Sanduíche de festas recheado com rodízio de hóspedes

Como sempre, nossa vida esse marasmo, né? Movimento pouco é bobagem!

 

Conseguimos descansar na terça e na quarta-feira, um intervalo para pegar fôlego e seguir na maratona.

 

Na quinta, chegou em casa uma amigona do meu tempo de colégio de Brasília. Ela já morou um ano aqui em Madri, perto da onde moro hoje. Assim que a programação já estava definida: qualquer coisa, desde que terminássemos no El Junco!

 

Luiz em fechamento de ano fiscal, trabalhando enlouquecidamente. Na verdade, era exatamente o dia do encerramento.

 

Então, fui minha amiga e eu para o Olé Lola. Gosto de lá pelo ambiente lounge e da possibilidade de beber e comer, coisa que não é tão comum aqui. Boa parte dos bares, depois das 23h só serve bebida. Costuma rolar uma boa música eletrônica também. E assim foi, ficamos por lá até umas onze e pouquinho, quando chegou Luiz. Foi direto do trabalho nos encontrar e tomar uma única dose conosco.

 

Luiz voltou para casa, afinal, ainda que tivesse encerrado seu ano, ainda trabalhava no dia seguinte. Estava cansado, mas bem. Seus resultados foram excelentes, principalmente considerando a situação do país.

 

Nós seguimos para o Areia, mais para minha amiga matar a saudade. Pelo menos não estava tão cheio e deu para a gente sentar e conversar um pouco.

 

Finalmente, toca para a melhor casa noturna de Madri, na minha opinião, El Junco. Acho as noites de quinta por lá as melhores. Geralmente, a música ao vivo rola até uma e meia da manhã, e logo entra o DJ. Mas nas quintas, acontece uma real jam session e os músicos saem brotando na casa e prorrogam a festa até depois das três. Meu amigo barman estava por lá e me serviu minha tradicional dose cavalar de single malt.

 

Confesso que pelas duas e pouco da matina, estava meio morta. Depois a casa estava cheia e eu derretendo de calor! Chamei minha amiga para irmos embora. Coisa rara, porque geralmente, sou eu que saio puxada dos lugares.

 

Na saída, a porta estava meio pesada para abrir, me distraí com isso e esqueci que tem uma porcaria de um degrauzinho, que o porteiro sempre avisa, mas justo esse dia não lembrei. Eu com um salto plataforma de uns 10cm, pisei torto. Tinha duas alternativas, tentar não cair e correr o sério risco de torcer o tornozelo, ou aceitar o destino, relaxar o corpo e cair com o menor dano possível. Fui pela segunda alternativa, me estabaquei bem na porta do El Junco! Nem sei direito o que fiz, mas dei um jeito de rolar para não torcer o pé e amorteci com os joelhos. Em segundos o porteiro já tinha me levantado. Fiquei meio desconfiada, porque tinha tudo para ter me machucado feio, mas fui conferindo aos poucos e, tirando minha dignidade, o resto seguia muito bem.

 

Depois de confirmar que não estava lesionada, saímos rindo para casa do mico. E o pior é que a noite inteira só havia bebido duas doses, ou seja, que nem na bebida podia por a culpa! Paciência, hematoma é feio mas se cura logo, o importante foi não torcer nem quebrar nada!

 

Minha amiga ainda estava meio tontinha e queria andar mais um pouco para não acordar ruim. Então, ainda demos uma volta caminhando pela Plaza 2 de mayo e as ruas das redondezas. Pelas três nós chegamos em casa.

 

No dia seguinte, essa amiga viajou para Portugal, mas deixou uma mala aqui em casa, porque voltaria.

 

Na sexta-feira, tinha um super jantar para oferecer. Temos amigos que se casaram há pouco e vão se mudar de país. De maneira que era difícil dar um presente de casamento, porque eles não irão contratar uma empresa de mudança. Por isso, queríamos fazer alguma coisa que eles pudessem se lembrar depois.

 

E assim foi, como ela é baiana, queria dar um toque de memória afetiva no cardápio, que foi o seguinte: amuse bouche, ninho de ovo de codorna com caviar e canapé de kani e curry; entrada, um duo de texturas, mini souflê de queijo coalho e bolinho de moqueca; primeiro prato, bobózinho na moranga; prato principal, Beef Wellington com queijo arzúa e creme de batata trufada; queijos; sobremesa, tiramisú de tapioca com redução de Porto e amoras. O maridaje feito com Champagne Heidsieck Monopole Rosé, Vinho tinto Lacoste-Borie – Pauillac 2000 e Vinho do Porto Noval Black.

 

Depois é só pedir uma ambulância e sair rolando! Enfim, achei uma delícia o jantar e a companhia.

 

No sábado, pela manhã, recebemos outro casal de hóspedes. Bianquinha escondeu a mala da primeira hóspede e preparou o quarto para os novos ocupantes. O marido, Luiz e eu conhecemos desde a época que ainda éramos namorados, trabalhávamos os três na mesma empresa. A esposa, conhecemos há uns três anos mais ou menos e já nos encontramos em alguns países diferentes. Eles iam para Istambul, e dormiram duas noites aqui de passagem.

 

No próprio sábado, tínhamos já agendado um churrasco para ir. Mas realmente, para nossos visitantes, não fazia muito sentido ir para a casa de alguém. Melhor aproveitar para descansar um pouco da viagem e passear pela cidade. Como moramos bem no centro, é muito fácil se locomover. Deixamos com eles uma chave de casa e seguimos a programação.

 

O tal churrasco foi show de bola! Animadérrimo! Costumamos ter música ao vivo nas festas aqui de casa, mas é algo muito democrático, toca quem quiser, se quiser e o que quiser. Os amigos dessa casa também queriam músicos e chegamos a conclusão de que era só contratar e dividir entre os convidados, assim não era pesado para ninguém e também ficávamos à vontade. Porque é difícil separar a amizade do trabalho e nossos amigos músicos vivem disso, né? Pois foi ótimo! Chamamos dois amigos para tocar, eles levaram som, microfone e conduziram a bagunça. A gente levou mais um monte de instrumentos e participou da farra. Adicionalmente, foi um dia gostoso, a temperatura estava boa, as pessoas ficam mais alegres quando o inverno acaba e rolou uma energia muito bacana.

 

Chutei o balde com vontade e acho que sigo com minha resistência à bebida. Pelo menos, da parte que me lembro, e como se eu não lembro eu não fiz… acho que estava ótima! Porque se não tomei sozinha uma garrafa de cachaça, cheguei bastante próximo a isso.

 

Mas nosso sábado não acabava aí! Lembra que tínhamos hóspedes? Pois é, saímos do churrasco antes do final, até porque as festas dessa galera são intermináveis, e voamos para casa. Tínhamos jantar já reservado.

 

Encontramos nosso casal de hóspedes e fomos para o Nikkei 225, uma fusão gourmet de peruano com japonês. Outra chutada de balde impressionante! Degustação completa, acompanhada de duas garrafas de vinho. Tudo uma delícia, jantar e companhia.

 

Chegamos em casa e depois de tanto álcool na cuca, me dá vontade de conversar com Luiz. Fico falante e emotiva que é uma beleza! Tive uma certa recaída em relação a todo esse processo da gravidez. Ainda é tudo muito recente para estar bem resolvido. Por um lado, me sinto aliviada, leve e com vontade de recuperar minha essência. Ao mesmo tempo, um pouco frustrada e bastante insatisfeita com meu corpo. Sei que vou me recuperar, mas por enquanto, nem roupa eu tenho vontade de comprar. Felizmente, o último mês sem progesterona já começou a refletir e estou menos inchada. Também voltei a correr e a pegar mais pesado nos exercícios, assim que pouco a pouco acho que as coisas voltam para o lugar.

 

Luiz acha que eu exagero e eu não acho, tenho certeza. Mas para mim é difícil fazer qualquer coisa pouco, eu não sei fazer só um pouco. Meu equilíbrio é sempre nos extremos, nunca no meio. Não sei se isso um dia muda, nem se quero mudar.

 

Domingo amanheceu e de dia as coisas ganham outra perspectiva, voltam ao seu tamanho real. Acordamos por volta das onze, porque queríamos almoçar em Cuenca. Não acordei exatamente de ressaca, o que é impressionante considerando o dia anterior, mas estava com uma preguiça de lascar! Ainda assim, não íamos perder o domingo, muito menos decepcionar nossos hóspedes, então, bora para estrada!

 

Cuenca fica há umas duas horas de Madri, é uma cidadezinha charmosa, cuja principal atração são as “casas colgadas” (penduradas). São casas construídas por penhascos. A natureza dessa região é bastante interessante e mais interessante ainda como a cidade se adequou a esse contexto. Há uma série de construções também do século XVII. Enfim, almoçamos por lá e passeamos um pouco. Ainda que estivesse sonolenta, gostei do passeio.

 

Na segunda-feira, pela manhã, esse casal seguiu para Istambul. Mas lembra que tinha uma amiga antes em casa que foi para Portugal? Pois é, foram eles saírem e ela chegar! Alta rotatividade!

 

E à noite, era a festa de comemoração dos 50 anos da Casa do Brasil. Organizaram um evento aberto nos seus jardins com Dj Pureza e a Maíra Freitas (filha do Martinho da Vila). E lá fomos nós!

 

Gostei de ter ido e encontrar os amigos, para variar um pouquinho. Mas dessa vez, assim que acabou o concerto, nós puxamos o carro, porque haja resistência! Nossa hóspede tinha a chave de casa e precisávamos descansar.

 

Hoje é terça-feira e já vi que a programação seguirá. Minha amiga fica em casa até quarta à noite e na quinta pela manhã volta o casal que está em Istambul. Dormem outra noite e seguem para o Brasil.

 

Mas essa já é outra história…

Muita, mas muita música boa!

Nem sei por onde começar, porque nessas últimas semanas me passou toda uma vida! Para minha sorte, um fio condutor feito de música e de amigos entrelaçados.

 

Como tenho que começar por algum lugar, começo pelo fim de semana anterior. Uma amiga música me pediu palpites em umas letras que está compondo para o CD novo. Se eu topo? Nossa, toda uma honra! Dá até um pouco de nervoso pela responsabilidade, mas a verdade é que tinha certeza que viria coisa boa e pronta, então tudo é mais fácil.

 

Há algum tempo, tive vontade de abrir uma categoria nova no blog, chamada justamente “letras para músicas”. Estava com uma certa vontade de compor, mas ao mesmo tempo, me sentia meio manca porque meu negócio são as palavras, me falta conhecimento musical para complementá-las.

 

Em outro momento dessa mesma semana, um amigo músico, que pelo que entendi, trocou figurinhas também com ela, veio falar comigo que se estivesse interessada em compor, a gente podia tentar alguma coisa.

 

Achei o máximo! E o engraçado é que a possível proposta veio depois de uma conversa que tive com um terceiro amigo músico, onde contava como me sentia privilegiada de estar em um ambiente com tanta gente talentosa ao mesmo tempo! Falava que a música tinha um espaço muito importante dentro da minha vida e que, finalmente, era um idioma que entendia, ainda que não soubesse falar direito.

 

Como a gente precisa ter cuidado com o que deseja, não é que alguns minutos depois, recebi a possibilidade de um “tradutor” que me ajudasse a fazer parte desse contexto?

 

Não sei o que virá por aí, mas a oportunidade me empolgou.

 

Nessas últimas semanas também houve duas coincidências em encontros. Uma da minha turma de colégio, que nos formamos juntos na 8ª série (Escola Paroquial Santo Antonio) e outra da turma que nos formamos no 3º ano (Colégio LaSalle). Por alguma ironia do destino, afinal são amigos diferentes, começamos a nos reencontrar virtualmente, através do Facebook, no mesmo período. Resultado, se já sou uma viciada em redes sociais, imagina com esse povo resurgindo das cinzas!

 

Do pessoal do Santo Antonio, tinha mantido contato com vários, mas além de terem aparecido novos amigos, agora reunidos em um grupo de tão fácil acesso e que podemos trocar fotos e lembranças, ganhou nova dimensão. É muito bacana ver como as pessoas evoluíram!

 

E o segundo grupo também é muito especial para mim. Cursei o segundo grau quase todo em um colégio, mas no último ano estava bem de saco cheio, enfim, longa história que ficará para outro dia. Assim que mudei para o Colégio LaSalle quando já havia começado o segundo semestre. Não tinha grandes expectativas de fazer amizades, afinal, estava pegando o bonde literalmente andando. Minha preocupação era simplesmente fazer um bom vestibular e escolher minha faculdade.

 

Acontece que fui mais do que bem recebida e o pessoal era show de bola! Rolou uma afinidade entre os alunos que nem sei explicar da onde vinha, mas terminamos o ano como um grupo muito unido e querido. Acho que foi a primeira vez que me senti parte de uma turma como um todo, sem as famosas “panelinhas”.

 

Agora, encontrar o pessoal, grisalho, com filhos, com carreiras definidas… é muito louco! Faz a gente voltar no tempo e se sentir com 16 anos outra vez, mas sem as inseguranças adolescentes, só com a energia e a crença que a gente podia tudo!

 

Eles já se encontraram em Brasília. Eu só consigo participar virtualmente e por fotos, por enquanto, mas tem sido viciante!

 

E voltando ao mundo real, na quarta-feira, foi o concerto em homenagem a Urano Souza, um músico “das antigas”, que leva em Madri quase 30 anos. Uma parte considerável dos músicos brasileiros que chegaram ao país, tiveram as portas de alguma maneira abertas por ele. Assim que, nessa homenagem, também vieram para dar sua contribuição musical. Então, imagina essa fera no palco acompanhada de uns 20 músicos de primeira linha! Imaginou? Pois multiplica por mil! Uma explosão de talento que chegou a emocionar.

 

Na quinta-feira, outro tremendo concerto do David Tavares em quarteto. É um monstro no violão e, dentro do quarteto, ainda estava acompanhado do Evaldo Robson (flauta e sax), outra fera que tocou com gente pequena como Tim Maia e Maria Betânia.

 

Ainda tinha outro concerto no mesmo dia do Arturo Lledó, que a gente ama de paixão, mas infelizmente, não conseguimos nos duplicar e comparecer a todos. O próximo a gente não perde!

 

Enfim, não costumo falar em nomes aqui no blog, mas para contar sobre concertos, às vezes fica difícil não citar, considero que shows são públicos e artistas precisam de divulgação. Ouvir esse pessoal a meio metro de distância, quando não na sala da minha casa, é uma experiência ímpar que tem me aberto um horizonte gigantesco de uma linguagem universal, a música. Então, hoje, de alguma maneira, abro uma exceção porque queria dizer o nome de vários. E sinto muito se faltar alguém, mas é que aqui só me sinto no direito de contar minhas histórias.

 

E dito isso, seguimos. Nesse concerto do David, Luiz chamou o pessoal do seu trabalho. Eles estão em uma época ocupadíssima, porque é fechamento de ano fiscal. Mas pareceu uma boa idéia dar uma relaxada e quebrada nesse clima com um show de música boa e tranquila. Acabou que foi só um casal, que achei muito simpático. Foi legal falar mais em espanhol, porque com a quantidade de amigos brasileiros que temos, às vezes sinto falta de exercer um pouco minha segunda cidadania. Além deles, mais alguns amigos compareceram e conhecemos outro casal de brazucas que parecem bem animados. Assim que nossa família segue crescendo…

 

E falando em família, e porque tudo na vida é misturado, na sexta-feira, primeiro horário, eu precisava fazer um teste de gravidez. Dessa vez, meu médico me recomendou um exame de sangue. Uma maneira de adiantar o resultado, afinal assim consigo a resposta uma semana antes e isso representa uma semana menos de ansiedade. Ele sabe que estou no meu limite e acho bacana que tente fazer com que o processo seja o menos complicado possível.Pediu urgência no resultado, que saiu pelas 19h30. Foi negativo.

 

A gente tinha um jantar para ir na sexta-feira, na casa de amigos espanhóis que adoramos e infelizmente temos pouca chance de nos encontrar. São inteligentes e engajados, aprendo muito com eles sobre a cultura espanhola em sua melhor parte.

 

Estava me maquiando quando o médico me telefonou para dar o resultado. Tinha expectativas positivas, porque sentia alguns sintomas, assim que foi algo decepcionante.

 

Por outro lado, foi um decepcionante rápido. Ensaiei uma vontade de chorar, mas não queria borrar minha maquiagem, não queria mais sofrer e não me caiu uma lágrima. Na minha cabeça só vinha, chega! Hasta aquí hemos llegado! Admito que estava um pouco puta, mas não estava triste, até porque nem aguento mais ficar triste por isso. Raiva é bem mais fácil de administrar do que tristeza. Deixa eu terminar de me maquiar, porque não quero me atrasar.

 

O jantar foi uma delícia e juro que não precisei disfarçar nada, não fiquei me martirizando. Na verdade, deixei esse assunto para depois e aproveitei o momento.

 

Na volta para casa, pensei um pouco a respeito, até para me entender melhor. Só tinha vontade de começar a me cuidar, fazer um regime mais sério, algum tratamento que me ajudasse a perder peso ou me deixasse mais bonita. Queria planos, por mais fúteis que fossem, queria estar bem na pele que habito. Não tinha mais vontade de pensar em sacrifícios para uma terceira pessoa que talvez nunca exista, queria cuidar de mim. Estaria em processo de negação? Será que era isso? Porque aceitei o não de maneira tão conformada que estranhei. Mas aceitei.

 

Tenho mais dois meses de tratamento, os quais vou cumprir. Afinal, tem muita gente que precisa que os outros não desistam, então, não me custa dar um pouco de esperança alheia. Mas sem progesterona e sem prioridade. Honestamente, mais para não decepcionar a família e alguns amigos do que por mim mesma. É impossível que aconteça? Não, não é. O ponto é que eu não acredito mais. Levo mais de três anos em tentativas incertas e quase um ano a sério nessa brincadeira, como prioridade absoluta, acontece que uma hora isso precisa ter um fim. Tenho uma atitude que nem sei se é boa ou má, mas é assim, me preocupo ou sofro enquanto é “talvez”, com o “sim” e com o “não”, sei lidar.

 

Certa ou errada, me sinto bem, leve e morrendo de vontade de voltar a ser ruiva!

 

E seguindo com nossa maratona, no sábado, almoço de aniversário de uma amiga. Seu marido, só para variar um pouquinho, também é músico, o Tinho. Que aliás, dá palhinhas excelentes aqui em casa nas festas! Comemos um strogonoff  divino, mas na hora que começou o samba, puxamos o carro, porque ainda tínhamos longo caminho pela frente.

 

Porque, na noite de sábado, tinha mais um concerto imperdível! Os personagens principais eram Vaudí Cavalcanti e Armandinho Macedo, duas feríssimas e vulcões de energia! Tocavam com Rogerinho, Mankuso, David Tavares e Fábio Neto. A Surama, esposa do Armandinho, também deu uma canja. Temos a sorte de conhecer todos e me sentia em casa! Generosos, não deixaram distância entre palco e plateia, tudo junto e misturado! Show para a gente se acabar e é lógico que a gente se acabou!

 

Antes, fizemos um “esquenta” na casa de uma amiga que morava perto de onde seria o evento. Cheio de coisinhas deliciosas para beliscar e bebida à vontade. É que no lugar do show, a bebida tinha a tradição de ser meio cara, então uma amiga foi logo dizendo que precisávamos já chegar no local todos “bonitos”! Pois chegamos lindos e maravilhosos! Uma galera de gente legal!

 

Engraçado que sempre leio coisas do tipo, amigos de verdade se contam com os dedos da mão, são raros e poucos. Às vezes, tenho a sensação que se desvaloriza o fato de se ter muitos amigos, como se a qualidade nesse caso fosse diretamente prejudicada pela quantidade. Eu acreditei nisso muitos anos, mas quer saber, hoje em dia acho esse um jargão sem sentido, uma besteira! Se a pessoa é tímida e prefere círculos mais reservados, não vejo o menor problema, mas se tem algum bobo contando os amigos nos dedos da mão, aviso que está no lugar errado, porque na mão não deveria caber nenhum. No meu coração (e no do Roberto Carlos) cabe um milhão!

 

Se posso contar com todos eles? Sei lá! Para que vou fazer amigos pensando em me ajudar nos meus problemas futuros que nem sei se existirão? Sei que eles podem contar comigo e isso mais do que me basta. Essa matemática é minha favorita, porque quando mais damos, mais recebemos.

 

Enfim, como disse, o show foi alucinante! Quando terminou, ainda ficamos por lá decidindo para onde seguir. Mas imagina chegar a alguma conclusão com esse povo todo, né? Nós descemos e ficamos esperando um pouco. Até que foi me dando fome, Luiz começou a me lembrar dos prazeres de ficar em casa agarradinho no ar condicionado… e resolvemos sair de fininho. Nem nos despedimos, achando que ninguém ia notar nossa falta, segredo de liquidificador total!

 

Em casa, ainda fui para cozinha fazer calabresa e mandioca com manteiga de garrafa, estava com desejo!

 

Já cansou? Pensa que acabou? Na-na-ni-na-não!

 

Domingo, acordamos com o telefone. Um amigo chamando para comer uma feijoada aqui perto, no Gula Gula. Também rolaria uma roda de samba. Ai, meus orixás, lá vamos nós! Mas a verdade é que depois da chutada de balde do sábado, uma feijuca caiu como uma luva. Na nossa mesa, todo mundo se encharcando de tomar água, a bebida mais radical era guaraná! Afinal, ressaca pouca é bobagem! Enfim, sobrevivemos!

 

Daí chegou segunda-feira, dia de ficar em casa, certo? Certo para quem cara pálida?

 

Foi a despedida do Fábio Neto, outro super músico que está indo embora para o Brasil, depois de uns 20 anos por essas bandas. Sorte dos cariocas! O considero bem completo, joga em diferentes posições e sempre faz gol! Não tinha como perder!

 

O local desse evento foi o Oba Oba, cuja reputação é, diria, duvidosa. A frequência geralmente inclui certas mocinhas trabalhadoras e seres bastante estranhos. Apesar do que, os músicos são sempre muito bons. Acontece que esse dia seria especial, pois a casa estaria cheia de amigos. Então, estávamos todos protegidos pelos deuses da boa energia!

 

Outra noite difícil de descrever, só feras! Além do próprio Fábio, dentro do recinto e participando ativamente, Urano Souza, Flávia Enne, Pedro Moreno, Evaldo Robson, Mankuzo, Rogério, Anderson Bezerra, Wagner Neto, Batata Galiza, Douglas Aguiar, Tinho, Cabelinho do Cavaco, Marreta, Diego Ebbeler… e a lista seguia. Cito esses só para dar uma idéia em que padrão ia a coisa. Pelas tantas, chega Surama e Armandinho com sua guitarra enfurecida para canjear.

 

E eu babando por poder fazer parte dessa história.

 

Tentei vir embora a primeira vez, não consegui, acabei voltando. Fui felizmente convencida por amigas, enquanto Armandinho dava um pulo no hotel para buscar sua super guitarra. Como é que perderia isso, né? Enfim, da segunda vez, nem me despedi de novo, saí à francesa porque senão, só amanhã de manhã… Assim que tenho certeza que perdi o finalzinho, mas simplesmente, precisava ir para casa.

 

Estava em um tipo de transe, em êxtase musical! Tinha uma necessidade louca de caminhar e sentir o ar fresco da madrugada pelas narinas.

 

Luiz também foi ao concerto, mas precisou voltar antes, porque acorda muito cedo. Eu estava tranquila, esse é o lado melhor de viver em província, a gente conhece todo mundo mesmo e as ruas são razoavelmente seguras.

 

Por isso, não tive a menor dúvida em voltar caminhando sozinha para casa. E foi um prazer passear pelas ruas já tranquilas e com a maioria das pessoas dormindo. Me senti outra vez privilegiada, especial, protegida. Sensação de lucidez, de saber, de outra vez poder tudo.

 

A música salva e liberta!

Segunda-feira, no médico…

Lá fui eu para minha consulta de rotina.

 

É assim, se espera a regra baixar e pelo quinto dia começo a tomar um estimulante para ovulação por 5 dias seguidos, um comprimido pela manhã e outro pela noite.

 

Daí, tenho que ir ao médico para ele checar como vai a tal da ovulação e pelas medidas que ele tira, faz as contas dos meus dias férteis. Assim, que todo mês vou ao ginecologista fazer uma ecografia para ele definir meus dias de “procriação”.

 

Não é tão ruim quanto soa, na verdade, até que a gente leva no bom humor. Às vezes, tenho que ir depois para checar se ovulei mesmo e já chego logo dizendo: fiz meus deveres de casa direitinho! Ele ri e sinto que fica na maior torcida para que eu engravide mesmo. É bom que me anima.

 

Mas na última consulta não cheguei tão animada. Queria conversar com ele sobre parar de tomar os hormônios e estava com algumas dúvidas. Ele percebeu logo e, felizmente, teve a sensibilidade de me ouvir e esclarecer melhor algumas coisas.

 

Primeiro, porque minha última menstruação foi a coisa mais estranha do planeta. Atrasei uns 3 ou 4 dias e sou um relógio. Logo veio cheio de coágulos. Estava desconfiada que fecundava, mas o embrião não seguia. Ao mesmo tempo, não sabia se isso era coisa da minha cabeça. Até porque os testes de gravidez de farmácia me davam sempre negativo.

 

Ele achou que era uma teoria possível, na verdade, até concordava com ela. Não achei o melhor dos mundos, mas de certa maneira, senti que posso reconhecer algumas sensações físicas e que não era simplesmente loucura minha. Também me disse que era um bom sinal, porque ainda que o ideal fosse a gravidez, meu corpo segue reagindo.

 

Perguntei se isso queria dizer que eram meus óvulos que já não estavam bons e por isso não evoluíam. Ele respondeu que poderia ser, mas não necessariamente, há outros fatores que poderiam influenciar. O que também me tranquilizou.

 

Expliquei que estava cansando e antes de seguir, ele já me adiantou que eu estava no quarto ciclo de tentativas e que se tenta no máximo seis. Assim que, eu não sabia, mas havia um final previsto. Tinha decidido tomar os hormônios só mais esse mês, mas diante dessa resposta, prefiro fazer o seis ciclos completos. Mais um, menos um…  fico tranquila e não tenho a responsabilidade por essa decisão. Não sou eu que preciso desistir, se for o caso.

 

De qualquer maneira, eu normalmente preciso começar a tomar progesterona a partir dos dias férteis. E é o hormônio que mais tem me enchido o saco. Perguntei se a gente não podia cortá-lo e, se realmente engravidasse, voltava a tomar imediatamente.

 

Ele me explicou que, na minha idade, é normal as mulheres terem carência de progesterona e tal… seria mais prudente manter… mas o que exatamente estava me afetando a progesterona?

 

Comecei dizendo que estava me dando muita retenção de líquidos, meus cistos estavam aumentando e que estava incômoda.

 

Ele seguiu meio na dúvida, tentando me convencer que não era tão mal, até que me perguntou novamente, está te incomodando tanto a progesterona?

 

Não tive outra alternativa, precisei usar a resposta que toda mulher sabe que não se pode contra argumentar:

 

_ Doutor, estou gooorrrrrda!

 

Muito bem, antes de ser médico, ele é homem e bem casado, sabe muito bem o que essa frase significa. Qualquer ser masculino razoavelmente inteligente e em sã consciência, nesse momento não dá mais um pio!

 

O discurso mudou para, veja bem, a progesterona é importante, mas é mais importante você estar bem com seu corpo, isso também afeta. Então fazemos assim, não começa a progesterona ainda e volta aqui na semana que vem, vamos ver seu endométrio e dependendo de não sei o que, isso indica se há ou não carência de progesterona. Daí a gente decide. Mas de toda maneira, pelo menos adiamos o hormônio!

 

Minha sanidade agradece!

 

Ele quer fazer outra coisa diferente também, esse mês não faço só o teste de farmácia, ele deve me pedir um exame de sangue para medir meu FSH (ou algo assim, sei que tem “H”).

 

Enfim, não saí de lá exultante, mas saí tranquila. Pelo menos entendi as coisas um pouco melhor, diminuiu a quantidade de hormônios, sei que meu corpo ainda reage e sei que existe uma data final para o processo.

 

Uma última coisinha, antes de vir a famosa frase: relaxa que acontece! Que, a propósito, não faz nenhum sentido para quem realmente está tentando. Gostaria de contar a experiência de uma amiga que tentou por uns três anos (e está gravidíssima agora). Ela ficava preocupada por não conseguir “relaxar” e perguntou a sua médica se isso poderia estar afetando a falta da gravidez. A médica respondeu que não afetava em absolutamente nada! Na-da! Daí veio a próxima pergunta, então, por que é normal, por exemplo, as pessoas engravidarem em viagens de férias? Não é porque relaxam e saem da rotina? Pois não, queridas, é simplesmente porque fazem mais sexo!

 

E dito isso, relaxada ou não relaxada, agora me toca a desfrutar da parte mais divertida da história. Deixa eu fazer meus deveres de casa, né?

Tristeza se mata por inanição

Vou falar de tristeza, mas não por estar triste, muito menos por renegá-la. Nada existe sem seu oposto, sem seu contraste. Se alguém quer ser feliz precisa conhecer o outro lado. Por qual sensação irá optar ou se manter, é outra história.

 

E hoje eu queria falar sobre luto. Não necessariamente da morte, mas da perda, porque acho que é do que o luto ao final se trata.

 

E é foda! Desculpem o francês!

 

Já passei por alguns e, a medida que envelheço, essa probabilidade aumenta. O primeiro foi o mais duro e não por ser o pior, mas por não conhecer como funcionava.

 

Havia a opção de deixar acontecer, fazer de conta que nunca mais ocorreria, até que inadiavelmente me daria de cara com ele outra vez, a bosta do luto! Mas sabendo que seria inevitável, achei mais inteligente entendê-lo e prestar atenção no processo. Achei que assim sofreria menos e se provou verdade.

 

Eu não chorava tanto, e nem era por falta de vontade, era repressão mesmo. Acho que era uma tentativa de me enganar e espantar a tristeza. O peito doía e minhas veias se rompiam, ficava cheia de hematomas. A sensação era de que não passaria nunca, doeria para o resto da minha vida. Então, eu achava que precisava aprender a viver com uma dor apêndice.

 

Acontece que o tempo passou e descobri que um dia a dor passa sim. Chega um momento que você acorda pela manhã e não sente tanto peso, não tem vontade de chorar e às vezes nem se lembra. E quando se lembra, é tão bom que dá vontade de sorrir, porque a dor se foi, mas ficou a saudade. E a gente só tem saudade do que foi bom e nos fazia bem.

 

E depois de aprender isso, é exatamente nesse momento de alívio que concentro minhas esperanças. É mais fácil passar por qualquer problema sabendo que ele tem um fim, que um dia vai curar. Vivo a tristeza pela completa falta de opção, mas não a alimento.

 

Sabendo disso, hoje choro mais, me exponho mais e, aos poucos, tenho aprendido a pedir ajuda se precisar. Minhas veias já não se rompem e meu tempo de luto é menor.

 

Ainda que tenha aprendido também a valorizar esse tal tempo do luto, porque ele é necessário. Sem ele a gente não completa o ritual de passagem para outra etapa. Fica uma história incompleta.

 

Meu último luto foi a perda da gravidez. E no início era corrosivo. Depois foi melhorando e a vida foi entrando em relativa rotina. De certa maneira, as novas tentativas de engravidar ocupavam esse espaço ou, pelo menos, eu achei que ocupasse.

 

Não era exatamente assim, porque a vida não para e você pode até se distrair, buscar outros interesses. Mas enquanto não resolver o que estava pendente, o problema não vai embora sozinho.

 

Eu ainda estava de luto e nem sabia.

 

Porque o choro havia quase desaparecido, mas aquela ponta de tristeza não me largava. Eu não dava muito mole para ela, nem a alimentava, mas sabia que ela estava lá. E novamente tentava me concentrar naquele famoso momento de alívio que eu sabia que um dia chegaria, com certeza.

 

Acontece que nos momentos em que me divertia, e posso perfeitamente me divertir ainda que dolorida, era inevitável que não me passasse um pensamento comparativo. E logo comigo, que sou totalmente contra comparações, porque quem compara sempre perde. Um tipo de consolo, pensava que se eu estivesse grávida, não poderia estar fazendo determinada coisa. Mas saía pela culatra, porque imediatamente só conseguia achar que trocaria tudo aquilo pela gravidez novamente. E me entristecia.

 

Se eu concordo com o pensamento acima? Claro que não, racionalmente não. Mas era espontâneo, saia sem controle.

 

Até que no sábado passado, estivemos em um show com amigos. Uma das farras habituais regadas a bom whisky. Era o momento em que tudo indicava que entraria em comparação sozinha outra vez e me entristeceria discretamente.

 

Mas não aconteceu.

 

Não me veio mais nenhuma comparação. Só me veio a pergunta de confronto, direta, reta: e se eu não engravidar? Porque o passado já foi, não há mais o que fazer ali, importa agora daqui para frente e assusta muito mais o que pode ser do que o que não aconteceu. E a resposta veio rápida, leve e serena: vai ficar tudo bem. E, de repente, percebi que não estava com medo, estava feliz!

 

Reconheci o alívio e soube que meu luto finalmente havia acabado. Tenho a saudade e a experiência, mas a tristeza sobra, pode ficar para trás.

 

Já não me preocupa mais qual o caminho que se abrirá, porque agora eu acredito que vai ficar tudo bem.

De Tapas por Madri

A Espanha, e Madri em especial, tem essa cultura das “tapas” que acho bem bacana.

 

Tapa em espanhol quer dizer tampa. Antigamente, se usava uma torrada com alguma coisa para cobrir as bebidas, como uma tampa. Daí o nome.

 

Além disso, no passado, um rei (que já não lembro qual foi) achou que a população estava se embebedando muito e criou uma lei estipulando que toda bebida alcoólica fosse vendida junto com algo de comer. A lei não existe mais, entretanto, a tradição ficou e é muito comum nos bares se oferecer alguma “tapa” de cortesia, junto à bebida.

 

E para completar, espanhol adora uma rua! Faça chuva ou faça sol, o povo está passeando! Incluído nesse passeio estão as paradas nos bares. Porque outra coisa que adoram é um balcão de bar! Esse negócio de tomar uma cerveja ou um vinho de pé com os amigos, beliscando alguma coisa, faz parte da rotina.

 

Vamos combinar que não custei nem 15 minutos a me adaptar a esse quesito da cultura local. Eu amo um balcão, que aqui se diz “barra”.

 

Mas o habitual não é se ficar muitas horas no mesmo bar. A gente entra, toma alguma coisa, conversa um pouco e logo segue para o próximo paradeiro. Na grande maioria das vezes, esse trajeto é feito a pé. Por isso é comum ver sempre muita gente caminhando na rua pela noite e madrugada afora, principalmente no centro da cidade.

 

Pois muito bem, aproveitando todo esse contexto, o governo de Madri, junto com outros dois patrocinadores, La Viña e Cruzcampo, organizaram um evento chamado “De Tapas por Madrid”. Esse ano, de 10 a 20 de maio.

 

Consiste em um grupo grande de bares que oferecem um tipo de promoção, com uma cerveja pequena Cruzcampo e uma tapa, tudo por $2,40 euros. Cada bar define qual tapa irá promover, mas o preço é fixo e a promoção só vale com a cerveja. Outra coisa, você não pode sentar nas mesas, só de pé no balcão.

 

Enfim, os bares seguem funcionando normalmente. Se você quiser tomar seu vinho ou pedir outras comidas, é igual e pode se sentar nas mesas. Mas o objetivo dessa promoção não é que você fique no mesmo lugar muito tempo, e sim, saia circulando e conhecendo as diversas opções pela redondeza.

 

É bom estar atento aos horários de promoção em cada bar, porque são diferentes.

 

E para dar mais graça ao evento, você pode votar na sua tapa preferida e todos os bares pedem que você vote neles, é lógico! Quando você vota, também passa a concorrer a alguns prêmios, que são 2 iPad, 50 camisetas da Cruzcampo, réplica da oficial da seleção espanhola e 4 prêmios da sua idade em produtos Cruzcampo.

 

E é claro que nós fomos conferir, né? Elegemos a rota vermelha, com os bares mais perto de casa. Marcamos com os amigos e toca a rodar de bar em bar!

 

Estávamos em 14 pessoas! Não me lembro de ter saído “de marcha” com tanta gente junta! E não é que funcionou? Lá fomos nós fazendo a via crucis etílica!

 

Eu achei que cada conta seria um suplício, por causa dessa quantidade de gente. Mas que nada, até porque o preço é padrão, então, todo mundo sabia quanto tinha consumido. Elegemos um “diretor financeiro” para controlar o caixa  e deu tudo certo!

 

Fiquei freguesa! E para quem quiser aproveitar, pode buscar mais informações no link WWW.tapaspormadrid.es. Assim que chegar no primeiro bar, procure o mapa que eles oferecem, com fotos de todas as tapas, endereços dos bares, horário de funcionamento etc. E corre que só vai até dia 20 de maio!

Aventuras automobilísticas cotidianas

O feriado tinha tudo para ser chato. Luiz viajando, tempo chuvoso, enfim, nada muito promissor.

 

Felizmente, tenho amigas! Aliás, por coincidência, o marido de duas delas também estavam viajando. Assim que vira e mexe a gente arrumava alguma coisa para fazer, nem que fosse simplesmente colocar o nariz na rua e cheirar um pouco de ar fresco.

 

Muito bem, uma amiga resolveu marcar um almoço da mulherada na sexta-feira passada. Essa amiga mora fora do centro de Madri. É possível chegar de trem/metrô, mas, para ser sincera, tenho muita preguiça.

 

Daí, aproveitando que estou nessa fase automobilística e que havia um carro dando sopa na garagem, resolvi me arriscar. Coloquei como objetivo: vou para o almoço dirigindo!

 

Ainda me perguntaram, mas você vai dirigir? Não vai poder beber! Tudo bem, não me importava. Eu queria porque queria tirar esse ranço e me provar que, se realmente quisesse, podia ser uma pessoa motorizada outra vez.

 

Pequeno detalhe, Luiz deixou o carro só com ¼ de combustível. Segundo ele, isso dava para uns 200 km, mas acontece que, além de poder ser exagero da parte dele, não queria ficar preocupada caso me perdesse. E decidi também que ia aprender a abastecer o carro.

 

Porque para quem não sabe, esse negócio de frentista que abastece e faz tudo para você e ficamos sentadinhas lindas e maravilhosas dentro do carro é coisa de brasileiro. Aqui e em boa parte da Europa e EUA, quem abastece seu carro é você mesma.

 

Não é que seja algo complicado. Mas eu detesto! Fiz uma única vez nos EUA, para saber como era e aqui nunca! Claro que estava com o Luiz algumas vezes quando ele abastecia, mas nem me tocava.

 

Muito bem, três amigas que moram perto de mim e iam também nesse almoço, me pediram carona. Eu avisei, galera, dou carona com a maior boa vontade, mas aviso que não sei abastecer. Alguém sabe?

 

Todas disseram que sim. Eu pensando, devem saber igual a mim… uma delas nem tem carteira! Mas tudo bem, o importante é ter apoio moral! E mulher é muito solidária, a gente pode não ter idéia de como fazer alguma coisa, mas não deixamos uma amiga sozinha na mão, pagamos mico todas juntas tentando descobrir uma solução!

 

Então, tá, né? Nos encontramos as quatro, cheias de bolsas com comida e bebida, a maior farofa, e fomos para a garagem buscar o bendito carro. Como é um estacionamento público, nós temos uma chave específica para o elevador abrir no andar das vagas para residentes. Entramos no elevador mínimo, como de costume, com aquele monte de bolsas e eu fingindo que sabia o que estava fazendo. Coloco a chave do jeito que Luiz costuma fazer e o elevador desce. Mas quando chega no andar, nada de abrir. Ficamos presas!

 

Putz grila, ninguém merece! O elevador vai enguiçar logo agora?

 

Como não abria, tentei então apertar um andar acima e ver se a gente conseguia ir pela escada. No início deu certo, o elevador subiu e a porta abriu. Saímos todas correndo com medo dele fechar outra vez.

 

Lá fomos para a escada. Coloco a tal da chave e nada dela funcionar. Dedução de alguém: deve haver algum problema para descer, melhor avisar a manutenção!

 

Depois, contando ao Luiz, ele me disse que a chave está mesmo com mau contato e às vezes tem que balançar um pouco. Mas nesse momento, não tinha essa informação.

 

Espera, acho que o elevador podia estar com excesso de peso, também demorou a abrir no andar superior. Tento descer sozinha, se ficar presa eu grito e vocês chamam alguém. E se conseguir saltar no andar correto, pego vocês já na rua.

 

Sozinha o elevador funcionou normalmente e consegui saltar. Berrei do andar de baixo que havia conseguido, mas não tinha certeza se haviam me escutado. Tentei telefonar, mas não tinha cobertura na garagem.

 

Caraca, essa novela toda e eu nem cheguei na vaga ainda!

 

Mas não estava nervosa, só achando engraçado. Entrei no carro e comecei a colocar o endereço no GPS, aliás, a primeira vez que fazia isso sozinha, sem Luiz dando pitaco do meu lado. Prestando uma atenção danada e torcendo para aquilo funcionar, porque as meninas já me esperavam do lado de fora.

 

Funcionou.

 

Subi e lá estavam elas… e aquele monte de sacola de comida! Eu estava acostumada a dirigir carros normais. Esse do Luiz é cheio de nove horas e tem coisas que nem sei usar! Resulta que nos bancos, inclusive nos de trás, há um sensor de peso que apita se alguém estiver sem cinto. Com as bolsas e casacos no banco, o diabo do carro interpretou que havia alguém sentado sem cinto e cadê que parava de apitar!

 

Saímos as quatro com aquele carro apitando e as duas de trás mudando cinto de buraco, colocando as sacolas no colo e nada! Podíamos haver simplesmente colocado o cinto sem ninguém, provavelmente pararia de apitar, mas não tivemos essa idéia na hora.

 

Tudo bem, porque o posto de gasolina era perto e pensei, quando o carro parar, a gente ajeita as bolsas e ele vai parar de apitar.

 

Paramos no posto e saltaram as quatro mulheres! Ninguém tinha muita certeza do que fazer, mas como disse antes, mulheres são solidárias. Foi quando percebi que havia parado do lado oposto da bomba de combustível. Pergunto para a que parecia saber mais, tenho que mudar de lado ou a mangueira alcança aqui? Ela bastante segura: muda de lado!

 

Então, deixa eu tirar o carro outra vez!

 

Nisso, escuto uma voz dos céus me perguntando que combustível usava. Olho para o lado e vem um cidadão uniformizado com a mangueira da gasolina na mão! É uma raridade, mas não é que parei justamente em um posto que tinha frentista!

 

As três amigas quase decepcionadas, porque todo mundo queria levar o mérito de ajudar e colocar a gasolina, aliás, diesel. Mas a verdade é que foi uma mão na roda e morremos de rir da história.

 

Não precisei trocar o carro de lado e já decidi que posso morar na outra ponta da cidade, mas só vou abastecer nesse posto agora! Imagina, um frentista, o máximo do luxo!

 

Nos arrumamos no carro,  ele parou de apitar, tínhamos o tanque cheio e o GPS funcionando. Beleza!

 

O resto do caminho foi bem tranquilo, pelo menos para mim e acho que para elas também. Sem grandes incidentes e achei uma vaga fácil perto da entrada.

 

O almoço foi uma delícia. Quando era mais nova, não gostava muito desse negócio de dividir os grupos entre homens e mulheres. Na verdade, até hoje não gosto de festa assim, prefiro misturado. Acontece que, às vezes, não tem nada melhor do que se juntar com a mulherada e ficar à vontade para falar nossas besteiras. Assim que hoje em dia, adoro uma reunião de luluzinhas!

 

Na volta para casa, viemos só em três meninas. Coloquei o GPS, agora já tinha aprendido e me sentia mais segura. Quando estava quase chegando, me ocorreu que deveria deixar minha amiga em casa, ela não morava tão longe e para outra amiga era uma linha de metrô melhor.

 

Perguntei se ela sabia o caminho, ela disse que sim, mas fiquei meio na dúvida. Quando a gente não está dirigindo, a gente sabe as direções, mas é muito fácil perder uma entrada. E com esse negócio de seguir os navegadores, a gente sabe cada vez menos os caminhos de memória.

 

Quer saber, vou mudar o endereço no GPS. Mas precisava fazer isso com o carro em movimento. O Luiz faz sempre, mas me parecia algo complicado e morro de medo de me distrair e provocar um acidente. Consegui parar em um santo sinal fechado e mudei o endereço rapidinho. As duas co-pilotas ficaram me sacaneando e apoiando ao mesmo tempo, dizendo que estava arrasando!

 

E quer saber, sei que era uma besteira, mas me senti poderosa!

 

Deixei as duas e coloco o navegador para voltar para casa sozinha. Ele me dá um caminho estranho. Encostei o carro e fui rever o endereço. Me dei conta que agora havia 3 entradas salvas como endereço da minha casa, e um desses endereços era o da amiga que acabara de deixar.

 

Ops! Que raios fiz aqui? Deixa eu corrigir logo esse negócio e ficar bem quietinha quando Luiz chegar. Bom, até consegui corrigir, mas não aguentei ficar quieta e acabei contando da mancada que nem sei como fiz.

 

O importante é o seguinte, resumo da ópera, saí de casa, me acertei com o GPS, abasteci e voltei sã e salva! E isso com um carro cheio de mulheres falantes e sem querer perder o assunto! As mancadas foram a melhor parte e não atrapalharam nada. Ou seja, 100% de efetividade!

 

No sábado à noite, reunião pequena na casa de amigos de última hora. E aí, vou de carro ou bebo? Sinto muito, mas sabadão e podendo tomar uma cachacinha… vou dirigir nada! Já me provei!

 

O problema é que acabei dormindo umas quatro da matina, compartilhando com minha companheira de cachaça praticamente toda uma garrafa. Verdade que era boa cachaça, tomando bastante água e comendo. Mesmo assim, o dia seguinte merecia dormir até à tarde.

 

Acontece que Luiz chegava no domingo pela manhã. E, além da saudade, eu estava doida para buscá-lo de carro. Seria a coroação da minha semana motorizada.

 

Por via das dúvidas, combinei com ele que mandaria um SMS logo cedo, dizendo se ia realmente ao aeroporto ou se não tinha condições de levantar.

 

Claro que a maioria dos amigos apostou que enviaria o SMS e só acordaria quando ele aparecesse na porta de casa. Mas eu sabia que isso não ia acontecer. Ou melhor, só se eu estivesse praticamente em coma!

 

Domingão e às oito da matina eu já estava acordada. Fiquei enrolando na cama até umas 10:30h. Levantei e o mundo  não girava. Só estava com sono, mas muito bem. É verdade que ainda sentia o gosto da cachaça na boca. Fiquei torcendo para não haver algum controle com bafômetro no meio do caminho! Tomei um café com cafeína, coisa raríssima, mas nesse caso era justificado.

 

Passei a mensagem avisando que estava saindo de casa para o aeroporto. Fui para garagem, nenhum problema com a chave, nenhum problema com o GPS, nenhum problema com o caminho. Conforme prometido, lá estava no desembarque na hora correta.

 

Na verdade, meu chip de motorista foi finalmente religado e posso dizer que daqui para frente, voltou a ser algo normal.

 

Mas bem que gostei desse momento de voltar a dirigir sozinha, deu um ar de aventura a um ato que já foi parte da minha vida cotidiana. É sempre gostoso quando a gente consegue ter um novo olhar sobre qualquer tema.

 

Enfim, prova superada! Alguém quer uma carona aí?

Sobre evoluir

 

Ontem Luiz viajou para o Rio, foi ver os pais. Não pude viajar junto, foi tudo decidido meio em cima da hora. Achei importante ele ir, mesmo sozinho. Os pais estão idosos e estavam precisando desse apoio agora, tem coisas que não devemos adiar. Cada vez mais tomo consciência da passagem do tempo e de suas consequências.

 

E no fundo, eu sabia que precisava ficar um pouco sem ele. Algumas decisões precisavam ser tomadas com a perspectiva que só a distância pode te dar. Não quero com isso assustar ninguém, nosso casamento vai muito bem, obrigada. Mas em períodos de reconstrução pessoal, há momentos que preciso não me ver no seu olhar para ter certeza que fui honesta comigo mesma.

 

Ontem eu precisava do dia que tive.

 

Acordamos cedo, seu avião saía ao meio dia. Decidi que ia levá-lo de carro. O que há alguns anos atrás seria um detalhe bastante óbvio e sem importância, mas lembro que desde que vim para Espanha praticamente não dirijo. Os primeiros cinco anos não tinha carteira de motorista espanhola, há dois tenho a carteira, mas baixo interesse. No ano passado, com a possibilidade de gravidez, foi uma motivação para começar a pegar o carro novamente. Além do fato de não beber em vários encontros e, com isso, deixar Luiz tranquilo para aproveitar um pouco. A gente nunca bebe e dirige. Pois muito bem, há mais ou menos um mês, quando ele foi internado meio que de surpresa, me vi dirigindo um automóvel sozinha, pela primeira vez, após mais de sete anos morando em Madri.

 

Foi uma distância curta e em que conhecia o trajeto para casa, mas serviu para romper o paradigma. Isso também me fez pensar que tendo ou não um filho, poderia ser importante que eu estivesse pronta para conduzir, se necessário.

 

Aos 18 anos, tirar a carteira para mim era uma necessidade, um ato de independência. Quando cheguei a Madri, isso se inverteu, liberdade era poder viver e ver o mundo sem o filtro de um para-brisas (que já não sei se escreve assim).

 

Nos últimos tempos, conduzir voltou a representar independência. Acho que no fundo, tinha um pensamento meio inconsciente de que minha estada por essas bandas era passageira, então, não precisava aprender os caminhos, aprender a abastecer… enfim, aprender coisas que não utilizaria no futuro. Chegou a hora de assumir de uma vez que aqui é minha casa, não importa por quanto tempo, sou espanhola também. Sou uma mulher adulta e devo retomar algumas rédeas que deixei frouxas por comodidade ou para não me frustrar.

 

Portanto, voltar ontem dirigindo sozinha para casa, sem a menor possibilidade de um resgate do Luiz, foi um passo importante e simbólico. E eu gostei.

 

Durante o dia, fiquei hibernando e enrolando pela internet. Há alguns anos reencontrei vários amigos do tempo de colégio, mas ameaçávamos perder o contato novamente. Daí, de repente, começamos a nos achar pelo Facebook, criamos um grupo e estamos tentando nos organizar para fazer um encontro de 30 anos de formados (8ª. Série) em 2013. Isso tem me ocupado os últimos dias e me trazido boas lembranças. E esse contraste da infância e adolescência tem novamente me feito lembrar que sou adulta.

 

Também fiquei botando pilha nas pessoas por aqui para ver quem se animava a sair à noite, apesar da preguiça e do dia chuvoso. Fiquei sabendo de um concerto de amigos que adoro ouvir e ainda por cima era muito perto de casa. Quer saber, se ninguém for, vou sozinha mesmo! Madri é uma província e a gente sempre encontra alguém conhecido pela rua e, se não encontrar, não é difícil conhecer gente nova.

 

Mas não precisei ir sozinha, acabei indo com mais duas amigas e encontrei outra pelo show. Conhecia os músicos, é lógico, mas eles estavam ocupados.

 

Achei o lugar bacaninha, o nome é meio suspeito, chama Ne Me Quitte Pas, parece nome de bordel, né? Mas é uma creperia com jeitão de cabaret francês bastante simpática. Conheci a dona, jovem e animada, e quem sabe fazemos alguma festa por lá algum dia.

 

Bom, acabou o concerto e seguimos à noite, afinal, em Madri nunca se vai a um lugar só. Fomos para o El Junco, onde o marido de uma das amigas estava tocando. Mas quando chegamos lá o show tinha acabado, eles já estavam retirando os instrumentos e sem vontade de seguir por ali.

 

Então, vamos para outro lugar. Mas que lugar?

 

Quer saber, estamos ao lado da minha casa, se o problema é achar algum lugar para sentar, conversar e tomar alguma coisa… E assim, acabou rolando uma festinha improvisada aqui. Dessa vez, fui até ajuizada e não convidei os estranhos da rua.

 

Na verdade, foi bem tranquilo e agradável, estávamos em nove pessoas. Ficamos aqui jogando conversa fora, fiz umas comidinhas e quando nos demos conta era umas cinco e meia da matina.

 

Mas o mais importante para mim é que acho que precisava desses momentos ontem. Queria pensar em outros assuntos, relaxar, falar e, o principal, ouvi algo que me fez lembrar de um sonho antigo. E lembrá-lo me virou do avesso, ainda que não tenha dito nada. Sabia que essa era uma história para pensar quando todos fossem embora.

 

Há alguns anos, tive um sonho que me foi bastante marcante. De tempos em tempos eu lembro dele e, às vezes, dependendo do momento que esteja passando, ele ganha novas interpretações.

 

Estava em um salão enorme, com um pé direito muito alto. Comecei a me sentir angustiada e vi entrar um senhor oriental muito velho, desses com bigode chinês caindo pela lateral da boca, em traje característico, imponente, montado em um burro. Vinha em minha direção. Ele entrava pela única porta desse salão, de maneira que eu não tinha uma saída, não tinha como fugir. Então, dissimulei que não estava preocupada, porque sabia que se ele percebesse que eu tinha medo, estaria em maus lençóis. Quando ele chegou bem perto, me arrepiei e a sensação de angústia era mais forte. Ele me perguntou: você sabe quem eu sou? Não tinha outra opção a não ser encará-lo. E, de repente, senti que tinha coragem, ele já não parecia tão velho, passei a mão no seu rosto com certo carinho e respondi: eu sem quem você é, você é o demônio. No exato momento que terminei de dizer isso, ele gritou de raiva e eu recuperei minha capacidade de voar. Voando já não tinha mais medo, pois sabia que ele não me alcançaria. Como se meu ganho de força o enfraquecesse.

 

Acordei sem saber se era um sonho ou pesadêlo. Mas tinha certeza que era uma mensagem importante.

 

Abro um parênteses para lembrar que não tenho fé, coisa que não considero nenhum mérito, pelo contrário. Aliás, algo que conversamos ontem, queria ter fé, mas isso não se falsifica. Entretanto, quero dizer que existe uma única vantagem em não acreditar em Deus, e é o fato de não fazer nenhum sentido acreditar no seu opositor. Portanto, ao perder a fé, também perdi a crença e o medo do diabo. Porque um não existe sem o outro. Acredito em bem e mal, mas não atribuo nenhum poder sobrenatural a eles.

 

Por isso, ressalto que não há nada de religioso no sonho que contei. Todas as figuras e diálogos são simbologias.

 

Sou humana e também temo “meus demônios”. Também quero que me afastem o cálice. Acontece que em alguns momentos não tenho outra opção que não seja confrontá-los. De perto, eles são menos assustadores, ganho coragem. Ao ganhar coragem, acredito que posso. E ao acreditar, tenho poderes, tenho saída, tenho alternativa. Não acaricio o rosto do demônio por carinho, mas por perdão, ele não escolheu ser o que é. E o perdão deixa qualquer um incrivelmente forte.

 

É no momento em que pronuncio o nome do demônio que realizo a coragem, pois concretizo a ideia, me expresso. E comigo funciona assim, preciso dizer ou principalmente escrever para concretizar as ideias. Elas deixam de ser abstratas. Só posso confrontar o que existe. Contar me libera. Faz as coisas voltarem ao seu real tamanho.

 

E ontem, quando meus amigos se foram, sabia que tinha um encontro marcado com um demônio. Eu preciso falar seu nome, portanto vou contar.

 

Ontem consegui dizer algumas vezes que estou cansada de tentar engravidar. Eu precisava me ouvir falando isso. Eu preciso escrever que não aguento mais tomar hormônios, não aguento mais ter uma tentativa de gravidez como prioridade absoluta na minha vida, não aguento mais fazer ecografias, não aguento mais me sentir inchada, não aguento mais perceber que meus cistos se desenvolvem, não aguento mais lavar minha cabeça e terminar com a mão cheia de cabelos, estou chata, monotemática e muitas vezes triste. Esse é o meu limite. Hasta aquí hemos llegado! Preciso seguir.

 

Se não estiver grávida agora, e acho que não estou, tomo hormônios até o próximo mês e chega. Eu precisava de uma data para isso acabar e agora eu a tenho.

 

Isso não impedirá que uma gravidez venha, se tiver que vir, mas tudo que estava ao meu alcance eu já fiz. Não me sinto fraca, nem culpada e muito menos arrependida.

 

Preciso contar também o lado bonito dessa história e o porquê de não me arrepender. Eu aprendi de verdade que mais importante não é a chegada, é o caminho. E, apesar dos pesares, eu gostei de trilhar esses últimos meses.

 

Há alguns anos atrás, quando fiz pela primeira vez o Caminho de Santiago, cheguei na última etapa com uma pergunta me atormentando. Foi no Monte do Gozo que precisei de uns minutos sozinha para me perguntar com toda sinceridade se eu realmente queria ser mãe. A minha resposta naquele momento foi: não.

 

E eu sofri por isso. Não pela decisão em si, mas por não ter sido capaz de me converter na pessoa que gostaria. Nem toda consciência de quem você é na realidade é agradável.

 

Eu queria ser uma pessoa melhor. Não acho que a maternidade seja o único caminho para isso, mas ali  poderia ser um dos caminhos e eu decidi não seguir por ele.

 

Ano passado eu mudei de ideia e resolvi comprar essa briga. E no meio de toda essa confusão, de altos e baixos e tudo mais, houve um período que eu engravidei de verdade. Não era abstrato, eu ouvi um coração e por um pouquinho eu fui mãe.

 

As mães sempre falam sobre a experiência de amar um filho. Eu acreditava nelas, ainda que esse amor não me fizesse falta, afinal, ninguém sente falta do que não conhece. E sobretudo, existem muitas formas de amor. Não acho que haja um amor menor que outro, porque essa comparação por princípio seria absurda.

 

O que importa é que tive o privilégio de por algum tempo provar o amor que sente uma mãe. A intensidade com que isso te tira o chão e o poder que você desenvolve através dele. A sensação foi inesquecível e esse tempo me valeu uma vida. Independente do resultado final dessa história, esse caminho finalmente me converteu em uma pessoa melhor.

 

Antes de dormir, recorri às minhas bruxas e acendi uma vela para cada avó. Às vezes, faço isso para me sentir protegida e também me sinto menos louca do que falando sozinha. E foi alentador acordar hoje e ver que as velas permaneciam acesas. Algo como, tranquila, seguimos aqui no caminho em que você estiver.

 

Chorei o que tinha para chorar ontem e nem acho que foi por tristeza. Foi mais para limpar o que sobrava de dor e deixar só o que me faz bem. Acordei hoje com essa consciência. Ainda estou um pouco sensível, mas absolutamente em paz, aprendi a lição que eu precisava desse ciclo.

 

E agora que já disse seu nome, posso novamente voar.

Cansando

Caminho rapidamente para um ano de tentativas para engravidar. Verdade que nos primeiros meses não foi tão a sério, mas de uma maneira ou de outra, comecei a tomar hormônios e a direcionar minha cabeça para isso por agosto do ano passado.

 

Foi invadindo minha vida de uma forma mais ou menos intensa e virou minha prioridade declarada.

 

O fato é que a gente começa muito animada, sou otimista por natureza, sempre acho que vai dar certo. Por que não daria?

 

Mas a questão é: o que é dar certo?

 

Meu balanço desse período são 4kg a mais, meu cabelo caindo, um cisto começou a dar sinais e tive um aborto. A cada mês minhas chances diminuem. Não é muito animador, ainda não desisti, mas confesso que estou cansando.

 

Não falo de arrependimentos, os quais não tenho, e é verdade que houve muita coisa bacana por esse período também. Mas começou finalmente a rondar minha cabeça que devo estabelecer qual é o meu limite. Em que momento devo dizer chega e simplesmente seguir o que sou? E como tomar essa decisão sem decepcionar a família, os amigos e principalmente a mim mesma?

 

Porque em última instância, é a mulher que toma essa decisão, ou deveria ser, mas é ingênuo pensar que não se envolve quem está em volta. Isso sem falar da força e da esperança que pode exercer um exemplo.

 

Por duas vezes eu desanimei. E das duas recebi em seguida a notícia positiva da gravidez de amigas que também estavam tentando com dificuldade. Para mim vem como um fôlego a mais, como se fosse um sinal me dizendo, tenta mais um pouco, olha como elas tiveram determinação e conseguiram.

 

E penso que se eu também tentar mais um pouco posso conseguir ou posso inspirar a que mais mulheres sigam tentando e, quem sabe, algumas consigam.

 

Ainda assim, estou cansando.

 

Eu sei que tem mulheres que tentam anos e que fazem mil tratamentos. Eu respeito essa vontade e determinação. Mas eu não sou assim. Eu gosto do resto da minha vida e tenho sentido falta de poder ser mais espontânea, planejar menos, arriscar mais. E sobretudo, sinto que não tenho controle, me sinto meio impotente. Posso tomar algumas iniciativas para auxiliar, mas nenhum ato ou comportamento meu irá garantir uma gravidez.

 

E eu não sei lidar com a frustração de não conseguir algo que quero. Pode ser um pouco de arrogância, nem me importa, mas eu sempre consegui e o histórico me fez assim.

 

Ao mesmo tempo, não quero parecer uma louca amargurada, insistindo em algo que talvez não seja para mim. E será que é para mim?

 

Olho para as amigas da minha geração que optaram por ter filhos e estão todos, ou quase todos, criados. São adolescentes ou adultos. E me dá até um pouco de vergonha de engravidar nessa idade. Fico meio deslocada. Em que momento o julgamento alheio ganhou essa importância? Com isso, sei que posso lidar, mas ainda assim é estranho.

 

Eu queria terminar esse texto bem, alguma coisa como, apesar de tudo, não desisti, finalmente deu tudo certo e fomos felizes para sempre. Mas a verdade é que não tenho nem idéia de como essa história vai acabar e preciso me acostumar que nem sempre os finais de ciclos são como a gente quer.

 

E talvez também haja outras mulheres cansadas e sem querer desistir para não parecerem fracas ou com dificuldade para aceitar que pode não ser para elas. Se ajuda em algo, posso dizer que é humano, todo mundo se cansa um dia e há muitas formas diferentes de felicidade. Ninguém deveria se sentir culpado pelo que não pode controlar.

 

Sigo aqui, estou cansada, mas ainda não desisti.

O pirônomo e a incendiária

Há uns dois anos, meu irmão combina conosco de celebrar seu aniversário de 40 anos em grande estilo. Tínhamos um acordo e viajaríamos para onde ele escolhesse. A primeira opção era o Japão ou algum país asiático.

 

Acontece que em dois anos muita coisa muda e por vários motivos, esse plano mixou.

 

De certa forma, até achamos que foi melhor assim, porque quem poderia adivinhar que uma semana antes o Luiz ia descobrir que estava com pneumonia? Mas enfim, ele se recuperou e se aproximava a semana santa.

 

Liga meu irmão na quarta-feira, dia 4 de abril, meio jururu, contando seus planos para seu aniversário, dia 6 de abril. Ele sairia para jantar só com meus pais e comemoraria na semana seguinte. É que ainda por cima, caía no feriado e muita gente estaria viajando.

 

Muito bem, eu ouvi na minha, dando palpites bastante razoáveis de que a gente poderia comemorar outro ano… que ele podia fazer uma festa depois… que o jantar era legal… ainda que essa história não convencia nem a mim!

 

Passou algum tempinho, chegou a hora do jantar e resolvi tomar um vinhozinho enquanto cozinhava. Aproveitar meu recesso de juízo, né?

 

Fiquei pensando: e em que momento eu passei a ser razoável mesmo? As pessoas não me procuram para saber o que é mais correto. Quando elas pedem um palpite, o que querem na verdade é que alguém diga que tudo bem em fazer uma merda de vez em quando se isso te faz mais feliz.

 

Quer saber, catei o telefone. O que você vai ficar fazendo aí? Quarenta anos se faz uma vez! Tudo bem que todas as idades só se fazem uma vez, acontece que os quarenta são emblemáticos! Vindo para cá você só gasta a passagem. Faz as contas de quanto sairia o tal do jantar mais a festa? Pelo menos você terá uma história legal para contar no futuro!

 

O Luiz escutava a conversa da sala… pronto, juntou o pirônomo com a incendiária! Ê família!

 

Ele ficou maluquinho, ligou para minha mãe, afinal, sentia falta de um respaldo familiar, que por sua vez ligou para mim. Coloquei a maior pilha e acabou que minha mãe se animou e meu pai interou a passagem de presente. Maravilha, incêndio iniciado!

 

No dia seguinte, ele embarcou para Madri, chegou aqui no próprio dia 6 de abril, dia do seu aniversário e sexta-feira santa.

 

Do aeroporto já fomos direto almoçar e iniciar as comemorações. Almoçamos no Paralelo Cero. Praticamente abrimos o restaurante, porque ainda era cedo, mas tudo bem que somos de casa.

 

Meu irmão todo acelerado, dizendo que era uma loucura vir para a Espanha por menos de uma semana e tal, mas no fundo, adorando a confusão.

 

No jantar e comemoração oficial, fomos ao Asia Gallery, no Palace. Achei que como não celebramos em um país asiático, pelo menos valia o ambiente. O restaurante é ótimo e temos uma amiga que trabalha lá e reservou uma mesa show de bola!

Foi quando recebemos uma mensagem de parabéns de uma outra amiga, que se lembrou que era nosso aniversário espanhol! Como pudemos esquecer? É que a semana havia sido intensa e nem pensamos nisso. Justo no dia do aniversário do meu irmão, comemoramos ao mesmo tempo 7 anos de Espanha e nossa cidadania espanhola. Fenomenal, mais motivos para celebrar!

 

Do jantar, Luiz veio para casa. Ainda estava se recuperando e não podia abusar.

 

Segui com meu irmão para o El Junco, onde também encontramos uma amiga de Brasília, dos tempos de colégio, que estava de visitas por essas bandas. Só chutei parcialmente o pau da barraca, porque no dia seguinte tínhamos um casamento, mas já chego lá.

 

Do El Junco, fomos ao Olé Lola tomar um drink e conseguir conversar com um pouco mais de calma.

 

E do Olé Lola, fomos para a Pachá. Para ser franca, não é minha praia, tem muita pirralhada. Mas meu irmão queria ir e me importava mais a companhia dos dois.

 

Na volta para casa, ainda paramos na Pá Pizza para não perder o hábito. Nem comi, mas meu irmão sim.

 

Não lembro que horas a gente chegou em casa, mas pelo trajeto, não foi muito cedo.

 

Está pensando que acabou?

 

Dia seguinte, tínhamos um super casamento para ir. Já tinha pedido à noiva para levar meu irmão de penetra e às duas horas da tarde, lá estávamos arrumados e prontos para a próxima!

 

Eu amo casamentos! Acredito sim na instituição e no romantismo. E se não for romântico, no mínimo, acredito no amor. Sei que é piegas, mas foda-se, eu adoro! E essa relação em especial tem uma história muito bonita que acompanhamos desde o início. Não cabe a mim contar a vida dos outros, por isso, só me restrinjo a dizer que estava muito feliz por eles e por poder estar ali compartilhando esse momento.

 

Uma das madrinhas fez um discurso de surpresa para a noiva. Ela havia pedido que algumas amigas lhe enviassem textos sobre o que pensavam da noiva para ela resumir e fazer uma homenagem no momento. Para mim, também foi uma surpresa, porque no final do seu discurso ela leu meu texto na íntegra e me senti honrada de poder ter deixado alguma recordação.

 

Muito bem, se na noite anterior tínhamos chutado meio pau da barraca, nesse dia nós chutamos todos os baldes possíveis! Basta dizer que após um festaço de 10 horas, ainda seguimos para um bar, o Mañana no Salgo, e chegamos em casa pelas três da manhã.

 

O que aconteceu na festa? Só saberá quem foi, pacto de silêncio total. Mas posso contar que em algum momento, me apoderei de umas plumas e incorporei a poderosa arara azul, capaz de realizar desejos. Meu irmão não teve muitos problemas para se enturmar e Luiz, apesar de bastante comportado, também pareceu se divertir. Afinal, devia ser um dos únicos sóbrios no recinto e lhe restava rir dos outros. Resumindo, divertidíssimo! Tudo perfeito!

 

Também não acabou por aí! Até a terça-feira, dia que meu irmão voltou para o Brasil, não paramos um minuto! O tempo foi pouco, mas bastante bem aproveitado em muitos sentidos.

 

Um incendiozinho de vez em quando tem seu valor! E fala sério, alguém que queira um conselho lúcido e razoável vem pedir logo para mim? É porque já quer confusão, né? E já dizia Vicente Mateus, quem está na chuva é para se queimar!

 

 

Um finalzinho de semana no hospital para variar…

Pois é, em função dessa história de tentar engravidar, tenho um tipo de tabelinha torta onde registro os dias que posso chutar o pau da barraca e outros que é melhor me comportar. Assim que, ultimamente, passo mais ou menos uma semana sem grandes limites e o resto do mês como uma lady, sem beber, sem abusar.

 

Enfim, ainda por cima, nas últimas três semanas Luiz vinha meio gripado e tal. De maneiras que estávamos super tranquilos e bem comportados.

 

Daí, na quinta-feira, fiz meu exame de gravidez, sem grandes expectativas, é verdade, e deu negativo. Tinha o aniversário de um amigo perto de casa. Luiz tinha que trabalhar no dia seguinte e ainda por cima estava gripado, não quis ir. Pensei, quer saber, posso beber, vai um monte de amigos, vou aproveitar para dar uma relaxada.

 

Fui  ao forró aqui perto, fica literalmente há uns 3 minutos de casa. Dali ainda nos animamos e fomos ao El Junco e, para não chegar em casa meio mais ou menos, passamos para comer uma pizza no caminho. Tomei meu whisky sossegada e feliz da vida, afinal, estava tudo certo.

 

Cheguei em casa pelas 4 da matina e já estranhei da porta quando vi a luz acesa. Luiz estava acordado tossindo. Disse que não conseguiu dormir. Não gostei muito e quando lhe beijei senti que estava com febre. Peguei o termômetro e pedi a ele que medisse a temperatura.

 

E aí, quer ir a um hospital?

 

Ele não tinha muita certeza. Ficamos conversando um pouco na cama, esperei para ver se ele melhorava. Mas bateu os cinco minutos e quer saber, vou por uma roupa e vamos ao hospital de uma vez. Já estou acordada mesmo, você também. Pensei que pelo menos não devia ter fila.

 

Ou seja, que nem dormi, fui direto com ele para o hospital. Chegamos nós dois, ele mais para lá do que para cá e eu com aquele cheiro de whisky e o carimbo da Sala Barco na mão.

 

Acho que por um momento, a médica ficou na dúvida de quem ela devia atender. Confesso que me senti tentada a pedir um “shot” de glicose, assim, aproveitando a visita, né? Mas tudo bem. Na verdade, achei que ela ia examiná-lo, receitar uns antibióticos e voltaríamos para casa.

 

Ele fez um raio X e ficamos esperando o resultado.

 

Ele deitado em uma maca e eu sentada vendo estrelinhas. Luiz, estou morrendo de sono, fica deitado aqui e vou esperar o resultado no carro. Deitei no banco de trás, esperando ele bater no vidro a qualquer momento para a gente ir embora.

 

Mas isso não aconteceu.

 

Ele me ligou e pediu que eu voltasse. Ups! Voltar, como assim? Na radiografia apareceu uma mancha no pulmão, poderia ser pneumonia. A médica recomendou que ele se internasse para fazer mais exames.

 

Hein? Pneumonia? Internar? Como assim?

 

Ok, então internamos e vamos ver o que acontece. Eu ainda tinha aquela ilusão que ele faria os exames ao longo do dia e iríamos para casa no fim da tarde.

 

Mas essa ilusão se desfez muito rápido.

 

Fomos para um tipo de quarto na emergência, com uma cama para ele e uma cadeira ao lado para mim. Ali ele já começou a receber a medicação, mas precisava esperar vagar um quarto para subir e fazer os exames.

 

Lógico que o quarto pequeno devia estar com o maior cheiro de whisky, afinal, eu era o próprio sachet da bebida, né? Ele deitou na cama e começou a cochilar. E eu naquela cadeira dura, sem dormir, com a cabeça batendo na parede de vez em quando.

 

Nisso chega o enfermeiro e pergunto se há alguma previsão de que horas sairia a internação. Ele não foi específico, mas deu a entender que seria após o meio dia. Era mais ou menos umas nove da manhã.

 

Luiz, quer saber, estou sem condições e não estou fazendo nenhuma diferença aqui, fora esse aroma agradável que exala do meu ser. Vou em casa tomar um banho, tentar descansar um pouco e já volto. Enquanto isso, aproveita para tentar dormir, afinal, ele também não havia dormido bem durante a noite.

 

Fiz isso. Consegui deitar um pouco, não dormi, mas foi o suficiente para o mundo parar de rodar. Escovei bem os dentes para desaparecer aquele hálito que me incriminava, deixei mais comida para o gato, tomei um café com cafeína (tomo descafeinado há mais de um ano) e toquei para o hospital novamente, pouco depois do meio dia.

 

Daí já estava mais acesa, cansada, mas normal.

 

Esperamos por toda a tarde e só vagou quarto quase às 18h. Pequeno detalhe, essa hora já não tinha mais médico e a enfermeira nos informou que não se faziam exames no fim de semana.

 

Hein? Como assim? Vamos ficar aqui fazendo o que? Pensei seriamente em ir embora, mas por outro lado, Luiz já estava tomando os antibióticos e lhe fizeram um segundo exame de sangue. Ficou de vir um médico na manhã do dia seguinte explicar tudo melhor. Mas com certeza, antes de segunda-feira ele não teria alta.

 

Esse hospital é público. Aqui, de modo geral, os médicos são melhores nos hospitais públicos que privados. Assim que, mesmo tendo plano de saúde, na hora que o calo aperta, muitas vezes é mais garantido ir para o sistema público.

 

Acontece que o quarto é dividido com outra pessoa. Não tem cama de acompanhante, tem um tipo de poltrona, até bem confortável para passar o dia, mas para dormir é dose. Como ele estava independente, nem soro ele estava tomando, achamos que não tinha sentido eu dormir por lá.

 

Com a certeza que Luiz ficaria internado pelo fim de semana, achei melhor vir em casa buscar algumas coisas para ele, pijama, escova de dente, roupa para ficar durante o dia, livro, frutas, enfim,  algo que desse um pouco de conforto.

 

Vim em casa de novo e voltei ao hospital pela terceira vez no mesmo dia! Bom que  nesse período, foi uma amiga visitar Luiz e ele não ficou só. Verdade que a essa altura, eu estava só o pó, não conseguia nem conversar mais direito. Fiquei com ele até quase 23h, ele já estava pegando no sono.

 

Voltei para casa e dormi como uma pedra. Acordei cedo no sábado, mas bem disposta.

 

Mas estava bastante incômoda com aquela história de não saber direito o que estava acontecendo e tendo que esperar um fim de semana inteiro com Luiz internado com esse nível de informação. De maneira que cheguei no hospital no sábado pronta para tirar Luiz de lá, se ele quisesse, e irmos procurar atendimento em outro canto.

 

Acontece que no sábado ele estava se sentindo melhor e a febre baixou. Ele disse que foi monitorado toda a noite e achava que devia esperar mesmo. O médico chegou, conversou com ele, explicou tudo e entendemos melhor o quadro.

 

Não é que ele tivesse que ficar ali à toa, ele estava sendo medicado desde sexta-feira. Faria um raio X no domingo e na segunda-feira, se estivesse tudo seguindo bem, ele poderia ter alta do hospital e seguir tomando os antibióticos em casa. E foi isso que acabou acontecendo realmente.

 

Aproveito para dizer que achei o atendimento surpreendentemente bom! Sempre me queixo, e com muita razão, dos médicos aqui em Madri. Por isso, me sinto também na obrigação de relatar que fomos muito bem atendidos em todos os sentidos.

 

No sábado e no domingo a gente teve visitas de amigos, o que ajuda o tempo a passar mais depressa. Mesmo na segunda-feira de manhã, uma amiga e um amigo passaram para visitar. E na própria segunda, Luiz teve alta. Saímos do hospital pelas 15 horas.

 

Em casa tudo é melhor, não tem nem comparação! Ele seguiu tomando antibióticos, eu tratei de fazer umas comidinhas mais indicadas e foi tudo certo. Na terça e na quarta-feira, ele inclusive foi trabalhar. Aproveitou que a semana era curta, por causa do feriado e também não pegou muito pesado.

 

Esse negócio ainda vai render um pouco, até essa mancha sumir é melhor ele se cuidar, mas agora é vida normal.

 

Enfim, tudo bem quando acaba bem.

E a comemoração?

Pois é, o planeta inteiro sabe que amo uma festa! Eu faço festa até para inauguração de cafeteira! Se o pretexto for bom então, aí é que não me aguento mesmo.

 

Mas sempre costuma ser decidido de última hora. Quer dizer, a gente sabe que vai rolar, mas nunca tem certeza de onde e como.

 

Esse aniversário de casamento fiquei bem na dúvida. Primeiro, pensei em fazer em algum bar, normalmente, é o que Luiz prefere. Mas onde? Fechar um bar não é simples, nem costuma ser barato. Descartei logo.

 

Depois fiquei com vontade de fazer um jantar pequeno, para meia dúzia de casais e um esquema banquete de Babete. O problema é reduzir a lista de amigos para meia dúzia de casais… fica praticamente impossível. Além do mais, não estou bebendo e uma orgia gastronômica sem vinho é quase um pecado.

 

Então, tá, faço uma festa mais informal em casa e assim posso convidar mais gente. Daí lá vou eu para o dilema de todas as festas, a única parte que detesto, escolher os amigos que cabem no apartamento! Toda vez é o mesmo drama, o mesmo cobertor curto… pero es lo que hay! Encurtando a lista ao máximo, e porque era feriado e muita gente viajou, chegamos a um número de quarenta pessoas.

 

Não é pouca gente, mas consigo me administrar sem grandes problemas. Resolvi fazer na hora do almoço para não ficar tarde e não torturar os vizinhos. Eles nunca reclamam, a gente não tem certeza se não se incomodam ou se tem medo da gente. Não me reprimo, mas procuro não abusar da paciência de ninguém. Fazer durante o dia também é bom porque temos muitos amigos músicos e para eles é mais difícil vir à noite, costumam trabalhar.

 

Enfim, fiz um bobó de camarão e mais umas coisinhas de aperitivos. Na medida do possível pelo número de pessoas, ficou muito bom, modéstia às favas! A bebida, pedimos  aos convidados que trouxessem.

 

Uma pena que Luiz estava gripado e aproveitou pouco. Sabe como é homem com qualquer coisa relacionada à saúde, né? Tudo é um drama épico! Alguém conhece um homem que diga simplesmente, estou resfriado ou com tosse? Nada! Eles dizem: estou doeeeeente! Tenho certeza que se homem menstruasse, todos os meses lotariam os hospitais solicitando coma induzido para aliviar o sofrimento extremo! Mas enfim, também é verdade que Luiz não me perturbou nem ficou me pedindo nada, o que é um grande passo masculino!

 

Mas não bebeu e ficou mais quieto que o normal. Bom, eu aproveitei bastante. Batuquei, cantei, dancei… tudo de direito! Mas sim que também estava um pouco mais quieta que de costume.

 

Quer dizer, nós estávamos mais tranquilos, mas a galera estava a mil! Mulherada atacada, coisa que já previa quando comecei a cozinhar. Tenho esse dom culinário e adoro direcionar a energia que vai rolar no ambiente de acordo com a comida, me sinto meio bruxa e poderosa.

 

O que rolou ou deixou de rolar, fica no nosso eterno pacto de silêncio. O que acontece nas festas, fica nas festas! Até porque boa parte a gente esquece mesmo e seguimos literalmente o lema: se não lembro, eu não fiz!

 

Também rolou música ao vivo e uma batucada animadíssima! Como disse, a gente tem alguns amigos músicos e outros que não são profissionais, mas curtem a brincadeira. Às vezes, fico um pouco sem graça, porque não quero abusar de quem faz isso por profissão. Se queremos um concerto, a gente contrata. Fora isso, os convidados músicos tocam se querem, quando querem e o que querem. Mas felizmente, isso acontece com frequência e adoro, me sinto privilegiada de ter gente tão talentosa na minha sala!

 

E fico no céu quando sei que os amigos estão se divertindo e se sentindo queridos!

 

Bom, o almoço rolou até umas 23h mais ou menos. E lógico que houve o enterro dos ossos no jantar mesmo! A diretoria já sabe que vai acontecer a segunda rodada e espera. Como Luiz estava mais ou menos, a festa durou só nove horas!

 

Mas quem pensa que acabou por aí, se engana! Não disse que a mulherada estava atacada? Daqui ainda saíram para seguir a noite e acompanhar o show de um amigo que cantou a tarde inteira aqui em casa e ainda tinha fôlego para mais! Haja resistência!

 

É verdade que em condições normais de temperatura e pressão, também teria seguido a noite fácil! Mas já estava satisfeita por ali e segurei minha onda.

 

Afinal de contas, fizemos 18 anos, certo? Já somos um casal adulto e responsável! Ou quase…

18 aninhos de casada… uma relação adulta!

No dia 18 de março é nosso aniversário de casamento e acabamos de fazer 18 aninhos!

 

Como tenho brincado por esses dias, agora nosso relacionamento é adulto, já pode dirigir, sair para beber e votar. O único problema é que qualquer infração é crime!

 

Pois é, engraçado que às vezes tenho essa sensação de que foi ontem. Não tenho o peso que imaginei que houvesse em tantos anos de relacionamento. Talvez até porque não somos os mesmos ao longo do tempo. Felizmente, nossas mudanças tem sido para o mesmo lado, e quando não são, damos nosso jeito de tornar a vida compatível e mais leve.

 

Ao mesmo tempo, outras vezes parece que sempre foi assim. Há umas semanas encontrei uma amiga nova, que me perguntou como a gente se conheceu. Tive que parar alguns segundos e organizar as ideias. Aquela sensação de como assim a gente se conheceu? Ele não estava sempre ali?

 

Não, não estava sempre ali, chegou um dia. Mas hoje é difícil lembrar de qualquer história importante onde Luiz não esteja presente. Temos nossa individualidade garantida, é lógico, impossível qualquer relacionamento sobreviver sem seu espaço, mas realmente há momentos que parece que a gente se fundiu.

 

Nas agendas dos nossos amigos, somos a Bianca “do Luiz” ou o Luiz “da Bianca”. Como nas cidades do interior, passou a ser nosso sobrenome.

 

Sem combinar, contamos as mesmas piadas, dividimos a mesma ironia sarcástica, nos vestimos da mesma cor e nos esforçamos para não pedir os mesmo pratos nos restaurantes (o que não precisamos negociar porque sempre sabemos o que o outro vai pedir). Poderia ser considerado monotonia, mas eu chamo de cumplicidade. E vamos combinar, de monótona nossa vida não tem nada!

 

De uns tempos para cá, me olho nas fotografias atuais e quase não gosto de nenhuma, não me reconheço. Cheguei à conclusão que é porque ainda me vejo no espelho e me imagino com olhos de passado. Mas não sou mais assim, não tenho o mesmo peso nem a mesma pele. E, principalmente, não tenho o mesmo olhar.

 

Não estou falando de vaidade ou do medo de envelhecer, simplesmente da consciência de que cada vez tenho menos tempo. Só isso.

 

Na verdade, talvez haja um pouco de vaidade sim, mas tenho um conforto. Escuto Luiz reclamar que se vê velho e é engraçado escutar suas próprias reclamações bem parecidas com as minhas mais íntimas e pensar que não noto nada disso nele. E o que noto, não me incomoda. Então, acredito (e tenho a esperança) que para ele também seja assim.

 

E essa é uma grande vantagem em poder envelhecer junto a quem se ama. Sem os óculos e com a luz baixa, ainda podemos ter dezoito anos.

 

 

A Confraria da Cachaça

Para quem não sabe, sou cachaceira de marca maior.

 

Nunca fui de cerveja, o que no meu tempo morando no Rio, não ajudava muito a minha vida social. Era bastante constrangedor quando o garçon chegava à mesa, contava as pessoas e dizia: “x” chopps! Daí lá ia eu, morrendo de vergonha dizer, não, eu não tomo chopp. E todo mundo me olhava como se eu estivesse dizendo a coisa mais estranha do planeta.

 

Vale ressaltar que nessa época, a oferta de vinhos era ainda bastante ruim. E Whisky não combinava muito com o verão carioca. Não me sobravam muitas alternativas.

 

Paciência!

 

Daí abriram a “Academia da Cachaça” e para mim foi ótimo ter uma opção de lugar onde eu não era um bicho esquisito. Aliás, por curiosidade, o primeiro bar que Luiz me levou quando saímos foi exatamente esse, porque ele também era frequentador.

 

Ou seja, que podemos dizer que a cachaça batizou nosso relacionamento e, de momento, 19 anos depois, não podemos reclamar.

 

Quando saímos do Brasil, dificultou seu consumo. São poucas as cachaças que chegam à Espanha e todas brancas. Temos uma barriquinha de carvalho, o que quebra bastante o galho, envelhecemos nossa própria cachaça. E, lógico, a cada ida de férias, a mala vem cheia.

 

Um dia, Luiz teve a idéia de montar a “Confraria Européia da Cachaça”. Nos juntamos com um amigo brazuca que mora na Suíça e começamos a brincadeira. Não temos fins lucrativos, mas tentamos reunir amigos que apreciem a bebida. E quem sabe, ajudando a difundir seu consumo, direta ou indiretamente a gente consiga incentivar que outras marcas cheguem à Europa.

 

Aqui em Madri, temos um amigo dono de uma coqueteleria que se interessou pelo tema. Também é um apreciador de cachaças. Então, começamos a promover alguns cursos e degustações no seu bar. O que a gente faz é apresentar 5 cachaças para serem degustadas, cada uma harmonizada com a respectiva “tapa”. Aqui chamamos isso de “maridaje”, feito normalmente com vinhos, mas que se encaixa à perfeição com as cachaças. Luiz faz a apresentação de cada bebida e conduz a palestra, e eu faço as comidinhas.

 

Degustamos o seguinte “maridaje”:

 

Começamos por uma cachaça branca. Normalmente, utilizadas para drinks, justamente por serem mais neutras que as envelhecidas. Ainda assim, aportam bastante personalidade. A cachaça ficou internacionalmente conhecida através da “caipirinha”, drink bastante popular no Brasil e cada vez mais pelo mundo. Mas existe uma série de possibilidades de outras combinações e não há limites para a criatividade em novos drinks. E a cachaça branca, também pode ser consumida pura. Aqui encontramos a “Velho Barreiro” e optamos por ela, acompanhada por um caldinho de feijão.

 

Seguimos com a Sanhaçu, envelhecida em Freijó. Madeira nobre que não altera muito as características da bebida (cor, sabor e aroma), sendo muito utilizada para o “descanso/repouso” das bebidas brancas, que adquirem com o freijó maior estabilidade dos seus elementos e compostos. O processo de “repouso” assenta a aspereza natural da bebida e a torna mais gostosa de tomar. Degustamos a Sanhaçu acompanhada de bolinho de tapioca com queijo. Sobre a cachaça, na Zona da Mata pernambucana, esta família trabalha com agricultura orgânica desde 1993, o que propiciou o retorno de animais silvestres como o teju, o coelho do mato e o sanhaçu ou sanhaço, pássaro que dá nome à cachaça. Com notas frutadas, de rapadura e de especiarias, é um pouco ácida na boca, deixando a boca bem enxuta. Por sua adstringência, a gordura do queijo dá o equilíbrio e combina bastante com o toque de rapadura.

 

A terceira foi a Salinas, envelhecida em Bálsamo. Famoso na produção da cachaça de Salinas, o envelhecimento em bálsamo deve ser muito cuidadoso. É de processo mais específico e pode deixar a cachaça com gosto de “madeira de marcenaria”. Já em boas mãos, propicia uma bebida vivamente amarelada, com gosto forte e marcante – muito atraente. Antigamente abundante na região de Salinas, foi usada por esses com maestria. A Salinas é uma cachaça premiada várias vezes, é suave e versátil, pode ser consumida pura ou em drinks. Há uma falsa idéia de que a cachaça só deve acompanhar aperitivos fortes, o que não é verdade. No caso da Salinas, pode perfeitamente se harmonizar, por exemplo, com peixe. Foi degustada com bolinho de bacalhoada.

 

A próxima foi a Magnífica, envelhecida em carvalho. É a madeira mais usada no envelhecimento, junto com o bálsamo, o jequitibá e a amburana. Por ser tão famosa há jeitos e jeitos de envelhecê-la aí: há cachaças mais claras feitas em carvalho, mas também há outras bastante escuras. Sem sombra de dúvida, uma das madeiras mais próprias ao envelhecimento de bebidas alcoólicas, o carvalho proporciona uma melhora na aguardente, encorpando-a e deixando cor e aroma marcantes e característicos. Muitas vezes se empregam tonéis em que já foram usados para envelhecer outras bebidas e, por isso, a cachaça adquirirá um sabor diferente, de acordo com o que tiver sido anteriormente armazenado neles (vinho, whisky, Bourbon etc). Já que muitos produtores utilizavam tonéis que uma vez envelheceram whisky, a cachaça curada nessa madeira é aquela que fica mais parecida com a bebida escocesa – mas com um grande sotaque brasileiro. O “maridaje” da Magnífica foi com bolinho de mandioca com calabresa. É uma cachaça de cor dourada, sabor suave e aroma perfumado. É envelhecida por 2 anos em barris de carvalho. Indicada para ser apreciada pura como aperitivo. A linguiça calabresa, assim como a mandioca estão bastante presentes nos aperitivos de bar no Brasil. Sua combinação harmoniza muito bem com o sabor do carvalho.

 

A quinta cachaça foi a Saliboa, envelhecida em Ipê. Da mesma forma que outras madeiras como o jatobá, o ipé empresta à cachaça um tom e um sabor bastante pessoais. Sua cor chega a um alaranjado escuro, e o sabor fica bastante peculiar e muito atrativo para aqueles de personalidade forte e que buscam prazeres igualmente profundos e marcantes. Foi acompanhada de doce de tapioca com côco. Com uma produção anual de 30 mil litros, é intensa e persistente no aspecto olfativo, com notas de fruta, flor, madeira e especiarias. Na boca, é leve, de acidez equilibrada e macia, destacando a forte presença de canela. Muito boa na harmonia geral. É comum as pessoas degustarem a cachaça com “salgados”, mas também funciona muito bem como digestivo, ao final da refeição com doces (como um “orujo”). A Saliboa poderia ter sido harmonizada perfeitamente com um aperitivo salgado, com os torresmos, por exemplo, mas queríamos mostrar outras possibilidades para a bebida e foi bem recebida assim.

 

Nossa degustação acabaria aí, mas Luiz resolveu adicionar um “bônus” e degustamos também a Ypioca 160, que tem um sabor que lembra razoavelmente a um whisky.

 

Atrevo-me a dizer que foi um êxito total! Fizemos no dia 15 de março, na Belmondo Coqueteleria. O local é pequeno, charmoso e aconchegante. Não cabe muita gente e lotou! Tanto as cachaças quanto as tapas fizeram bastante sucesso e o pessoal pareceu se divertir bastante. Verdade que à medida que o álcool circulava pelo cérebro o grupo ficava mais animado, mas todos saíram bem de lá. Não era nossa intenção embebedar ninguém.

Para mim, também não deixou de ser uma experiência com catering e adorei! Estou pensando seriamente em montar um curso de tapas em casa mesmo, mas já veremos.

 

Enfim, ainda não sabemos quando será a próxima, mas já tem fila de espera. Assim que vamos fazendo nossa parte em converter mais e mais cachaceiros pelo mundo!

Uma fugidinha para Seefeld, Áustria

Essa é uma das grandes vantagens de se morar na Europa, a gente pode dar uma esticada de última hora e se mandar para outro país.

 

Há algumas semanas perguntei ao Luiz se ele não queria aproveitar esse finalzinho de inverno e ir esquiar em algum lugar. Nada que fosse muito complicado nem caro. Ele falou que estava afim, mas sem grandes perspectivas.

 

Semana passada, ele foi trabalhar em Barcelona na segunda e na terça-feira. De Barcelona mesmo, me perguntou se o plano de viajar seguiria de pé. Ué, por mim… macaco, quer banana? Só me avisa antes porque tem que achar alguém para ficar com Jack.

 

Na quarta-feira, por sua própria iniciativa, resolveu tudo. Conseguiu dia livre, converteu milhas, comprou passagem, reservou hotel e me avisou: viajamos na quinta!

 

Quinta amanhã? Sim, amanhã! Lá fui eu correr para cancelar aula de Pilates, perguntar se uma amiga podia ficar com Jack e arrumar as malas.

 

E para onde a gente vai mesmo? Uma  tal de “Seefeld”, no Tirol. Pegamos um vôo até Munique, de lá alugamos um carro e fica entre uma hora e meia, duas horas dirigindo até chegar ao destino final.

 

Assim que chegamos na Alemanha, pegamos o carro e partimos para a estrada. Advinha qual a primeira música que tocou na rádio? Nossa, nossa… assim você me mata… ah, se eu te pego… Veja bem, a primeira! Não foi a segunda nem a terceira! E adianto que na Áustria tocava também! Em pleno Tirol, nas lojas ou no bar do hotel, lá estava a voz de Michel Teló! Inacreditável!

 

Bom, eu não gosto nem do estilo nem da música. Não iria a um concerto do cidadão. Mas tampouco me incomoda tanto assim e acho que ele não denigre a imagem do Brasil. De maneira que se o menino está fazendo sucesso mundialmente, sorte a dele e que aproveite bem!

 

Chegamos em Seefeld pelas 22h, já tarde para jantar. Mas tiveram a gentileza de nos deixar um prato de frios no quarto para nossa chegada. O hotel era ótimo, um jeitão bem familiar, como de costume nas cidadezinhas dessa região. Ainda que a recepcionista se chamasse “Piroska” e me parecesse um pouco intimidador ser recebida pela Piroska assim logo de cara!  E óbvio que fiz mil e novecentas piadinhas cretinas com esse fato.

 

Nessas cidades pequenas austríacas é muito comum que os hotéis façam esquema de meia pensão, o que inclui o café da manhã e o jantar. Porque na hora do almoço, está todo mundo esquiando pela rua. E no jantar, todos cansados e querendo dormir cedo para aproveitar o dia. Não costuma haver uma vida noturna interessante. Eventualmente, os hotéis organizam vernissages, pequenos concertos de músicos locais ou jogos de cartas.

 

Funciona assim, logo no primeiro dia você recebe uma mesa e todos os dias é ali onde você sentará no café da manhã e no jantar. Fica uma plaquinha com seu nome de família nesse local definido. No próprio café da manhã, você tem acesso ao cardápio da noite, com entrada, salada, queijos e sobremesa fixos e opção de três pratos principais a eleger. Você escolhe seu prato, marca um “x” em um papel que fica sobre sua mesa, com o número do seu quarto. Ou seja, logo pela manhã, você precisa decidir o que vai jantar. A comida é caseira, mas muito bem cuidada no preparo e na arrumação dos pratos. Não é pretensiosa, mas tem um toque gourmet. Aliás, comemos muito bem todos os dias.

 

No fim da semana, tinha que fazer a prova de gravidez, mas isso era fácil, porque era desses exames de farmácia. Pensei, beleza, assim se for positivo a gente comemora e se for negativo, tenho mais com que me distrair. Comprei meu exame ainda em Madri, para evitar confusões. E para cortar o suspense, deu negativo. A verdade é que durante a semana, meus sinais foram sumindo e no fundo era já o que esperava. Sem problemas, tentaremos de novo sem grandes neuroses.

 

Mas acabou que essa história rendeu um mico divertido. Porque a tonta aqui confundiu o dia de fazer o teste e acabei fazendo antes. Quando me dei conta do erro, ainda que fosse muito improvável, resolvi fazer novo teste no dia correto. Só que daí tinha que comprá-lo na Áustria. Veja bem, a atendente da farmácia só falava alemão, lógico! E o alemão da Bianquinha é algo que beira o inexistente!

 

Cheguei tentando com inglês: pregnancy test? Ela olhou para mim com aquela cara que interrogação. Ok, parti para a mímica, pregnancy… e fazia o gesto de barriga de grávida… test… e colocava cara de dúvida!

 

Funcionou, ela começou a me apontar para uma prateleira e segui suas indicações. Acontece que na prateleira só havia uns folhetos pequenos, meio compridinhos, que falavam de teste de gravidez. Pego aquele papel: e o que faço com isso? Tenho que fazer xixi nesse folheto? Olho para a atendente com aquele jeito de “mas é isso mesmo”?

 

Ela começou a me chamar dizendo que sim e apontar para embaixo do caixa. Entendi que ela trocava aquele papel pelo teste. Acho que deve ser algum tipo de controle para menores de idade não comprarem o produto, sei lá.

 

Bom, com a caixinha do produto em mãos, perguntei: english instructions? E ela balançava a cabeça que sim. Mas eu, escaldada, tratei de abrir a caixa ali mesmo para ver se entendia as instruções. Claro que só tinha instruções em alemão! Tudo bem, já tenho experiência no assunto e fui direto para os desenhos. Geralmente, são 3 desenhos, um é sim, os outros dois são não ou nulo.

 

Apontei para o primeiro desenho e fiz o gesto do barrigão outra vez. Ela olhou e fez positivo! Os outro dois desenhos ela dizia algo que me soava como: nirr… nirr… fazendo cara de não. Beleza, resolvido! Ainda bem que a farmácia estava vazia, né?

 

No restante da cidade, a gente se virava bem com o inglês. Aliás, pessoal bastante amável e simpático.

 

Essas cidadezinhas entre vales nevados sempre me parecem de conto de fadas, me sinto em uma fábula de Natal. Havia nevado bastante e os telhados ainda guardavam cerca de um metro de neve, apesar da temperatura chegar à incrível marca de uns 15 graus! Nem sabia que com essa temperatura ainda era possível que a neve não derretesse inteira!

 

Enfim, fizeram dias lindos e ensolarados, ainda que nevados.

 

Descobrimos uma delicatessen especializada em produtos austríacos e italianos que era uma autêntica perdição. Ali tomamos um vinho tinto italiano fantástico, porque vamos combinar, os vinhos tintos alemães são sofríveis, pelo menos ao meu paladar. Acompanhamos com uma tábua de frios divinos, dos quais selecionamos um em especial para trazer a Madri. Um salame trufado dos deuses! Até hoje nossas roupas de esqui estão cheirando a trufas, mas tudo bem, valeu à pena!

 

No domingo, dia de voltar para casa, a diária do hotel vencia às 11h e nosso vôo só saía de Munique às 19h. Podíamos almoçar em Seefeld e fazer uma hora por lá, mas temos um casal de amigos que mora em Munique e queríamos almoçar com eles. Assim, além de passar o tempo, também aproveitávamos para fofocar um pouco pessoalmente.

 

Domingo é um dia meio morto em Munique, aliás, acho que na Europa de modo geral. Mesmo aqui em Madri, que é super animada, boa parte dos restaurantes simplesmente fecham no domingo. Mas minha amiga acabou achando um vegetariano bem bonitinho no centro da cidade e ali gastamos algumas horas.

 

De lá, nos despedimos, e fomos para o aeroporto tomar o rumo de volta. Melhor não chegar tão tarde, porque ainda tínhamos que devolver o carro alugado.

 

Antes de devolver o carro, precisávamos abastecê-lo. Normalmente, tem posto de gasolina perto dos aeroportos e contamos com essa facilidade. Achar o posto nem foi complicado, estava bem sinalizado. Mas na hora de abastecer, cadê que a gente conseguia?

 

Bom, em geral, eu nem salto do carro, porque odeio essas bombas que a gente tem que se servir sozinha. Adoro o esquema brazuca que alguém faz isso para você. Mas o Luiz está acostumado. Saltou ele e daqui a pouco me chama, Bi, não estou conseguindo abastecer, vê se você descobre como é. Ele colocava a bomba, mas tinha uma espécie de tampa por dentro que não abria e não entrava o combustível! Inclusive, vazou um pouco pelo lado de fora. Lá fui eu catar o manual de instruções, todo em alemão… putz! Ele foi atrás de um taxista para pedir ajuda. O taxista apontava para a entrada de combustível que tinha escrito “Diesel” e a gente, ok, mas a bomba não entra…

 

O taxista desistiu e foi embora. Eu achei no manual o desenho de onde abastecer, mas aparentemente não fazíamos nada errado. Até que Luiz venceu a vergonha e perguntou para o carro que estava atrás da gente se podiam ajudar.

 

Foi quando a gente entendeu que Luiz estava tentando enfiar a bomba de gasolina, ao invés da de diesel, e o carro muito inteligente reconhecia o erro e simplesmente não deixava entrar o combustível errado!

 

Fica a gente com aquela cara de nádegas, querendo se enterrar, mas com vontade de rir da mancada! Daí Luiz tenta com a bomba certa. Acontece que quando ele tentou com a bomba errada, vazou um pouco de combustível, lembra? E enquanto não pagasse a incomensurável conta de 13 centavos, a bomba não funcionaria novamente. Lá foi ele no posto pagar os centavos para liberar a bomba e, finalmente, conseguir encher o tanque do carro! Ufa!

 

Que mico!

 

Mas enfim, sobrevivemos e até achando graça. O resto da viagem correu tudo bem. Chegamos em casa pelas 23 horas, exaustos, mas ao mesmo tempo relaxados.

 

Minha amiga que ficou cuidando do Jack ainda foi legal e colocou a roupa da casa para lavar, porque sempre que a gente chega de viagem tem um monte roupa suja. Assim que já foi bom chegar com a vida adiantada.

 

Nosso felino, como todo fim de viagem, estava um docinho, uma carência só, pedindo atenção o tempo inteiro. Mas em um par de dias já está normal novamente. Ele anda mais sociável com quem fica em casa.

 

E isso, pues nada, para quem não tinha planos até quarta-feira passada, não podemos reclamar do fim de semana inesperado.

Será primavera? Estou na Bahia?

Chegou sábado e fomos a um churrasco na casa de amigos. Pouca gente, marcado no dia anterior.

 

Engraçado quando seus amigos entram na categoria família e as formalidades vão para o saco! O marido nos chamou, marcou o churrasco e simplesmente se esqueceu de avisar a esposa!

 

Para completar, surgiu uma oportunidade de última hora que ele não podia perder exatamente no sábado pela manhã.

 

Resultado, chegamos na casa deles e estava só a esposa. Sem problemas, começamos a organizar a história, ascender churrasqueira, preparar carnes, pão etc. Dalí a pouco chega o marido e pouco depois quem tem que sair é ela, porque já havia marcado com a sobrinha de participar de um campeonato de quebra-cabeças!

 

Hein?!

 

Primeira pergunta, vocês moram na mesma casa? Estão brigados? E a segunda, como assim campeonato de quebra-cabeças? Marido, você acreditou nessa desculpa esfarrapada?

 

Explicada a história e depois de tirarmos muito sarro da cara dos dois, a verdade é que fez um dia muito agradável. O primeiro fim de semana de sol do ano que deu para tirar o casaco e quase sentir calor.

 

Quer dizer, calorzinho mesmo, só embaixo do sol e chegou um momento em que ficou hilário porque todos os homens estavam ao redor da churrasqueira, na sombra; e todas as mulheres encostadas em uma parede, alinhadas na escada, para não perder nem um raiozinho de sol. Lógico que passamos a ser chamadas de lagartixas e a comparação era inegável.

 

Lagartixas sim, mas que aquele sol estava ótimo, isso estava!

 

Carne boa, companhia melhor ainda e temperatura excelente! Um dia de primavera com tudo para acabar bem.

 

No final, como de costume, foram jogar sinuca. Também como de costume, depois de meio bêbados, eles brigam por causa das regras. E essa é a parte ruim de ter amigos-família. Brigam a sério, o que me irrita e não é a primeira vez. Das outras vezes, fiz ouvido de mercador, dessa perdi minha paciência e vim embora. Acho que quem não sabe brincar, não brinca e quem não sabe beber, não bebe. Da minha parte, não tenho que ficar ouvindo grosserias, mesmo que não sejam destinadas a mim diretamente.

 

Portanto, a quantos churrascos mais for convidada, irei na maior alegria. E na hora do jogo de sinuca, nunca mais estarei presente.

 

Chegamos em casa perto dàs 21h, eu acho. Deu preguiça para sair outra vez, porque para jantar não tínhamos fome e para dançar ou beber, não é exatamente o momento. Então, aproveitamos para dormir um pouco mais cedo.

 

No domingo, acordamos bem. Essa também é uma vantagem de não beber, quando acordo no final de semana cedo, bem disposta e ainda por cima de propósito, me sinto recompensada.

 

Os dias estavam muito bonitos para ficar dormindo em casa, queria estar ao ar livre um pouco.

 

Havíamos marcado de ir com uns amigos a um restaurante baiano. Há algum tempo atrás, uma amiga descobriu um restaurante que fazia um acarajé bem honesto, o Rincón Baiano. Almoçamos ali e criamos a “Confraria do Acarajé”. De tempos em tempos, nos reunimos para desfrutar de tal iguaria!

 

A Confraria acabou crescendo e esse último almoço já reuniu umas 20 pessoas. Acho até gente demais para ir de uma vez ao restaurante, dificulta o serviço. Por outro lado, o pessoal é sempre muito animado e a gente sempre se diverte. Vamos combinar que se juntar para comer acarajé em plena Madri é algo meio surreal.

 

Fomos e voltamos caminhando, aproveitando a temperatura e o ar fresco. Está chegando a temporada que mais adoro na Espanha, aliás, na Europa em geral, mas aqui especialmente.

 

Apesar dos percalços, um dia de primavera e outro de Bahia são muito bem vindos!

Carnaval em Madri 2012

Adianto que foi bem animado, aliás, se não foi o mais animado, seguramente foi o que mais dias teve!

 

Geralmente, nosso carnaval em Madri se resume ao sábado, quando nos juntamos e saímos em bloco para batucar na rua.

 

Acontece que dessa vez começou na quinta-feira, dia 16 de fevereiro. Pela hora do almoço, chegou meu irmão do Rio, junto com duas amigas. Ele ficou hospedado aqui em casa e as amigas em um apart hotel logo na esquina, muito perto.

 

Na mesma tarde, fiz um passeio pelo centro da cidade com eles e paramos para comer no Mercado de San Anton e no de San Miguel. Eles já começaram ali os trabalhos etílicos, mas eu estava uma lady só na água e, claro, nas tapas que são ótimas!

 

Bom, na sequência, foi a noite das caipirinhas, no Belmondo, uma coqueteleria bem charmosa em lavapiés. Lá fomos nós e um grupo de amigos. Luiz e eu não ficamos até muito tarde porque ele trabalhava no dia seguinte, aqui não tem feriado em carnaval. Então, pela hora da Cinderela a gente puxou nosso carro e o pessoal seguiu mais um pouco.

 

Na sexta, acordei meio entupida, senti que estava querendo gripar e me deu um pouco de medo. Meu irmão não estava sozinho e não dependia de mim para sair. Pois quer saber, fico em casa e me preservo, porque à noite tem mais.

 

E teve! Na sexta à noite foi um grito de carnaval, organizado por um amigo em um bar, na Taberna Alabanda, com direito à fantasias e marchinhas!

 

Veja bem, para quem estava atento, leu mais acima que meu irmão saiu do Rio em pleno carnaval para vir a Madri, certo? Imagino que por si só esse fato demonstre o quanto ele ama de paixão pular carnaval. Mas o caso é que nós íamos para esse bar e as amigas dele gostaram da história, portanto, ele acabou sendo voto vencido. E a verdade é que se divertiu e dançou bastante.

 

O pessoal se empolgou e todo mundo foi fantasiado. Com os amigos daqui não tem erro, todos embarcam na brincadeira sempre! Nem preciso dizer que o povo chutou o pau da barraca três vezes, né? O bar não estava lotado e virou festa privê, animada, mas confortável.

 

Como já contei, não estava tomando álcool nesse carnaval. Tudo bem, porque consigo me divertir sóbria no meio dos doidões, até dou corda. E devo ser a única que sabia exatamente o que estava acontecendo a todo momento. Entretanto, por empatia aos meus amigos ébrios, e sorte a deles, me abstenho de contar sobre a vida alheia, a menos que me toque diretamente. Mas para dar uma idéia do teor alcoólico da galera, só conto que duas pessoas perderam suas carteiras!

 

Uma delas, amiga do meu irmão, com seu passaporte dentro! Pequeno detalhe, no dia seguinte, bem cedo, os três tinham passagem marcada para Barcelona.

 

O que quer dizer que saímos cedo da festa, por volta dàs duas da manhã, para dar tempo deles dormirem alguma coisa. Mas na prática, não adiantou muito, porque tiveram que ir para a polícia dar queixa, entre outras pendências a serem resolvidas quando se perde a sua bolsa! Resultado, ninguém deitou antes das 4 da matina!

 

Um parêntese, enquanto esperávamos essa confusão com o povo na polícia, liga o outro amigo que tinha perdido a carteira. Atendo eu e bato o maior papo com ele, afinal, não estava fazendo nada mesmo e tinha que esperar acordada. E no meio de uma conversa relativamente surreal, entendo que ele perdeu uma carteira, em suas palavras: com 40 contos e minha carteira do coração…

 

Carteira do coração? Que raio será isso? Deve ter querido dizer que era uma carteira de estimação, que ele gostava, sei lá! O importante é que dizia não haver levado documentos.

 

No dia seguinte, ele mandou uma mensagem ao Luiz avisando que perdeu a carteira. Luiz respondeu que sabia. Ele não lembrava que já tinha nos falado! Meu amigo, você ligou duas vezes às 3 da matina e bateu o maior papo com a Bianca! E que raio é a carteira do coração?

 

Era uma carteirinha da Cruz Vermelha! E sim, ele tinha perdido os tais 40 euros, mas não havia levado documentos. Menos mal.

 

Seguindo a saga, no sábado, às 7 da manhã já estávamos de pé para levar meu irmão e a amiga que não perdeu nada no aeroporto e a outra na delegacia. Chegamos no apart hotel, só estava meu irmão e a amiga que ia viajar. A outra devia estar com vergonha, dormindo, sei lá! A gente ficou meio chateado de estar todo mundo acordado àquela hora e justo a pessoa que perdeu a bolsa não ter aparecido. Mas tudo bem, isso era problema deles.

 

O que não sabíamos é que em seguida ela levantou, conseguiu embarcar com a carteira de motorista com foto e acho que uma declaração da polícia que havia perdido o passaporte. Como era um vôo nacional, deu certo. E lá mesmo em Barcelona, ela conseguiu fazer outro passaporte de emergência. Enfim, tudo solucionado!

 

Voltamos para casa e demos uma cochilada para agüentar o tranco! Porque no sábado era o principal programa carnavalesco, dia de por o bloco na rua! Fomos nos juntando em um grupo de amigos, e passamos ensaiando músicas e percussão nos domingos de janeiro e fevereiro.

 

Vou ser bastante sincera, no dia mesmo estava mortinha! Gripada, toda entupida, sem poder tomar remédio, sem poder ficar doente, sem poder beber e um frio do cão na rua! Afinal, aqui é inverno!

 

Acontece que tinha posto a maior pilha em um monte de gente, feito toda a propaganda, levantado expectativas… enfim, não dava para amarelar de jeito nenhum.

 

Então, às cinco da tarde lá estávamos nós na concentração do bloco, no Kabokla. O plano A era ficar só na concentração e na hora de ir para a rua a gente sair pela tangente e voltar para casa. Mas já dizia Vicente Mateus que quem está na chuva é para se queimar. Assim que quando o bloco foi para a rua, lá fomos nós com ele.

 

Fui tocando tamborim e o Luiz, caxixi. Mas pelo meio do bloco ele também tocou tamborim comigo. Saímos do Kabokla, na Calle San Vicente Ferrer, caminhamos até a Plaza de España, subimos pela Gran Via até Callao, descemos a Preciados até a Puerta do Sol. De lá, se fez o caminho de volta.

 

Mostro um dos vídeos do pessoal, quando estávamos descendo a Preciados. Dá para notar que é um bloco bastante democrático, cada um toca e canta o que quiser. Na frente é uma música, na bateria é outra! Mas tudo bem, o importante é a brincadeira e divertido foi! A gente aparece duas vezes, a primeira por volta dos 20 segundos, quando um dos músicos mostra uma garrafa, estamos atrás dele tocando tamborins; e a segunda quase no final vídeo.

 

No trajeto de volta, assim que chegamos em Callao, caminho para nossa casa, resolvemos sair à francesa e tirar nosso time de campo. Demos nossos chapéus para outras duas pessoas e tomamos nosso rumo!

 

Domingo foi dia de preguiça! Meu irmão estava em Barcelona ainda, chegaria na segunda-feira, e já sabia que durante a semana a programação deveria seguir. Melhor a gente aproveitar para descansar.

 

Segunda-feira, tive médico e estava tudo certo. Ótimo, assim relaxei um pouco! Aproveitei para pegar o nome de algum descongestionante nasal que eu pudesse usar e me senti melhor.

 

O pessoal chegou de Barcelona no fim da tarde. E nessa noite, além dos três, ainda haviam chegado mais dois casais, amigos do meu irmão. Marcamos jantar com todo mundo, um grupo de nove pessoas, em plena segundona! Fomos ao Paralelo Cero, onde eles foram super gentis e nos colocaram em uma sala privativa para nosso grupo.

 

As amigas do meu irmão eram bem divertidas e os casais também, assim que a animação seguiu. Luiz voltou para casa, afinal ele não está de férias, e segui com eles para o Olé Lola, um bar lounge em Malasaña.

 

Na terça, jantamos no já legendário El Fogón de Trifón, como não poderia deixar de ser e na quarta-feira, fomos ao La Mucca. Enfim, tentei buscar lugares com estilos diferentes para variar um pouco.

 

Na quarta, depois do jantar e de deixar Luiz em casa, fui com eles até o El Junco, mas nem me atrevi a entrar, porque me conheço e sei que não tenho maturidade! Fui só garantir que eles soubessem o caminho e voltei da porta!

 

Na quinta-feira, ainda saí com meu irmão durante o dia, para fazer as últimas compras e comer alguma coisa só nós dois. E à noite eles foram embora.

 

Por um lado, dei aquela respirada por poder descansar, mas por outro, ficou a sensação de meio vazio. Eu bem que estava gostando da confusão, por mais comportada que estivesse.

 

Para quem achava que ia acordar mais tarde na sexta, nada! Obra em casa! Pelo menos foi rápido e pela hora do almoço já estava tudo resolvido.

 

Quando chegou à noite, perguntei ao Luiz se ele queria sair para jantar ou fazer alguma coisa e ele praticamente rosnou para mim! Após cruzar com seu olhar, algo entre um assassino em série e alguém pedindo clemência, achei que era melhor ficar quieta em casa mesmo…

 

Um novo fim de semana estava chegando,  porque ninguém acha que acabou, né? Mas, enfim, essa já é outra história…

Fazendo contas

Agora sou uma mulher matemática: vivo contando!

 

Porque entre o sanduíche de “feveillon” e carnaval, dona Bianquinha segue em seus planos de gravidez. E para não perder a conta, deixa eu registrar tudo direitinho! E aviso logo que esse texto interessará mais às mulheres que também tentam engravidar.

 

Primeira data que você nunca pode esquecer é a da última menstruação. É dali que saem todos os cálculos e, no caso de tudo dar certo, será quando começa a contar a sua gravidez.

 

Minha última data foi 03 de fevereiro.

 

O primeiro passo foi tomar o estimulador para ovular, no meu caso, o Omifin. Ele começa a ser tomado no 5º dia da menstruação, ou seja, nesse caso, no dia 7 de fevereiro. Foi tomado durante 5 dias. Ou seja, que tomei até o dia 11 de fevereiro.

 

No dia 13, fiz outra consulta como médico, que por sua vez confirmou que meu ovário esquerdo reagiu.

 

Daí ele disse que minha ovulação provavelmente seria entre os dias 15 e 16 de fevereiro. Segundo ele, o óvulo dura 48 horas e o espermatozóide 72 horas, portanto, para cercar essa data, deveríamos manter relações nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro. E que não fizéssemos nada nos dois ou três dias anteriores.

 

Ele não me recomendou medir temperatura. Na dúvida eu medi e não tive grandes alterações. Também não me falou nada de deixar as pernas para cima por um tempo, coisa que a sabedoria popular prega constantemente. Mas quer saber, lenda ou verdade, não me custava colocar as pernitas para cima, então está valendo!

 

É um pouco engraçado você ter dia marcado para sexo, no caso, três dias seguidos, mas não achei nada ruim!

 

Muito bem, no dia 17 de fevereiro, comecei a tomar progesterona para dar uma forcinha. Voltei a tomar o Ultragestan 200mg, uma vez ao dia. Normalmente, tomo antes de deitar porque me dá muito sono. Aliás, acho ótimo, durmo que é uma beleza!

 

No dia 20, voltei no médico e fiz nova ecografia, para verificar se havia realmente ovulado, medir não sei o que do endométrio e blá, blá, blá… Bom, nessa consulta ainda é muito cedo para dizer que estou grávida, mas poderia confirmar que não estava. Felizmente, segundo ele, tudo seguia como se deve, como se diz por aqui, a coisa tinha “muy buena pinta”.

 

Ele fez novas contas e me disse para fazer o teste de gravidez no dia 3 de março. Até lá, a comer paredes de curiosidade para saber logo se deu certo!

 

Lógico que fiquei toda animada, né? O médico me perguntou se eu tinha algum sinal ou percebia alguma coisa diferente. Eu disse que sim, mas que ele não levasse muito em consideração, porque agora tudo que sinto acho que é um sinal!

 

O único problema é que minha resistência baixou e eu gripei, coisa que raramente acontece. É raríssimo que eu pegue uma gripe! Mas nem isso achei ruim, porque da primeira vez que engravidei, aconteceu exatamente a mesma coisa. Para ver o nível de neurose da pessoa, até a gripe eu achei que era um sinal positivo!

 

Bom, tinha uma outra questão, isso foi exatamente antes do final de semana do carnaval. E pelo sim ou pelo não, achei que não deveria me arriscar. Não quero fazer nada errado.

 

Assim que não deixei de aproveitar, de encontrar os amigos e tal, mas nada de beber ou abusar fisicamente. Dizem que manter suas atividades normais não é o problema, o complicado é fazer algo que não estava na sua rotina. Estou acostumada a um ritmo puxado, portanto, não me custa esforço adicional sair, dançar um pouco, caminhar, mas me preservei. Depois conto sobre o carnaval, que aliás, foi muito divertido.

 

E quer saber, eu aproveitei e sigo aproveitando muito minha vida, segurar minha onda não é esse sofrimento todo. O chato mesmo foi ficar toda entupida e com medo de usar qualquer medicação.

 

Admito que à medida que o tempo vai passando e se aproxima da data de fazer o teste, meu ânimo vai sendo substituído por preocupação. Não é que não acredite, sigo otimista até o final, mas às vezes me bate o pensamento do é bom demais para ser verdade. Será que engravido logo na primeira tentativa? E se não for agora, por quanto tempo ficarei nessa expectativa?

 

Porque por mais que a gente tente levar uma vida normal, fica difícil não pensar nisso. Como acabo de explicar, seria no mínimo imprudente que eu levasse a minha vida normal. Necessariamente, muda minha programação de viagens, os encontros com amigos, os horários, o que como, o que bebo, a maneira de fazer ginástica, de subir as escadas de casa. Então, como faço para simplesmente não pensar nisso? É complicado.

 

Isso quer dizer que estando ou não, comecei a levar uma vida de grávida! Não é ruim, mas é diferente, porque é meio maluco você agir como se estivesse, sem ter certeza se está!

 

Enfim, detalhes que devo ir aprendendo a lidar pelo caminho. Talvez seja bom para eu ir absorvendo que minha vida já mudou e esse é só o começo.

Feveillon

Hein? Que?

 

Para quem nunca leu a respeito, já vou explicar, começou há alguns anos, quando fizemos uma tremenda festa de Ano Novo em casa. Na época, morávamos em uma cobertura e até fogos de artifício a gente estourou.

 

Quem mora fora de seu país, sabe uma festa assim nesse período é meio complicada de fazer. Porque muitos expatriados viajam e o pessoal local sempre tem alguma família com quem passar. Mas naquele ano, nem sei por que, havia muitos amigos pela cidade, de maneira que foi bastante animado.

 

Janeiro até que começou bem, mas pela metade do ano a coisa foi ficando meio pesada, meu pai adoeceu, vários amigos tiveram problemas, enfim, chegou dezembro e tudo que eu queria era desaparecer. Praticamente fugi com Luiz e o Jack para algum lugar que não recordo agora, acho que foi para França ou Andorra.

 

Nem me lembrei que tudo que você faz na vida tem uma conseqüência, ação e reação. E no momento que nos dispusemos a acolher os “exilados” nas festas de fim de ano, nós havíamos criado uma expectativa. Querendo ou não, havia uma responsabilidade, afinal já dizia o pequeno príncipe, tu es responsável pelo que cativas, certo?

 

Pois é, depois a gente soube até de umas histórias engraçadas de gente que estava muito aborrecida conosco, porque não convidamos para uma festa de réveillon que, por sinal, nunca existiu!

 

O que importa é que chegou fevereiro e os amigos finalmente haviam voltado de seus destinos. Tinha ficado um certo vazio no ar e a gente estava pensando mesmo em fazer algum reencontro de início de ano.

 

Quer saber, por que não fazemos uma festa de réveillon fora de época?

 

Réveillon + Fevereiro = Feveillon

 

E assim nasceu o famoso Feveillon!

 

De lá para cá, todo início de fevereiro a gente se organiza e dá uma festa, fazendo de conta que o ano começou novamente.

 

Parece uma loucura coletiva, porque nos vestimos de branco, colamos 7 ondas estilizadas no chão para pular e fazer pedidos, cantamos músicas de réveillon, comemos uvas, fazemos contagem regressiva, estouramos champagne à meia noite e nos abraçamos desejando um feliz ano novo a todos! Sim, simplesmente todo mundo entra na bagunça e incorpora a brincadeira!

 

O caso é que essa confusão começou a crescer e cada vez tinha mais gente querendo entrar na roda. Também não gostamos de ficar selecionando e limitando convidados, não para essa festa. Afinal de contas, réveillon que se preze se passa na praia com todo mundo, é democrático!

 

Então, decidimos esse ano fazer em um bar, assim todos poderiam participar. Checamos com os amigos a melhor data e foi 11 de fevereiro.

 

Pergunta se lotou?

 

Bombou! Na verdade, em algum momento da noite chegou a ficar meio aglomerado com tanta gente. Mas sem nenhum incidente ou confusão. Aliás, o clima era totalmente de boa energia. A grande maioria era de amigos ou amigo de amigos, então ficou tudo em casa.

 

Não havia ninguém na porta controlando entrada, por isso sempre pode chegar gente de fora, principalmente com aquela animação toda no recinto. Mas mesmo quem não era do grupo, entrou no clima da festa.

 

Tocou uma banda, também de amigos. Repertório de música brasileira que botou o povo para dançar. Lógico que a gente também se meteu, tocamos, cantamos… enfim, uma farra! Pelo meio da madrugada, outro amigo ficou de DJ e a festa seguiu.

 

Também distribuímos uns patuás caseiros, feitos com um saquinho de sal grosso enrolado em fitas do Senhor do Bonfim, para pendurar no pescoço. Infelizmente, só fizemos uns 60 e não deu vazão para todos convidados, mas paciência, valeu a intenção. Os nossos, pelo sim pelo não, já estão pendurados atrás da porta! Proteção é sempre bem vinda!

 

E assim, começamos o ano pela segunda vez!

 

É um pouco louco, admito, mas para que tanta razão, certo? Um pouco de fantasia, brincadeira, música e bom astral não fazem mal a ninguém.

Let me try again…

E lá vamos nós de novo, tentar engravidar outra vez. Aviso logo, assim só lê quem se interessar pelo tema.

 

Pois é, passei os dois meses necessários para o corpo voltar para o lugar e a poeira baixar na cabeça. Quer saber, acho que foi bom esse prazo. O tempo que levou meu corpo para se ajustar, foi o mesmo que levei para deixar de choramingar pelos cantos. Chega, prova superada!

 

Muito bem, próximos passos, como funciona agora?

 

Esperei os dois ciclos menstruais após a perda da gravidez. No primeiro dia do segundo ciclo, telefonei para o médico e marquei consulta, que devia ser feita entre o terceiro e o quarto dia.

 

Fui até lá, que é bem pertinho da minha casa, por sinal. Ele me fez a consulta e uma ecografia para ver se estava tudo bem. Felizmente, sim, está tudo certo, nas medidas que devem ter, tudo limpinho, nenhuma seqüela. Maravilha!

 

Bom, daí o que tenho que fazer é tomar um comprimido chamado Omifin 50mg, uma vez ao dia, por cinco dias. É um estimulante para ovulação. Daí na próxima segunda-feira, ou seja, uma semana após começar a tomar a medicação, volto lá e faço nova ecografia. Isso, recapitulando, é no 10º dia após a menstruação baixar. É quando ele me diz se estou ovulando ou não e em que pé de amadurecimento está o óvulo. E, dessa maneira, a gente pode concentrar as relações no dia correto, aumentando nossas probabilidades.

 

Em outras palavras, ele vai me dizer algo como: não é nesse mês, vai para casa e te vejo no próximo ciclo… ou, amanhã vocês poderiam ter um encontro romântico… ou, corre minha filha e avisa para seu marido chegar logo!

 

Fora esses 3 ou 4 dias em que estamos na dúvida se o óvulo está maduro ou não, o resto do mês todo é vida normal. O que para quem passou por uma fertilização in vitro, é moleza!

 

Olha, conheci e sigo conhecendo um monte de “tentantes” em ser mãe. Escuto todas as histórias e resultados possíveis. Aprendi pacas! E também espero ter ajudado a orientar alguma outra perdida como eu estava. E muitas me repetem a mesma situação, que é o fato das relações sexuais terem ficado mecânicas ou burocráticas, em função dessas tentativas de engravidar.

 

Deve ser verdade, porque é uma queixa geral. Mas vou dizer uma coisa, com todo o respeito que tenho pela experiência de cada uma, essa questão não me preocupa agora. Acho que negar o problema seria ingênuo da minha parte, entretanto, vê-lo sob outra perspectiva pode ajudar bastante.

 

Queridas e queridos, estamos falando de sexo! Com alguém que você espera ser o pai ou a mãe de seus potenciais filhos! E isso tem que ser ruim ou obrigação por que mesmo? Fala sério!

 

Vamos abrir o verbo? Eu não sou uma virgem de 15 anos que sonha com anjinhos e passarinhos cantando em suas futuras relações. Tenho 42 anos, casada há quase 18 deles, se eu for esperar condições perfeitas de temperatura e pressão para dar umazinha, vou cicatrizar!

 

Porque na vida normal, um dia você sim está com dor de cabeça, o outro ele chegou morto do trabalho, no outro está um frio do cão e no outro você simplesmente está sem paciência! Então, esse momento romântico perfeito, onde vocês estão relaxados, descansados e lindos pode demorar muito a acontecer! E que ainda por cima isso coincida com o exato dia em que estou ovulando… putz!

 

Isso quer dizer que não existe espontaneidade nas relações? Lógico que existe! Caso contrário, o casamento vai para as cucuias, não é isso que estou dizendo. Só que já não tenho essa necessidade de tanto romantismo para ficar arrumando problema onde não há. Sinto muito em admitir, meninas, mas eu não preciso de 45 minutos de preliminares em absolutamente todas as vezes, e se isso acontecer, eu durmo ou vou começar a pensar na lista de compras do dia seguinte! Para que complicar o que é bom simples?

 

E se alguém me diz que preciso ter sexo em determinado dia e ainda por cima, sob recomendação médica, eu acho é bom! Inclusive, muito mais fácil de administrar a depilação, vamos combinar!

 

É mais ou menos assim, você está fazendo uma dieta, e uma vez ao mês, seu médico diz que você está obrigada a comer um prato de massa com molho de trufas brancas e… eu vou achar ruim por que mesmo? Não é jiló!

 

Do lado do marido, não posso afirmar, talvez sim que exista certa pressão. Por outro lado, acho que os homens de modo geral não vão achar muito ruim se você chegar para ele e disser: amor, hoje eu quero sexo! Você se incomoda?

 

O que quero realmente dizer é que levando a situação com naturalidade e bom humor, fica tudo mais leve. Não tem porque transformar o que é bom em ruim ou obrigatório.

 

E voltando à parte técnica do tema, não tenho nem idéia de quantos meses estaremos nessas tentativas. Não há nenhuma garantia, simplesmente, aumenta as probabilidades.

 

Durante esse período, voltei a tomar o ácido fólico. Não faz mal a ninguém e vale prevenir.

 

No caso de algum óvulo ser realmente fertilizado, provavelmente eu volte a tomar o complemento de progesterona, o tal do Ultragestan. Mas vamos com calma e cada coisa a seu tempo.

 

Por enquanto, meu único tratamento é tomar um comprimido de Omifin, outro de ácido fólico e praticar sexo!

 

Não sei se será mais eficiente que a fertilização in vitro, mas definitivamente, será bem mais divertido!

Celular: esse amigo imaginário chato e possessivo para adultos!

Eu já contei por aqui que quando era criança tinha amigos imaginários. Sim, no plural, não era um amigo, era toda uma galera imaginária!

Não sei porque eles apareceram, mas desconfio que em parte era porque me fazia falta companhia. À medida que fui crescendo eles foram sumindo naturalmente e não só porque parecesse maluco falar sozinha, mas porque passou a haver amigos de verdade ao meu redor. E eram bem mais interessantes.

Depois veio uma fase de jogos. Gostava particularmente de alguns que meu avô fabricava, até porque vê-los sendo construídos ou participar dessa elaboração era parte do pacote. Em algum tempo, o jogo em si passava a um segundo plano, porque era em parte um pretexto para nos juntarmos e começarmos nova brincadeira.

Logo vieram os vídeo games, mas nunca me convenceram muito. De certa forma, a tela da televisão passava a substituir outra pessoa. Os computadores também ocuparam esse lugar.

E podemos abrir uma lista de queixas e de vantagens que vieram com a popularização dos computadores, mas hoje gostaria mesmo de falar dos telefones celulares. Esses pequenos objetos que surgiram com o objetivo inicial de falar com outra pessoa, mas que sofreram um tipo de mutação genética e se tornaram computadores ambulantes.

É inegável, os celulares hoje em dia se parecem cada vez mais a computadores, englobam imagens, dados, jogos etc. O que nem acho ruim, mas é que, às vezes, tenho essa sensação que eles passaram a ocupar o lugar do amigo imaginário infantil, mas em uma versão aceita socialmente por adultos.

Vamos voltar o filme um pouco, repetindo, seu objetivo inicial não seria a comunicação, a interação? Porque na prática, os celulares estão paradoxalmente ocupando o espaço de alguém real e tornando as pessoas de verdade que estão ao seu lado em invisíveis.

Isso me irrita, às vezes me ofende.

Tenho o exemplo vivo em casa, um marido viciado em super celulares. Não é o único, ele é dessa categoria que recebe o celular do trabalho. Faz parte desse grupo que reclama eventualmente por ter que estar sempre disponível e não receber horas extras por isso, mas que no fundo, tenho certeza que gostam dessa situação. Afinal, tem desculpa melhor do que ter que checar o celular o tempo inteiro? Porque não há argumento mais incontestável do que: preciso checar, pode ser trabalho! Como você vai atrapalhar alguém que “pode” estar trabalhando?

Não importa que isso seja no meio do jantar, sábado às 22h, mas sabe como é, pode ser trabalho…

De tempos em tempos eu me rebelo, me nego a ser conivente com essa situação absurda e me recuso a ter aquela porcaria sobre a mesa todo o jantar. Daí ele se esforça em achar qualquer coisa que eu fale que precise ser checada imediatamente na internet, pelo celular é claro. Algo besta como, nossa está mais frio hoje, né? Sabe aquela frase que você diz para puxar assunto? Ah, para que? Motivo perfeito para resgatar o celular e me “ajudar” com a precisa informação da temperatura exata em três países diferentes. Bom, daí ele aproveita e dá mais uma checadinha se chegou algo novo nos últimos 90 segundos.

E fico eu jantando sozinha, enquanto ele busca informações metidas em seu amigo imaginário, para mim, é claro!

Também funciona para nossos amigos. Quantas vezes estamos em grupo e ele se enfia no seu universo paralelo e larga todo mundo falando sozinho. Quero morrer de vergonha da falta de educação, mas o problema é que é geral e já nem se considera mais como falta de educação.

Olho em volta e constato que ele não é o único. Quase todas as mesas tem sua própria tecnologia e seu ralo virtual. Infelizmente, o bicho raro sou eu.

Semana passada saímos em quatro pessoas, Luiz, eu e duas amigas, também da categoria mega profissionais que precisam muito estar conectadas 24 horas por dia. Por acaso, estava eu com meu celular também, digo por acaso porque ele costuma ser um excelente despertador, mas muito pouco usado. Nesse caso, elas poderiam se perder ou precisar de direções, então, o mantive comigo até elas chegarem. Meu primeiro impulso quando as vi foi justamente guardar o celular, afinal, já não era mais necessário. Sou dessa estranha parte da população que ainda acha estranho você ficar com sua atenção dividida quando interage com gente de verdade, lembra?

Bom, novamente, o bicho raro era eu. Porque os três trataram de posicionar seus celulares ao lado dos pratos, afinal poderiam receber chamadas muito importantes. E, lógico, podia ser trabalho…

Juro que chegou o momento em que Luiz pediu o código wi-fi. Nós em um excelente restaurante, um belo vinho, companhia agradável e… três pessoas com as caras enfiadas em celulares!

Estava desagradável? Não, gosto da companhia deles. Só me pareceu insano! Sem perceber, me escapou pela boca o que ressoava na cabeça: sou muito mais feliz!

E livre.

Quando quero companhia, viro para o lado, vejo quem tem cara de que também quer papo e pergunto alguma coisa estúpida como, nossa está frio hoje, né? E apenas espero que o interlocutor olhe para mim e responda qualquer besteira como, é, também achei…