E só nadou na parte rasa…

Tem coisa mais chata para criança na piscina do que mãe insistindo: fulaninho, fica na parte rasa!

 

Entendo o desespero materno, mas também me lembro de achar as piscinas infantis um verdadeiro tédio. Bom mesmo eram aquelas enormes (ou pelo menos, na época me pareciam gigantes) dos clubes. Onde dava pé só me servia para plantar bananeira. Se não fosse para andar de cabeça para baixo, o fundo era muito mais interessante.

 

Fui cedo para uma escola de natação, nunca perguntei, mas imagino que minha mãe achou mais prudente que eu aprendesse a nadar de uma vez. Mas me lembro que mesmo antes de saber nadar, o fundo não me assustava. Aprendi que se não gastasse energia me debatendo e, ao contrário, me deixasse afundar, era muito mais simples de empurrar o chão com as pernas, pegar impulso e subir. Por isso, não tinha medo, sabia que do chão não passava. Bom, e também porque criança não tem juízo mesmo e portanto, a gente faz merda o tempo todo sem se preocupar com os riscos.

 

Já um pouco mais velha, e ainda sem o menor juízo, também na praia preferia o fundo. Com mais cautela, afinal um caldo na frente de todo mundo seria bastante constrangedor. Mas, ainda que nadar no mar fosse bem diferente que em uma piscina, havia um conceito parecido, reagir te faz gastar energia à toa, o mar era infinitamente mais forte que eu, melhor não brigar contra a correnteza.

 

Não tenho mais a mesma ousadia física, a consciência do risco me fez mais atenta. Entretanto de alguma forma, e felizmente, algo dessa lição ficou. Sigo preferindo o medo ao tédio; sigo sabendo que do chão não passo, pelo contrário, ele pode te impulsionar para cima; é burrice nadar contra correnteza e, sobretudo, detesto só nadar na parte rasa.

 

E dito isso, vamos a nossa próxima história!

 

Indo direto ao ponto: nos mudaremos de Madri para Londres. Foi assim, de repente, não mais que de repente!

 

Na verdade, a possibilidade surgiu por volta de uns dois ou três meses. Acontece que como essa, várias outras possibilidades já haviam surgido e se foram, é normal. A gente não para nem guia nossa vida só por isso. Simplesmente, vamos fazendo plano A, plano B, plano C… e tocamos o barco. Mas não nego que dessa vez tinha uma intuição que ia acontecer.

 

Tinha muita vontade de escrever a respeito para clarear as ideias, mas ao mesmo tempo, era uma informação que não podia divulgar, poderia comprometer no trabalho do Luiz. Posso me responsabilizar pelo que conto da minha vida, mas não posso prejudicá-lo. Assim que simplesmente me travou a escrita.

 

Há umas duas semanas, ou pouco menos que isso, ele aceitou a proposta. Ainda assim, tivemos que esperar ele comunicar na empresa que trabalha aqui, afinal, as saídas precisam ser muito bem feitas. A gente nunca sabe que voltas o mundo dá.

 

Ele não será transferido, está trocando de emprego.

 

É arriscado? Lógico que sim! Dá medo? Pânico! Tomamos nossas precauções? Todas as possíveis! Isso garante que vá dá certo? Óbvio que não, mas afinal, quem quer só nadar na parte rasa? E, a propósito, estatisticamente, há mais gente que se machuca escorregando na borda da piscina, que se afogando.

 

Os ventos indicam que a correnteza vai para esse lado, então, há um momento que a gente precisa acreditar que do chão não passa e tentar.

 

Então, tá bom, agora vamos aos micos!

 

Primeiro passo, achar um lugar para morar. Simples, né? Só que moramos em outro país e estamos no meio de dezembro! A última semana e a primeira do ano que vem são meio mortas e tive a semana passada e essa semana para encontrar alguma solução.

 

Luiz começa a trabalhar na nova empresa no dia 7 de janeiro. Precisamos ir um pouco antes para agilizar alguns detalhes de documentação. Assim que o melhor dia seria por volta de 3 de janeiro.

 

No mundo ideal, alugaríamos um apartamento não mobiliado para o princípio do ano e mandaríamos nossa mudança junto com nossa ida para lá.

 

Acontece que, para começar, ainda não encontrei nada que caiba todos nossos móveis, ou um mínimo de móveis que não estou disposta a me desfazer.

 

O preço da mudança, pelo menos o primeiro orçamento, me pareceu exorbitante, estamos buscando soluções alternativas, que incluem alugar um caminhão e irmos dirigindo com a mudança nas costas!

 

Nosso apartamento atual foi alugado por um período mínimo de um ano e só levamos seis meses aqui. Ou seja, que em teoria teríamos uma multa de 6 meses! Ui! Luiz já conseguiu negociar, para um máximo de 3 meses de multa, mas se alugar antes para novos inquilinos, eles não cobrariam. Assim que já liberamos a casa para visitas e, apesar do momento nada propício, os recebo com sorriso de orelha a orelha e o apartamento impecável!

 

Pois é, acontece que, se alguém resolver alugar o apartamento para ontem, nós é que não vamos reclamar ou dar para trás, certo? Então, se não tivermos para onde enviar a mudança, precisaremos fazer duas, a primeira para um guarda-móveis e a segunda para Inglaterra.

 

E, nesse caso, ainda teremos um outro passo que é alugar um apartamento mobiliado temporário, enquanto a mudança espera no guarda-móveis e a gente encontra um segundo apartamento para mudar de vez.

 

Ou seja, temos o pano A, B, C… um alfabeto inteiro! Ficou fácil? Quer complicar mais um pouco?

 

Até um par de dias atrás, meu marido estava achando que tínhamos tempo pacas e que estava estressada à toa! Até entendo que ele precisa se preocupar com temas mais sérios e políticos dessa saída e entrada em nova empresa, mas não, não tínhamos tempo! Por mais que tentasse explicar, ele não registrava que teríamos, brincando, umas duas semanas mortas para qualquer negociação. Amor, agiliza que a água bateu nos fundilhos! Se a gente não correr atrás disso a sério e agora, vai dar merda e vai sair caro!

 

Finalmente, não sei se ele entendeu ou se não me aguentou mais pentelhando, mas resolveu botar as pilhas e nos últimos dias a gente conseguiu ver alguma luz no fim do túnel. Nada ainda certo, mas a neblina está se abrindo.

 

Enquanto isso, na sala de justiça, deixa contar um episódio bizarro, mas engraçado. Eu fico procurando apartamentos pela internet. Daí, quando comecei a ver que talvez precisássemos de um apartamento intermediário antes de alugar o definitivo, lá fui eu para os classificados buscar “short term rental” (aluguel de curto tempo/termo). Abriu uma página que achei meio estranha, na primeira foto, uma mulher em roupa íntima e logo abaixo outros tantos anúncios de apartamento. Que esquisito… mas enfim, segui minha busca, achei uns dois apartamentos que pareciam interessantes e enviei a mensagem dizendo estava interessada. Pois é, então você recebe uma confirmação que sua mensagem foi enviada na sua caixa postal. Beleza. Fui checar pelo meu link se tinha as fotos dos tais apartamentos para enviar ao Luiz. Só que ao invés de ir direto ao apartamento, o link ia para a “home page”. Sem problemas, fui no motor de busca e digitei “short time rental”. Pois foi parar numa sessão que oferecia garotas de programa! Um monte de fotos de putas! E eu, caraca, que raio eu fiz? Será que ao invés de me candidatar a um aluguel de apartamento, me candidatei a uma suruba? Taquiupariu quequeufiz! Ainda deixei claro que era para meu marido e eu!

 

Bom, logo depois descobri que havia feito confusão com as palavras “term” (termo) com “time” (tempo), que quer dizer quase a mesma coisa, mas descobri que a conotação era outra! Menos mau, não estava buscando um ménage à trois.

 

Havia outra coisa bizarra nessa história, que era o preço cobrado. Sabe quando está bom demais para ser verdade? No início, preocupada se tinha feito alguma cagada e enviado meu e-mail a um cafetão, não havia me dado conta. Não ficava claro se o preço era por dia, por mês… Por isso, pedi informação a dois diferentes (apartamentos, não cafetões!). A resposta veio muito parecida, trocando uma palavra por outra, esquema seis por meia dúzia. Até aí, vai ver o website tem uma resposta padrão. Enviei por separado algumas outras perguntas e perguntei se poderia visitar o apartamento. Resumo da ópera, era golpe. Novamente, as respostas vieram super parecidas, o preço era estranhamente barato e eles só aceitavam visita depois de fazer um depósito. Ou seja, uma roubada total! Assim que, de uma maneira ou de outra, o objetivo do anúncio era me joder.

 

Hoje, novas portas se abriram. Luiz conseguiu falar com um apartamento que me pareceu muito bom, em princípio, se não perfeito, nos viria muito bem para começar. A imobiliária fecha nessa quarta-feira (depois de amanhã) e só abrirá no início do ano. Mas ele conseguiu, com um depósito, segurar o apartamento na primeira semana de janeiro. Realmente, espero que não seja outro golpe, não parece ser, mas em algum momento, precisávamos arriscar. E Luiz também entendeu o que estava querendo dizer quanto a não termos mais tempo. Agora é cruzar os dedos, torcer para esse apartamento ser o que parece pelas fotos e para a imobiliária ser honesta. Tenho bom pressentimento, se é que isso ajuda.

 

Compramos algumas caixas de papelão no fim de semana e amanhã começo a empacotar algumas coisas. Ainda não sei se faremos a mudança nós mesmos ou alguma empresa, mas pelo sim pelo não, melhor aproveitar esse tempo morto.

 

Também estamos doando e vendendo coisas e móveis. Já havia começado a fazer uma limpeza despretensiosa, como faço todos os anos, sem saber que mudaríamos. Com a notícia, ampliamos a oferta. Porque os aluguéis em Londres são radicalmente mais caros que na Espanha, e pelo menos no início, iremos para um apartamento de dois quartos, até nos localizarmos melhor.

 

Tenho pensado se faço uma festa de despedida, talvez um réveillon-despedida, para os exilados em Madri. Muita gente viajou, mas sempre tem quem fique. Não preciso nem dizer que com todo esse caos, não pensamos em por o nariz fora da cidade durante as festas. Assim que pode ser que funcione. A vantagem é que se os vizinhos reclamarem, não fará a menor diferença! Ainda que nas festas de fim de ano, as pessoas sejam mais razoáveis.

 

Minha ficha ainda não caiu totalmente, talvez porque tenhamos outras prioridades para resolver. Ou talvez, porque não seja tão longe daqui, não é complicado voltar para visitar os amigos. Também porque não é meu país de origem, digamos assim, até difícil encaixar isso na cabeça, porque há anos meu país é minha casa.

Não é minha primeira vez, nem a segunda, já conheço os passos. Não sei as respostas, mas sei boa parte das perguntas e isso faz muita diferença. A experiência nos dá atalhos e, principalmente, a companhia de um parceiro que navega na mesma onda, traz coragem recíproca. Se é com ele, eu vou.

Em alguns momentos, já me aperta o coração, sei que vem mais saudade para meu currículo, mas também sei que se por um lado ela dói, por outro me faz mais generosa e consciente de que somos efêmeros. Não sei se outras vidas terei, nem me importa, dessa, a única que tenho certeza, levarei até o osso! Tudo que não quero para meu epitáfio é a frase: e só nadou na parte rasa…

 

E assim, me despeço das “crônicas madrileñas”, deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar sorrir para não chorar e se alguém por mim perguntar, diga que só vou voltar depois que me encontrar…

 

Agradeço a companhia nessa viagem e espero vocês na próxima, que venham as crônicas britânicas! E quem quiser acompanhar, seja mais que bem vindo! Até breve!

http://www.youtube.com/watch?v=plOTKOJ32Os

11 comentários em “E só nadou na parte rasa…”

  1. Gostei muito do que você escreveu. Ri bastante de algumas coisas pois lembrei-me de como eu era tão corajosa…assim como vocês são…fiquei muito emocionada e achei belíssimo o que você escreveu no final. Que Jesus os acompanhe e que voces sejam muito felizes nessa nova jornada.
    Beijos de sua mãe.

  2. kkkkk! Amei, e… isso amiga, é nadar no fundo! Quando você menos esperar, já estara com a cabecinha fora d’ agua” Besitos ou… kisses and Happy Christmas ans a very happy new year !!!

  3. Linda Bibisssssssss!!!!!! Delícia ler tuas coisas, minha amiga!!! Te vejo em Londres ou no Brasil 😉 Madri, nem sei mais se volto 😛 Mas de uma coisa tenho certeza, não será mais a mesma sem vcs!!!
    BOA SORTE com tudo!!
    Ano novo, VIDA NOVA pra nós amiga!!! O resto vai se encaixando pouco a pouco…O que importa é a vida que a gente leva e as pessoas que fazem parte dela 🙂 Levo vcs no coração sempre!
    Beijosssssssssssssssssssssssss e BOA MUDANÇA!!!

  4. Te acompanhando há tantos anos nem me surpreendo mais. Na verdade a mudança é a tua rotina. Boa sorte pra vocês e muito sucesso pro Luiz no novo emprego. Ano Novo vida nova!

  5. Aiiiiiii socorroooooooooooooo rssrss!!! Amigos, que a nova caminhada seja duca! Londres que se prepare :-P!!! Beijoss e sorte sempre!

  6. Que legal Bianca!!! Que a correnteza calma das águas do rio Thames, o verde das arvores , esse ar que a chuva limpa, o céu magico que muda de cor quando menos se espera , de para vocês um lovely WELCOME Bianca e Luis 🙂 Assim como deu a mim. Adorava Madrid, mas o mundo e tão grande, com varias culturas para descobrir e viver ne?! Boa viagem!!! xxx

  7. Olá Bianca,

    Na minha teoria mudanças são sempre boas pois trazem algo de novo 🙂

    Em relação à mudança terás que procurar uma empresa que faça grupagens (levarem vários cliente juntos) para ficar bem mais barato, como não conheço nenhuma em Espanha aconselho a que peças orçamento para http://www.transportesbeleza.pt, é uma empresa portuguesa mas como fazem serviços para toda a europa pode ser que fique um preço acessivel.
    Vai dando noticias e desejo-te tudo de bom 🙂

    Beijos

    Andreia

  8. Bi, ri muito, sempre é divertido e agradavel ler suas cronicas… e nao deixe de escrever por favor… assim vamos compartir um pouco da vida de vocês, dessa nova aventura, nova fase de felicidade na vida de vocês…. Beijos e com certeza vamos seguir em contacto e nos veremos seguramente!!!!!!!!!
    Adoro vocês!
    Patricia Sapao

  9. Bianca e Luiz que vocês sejam muito felizes em Londres…E que a sua alegria atraia muitos amigos por lá também. Desejo a vocês dois um Feliz Natal e um lindo ano de 2013.
    Um beijo grande e muita sorte pra vocês.

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