Aventuras automobilísticas cotidianas

O feriado tinha tudo para ser chato. Luiz viajando, tempo chuvoso, enfim, nada muito promissor.

 

Felizmente, tenho amigas! Aliás, por coincidência, o marido de duas delas também estavam viajando. Assim que vira e mexe a gente arrumava alguma coisa para fazer, nem que fosse simplesmente colocar o nariz na rua e cheirar um pouco de ar fresco.

 

Muito bem, uma amiga resolveu marcar um almoço da mulherada na sexta-feira passada. Essa amiga mora fora do centro de Madri. É possível chegar de trem/metrô, mas, para ser sincera, tenho muita preguiça.

 

Daí, aproveitando que estou nessa fase automobilística e que havia um carro dando sopa na garagem, resolvi me arriscar. Coloquei como objetivo: vou para o almoço dirigindo!

 

Ainda me perguntaram, mas você vai dirigir? Não vai poder beber! Tudo bem, não me importava. Eu queria porque queria tirar esse ranço e me provar que, se realmente quisesse, podia ser uma pessoa motorizada outra vez.

 

Pequeno detalhe, Luiz deixou o carro só com ¼ de combustível. Segundo ele, isso dava para uns 200 km, mas acontece que, além de poder ser exagero da parte dele, não queria ficar preocupada caso me perdesse. E decidi também que ia aprender a abastecer o carro.

 

Porque para quem não sabe, esse negócio de frentista que abastece e faz tudo para você e ficamos sentadinhas lindas e maravilhosas dentro do carro é coisa de brasileiro. Aqui e em boa parte da Europa e EUA, quem abastece seu carro é você mesma.

 

Não é que seja algo complicado. Mas eu detesto! Fiz uma única vez nos EUA, para saber como era e aqui nunca! Claro que estava com o Luiz algumas vezes quando ele abastecia, mas nem me tocava.

 

Muito bem, três amigas que moram perto de mim e iam também nesse almoço, me pediram carona. Eu avisei, galera, dou carona com a maior boa vontade, mas aviso que não sei abastecer. Alguém sabe?

 

Todas disseram que sim. Eu pensando, devem saber igual a mim… uma delas nem tem carteira! Mas tudo bem, o importante é ter apoio moral! E mulher é muito solidária, a gente pode não ter idéia de como fazer alguma coisa, mas não deixamos uma amiga sozinha na mão, pagamos mico todas juntas tentando descobrir uma solução!

 

Então, tá, né? Nos encontramos as quatro, cheias de bolsas com comida e bebida, a maior farofa, e fomos para a garagem buscar o bendito carro. Como é um estacionamento público, nós temos uma chave específica para o elevador abrir no andar das vagas para residentes. Entramos no elevador mínimo, como de costume, com aquele monte de bolsas e eu fingindo que sabia o que estava fazendo. Coloco a chave do jeito que Luiz costuma fazer e o elevador desce. Mas quando chega no andar, nada de abrir. Ficamos presas!

 

Putz grila, ninguém merece! O elevador vai enguiçar logo agora?

 

Como não abria, tentei então apertar um andar acima e ver se a gente conseguia ir pela escada. No início deu certo, o elevador subiu e a porta abriu. Saímos todas correndo com medo dele fechar outra vez.

 

Lá fomos para a escada. Coloco a tal da chave e nada dela funcionar. Dedução de alguém: deve haver algum problema para descer, melhor avisar a manutenção!

 

Depois, contando ao Luiz, ele me disse que a chave está mesmo com mau contato e às vezes tem que balançar um pouco. Mas nesse momento, não tinha essa informação.

 

Espera, acho que o elevador podia estar com excesso de peso, também demorou a abrir no andar superior. Tento descer sozinha, se ficar presa eu grito e vocês chamam alguém. E se conseguir saltar no andar correto, pego vocês já na rua.

 

Sozinha o elevador funcionou normalmente e consegui saltar. Berrei do andar de baixo que havia conseguido, mas não tinha certeza se haviam me escutado. Tentei telefonar, mas não tinha cobertura na garagem.

 

Caraca, essa novela toda e eu nem cheguei na vaga ainda!

 

Mas não estava nervosa, só achando engraçado. Entrei no carro e comecei a colocar o endereço no GPS, aliás, a primeira vez que fazia isso sozinha, sem Luiz dando pitaco do meu lado. Prestando uma atenção danada e torcendo para aquilo funcionar, porque as meninas já me esperavam do lado de fora.

 

Funcionou.

 

Subi e lá estavam elas… e aquele monte de sacola de comida! Eu estava acostumada a dirigir carros normais. Esse do Luiz é cheio de nove horas e tem coisas que nem sei usar! Resulta que nos bancos, inclusive nos de trás, há um sensor de peso que apita se alguém estiver sem cinto. Com as bolsas e casacos no banco, o diabo do carro interpretou que havia alguém sentado sem cinto e cadê que parava de apitar!

 

Saímos as quatro com aquele carro apitando e as duas de trás mudando cinto de buraco, colocando as sacolas no colo e nada! Podíamos haver simplesmente colocado o cinto sem ninguém, provavelmente pararia de apitar, mas não tivemos essa idéia na hora.

 

Tudo bem, porque o posto de gasolina era perto e pensei, quando o carro parar, a gente ajeita as bolsas e ele vai parar de apitar.

 

Paramos no posto e saltaram as quatro mulheres! Ninguém tinha muita certeza do que fazer, mas como disse antes, mulheres são solidárias. Foi quando percebi que havia parado do lado oposto da bomba de combustível. Pergunto para a que parecia saber mais, tenho que mudar de lado ou a mangueira alcança aqui? Ela bastante segura: muda de lado!

 

Então, deixa eu tirar o carro outra vez!

 

Nisso, escuto uma voz dos céus me perguntando que combustível usava. Olho para o lado e vem um cidadão uniformizado com a mangueira da gasolina na mão! É uma raridade, mas não é que parei justamente em um posto que tinha frentista!

 

As três amigas quase decepcionadas, porque todo mundo queria levar o mérito de ajudar e colocar a gasolina, aliás, diesel. Mas a verdade é que foi uma mão na roda e morremos de rir da história.

 

Não precisei trocar o carro de lado e já decidi que posso morar na outra ponta da cidade, mas só vou abastecer nesse posto agora! Imagina, um frentista, o máximo do luxo!

 

Nos arrumamos no carro,  ele parou de apitar, tínhamos o tanque cheio e o GPS funcionando. Beleza!

 

O resto do caminho foi bem tranquilo, pelo menos para mim e acho que para elas também. Sem grandes incidentes e achei uma vaga fácil perto da entrada.

 

O almoço foi uma delícia. Quando era mais nova, não gostava muito desse negócio de dividir os grupos entre homens e mulheres. Na verdade, até hoje não gosto de festa assim, prefiro misturado. Acontece que, às vezes, não tem nada melhor do que se juntar com a mulherada e ficar à vontade para falar nossas besteiras. Assim que hoje em dia, adoro uma reunião de luluzinhas!

 

Na volta para casa, viemos só em três meninas. Coloquei o GPS, agora já tinha aprendido e me sentia mais segura. Quando estava quase chegando, me ocorreu que deveria deixar minha amiga em casa, ela não morava tão longe e para outra amiga era uma linha de metrô melhor.

 

Perguntei se ela sabia o caminho, ela disse que sim, mas fiquei meio na dúvida. Quando a gente não está dirigindo, a gente sabe as direções, mas é muito fácil perder uma entrada. E com esse negócio de seguir os navegadores, a gente sabe cada vez menos os caminhos de memória.

 

Quer saber, vou mudar o endereço no GPS. Mas precisava fazer isso com o carro em movimento. O Luiz faz sempre, mas me parecia algo complicado e morro de medo de me distrair e provocar um acidente. Consegui parar em um santo sinal fechado e mudei o endereço rapidinho. As duas co-pilotas ficaram me sacaneando e apoiando ao mesmo tempo, dizendo que estava arrasando!

 

E quer saber, sei que era uma besteira, mas me senti poderosa!

 

Deixei as duas e coloco o navegador para voltar para casa sozinha. Ele me dá um caminho estranho. Encostei o carro e fui rever o endereço. Me dei conta que agora havia 3 entradas salvas como endereço da minha casa, e um desses endereços era o da amiga que acabara de deixar.

 

Ops! Que raios fiz aqui? Deixa eu corrigir logo esse negócio e ficar bem quietinha quando Luiz chegar. Bom, até consegui corrigir, mas não aguentei ficar quieta e acabei contando da mancada que nem sei como fiz.

 

O importante é o seguinte, resumo da ópera, saí de casa, me acertei com o GPS, abasteci e voltei sã e salva! E isso com um carro cheio de mulheres falantes e sem querer perder o assunto! As mancadas foram a melhor parte e não atrapalharam nada. Ou seja, 100% de efetividade!

 

No sábado à noite, reunião pequena na casa de amigos de última hora. E aí, vou de carro ou bebo? Sinto muito, mas sabadão e podendo tomar uma cachacinha… vou dirigir nada! Já me provei!

 

O problema é que acabei dormindo umas quatro da matina, compartilhando com minha companheira de cachaça praticamente toda uma garrafa. Verdade que era boa cachaça, tomando bastante água e comendo. Mesmo assim, o dia seguinte merecia dormir até à tarde.

 

Acontece que Luiz chegava no domingo pela manhã. E, além da saudade, eu estava doida para buscá-lo de carro. Seria a coroação da minha semana motorizada.

 

Por via das dúvidas, combinei com ele que mandaria um SMS logo cedo, dizendo se ia realmente ao aeroporto ou se não tinha condições de levantar.

 

Claro que a maioria dos amigos apostou que enviaria o SMS e só acordaria quando ele aparecesse na porta de casa. Mas eu sabia que isso não ia acontecer. Ou melhor, só se eu estivesse praticamente em coma!

 

Domingão e às oito da matina eu já estava acordada. Fiquei enrolando na cama até umas 10:30h. Levantei e o mundo  não girava. Só estava com sono, mas muito bem. É verdade que ainda sentia o gosto da cachaça na boca. Fiquei torcendo para não haver algum controle com bafômetro no meio do caminho! Tomei um café com cafeína, coisa raríssima, mas nesse caso era justificado.

 

Passei a mensagem avisando que estava saindo de casa para o aeroporto. Fui para garagem, nenhum problema com a chave, nenhum problema com o GPS, nenhum problema com o caminho. Conforme prometido, lá estava no desembarque na hora correta.

 

Na verdade, meu chip de motorista foi finalmente religado e posso dizer que daqui para frente, voltou a ser algo normal.

 

Mas bem que gostei desse momento de voltar a dirigir sozinha, deu um ar de aventura a um ato que já foi parte da minha vida cotidiana. É sempre gostoso quando a gente consegue ter um novo olhar sobre qualquer tema.

 

Enfim, prova superada! Alguém quer uma carona aí?

8 comentários em “Aventuras automobilísticas cotidianas”

  1. Voce se redescobrindo como “motora” e eu tentando tirar animo pra encarar uma auto escola pela primeira vez 🙂
    Como vc comentou no outro post, a vida aì em termos de locomoçao é tao facil, cheio de opçoes de transportes que funcionam bem que a gente, FELIZMENTE, acaba nao sendo tao dependente das 4 rodas.
    A carona nao vai dar, mas um pouco dessa energia boa e força de vontade pode mandar pra mim, ta?! 😛
    Bjinhos!

  2. Oi, Tati! No Brasil não tem jeito, tem que tirar a carteira de qualquer maneira… rsrsrs É meio chato no início, mas logo você pega e faz muita diferença no seu dia a dia. Ânimo! Quanto mais rápido você começar, mais rápido resolve! Imagina todo dia levando e buscando o pequeno no colégio de busão… 😛 Besitos

  3. Querida Bianca,
    Já que estás motorizada e já sabes abastecer o coche,aproveite um fim de semana sem movida e dê um pulo no Couto Mixto. Pra você é pertinho e vais conhecer um lugar maravilhoso.
    Beijo grande,
    Luiz Paulo

  4. Olha quem apareceu! Oi, peregrino sumido! 🙂 O difícil é achar um fim de semana sem movida…rsrsrs… mas fica a boa sugestão, se formos lá, te conto. Besitos

  5. Hello Bianca,

    Estou farta de rir com a tua história, caso venhas passear pelas minhas bandas (Lisboa), ofereço-me para te ajudar 😉
    Beijos
    Andreia

  6. Oi, Andreia! Adoro Lisboa 🙂 Se for pelas suas bandas, pode deixar que te aviso! E se vier pelas minhas, seja bem vinda! Besitos

  7. Bianca já tentei convencer minha mulher a dirigir, mas o caso é complicado, não gosto que dependa de ninguém, ela tirou carteira aos 18 e dirigiu só uma vez, já tem mais de 10 anos de carteira, cheguei até a cogitar trocar o carro por um hatch, pq perua é um pouco complicado pra manobrar, principalmente aqui onde tem muita tua de mão dupla onde passa só um carro. Parabéns sei como é difícil, eu passei por isso, fiquei 6 anos sem dirigir e resolvi tirar carteira aqui, mão inglesa e tudo diferente, morria de medo de bater e machucar alguém, pode parecer uma coisa boba, mas sei o valor disso principalmente por já ter conseguido driblar o medo e a insegurança, só quem viveu isso consegue medir a importância duma conquista dessas, abraço.

  8. Oi, Fernando! Pois é, mão inglesa tem que ter coragem mesmo… rsrsrs… parabéns! Bom, se sua mulher não quer dirigir… paciência! A verdade é que na Europa, de maneira geral, não faz tanta diferença como no Brasil. Acho que enquanto não rola uma necessidade, fica faltando motivação para ir atrás disso. Para ser honesta, continuo sem grandes vontades de dirigir, mas gostei de tirar esse ranço e saber que agora se não dirigir é só porque não quero, mas se precisar, eu posso.

    Por curiosidade, quando conheci meu marido (em mil novecentos e antigamente) ele dirigia, mas quase todos os amigos homens dele não. Eu nunca tinha conhecido tanta gente e principalmente sendo homens que não tinham o menor interesse em dirigir! Não digo por sexismo, mas é que em geral os homens gostam de carro, é um atributo importante quando se começa a namorar, morando no Rio de Janeiro e tal… rsrs… e eles não davam a mínima!

    Assim, que sua esposa não é um bicho raro 🙂 E na Europa, como disse, é super comum. Aqui conheço um monte de gente que não tem nem carteira.

    E a propósito, eu sempre gostei de carro grande. Fico claustrofóbica em carro pequenininho.. rsrs…

    Besitos

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