Tristeza se mata por inanição

Vou falar de tristeza, mas não por estar triste, muito menos por renegá-la. Nada existe sem seu oposto, sem seu contraste. Se alguém quer ser feliz precisa conhecer o outro lado. Por qual sensação irá optar ou se manter, é outra história.

 

E hoje eu queria falar sobre luto. Não necessariamente da morte, mas da perda, porque acho que é do que o luto ao final se trata.

 

E é foda! Desculpem o francês!

 

Já passei por alguns e, a medida que envelheço, essa probabilidade aumenta. O primeiro foi o mais duro e não por ser o pior, mas por não conhecer como funcionava.

 

Havia a opção de deixar acontecer, fazer de conta que nunca mais ocorreria, até que inadiavelmente me daria de cara com ele outra vez, a bosta do luto! Mas sabendo que seria inevitável, achei mais inteligente entendê-lo e prestar atenção no processo. Achei que assim sofreria menos e se provou verdade.

 

Eu não chorava tanto, e nem era por falta de vontade, era repressão mesmo. Acho que era uma tentativa de me enganar e espantar a tristeza. O peito doía e minhas veias se rompiam, ficava cheia de hematomas. A sensação era de que não passaria nunca, doeria para o resto da minha vida. Então, eu achava que precisava aprender a viver com uma dor apêndice.

 

Acontece que o tempo passou e descobri que um dia a dor passa sim. Chega um momento que você acorda pela manhã e não sente tanto peso, não tem vontade de chorar e às vezes nem se lembra. E quando se lembra, é tão bom que dá vontade de sorrir, porque a dor se foi, mas ficou a saudade. E a gente só tem saudade do que foi bom e nos fazia bem.

 

E depois de aprender isso, é exatamente nesse momento de alívio que concentro minhas esperanças. É mais fácil passar por qualquer problema sabendo que ele tem um fim, que um dia vai curar. Vivo a tristeza pela completa falta de opção, mas não a alimento.

 

Sabendo disso, hoje choro mais, me exponho mais e, aos poucos, tenho aprendido a pedir ajuda se precisar. Minhas veias já não se rompem e meu tempo de luto é menor.

 

Ainda que tenha aprendido também a valorizar esse tal tempo do luto, porque ele é necessário. Sem ele a gente não completa o ritual de passagem para outra etapa. Fica uma história incompleta.

 

Meu último luto foi a perda da gravidez. E no início era corrosivo. Depois foi melhorando e a vida foi entrando em relativa rotina. De certa maneira, as novas tentativas de engravidar ocupavam esse espaço ou, pelo menos, eu achei que ocupasse.

 

Não era exatamente assim, porque a vida não para e você pode até se distrair, buscar outros interesses. Mas enquanto não resolver o que estava pendente, o problema não vai embora sozinho.

 

Eu ainda estava de luto e nem sabia.

 

Porque o choro havia quase desaparecido, mas aquela ponta de tristeza não me largava. Eu não dava muito mole para ela, nem a alimentava, mas sabia que ela estava lá. E novamente tentava me concentrar naquele famoso momento de alívio que eu sabia que um dia chegaria, com certeza.

 

Acontece que nos momentos em que me divertia, e posso perfeitamente me divertir ainda que dolorida, era inevitável que não me passasse um pensamento comparativo. E logo comigo, que sou totalmente contra comparações, porque quem compara sempre perde. Um tipo de consolo, pensava que se eu estivesse grávida, não poderia estar fazendo determinada coisa. Mas saía pela culatra, porque imediatamente só conseguia achar que trocaria tudo aquilo pela gravidez novamente. E me entristecia.

 

Se eu concordo com o pensamento acima? Claro que não, racionalmente não. Mas era espontâneo, saia sem controle.

 

Até que no sábado passado, estivemos em um show com amigos. Uma das farras habituais regadas a bom whisky. Era o momento em que tudo indicava que entraria em comparação sozinha outra vez e me entristeceria discretamente.

 

Mas não aconteceu.

 

Não me veio mais nenhuma comparação. Só me veio a pergunta de confronto, direta, reta: e se eu não engravidar? Porque o passado já foi, não há mais o que fazer ali, importa agora daqui para frente e assusta muito mais o que pode ser do que o que não aconteceu. E a resposta veio rápida, leve e serena: vai ficar tudo bem. E, de repente, percebi que não estava com medo, estava feliz!

 

Reconheci o alívio e soube que meu luto finalmente havia acabado. Tenho a saudade e a experiência, mas a tristeza sobra, pode ficar para trás.

 

Já não me preocupa mais qual o caminho que se abrirá, porque agora eu acredito que vai ficar tudo bem.

6 comentários em “Tristeza se mata por inanição”

  1. Bianca, vc deveria ser escritora. Vc escreve maravilhosamente bem. O seu portugues e inacreditavel. Eu tenho muitos erros pois nao escrevo muito e estou longe ha muito tempo. Vc escreve com a alma. Parabens.

  2. Bianca querida, você disse tudo!
    Sempre vai ficar tudo bem…
    Beijos Pessoa linda!!!! 🙂

  3. Bianca, vim parar aqui (long time ago) seguindo o link de um amigo no Face. Fato é que desde então perambulo por ai em silêncio, seguindo a liturgia do voyeurismo como uma espécie de “fantasma decente” a olhar pelo buraco da fechadura alheia (mineiro é quase sempre um refém patológico da timidez e discrição). Mas o texto me tocou e achei que era hora de dizer. Belo. Verdadeiro. Também me vi nele, embora por outras razões. Everything’s gonna be alright… We’re all the same…

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