Campanha: Vamos acabar com a filmagem merda de shows?

Pois é, ficou feio o título não é mesmo? Também acho. Mas sabe o que é mais feio? Você ir assistir a um show ao vivo, aturar aquele apertamento todo e justo na hora de assistir seus ídolos… dar de cara com um celular alheio no seu nariz! Pior, é aquele mar de celulares fechando a visão!

 

E tudo para que? Para conseguir uma foto merda ou um filme merda! A foto merda, tudo bem, porque pelo menos é rápido, ainda que você fique com aquele borrão de imagem que só você sabe quem era o artista que foi ver. Mas a filmagem merda fica aquele festival de sovacos suspensos irritantemente por horas! Ou seja, além de atrapalhar visualmente, pode acreditar que no verão europeu também contribui para a poluição do ar!

 

Fala sério, a pessoa nem aproveita o show! Você está ali, com tudo que a banda poderia te oferecer de melhor e fica assistindo por um retangulozinho ridículo?

 

Admito, eu já fiz isso! Pouco, mas fiz, pequei! Mas de agora em diante, me prometo tentar não fazê-lo mais, porque é muito, mas muito chato! E nem adianta dizer que é para guardar de lembrança, porque ninguém fica assistindo aquela porcaria depois. Você está prorrogando um momento falso, porque não estava aproveitando, cantando ou dançando, simplesmente estava preocupado com o melhor ângulo para sua câmera! Aproveitem a porcaria do show! Está ali, na sua frente e é agora!

 

E o pessoal que fica batendo papo no telefone, hein? Idéia brilhante: a outra pessoa ouvir aquele som completamente distorcido, que não dá para entender nada do outro lado, e fazer de conta que foi uma maneira de estar presente. Fala sério, deixa de ser mão de vaca e paga a porcaria do ingresso ou compra o CD, a banda também tem que comer! E você, que sim pagou seu ingresso, tem que ficar aturando aquele zum zum zum que não te interessa, ao invés de ouvir a música que você adora!

 

Ok, estou um pouco ranzinza, mas essas coisas me deixam de mau humor. Acho que já era hora de se estabelecer um código de ética para se assistir a shows. Não precisa ser tão militar, mas algo de educação seria mais do que bem vindo.

 

Acho que essa é uma das piores conseqüências geradas pela popularização da tecnologia. No caso das câmeras e celulares, na esperança de prorrogar um momento determinado, você paradoxalmente passa o tempo que deveria estar aproveitando esse exato momento registrando-o. As pessoas se habituaram a assistir o mundo através da tela de um computador, de um ipad ou de um telefone. Na hora que tem bem na sua frente o seu objeto real de desejo, não se importam em colocar um intermediário tecnológico filtrando essa cena.

 

Será que as pessoas se desacostumaram a ver gente de verdade? Será que virtual e real se misturaram de vez?

Esos días de verano…

Bom, não demorou muito e voltamos ao nosso dia a dia madrileño. Na verdade, não demorou nada. Cheguei em uma quarta-feira e na sexta já havia um jantar na casa de um casal de amigos marcado. Até bom, porque a gente sempre chega com a casa meio careca, né?

Tinha chegado com a esperança de segurar um pouco a onda, afinal, de férias a gente chuta alguns baldes. Mas já desisti desse plano idiota, as oportunidades vão aparecendo, melhor aproveitar. O jantar foi ótimo, entramos pela madrugada e já voltei logo ao ritmo da cidade.

Depois vem todo aquele glamour da volta de viagem, que inclui roupa para lavar, casa para limpar, compras para fazer… enfim, pacote completo. Até que dessa vez, o apartamento estava limpinho, me deu menos trabalho chegar.

Jack, nosso felino, estava aquele docinho e todo grudento. Animais amam rotina! Por mais que ele seja acostumado com mudanças, se sente seguro e feliz em sentir que sua vida e seus horários voltaram ao “normal”. Mas estava bem, tem se comportado direitinho com sua cuidadora oficial, acho que está mais acostumado com ela também.

Aqui está um calor do cão! Ainda que alguns dias até que estão agradáveis, principalmente, para quem tem ar condicionado. Mas não reclamo, mesmo com calor, o astral do verão é outro. A cidade fica mais feliz e a iluminação enche a gente de energia.

Enjoei de fazer dieta, me bateu os cinco minutos do cansei, chega! Tirando os fins de semana, até tento não exagerar, mas voltei desesperada para esquentar meu umbigo no fogão, testar receitas novas… cozinhar!

Há umas duas semanas, teve uma festa junina, ou melhor, julhina, na Casa do Brasil. Por ali, estava conversando com uma amiga e um amigo e resolvemos fazer um almoço a seis mãos. Tudo bem que havia uma certa empolgação etílica, mas juntou a fome com a vontade de comer e marcamos no calor do momento mesmo.

Ficou para esse último sábado. O problema era o seguinte, o prato principal decidido foi gnocchi caseiro, sim, aquele feito literalmente um a um!  Então, sinto muito, mas precisa ser para petit comitê ou não vai funcionar. Depois, andava de saco cheio de comer em prato de plástico! Quando vem muita gente, não há alternativa, precisamos de acessórios descartáveis. Quebram um galhão, mas entre nós, simplesmente odeio plástico!

Beleza, pessoal, então quem estava por ali no dia foi convidado. Uma amiga estava fazendo aniversário e aproveitamos o excelente pretexto para dar uma caprichada maior. Não nego que sofri a tentação de chamar mais gente… a aniversariante estava agoniada de ser cobrada por não chamar outros amigos queridos… quer saber, paciência! Encerrei a lista na marra mesmo e relaxei.

Tirei do armário minha porcelana limoges, os talheres de prata, copos de cristal e guardanapos de tecido! Ai, como gosto disso! Que saudade de um almoço como adultos!

Acabei de vez com o ranço que tenho de cozinhar com outras pessoas. Descobri que definitivamente, meu problema é só com quem não tem uma função na cozinha e tenta conversar para ser legal. Gente, na cozinha cabe quem está trabalhando, quem não está sobra! Atrapalha. Mas houve um momento em que éramos quatro pessoas (nós três cozinheiros e uma convidada que teve passe para ajudar) e tudo bem, porque cada um sabia o que fazer. O resto que papagaiava pelo recinto, era delicadamente (ou nem tanto) convidado a se retirar! Eu já nem disfarço mais, todos amigos mesmo, quando me perguntam se preciso de alguma coisa, respondo logo: sim, espaço!

Mas nem demorou muito ao pessoal entender que estávamos bem na nossa função culinária, melhor cada um relaxar e se divertir à sua maneira. Eu me divirto na cozinha, movida com uma boa taça (riedel) de vinho!

Também não ficamos o tempo todo cozinhando, foi mais enquanto um dos amigos fazia a salada, minha amiga e eu cortávamos e fazíamos o gnocchi. Ficou parecido a uma cozinha industrial, profissional mesmo. O resto estava encaminhado, era só finalizar na hora de servir.

O menu foi o seguinte, como aperitivos, ovos de codorna com maionese caseira de açafrão, antepasto de berinjela assada, bolinho de tapioca com queijo, frutos secos, queijos (manchego e de arzúa) e pães. Como entrada, uma salada verde divina com vinagrete de maracujá, escondidinho de bacalhoada e cuscus de frango. Prato principal, o gnocchi servido com dois molhos, o bolognesa clássico e de trufas brancas. Como segundo prato, as carnes, um Beef Wellington e um folhado de calabresa. Sobremesa, tarte tatin e bolo de chocolate (de aniversário). Toda uma orgia gastronômica que durou dàs 15h até uma da matina!

Agora me falta o mesmo ânimo para fazer ginástica e queimar tudo isso, viu? Ao pilates, já voltei. Vou com preguiça, mas vou. Mas a malhação enfurecida que estava antes de ir ao Brasil… putz, está difícil de voltar…

E no fundo, no fundo, como foi?

Muito bem, contei como foram as férias quanto aos acontecimentos, beleza. Mas e por dentro, digamos, psicologicamente falando, como foi? Ainda não tenho certeza, mas foi muito diferente das outras vezes.

Considerando que nossa papelada foi toda acertada por aqui, o Brasil, como qualquer país europeu, voltou para o ranking das possibilidades de novas mudanças. Na verdade, qualquer país do mundo, desde que eu possa trabalhar, mas no Brasil e na Europa estão as cidades mais viáveis.

Veja bem, que não se entenda que estamos de malas prontas, porque não estamos. Madri continua sendo nossa casa até segunda ordem. Tudo muito bem, tudo muito bom, só digo que já não precisamos mais obrigatoriamente estar aqui. Caso apareça oportunidade melhor, temos liberdade de escolha. Caso não apareça, seguimos e obrigada.

Mas o fato é que fui ao Brasil com o olhar de quem poderia voltar em breve e isso quer dizer que fui bem mais crítica e atenta. Foi confuso e ambíguo, como já esperava. Algumas coisas me davam vontade de voltar correndo e outras me provocavam rechaço. E porque não dizer, tive saudade de uma série de aspectos que vivemos por Madri e que acabamos por não valorizar tanto, afinal está logo ali.

Para mim, uma coisa ficou absolutamente clara, o que mais pesaria na decisão de ir (porque nunca se volta) para o Brasil é minha família, mais especificamente, meus pais e meu irmão. Não digo que não pesasse o restante da família e os amigos, também tem um peso considerável, mas não é o definitivo. Porque das outras pessoas sinto saudades, mas sei que minha presença física não é necessária, não afetaria significativamente a vida delas.

Principalmente as amizades, por mais profundas que sejam e exatamente as pessoas mais queridas, continuam amigas independente de onde a gente more. Nos encontrando com frequência ou não, sempre damos um jeito de manter o contato. Quando nos vemos ou nos falamos, é aquela sensação de que parece que foi ontem. E felizmente, temos grandes amigos onde quer que a gente more.

Em termos de qualidade de vida é difícil julgar. Tenho consciência que minhas exigências em relação a isso são muito diferentes do que as pessoas normais costumam esperar de uma vida tranquila. E Luiz é igual. A gente dá nosso jeito de ser feliz em quase qualquer lugar do mundo.

E o que mais pesa para ficar aqui? A segurança, a liberdade de caminhar pela rua sem armaduras de carros blindados. Viver sem o medo encarnado. Reclamo do lado provinciano madrileño, mas é bom sair pela noite sabendo que sempre encontrarei um rosto conhecido e se não encontrar, posso
simplesmente puxar papo com quem estiver ao lado.

Além do mais, chega a me impressionar o quanto mudou minha relação com o país depois que a nossa cidadania saiu. Como tudo do dia para noite passou a me aborrecer menos, me incomodar menos. E como foi boa a sensação de entrar na Espanha como cidadã européia. É uma fila de diferença, deveria ser só essa a diferença não? Mas não é, me senti parte de onde vivo e essa sensação é muito boa.

Continuo com certo espírito aventureiro, mas menos do que antes e menos do que Luiz. Quero a experiência, mas já não mais a qualquer custo. Entendi que não temos mais tanto tempo para apostar tudo e recomeçar, precisamos nos alavancar sobre o que já temos porque não vai demorar a chegar na curva descendente. O máximo que podemos fazer é adiar um pouco esse processo, mas ela vai chegar, chega para todos. Não quero uma velhice onde não possa escolher meus médicos, se é que alguém me entende. E sim, já comecei a pensar nisso, sem paranóias e sem pressa, já sei que ainda somos relativamente jovens e blá blá blá, mas é um fato. Temos mais uns quinze anos, no máximo, para garantir uma aposentadoria tranquila. Podemos trabalhar depois disso, mas o principal se alcançará nesse período.

Portanto, sendo curta e grossa, o que vai decidir nossos próximos passos de onde morar é o dinheiro. Simples assim. Calculista, né? Sinto muito por quem esperava algo mais poético e filosófico, mas é isso mesmo. Precisamos ter a cabeça fria e pesar os fatores com calma, mas financeiramente, precisa compensar e ponto final.

São Paulo – Rio de Janeiro – Madri

Pois muito bem, cheguei, vamos começar a por ordem no barraco, né?

 

Saí de Madri no dia 09 de junho, pousei antes das 5 da matina do dia 10, sexta-feira, em São Paulo e um casal de amigos foi me buscar no aeroporto. Pequeno detalhe, o trânsito já estava engarrafado nesse horário!

 

Não durmo absolutamente nada em avião, nunca! Independente do quão confortável seja a viagem, passo o tempo inteiro a postos. Mas sabendo do pouco tempo que teria na cidade, também não queria perder um minuto, portanto, mal tomei um banho e parti para a programação intensiva.

 

Almocei com a família paulista e passei a tarde com eles, emendei na minha cabeleireira favorita (afinal não corto cabelo aqui nem morta!) e à noite estava marcado de encontrar amigos no Kiaora. Um desses encontrões no atacado, porque no varejo não dou conta de encontrar quase ninguém! Foi divertido, apesar do lugar estar absolutamente lotado! Resultado, além de estar virada e com fuso de 5 horas de diferença, ainda saímos de lá pelas 3 ou 4 da manhã. Ainda bem que sou treinada nas selvagens noites madrileñas!

 

O dia seguinte não foi muito diferente, não acordamos tão tarde, almocei com a amiga onde estava hospedada e na saída do restaurante, encontrei uma outra amiga que não via há séculos, muito legal! Seguimos a tarde com uma passada no mercado para fazer umas comprinhas de última hora para a festa junina à noite, só para Diretoria. Foi nessa mesma casa onde estava hospedada que falei.

 

O encontro entrou pela madrugada novamente e nem sei como, mas não estava tão cansada como imaginei. Ou então, já tinha até passado de qualquer limite de cansaço, sei lá! A verdade é que queria aproveitar o tempo inteiro! Foi uma passagem relâmpago pela cidade, mas era assim ou nada e tenho muito carinho pelos amigos de lá.

 

No domingo, pela manhã, meu vôo saiu às 11 horas, direção Rio de Janeiro, cidade maravilhosa!  O que quer dizer que, novamente, não dormi muito. Meu irmão e minha mãe foram me buscar no aeroporto. Duas malonas para caber jamón, fuet, whisky, azeite… enfim, as encomendas de sempre!

 

Para quem está pensando que finalmente fui descansar, esquece! Passamos a tarde inteira de papo, uma prima foi lá para casa. E à noite, quando achei que tinha encerrado meu expediente, meu irmão me arrastou para a rua. Convite irrecusável: Academia da Cachaça! Tudo bem, mas vamos voltar cedo, né? Afinal amanhã é segunda-feira. Claro, claro…

 

Até tentamos encerrar cedo, mas indo embora, bem na saída, vejo alguém me chamando e vindo na minha direção! Não acredito! Um amigão com sua namorada e outro amigo dele, que por coincidência, conhecia meu irmão também. Bom, então vamos começar tudo outra vez!

 

Lá pela terceira saideira, meu irmão disse que precisava ir. Ok, por mim, tudo bem, vamos! Dentro do carro, já no caminho de casa, ele me pergunta: quer conhecer o Londra? Veja bem, macaco quer banana? Olha só, por mim, cansada, cansada e meia, eu não tenho que trabalhar amanhã. Então, só uma passadinha…

 

Sim, emendamos no Londra para uma dose cavalar de whisky, que me lembrou Madri. Ao lado, um chef de bar que puxou papo conosco em função do nome de um single malt. Nem sabia que existia essa profissão, chef de bar, mas achei legal. Tudo bem, mas agora a gente realmente precisa voltar para casa!

 

E como estavam as coisas em casa?

 

Meu pai está mais ou menos, assim, por um lado não está com nenhuma urgência, mas de uns meses para cá começou a ter um tipo de convulsão leve, mas que se não tiver apoio ou ajuda, cai no chão. E um tombo de um homem com 1,90m e 115Kg, não é mole! Como elas se tornaram muito freqüentes, praticamente todas as vezes em que ele se levantava, precisou de medicação. Daí, começou a tomar um remédio forte que aliviou essas convulsões, mas o deixou muito aéreo, distante e sem interesse por quase nada. Bom, entre ele ficar meio paradão ou ter convulsões, a primeira opção é menos pior, mas espero que a gente encontre alguma alternativa. Quero acreditar que é uma questão de ajuste e, realmente, seria muito bom que ele pudesse diminuir essa dosagem sem piores consequências.

 

De uma forma ou de outra, a vida segue e minha principal missão, digamos assim, dessa viagem era que minha mãe relaxasse um pouco e se alegrasse. Portanto, já cheguei colocando pilha para a gente comemorar seu aniversário com uma festa. Coisa que ela não estava nem um pouco afim, ou achou que não estivesse.

 

Comecei sugerindo que a gente fizesse então uma coisinha só para a família e fui perguntando aos primos e tias que estavam pelo Rio se eles topavam. Todo mundo gostou da idéia, mas nada da minha mãe se animar. E eu também não podia fazer uma festa à força na casa dela, né? Muito bem, se ela não quer…

 

Até que os mesmos primos e tias começaram a ligar lá para casa deles dizendo que dariam uma passadinha para dar um abraço nela no sábado. E vamos combinar, que ela não ia dizer para as pessoas não passarem, certo? Pois é, mãe, então, se eles vão dar uma passadinha, melhor ter algum lanche para oferecer, certo? Eu faço tudo, pode deixar!

 

Ela não disse exatamente que sim, mas também não disse que não. Assumi que era um sim de geminiana. Mas vamos abrir parênteses, porque ainda estávamos no começo da semana e a festa só seria no sábado.

 

Pois bem, na segunda e na terça-feira, aproveitei para ir a médico, resolver coisas e ficar com meus pais. Uma amiga que morou em Madri passou para me visitar e tivemos uma tarde de lulus tranqüila, boa para colocar os papos em dia. Na quarta, comecei a abrir agenda para encontrar os amigos e à noite escolhia algum bar por perto, publicava no facebook onde iria e quem pudesse aparecer era bem vindo.

 

Na quarta fomos ao Sindicato do Chopp e na quinta ao Joaquina. O mais interessante é que havia alguns amigos de São Paulo trabalhando pelo Rio e acabaram sendo os que mais encontrei pelas noites cariocas! Tinha o pessoal do Rio também e uma amiga que conheci na França e agora está pelas bandas brazucas. Enfim, foi bastante divertido, uma pena não conseguir escrever no mesmo dia que os encontros iam acontecendo, a gente perde um pouco o momento, mas tudo bem.

 

Na sexta-feira, minha mãe quis ir ao Clube do Leme para assistir uma banda que tocava por lá e, na cabeça dela, seria a comemoração do seu aniversário. Ela achou que com isso ia fugir da raia e eu esqueceria da festa do sábado. Imagina!

 

Na verdade, passei a sexta à tarde toda cozinhando. Fiz sanduíche de pernil desfiado, salpicão de frutos do mar, quibe e bolinho de bacalhoada. Obviamente, sob protestos que estava fazendo coisa demais! Afinal de contas, não vinha quase ninguém! Ahã… tá bom, como se não conhecesse…
minha mãe acabou achando melhor contratar um garçon, só para não ter que arrumar a cozinha depois e achei bom.

 

Ela ainda estava com uma empregada, um baixo astral daqueles que apelidei logo de a mulher-uruca! A uruca até ajudou um pouco a preparar as coisas, mas me restringi a deixá-la apenas cortar ingredientes e tocar o mínimo possível na comida e ainda assim, sob supervisão. Aliás, a mulher-uruca foi despedida na segunda-feira seguinte, para o alívio de todos!

 

Mas voltando a festinha que rolou no clube na sexta-feira à noite, a banda que tocou era mais para a coroada (como se eu não fosse), mas é o único lugar que meu pai ainda aguenta ir e onde vão boa parte dos seus amigos. Portanto, para mim estava valendo. Meu irmão e uma prima também foram e ainda convidei mais dois amigos de São Paulo que estavam perdidos pelo Rio e resolveram ficar para o fim de semana. Não é que eles também apareceram? No final das contas, apesar da banda, até que ficou animado. Nada que algumas garrafas de prosecco não resolvessem. Quando meu pai cansou, meu irmão e eu o levamos para casa, para dar uma folguinha para mamy e voltamos para a festa. Ela acabou animando a dançar, pulou, riu, a banda cantou os parabéns… enfim, foi bem divertido e achei que ela ficou feliz.

 

Pequeno intervalo para contar que o Luiz não se agüentou e acabou resolvendo ir ao Rio também, meio que de surpresa. Sua chegada seria no sábado, pelas 5 da matina.

 

Mas continuando, não me lembro exatamente que horas era, mas devia ser pela hora da Cinderela quando deixamos minha mãe em casa e meu irmão nos convidou para seguir pela noite no Londra. Fomos nós, minha prima e os dois amigos de São Paulo, que também são amigos do Luiz. Daí a gente decidiu que tentaria virar até o dia seguinte e aparecer de surpresa no aeroporto para buscar Luiz. Não sei porque, mas com a cabeça cheia de champagne, essa nos parecia ser uma idéia e tanto…

 

… que obviamente, não funcionou! Era mais de 3 da manhã quando a gente desistiu desse plano ridículo de ir para o aeroporto bêbados e fomos para casa.

 

O que quer dizer que fui dormir quase pelas 4 e às 5 em ponto Luiz me ligou avisando que pousou. Eu não sabia nem de que lado era o mundo! Mas fiquei empolgada com sua chegada e o esperei acordada em casa. Pelas 6:30h ele chegou, todos ainda estavam dormindo, e resolveu dar uma descansadinha. Em trinta segundos ele já havia conseguido ferrar no sono e eu seguia acordada!

 

Perto da hora do almoço (e na casa dos meus pais isso quer dizer pontualmente ao meio dia), meu pai nos acordou para comer uma feijoada. Achei que não daria conta, mas dei.

 

Entrou à tarde e a festa da minha mãe estava marcada para às 17 horas. Sim, é cedo, mas para eles e os amigos é um ótimo horário.

 

Portanto, fomos deixar a casa em ordem. Pedi ajuda ao Luiz para colocar o gelo e as bebidas no isopor e ele olha aquela meia dúzia de latinhas no fundo e pergunta para minha mãe quantas pessoas viriam. Ele fez as contas e seríamos, no máximo, umas 10 pessoas. Informação que não convenceu nem a ele, nem a mim. Ela disse que poderia pedir por telefone mais tarde se faltasse alguma bebida, mesmo assim recomendamos, por garantia, que era melhor comprar um pouco mais de cerveja e pelo menos umas 3 garrafas de prosecco, se sobrar a gente toma depois, não tem problema.

 

A reunião começou cedo, afinal era só um lanchinho para a família. O que ela não parecia se lembrar é que na noite anterior, no clube, foi encontrando um e outro amigo e falando que se quisessem passar lá em casa haveria um “cafezinho” a partir das 17 horas.

 

Resumindo, vieram bem umas 40 pessoas, a comida foi toda! Minha mãe lembrou que sabia fazer festa e acionou o plano B, ingredientes de armário (salsicha, azeitona, salgadinhos, pipoca, pão de queijo). Por sorte o garçon também era super safo e ainda fez uns cachorros-quentes. Lógico que a bebida evaporou e um pouco antes de acabar, avisei minha mãe para pedir mais por telefone. Ainda tinha o bolo e uns docinhos portugueses muito bons. Enfim, nada sobrou, mas também não faltou, acabou sendo uma festa bem divertida! Como se nota, algo levo no DNA.

 

Meu pai estava ótimo, dentro do possível! Ficou na poltrona dele, mas conversando, participando e esperou até o último convidado ir embora. Meus sogros também apareceram e acho que ficaram felizes de ver Luiz, já que sua ida não estava prevista.

 

Achei que o astral da casa deu uma aliviada, estava um pouco triste quando cheguei, não sei, tive essa sensação. Não é que os problemas estivessem resolvidos em um passe de mágica, mas gente de boa energia circulando em casa traz bons ares também. Temos uma família presente e amigos muito bons, pessoas com que se pode contar e isso faz muita diferença, principalmente para mim, que fico longe uma parte considerável do tempo. É um alívio saber que quando o bicho pega, há gente próxima enquanto não chego.

 

Resumindo, teve festa de aniversário e foi um sucesso! Missão cumprida! O resto era lucro.

 

Na semana que se aproximava, ainda deveria ir a oculista, dentista e outros “istas”, mas quer saber, o papo em casa e na casa dos meus sogros era tanto sobre médicos, então resolvi relaxar e deixar isso para lá. Vou aproveitar a família e os amigos e o resto a gente se vira depois. O único médico que não pude deixar de ir foi ao mastologista, afinal já tirei só oito quistos, portanto, não posso facilitar. Nem acreditei quando ele me liberou dessa vez e não precisei tirar nenhum! Boas notícias!

 

Muito bem, no domingo, acordei com desejo de ir almoçar no Botequim, da Visconde Caravelas. Luiz e eu comíamos ali quando éramos ainda namorados. Continua com uma comidinha super caseira e ótima! Fomos com dois amigos de São Paulo (olha os paulistas aí!) e meu irmão. E à noite, saímos com outro casal de amigos na Cobal de Botafogo para bater papo. Confesso que foi o único dia em que me neguei a colocar uma gota de álcool na boca! Com tantos encontros, sempre em bares, festas ou restaurantes, não ficava nem um diazinho sem beber e meu fígado já estava pedindo água, literalmente!

 

Pois é, essa semana que começou no dia 21, havia meio que me programado para dar uma fugida a Belo Horizonte, para matar a saudade da família do lado de lá e conhecer a nova priminha que nasceu. Logo que cheguei, até convenci minha mãe a ir comigo, combinamos com uma prima de dormir um dia lá em casa para meu pai não ficar sozinho e tal. Mas com a ida do Luiz, também não queria deixá-lo só no Rio, minha mãe amarelou de viajar comigo e acabei desistindo. Uma pena, mas não dá para fazer tudo, né?

 

Bom, vou poupá-los de contar novamente dia por dia, até porque nem me lembro direito. Só sei que fomos a duas churrascarias nos acabar de comer carne com gosto de carne, encontramos amigos, fomos a um aniversário, fomos a um jantar na casa de um dos poucos amigos que consigo cozinhar a quatro mãos e, como não podia deixar de ser, fomos à Academia da Cachaça.

 

Acho que a Academia é meu bar favorito no Rio. Gosto de outros também, mas tenho uma relação afetiva com esse bar. Inclusive, foi o primeiro lugar que Luiz me levou e onde começamos nossa história há pouco mais de 18 anos atrás.

 

Aliás, só vou falar de mais um bar, que também estava super nostálgica para ir outra vez, o Villarino. Conheci Luiz quando trabalhávamos juntos e obviamente era proibido nosso namoro. Mas enfim, justo em frente havia esse bar e restaurante que a gente ia de vez em quando em happy hours, tomar whisky com nossos cúmplices. Anos depois, conhecemos um amigo que é freqüentador assíduo do local e meu irmão que também começou a dar suas passadas por lá. Deu uma vontade danada de voltar e ver se o mundo ainda estava no mesmo lugar. E estava!

 

Uma história divertida é que esse amigo frequentador do Villarino, que também nos encontrou nesse dia, trilhou comigo uma boa parte do Caminho de Santiago e escreveu um livro sobre isso, do qual me tornei uma das personagens. Pois bem, ele é tão assíduo no bar, que ali se vende seus livros, acredito que até bem mais do que em qualquer livraria! Portanto, fui “reconhecida” por algumas pessoas nesse dia como a “Bianca do livro” e tive meus dois minutos de fama por tabela! Fui apresentada ao fundador, um senhor espanhol que segue indo ao bar em sua cadeira de rodas e se senta com a enfermeira, já é idoso, mas bastante lúcido e simpático, conversamos um pouquinho em castelhano. Saí de lá com as bochechas roxas do whisky, mas bem que valeu!

 

No sábado, Luiz teve que voltar para casa, porque trabalhava na segunda-feira em Madri. Fui com meu irmão e minha mãe ao aeroporto levá-lo. Achei muito ruim me despedir dele e ficar, mas tudo bem, era por pouco tempo.

 

Meu irmão já foi logo me avisando que íamos jantar em um japonês e de lá iríamos ao Circo Voador, na Festa Ploc! Aliás, acho que essa foi a vez que mais saí com meu irmão, desde que mudei do Brasil, foi legal. Muito bem, jantarzinho tranqüilo em um japonês ótimo no Leblon que agora me esqueci o nome. Foram mais dois casais de amigos dele, um dos meninos, amigo desde o tempo de colégio.

 

Beleza, lá pelas 23 horas, fomos para o Circo Voador. E confesso que ver os arcos da Lapa iluminados fez meu coração bater mais forte. Meu irmão conhece o pessoal por lá, nossa entrada foi bem fácil e com acesso a área VIP, quem diria. Ali havia mais dois casais de amigos dele e ficamos em um grupo de umas oito pessoas.

 

Para quem, como eu, não sabia do que se tratava a Festa Ploc, são uma série de shows com artistas ou bandas que fizeram sucesso nos anos 80. Imagina isso para quem chegou aos quarenta? Foi o céu! Tocou Silvinho (do Ursinho Blau Blau), Perdidos na Selva, Sempre Livre e… ela, a deusa, Rosana! O único que achei chato foi o Sérgio Malandro, mas tudo bem, já foi no finalzinho e não chegou a atrapalhar o programa. Quando era criança, até gostava do Sérgio Malandro, achava ele engraçado. Mas já estou Bauzaca e ele continua contando as mesmas bobagens! Mas enfim, claro que conhecia o repertório inteiro dos shows e me acabei de dançar! Ainda consegui uma espada dos poderes de Grayskull, que trouxe até para Madri!

 

Acho que não fui muito clara quando disse que me acabei de dançar, deixa eu ser mais precisa. Quem me conhece, pode ser que se lembre que tenho um tipo de labirintite, que na verdade é uma vertigem posicional blá, blá, blá… que são uns cristais que se acumulam ou saem do lugar pelo labrinto… alguma coisa assim. Pois é, esse negócio me dá umas tonteiras e estava com um pouco quando fui para o Brasil. Muito bem, eu pulei tanto nessa festa que no dia seguinte estava boa! Ou seja, os cristais saltaram para o lugar que tinham que voltar! Sei lá, mas deu certo!

 

No domingo, acordei quase sem voz! Fomos almoçar em família no Clube do Leme. Foi o único dia em que meu pai não parecia muito bem, passou mal e não comeu direito. Quando meu pai não come direito, a gente sabe que algo está errado. A última coisa que ele perde é o apetite! Bom, não parecia nada grave, mas melhor ele ficar sossegado em casa.

 

Durante à tarde, fomos na casa da minha prima, que nunca tive tempo de conhecer antes. Dessa vez, marcamos de lanchar lá. Foi minha mãe, minha tia, meu irmão, só família mesmo. Pois é, fofocando com minha prima, descobri que ela tinha feito o tal do preenchimento do bigode chinês (nem sabia que tinha esse nome, mas estava doida para fazer também). Bom, eu andava louca por alguma recomendação de alguém de confiança que
tivesse feito e ela me passou o telefone do médico dela. Acontece que eu só tinha o dia seguinte, segunda-feira, para fazer. Porque na terça eu já voltava para Madri.

 

Caramba, como fui descobrir isso justo quando estou indo embora! Mas quer saber, não custa tentar. Na segunda-feira, assim que acordei, liguei para o consultório e contei minha história do menino perdido. Não é que consegui horário para o mesmo dia!

 

Deixei um marreco para o jantar encaminhado. Sim, era o último jantar antes de viajar de volta e meu pai ainda não estava comendo direito, assim que queria dar uma caprichada. Colocamos o prosecco da minha mãe para gelar e lá fui minha mãe e eu para o médico!

 

Resumindo, fiz o tal preenchimento com ácido hialurônico e a-do-rei! Fica bem natural, não some o tal do bigode, até porque a gente ficaria com a cara do fofão, mas dá uma suavizada na expressão. Dizem que dura uns 8 meses, já veremos, mas fiquei freguesa! Perguntei o que existia para se fazer no meu rosto, só para saber mesmo, porque o resto não me incomoda ainda. O importante é que agora tenho uma referência de médico e conhecimento de possibilidades.

 

Voltamos para o jantar e modéstia às favas, o marreco ficou show! Só sobraram os ossos para contar história! E lembra da inapetência do meu pai? Pois é, passou num instante! Minha mãe e eu ainda derrubamos o prosecco, e meu irmão conseguiu chegar para o finalzinho da garrafa. Ficamos ali, batendo papo e fazendo hora na mesa, meio que nossa despedida da viagem.

 

Na terça, só deu tempo de almoçar com eles e satisfazer o último desejo gastronômico: camarão ao catupiry do Shirley. Eles entregaram em casa e estava bem gostoso.

 

Pouco depois, saímos para o aeroporto. Fomos só minha mãe e eu de taxi. Ela tem os motoristas conhecidos que já ficam esperando por ela para voltar. É sempre dura a partida, fico dividida, um pouco de pena, saudade, dúvida se estou fazendo a coisa certa morando por aqui. Enfim, os dilemas de sempre. Depois a vida segue e a gente vai se ajeitando.

 

Fiz escala em São Paulo, mas não saí do aeroporto. A viagem de volta foi bem tranqüila. Tempo bom e por incrível que pareça, não houve uma só turbulência em todo o vôo! Coisa difícil de acontecer, mas agradeço.

 

Foi a primeira vez que entrei no país com passaporte espanhol, fila da comunidade européia. Estava curiosa e ansiosa, quase como se estivesse fazendo alguma coisa errada ou proibida. Engraçado como às vezes leva um tempo para entendermos nossos próprios direitos.

 

Luiz deu um jeito de ir me buscar, porque era dia de semana e para ele é complicado. Por sorte, cheguei na hora do almoço e deu para ele dar uma fugidinha e me ajudar a subir com as duas malas pela escadaria de casa. Os ingredientes da sua feijoada estavam em uma delas e passou tudinho, felizmente!

 

Meu gato estava todo carinhoso, eu sentia falta do meu bicho. Sou muito acostumada a tê-lo pelos meus pés todos os dias e já eram três semanas longe dele.

 

E é isso, cá estou novamente! De volta ao calorzinho madrileño e na expectativa do que os ventos de verão irão nos trazer!

Tudo junto!

Viagem para o Brasil chegando e não consigo segurar a cabeça para atualizar as crônicas. Então, vai tudo junto em um texto só!

 

No dia 28 de maio (para ver como ando enrolando para escrever), foi show de uma amiga na Bogui Jazz. A sala andou fechada um bom tempo, reabriu há pouco e se tornou rapidamente uma das minhas favoritas em Madri. E a cantora também é fera, fez um show com o repertório de trilhas sonoras, bem bacana, tanto a idéia quanto a execução. Pois bem, por que estou contando isso? Porque fui chamada para dar uma palhinha em uma das músicas, Las Muchachas de Copacabana, da Ópera do Malandro.

 

Pois é, lá fui eu dar uma de “chica de la vida”, imagina isso? Além da cantora, fomos em três muchachas: melodia, voz mais grave e fiz a voz mais aguda. Eu queria me matar de vergonha antes de começar e sempre fico me perguntando porque topo entrar nessas encrencas. Mas logo que subo no palco, parece que baixa alguma coisa e curto bastante. Quando acaba quero até mais! E entre nós, dizer que cantei na Bogui Jazz é a maior onda!

Nossa participação foi na penúltima música, ou seja, passei o show quase todo me segurando para não beber, não falar, não ficar com vergonha, não ter vontade de ir ao banheiro… não, não, não… até que veio nossa vez e finalmente relaxei. Depois rolou uma festinha de aniversário (da cantora) e deu para aproveitar bem a noite.

 

Luiz ficou de fotógrafo. Está se tornando o fotógrafo oficial dos eventos da galera. O chato é que ele acaba não saindo em foto nenhuma ou quase nenhuma, mas está se aperfeiçoando e tem tirado umas fotos legais.

 

Nessa última quarta-feira, dia primeiro, teve uma caravana de música pernambucana na cidade. Duas bandas vieram de lá e a terceira é daqui mesmo, a Maracatu FM. Na verdade, seriam quatro bandas, mas uma teve algum problema e não tocou. Foi lá na Sala Caracol, é um espaço bem grande e difícil de encher durante a semana. Considerando esse ponto, até que teve um público razoável, se fosse sexta ou sábado, acho que lotaria.

 

É difícil para Luiz ir a show durante a semana, porque acorda cedíssimo, mas nesse ele foi porque tínhamos amigos tocando e o ano fiscal dele acabou no dia anterior, valia uma comemoraçãozinha. Pela hora da Cinderela, ele foi embora à francesa e fiquei com os amigos representando a família. Lógico que me acabei de dançar! Gostei muito do show como um todo, bandas com estilos bem diferentes entre si. Achei legal esse passeio musical e interessante a iniciativa de trazer essas bandas para Europa. Eles saíram em turnê daqui para mais uma meia dúzia de países.

 

Não exagerei no álcool, até porque anda me dando aquelas vertigens esquisitas outra vez. Por sorte, nenhuma crise, mas estou me cuidando.

 

De lá, ficamos naquela dúvida cruel de seguir ou não seguir e, claro, acabamos por seguir a noite. Fomos até o Maloka, tomar a “saideira”. Não conhecia o lugar ainda, gostei, bonitinho e mínimo! Algumas saideiras depois, tomamos o rumo de casa. Dividi o taxi com um casal de amigos e ainda paramos para comer uma pizza em Tribunal. Bom que tive companhia até quase a porta de casa.

 

E esse povo não trabalha não? Trabalham e bastante, mas muitos são músicos, bailarinos, artistas, profissionais liberais, enfim, sem um compromisso de acordar pela manhã muito cedo.

 

Na sexta-feira, programinha light, reunião na casa de amigos para comer pastel. Tinha até cachaça, mas como disse, ando segurando minha onda, fiquei no vinhozinho mesmo.

 

Sábado, concerto beneficente de outros amigos que participam de uma ONG. Trabalham em grande parte com africanos ilegais e bons pacas na percussão. Tocaram três bandas, não estava muito cheio, mas foi animado. Uma pena terem divulgado meio em cima da hora, certamente poderíamos ter levado mais gente. Tudo bem, fica para uma próxima vez.

 

De lá, seguimos com um casal de amigos que moram perto de nós. A típica noite madrileña, que você vai parando de bar em bar até cansar.

 

Domingo foi bem tranqüilo, nem tiramos o nariz para a rua! Comecei a separar as coisas para levar para o Brasil.

 

Viajo na quinta, dia 9 de junho, chego em São Paulo na sexta-feira bem cedo. Faço uma parada relâmpago para tentar ver o máximo possível de amigos. Daí, no domingo, pela manhã, vou para o Rio e fico até o dia 28 de junho. Vou aproveitar para comemorar o aniversário da minha mãe lá com eles. Queria ver uma priminha que nasceu em Belo Horizonte, vamos ver se consigo dar uma fugida de um ou dois dias até lá. E tem outro priminho nascendo no Rio também. Enfim, acho que será animado!

 

As encomendas já estão compradas, jamón ibérico de bellota para meu pai (ou não passo da porta de casa!), fuet para minha mãe, perfume para meu irmão, whisky para os médicos dos meus pais (tem que garantir a boa vontade, né?), Ipad… eu devo estar esquecendo alguma coisa!

 

Ah, e será minha estréia com passaporte espanhol! Estou numa curiosidade…

 

Passeando em Coimbra

Há algumas semanas atrás, durante um churrasco, um casal de amigos disse que iria assistir um show da Ivete Sangalo em Coimbra e perguntou se nos animávamos a ir também. Veja bem, não sou tão fã assim para ir a outro país só por causa disso, mas acho ela bem simpática e adoro uma bagunça diferente, então vamos!

Fomos em três casais, de carro, nesse último fim de semana, o show foi no dia 21 de maio. Nossos amigos decidiram ir no próprio sábado. Tinha conversado com Luiz que, se fosse possível, eu realmente preferia ir na sexta-feira, afinal, são quase 600 km de distância e chegar num dia e voltar no outro, a gente aproveitaria muito pouco. Ele conseguiu se liberar mais cedo do trabalho e às 17h do dia 20, pegamos a estrada. Dessa vez, deixamos o Jack sossegado em casa com uma amiga.

Talvez tenha sido uma das viagens mais agradáveis de carro que fizemos. Sempre é um pouco cansativo, mas não foi sofrido. Levei o Ipad e fomos cantando e papeando até entrar em Portugal, daí passou a ser mais divertido colocar o rádio e imitar o sotaque português.

O problema é o seguinte, depois que você mora fora, é como se tivesse uma tecla na sua cabeça para idioma nativo (português do Brasil) e idioma estrangeiro, que varia de acordo ao país que estamos. Quando a gente escuta o português de portugal, é inevitável, acionamos a tecla idioma estrangeiro e fazemos uma confusão danada. Ou seja, a cada vez que tentava imitar o sotaque português, saía uma tremenda mistureba com espanhol. Melhor falar o portugês brasileiro mesmo que eles entendem muito bem. Aliás, aproveito para dizer que achei o sotaque em Coimbra muito mais fácil de entender do que em Lisboa. Ainda assim, um dos nossos amigos que foi conosco, brasileiro, não conseguia falar em português nem a pau! Cada vez que abria a boca saía espanhol! Era engraçado.

Mas voltando à viagem, chegamos em Coimbra na sexta, por volta das 22h de Madri. Achamos que inclusive seria difícil encontrar um lugar pra jantar, nem tinha grandes expectativas. Na recepção do hotel, nos demos conta que em Portugal é uma hora menos que a Espanha, ou seja, ganhamos uma hora e deu tempo perfeitamente para irmos a um restaurante e comermos bem.

Largamos as malas no quarto e fomos ao Giuseppe e Joaquim, indicação do hotel, um restaurante que como o nome indica, servia comida italiana e portuguesa.

Fomos para o restaurante a pé, aliás, o hotel era central e fizemos sempre tudo caminhando. Pois foi pisar nas calçadas de pedra portuguesa que me senti em pleno centro do Rio de Janeiro, mais especificamente, me senti no Catete. É curioso como a gente quando sai do ambiente por um tempo, percebe as coisas de maneira diferente. Até então, ainda não tinha me dado conta no quanto havíamos sido influenciados arquitetônica e culturalmente. E olha que não é a primeira vez que vou a Portugal!

Passando em frente às padarias era quando mais tinha a sensação afetiva de casa. As padarias em Madri cheiram diferente, não é ruim, mas é diferente porque só vendem basicamente pão e feito de outra maneira, muito seco ao meu paladar. As padarias brasilerias foram totalmente influenciadas pelos portugueses, tem aquele cheiro de pão doce e lugar para comer dentro delas. Eu nem gosto de pão doce, mas sentir aquele aroma invadindo as narinas foi uma delícia!

Seguimos até o restaurante, de atendimento simpático, onde uma das garçonete era brasileira e conversou um pouco conosco. Luiz foi no bacalhau e eu não resisti à picanha. É que, ainda que a comida na Espanha seja ótima, a carne de boi deixa muito a desejar, você se acostuma, mas não é o mesmo prazer. A de portugal é bem melhor e fizeram bem da maneira brasileira, macia e suculenta. Para outros turistas brasileiros, talvez não seja tão interessante, mas para mim, que fico tantos meses fora do Brasil, era o paraíso! Só me decepcionou não terem de sobremesa os doces tradicionais portugueses, mas tudo bem, tomamos dois cálices de Porto, um tinto e um branco e foi de bom tamanho.

De lá voltamos direto para o hotel e não esticamos muito a história, preferíamos acordar mais cedo no dia seguinte e aproveitar melhor a viagem. É uma cidade universitária, provavelmente os programas noturnos fossem invadidos por gente muito jovem. E vamos combinar, a noite de Madri é muito difícil de superar. Então, sempre preferimos ao invés de ficar reclamando, aproveitar o que há de melhor em cada lugar.

Dia seguinte, acordamos com calma e pedimos café no quarto. Eu amo de paixão café na cama! Já disse algumas vezes e repito, para mim, os dois maiores luxos do mundo são café da manhã na cama e banho de banheira! Pois aproveitei os dois e me senti uma rainha!

Muito bem, o dia estava nublado, mas com temperatura agradável. Saímos para dar um passeio a pé enquanto nossos amigos não chegavam. Eles saíram no mesmo carro de Madri bem cedo, pelas 6 da matina,  e tinham previsto chegar pela hora do almoço.

A cidade não é exatamente bonita, pelo menos, eu não achei. Está mais velha que antiga, decadente, não sei se me explico. Mas ao mesmo tempo, possui um ambiente bastante acolhedor, parte pela semelhança que sentimos com o Brasil, mas também porque as pessoas parecem mais acessíveis e abertas. Provavelmente, influência da universidade que acolhe um bom número de estrangeiros e de portugueses mesmo, mas que não são de Coimbra. De maneira que em um primeiro momento, a cidade me pareceu meio sem graça, mas à medida que ia caminhando e conhecendo melhor, gostava mais e me sentia bastante à vontade.

Nossos amigos chegaram e fomos encontrá-los em seu hotel, bem perto do nosso, mas era outro. Como fizemos antes, mal largaram as malas nos quartos e fomos todos para a rua. Verdade que eles pareciam mais mortos que vivos, também acordaram de madrugada! Mesmo assim, não desanimaram. E eu fiquei feliz com a decisão de ter vindo no dia anterior.

Primeiro fomos descobrir o lugar do show, acho que chamava Palácio das Canções ou algo assim, fica logo após atravessar a Ponte de Santa Clara. Era bastante fácil de chegar, uns 10 minutinhos caminhando tranquilamente desde o hotel.

De lá, fomos conhecer a famosa Universidade de Coimbra, que fica bem no alto de um morro. Você se embrenha por uma série de escadarias e ladeiras até lá. Se nossos amigos já estavam cansados da viagem, imagina durante a subida! Francamente, agora vou me exibir, não fiquei nem cansadinha! Sinal que o sofrimento na malhação deve estar dando algum resultado!

Essa subida lembra muito as ladeiras de Ouro Preto, novamente não havia como não relacionar com a influência direta no Brasil. Ainda que possa ser um pouco cansativo para os mortais, reconheço, acho que vale muito à pena. E também é possível subir de carro, para os que tenham dificuldades de locomoção. Eu prefiro a pé.

No caminho, paramos para almoçar em uma tasca com mesas exteriores. O local era bem agradável, mas a comida não agradou a maioria e com toda a razão. Bom, eu me dei muito bem, pedi umas sardinhas assadas, nesses botecos não tem muito erro. Minha amiga pediu um bacalhau, que segundo ela não estava o melhor do mundo, mas normal. E as outras quatro pessoas cairam no conto da picanha, que não era picanha nem aqui nem na china e estava duríssima! Uma pena, porque em geral, se come muito bem em Portugal. Decidimos comer depois as sobremesas em outro lugar (sábia decisão!).

Seguimos até o alto do morro, onde fica a Universidade. Além da arquitetura ser bastante interessante, a vista lá de cima compensa bastante o esforço da subida.

Pessoalmente, meu lugar favorito foi o Museo Nacional Machado de Castro, um contraste do novo, antigo restaurado e a igreja por detrás. Além da vista ser muito bonita.

Outra coisa que achei legal nesse caminho são os grafites, uma maneira interessante de expressão e bastante bem humorada!

Agora, vamos combinar, as campeãs são as placas e os avisos! Sensacionais!

Muito bem, ladeiras devidamente conhecidas, baixamos atrás de doces portugueses. Estava com um desejo incontrolável de comer ovos moles! E me atraquei com uma porção deles, além de uma queijada! Minha cota de doces está batida por meses, mas valeu! Detalhe para o tamanho do suspirinho de Itú!

Mais uma passeada pela cidade e voltamos para o hotel.

Muito bem, lembra que a história de ir a Coimbra começou porque tinha um show da Ivete Sangalo? Pois é, à noite foi o show. Começava às 22h. Marcamos na porta do hotel dos nossos amigos pelas 20:30h. Daí estávamos naquela preguiça no quarto para nos arrumar, pensando se deveríamos comer alguma coisa antes do show, afinal não sabíamos como seria a estrutura por lá e tal. Claro que me veio outro desejo irresistível de comer em uma padaria. Queria porque queria um pão com bife no pão de sal! Será que tinha?

Tinha. Chama prego no pão e estava divino! Carne macia, temperadinha com pimenta do reino, no pãozinho igual ao nosso. Juro que comi como se fosse uma iguaria de outro planeta! O que fez Luiz se lembrar de sua terrível picanha do almoço e ficar com raiva! O bifinho da padaria estava milhões de vezes melhor!

Ora pois, de lá encontramos nossos amigos e fomos para o show. No local também havia uma boa estrutura, vendiam sanduíches diversos bem honestos, refrigerante quente e cerveja. Levei minha garrafinha de cachaça na bolsa e ninguém me encheu o saco, vantagens de ter essa cara de boa moça! Na verdade, até acho que sou uma boa moça mesmo, mas adoro uma cachacinha!

E como foi o show? Foi legal, estava bem cheio, no início parecia que seria vazio, mas logo o povo foi chegando e acho que o espaço lotou. A Ivete nos pareceu um pouco rouca, também, era o terceiro dia seguido que ela cantava e pulava sem parar, né? Mas tudo bem feito, bem produzido, figurino bacana e ela é bem carismática. O público também foi participativo e educado sem ser frio, civilizado com animação. Gostei. Tirei várias fotos com meu celular, todas tremidas ou escuras, sinto muito!

Fiz uma força danada para não fazer amizades, porque acho que todo mundo, incluindo o Luiz estava bem cansado. Só no finalzinho conhecemos uns universitários e me informei onde seria um lugar bom para seguirmos pela noite. Não adiantou muito porque estavam todos realmente mortos. Quebrei o galho do Luiz e voltamos diretamente para o hotel. Nossos amigos ainda saíram para comer alguma coisa, tarefa que pelo horário não foi nada simples.

Domingo, acordamos naturalmente pelas 9 e alguma coisa, tomamos nosso café com calma, arrumamos as malas e saímos por volta das 11h de Coimbra, em direção a Madri. Da estrada, contatamos nossos amigos e nos encontramos para almoçar no caminho. Não estava afim de sanduíche, preferia sentar e fazer uma refeição. Comemos uma bisteca de porco, pure de batatas e uma salada verde fresquinha, para nós, muito gostoso e por um preço excelente. Engraçado que, nessa viagem, acho que comi muito bem, mas só coisas simples e caseiras. 

Chegamos em casa por volta dàs 19h, eu acho, até porque paramos no caminho para comer e a volta pareceu mais comprida. Mas também não demoramos muito em casa, estava louca para ir para a Puerta del Sol ver como estava a manifestação. Mas essa história, fica para a próxima crônica.

E de agora em diante, se ficar morrendo de saudades do Brasil e não der para a gente ir, vou para Coimbra comer nas padarias!

Ah, e uma última coisinha, se alguém tem alguma dúvida é só ir ao consultório de explicações!

Nacionalidade espanhola, perguntas frequentes (texto em espanhol)

Recebi o texto abaixo, bastante extenso e completo, sobre dúvidas em relação à nacionalidade espanhola. Aviso que não responderei comentários com dúvidas, porque não sou advogada nem ganho nada com isso. Simplesmente, repasso a informação que pode ser útil, ok? Boa sorte!

Perguntas Nacionalidad

Descarrego

Dia 12 de maio de muitos anos atrás, era um domingo, dia das mães. No sábado, estávamos todos em casa, incluindo minha avó por parte de mãe, conversando sobre o almoço do dia seguinte e surgiu o assunto que era uma pena que não estivessem as duas avós, para esse momento. Ninguém falou, mas as duas estavam doentes e é lógico que era impossível não pensar que talvez pudesse ser o último dia das mães com ambas.

Pois me candidatei, posso buscá-la, se ela quiser. Morávamos no Rio, e ela estava em sua casa, em Cabo Frio. Na época da estrada antiga, umas duas horas e meia de carro, que não sei por que raios parecia uma distância enorme para todos.

E assim foi, no domingo pela manhã acordei bem cedo e fiz um bate-volta com minha avó por parte de pai e minha tia, que estava junto em Cabo Frio. Minha avó fez todo o trajeto de olhos fechados e com uma expressão dolorida, mas sem se queixar. Viemos as três mulheres praticamente em silêncio até o Rio e chegamos para o almoço de dia das mães.

Na mesa, como não podia deixar de ser, o clima mudou, ninguém parecia triste, aborrecido ou doente. Foi um almoço de família absolutamente normal, ou pelo menos, é assim que me lembro dele.

Não me lembro o que foi dado de presente para minha avó por parte de mãe, mas para minha avó por parte de pai foi dado um relógio de pulso. Lembro de ter passado na minha cabeça que precisava de um relógio também e por que dar um relógio para alguém que já não se importava mais com que horas era? Depois me pareceu um pensamento absurdo, me senti até um pouco culpada, essas bobagens que a gente pensa sem querer muito.

Lembro dela sentada no sofá com as pernas esticadas, virou-se para mim e me chamou para agradecer o presente. A maneira que ela me olhou me paralizou, fiquei imóvel por alguns segundos olhando para ela, com as pessoas praticamente me empurrando, vai lá, ela quer te dar um abraço para agradecer. Mas nós duas sabíamos que não era isso, foi nossa despedida. Durante essa madrugada ela faleceu.

Oficialmente, dia 13 de maio. Mas na minha cabeça, sempre me vem o 12 primeiro, pois foi quando nos despedimos. Então, na noite de 12 para 13 acendo uma vela, faço minha oração de ateísta, afinal ela não era e eu tenho sua voz na minha memória rezando a Ave Maria, e vou dormir enquanto a vela se gasta naturalmente e se apaga pela madrugada.

Minha outra avó, por parte de mãe, faleceu no mesmo ano. E é difícil falar de uma sem falar da outra, deve ser parecido ao sentimento de mãe, que não quer que um filho se sinta enciumado ou menos considerado. Mas a verdade é que na minha memória, elas sempre aparecem juntas.

Em uma noite, não me lembro que dia de outubro, minha mãe e eu começamos a conversar porque estávamos meio agoniadas em relação a minha avó, esses pressentimentos estranhos. Minha mãe nunca suportou dirigir e não queria ir sozinha. Outra vez, me candidatei, mas eu dirijo! Claro que vou!

No mesmo dia em que chegamos, durante a madrugada, ela passou mal e fomos levá-la ao hospital, de onde já não deixaram que ela saísse. No dia seguinte, à tarde, ela também me olhou do jeito que eu conhecia e havia visto naquele mesmo ano. Da nossa maneira, também nos despedimos. Mais tarde ela entrou em coma. Dessa vez, não pude trazê-la no carro, mas fui atrás da ambulância até o Rio, onde ela faleceu não muito depois de chegar, no dia 9 de outubro.

Fiquei com essa impressão de ter ido buscar as duas para morrerem em paz no Rio. O que de uma maneira estranha, me fez muito bem. É lógico que senti muito, mas fui uma privilegiada em poder me despedir das duas de maneira digna, como elas mereceram. Elas se foram com a consciência que não estavam sozinhas ou desatendidas.

Por isso, não conto como histórias tristes, mas como parte da vida. Não quero esquecer, porque me ajuda com a saudade.

As duas eram espíritas, de alguma maneira mais ou menos declarada. Bom, na verdade, eram espíritas também, sempre foi uma coisa meio misturada com outras religiões.

Uma das minhas avós chegou a ter um congá dentro de casa, meio escondido no quarto de empregada. Porque afinal de contas, ninguém no Brasil gosta de se assumir macumbeiro. Mas todo mundo conhece alguma coisa e no fim de ano vão pular 7 ondas vestidos de branco. Enfim, nem posso dizer que ela era realmente macumbeira, porque também frequentava assiduamente a igreja Batista, entre outras igrejas que ela ia conhecendo no caminho. Falou para ela que era de Deus e do bem, estava valendo!

Em uma época que meu irmão ficou bem doente, aparecia gente de todas as religiões que se pode imaginar para rezar para ele lá em casa. Nem sei de onde eles vinham, não cobravam, não exigiam nada, rezavam. O mais assíduo era um espírita kardecista e até hoje meu irmão tem um quadro do Doutor Bezerra de Menezes, que era um tipo de guia espiritual do tratamento dele. O fato é que ele foi curado, muito provavelmente pela medicina, mas como não vamos dizer que não ajudou o amor, as boas energias, as orações… Então, por que não distribuir o mérito com quem no mínimo quis ajudar?

Cresci nesse ambiente de fé democrática, digamos assim. Nunca fui obrigada a seguir ou acreditar em nada e nunca me ofendeu aceitar e conviver com crenças que não tinha. Acreditando ou não, cresci entre histórias de espíritos, batendo a cabeça no congá, colégio católico, santos, orixás, premonições, intuições, números, novenas, simpatias… tudo junto! E porque não era obrigada, aceitava sem precisar concordar ou julgar. Fantasmas e demônios não me assustam. Não sei se eles existem, mas se existirem, também serão parte da vida.

Não vamos confundir as coisas, sou ateísta, continuo sendo. Ou simplesmente, não preciso de uma explicação única e racional para tudo. Mas algo importantíssimo aprendi, rituais são fundamentais! Qualquer ritual, desde que seja feito com respeito. As energias positivas ou negativas que você empenha fazem toda a diferença do mundo.

E vindo dessa mistureba, pode acreditar, sou craque em rituais e símbolos!

Muito bem, assim que soubemos que nossos passaportes e DNIs espanhóis seriam entregues no dia 12 de maio, fiquei confiante. Se fosse 12 de outro mês, não ia gostar pelo número, mas de maio sim. Afinal, tinha uma bruxa me protegendo.

Precisava de um ritual, lógico! Uma festa-ritual, pronto! E que dia? No próprio 12 era quinta-feira, complicado. Na sexta-feira 13, parecia ideal, se fosse em outra sexta-feira 13, provavelmente, mas justo no dia da morte da minha avó, ainda que me parecesse homenagem, alguém poderia se ofender. Depois alguns amigos também não podiam na sexta, beleza, sinal que tem que ser no sábado, dia 14 de maio. Fechado!

Há muito tempo precisamos selecionar a dedo quem chamar, porque não cabe em casa. Mas dessa vez, por tudo que nos custou estar onde estamos, tudo que não queria era seguir o lema “não cabemos todos”! (Nas eleições passadas, essa frase foi bastante usada pelo Rajoy, do PP, contra os imigrantes na Espanha – ¡No cabemos todos!) Daí, pensei em fazer em turnos, começando às 16 horas e seguindo até o último convidado que aguentasse!

O tema foi “Festa do Descarrego”, vamos combinar, quem não precisa dar uma descarregada de vez em quando, né? Pedimos que, se possível, as pessoas viessem de branco para entrar na brincadeira.

E claro, independente de raça, cor ou religião, todo mundo entrou na brincadeira!

 

Uma amiga conseguiu me trazer um pé de arruda (uma saga para conseguí-lo!), e duas me trouxeram pés de espada-de-são-jorge, muito legal!

Na entrada, onde já ficou um dos arranjos de espada-de-são-jorge, os convidados eram recebidos com um passe de arruda, água e sal grosso. Quem quis, colocou um raminho de arruda atrás da orelha e aviso que um monte de gente quis.

Os convidados trouxeram as bebidas e fiz as comidinhas, coisas de botequim: caldo de feijão, sanduíche de pernil, bolinho de bacalhoada, quibe, empanada de carne, ovos de codorna, ovos coloridos, salpicão de frutos do mar, salada de frango, queijos diversos, patês, batatinhas, frutos secos, azeitonas.

No centro da mesa, um arranjo com sal grosso em formato de estrela de 6 pontas, 7 velas, 1 defumador, alho, água limpa e pedra marroquina para atrair boas energias. Ao lado, um vaso de sal grosso, 1 pé de arruda e outro pé de espada-de-são-jorge. Era nosso canto para o descarrego. Quem quisesse, anotava em um papel amarelo o que quisesse mandar embora e queimava ali mesmo! Está pensando que alguém teve medo ou vergonha? Nada! Pois foram 2 bloquinhos inteiros descarregados!

 

Depois, no corredor, foram coladas no chão 7 fitas azuis. Usávamos nossa imaginação que eram as 7 ondas da praia que a gente quisesse, fazíamos um pedido do que queríamos que acontecesse e pulávamos as 7 ondas!

Pronto, todo mal havia ido embora e havia a esperança de melhorar!

E sabe aquela história dos turnos? Pois é, só funcionou para definir uma hora de chegada, porque ninguém queria ir embora, o que pessoalmente interpretei como um elogio, sinal que estavam gostando, certo? Só foi mesmo quem tinha crianças ou precisava trabalhar, o resto seguiu animadamente no descarrego. Não tenho certeza de quantas pessoas apareceram, mas em ordem de grandeza, contando com as crianças, acho que umas 70! Outro número muito bom! Infelizmente, acho difícil que a gente consiga dar outra festa desse tamanho, não nesse apartamento, mas adorei que essa tenha dado certo.

Mais ou menos pelas 3 e alguma coisa da manhã, depois de umas onze horas de festa, os últimos convidados se foram. Alguns foram descendo o lixo, outros nos ajudaram a arrumar a casa, uma amiga ficou para dormir e também nos ajudou com a limpeza, de maneira que pelas 4 e alguma coisa fomos dormir com a casa limpinha e razoavelmente bem arrumada.

Minha vida não é perfeita e nunca será, acho que a de ninguém é. Mas vou contar uma coisinha, entre nós, só queimei um ou outro papelzinho para dar o exemplo e mostrar como fazia, mas foi até difícil me lembrar do que queria reclamar. Fiz um único pedido às 7 ondas. E se algum dia fizer outro ritual parecido, acho que nos faltou um terceiro espaço, o de agradecer. Provavelmente, seria onde mais me concentraria. Agradeço vir da família que vim e ter as experiências que tive, agradeço pelo meu amor, agradeço pelos meus amigos, agradeço por quem está a minha volta e agradeço por poder compartilhar esses momentos.

E vamos malhar!

Nas últimas duas semanas, ando malhando como uma douda! Cinco vezes na semana, faça chuva ou faça sol.

Verdade que a motivação principal é a operação biquini. Chegando o verão, todo mundo quer colocar as asinhas de fora e não fazer feio. Além do mais, em junho vou ao Brasil e vamos combinar que a mulherada do Rio se cuida, né? Intimida. Eu já chego branquela, pelo menos vou tentar chegar sarada!

Exageros à parte, porque já não tenho mais a esperança de ter barriga tanquinho, tenho uma segunda motivação importante, preciso dormir!

Fui criança hiperativa, adulta menos, até achei que estava curada, digamos assim. Mas de uns tempos para cá, parece que regredi e simplesmente parei de dormir. E isso porque nem cafeína estou tomando há vários meses!

Tudo bem, já sei como isso funciona, preciso queimar energia. Então, resolvi me acabar de fazer exercício e unir o útil ao saudável (porque agradável não é, né?). O Wii foi devidamente ressucitado e incluímos no pacote os joguinhos da bicicleta e da aula de dança. Sigo no Pilates e correndo. Comecei a perder peso devagar, o que foi ótimo. Ainda tenho preguiça de começar a malhação, mas depois me sinto muito bem e até me passo um pouco.

Mas dormir que é bom, continua sendo difícil. Tudo bem, comecei há pouco e tenho que dar um tempo para o corpo entrar no ritmo. Por isso, também voltei a tomar a melatonina, o que ajudou.

O bom é que Luiz se empolgou, ele já havia perdido bastante peso e agora resolveu começar a malhar também. Em casa, mas é um começo. Sempre mais fácil se cuidar quando os dois estão em uma onda parecida.

E agora, deixa eu correr para a “aula de dança” antes do Luiz chegar, porque queima calorias pacas, mas com alguém assistindo é muito mico!

Jantando na ONU

Ainda era segunda-feira e ainda pairava no ar um ligeiro impacto da notícia da morte do Osama. Muito menor do que imaginava, diga-se de passagem, acho que passou tanto tempo que as pessoas já estavam meio saturadas da história.

Mensagem no celular, aniversário de uma amiga, jantar na casa dela no mesmo dia. Luiz tendo que acordar cedo no dia seguinte, mas pensamos em pelo menos dar uma passadinha para um abraço de parabéns. Fomos.

Essa amiga mora no centro da cidade, em um apartamento enorme, compartilhado por umas 8 pessoas, eu acho. Lembrava muito uma república de Ouro Preto, em ambiente e aparência. Ela é a única brasileira da casa.

O que me chamou atenção nesse dia foi a diversidade de nacionalidades presentes no evento informal. Havia iraniano, iraquiano, espanhol, paquistanês, romeno, irlandês, brasileiro, italiano, inglês… e depois já nem me importava em perguntar! Parecia uma reunião da ONU, só que mais divertido.

A música foi em sua maioria brasileira, mas alternando-se com danças persas, romenas ou seguindo a nacionalidade de quem mais se candidatasse a pular no meio da roda. E quem não participava dançando, ou tocava um instrumento ou batia palmas acompanhando o ritmo. Mas de alguma forma, todos faziam parte do conjunto da obra.

Estamos acostumados a navegar entre torres de Babel, mas nesse dia especificamente, veio como um ar fresco de paz no meio de notícias turbulentas. Tolerância, respeito e alegria. Ficou bonito.

E se algum dia eu tiver que me lembrar dessa segunda-feira, é essa a parte que vou escolher.

Dia nublado

Segunda-feira, 2 de maio de 2011, feriado. Aqui na Espanha, o dia do trabalho é dia primeiro, igual ao Brasil. Eu achava que havia sido transferido para o dia seguinte por cair em um domingo, mas segundo um dos meus leitores, eles não fazem isso aqui, é feriado por ser dia da comunidade de Madri.

Muito bem, acordei assustada quando olhei o relógio marcando quase 10 da manhã e Luiz ainda do meu lado: você perdeu a hora, não vai trabalhar? Não, era feriado, havia me esquecido completamente.

Fiquei fazendo hora na cama até escutar a voz do Luiz vindo do quarto do computador dizendo que o Bin Laden morreu!

A notícia me pegou meio de surpresa e levei algumas horas até absorver. É daquelas notícias que você não sabe se deve se sentir aliviada ou se assustar mais. O mundo árabe (se é que podemos considerar toda essa unidade) anda muito estranho. Atualmente, depois de conhecer um pouco melhor o emaranhado de culturas e estando tão mais perto geograficamente, olho tudo com muito mais cautela. Muita teoria da conspiração ainda virá por aí.

Fui para internet me informar um pouco melhor, afinal parecia uma história meio mal contada. O que lia não batia com as imagens. Uma morte sem cadáver, uma mansão luxuosa de um milhão de dólares que mais parecia um barracão, uns muros merreca que qualquer assaltante carioca pularia sem problemas expostos como se fossem fortalezas medievais. Menos, né? Realmente, acho que a grande dificuldade era sua localização e a garantia de uma operação sigilosa até o último momento.

Fico dividida. Por um lado, não há como negar que o 11 de setembro mudou para pior a vida do mundo ocidental e sim, lógico que Osama teve muito a ver com isso. Mas uma execução é uma execução e sempre me choca, independente de que lado venha. Não tenho pena nem tristeza por ele, muito menos penso que não foi justo, só não sinto vontade de comemorar.

De certa forma, hoje fomos obrigados a reviver em fast foward uma década de tristeza referente aos ataques, não só nos EUA, mas toda uma onda de mortes e violência de todos os lados. Porque dia 11 foi só um começo marcado, me lembro desse dia, sei onde estava e com quem estava e como parecia irreal e distante da minha vida. Pois na semana passada, reconheci o local do último atentado em Marrocos (28 de abril), já almoçamos exatamente ao lado de onde a bomba explodiu. El último camello de la fila camina tan deprisa como el primero, o que toca a um, toca a todos.

Que ao menos seja o fim de um ciclo ruim. Liberdade deveria ser vida, não morte. Amanhã começará outra guerra, infelizmente, mas espero que essa noite as pessoas possam ter um pouco de paz.

Semana Santa, que de santa não teve nada!

Respeito a crença de cada um, mas não sou religiosa. Para ser bastante sincera, gosto da Semana Santa simplesmente por ser feriado.

Na Espanha isso é coisa séria, saem umas procissões que  na minha opinião são bem assustadoras. O povo usa aqueles capuzes tipo ku klux klan, pagam penitência, se chicoteiam, andam descalços pela rua, levam santos pesadíssimos nas costas para lá e para cá… um festival de horrores! Não passo nem perto, mas gosto é gosto e fé é fé.

Enfim, nosso feriado começou na quarta-feira, quando fomos conhecer um lugar perto de casa chamado Olé Lola.  Achei bem legal, tem um ambiente charmoso, iluminação confortável, com drinks e comidinhas. Isso no Brasil pode ser lugar comum, mas aqui não. À noite, ou você sai para comer, em um restaurante, ou para beber, em um bar. A grande maioria dos bares, com raras exceções, não tem nada à noite que você possa beliscar, é basicamente bebida.

Portanto, chegamos, tomamos nossa garrafinha de vinho e beliscamos várias coisas para conhecer o cardápio. Acabou o vinho e fiquei olhando o bar. Falei com Luiz que queria rever o fato de não gostar de drinks. É que sou de bebidas puras, nunca gostei muito de misturar nada. Gosto de vinho, whisky e cachaça, pronto. Os drinks sempre me parecem doces e enjoativos demais. De qualquer maneira, não gosto de me limitar em sabores e resolvi que é hora de rever esse conceito. Luiz tomou a frente e tratou de me convencer que nem todos os drinks são doces. Foi conversar com o barman para escolher uma bebida para mim.

Só vejo o barman dar aquela olhadinha para meu lado, e claro que a primeira coisa que ele interpreta é que eu deveria gostar de alguma coisa levinha e docinha. Luiz explicou para ele, veja bem amigo, não! Ela toma whisky cowboy! Desafio lançado, ele comprou a briga, ok, deixa que preparo algo especial.

Não é que gostei? Mudei um pouco minha atitude em relação ao que esperar, mas não me decepcionei, nem era docinho nem levinho. Acho que chamava Good Old Days, ou algo do gênero, com sabores destacados de whisky e laranja. Depois me animei e quis provar algo com vodka negra, mas daí já não gostei tanto porque a própria vodka é um pouco doce, com sabor de ameixa. Enfim, novas portas abertas, agora é descobrir caminhos.

Chegamos em casa e não sei porque me pareceu uma excelente idéia me atracar compulsivamente a uma caixa de chocolates! Putz, para que? Além da culpa, isso me enjoou terrivelmente no dia seguinte pela manhã, quando a propósito, precisávamos acordar cedo.

Churrasco marcado para começar às 11 horas (Por que? Por que?) e fora de Madri. Levantei bravamente, com aquele gosto enjoado de chocolate na boca, além de que certamente a quantidade de álcool misturado não deve ter feito nada de bom ao meu organismo. As curvas do caminho então… afê!

Chegamos na casa dos nossos amigos e a primeira coisa que fiz, após cumprimentar as pessoas, desculpe o desabafo escatológico, foi dar uma vomitadinha básica e colocar para fora aquele absurdo de açucar! Pronto, minha vida mudou e fui uma pessoa muito mais feliz!

O dia foi uma delícia! Estava previsto uma quinta-feira de chuva, o que até aconteceu, mas também abriu um sol delicioso e não previsto que deu para queimar o musgo e levantar o astral. Somos um grupo de exagerados, então é lógico que havia comida para três festas, mas demos conta do recado. Levamos instrumentos de percussão e também aproveitamos para tocar e cantar um pouco.

Uma parte das pessoas ficou para dormir, nós voltamos com mais um casal e uma amiga. Foi nosso amigo que dirigiu, ele não bebe e assim Luiz podia ficar tranquilo e todos voltarmos em segurança. Bom, porque chovia a rodo!

A sexta-feira foi mais tranquila. Cheguei a ligar para alguns lugares para ver se estavam abertos para jantar e nada. Pensei em dar uma voltinha à noite, porque sempre se encontra algo. Luiz tratou de me enrolar com a irresistível proposta de acordarmos cedo no dia seguinte para fazer compras em um outlet de marcas. Foi golpe baixo, mas entubei, também queria ir lá.

Sábado, fizemos compritas e passamos um dia calmo, até receber um convite: 19:30 na casa de um casal de amigos. Nesse horário, marcado sem antecedência, só podia ser algo levinho, né? Se nós não fôssemos quem somos, claro! Porque logo o anfitrião colocou uma mesa de montar no meio da sala e ficou com pinta de boteco. O amigo músico puxou o violão, o outro a gaita, um cajón, um tamborim e um caxixi, confusão montada! Em que país a gente estava mesmo? Após colaborar com o consumo de quase três garrafas de cachaça, cerveja (não para mim, que não tomo), tacos mexicanos, calabresa acebolada, quibe e otras cosillas más, voltamos para casa nem sei que horas!

Um amigo que é câmara e estava na festa de boteco, nos convidou para assistir o jogo que ele ia filmar no dia seguinte. Achei o programa super diferente e daria uma ótima crônica assistir um jogo ali bem de pertinho, junto à imprensa. Infelizmente, se para eu acordar no domingo estava complicado, para Luiz estava impossível. Acordou passando mal, coisa rara de acontecer. Acho que o fígado dele devia estar pedindo arrego! Resultado, não fomos, ficou para uma próxima vez. O mais radical feito àquela noite foi tomar uma canjinha.

Na segunda-feira, acordei cheia de culpa. Aliás, “cheia” seria uma boa definição, estava era gorda mesmo! Depois de todos esses abusos, a balança se mexeu para o lado que não me agradava. Quer saber, vou começar a correr hoje!

Já havia um tempo ensaiando, mas sempre acontecia algo que logo virava uma desculpa e não ia. Na segunda, nem a chuva fraca me parou, it’s now or never! Fui. Só que primeiro, não sei correr, posso andar rápido como uma louca, mas quando corro perco o fôlego. Na verdade, acho que  não sei respirar direito. E depois desse feriadão, imagina, tinha a beleza, leveza e graça de um cruze de hipopótamo com albatroz. Tudo bem, tenho que começar de algum lugar. Fui alternando um pouco corrida e caminhada. Voltei com um pouco de dor no meu joelho mais fraco, mas satisfeita por ter feito alguma coisa para mudar. Hoje tem pilates, que estou adorando, só que não emagrece, é outra história. Então, vou tentar correr (ou andar muito rápido) nas segundas, quartas e sextas; e continuar com o pilates nas terças e quintas. Se conseguir fazer isso só essa semana, sei que nas próximas será mais fácil seguir. Coragem, Bianca, coragem! No pain, no gain!

Preciso me esforçar, porque desse jeito, como é que vou caber no vestido para a festa de casamento do William e da Kate? Íntima como sou da família real, não posso fazer feio…

Madri e sua noite incomparável

E a vida seguiu movimentada, principalmente, pelas noites madrileñas. Diga-se de passagem, apesar do planeta já saber, tenho lá minhas queixas em relação à Madri, como a qualquer outra cidade, mas a noite aqui é imbatível. Seja pelo prisma que você olhar, opções, preço, segurança, animação, qualidade da bebida (e quantidade também)… O único defeito era ser muito esfumaçada de cigarro, coisa que agora felizmente também já vem se corrigindo.

Outra coisa que é bastante comum por essas bandas, quando salimos de marcha, é não ficar em apenas um lugar. As casas tem horários de pico diferentes e a gente vai montando uma colcha de retalhos divertida pela madrugada do melhor local para aquele momento. E morando aqui no centro, com um bar ao lado de outro, é correr para o abraço!

Normalmente, saímos só nos fins de semana, Luiz acorda muito cedo para trabalhar. Mas a rua está cheia todos os dias e não é raro ele se deparar com o povo com cara de ressaca chegando, quando ele está saindo de paletó e gravata! Bizarro!

Prefiro muito mais sair com ele, assim que, mesmo não tendo a obrigação de acordar tão cedo, costumo seguir sua rotina, com algumas exceções. Uma delas na semana passada, foi aniversário do Kabocla, bar que frequentamos e, de qualquer maneira, Luiz tinha um jantar de trabalho e nem estaria em casa.

Pensei, conheço um monte de gente mesmo e não me incomodo em falar com estranhos, vou sozinha! Toda independente! Depois que falei que ia, confesso que me desanimou um pouco esse negócio de ir só, é chato, né? Mas estava decidida e na pior das hipóteses, se não me sentisse à vontade, voltava. Acabou que uma amiga me ligou dizendo que ia também, beleza! Nos vemos por lá. Por via das dúvidas, levei meu caxixi, vai que me deixam tocar… É engraçado, porque minha bolsa sai fazendo barulho de chocalho e parece que levo um guizo pela rua para não me perderem, mas tudo bem. Os instrumentos, ainda que não os domine, me funcionam como amigos. Também não domino meus amigos e não me importa, não é necessário. Talvez sejam amuletos, o fato é que me fazem companhia. Prefriro meu djembe, que é mais forte, se estou eu e meu tambor posso tudo, mas com meu caxixi estava bem acompanhada.

Não demorou muitos segundos até encontrar rostos conhecidos e em minutos estava à vontade. E quando a banda, amigos de sempre, me chamaram para acompanhar, me senti bem vinda e fui para o meu canto aprender. Acho um privilégio conhecer tanta gente legal e simplesmente relaxo, disfruto e toco o que estiver ao alcance.

Pelas três da matina, volto eu a pé, sozinha pela rua, me sentindo bem. Sem medo, sem culpa, livre. Isso não é o máximo? Deve haver luxos e drogas mais intensas, mas para mim liberdade é especial e para poucos.

Na sexta saímos juntos para um show de um amigo na Bogui Jazz, uma sala que ficou fechada muito tempo nem sei porque, mas que os músicos tem muito carinho, por algum motivo será.

Fui pela primeira vez e pretendo voltar. Preciso dizer que a acústica de modo geral nos lugares por essas bandas é bem ruim. Mesmo no El Junco, que amo pelo ambiente e pela seleção musical, deixa muito a desejar. Pois o Bogui Jazz tem seus méritos técnicos, o que já interpretei como respeito.

Depois veio um show impecável de um amigo, que adorei! Fomos bem iniciados na casa. O interessante é que o acaso nos favorece. Chegamos cedo, pegamos uma mesa pela lateral do palco. Daqui a pouco chega nosso amigo que vai tocar e nos apresenta uma amiga que iria dar uma palhinha e nos pergutou se nos incomodávamos se ela ficasse pela nossa mesa. Claro que não! Chegaram mais duas meninas e se juntaram, não tínhamos nem idéia que uma delas era filha do amigo que tocava e também daria uma palhinha. Resultado, ficamos na mesa dos músicos! Maravilha! Encontramos conhecidos e ainda fizemos amizade com o garçon, que descobrimos que era brasileiro! Resumo da ópera, amigos novos e mais um lugar muito legal para frequentar.

De quebra, um insight interessante, observando a percurssionista, me dei conta do que porque gosto tão mais de percussão. Porque conceitualmente, é como cozinhar você vai adicionando os temperos e é possível corrigir. Há mais de intuição do que matemática. Não é patisserie. Fiquei contente com essa descoberta.

Dia seguinte, não podíamos acordar muito tarde pois havíamos combinado um almoço. E era um filet à parmegiana, vamos combinar que o assunto era sério! Não é que estivesse bom, estava di-vi-no! Me atraquei com a carne coberta de mozzarela e um arrozinho criminoso! Na sequência, fomos para uma terraza papear e ver o tempo passar.

Quando chegamos em casa, Luiz se enfiou debaixo das cobertas para que não restasse dúvida em relação se sairíamos àquela noite! Nem me atrevi a falar nada e me enfiei nas cobertas também! E não foi nada mau!

Dupla personalidade… digo, cidadania

Cheguei em Madri no dia 6 de abril de 2005 e cravados seis anos depois consegui minha cidadania espanhola. Jurei a bandeira exatamente em 6 de abril de 2011. Nada a ver com o processo, foi a mais pura coincidência, que para ser mais curiosa ainda, cai justo no aniversário do meu irmão.

E assim, da noite para o dia, era tudo tão igual e ao mesmo tempo completamente diferente. Renasci. Exagero? Prometo que não, um dia você é uma pessoa e no outro acorda diferente, uma cidadã.

Essa gigantesca diferença está em um fator bastante simples chamado oportunidade. Ter uma oportunidade não te dá nenhuma garantia, mas te abre uma porta para poder realizar se realmente quiser. E isso faz toda a diferença do mundo, porque te faz livre.

Tenho a sorte de possuir vocação para a felicidade, mas confesso que nos últimos três anos, por uma série de fatores, ela tem sido muito mais uma opção do que um fator espontâneo. Porque muitas vezes ser feliz é uma escolha que você pode tomar ou não. Pois agora, estou feliz porque sim, nem precisei escolher ou fazer força. E não importa por quanto tempo dure, porque a vida é assim e nunca tive a ambição que essa sensação fosse eterna.

Simplesmente, me sinto livre. É possível que a gente mude ou se mude, ou talvez siga estando exatamente no mesmo lugar, tudo bem. Mas agora essa decisão é minha (nossa). E isso é muito bom, essa é a minha natureza, é onde sei quem sou.

Só tem um probleminha, como passei a ter dois aniversários, sou uma brasileira de escorpião e uma espanhola de áries, fala sério, combinaçãozinha dos infernos! Vou ficar insuportável!