E como foi no Rio?

Deixa eu me organizar! São tantas pontas que às vezes me dá preguiça de começar a contar!

 

Não gosto de deixar ninguém no suspense, portanto adianto que foi tudo bem, dentro do que poderíamos fazer e do tempo disponível. Não somos perfeitos e alguma coisa deve ter passado, mas o importante para mim é que nesse momento, meus pais e os pais do Luiz estão todos em suas próprias casas, uns melhores que outros, mas todos em uma situação de saúde estabilizada.

 

Essa situação pode mudar a qualquer momento? Claro que sim! Nossa vida também pode mudar a qualquer momento, mas a gente precisa ir um passo de cada vez.

 

Então, vamos por parte, chegamos no Rio dia 23 de setembro e passamos pouco  mais de uma semana. Estava bastante complicado para Luiz passar mais tempo do que isso. Na verdade, dar essa fugida de Madri já foi razoavelmente constrangedor no seu trabalho. Tudo bem que as pessoas entendem, todo mundo tem família… mas é a quarta vez que ele vai ao Rio esse ano, não vejo mais muita margem em relação a essas ausências. Assim que tínhamos a preocupação em deixar o máximo de coisas resolvidas e possíveis planos de emergência ou apoio em situações futuras.

 

Bom, no domingo mesmo, já chegamos no fim do dia e mortos de cansados. Dormimos cedo, na casa dos meus pais, para na segunda-feira, pela manhã, já começarmos a entender o que era preciso providenciar.

 

Sobre meus pais, posso dizer que os achei bem, com os problemas que tinham, que podem durar dias, meses ou anos. Mas felizmente, achei que na média estavam com a saúde estabilizada. Com um detalhe que meu pai anda muito ofegante nos últimos 6 meses e achamos que talvez isso pudesse melhorar. Aproveitando que eu já estava lá mesmo, marcamos com uma cardiologista que achamos muito fera, entretanto, fora do plano de saúde deles. Ou seja, é legal para uma segunda opinião ou pontos específicos, mas difícil para seguir um tratamento mais a longo prazo. No meio da semana, me dividi com Luiz, fui com eles nessa cardiologista e gostei da consulta, vamos ver se com as próximas ações ele começa a melhorar essa respiração e a volta a dormir normalmente. O caso é que também é necessário que ele perca peso, e aí é que porca torce o rabo! Achei ele um pouco mais convencido dessa necessidade, vamos ver se a força de vontade prevalece.

 

Mas a verdade é que nossa principal preocupação nessa viagem eram os pais do Luiz. Assim que logo na segunda-feira, fomos visitar e conversar com o seu pai. Ele já estava em casa, mas com necessidade de atendimento de uma acompanhante por 24h. Para que isso funcione, são necessárias três pessoas, que se alternam em turnos. Essas três pessoas começaram a trabalhar para eles meio que em caráter de emergência, assim que ninguém sabia muito bem por quanto tempo seria, ou seja, só agora começamos a nos informar em relação à parte trabalhista. A ideia é mantê-las, então, melhor fazer tudo redondinho para não ter dor de cabeça depois.

 

Muito bem, acontece que minha sogra seguia internada e queríamos tirá-la da clínica psiquiátrica. Só que, para isso, era importante que a estrutura da casa estivesse preparada e não tínhamos muita certeza de qual seria o quadro. Ela, felizmente, está muito bem fisicamente, mas a cabeça ficou meio confusa e chegou a estar agressiva. Não sabíamos o que encontrar. Poderia ser que ela nos recebesse muito bem ou muito mal.

 

Estava preparada para os dois casos. Isso não mudaria o que sinto por ela, mas acho que esse aspecto era menos difícil para mim que para Luiz, que é filho. De certa forma, havia uma carta na manga de eu ser usada como coringa para ajudar nessa aproximação com a família. Papel esse, que meu sobrinho, seu neto, fez os primeiros movimentos.

 

Assim que esse encontro era algo bastante tenso para nós dois. A gente tinha algumas estratégias, mas teríamos que adaptar conforme o que encontrássemos. Fomos instruídos pela psiquiatra a não incentivar confrontos. Ou seja, se surgisse algum assunto que pudesse ser ou se tornar conflitante ou negativo, deveríamos simplesmente mudar de assunto.

 

Devo dizer que estávamos preparados para ser muito pior do que realmente foi. Na prática, foi muito bom encontrar minha sogra, abraçá-la e conversar com ela. Estava sensível, mas tranquila e recebeu muito bem a visita do Luiz. Das poucas vezes que o assunto poderia caminhar para um lado desagradável, a gente fazia cara de paisagem, mudava o curso e ela mudava junto com a gente. Funcionou muito bem e foi uma dica excelente!

 

Fomos todos os dias visitá-la, levá-la para fazer exames e ao longo da semana sentíamos cada vez mais confiança em levá-la para casa.

 

A rotina básica consistia em visitar meu sogro pela manhã; resolver o que precisasse de pepinos durante à tarde (consertar chuveiro, comprar poltrona, se reunir no escritório de advocacia, orçar câmeras de segurança etc); às 17 horas, hora da visita na clínica, íamos ver minha sogra. De lá, voltávamos no meu sogro para dar notícias e, finalmente, íamos jantar e dormir na casa dos meus pais.

 

Não saímos nem um diazinho de nada com amigos, acabávamos os dias exaustos! São muitos detalhes e a gente queria fazer o melhor possível.

 

Mas na quinta-feira à noite, quando meu pai sempre janta fora, dei um jeito de catar minha mãe para jantarmos só nós duas. Às vezes, sinto falta de ter um tempo só com ela. Acho que ela fica muito em casa em função do meu pai e precisa sair mais um pouco, relaxar, desconectar. Assim que sempre que tenho uma oportunidade, boto ela para tomar um vinho, ou como costumo dizer, seu “remedinho”.

 

Finalmente, na sexta-feira, minha sogra teve alta e voltou para casa. Em uma das visitas, ela tinha me comentado que viria nos visitar na Espanha para comer meu feijão. Então, que não fosse por isso! Fiz uma bela de uma feijoada para recebê-la em sua casa. Como feijoada não se faz pouco, fiz um panelão nos meus pais e dividi entre as duas casas, ainda sobrou para meu irmão e minha cunhada! Ou seja, que a “Tradicional Feijoada do Luiz” acabou acontecendo no Rio!

 

Tanto meu sogro como minha sogra comeram de repetir! Isso me deixou contente, não só nesse dia, ambos estão se alimentando bem como nunca vi antes! E também me pareceram começar a dormir melhor. Não vou negar que achei simplesmente o máximo os dois voltarem a dormir juntinhos novamente, depois de toda essa confusão. Vamos combinar, com quase 60 anos casados, é muito romântico!

 

Enfim, ao longo da semana, resolvemos que ela também precisava de uma acompanhante só para ela, mas que poderia ser apenas durante o dia. É que, apesar de estar bem, ela não pode ainda sair sozinha. No futuro, quem sabe, mas no momento, melhor não correr esse risco. Contratamos então, as duas acompanhantes que ela gostava mais na clínica. Precisam ser duas, porque se revezam diariamente.

 

As enfermeiras e acompanhantes dessa clínica são terceirizadas. Funciona como um “pool” de pessoal, e esse grupo vai se alternando de acordo com a necessidade dos clientes. Podem estar dentro da clínica, em algum hospital ou na própria residência dos pacientes.

 

Resumindo, agora na casa dos meus sogros são 5 acompanhantes, 3 para meu sogro e 2 para minha sogra, e uma faxineira… é mole? Haja orçamento! O apartamento parece uma empresa!

 

Os primeiros dias, dormimos por lá, para ver como funcionava a dinâmica entre elas e meus sogros. Porque não é simplesmente ter acompanhantes, a rotina da casa precisa seguir, ou seja, as compras precisam ser feitas, alguém tem que cozinhar, os papéis de cada uma precisam estar claros, enfim, a logística não é de todo simples, tampouco barata. E algo que nos preocupa, queremos que esteja tudo organizado perante a lei.

 

Meu irmão é advogado trabalhista e se propôs a nos ajudar nessas questões. Nos reunimos algumas vezes durante a semana e acho que dá para gerenciar essa encrenca.

 

De maneira que, com toda essa “movida”, meus sogros mesmo começaram a pensar na possibilidade de se mudarem para uma residência de pessoas idosas. A gente já havia pensado nessa opção, mas até então, eles não queriam se mudar do apartamento. Acontece que a situação mudou e, talvez, seja uma tranquilidade para todo mundo, principalmente, para eles.

 

Fomos com minha sogra visitar duas residências. A primeira, nenhum de nós gostou, parecia mais um hospital. Mas a segunda, era bastante interessante. Um lugar que mais lembrava um resort  (juro!), só que com assistência médica. Cada hóspede pode decorar seu quarto como queira, se não quiser esquentar a cabeça, eles possuem os móveis padrão. Mas se quiser levar os móveis do seu quarto, sua poltrona, sua televisão ou algo do gênero, você também pode. Então, dá um aspecto mais de sua casa, não é impessoal. O refeitório é bom, possuem uma série de atividades sociais, fisioterapia, jardins bem cuidados etc. Enfim, todos gostamos, mas eles não tem vaga de imediato.

 

De certa forma, até achei bom, porque também ganhamos um tempo para que essa ideia amadureça na cabeça deles e ninguém faça nada que não se sinta confortável ou que pareça que foi uma barra forçada.

 

Na última noite no Rio, dormimos na casa dos meus pais, para também dar uma atenção do lado de lá, né? Jantamos uma lagosta divina, feita de maneira bem simples, só com molho beurre blanc, um risotto de camarões e umas batatas panaderas. Tudo uma delícia e ainda derrubamos uma garrafa de cava e outra de vinho branco. Fechado com chave de ouro! Não me importa o tamanho do buraco em que me meta, se der uma brechinha para celebrar, pode contar com isso!

 

Foi duro, difícil e cansativo. Mas também houve momentos felizes, gratificantes e muito importantes. Posso dizer que foi uma semana intensa, onde fizemos o que acreditamos que eram as melhores alternativas. Luiz e eu temos nossas diferenças e problemas, como qualquer casal, mas quando realmente importa, trabalhamos bem em equipe. Pelo menos, eu acredito nisso. Foi bom ter ido com ele, não é uma questão de poder ou não poder realizar sozinho, mas compartilhar, delegar, contar com alguém, pode contribuir bastante.

 

Não são meus pais, mas poderiam ser e chega um momento que transcende a questão do sangue do meu sangue. Ajudar, contribuir, me ensina e me prepara a aceitar ajuda e a viver melhor. Faz diferença para mim, me importa. É o velho chavão do você querer ser parte do problema ou da solução. De você escolher buscar todos os mínimos defeitos passados com o intuito de culpar, magoar, e assim tirar o foco dos seus próprios erros, ou olhar para frente e decidir ser feliz a ter razão. Há alguns anos, decidi ser feliz.

O gênio, o caos e o Rex

Tem aquela piadinha meio fraca, do judeu que encontrou uma lâmpada mágica no meio do deserto. Esfrega a lâmpada e o gênio pergunta qual o pedido. Jacob pede a paz no oriente médio. O gênio diz que esse é um pedido muito difícil, se não haveria outro menos complicado. Então, ele entrega uma foto da esposa e diz que gostaria de sentir novamente desejo por Sarah… O gênio olha o retrato, pensa, vira de cabeça para baixo… e com aquela cara de quem não sabe nem por onde começar, pergunta novamente: escuta, Jacob, como era a história da paz no oriente mesmo?

 

Pois é, atualmente, quando alguém me pergunta como vão as coisas, me sinto como o gênio frustrado da lâmpada e não sei nem por onde começar…

 

Outras coisas nem me sinto no direito de contar, pois tocam a outras pessoas e sempre fui bastante séria em não pintar um “x” vermelho na testa de ninguém, além da minha própria.

 

Então, vamos ao que me tocou entre toda essa confusão.

 

Final de semana passado, fomos à Suíça. Luiz tinha que trabalhar na segunda-feira e eu peguei uma carona para aproveitar a viagem. Daí, fomos no sábado bem cedinho para tentar dar uma relaxada no fim de semana.

 

Não é que as coisas estivessem de todo tranquilas, mas a questão é que já vivenciamos esses problemas de saúde paternos há alguns anos e fomos aprendendo a administrar. Há coisas que são urgentes e outras que podem durar meses ou anos, assim que não se pode parar a vida e, simplesmente, esperar.

 

Se há uma chance de tomar fôlego, a gente procura desfrutar. Aprendi que isso ajuda e muito a recarregar as baterias para momentos realmente difíceis. Já disse e repito, uma guerra grande se ganha em pequenas batalhas, cada vitória precisa ser celebrada e uma derrota nem sempre significa guerra perdida.

 

Dito isso, a verdade é que aproveitei bem o sábado, passeamos pela beira do lago, comemos bem e o jantar foi bastante especial, até porque era nossa comemoração de aniversário do Luiz. Fomos ao La Table d’Edgard, um estrela Michelin com vistas para o lago e os Alpes. Lógico que comi e bebi de maravilhas!

 

Engraçado que a Suíça tem fama (merecida) de ser monótona, um fazendão! Mas por algum motivo, nessa noite Lausanne estava bombando! A rua cheia de gente, DJ tocando ao ar livre… verdade que era um público bastante jovem, mas normalmente não me esquento muito, me adapto à paisagem!

 

Muito bem, domingo acordamos cedo, fizemos um passeio a pé pelo centro da cidade e pela hora do almoço, encontramos com um casal de amigos que nos levou para comer em Lutry, uma cidadezinha super charmosa e, para variar, a beira do lago.

 

Quando eles nos deixaram no hotel, ainda fomos até Vevey, passear um pouco de carro e caminhar pela orla.

 

Não saímos tarde para jantar, afinal, além de estar na Suíça e os horários serem bem mais estritos que Espanha, Luiz precisava acordar muito cedo no dia seguinte. Sua primeira reunião era às 8 da matina. Eu ficaria no hotel um pouco mais e logo ia fazer hora passeando pelas ruas ou pegaria um barco a Montreaux. Ele voltaria no início da tarde e partiríamos com calma para Genève, de onde sairia nosso avião.

 

Olha que organizadinhos nós somos, né?

 

Pois é, no meio do jantar, com esse espírito de tudo tranquilo, recebemos uma ligação da irmã do Luiz, dizendo basicamente que meu sogro seria operado naquele dia, minha sogra estava com pneumonia em estado grave e ela, minha cunhada, com 39 graus de febre indo para um hospital em Zurich (onde ela mora).

 

Hein? Tudojuntoaomesmotempo! Por onde a gente começa?

 

Vamos pensar com calma. A gente, nem com toda boa vontade do mundo, conseguiria chegar no Rio hoje. Precisaríamos voltar a Madri, onde inclusive nosso carro estava estacionado no aeroporto, e de lá pegar um voo para o Brasil. Além do mais, as informações ainda estavam muito picadas e vai que o quadro não era exatamente esse?

 

Perguntei ao Luiz, você quer que eu vá para Zurich ajudar sua irmã? Você faz a reunião que precisa fazer e, se ainda for o caso, vai para o Brasil.

 

Acontece que já estava meio tarde, perto das 21h e não havia mais trens ou ônibus para Zurich. Nós estávamos com um carro alugado. Então, Luiz resolveu que íamos os dois para lá, de carro, são mais ou menos 3 horas de viagem.

 

Ligou para a pessoa que faria a reunião, explicando a situação, cancelou tudo, arrumamos nossas coisas, fizemos o check out meio às pressas do hotel e nos mandamos para Zurich pelas 22h.

 

Outro pequeno detalhe, como inicialmente nossa viagem era simples, uma meia hora entre Genève e Lausanne, Luiz pegou um carro pequeno, sem GPS e com limite de quilometragem.

 

A gente usou o celular do Luiz como GPS, o que para uma distância curta e sem pressa não era nenhum problema.

 

Acontece que agora estávamos no meio da noite, indo para Zurich, onde metade da estrada fala francês e o resto alemão! E minha cunhada nem mora exatamente em Zurich, e sim uma cidade próxima.

 

Beleza, o que não tem remédio, remediado está. Pegamos o celular como GPS novamente, o que não seria um grave problema… se ele não estivesse só com dois pontinhos de bateria. Porque vamos combinar, lei de Murphy é infalível!

 

Assim que pegava as indicações principais e sempre que a próxima entrada ficava meio longe, desligava o telefone para economizar bateria.

 

Sim, chegamos direto, mas o celular já sinalizava que a bateria estava acabando quase na porta da minha cunhada. Chegamos pela uma da manhã. Sabe-se lá com quantas multas por velocidade na bagagem. Mas francamente, era o que menos importava.

 

Foi bom termos ido, acho que minha cunhada se sentiu mais apoiada e melhorou rapidamente. A febre baixou e a voz ficou melhor. Acho que nessas horas, quando a gente está sozinha e fragilizada, os problemas sempre são maiores do que parecem, e vamos combinar, que não eram exatamente pequenos.

 

Fazendo uma longa história curta, ficamos até às 5 da matina acordados resolvendo pepinos, alguns mais intragáveis que outros. Mas fomos dormir sabendo que meu sogro não seria operado naquele momento e que minha sogra havia conseguido ser internada e não estava ainda com pneumonia. Sim que tinha uma infecção que precisava ser cuidada, mas era bem melhor do que o quadro que nos pintaram inicialmente.

 

Eu mesma, não resolvi nada diretamente, meu papel era muito mais dar apoio e tentar estar lúcida para ter ideias, caso fosse necessário.

 

Bom, com a história encaminhada e a irmã mais tranquila e melhor de saúde, resolvemos voltar no dia seguinte e tentar cumprir com a agenda inicial da melhor maneira possível.

 

Luiz, acordou cedo, ligou para Lausanne e perguntou se era possível fazer as reuniões canceladas na parte da tarde. O outro lado, que entendeu a situação, disse que se não todas, pelo menos boa parte delas.

 

Muito bem, então, lá fomos nós correndo para Lausanne de volta, com o GPS improvisado no celular do Luiz. Felizmente, agora com a bateria carregada. O local que íamos não era exatamente Lausanne, era uma cidade minúscula nos arredores. Assim que não havia, por exemplo, um shopping, um restaurante ou alguma praça para eu ficar andando e fazendo hora. A empresa em si era bem moderna e francamente, não combinava com o contexto de gramado e vacas ao seu redor.

 

Mas já não havia tempo do Luiz me deixar em Lausanne e voltar, assim que Bianquinha se instalou na cantina da empresa e esperou a tarde inteira por ali. Por sorte, com meu Ipad (carregado) a tiracolo.

 

Pelas 17h, Luiz conseguiu terminar todas suas reuniões, o que me deixou muito mais aliviada. Acontece que antes das 21h saía nosso avião… de Genève!

 

Lá saímos nós, praticamente voando baixo, de carro para o aeroporto de Genève. Sem direito a errar o caminho, porque estávamos bem curtos de tempo, ainda teríamos que abastecer e devolver o carro.

 

Foi um pouco tenso, mas conseguimos! Quem me disser agora que a Suíça é monótona, vou perguntar: para quem, cara-pálida? Porque, aparentemente, escolhi a opção Suíça com aventura! Por mais paradoxal que essa frase soe!

 

Não tivemos problemas nem demoramos nos processos de segurança, assim que por incrível que pareça, ainda nos sobrava uma hora antes do avião decolar… e uma fome do caramba!

 

Mas alguém acha que queria me conformar com um sanduba meia boca? Vamos ver se tem algum lugar decente para comer aqui dentro. E tinha.

 

Sentamos em um Caviar House da vida, comemos bem e com uma boa taça de vinho branco na temperatura perfeita. Como disse, se podemos celebrar, não perdemos nenhuma chance. E vamos combinar, tudo que poderia ter dado errado e não deu! Valia um vinhozinho, não?

 

Considerando que dormimos cerca de 3 horas durante a noite, o dia não foi de todo simples e levava duas taças de vinho na cuca… nosso diálogo durante o voo não foi exatamente longo. Luiz apagou na decolagem e eu, que nunca durmo em avião, bem que dei minhas cabeçadas.

 

Muito bem, chegamos finalmente a Madri e a tendência era que as coisas se acalmassem. Mas a verdade é que não cheguei a relaxar, porque sabia que mais cedo ou mais tarde alguma bomba ia estourar.

 

Logo no começo da semana, começou o zum zum zum de Luiz e a irmã de quem poderia ir para o Rio para ajudar. Nenhum dos dois podiam, o nome na sequência era o meu. Será que eu podia?

 

Veja bem, poder, até posso, não me importo com a trabalheira em si, a questão é que não teria autonomia de decisão, e essa história é bastante complicada para explicar agora. Daí pintou a possibilidade da irmã ir e eu também, para apoiar o processo.

 

Cancelei minhas aulas na Le Cordon Bleu (outra história que vai ficar na manga, depois eu conto) e as sessões de cavitação. Porque poderia viajar a qualquer momento.

 

Outro pequeno detalhe, tinha hóspede programado para chegar na sexta-feira e eu sem saber se avisava para ele o tamanho da encrenca!

 

Acabou que chegaram a conclusão que seria melhor o Luiz ir, a presença de todos os filhos estava sendo requisitada e tal. Sendo que a irmã ia primeiro.

 

Recebemos nosso hóspede e para falar a verdade, achei foi bom. Mudou um pouquinho o foco das conversas, a gente foi encontrar com a sua filha, que também é nossa amiga e mora no Brasil. Aliás, esse foi o motivo dele sair da França para cá, encontrar a filha, que estava de passagem por Madri.

 

De maneira que, apesar do turbilhão, o fim de semana foi bem agradável, outro fôlego.

 

Mas não havia acabado. Começo da semana, com minha cunhada já no Rio, o caldo entorna novamente! Outra crise carioca daquelas que você não sabe por onde começar. Lá vamos nós na montanha russa…

 

E nesse vai-não-vai-quem-vai, acredito que vamos os dois para o Rio no próximo fim de semana. Digo acredito, porque a cada dia os planos mudam e nunca sei o que vou fazer.

 

Fico bastante incomodada, porque em boa parte dos casos, me sinto impotente e é uma mistura de sensações. Há um lado que talvez seja egoísta, afinal também tenho meus planos e atividades que estão empacados. Com esse inferno de “a qualquer momento” que me persegue ao longo da vida, me paraliso. Há um lado de raiva, de ver que apesar dessa cruz ser pesada, não precisava ser tanto se não lhe pendurassem problemas desnecessários, brigas e discussões sem sentido. Há um lado de pena pelos meus sogros e, em outras situações, pelos meus pais, que merecem apoio e nem sempre a gente consegue estar presente. E o pior de tudo, ver Luiz triste e sem dormir direito.

 

E me considero com sorte, porque há anos me livrei da culpa e aprendi o perdão. Menos duas cargas pesadas para ter nas costas. Ainda assim, é duro.

 

Eu sei que tem família e amigos dispostos a nos apoiar, e de uma maneira ou de outra, sinto que estão ao redor. Mas nesse momento, não há muito o que dizer ou fazer, às vezes até elejo a distância, quase prefiro conversar com estranhos, assim posso me limitar a assuntos banais.

 

Na prática, atualmente, só me resta ser o “Rex”. O cão que não tem poder de decisão, mas está prontinho para ouvir o comando: pega Rex!

 

E aí do pescoço que se meter no caminho…

Baixando a poeira e pé na estrada

Acho que o temporal passou (isola!), ainda há sinais de alagamentos e os raios de sol são meio fraquinhos, mas enfim, as coisas parecem melhorar.

 

Sigo sentindo falta do Jack, mas já não tenho vontade de chorar em todas as vezes que falo nele. De certa maneira, nossas preocupações com a família ocuparam esse lugar.

 

Meu pai saiu relativamente rápido do hospital, o que foi um alívio e tanto. Mas minha sogra não tem muita previsão. Fisicamente, ela está bem, o que também é uma notícia favorável, mas psicologicamente, a cabeça ainda está meio bagunçada. É necessário esperar, ter paciência.

 

De toda maneira, não tínhamos muito o que fazer nesse sentido e nossas passagens para Londres estavam compradas. Luiz precisava ir a trabalho e eu não tinha porque ficar em Madri sozinha.

 

Não escolhi estar na situação em que estou agora e não estou comparando, porque quem compara sempre perde, mas o fato é que não tenho filhos, nem gravidez, nem gatos. Estou totalmente livre. Isso tem um lado horrível, é verdade, mas também há um lado muito positivo que resolvi tentar aproveitar.

 

Atualmente, posso simplesmente trancar a porta, sair e voltar quando bem entender! E confesso que, mesmo em meio a todo esse tufão, a sensação foi boa. Ela é relativa e temporária, mas é minha e desfrutei.

 

Luiz e eu fomos juntos para o aeroporto, mas estávamos em voos separados. Minha passagem foi comprada depois da dele e, por isso, não havia mais lugar no seu avião. Mas tudo bem, porque nossos horários não eram tão diferentes, o meu saía uma hora depois do dele.

 

Luiz tem uma falta de sorte impressionante com horários de vôo. Não sei o que ele arruma que seus aviões nunca saem na hora! Resultado, ainda que meu vôo estivesse marcado para uma hora depois do dele, acredite se quiser, saiu antes! Minha mala chegou rápido, tudo certo. Fiquei em Heathrow esperando por ele mais de uma hora, porque o vôo atrasou, a mala atrasou… tudo atrasou!

 

Não tem problema, chegamos sãos e salvos no hotel, que ficava bem centralizado. Mas por volta da meia noite, quando conseguimos nos acomodar, já não havia grandes programações nos arredores. Felizmente, ele havia comprado uma garrafa de vinho no aeroporto e tomamos uma tacinha no próprio quarto.

 

O bom de viajar para uma cidade que você já conhece é não ter nenhuma pressão em precisar fazer os programas turísticos “imperdíveis”. Queria apenas curtir a cidade com calma e relaxar com Luiz.

 

Na verdade, havia só um lugar que queria ir de todo jeito, que era a Tate Modern. E assim fizemos, acordamos relativamente cedo, tomamos um café com calma pela rua e saímos a pé em direção à Tate. Era uma boa caminhada, mas a temperatura estava agradável e é justamente caminhando que aproveito mais os lugares.

 

Passeamos por Covent Garden e logo em seguida, avistei uma vitrine que dizia “Champagne + Fromage”. Parei para fotografar meu conceito de paraíso: a combinação de champagnes e queijos! Luiz resolveu olhar a loja, daí já viu, né? Ajoelhou, tem que rezar. Ao invés de parar em algum restaurante para almoçar, preferimos resolver o assunto ali mesmo.

 

Seguimos nossa caminhada até achar a bendita Tate Modern, que adoro. Tentei não prorrogar tanto a visita, para Luiz não ficar muito entediado. Acho até que ele gosta, desde que eu não resolva morar nas salas de exposição.

 

Voltamos caminhando também, mas ele já estava meio cansado, queria pegar o metrô, coisa que felizmente não encontramos. Achamos algo muito melhor, um taxi-bicicleta!

 

Vai um cidadão pedalando um tipo de mini charrete, para duas pessoas. É bem mais barato que o taxi tradicional, mais ecológico e, convenhamos, muito mais divertido e agradável!

 

À noite, temos uma amiga que estava morando por lá e combinamos com ela de ir a um Pub. Bem próximo ao hotel, havia um que me deixava com vontade de conhecer, o Northumberland Arms. Parecia um Pub normal, mas tinha um aviso como propaganda na porta que adorei o texto, algo como “excelente comida, extraordinário serviço, fantástico ambiente…” e por aí seguia. Achei tão otimista que valia a pena comprovar, né?

 

Enfim, nos encontramos por lá e foi bastante agradável. Eu estava com uma lombriga desesperada por comida de pub! Me atraquei com uma porção de peixe à milanesa e um Mac and Cheese! A dieta foi para o saco, paciência! E até que estava gostoso.

 

Aliás, aí está uma coisa que gostaria de ressaltar, a comida de Londres melhorou radicalmente desde a última vez que estive por lá.

 

Não dormimos muito tarde. No domingo, marcamos com essa mesma amiga de ir passear em Greenwich. Almoçamos com ela e passamos o dia juntos. Chuviscou um nadinha de nada e não chegou a atrapalhar nosso programa.

 

O jantar, Luiz havia reservado no Nobu, um asiático show de bola! Ele já conhecia, eu não. Achei excelente! Destaque especial para a degustação de sake e o tartar de touro com caviar.

 

Na segunda-feira, nos dividimos. Porque Luiz tinha que trabalhar um pouco, sua irmã tentaria nos encontrar e no fim da tarde ele seguia para outro hotel. Na verdade, ele foi para lá a trabalho, só aproveitamos o fim de semana mesmo. Seu treinamento começava na terça pela manhã e ele já precisava dormir no mesmo hotel do restante do pessoal da empresa na própria segunda.

 

Como não tínhamos idéia de que horas sua irmã passaria para nos encontrar e ele estaria ocupado, marquei com minha amiga de Londres da gente passear no Victoria’s Park e almoçar em um restaurante vietnamita, que me esqueci do nome, mas também era bem legal. O dia estava perfeito, o maior sol, nem parecia a cinzenta Londres.

 

Nisso, a irmã do Luiz chegou e eles foram almoçar. E nós voltamos para o hotel para encontrar com eles. Foi bem rápido, só deu realmente para me despedir dos dois. Mas de certa forma, acho que foi bom eles terem um tempo sozinhos para conversar sobre a mãe e se ajudarem a decidir detalhes. Eu sou e me sinto parte da família, mas não é a minha de sangue, e procuro interferir o mínimo possível.

 

A irmã do Luiz deu carona para seu novo hotel, em Windsor e fui com minha amiga tomar um autêntico chá das cinco.

 

… que de autêntico não teve nada! A gente não conseguiu achar o lugar que íamos nem a pau! Cansamos, achamos outro lugar que parecia legal e que também tinha chá. Mas quer saber, que Mané chazinho, tomamos foi uma bela de uma champagne! Sanduíche de pepino? Nada, comi um mil folhas delicioso e minha amiga uma èclair divina!

 

De lá ela ainda me acompanhou até o hotel e seguiu seu caminho. E eu também já fui para o hotel arrumar minha mala e deixar tudo encaminhado para o dia seguinte.

 

Na terça-feira, ainda tive tempo de tomar um café com calma pela rua e peguei um taxi para o aeroporto às 12h. Luiz já tinha deixado reservado para mim.

 

Cheguei no aeroporto meio que na hora do almoço, meu vôo saía às 15h. O aeroporto de Heathrow tem boas opções para comer. Aliás, acho esse um mercado com bastante espaço para se desenvolver, quase todo aeroporto que vamos, com raras exceções, a comida é um lixo!

 

Ali também tem lanchonetes normalzinhas e são as que mais enchem. Mas quer saber, eu gosto de me cuidar muito bem! Meu luxo é na comida e bebida, no resto, francamente, nem faço tanta questão.

 

Daí fui no restaurante do Gordon Ramsay e comi mais que decentemente! Uma sopa de cebola cremosa divina e uma costeleta de porco com ervilhas bem suculenta. Com vinho, é lógico! Tinha tempo!

 

Enquanto estava por lá, o cliente do meu lado pediu uma bolsa térmica que fiquei curiosa. Havia visto delas quando entrei no restaurante. Na mesa, vi um folheto com outro cardápio pequeno, escrito “Plane Food” (comida de avião). Fiquei curiosa e perguntei ao garçon do que se tratava e é exatamente isso, comida para levar no avião. Eles tem uma pequena bolsa térmica, onde você escolhe entre algumas opções uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Custa ao redor de $13 libras e inclui a bolsa térmica.

 

O vôo da Ibéria Londres-Madrid não tem direito à refeição. Você pode comprar se quiser, dentro do avião. Mas costuma ser fraco e caro. Não tive dúvidas, nem estava com fome, mas comprei minha marmitinha chic!

 

No avião, não aguentei comer tudo, mas o que sobrou, ficou para meu jantar. Afinal, chegaria sem nada em casa. Fora que achei muito legal esse negócio de fazer pic nic aéreo!

 

Muito bem, cheguei em Madri no fim da tarde e voltei dirigindo para casa. Havíamos deixado o carro no aeroporto. Dava menos que se tivéssemos que pagar os dois taxis. O GPS me deu o caminho mais louco possível! Acho que fiz Barajas-Las Rozas via Bangladesh! Mas cheguei.

 

Ruim vir sem Luiz, mas ainda estou naquela fase de redescoberta da vida independente. Aproveitei esse par de dias para dar uma ajeitada na casa.

 

Hoje é aniversário dele, quinta-feira, dia 6 de setembro. Mais tarde vou buscá-lo no aeroporto de carro. Vamos ver por onde o GPS me manda agora, né?

 

Vai ficar tarde para comemorarmos hoje, assim que amanhã a gente faz um jantarzinho a dois para celebrar.

 

E no sábado pela manhã, pé na estrada outra vez. Vamos para Suíça! Mas essa história, vai ficar para semana que vem…

Entre calmarias e tempestades

Entre a saída de Madri e a volta para casa, ficou um hiato perdido, as férias no Rio. E a verdade é que foram ótimas e bastante aproveitadas.

 

Por lá, não queria perder tempo sentada escrevendo. Meu plano era chegar aqui e começar a contar tudo com calma. Mas logo de cara perdemos ao Jack, que parecia estar apenas esperando que a gente voltasse.

 

Depois fiquei sem vontade de falar ou escrever nada. Para ser sincera, só me dava vontade de dormir e, às vezes, dar uma ajeitada no apartamento novo. Até meu vício, que é a internet, diminuiu radicalmente.

 

Mas também não quero fazer drama, sei que são só momentos que vem e vão e a gente tem que aprender a respeitá-los.

 

Então, como um exercício de sanidade, vou voltar no tempo um pouco e contar o que passou nesse período, cronologicamente.

 

Chegamos ao Rio no dia 26 de agosto. Meu irmão e minha mãe nos esperavam no aeroporto. É o único lugar do planeta para o qual viajo com o número de bagagem que tenho direito. Porque sempre viajamos o mais leve possível, mas para o Rio não dá!  E, obviamente, tudo contrabando de comida! Vou com jamón, fuet, azeites… volto com cachaças, carne seca, paio, costelinha defumada… e, claro, com algumas poucas peças de roupa para acomodar as encomendas.

 

Por quase todos os dias, o plano era família durante o dia e amigos à noite.

 

Como sempre, é muito difícil a gente conseguir visitar algum amigo em sua casa. Nas primeiras vezes que íamos, não era raro que a gente marcasse, mas no dia acontecesse algum imprevisto e nos ferrasse os planos. Além do que, se íamos à casa de um, mas não na de outro, já viu, né? Quer saber, instituímos como regra: sinto muito, mas não vamos à casa de ninguém! Marcamos em algum bar, avisamos por Facebook e quem quiser e puder aparece! Não é infalível, mas funciona bem melhor assim.

 

Além do mais, vamos sem carro, por isso, preferimos sempre marcar as coisas pelas redondezas. Vamos combinar, nós atravessamos um oceano literalmente para estar ali, certo? Quem quiser nos ver, que pegue seu carrinho e atravesse algumas ruas, estou errada?

 

O fato é que adoro rever as pessoas e as que se dispõem a sair um pouquinho da sua rotina e nos encontrar são extremamente bem vindas!

 

Não me sinto tão distante, a internet encurta bastante os caminhos e me sinto participando da vida da família e dos amigos e eles participando da minha. Para quem mora em outro país, as redes sociais ganham outra dimensão. Mas para ser muito honesta, sinto falta de ver as pessoas ao vivo e a cores! E se tenho essa oportunidade, aproveito e curto mesmo.

 

Posso dizer que essa viagem foi aproveitada em todos os sentidos. Em relação à família, esperava até ter um pouco mais de trabalho. Nossos pais seguem envelhecendo, como nós mesmos, e sempre é uma incógnita se, ao estarmos aí, vamos passear em algum restaurante ou hospital.

 

Meus pais estavam bem, dentro do possível. Minha mãe me parece um pouco cansada e precisando relaxar mais, mas entendo que é complicado. Meu pai segue dando trabalho com sua indisciplina alimentícia, mas para ser sincera, quem sou eu para julgar? O que mais na vida lhe dá prazer além de comer bem? Será que eu não faria igual? Eu já desisti de me sentir culpada por isso. Se estivesse morando ali, ele estaria comendo o mesmo e minha mãe continuaria meio cansada. Lógico que o apoio da presença ajudaria, mas não resolveria. Aprendi simplesmente a aceitar e a estar disponível quando o calo aperta.

 

Acho até que quando vou, eles seguram um pouco a onda. Minha mãe procura reclamar menos e meu pai faz-de-conta que é um pouco disciplinado, tenta não abusar tanto. Assim a gente consegue aproveitar melhor o tempo, que sabemos que é curto.

 

Não fazemos grandes programações, além de estar mais em casa, almoçar juntos e coisas desse gênero. Entendi, ou me pareceu, que no final das contas, importa mais estarmos juntos em atividades rotineiras, que lembrem o estilo de vida que tínhamos quando ainda éramos crianças e morávamos ali.

 

Com os pais do Luiz, as coisas andavam um pouco mais complicadas. Seu pai vem se recuperando, mas precisa de bastante ajuda. Sua mãe estava cansada, triste e distante. Ainda assim, tivemos bons momentos. Dentro do quadro, achei que meu sogro se recuperou mais do que imaginava, seguia com certa atitude positiva e uma lucidez que nem esperava.

 

Um dos dias que estive por lá, chamei minha mãe e minha sogra para um chá da tarde. Também foi uma amiga da minha mãe que gosto muito. Era uma maneira de tirar minha sogra desse ambiente de médico, enfermeira, doença… enfim, sair um pouco do contexto. Ao mesmo tempo, passar uma tarde com minha mãe era bastante agradável. Fomos ao Julieta de Serpa, uma casa de chás bastante refinada na Praia do Flamengo. Elas escolheram um dia que havia apresentação de músicas italianas. Vamos combinar, que as músicas não eram exatamente o meu forte, mas se elas estava felizes, eu também estava! E a verdade é que a apresentação era muito bem cuidada.

 

Vivo brincando que em uma relação é importante que haja uma cigarra e uma formiga, por isso, corri e gritei primeiro: Cigarra! Cigarra! Por outro lado, a cigarra também tem suas responsabilidades e cumpro direitinho com as minhas!

 

Resumindo, desde que chegamos até sairmos do Rio, não houve nenhuma grande alteração ou preocupação com os nossos pais, fora as de sempre. E isso é algo que já me vale as férias! Consigo relaxar e curtir também o restante da família, os amigos e a cidade.

 

E foi o que fiz.

 

Meu irmão está namorando sério e gostei da minha cunhada. Nessas coisas não há nada garantido, mas há bons começos e é o caso. Achei ele mais equilibrado e, principalmente, feliz com a relação. E, nem que fosse só por isso, já teria minha simpatia. Fico na torcida para que seja o melhor para os dois.

 

Minha mãe fez em casa um lanche para a família, que acabou virando uma festa! Minha família é muito bagunceira e festeira, honro minha origem. Achei ótimo, porque assim consegui ver bastante gente. Como disse antes, é difícil sair visitando de casa em casa, ainda que, às vezes, me bate essa vontade.

 

Também fomos a vários bares e, aos poucos, conseguimos ver a maioria dos amigos.

 

Alguns encontros bem diferentes, um deles, com mais dois casais de amigos que vivem aqui em Madri e, por coincidência, estavam de férias no mesmo momento. Foi meio bizarro fazer um encontro madrileño em plena Urca, mas bastante divertido. Ao longo da noite, chegaram amigos cariocas para aumentar a mesa.

 

Outro encontro bastante marcante foi com o pessoal que estudou comigo no segundo grau, em Brasília. Fizemos um encontro no Rio, reunindo não toda turma, afinal, a maioria segue morando em Brasília, mas com bastante gente querida que não encontrava há apenas 26 anos. Fiquei até nervosa no dia, mas a conversa fluiu naturalmente.

 

O único detalhe é que enchi a lata de cachaça, afinal é só o que bebo quando vou ao Brasil. Fala sério, o preço de vinho por lá é uma barbaridade! E cachaça boa é super difícil de se encontrar por essas bandas. Assim que minha escolha não é nem difícil!

 

Minha fama de boa bebedora me precede e, de modo geral, mantenho razoavelmente a classe. Pois é, mas com a emoção do momento, acho que desceu diferente, comi pouco, sei lá, fiquei lararí larará e liguei para Luiz ir me buscar! Ele, por sua vez, estava com amigos de colégio e também havia chutado o pau da barraca, mas estava melhor que eu. Muito bem, assim que ele apareceu, me despedi, pegamos um taxi e viemos embora.

 

Cheguei em casa colocando a alma para fora e só líquido! Foi quando me toquei que deveria haver lembrado de comer, né? Não seja por isso, fui cozinhar lingüiça com tutu, um jantarzinho básico para a madrugada. Mas o fato é que me fez melhorar. Fomos dormir e apaguei.

 

Pelas 4 da matina, acordei na cama e, já boa, comecei a pensar na noite, se havia falado alguma bobagem… se deveria pedir desculpas para alguém… essas besteiras… Daí comecei a tentar me lembrar se na hora que viemos embora havia pego minha bolsa e não lembrava nem a pau! É que sempre que saio com Luiz, não levo bolsa e das poucas vezes que isso acontece, não é raro que eu a esqueça. Entretanto, se estamos na casa de amigos isso não é um grande problema, mas em um bar no Rio de Janeiro…

 

Levantei num susto: Luiz, eu trouxe minha bolsa?

 

Ele acorda assustado, não sei, ascende a luz para procurar. Olhamos tudo em volta e nada!

 

Levantamos, fui para a internet ver se havia algum recado de amigos… e nada. Luiz telefona para meu celular… e nada. Descobrimos o telefone do bar, mas a essa altura já estava fechado e ninguém atendia. Ele me diz: você precisa ligar para algum dos seus amigos  que foi  ao encontro para confirmar.

 

Hein? Como é que vou ligar para alguém às 4h30 da manhã?

 

Bianca, se você não ligar, temos que começar a cancelar os cartões agora!

 

Caraca, que vergonha! Mas ele tinha razão, não tinha outro jeito. Saí ligando. A primeira amiga, felizmente, não atendeu. O segundo, atendeu com voz de sono, é claro. Pedi milhões de desculpas, mas perguntei sobre a bolsa e ele não sabia de nada.

 

Quando estávamos a ponto de começar a cancelar os cartões, meu maravilhoso marido teve uma idéia brilhante! Meu Iphone tem GPS e nos conectamos para ver onde ele estava. Luiz tinha certeza que ele apontaria o endereço do bar e eu que ele estivesse passeando por algum morro!

 

Mas, de repente, ele me diz: Bi, está dizendo que o telefone está aqui!

 

Aquilo foi música para meus ouvidos, reascendeu uma chama de esperança! Voltamos a procurar no quarto, com Luiz telefonando para meu celular. Começamos a escutar um som que parecia vir do fundo do mar e descobrimos minha bolsa abafada embaixo de uns travesseiros! Por isso, não escutávamos nada antes.

 

Eu não conseguia nem comemorar de tão nervosa! Tinha meus documentos brasileiros e espanhóis, cartões de crédito, Iphone novo, celular do meu pai… putz! Olha o tamanho da encrenca!

 

Mas tudo bem, quando acaba bem! Minha bolsa não estava perdida e agora era só a vergonha de ter enchido a lata e acordado o povo de madrugada! Como minha dignidade já foi abandonada há anos (e assim vivo bem melhor), tudo bem também.

 

Mudando um pouco de assunto, as notícias que tinha do Jack em Madri também eram tranquilizadoras. Ele estava bem com o casal que ficou aqui em casa e eles mandavam notícias sempre. Provavelmente, já estava perdendo peso, mas é muito difícil para quem não convivia com ele notar, ele é muito peludo. Estava segura que ele estava sendo bem tratado e, pelas informações, estava gostando deles, conheço meu bicho. É que estava doentinho mesmo, coitado, e havia algum tempo.

 

O fato é que estava curtindo muito minhas férias, me sentindo bem, relaxada, calma. Daí me preocupou um pouco, conheço a diferença entre a calma e os períodos de calmaria que precedem as tempestades. Nas vésperas de vir embora, comecei a ficar meio angustiada. Mas é difícil saber o porquê, volta de férias é sempre difícil.

 

Chegamos muito bem, nossos amigos que ficaram em casa nos receberam no aeroporto com o carro. Assim que já voltamos com ar de vida normal.

 

Quando entramos pela porta, Jack veio correndo nos receber com seu tradicional miado de reclamação por companhia. Quando pegamos ele no colo, tanto eu como Luiz notamos que ele havia perdido mais peso e nos preocupou. Não estava estressado, se via que foi bem tratado, mas provavelmente, o problema nos rins havia avançado, a gente só não sabia o quanto.

 

Passamos o dia tentando que ele comesse, mas ele estava se recusando. No resto, parecia quase normal, seguia ronronante e gostando de carinho. No início da noite, quando costumo dar seu remédio com o patê que ele adorava, ele se recusou novamente. Isso sim era um sinal complicado, ele não estava simplesmente enjoado da comida renal, estava sem nenhum apetite.

 

Dormimos muito mal essa noite. Ainda assim, meu felino me fez sua habitual visita noturna pedindo carinho. Seguia ronronante, feliz, mas muito magrinho.

 

Pela manhã, Luiz deu uma fugida do trabalho e fomos levá-lo ao veterinário. Estávamos preocupados, mas sempre tento ter um rasgo de otimismo e pensar que pode haver tratamento mais um tempo.

 

Ele havia perdido outro kg, estava com praticamente metade de seu peso habitual. Os exames de sangue acusaram que realmente seu problema renal havia avançado. Não conseguimos que estabilizasse com o remédio e a comida especializada. Afinal, ele também tinha 13 anos, já era um senhor, não tinha a mesma capacidade para se recuperar.

 

Havia a possibilidade de interná-lo para tomar soro e medicação um par de dias, sem nenhuma garantia que isso melhoraria sua condição. Do que conheço meu gato, deixá-lo só em uma clínica tomando medicação intravenosa não melhoraria em nada, só o faria sofrer e se sentir sozinho. E para que? Para a gente ter mais alguns dias com ele? Para vê-lo definhar?

 

Preferia que ele se fosse ainda feliz, ronronante e sabendo que não o havíamos abandonado. O veterinário ainda se sensibilizou e disse que não precisávamos tomar a decisão naquele minuto, mas ele não sabia que essa decisão estava tomada há 8 anos, quando perdi minha primeira gata. Esperar só prorrogaria o sofrimento para todos, inclusive para meu Jack.

 

Ficamos com ele em todo o procedimento e voltamos para casa como menos um na família.

 

É duro, mas uma hora passa. Outro dia estava escrevendo sobre o luto e sei que um dia a gente acorda melhor, não dói tanto, é só saudade. Sigo me centrando que esse dia vai chegar. Hoje é mais fácil que ontem.

 

Tenho tentando me manter nos planos que havia feito antes, de cuidar mais de mim. Preciso um pouco desse egoísmo momentâneo de olhar para meu umbigo e me sentir melhor dentro do próprio corpo. Tenho a sensação de estar um pouco desequilibrada, fora do eixo. E não é só pelo Jack, é por tudo.

 

Voltei a pintar meu cabelo de vermelho, comecei a fazer alguns tratamentos estéticos menos invasivos, tento minha sexagésima dieta, pinto paredes, decoro a casa nova…

 

Vou começar a viajar mais, em princípio, acompanhando Luiz em viagens de trabalho, mas em breve, quero voltar ao Caminho de Santiago. Uns diazinhos caminhando e só pensando nos meus pés, setas amarelas e bosta de vaca, me fariam muito bem!

 

Ando sem vontade de cozinhar, comprando comida pronta direto. Na primeira semana, Luiz cozinhou! Como ele só tem duas especialidades, pipoca e carne na brasa, acabou sendo a segunda opção. Na verdade, ele se transformou no “Homem-Churrasco”! Passamos uma semana inteira comendo carne no carvão! Na boa, chegou o momento em que simplesmente não aguentei mais! Sugeri um churrasquinho de frutos do mar, só para variar um pouquinho! Ficou muito bom também.

 

Montamos um tipo de jacuzzi inflável na terraza, que tem sido meu xodó! Não consigo aguentar o sol do verão madrileño, mas dentro da água, posso passar um dia inteiro! Assim que estou até moreninha, acredite quem quiser.

 

Pois é, daí parecia que tudo caminhava para seu eixo, até sentir a sensação de calmaria outra vez.

 

No último domingo, resolvi tentar falar com minha mãe. Nosso fuso horário é muito diferente nessa época do ano e sei que ela estava evitando me perguntar sobre como estava porque me conhece. Quando estou triste, prefiro estar quieta e sem falar muito. Quando vai passando, eu mesma vou me encarregando de voltar ao mundo dos vivos.

 

Mas comecei a achar tudo muito quieto. Enfim, domingo consegui falar com ela e parecia tudo bem. Fofocamos um pouco e ela estava fazendo hora para ir ao clube, meu pai já estava lá. Então tá, foi implicância minha, estava tudo bem.

 

Segunda-feira, pela hora do almoço daqui, ela me procurou no Facebook, mas foi justamente no minuto em que estava desligando, porque tinha minha primeira sessão de cavitação (o mais parecido a uma lipoaspiração, mas sem cirurgia). Disse que a procurava mais tarde. Nem me toquei que, pela diferença do fuso, devia ser pelas 6 da manhã no Brasil, o que raios ela estava fazendo essa hora na internet, né?

 

Mas não pensei e passei boa parte do dia fora. Daí, quando chegou à tarde e estava mais tranquila, procurei por ela. Descobri que meu pai estava internado na UTI e nem queriam me falar nada.

 

Hein?

 

Aparentemente, não é tão grave. Ele estava gripado, abusou um pouco no clube e passou mal, foi um pouco depois que eu havia falado com minha mãe. O caso é que, com tanta complicação que ele já teve, uma gripe pode assustar bastante e todo cuidado é pouco. Foi levado para o hospital e, por seu histórico, por precaução ele já vai direto para UTI, mas pode receber visitas, é um quarto particular. Está com uma infecção (provavelmente da gripe mesmo) e a respiração bastante pesada. Então, começaram a dar antibióticos e a alterar um pouco a dosagem da sua medicação. Para uma pessoa normal e jovem, isso é bobagem, mas no caso dele, como disse, precisa ser tudo monitorado.

 

Ainda é pouco? Vamos complicar mais?

 

Minha sogra também começou a ter alterações e precisou ser internada. Se não foi no mesmo dia que meu pai, foi no dia seguinte. Não corre risco de vida, felizmente, mas é sempre preocupante.

 

Ou seja, o clima aqui em casa está uma delícia, né? Parecemos dois zumbis!

 

Às vezes, tenho saudade de quando éramos crianças e acreditávamos que tudo daria certo e correria bem. Eu sei que era uma falsa expectativa, primeiro porque nossos pais filtravam boa parte dos problemas e depois, porque nossa perspectiva era muito menor. Os problemas seguiam ali, simplesmente não notávamos. De toda maneira, sinto falta dessa sensação.

 

Por outro lado, a experiência me fez entender que apesar das calmarias precederem tempestades, também há boa chance das tempestades anunciarem que o sol brilhará novamente. Simplesmente, ele não brilha para sempre, uma hora a noite precisa tomar seu lugar, e a noite também tem seu lado bom.

 

Hoje é quarta-feira e meu irmão acabou de me ligar, avisando que meu pai sai da UTI para o quarto normal. Normalmente, quer dizer que ele deve receber alta amanhã ou perto disso. Assim que espero que venha por aí um primeiro raio de sol!

 

Enfim, com tudo isso acontecendo, resolvemos não fazer a famosa tradicional feijoada do Luiz. Se toda essa história vai dar uma guinada de 180º e no dia estaremos animados… como vou saber? Espero que sim e, então, a gente muda tudo outra vez! Mas agora não tem clima e não quero estressar mais o Luiz.

 

De momento, um dia de cada vez e um leão por dia.

Our good old Jack Daniel’s

Não é a primeira vez que falo nele e provavelmente não será a última, mas é a mais triste. Nosso gato se foi, após 13 anos fazendo parte da nossa família.

 

Falar nisso é difícil, mas escrever tem sido minha terapia há bastante tempo, então lá vamos nós ver se adianta ou se, ao menos, tira um pouco do peso que fica no peito.

 

É estranho escrever o epitáfio de um gato, soa quase maluco. Acontece que por tudo que ele nos deu, por sua personalidade e caráter tão marcantes, ele merece.

 

Nem Jack, nem Buchannan eram tratados como gente. Eles eram gatos e gostavam de ser gatos. Animais também precisam ser compreendidos e respeitados como são e era exatamente assim que nós os amávamos.

 

É difícil para eu falar de um sem falar da outra. Eram irmãos e chegaram juntos à nossa casa quando tinham apenas 40 dias, Luiz me trouxe de presente por meus 30 anos.

 

Quando Buchannan morreu, com 5 anos, Jack ficou totalmente deprimido e teve sua primeira complicação renal. A partir daí, paramos de falar o nome dela em casa, porque víamos as orelhas de Jack se mexerem a procurando. Passou a ser “a gata”. Eu pensava nela, às vezes sonhava com ela, mas pouco conversávamos sobre isso em casa. Por ele.

 

Em 2005, com a morte da Buchannan, Jack adoeceu e meu coração apertou. Parecia ter acabado de ver aquele filme. Mas ainda era um gato jovem e forte, havia condição de tratá-lo e assim o fizemos. Sabíamos que seus rins não seriam os mesmos, que era um gato obeso e blá, blá, blá… mas era o gato mais feliz que nós conhecíamos e essa era a sua característica mais marcante. O tratamento durou cerca de 9 meses, toda uma gestação para que ele tivesse alta. Gastou algumas das suas 7 vidas, para cumprir o pacto que havíamos estabelecido e que já vou contar.

 

Buchannan eu escolhi, Jack me escolheu. Fui ao gatil atrás de uma gata vermelha com personalidade forte, dona do seu nariz. Não tive dúvidas quando bati o olho na minha felina: era ela. Não queria ficar no meu colo, mas não saía de perto de mim, com seu rabo bastante empinado. Deixou claro que sabia que havia sido escolhida, mas era ela quem decidiria vir comigo. Jack estava brincando distraído com sua mãe, mas quando me viu, ficou curioso (como um bom gato), levantou sua carinha de neném que manteve até a velhice e veio imediatamente em minha direção. Escalou meu colo e começou a cheirar meu hálito (também manteve essa mania). Se posicionou ali, me deixando impossível não levá-lo também. Foi ele quem decidiu que eu era sua dona.

 

O tempo passou e fui conhecendo bem a personalidade de cada um. Buchannan era a inteligente sensível e Jack o pateta feliz. A gata cuidava de todos, como uma grande mãe e Jack era um reizinho que tinha um prazer enorme em ser cuidado.

 

Entendendo os dois, fizemos um pacto. Buchannan era soberana, decidiria sua hora e, quando isso aconteceu, soubemos respeitar sua vontade. Com Jack, deixei bem claro: você é meu! Será o que quiser, gordo, bonachão, mimado… Em troca, quero 10 anos de saúde e que neles você seja feliz. Você morrerá de velho, nos meus braços.

 

Como sempre, ele me deu mais. Foram 13 anos com o gato mais feliz do mundo!

 

E quando sua hora chegou, estávamos Luiz e eu com ele. Se foi com a cabeça recostada na minha mão e escutando nossa voz. Para que não se sentisse só.

 

O procedimento é rápido e indolor, dói mais na gente. Ele recebe um tranquilizante e cai em sono profundo. Só depois recebe uma dose extra de anestésico, que faz com que seu coração pare. Vai literalmente em paz, dormindo.

 

Não é apenas uma metáfora dizer que sua vida foi escorregando pelas minhas mãos e não é exatamente uma cena que gostaria de presenciar. Mas era minha parte do nosso acordo. Ele cumpriu a dele e eu a minha. E é muito estranho que, de um momento para outro, um ser tão amado se converta em um corpo.

 

É o ciclo da vida. Sou uma escorpiana e o entendo desde que nasci. Mas ainda assim, dói muito.

 

Jack me ensinou a ter algo de rotina e a importância dessas pequenas rotinas para nossa sensação de segurança, me ensinou que cuidar de alguém não é ruim e, se hoje tenho algum instinto maternal, não tenho dúvidas que ele teve grande responsabilidade nisso, me ensinou a voltar para casa com prazer, a desfrutar de coisas simples e a ser irracionalmente feliz porque sim.

 

Jack era um sedutor. Quando chegou na nossa casa, Luiz não ligava para gatos, gostava de animais, mas era de cachorros. Ver seu amor por esses bichinhos crescendo todos os dias e o carinho que os cuidou até o final, me fez amá-lo mais. Verdade que às vezes beirava as raias do ridículo e eu, como boa sacana que sou, lhe perguntava irônica: você sabe que está negociando com um gato, né? E está perdendo!

 

Os dois sempre foram loucos por Luiz. Jack esperava seu despertador tocar impacientemente para ser cuidado. E nos fins de semana, quando isso não acontecia, ele tratava de encher seu saco até ele levantar, porque afinal, ele precisava ser escovado! E lá levantava Luiz, às 6:30h da matina, em pleno domingo, para escovar o gato. Está pensando que ele reclamava? Ainda ia dizendo: pronto Jack, seu mordomo já levantou… E Jack fazia todos os ruídos de alegria possíveis e imagináveis, deixando impossível que alguém se aborrecesse.

 

Ele ensaiava fazer o mesmo comigo, quando Luiz viajava. Só olhava para ele e deixava bastante claro: no fucking chance, my friend! Ele entendia, suspirava e deitava no meu pé ou se espalhava pela lateral da minha barriga, pedindo carinho. Aliás, fazia isso algumas vezes durante à noite.

 

E quem conseguiria se aborrecer ouvindo seu típico ronronado de felicidade?

 

Posso passar uma tarde enumerando o quanto ele se metia nas nossas bolsas, na nossa vida, na nossa rotina e no nossos pés! Às vezes, era um pentelho! E o estranho é que é exatamente dessas pequenas manias que sentimos tanta falta.

 

Nos habituamos a caminhar olhando para o chão, para não pisá-lo; a entrar em casa olhando para o canto da porta e a fechá-la com rapidez para ele não sair; a tomar cuidado com as portas de armário, com as janelas, com as cadeiras… e vai ser difícil mudar esses hábitos novamente.

 

O momento mais duro para mim e acho que para Luiz também é chegar em casa. Porque nosso gato-cachorrinho nos recebia na porta, e boa parte das vezes com certa reclamação por atenção.

 

Mas não quero que isso se transforme em um muro de lamentações. Porque se conto a verdade, às vezes no meio do choro de saudade, começo a rir lembrando das bobagens que ele aprontava. E é assim que quero lembrá-lo no futuro, do meu buda bonachão, da sua silueta de pera e da sua elegância de sapo-boi!

 

Nosso bichinho que a família e os amigos foram capazes de compreender o quanto era importante e peculiar. Há gente que não gostava de gatos e gostava dele; há gente alérgica que convivia com ele sem problemas; amigos que dormiram aqui em casa para que ele não ficasse só; amigos que tiravam os sapatos ao entrar no apartamento para evitar que Jack adoecesse; amigos que resolveram ter gatos depois de conviver com ele; gente que simplesmente achava ele lindo… quem poderia imaginar que um animalzinho gorducho pudesse impactar tanto seu contexto?

 

Ainda vai doer um pouco… ou bastante. Mas é um alívio saber que ele foi sem sofrimento e do nosso lado. Poder se despedir dos seus amores é uma benção, apesar de duro. A dor vai durar algumas semanas, depois vai virar saudade. E esse tempo nem se compara aos 13 anos de alegrias que ele nos deu. Claro que faria tudo outra vez!

 

E acho que seu epitáfio deveria ser simplesmente: aqui jazZ Jack Daniel’s, nosso felino etílico, o gato mais guloso, lindo e feliz do mundo!

 

Vai em paz meu gorducho e, Buchanninha, recebe ele por aí!

Furacãozinho básico entre calmarias

Nada tão grave, aviso para não criar muito suspense, mas sabe quando as coisas parecem ir no prazo, redondinho e de repente, embola tudo e você não sabe o que fazer? Pois vamos por partes.

 

Segunda-feira à noite, fomos ao concerto do Toquinho. É a segunda vez que o assistimos aqui em Madri. Um showzaço! Acho ele muito fera e adoro o repertório de bossas, sambas arrojados e música brasileira de excelente qualidade! Os músicos que acompanham são fantásticos, mas dou destaque à pianista, Silvia Goes. Entra no palco aquela senhora de óculos que poderia ser minha mãe e dois segundos depois que começa a tocar, se transforma num monstro de habilidade e carisma. A tia era enfurecida! Acompanharam também um baterista, um baixista e outra cantora, todos muito bons, mas não consigo lembrar os nomes, infelizmente.

 

Depois do show, ainda tinha o concerto de uma amiga, Flávia-N, no bar desse mesmo local onde tocou o Toquinho (tocou Toquinho é engraçado, né?). Não pudemos ficar até o final, porque Luiz tinha que acordar cedo no dia seguinte, mas deu para curtir um pouco.

 

Assim que fui dormir na segunda bastante leve e com uma trilha sonora de cordas e acordes ressoando na cabeça.

 

Decidi que queria ficar com o carro na terça-feira, para resolver algumas coisas antes da viagem ao Rio, marcada para 26 de julho, quinta-feira. Então, acordei bem cedo para levar Luiz e assumir nosso veículo.

 

A primeira coisa que fiz quando acordei foi o teste de gravidez e nem foi por ansiedade, é por ser melhor logo pela manhã. Para ser brutalmente sincera, fiz bastante indiferente e com a expectativa baixa de quem sabia que o resultado seria negativo. E foi. Não fiquei triste, essa etapa já passou, estava apenas nas formalidades. No início, queria muito engravidar, mas já faz algum tempo que só quero que se acabe. Está mais do que na hora de mudar algumas prioridades. Se vai acontecer no futuro, talvez, mas meu papel foi cumprido e modéstia às favas, muito bem obrigada.

 

Bom, depois de deixar Luiz no trabalho, voltei para casa porque as lojas ainda estavam fechadas e fiquei fazendo uma horinha. Pelas 10h, hora que abre o comércio em geral por Madri, lá vou eu para a rua.

 

Passei em um outlet aqui perto, que vende roupas de marca a preços excelentes. Não é que seja baratinho, até porque são marcas boas, mas proporcionalmente ao preço das lojas, é bem razoável e você sabe que está comprando algo de qualidade. Tinha uma encomenda da minha mãe e aproveitei para ver alguma coisa para mim também. Geralmente, a gente ia nesse outlet nos sábados, quando fica bastante cheio e insuportável. Adorei ir cedo durante a semana e poder ver tudo tranquila.

 

Depois fui fazer umas últimas comprinhas, tanto aqui para casa quanto para levar ao Brasil. Sabe como é, as lembranças de viagem na minha família são sempre comida. Assim que lá fui eu comprar jamón, fuet, chocolates diferentes… enfim, o contrabando que costumo levar.

 

Ir ao mercado é algo rotineiro para qualquer mortal, mas nesse caso havia um certo tom de novidade. Primeiro, porque não vou sozinha dirigindo a um supermercado desde que morava em Atlanta, ou seja, lá se vão uns 8 anos! E nos últimos 3 anos, tenho feito as compras por internet. Até ia ao mercado de vez em quando, mas sempre com Luiz. Por isso, bem que estava curtindo essa história de um novo olhar em algo básico. Dá um gosto de conquista, mesmo sendo uma atividade simples.

 

Aproveitei para dar uma volta de carro, fazer alguns caminhos diferentes, explorar o território. Queria ter um gostinho do que será a vida por aqui antes de viajar de férias.

 

Fui para casa, preparei meu almoço devagar, comecei a separar algumas roupas para viajar, ver o que tinha para lavar, enfim tudo sob controle.

 

É que, enquanto estivermos viajando, vem dormir aqui em casa um casal de amigos para cuidar do Jack, nosso felino mimado. E daí gosto de deixar comidinhas, o apartamento arrumado e confortável para que eles se sintam em um hotel! Afinal, estão me quebrando um galhão!

 

Aproveitei para pintar e arrumar o cabelo, afinal quero chegar ajeitada no Rio, né? Minha amiga que faz minha depilação ficou de chegar pelas 17h, assim que tinha tempo para tudo.

 

Muito bem, quando estou no banheiro terminando de guardar o secador de cabelos, cai a luz. Às vezes, quando você liga vários eletrodomésticos ao mesmo tempo, ou dois que puxem muita energia, a luz cai. Mas achei estranho um apartamento desse tamanho não ter capacidade para aturar um ar condicionado e um secador!

 

Fui checar o painel de luz e estava tudo normal, não havia caído nenhum fusível.

 

Havia escutado alguns sons de obra embaixo e pensei, vai ver eles desligaram a energia por algum tempo para resolver algum pepino. Que sorte que pelo menos terminei de lavar a cabeça e fazer minha escova!

 

Liguei para o Luiz para contar, mas ele estava em reunião enrolado, então nem falei nada e desliguei.

 

Fui procurar o telefone do zelador do condomínio para perguntar se ele sabia alguma coisa. Ele veio aqui em casa, mostrei o painel de luz para ele, que me disse que iria confirmar no quadro de energia do edifício.

 

Dali a pouco ele volta com um ar de dúvida e me diz: olha seu apartamento não tem nem contador de luz!

 

Como assim não tem contador? Minha luz foi cortada? Bom, agradeci e disse que ligaria para a imobiliária para tentar entender o que estava acontecendo.

 

Será que Luiz tinha esquecido de pagar a conta? E agora, como a gente fazia? E isso já era umas 17h, como vou conseguir resolver isso hoje? Caraca, e o casal que vem para cá cuidar do Jack? Entrei em pânico!

 

Mandei uma mensagem para Luiz e liguei em seguida, sinto muito, não interrompo suas reuniões nunca, mas isso era uma urgência! Pergunto para ele: Luiz você pagou a conta?

 

Ele ficou até meio ofendido, mas o que eu poderia pensar. É assim, os proprietários do nosso apartamento moram na Bélgica e a imobiliária é que administra. Ele me disse que havia combinado com a corretora que ela passaria todas as contas do antigo inquilino para ele. Que eu ligasse para ela para ver se havia algum problema. Eu achava que ele deveria ligar, afinal era quem tinha combinado tudo. Mas ele estava todo enrolado, então ligo eu para a corretora, toda sem graça, achando que a gente devia ter feito alguma besteira.

 

Quando conto a história para ela que a luz havia sido cortada, ela responde do outro lado com um jeito de que sabia do que se tratava: não acredito que eles cortaram! Eles me disseram que não iriam cortar…

 

Eles quem? Do que a gente está falando?

 

Encurtando o assunto, os inquilinos anteriores deixaram uma dívida de mil e tantos euros em energia e, por isso, simplesmente, cortaram nossa luz e quase cortam o gás também!

 

A corretora estava tentando resolver esse assunto nos bastidores e não nos falou nada. Até entendo que ela não quisesse nos preocupar, mas acabou nos deixando numa saia justa danada! Sem energia, em um momento péssimo e ainda passo por caloteira com o zelador!

 

Enfim, nisso consegui falar com Luiz que disse que estava indo para lá conversar com a corretora pessoalmente e ela me disse que já estava providenciando um eletricista que ligaria minha luz naquele momento.

 

No meio dessa confusão, me liga a amiga depiladora que havia saltado no ponto errado e não sabia como chegar direito aqui em casa. Putz, estava de carro, em outra situação, iria buscá-la, mas como poderia sair de casa com essa muvuca armada?

 

Expliquei por telefone como ela chegava, avisei que era longe e disse que podia vir com calma porque estava sem luz em casa!

 

Me liga Luiz: Bi, falei que ia para a imobiliária, mas esqueci que quem está com o carro é você!

 

Pega um taxi, daqui não posso sair!

 

Liga a corretora que havia conseguido falar com o eletricista e ele estava a caminho da nossa casa, um tal de Miguel Angel. E eu pensando, é bom esse anjo Miguel saber operar milagres, porque como é que ele vai ligar minha luz sem contador? Em bom português popular, ele ia me fazer era um belo de um “gato”, certo?

 

Nisso, minha amiga depiladora me ligando perdida e pedindo instruções para chegar. E eu pensando, o pior é que ela vai chegar aqui e não vamos poder fazer nada. Onde é que ela vai ligar os aparelhos para esquentar a cera? Não tem luz!

 

Liga meu irmão do Rio, para falar que nos buscaria no aeroporto e todo animado para conversar. Caraca, agora não dá, estou no meio de um furacão, falamos mais tarde!

 

Chega Luiz em casa, já havia conversado com a corretora por telefone e entendido melhor o problema. Que será solucionado a gente sabe, a responsabilidade não era nossa. O caso é que estamos para viajar e não podemos deixar esse pepino para quem ficar aqui, né? O casal de amigos pode ficar no seu próprio apartamento, afinal, só estão vindo para cá por um favor. Mas e meu gato? Já comecei a pensar em um plano B para o Jack, podia deixá-lo na casa de amigos, mas seria bem chato ter que tirá-lo do apartamento. Ele está velhinho, tem que tomar medicação todos os dias e agora que está começando a se acostumar aqui, sair de seu ambiente e sem a gente por perto… putz!

 

Bom, o eletricista estava a caminho e Luiz disse que não adiantava ele ficar aqui esperando comigo, o que concordei. Então, voltou para seu trabalho e levou o carro.

 

Uns minutinhos depois, chega a amiga depiladora. A coitada caminhou uma hora com o sol na cuca e uma bolsa pesada, estava roxa! Entra, senta um pouco, toma uma água que te conto o tamanho da encrenca!

 

Sentamos na sala, ficamos esperando juntas o eletricista, conversando com aquela cara de nádegas, sem saber que raio fazer. E eu pensando, cassilda, minha geladeira cheia de comida…

 

Escutamos um carro, será que é o tal Miguel? Um minuto depois toca o interfone, era ele. Abri a portaria e fiquei esperando ele subir. Começou a demorar um pouco, daí deduzimos que ele já estaria tentando resolver lá no quadro de energia do edifício.

 

Uns minutinhos depois… e fez-se a luz! Nem acreditei! Ele subiu para conferir, tinha mais jeito de executivo que eletricista. E eu pensando, deve estar tudo engatilhado aí embaixo…

 

Passei um SMS para Luiz, já que ele nem poderia atender o telefone e avisei que, pelo menos por hoje, tínhamos energia.

 

Fui fazer a depilação e bem no meio, me liga Luiz: esqueci de te avisar, combinei com um casal de amigos de passarem no apartamento hoje no fim da tarde, se eles tocarem aí, recebe por favor que estou chegando… Veja bem, nesse exato momento tenho cera em locais que prefiro não pronunciar, não tenho como levantar daqui, melhor você correr e chegar rápido!

 

Ele chegou a tempo e recebeu nossos amigos, enquanto eu terminava minha sessão de torturas particular. Chato, porque gosto de preparar alguma coisa quando recebo as pessoas, mas enfim, era o jeito. Por sorte, são de casa.

 

Ficamos conversando um pouco e ainda deram carona para a amiga depiladora, que ao menos na volta, não precisaria correr o risco de errar a condução outra vez.

 

Só aí que consegui conversar com Luiz para entendermos melhor a situação. Ele me deu mais detalhes que havia falado com a corretora. Ela disse que já havia conseguido solucionar com a companhia elétrica e que eles voltariam no dia seguinte, hoje, para regularizar a situação e que já haviam sido informados que foi feita uma ligação, digamos, “provisória”. Como essa história vai terminar, ainda não sei, mas um passo de cada vez.

 

Tudo bem, quando acaba bem.

Notícias do novo lar

Mudamos para meu trigésimo sexto endereço no dia 16 de julho, segunda-feira.

 

Desde que cheguei a Madri, tive 6 endereços, sendo que em 2 deles nossos móveis ainda não haviam chegado. As outras quatro mudanças, fizemos com a mesma empresa. Ou seja, já somos até conhecidos! O curioso é que, dessa vez, da equipe que nos apoiou, reconhecemos dois funcionários, ambos já haviam feito outras duas mudanças anteriores nossas, estavam na terceira! Assim que conheciam nossos móveis e uma parte da nossa história.

 

Modéstia às favas, deixo tudo bastante organizado para sair. Até porque, depois de mudar tanto, nossa casa é toda adaptável. Os móveis tem rodas, as coisas são guardadas em caixas organizadoras… enfim, como sei que é parte da nossa vida, fui criando esquemas que facilitam muito. Portanto, apesar de trabalhosa como todas, nossa mudança não é difícil.

 

A maior complicação que tínhamos era o fato do edifício não ter elevador e a rua ser muito apertada. A rua se resolve interrompendo o trânsito no quarteirão por um determinado período. E eles tem um tipo de elevador externo que utilizam para realizar sua mudança pela janela. Esse elevador se chama “monta cargas” e é muito prático, agiliza uma barbaridade!

 

Pequeno detalhe, as empresas costumam achar (ou dizer) que nessas ruas apertadas do centro não cabe o tal do monta cargas e tem que ser feito pela escada mesmo. Acontece que na mudança anterior eu dei uma rodadinha de baiana e eles conseguiram usar o tal monta cargas sem o menor problema.

 

Muito bem, acho que eles esqueceram disso e dessa vez a administradora insistia em me dizer que não cabia porque não cabia. Eu disse a ela, mas vocês mesmos fizeram minha mudança anterior para cá e usaram o monta cargas! Acho que ela pensava que eu estava chutando ou confundindo com outro endereço e não me dava ouvidos. Até que me irritei e soltei o argumento definitivo: tenho fotos da mudança anterior!

 

Daí rolou aqueles segundos de silêncio, onde ela finalmente parou um pouco para me ouvir. Respondeu que ia verificar e faria o possível. De qualquer maneira, enviei as fotos a ela para que não restasse dúvidas!

 

E sim, o monta cargas veio.

 

A equipe chegou cedo, como sempre. Às 8 em ponto eles tocam na sua porta! Já sabíamos e também estava prontinha. Luiz tirou o dia de folga para me ajudar.

 

Depois que reconhecemos metade da equipe, eles ficaram até mais simpáticos. Ainda assim, como deve ser, entram como furacões na sua casa e saem mandando bala! Por volta das 13h já estava tudo no caminhão embarcado. Eles dariam uma parada para almoçar e marcaram conosco no apartamento atual às 14h30.

 

Passei aspirador rápido no apartamento, para ficar com uma carinha mais ajeitada na hora de devolvê-lo, catamos nosso gato e seguimos para o próximo endereço.

 

Luiz me deixou com Jack, para ele ir se adaptando, enquanto foi buscar um sanduíche para a gente comer também.

 

Pontualmente, a equipe chegou e tratou de desembarcar as coisas: 102 caixas + móveis!

 

Nesse apartamento é bem mais fácil, porque a rua é tranquila, nem precisou reservar vaga, temos mais espaço, a escada é boa e tem elevador. Ou seja, comparativamente, uma moleza! Não me lembro exatamente, mas acredito que por volta das 18h eles encerraram o assunto.

 

Daí fomos limpar o chão para soltar o gato. Ele fica preso no banheiro enquanto o pau come, assim não fica estressado. Fiz alguma coisa básica para jantarmos e às 21h o Luiz disse que já queria dormir.

 

Quer saber, também estou morta! Havia dormido apenas 3 horas na noite anterior e mudança cansa pacas!

 

A gente ainda tinha um aniversário para ir, mas não havia a mais remota possibilidade.

 

Fomos deitar com o dia ainda claro, porque essa época do ano só vai anoitecer depois das 22h. Nem me lembro quando dormi tão cedo assim, mas a verdade é que apaguei!

 

Na terça, acordei com a corda toda e me atraquei com as caixas, acho que abri umas 50! No fim da tarde, chegou Luiz do trabalho e me ajudou. O balanço do final do dia foram 64 caixas e uma montanha de plástico bolha! Lembrei do nosso amigo que vai mudar para o apartamento anterior. Não havia porque desperdiçar tanto material e oferecemos a ele, que gostou da idéia.

 

Na quarta-feira, terminei o restante das caixas e na quinta só sobrou algo de limpeza e arrumação. Em três dias, nossa confusão de caixas já era um lar. Na sexta-feira, o material que havia foi buscado pelo nosso amigo e quem chegasse naquele momento, jamais pensaria que acabávamos de mudar.

 

De fato, oferecemos um jantar na própria sexta, para o casal de amigos que vai ficar aqui em casa com nosso felino mimado. Assim passamos a chave e explicamos como cuidar do Jack.

 

Sábado, inauguramos a churrasqueira. Bem tranquilo, com meia dúzia de amigos. Acabou mais tarde do que imaginei, por volta da meia noite. A gente tinha outro aniversário para ir, mas não demos conta. E domingão só morgamos.

 

O apartamento novo é show! Bastante espaço, boa energia e uma terraza ótima! A rua é bem silenciosa e residencial. O extremo oposto de onde estávamos. Eu gostava da muvuca anterior, mas não estou encontrando o menor problema em me adaptar ao conforto e ao silêncio.

 

Tomar um vinhozinho na varanda, olhando o entardecer e escutando boa música é um prazer que não enjoa.

 

O gato está bem. Não está 100% adaptado, mas vai se acostumando à sua velocidade. Apesar de ainda estar agarrado ao nosso quarto, cada dia ele domina um ambiente a mais e expande seus horizontes. Ensaiou passear pela varanda, mas morre de medo do vento. Não está nervoso, já se acostumou com cheiros e encontrou seus objetos de conforto. Ele também não vai demorar a se acostumar.

 

E agora, toca a começar a organizar a próxima etapa, porque nessa quinta-feira, vamos para o Brasil de férias! Ou seja, mal terminei de arrumar a mudança e bora arrumar mala!

 

Até agora, nem tive tempo de pensar muito nisso, por uma questão de prioridades. Mas com a casa organizada, começo a me empolgar com a viagem. Minha mãe já está em contagem regressiva por lá!

 

Logo no primeiro fim de semana, vou encontrar amigos de colégio que ficaram perdidos no tempo e não vejo há somente 26 anos! Estou até nervosa! Vontade de encontrar os amigos de sempre também. E, claro, saudade da família que a gente aprende a conviver, mas permanece.

 

Enfim, podem ir separando uma cachacinha e colocando água no feijão, que eu tô chegando!