Ajustar a rotina

Quinta-feira e a casa ficou vazia com a ida do meu irmão e minha cunhada. Paciência, melhor me manter ocupada. Aprendi a conviver com despedidas de uma maneira muito madura: faço de conta que elas não aconteceram. Simplesmente, tento não pensar e me ocupar com outra coisa.

Do que iria reclamar? Um mês que mudei para um país novo e já tive visita de alguém da família! Não é uma sorte?

A casa ainda precisava terminar de ser arrumada e foi o que tentei fazer. No final do dia, com tudo mais organizado e limpo, sentei na sala e me toquei que ainda não havia feito isso desde que a mudança chegou. Com a chegada dos nossos hóspedes, preferi desfrutar da companhia e da cidade, o que acredito ter sido a melhor opção.

Agora, tinha um tempinho para curtir o apartamento, reencontrar objetos, pensar no que cozinhar, fazer umas compras decentes…

Resolvi fazer minhas primeiras compras por internet. Sim, porque enquanto as visitas estavam por aqui, nossa internet começou a funcionar. Teoricamente, a TV também, mas só fomos, quer dizer, Luiz só foi instalar tudo depois que já estávamos sozinhos.

Enfim, nesse período que moramos aqui, havia visto umas duas entregas na rua do Ocado, inclusive, uma no exato dia da nossa mudança, quando sua van estacionou no mesmo local proibido que o nosso. Verdade que a entrega deles era muito mais rápida que nossa mudança.

Muito bem, fui para internet, decobri o website, me cadastrei, fiz minhas compras direitinho. Já adianto que chegou tudo perfeitamente e no horário, gostei. Você vai recebendo mensagens no seu celular, avisando que suas compras estão chegando, se tem tudo que você pediu, o nome de quem fará a entrega, todos os detalhes. Ótimo, menos um pepino! Compro o que for mais pesado por lá e os frescos pela redondeza, até bom ter algum pretexto de passear aqui em volta.

Fui a um açougue na Clifton Road, onde anunciam que a carne é orgânica! Acho engraçado isso, a outra opção seria carne de plástico? Mas enfim, escaldada de comprar carne bombada de hormônios nos EUA, achei melhor nem arriscar aqui e ir direto a um açougue que me inspirasse confiança. Ali chegando, fui tentar identificar os cortes ingleses, não tinha muita certeza do que comprar. Achei um lombo de cordeiro com boa cara e pedi um pouco de paciência ao açougueiro, porque era minha primeira vez comprando carne por essas bandas e ainda estava entendendo os cortes. Ele me pergunta simpático de onde eu era e logo em seguida, me disse que era português. Perfeito, então vou te perguntar tudo! E agora é o açougue que frequento.

Na sexta-feira, tinha uma consulta para definir quem será meu médico. O sistema de saúde na Inglaterra é basicamente público, há algo de medicina privada, mas a maioria frequenta o do governo mesmo. Nós temos direito a um plano de saúde privado pelo trabalho do Luiz, mas quis fazer a coisa direito.

Para ser sincera, ainda estou entendendo como funciona essa história por aqui, mas acho que é parecido à Espanha, com o sistema público ainda mais forte.

É assim, você precisa ter um “médico de cabeceira”, eles chamam de “GP” (General Practitioner), que é um tipo de clínico geral que acompanha seu histórico. Tudo que você sente de diferente, é no GP que você vai primeiro, e dali, ou ele mesmo resolve, ou vai te encaminhar para um especialista.

Então, logo que você chega ou muda de endereço, precisa procurar qual é o centro de saúde mais próximo, vai até lá com seu documento de identidade (passaporte), um comprovante de residência (contrato de aluguel, correspondência etc) e faz sua inscrição.

Perto da nossa casa, havia dois centros de saúde. Luiz pesquisou pela internet e um era muito mal avaliado e o outro muito bem avaliado (vai entender). Claro que fui no bem avaliado, mas não sabia se iriam me aceitar. Não foi complicado nem burocrático.

Como tenho mais de 40 anos, precisei passar por um tipo de triagem, algo simples, uma consulta com uma enfermeira para contar a ela meu histórico de família, medir pressão, anotar meus dados pessoais etc. Achei até muito bom e ela foi bem simpática.

Ela me perguntou há quanto tempo eu não fazia meu “smear test”, que não sabia, mas entendi que se tratava do exame ginecológico preventivo, o tal papanicolau. No Brasil, a recomendação é que façamos esse exame anualmente, mas já haviam me avisado que aqui eles faziam de 3 em 3 anos. Então, menti logo: acho que tem uns 3 ou 4 anos que fiz o último… E assim ela já marcou no mês que vem para eu fazer.

Igualmente pela idade e porque estava iniciando meu processo naquele GP, ela me disse que tinha o direito a pedir um exame de sangue para saber o estado geral de colesterol, açúcar etc. Perguntou se eu queria, claro que quero, não me custa nada saber como ando. Também já marquei para o mês que vem.

E o detalhe é que o tal centro médico é na esquina de casa. Espero que realmente seja bom, mas pelo menos a primeira impressão foi positiva. Verdade que não tenho a intenção de ir com frequência, isola! Mas são coisas que fogem ao nosso controle e é bastante complicado dividir o pouco tempo que tenho no Brasil de férias, para consultar médicos de confiança.

Há coisas que parecem bobas, mas como diz o ditado, o diabo mora nos detalhes. E resolver esses “detalhes” de arrumar a casa, receber correspondência no meu nome, ter instalada a internet, descobrir onde fazer as compras, fazer a entrevista para ter meu NINo, me cadastrar no centro médico e ser encaminhada a um GP… era fundamental para eu começar uma rotina. Francamente, não me considero uma pessoa rígida e estou disposta a me adaptar às mudanças pelo caminho, mas há uma diferença gigantesca quando você começa certo em qualquer lugar.

E eu queria começar certo.

Por um lado, isso me trouxe uma ansiedade adicional no primeiro mês. Não foi fácil chegar. Não cheguei adorando nem deslumbrada (como em Madri, por exemplo). Nem quero entrar na comparação de países, porque como costumo dizer, quem compara sempre perde. Só estou usando a referência porque a gente aprende com a experiência, ou deveria aprender. E por experiência, sabia que tinha passos a dar, problemas a resolver, expectativas que eliminar ou minimizar.

É engraçado porque as pessoas são imediatistas e é uma pergunta normal o: e você está gostando?

Para mim, era muito difícil responder essa pergunta até agora. Porque não podia gostar (ou não gostar) se eu ainda não conhecia.

Falta muito por fazer e conhecer, e acho estimulante que seja assim, mas só após o primeiro mês e esses, digamos, detalhes resolvidos, agora posso dizer: sim, eu gosto!

O clima poderá ser um problema em algum momento, é o que todo mundo sempre diz, morando ou não morando aqui. Talvez em algum momento, mas agora não. Não está me deprimindo e estou dormindo que é uma beleza! Durmo cedo e acordo cedo sem sofrimento. Acho que o único lugar que dormi tão bem tantos dias seguidos foi no deserto da Jordânia. Mesmo assim, estava de férias e foi por pouco tempo. Portanto, se algum dia o cinza de Londres for um problema, a gente vê o que fazer para resolver. Por enquanto, não é.

A distância da família é um problema? Sim, mas convivo com ele há quase 10 anos, não é novidade. Se considerar a mudança dentro do Brasil para São Paulo, há 20 anos! Se eu gostaria de participar mais, de ver mais, de estar mais? Claro! Mas não acho que isso me converta em ausente. Da maneira que posso, da melhor possível, sigo parte da família.

A distância dos amigos é um problema? Não, é uma saudade. Não conheci outra vida que não fosse mudando, me distanciando e reencontrando. Assim que chegou o momento que entendi que esse é o meu normal, não uma contingência. Só me faz valorizar mais as pessoas no presente, quando posso estar com elas, estou de verdade, me esforço, procuro, chamo. Tem gente que precisa de um pouco mais de espaço, de distância, e respeito isso também. Se não posso estar pessoalmente, daremos nosso jeito, e quando a gente tiver que se despedir ou se reencontrar, não vou fazer drama, será como se fosse ontem.

8 comentários em “Ajustar a rotina”

  1. MINHA QUERIDA ,SEUS SENTIMENTOS E PALAVRAS,SÓ DEMONSTRA
    O QUANTO VC É INTELIGENTE EM VIVER A SUA VIDA.NÃO COMPLICAR,NÃO ESPERAR MAIS DO QUE O NECESSARIO É A CHAVE DO CAMINHO PARA A PAZ INTERIOR,DEIXAR FLUIR O DIA A DIA,FAZER SEMPRE O SEU MELHOR JÁ TA BOM DE MAIS.BEIJOS MARIZA.

  2. Nossa! As palavras da Mariza Salvi te resumiu bem Bianca. Eu sempre gostei de ler teu blog por isso, é como aquelas heroinas dos livros, fortes e sabem seguir em frente. Ou como um dia comentei pra ti… Bianca Fenix rs Bom fim de semana pra voces. Fica bem xxx

  3. Obrigada, Ana! Assim fico sem graça… rsrsrsrs… muito bom te conhecer e saber que você é essa pessoa generosa e sensível! Beijo

  4. Olá Bianca,

    Realmente adoro ler o teu blog, talvez porque também eu tento viver um pouco dessa forma, sem cobranças e sem “ses”… pois são os se isto ou se aquilo que muitas vezes acabam connosco 🙂

    Estar longe não é o mesmo de estar ausente e tu és o exemplo disso apesar de estar noutro continente estás sempre presente para os que amas…

    Beijos e continua a divertir-te

    Andreia

  5. Olá Bianca,
    Tenho lido seu blog nas últimas semanas e confesso que tem me ajudado bastante no meu processo de mudança pra Londres, não tá sendo nada fácil mas acredito que vá melhorar ao final desse primeiro mês aqui.
    Gostaria de saber onde você encontra as clínicas, tem algum site que mostra os centros para cada região?
    Obrigada,
    Eliza

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