Sobre evoluir

 

Ontem Luiz viajou para o Rio, foi ver os pais. Não pude viajar junto, foi tudo decidido meio em cima da hora. Achei importante ele ir, mesmo sozinho. Os pais estão idosos e estavam precisando desse apoio agora, tem coisas que não devemos adiar. Cada vez mais tomo consciência da passagem do tempo e de suas consequências.

 

E no fundo, eu sabia que precisava ficar um pouco sem ele. Algumas decisões precisavam ser tomadas com a perspectiva que só a distância pode te dar. Não quero com isso assustar ninguém, nosso casamento vai muito bem, obrigada. Mas em períodos de reconstrução pessoal, há momentos que preciso não me ver no seu olhar para ter certeza que fui honesta comigo mesma.

 

Ontem eu precisava do dia que tive.

 

Acordamos cedo, seu avião saía ao meio dia. Decidi que ia levá-lo de carro. O que há alguns anos atrás seria um detalhe bastante óbvio e sem importância, mas lembro que desde que vim para Espanha praticamente não dirijo. Os primeiros cinco anos não tinha carteira de motorista espanhola, há dois tenho a carteira, mas baixo interesse. No ano passado, com a possibilidade de gravidez, foi uma motivação para começar a pegar o carro novamente. Além do fato de não beber em vários encontros e, com isso, deixar Luiz tranquilo para aproveitar um pouco. A gente nunca bebe e dirige. Pois muito bem, há mais ou menos um mês, quando ele foi internado meio que de surpresa, me vi dirigindo um automóvel sozinha, pela primeira vez, após mais de sete anos morando em Madri.

 

Foi uma distância curta e em que conhecia o trajeto para casa, mas serviu para romper o paradigma. Isso também me fez pensar que tendo ou não um filho, poderia ser importante que eu estivesse pronta para conduzir, se necessário.

 

Aos 18 anos, tirar a carteira para mim era uma necessidade, um ato de independência. Quando cheguei a Madri, isso se inverteu, liberdade era poder viver e ver o mundo sem o filtro de um para-brisas (que já não sei se escreve assim).

 

Nos últimos tempos, conduzir voltou a representar independência. Acho que no fundo, tinha um pensamento meio inconsciente de que minha estada por essas bandas era passageira, então, não precisava aprender os caminhos, aprender a abastecer… enfim, aprender coisas que não utilizaria no futuro. Chegou a hora de assumir de uma vez que aqui é minha casa, não importa por quanto tempo, sou espanhola também. Sou uma mulher adulta e devo retomar algumas rédeas que deixei frouxas por comodidade ou para não me frustrar.

 

Portanto, voltar ontem dirigindo sozinha para casa, sem a menor possibilidade de um resgate do Luiz, foi um passo importante e simbólico. E eu gostei.

 

Durante o dia, fiquei hibernando e enrolando pela internet. Há alguns anos reencontrei vários amigos do tempo de colégio, mas ameaçávamos perder o contato novamente. Daí, de repente, começamos a nos achar pelo Facebook, criamos um grupo e estamos tentando nos organizar para fazer um encontro de 30 anos de formados (8ª. Série) em 2013. Isso tem me ocupado os últimos dias e me trazido boas lembranças. E esse contraste da infância e adolescência tem novamente me feito lembrar que sou adulta.

 

Também fiquei botando pilha nas pessoas por aqui para ver quem se animava a sair à noite, apesar da preguiça e do dia chuvoso. Fiquei sabendo de um concerto de amigos que adoro ouvir e ainda por cima era muito perto de casa. Quer saber, se ninguém for, vou sozinha mesmo! Madri é uma província e a gente sempre encontra alguém conhecido pela rua e, se não encontrar, não é difícil conhecer gente nova.

 

Mas não precisei ir sozinha, acabei indo com mais duas amigas e encontrei outra pelo show. Conhecia os músicos, é lógico, mas eles estavam ocupados.

 

Achei o lugar bacaninha, o nome é meio suspeito, chama Ne Me Quitte Pas, parece nome de bordel, né? Mas é uma creperia com jeitão de cabaret francês bastante simpática. Conheci a dona, jovem e animada, e quem sabe fazemos alguma festa por lá algum dia.

 

Bom, acabou o concerto e seguimos à noite, afinal, em Madri nunca se vai a um lugar só. Fomos para o El Junco, onde o marido de uma das amigas estava tocando. Mas quando chegamos lá o show tinha acabado, eles já estavam retirando os instrumentos e sem vontade de seguir por ali.

 

Então, vamos para outro lugar. Mas que lugar?

 

Quer saber, estamos ao lado da minha casa, se o problema é achar algum lugar para sentar, conversar e tomar alguma coisa… E assim, acabou rolando uma festinha improvisada aqui. Dessa vez, fui até ajuizada e não convidei os estranhos da rua.

 

Na verdade, foi bem tranquilo e agradável, estávamos em nove pessoas. Ficamos aqui jogando conversa fora, fiz umas comidinhas e quando nos demos conta era umas cinco e meia da matina.

 

Mas o mais importante para mim é que acho que precisava desses momentos ontem. Queria pensar em outros assuntos, relaxar, falar e, o principal, ouvi algo que me fez lembrar de um sonho antigo. E lembrá-lo me virou do avesso, ainda que não tenha dito nada. Sabia que essa era uma história para pensar quando todos fossem embora.

 

Há alguns anos, tive um sonho que me foi bastante marcante. De tempos em tempos eu lembro dele e, às vezes, dependendo do momento que esteja passando, ele ganha novas interpretações.

 

Estava em um salão enorme, com um pé direito muito alto. Comecei a me sentir angustiada e vi entrar um senhor oriental muito velho, desses com bigode chinês caindo pela lateral da boca, em traje característico, imponente, montado em um burro. Vinha em minha direção. Ele entrava pela única porta desse salão, de maneira que eu não tinha uma saída, não tinha como fugir. Então, dissimulei que não estava preocupada, porque sabia que se ele percebesse que eu tinha medo, estaria em maus lençóis. Quando ele chegou bem perto, me arrepiei e a sensação de angústia era mais forte. Ele me perguntou: você sabe quem eu sou? Não tinha outra opção a não ser encará-lo. E, de repente, senti que tinha coragem, ele já não parecia tão velho, passei a mão no seu rosto com certo carinho e respondi: eu sem quem você é, você é o demônio. No exato momento que terminei de dizer isso, ele gritou de raiva e eu recuperei minha capacidade de voar. Voando já não tinha mais medo, pois sabia que ele não me alcançaria. Como se meu ganho de força o enfraquecesse.

 

Acordei sem saber se era um sonho ou pesadêlo. Mas tinha certeza que era uma mensagem importante.

 

Abro um parênteses para lembrar que não tenho fé, coisa que não considero nenhum mérito, pelo contrário. Aliás, algo que conversamos ontem, queria ter fé, mas isso não se falsifica. Entretanto, quero dizer que existe uma única vantagem em não acreditar em Deus, e é o fato de não fazer nenhum sentido acreditar no seu opositor. Portanto, ao perder a fé, também perdi a crença e o medo do diabo. Porque um não existe sem o outro. Acredito em bem e mal, mas não atribuo nenhum poder sobrenatural a eles.

 

Por isso, ressalto que não há nada de religioso no sonho que contei. Todas as figuras e diálogos são simbologias.

 

Sou humana e também temo “meus demônios”. Também quero que me afastem o cálice. Acontece que em alguns momentos não tenho outra opção que não seja confrontá-los. De perto, eles são menos assustadores, ganho coragem. Ao ganhar coragem, acredito que posso. E ao acreditar, tenho poderes, tenho saída, tenho alternativa. Não acaricio o rosto do demônio por carinho, mas por perdão, ele não escolheu ser o que é. E o perdão deixa qualquer um incrivelmente forte.

 

É no momento em que pronuncio o nome do demônio que realizo a coragem, pois concretizo a ideia, me expresso. E comigo funciona assim, preciso dizer ou principalmente escrever para concretizar as ideias. Elas deixam de ser abstratas. Só posso confrontar o que existe. Contar me libera. Faz as coisas voltarem ao seu real tamanho.

 

E ontem, quando meus amigos se foram, sabia que tinha um encontro marcado com um demônio. Eu preciso falar seu nome, portanto vou contar.

 

Ontem consegui dizer algumas vezes que estou cansada de tentar engravidar. Eu precisava me ouvir falando isso. Eu preciso escrever que não aguento mais tomar hormônios, não aguento mais ter uma tentativa de gravidez como prioridade absoluta na minha vida, não aguento mais fazer ecografias, não aguento mais me sentir inchada, não aguento mais perceber que meus cistos se desenvolvem, não aguento mais lavar minha cabeça e terminar com a mão cheia de cabelos, estou chata, monotemática e muitas vezes triste. Esse é o meu limite. Hasta aquí hemos llegado! Preciso seguir.

 

Se não estiver grávida agora, e acho que não estou, tomo hormônios até o próximo mês e chega. Eu precisava de uma data para isso acabar e agora eu a tenho.

 

Isso não impedirá que uma gravidez venha, se tiver que vir, mas tudo que estava ao meu alcance eu já fiz. Não me sinto fraca, nem culpada e muito menos arrependida.

 

Preciso contar também o lado bonito dessa história e o porquê de não me arrepender. Eu aprendi de verdade que mais importante não é a chegada, é o caminho. E, apesar dos pesares, eu gostei de trilhar esses últimos meses.

 

Há alguns anos atrás, quando fiz pela primeira vez o Caminho de Santiago, cheguei na última etapa com uma pergunta me atormentando. Foi no Monte do Gozo que precisei de uns minutos sozinha para me perguntar com toda sinceridade se eu realmente queria ser mãe. A minha resposta naquele momento foi: não.

 

E eu sofri por isso. Não pela decisão em si, mas por não ter sido capaz de me converter na pessoa que gostaria. Nem toda consciência de quem você é na realidade é agradável.

 

Eu queria ser uma pessoa melhor. Não acho que a maternidade seja o único caminho para isso, mas ali  poderia ser um dos caminhos e eu decidi não seguir por ele.

 

Ano passado eu mudei de ideia e resolvi comprar essa briga. E no meio de toda essa confusão, de altos e baixos e tudo mais, houve um período que eu engravidei de verdade. Não era abstrato, eu ouvi um coração e por um pouquinho eu fui mãe.

 

As mães sempre falam sobre a experiência de amar um filho. Eu acreditava nelas, ainda que esse amor não me fizesse falta, afinal, ninguém sente falta do que não conhece. E sobretudo, existem muitas formas de amor. Não acho que haja um amor menor que outro, porque essa comparação por princípio seria absurda.

 

O que importa é que tive o privilégio de por algum tempo provar o amor que sente uma mãe. A intensidade com que isso te tira o chão e o poder que você desenvolve através dele. A sensação foi inesquecível e esse tempo me valeu uma vida. Independente do resultado final dessa história, esse caminho finalmente me converteu em uma pessoa melhor.

 

Antes de dormir, recorri às minhas bruxas e acendi uma vela para cada avó. Às vezes, faço isso para me sentir protegida e também me sinto menos louca do que falando sozinha. E foi alentador acordar hoje e ver que as velas permaneciam acesas. Algo como, tranquila, seguimos aqui no caminho em que você estiver.

 

Chorei o que tinha para chorar ontem e nem acho que foi por tristeza. Foi mais para limpar o que sobrava de dor e deixar só o que me faz bem. Acordei hoje com essa consciência. Ainda estou um pouco sensível, mas absolutamente em paz, aprendi a lição que eu precisava desse ciclo.

 

E agora que já disse seu nome, posso novamente voar.

12 comentários em “Sobre evoluir”

  1. Queridaaa, mesmo de longe sempre bom poder acompanhar tuas experiências.. teus momentos tuas palavras!
    Logo tentamos conversar com calma…
    Beijos com saudade da amiga elfa…
    Força e animo todos os dias!
    Fer

  2. A capacidade que voce tem de se mostrar e de lutar com seus demonios é simplesmente fantastica. Agradeço ao meu Deus e ao universo por ter colocado voces no nosso caminho. E outro ciclo começa, mais uma Bianca que recupera suas asas e anda pelo mundo com a proteçao de duas mulheres importantissimas. O nome já diz tudo. Quer coisa mais forte que proteção de AVÓ? É isso ai chica, recomeçar é sempre duro mas também é sempre uma nova Vida! Um beijo enorme. Didis.

  3. Bianca, adoro a forma como vc escreve, e desenvolve suas idéias e sentimentos. Muita LUZ na sua vida…bacio

  4. Bianca, você é especial. Tem muitos talentos… Me emociona, me faz te admirar por sua coragem! Bjssss….

  5. ADOREEEEEIII!!! hahaaa… “en algun momento hay que echarse uevos”!!! rs.
    Na realidade essa é a Bianca que conhecemos e adoramos… “lovely”, rsrs. Super beijo!

  6. Oi filha amada, quando conversei com você hoje ao telefone senti que não estava tudo bem, que sua voz era de choro e comentei com seu pai. Me sinto um pouco impotente por não poder estar com voce o tempo todo e não conseguir escrever o que realmente sinto. Sinto vontade de ficar ao seu lado com sua cabeça encostada no meu ombro e no silencio ouvir apenas nossos corações. Penso em você o tempo todo e peço ao meu Deus que lhe proteja e que aconteça o que for o melhor.
    Muitos beijos,
    Eu te amo

  7. Bibi, momentos fortes, profundos…

    Todos nos temos nossos demônios e as vezes precisamos exorciza-los. Estou por aqui, estou com você. Beijo grande!

  8. OI Bianca sou Antonia, sabe tem coisas que nao sei nao so sei que foi assim, como no filme, as vezes queremos e queremos e tentamos e nao sai, e quando deixamos de tentar sai naturalmente, em magia chamammos fazer sem fazer, e as vezes o deixar passar, faz com que tudo se acalme que se feche um ciclo de ansiedade por um de uma profunda paz.
    Talvez o que esteja te fazendo falta nem seja uma gravidez e sim essa profunda paz, o fim talvez de uma busca de um inexistente demonio interior, bem com o tempo se vera qual caminho tomar.
    E o nome do bar è o de uma famosa musica francesa dos 60 .
    Um beijo

  9. Fénix , concordo plenamente com as tuas palavras “que mais importante não é a chegada, é o caminho”. Já faz um tempo que mudei o chip, eu planejava muito, por ser perfeccionista muitas vezes era frustrante. A partir do momento que eu parei de planejar e pensar no amanha, a minha vida mudou pra melhor. Hoje sou mais feliz, graças a Deus. Vivo o hoje, o presente, porque amanha e um outro dia. Fica bem, um abraço TRIFORTE!!! Besitos

  10. Olá Bianca,

    Compreendo-te perfeitamente, tal como tu, também estou a tentar ter bébé, e a sensação que tenho é que quando podemos não queremos e quando queremos torna-se mil vezes mais difici (principalmente por causa da idade).
    Mas acredito que o que tiver que ser será, e se não colocarmos toda a possibilidade de ser feliz num único objectivo, poderemos ser muito FELIZES com ou sem filhos.
    Adoro ler o teu blog porque és uma pessoa muito equilibrada e com muito bom senso 😉
    Beijos
    Andreia

  11. Bianca, achei engraçado vc dizer que não tem fé. Na verdade quando vc fez o tratamento, teve fé que fosse dar certo. E ainda tem fé que a gravidez (natural) aconteça. A fé faz parte da vida. Eu creio em Deus sim e a fé nele é o que me faz feliz. A vida é permitida por Deus, por isso, para eu engravidar, Deus tem que permitir… Eu creio que vc vai conseguir. Peça a Deus esse milagre, para que com isso vc tenha a prova de que Ele existe. (Desculpe a invasão… rsrsrs…) bjos

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