda de pressão. Honestamente, não tenho ideia, mas acho que faz sentido.

Ele começou a perguntar se queria ir para um hospital e a dizer que minha cabeça estava sangrando. Sinceramente, eu mal escutava, só me preocupei em dizer para ele: Luiz, eu não caí, eu desmaiei. Porque não sabia o que poderia acontecer e achei que ele poderia precisar dessa informação.

Em meus pensamentos, no primeiro momento o corte da cabeça não me preocupou, o desmaio sim. Comecei a pensar tudo que precisava checar em mim. Tive um pai com todos os problemas do mundo e eu tinha um check list do que precisávamos checar eventualmente.

Então, primeiro fiz o movimento do sorriso com a boca. Quem sofre um derrame não consegue sorrir. Derrame não era. Lembrei o número da minha identidade e data de nascimento. A memória não estava afetada. Meus braços não estavam dormentes e não tinha dor no peito. Não era coração. Minhas frases saíam com lógica, eu não trocava as palavras, meu corpo obedecia os movimentos, provavelmente não era AVC… e fui me auto diagnosticando. Ok, aparentemente não tenho nenhum dano neurológico.

A partir daí, comecei a prestar mais atenção ao que Luiz falava e ele, durante esse período, teve a ideia de pegar um pouco de papel higiênico branco para estancar o sangue. E também foi uma forma de literalmente me mostrar que estava sangrando ainda, porque meu cabelo é escuro e absorvia boa parte do líquido, não dava para saber bem o que tinha acontecido. Minha cabeça até doía um pouco, mas com toda a adrenalina, não fazia muita diferença.

Comecei a me preocupar com a pancada. Será que era seguro dormir? Fiquei bolada e resolvi ouvir o Luiz. Também havia melhorado a sensação de mal estar e era mais fácil levantar.

Lá fomos nós para a emergência do hospital!

Resumo da ópera, realmente não parecia haver nenhum dano neurológico e não dava para ter certeza do que havia se passado. A queda de pressão era uma das possibilidades. Provavelmente, foi um evento isolado. O médico não achou necessário fazer uma ressonância, porque não bati a cabeça e desmaiei, foi ao contrário. Além dos meus reflexos estarem normais. Mas o corte na cabeça precisava ser costurado. Na verdade, optamos por usar um tipo de cola cirúrgica ao invés de dar pontos. O médico orientou ao Luiz o que ele deveria reparar em mim nas próximas horas, já que eu mesma poderia não notar se fosse algo mais grave, e nos liberou.

Saí de lá pela manhã, dia claro, com a cabeça literalmente colada.

Daria um jantar nessa mesma noite, pensei em manter porque estava tudo engrenado. Para mim, se estava resolvido era que eu já estava boa, pronto, sem drama! Mas considerando que não havia dormido nada e não sabia bem como o corpo iria reagir, adiei o jantar para o dia seguinte.

Foi bom, porque durante o dia me caiu a ficha do que havia passado. Não tive maiores consequências. Adianto que ficou tudo bem, felizmente. Mas me dei conta de todos os riscos e de tudo que poderia haver acontecido.

Quantas histórias havia escutado de gente que caiu no banheiro, bateu a cabeça e morreu? Diversas! Isso quando não havia algum dano cerebral. Porque tudo em um banheiro é duro e se já é complicado você cair consciente, imagina sem nenhuma defesa! Você não põe a mão para proteger, você não desvia a cabeça… fica completamente vulnerável.

Uns centímetros um pouco para lá ou para cá, alguns segundos antes ou depois… e seu destino está traçado, é simples assim! Definitivamente, ou tenho muita sorte, ou sou muito protegida, ou minha cabeça é muito dura! Por outro lado, mais maluca do que sou, difícil ficar! Então, tudo bem, mas foi um susto da porra!

Difícil não te fazer repensar o quanto a vida é efêmera. E o que deveria ter sido apenas uma “bobagem”de um tombo, me afetou mais do que eu esperava. Realmente, senti medo de me levantar durante à noite por alguns dias.

Depois voltei à rotina. Mas admito que, mesmo tendo passado alguns meses, o local ainda é um pouco sensível e sinto um tipo de “dor fantasma”. Às vezes, é como se estivesse doendo no local, mas passo a mão na cabeça e não sinto nada. Deve passar em algum momento.

Bom, na semana seguinte ao desmaio, veio uma amiga da Alemanha nos visitar, nossa madrinha de casamento, que conheço desde os tempos de solteira. A gente recebe muitas visitas e muitos hóspedes, mas como estou falando de coisas esquisitas, quero contar um evento muito curioso que aconteceu durante a sua visita. Entre o evento da cabeça quebrada e a chegada dela, estava pensando a semana inteira em uma outra amiga que faleceu há muitos anos, se suicidou. É uma história longa e complicada, mas a memória dela me volta de tempos em tempos por razões que nem quero explicar agora, mas enfim, apesar das minhas crenças e descrenças, todo mundo fala tanta coisa ruim sobre quem se suicida… que era inegável para eu pensar se ela estaria bem.

As duas se conheceram e foram muito presentes na minha “vida de solteira”. Mas isso não significa que a gente fique tocando sempre nesse assunto, afinal, fará pouco menos de uns 30 anos que isso aconteceu.

A primeira vez que encontrei minha amiga que faleceu foi em um réveillon, em Búzios. Foi amizade à primeira vista, instantânea! Tudo bem, eu faço amizades de infância em 15 minutos… é verdade… mas nesse caso, a gente realmente se entendeu muito bem, não éramos tão parecidas, mas nos complementávamos, nos entendíamos, tínhamos problemas parecidos… e um tipo de sintonia que eu costumava chamar de “efeito catalizador de merdas”! Tudo que uma sugeria, por mais absurdo que fosse, a outra sempre, mas sempre, topava! Bora? Bora!

Nessa noite de Ano Novo, encontramos na areia da praia uma garrafa fechada de vodka Smirnoff, reza a lenda que em uma macumba. Veja bem, a gente era meio dura nessa época, estudantes, começando a trabalhar, a gente fazia vaquinha para comprar Kovak! Imagina se a gente ia ficar de mimimi para tomar uma Smirnoff na faixa! A gente nem quis saber, pedimos licença para os santos e matamos a bebida sem pensar duas vezes!

Foi um ano muito legal! As portas começaram a se abrir, a vida melhorou! Foi o ano, inclusive, que conheci o Luiz. E sempre brincávamos que o segredo daquele ano foi a tal vodka de macumba que a gente tomou!

E contei esse caso para dizer que em uma das noites que saímos com a amiga visitante da Alemanha, do nada ela lembrou da outra amiga durante a conversa. E falei, que engraçado e que coincidência, pensei nela essa semana passada toda! Muito louco, né?

Pois é, passamos uma noite ótima, divertida, ouvindo música ao vivo no Nightjar, um bar pequeno que adoro com uma história de clandestinidade no passado, quando os donos fabricavam (e contrabandeavam) sua própria bebida. Até hoje, não há um letreiro, é uma porta discreta, entre dois pontos comerciais.

Quando fomos embora, pela hora resolvemos pedir um carro e ficamos ao lado da porta para aguardar. Nesse minuto que a gente saiu e Luiz pegou o celular para chamar o Uber, minha amiga e eu olhamos para o lado e, bem no chão da calçada, uma garrafa vazia… de vodka Smirnoff!

Qual a probabilidade de aparecer em Londres uma garrafa de vodka e dessa mesma marca na calçada, em frente ao bar que saímos e acabamos de falar no assunto? Foi de arrepiar!

Não sabemos e nunca saberemos o real motivo da extrema coincidência, mas para nós, ou principalmente para mim, foi um momento tão bacana. Como uma resposta que estava tudo bem e que ia ficar tudo bem.

Dia seguinte, festa de inauguração do apartamento novo, meu endereço #46! De cabeça quebrada mesmo, com hóspede da vez e com futura hóspede, com amigos novos e antigos, entre memórias e possibilidades, esquisitices e normalidades… como a vida costuma ser, pelo menos a nossa.

E ficou tudo bem.

Restaurante Pétrus em Londres

O Pétrus, aberto em 2010 no local onde hoje funciona, faz parte do grupo de restaurantes do Gordon Ramsay e possui uma estrela Michelin, além de cinco AA Rosettes.

Quem me conhece, sabe a relação afetiva e, ao longo dos anos, até profissional que tenho com a comida e, sempre que possível, busco essas experiências gastronômicas, o que considero bastante enriquecedor.

Mas nesse caso, foi inclusive melhor, porque uma amiga nos deu de presente um almoço para duas pessoas nesse restaurante, em função das bodas de prata com Luiz.

Eles oferecem essa possibilidade de você comprar vouchers de valores diferentes para oferecer aos seus amigos ou familiares. Vamos combinar, presentão, né?

Bom, conseguimos acertar nossas agendas e marcar nosso super almoço por lá! Adianto que foi tudo ótimo e conto os detalhes abaixo.

A decoração é relativamente discreta, mas elegante. O destaque fica para uma enorme adega de vidro redonda bem ao centro do salão. E falando nisso, o nome do local foi inspirado no vinho Pétrus, favorito de Ramsay.

A cozinha é de inspiração francesa moderna. Não há serviço à la carte, são opções de menus completos, sendo que o mais comedido inclui amouse-bouche, entrada, prato principal e sobremesa ou queijos. Também oferecem harmonização dos pratos com vinhos em dois preços diferentes, sendo um deles para chutar o pau da barraca!

Considerando ser uma estrela Michelin e o padrão do serviço oferecido, aliás, bastante simpático e nada arrogante, o preço é justo. Obviamente, não é nem poderia ser um restaurante popular, mas em comparação a outros no mesmo padrão, suas opções de preço são bastante razoáveis.

Não espere invenções estapafúrdias ou nada absolutamente surpreendente, é um restaurante honesto, de ingredientes conhecidos. Entretanto, tudo muito fresco, paladar absolutamente bem equilibrado, pratos bonitos e tudo executado com perfeição. Ele é o que se propõe a ser, aliás, a cara do Ramsay! O responsável pela cozinha é Russell Bateman, que em 2014 ganhou a competição National Chef of the Year (o chef do ano).

Então, vamos lá, o que a gente comeu?

De amuse-bouche um gazpacho de tomate e cereja; de entrada, Luiz escolheu o Mackerel (peixe) e eu um spelt risotto (tipo de trigo); de prato principal, Luiz foi de Côte de porc (porco) e eu de Sea bream (peixe); como sobremesa ele pediu uma tortinha de damasco com sorvete de amêndoas e eu um merengue de pera com sorvete spiced (nem sei como traduzir, são ingredientes usados para temperos e um pouco picantes); café com chocolates e pequenas madalenas recém-saídas do forno!

Côte de porc
Côte de porc
Sea bream
Sea bream
Apricot tart
Pear meringue

Para acompanhar os pratos, escolhi a harmonização de vinhos sugerida pelo sommelier da casa. Gostei muito, escolhas não tão óbvias, eu não teria pensado, mas bastante interessantes.

Tudo uma delícia! Nada a acrescentar ou tirar! E esse equilíbrio e excelência na execução é algo que levo bastante em consideração.

Enfim, experiência aproveitadíssima! Recomendo!

Você é uma pessoa preconceituosa?

Então, aquele tema chatinho e subjetivo que incomoda muita gente. Algo que penso com frequência, mas escrevo pouco. Hoje me deu vontade de falar no assunto.

Respondendo minha própria pergunta do título, adoraria dizer que não. Aquele não seguro e absoluto: não, não sou preconceituosa! Acontece que não é verdade, por mais vergonha que me faça sentir, e preciso chamar esse demônio pelo seu nome, eu sou preconceituosa sim, infelizmente. A resposta mais precisa e honesta seria: luto para não ser! Luto assim com força mesmo, porque acho muito feio e injusto.

O fato é que na hora da raiva, nas situações limite, eu não sei se saltará apenas meu melhor lado. Não sei! Eu tento não ser preconceituosa quase todo santo dia da minha vida. E, para meu alívio, cada dia é mais fácil vencer essa batalha, pois virou um hábito e me sai mais naturalmente com o passar do tempo. Acho que morar fora do meu país de origem me ajudou a ver outras realidades e entender outras culturas, me deixou mais sensível a questões às vezes sutis em relação aos preconceitos de modo geral. E mais do que isso, me fez eventualmente colocar o chapéu de quem está do lado fraco da corda.

Na minha opinião, acho que assumir que o problema existe é o primeiro passo para a mudança. No fundo, em condições normais de temperatura e pressão, todas as pessoas razoáveis concordam que o preconceito é uma coisa ruim. O problema é que a pessoa preconceituosa dificilmente sequer percebe que o é! Preconceituoso é sempre o outro e em relação a algo que não se concorde. E aí, a porca começa a torcer o rabo…

Primeiro de tudo, toda sociedade tem suas regras, portanto, seus conceitos. E sempre que existe um conceito… existe um pré-conceito! Então, no fundo no fundo, todos nós que temos alguma convivência social temos algo preconcebido. Dessa forma, imaginar que é possível existir um mundo sem preconceitos é, no mínimo, ingênuo!

Então, não há o que fazer? Estaria eu dizendo que o preconceito é algo inerente ao ser humano, portanto não é tão mau assim? Médio. Eu acho que sim, é inerente, mas pode ser bastante mau e cruel. É fundamental lembrar que os tempos mudam, as sociedades evoluem e, com isso, se mudam seus conceitos. Por consequência, também seus preconceitos!

E é onde quero chegar, é difícil (se não impossível) se acabar com um preconceito simplesmente criticando ou atacando a pessoa preconceituosa. Não porque essa pessoa não mereça ou porque até seja boazinha, mas porque é mais eficiente se atacar uma causa, não sua consequência. Seria nos nossos conceitos, na educação, na nossa maneira de ver o mundo que deveríamos trabalhar. Acho eu, pelo menos, é o que tento fazer.

Tentar não ser preconceituosa é um exercício! Adianto que não é fácil! Até para escolher o título dessa postagem, precisei pensar se escrevia no feminino ou masculino (preconceituoso ou preconceituosa). Estaria eu sendo machista em generalizar no masculino? Ou estaria eu sendo feminista, porque em generalizar poderia estar excluindo as mulheres da atitude preconceituosa? Um pouco de exagero? Pode ser, e é parte do que estou tentando colocar em perspectiva. Para quase tudo que pensamos ou expressamos poderia haver uma interpretação “preconceituosa”.

Vamos combinar, é insano ponderar absolutamente tudo que dizemos! E irreal imaginar que podemos sempre perceber as intenções de cada um. Mas podemos sim nos esforçar um pouco em questões básicas. E, principalmente, estarmos abertos quando alguém se manifesta ofendido. Nem digo concordar sempre, mas ouvir. Talvez nossa intenção não tenha sido essa, mas não custa, ao menos, que a gente se questione a respeito. Um pouco de empatia, um pouco de tolerância e canja de galinha não fazem mal a ninguém!

É, dá trabalho sim. Mas qual seria a alternativa? Ignorar e deixar que outras pessoas sigam sofrendo injustamente porque você acha chato ou está com preguiça? Se o preço de ser mais justo para todos é o incômodo de alguns, inclusive o meu, que seja!

A cerimônia japonesa do chá

Há alguns meses, só para variar um pouquinho, tivemos hóspedes em casa . Um casal com a filha, moram nos EUA. Essa minha amiga é de origem japonesa e, por coincidência, tinha uma prima que não via há muitos anos morando aqui em Londres. A prima veio deixar alguma coisa aqui em casa para ela e, acabei a conhecendo rapidamente.

Mas claro, que a convidei para entrar e conversamos um pouco. Pelo que entendi e, para ser sincera, nem tinha entendido tão bem assim, essa prima e o marido eram como representantes da cultura japonesa e ofereciam cursos sobre a cerimônia do chá por essas bandas.

Fiquei muito curiosa a respeito e, na minha ignorância, perguntei se a gente poderia ir um dia a uma dessas cerimônias, no esquema como se fosse ir até lá e tomar um chá da tarde, da mesma maneira que iríamos em alguma casa comercial especializada.

Ela explicou mais ou menos que não era bem assim, que a casa era um tipo de escola e, eventualmente, eles faziam alguma demonstração. Novamente, não entendi muito bem, mas aceitei. Demonstrei meu interesse e se surgisse alguma oportunidade, ótimo! Sem grandes expectativas, também não queria ser invasiva. Sei lá, quando a gente não conhece tão bem a cultura, e eu não conheço, poderia estar dando alguma rata, né? Melhor não forçar nada.

Até que há cerca de um mês ela me procurou pelo whatsapp e fez o convite para que participássemos de uma sessão. Era um dia em que os alunos do marido estariam colocando em prática seus dotes como anfitriões. Achei o máximo! Claro que quero!

Perguntei se tinha algum tipo de preparação, alguma coisa que eu precisava saber, alguma vestimenta definida, enfim, mas não havia muitos detalhes. Para mim, tinha um certo “que” de mistério e resolvi também não me preocupar, simplesmente estaria aberta e atenta ao que viesse. Infelizmente, não podia fotografar, assim que adianto que não tenho imagens.

Muito bem, aviso adicionalmente que contarei minha experiência como leiga. Descobri que a cerimônia do chá não é simplesmente um tipo de refeição, é bem mais amplo, é uma filosofia de vida. Portanto, não seria em algumas horas de um domingo que eu teria alguma legitimidade para falar profundamente do assunto. Mas achei tão bacana que vale o registro.

Começa logo na entrada, você tem a sensação de ter passado em algum tipo de teletransporte, onde de um lado da porta é Londres e do outro, alguma cidadezinha no Japão. Juro! E, obviamente, já se tira os sapatos ali mesmo. Até aí, normal, na minha casa é igualzinho, os sapatos são barrados logo de cara!

Fomos recebidos pela prima da minha amiga, vestida em seu quimono japonês, assim como as pessoas envolvidas na preparação de todo evento. Chegamos um pouco antes, como recomendado, e ficamos em uma sala pequena, recebendo algumas informações, aguardando nossa hora e todos convidados se juntarem. Éramos um grupo de 7 convidados, incluindo a prima da minha amiga, que fala português e foi nos orientando como deveríamos nos comportar durante toda a cerimônia.

Foi nesse momento que comecei a perceber que o buraco era mais embaixo, ficou mais do que claro que não era somente ir até lá e tomar um cházinho. Ao mesmo tempo, ressalto que não era nada tenso para mim, era mais uma preocupação em não fazer nada que ofendesse ninguém, mas fui deixada bastante à vontade. Bastava que copiasse o que a “primeira convidada” fizesse (explicarei um pouco adiante esse papel).

Pois bem, a tradição Urasenke chado é baseada nos princípios de harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. A ideia é aprender a importância real de como se comportar e viver. São princípios simbolizados e executados durante uma determinada cerimônia, mas que são metáforas e regras a serem seguidas na vida de maneira geral. Bom, isso foi o que entendi nessa pequena experiência.

Uma coisa que achei muito interessante é que, na cerimônia, você aprende a ser anfitrião e convidado. Ou seja, não basta entender o que é servir ou como fazê-lo, você também precisa entender como se comportar para receber o que alguém está te oferecendo. A humildade e a gratidão são vias de mão dupla.

Os papéis do grupo são definidos com clareza. Havia uma anfitriã, uma ajudante, a primeira convidada e os outros convidados. Todos os convidados são servidos individualmente, com a devida sequência de reverências e na ordem em que serão sentados. Essa ordem de entrarmos na sala de chá e nos sentarmos foi estabelecida assim que chegamos, ainda na sala de recepção. A anfitriã é a figura principal, quem recebe os convidados, define desde os aperitivos até a decoração da sala, escolhe as louças, prepara o chá e serve os convidados. A ajudante, como o nome sugere, ajuda a anfitriã. A primeira convidada é como se fosse uma convidada especial, ela é sempre servida primeiro e tem inclusive a responsabilidade de ajudar a manter o bom entretenimento dos convidados, enquanto a anfitriã está ocupada.

Muito bem, seguindo essa ordem definida dos convidados, fomos primeiro levados ao jardim para lavarmos as mãos e a boca. Isso é feito individualmente, você tem que esperar sua vez e há uma maneira padronizada para fazê-lo. É como um ritual de purificação.

Daí, seguimos para uma sala forrada por tatame e decorada com um arranjo floral. Entramos na ordem definida e se senta sobre os joelhos, em semi-círculo. Eu tenho problemas nos dois joelhos, infelizmente, e só consigo sentar de pernas cruzadas. Não é o padrão, mas não foi um problema.

A anfitriã estava nervosa e parecia emocionada, era sua primeira vez oficialmente executando a cerimônia. Achei bacana, me senti honrada de alguém estar tão preocupada em me servir bem.

Entendo esse conceito, de uma maneira muito mais intuitiva e informal, percebi que também usava vários dos príncípios utilizados na tal cerimônia. Quando recebo alguém em casa, minha ambição é que essa pessoa se sinta como um rei ou rainha! Que saiba que os detalhes foram pensados para cada convidado. Às vezes, é difícil quando o grupo é grande, mas essa é a intenção durante toda a preparação de cada evento.

A anfitriã nos serviu uma entrada fresca, biscoitos e chocolate, além do chá. Tudo é feito individualmente e se serve uma pessoa por vez. Começando sempre pela “primeira convidada”. Há um conjunto de reverências e agradecimentos que se faz para quem oferece, para quem recebe, para seu vizinho… até para a louça utilizada! Falando assim, parece um exagero, mas acredito que isso seja uma demonstração de respeito e gratidão. Na prática, é bonito. Acho que a gente deveria demonstrar mais às pessoas quando estamos gratos, nem que seja por um gesto de gentileza.

Ter que esperar sua vez é algo que te faz exercitar a paciência. Ao mesmo tempo, gera uma sensação de tranquilidade. Você sabe que terá sua vez e quando ela irá acontecer, então, não há necessidade de ansiedade. Entender que os outros também terão seu tempo e atenção, traz uma sensação de harmonia, equilíbrio. Não sei se me explico, mas é parecido a fazer um tipo de meditação.

Ou seja, são gestos simples, mas com analogias importantes que podemos trazer para nosso estilo de vida e comportamento. Como coloquei no início, mais do que uma mera cerimônia, é uma filosofia.

Poderia gastar toda uma tarde descrevendo os detalhes e os papéis de cada participante, mas acho que a ideia principal foi passada. Na verdade, muito mais do que uma descrição, o que vale é toda a experiência.

E sou muito grata por tê-la vivido.

PS: para quem se interessou pelo assunto, esse é o website da Urasenke Foundation, e se estiver por Londres, eles fazem algumas apresentações com os alunos no The British Museum. Em 2019, estarão nos dias 12 e 26/ julho; 9/agosto; 27/setembro; 12/outubro; 8 e 22/novembro e 13/dezembro. É grátis e aberto ao público!

Relacionamentos que terminam

Muita calma nesse momento, não estou falando do meu (isola!). Mas nos últimos meses, tenho recebido notícias sobre alguns casais de amigos queridos que se separaram ou estão nesse processo.

Até aí, normal, faz parte da vida, ou deveria fazer, só que há casais que você não espera que isso aconteça. Imagino que, em condições normais de temperatura e pressão, todos (ou quase todos) casais que assumem um relacionamento acreditem realmente que queiram ficar juntos, pelo menos no início. Mas para quem está de fora, costuma haver alguns que parecem mais prováveis de funcionar. E, principalmente, depois de algum tempo juntos, quando você sabe que passou a fase da paixão, da empolgação, e a relação amadureceu, fica aquela sensação de “prova superada”, agora vai planando em voo tranquilo.

Infelizmente, nem sempre é assim e fico triste quando sei que aconteceu uma separação entre casais. Por mais que não tenha nada com isso, por mais que saiba que muitas vezes seja melhor, por mais que nem veja as pessoas com tanta frequência, por mais que o universo siga seu curso… me bate aquela sensação de que o mundo saiu um pouco do lugar.

Sabe quando você lê aquela notícia sobre um acidente grave que ocorreu em um caminho que faz parte da sua rotina? Por algum motivo, você não passou lá naquele dia, mas poderia haver passado, poderia ter sido com você… poderia ter sido comigo.

Procuro não me influenciar ou buscar um lado positivo. No fundo, há algo de alívio culpado em pensar que não foi comigo. Será que estou me comunicando bem? Será que dou o suficiente? Será que está certo? Tento usar como alerta e rever se estou fazendo direito meu papel.

A questão é que nem sempre há o que fazer ou exista algum culpado, às vezes, simplesmente os caminhos se dividem. Triste, mas fato. E deve ser muito duro revisitar tantas histórias e buscar onde estaria o erro ou o que poderia ser feito diferente. Talvez, ou muito provavelmente, não houvesse o que ser feito de outra maneira, as pessoas são o que são. É possível que nem valha a pena buscar esses potenciais enganos, para que apontar dedos se esse bonde já partiu?

Mas há vezes que ainda dá tempo. E, o melhor dos casos, talvez a crise ainda não tenha chegado. Então, não espere ou conte que não chegue, se não chegou, ela vai chegar! Pode ser fraca ou forte, breve ou duradoura, pode até passar batido e te errar, quem sabe… mas ela vem.

Não trate sua relação como garantida, não há garantia de nada nesse mundo! Não existe amor absolutamente incondicional, ele precisa ser cuidado, alimentado, regado. Eu decido continuar casada todos os dias, nos alegres e nos tristes, nos fáceis e nos difíceis. Há 25 anos eu decido que sim e que assim seja.

Mas se não for o caso, que assim seja também, que as pessoas sigam seus caminhos em paz e com mais experiência para compartilhar amor. Afinal, ninguém melhor do quem perdeu para valorizar o que é importante. Que possam entender que o que passou deu certo, pelo menos pelo tempo que tinha de ser.

E, mais do que tudo, mesmo que o amor “não seja imortal, posto que é chama”, que o respeito “seja infinito enquanto dure”.

Autenticação de documentos e reconhecimento de firma na Inglaterra

Sabe como funciona a autenticação de documentos aqui? A pessoa olha para você, olha para o documento com foto… e reconhece!

E reconhecimento de firma, como faz? A pessoa olha sua assinatura, compara com um documento com foto… e reconhece!

Tá bom, vai, vou complicar um pouquinho… Às vezes, quando é algo mais importante, no máximo, você precisa assinar na frente da pessoa. Ou já aconteceu comigo, quando estava em outro país e não podia comparecer no momento da assinatura, você tem que assinar e pedir para “alguém institucionalizado” reconhecer. Na prática, um médico, uma dentista, advogado… alguém que tenha um carimbo com um número de identificação. Essa pessoa escreve: reconheço essa assinatura, carimba e assina. Pronto!

Ah, mas você não precisa de alguém específico que faça isso? Porque afinal de contas, reconhecer uma foto ou uma assinatura deve requerer um perfil ex-tre-ma-men-te especializado! Puxa, não é fácil achar alguém que enxergue! Por isso, é fundamental se pagar uma fortuna, por exemplo a um cartório, para exercer essa atividade essencial e super exclusiva… não?

Que simplistas são esses ingleses, viu? Precisam aprender muito com os latinos…

O 46o. endereço, uma mudança inédita!

Sim, se você chegou agora no blog, aviso que não entendeu errado, estou nesse momento no meu quadragésimo quinto endereço e de malas encaminhadas para o quadragésimo sexto!

Nem sou eu a autora da frase, mas se existe algo de constante em minha vida, definitivamente, é a mudança! (Bom, e o casamento, né? Isola!) Mas vamos lá, o que há de diferente agora?

É a primeira vez que mudamos dentro do mesmo edifício. Mudaremos apenas de andar!

Ai, Bianca, sério que você vai passar por todo esse perrengue para ficar no mesmo prédio? Por que mesmo? Então, como em todas as outras dezenas de vezes, não é que eu quisesse mudar, simplesmente aconteceu! Eu apenas não reluto.

Para início de conversa, meu vizinho é um dos meus melhores amigos, viramos família. A gente sai para caminhar diariamente e fala mais que o homem da cobra, trabalhamos em alguns projetos juntos, se eu viajo ele cuida dos meus gatos, a (nossa) sobrinha janta aqui em casa… ou seja, parece bobagem, mas não é, o fato é que minha vida é melhor e mais fácil com essa proximidade. Portanto, precisaria haver alguma razão muito forte para eu pensar em sair daqui.

Pois bem, há cerca de um mês, descobrimos um vazamento estranho… que foi puxando outros vazamentos misteriosos… todos aparentemente sob controle, mas deixando aquela certeza amarga que, mais cedo ou mais tarde, seria necessário uma investigação definitiva. Isso quer dizer, quebrar o chão, fazer obra etc… com a gente aqui! Hum… acho que vai dar ruim! Só de imaginar a possibilidade, arrepiou os cabelos do sovaco!

No desespero, Luiz começou a buscar alternativas pelas redondezas. E eu já reclamando por antecipação: mas não quero ficar longe daqui! Pois muito bem, por uma enorme coincidência do destino, não é que estava para vagar outro apartamento exatamente no mesmo edifício! No mesmíssimo, nem do lado, nem perto, no próprio!

Não acreditei! Hoje vivemos em um primeiro andar, bem de frente para o Tâmisa. A vista e o tamanho são boas vantagens, mas o fato de ser na altura da rua, nos cobra pouca privacidade; e por ser primeiro andar, é onde há a maior probabilidade de problemas, como vazamentos, por exemplo. Esse próximo é no quinto andar, não é bem de frente para o rio, mas tem a vista lateral, tem varanda e ainda por cima é mais barato! E onde está a pegadinha? É um pouco menor e a reforma é mais antiga. Tudo bem, posso viver com menos, até aproveitei para fazer nova limpeza e me livrar de mais algumas coisas. Tenho síndrome de Diógenes ao revés, fico feliz em me desapegar das coisas.

Claro que a negociação foi um parto de mamute, porque nada na nossa vida é simples. Coloquei algumas condições e me plantei. Juro que achei que não fosse rolar, mas a proprietária aceitou. Embora se passassem dias para responder daqui, dias para responder dali… até quando me enchi e falei para Luiz, ou é amanhã ou não quero mais! Aparentemente, deu certo.

Ou seja, lá vamos nós para o endereço #46! Juro que com tanta experiência no tema, ando pensando em seguir uma carreira paralela ao estilo Marie Kondo!

Alguém por aí, quer me contratar? Faço sua mudança, arrumo seu armário, resolvo problema de mau-olhado e trago a pessoa amada em 3 dias! E parafraseando Tim Maia, só minto um pouquinho… Vai?