E no fundo, no fundo, como foi?

Muito bem, contei como foram as férias quanto aos acontecimentos, beleza. Mas e por dentro, digamos, psicologicamente falando, como foi? Ainda não tenho certeza, mas foi muito diferente das outras vezes.

Considerando que nossa papelada foi toda acertada por aqui, o Brasil, como qualquer país europeu, voltou para o ranking das possibilidades de novas mudanças. Na verdade, qualquer país do mundo, desde que eu possa trabalhar, mas no Brasil e na Europa estão as cidades mais viáveis.

Veja bem, que não se entenda que estamos de malas prontas, porque não estamos. Madri continua sendo nossa casa até segunda ordem. Tudo muito bem, tudo muito bom, só digo que já não precisamos mais obrigatoriamente estar aqui. Caso apareça oportunidade melhor, temos liberdade de escolha. Caso não apareça, seguimos e obrigada.

Mas o fato é que fui ao Brasil com o olhar de quem poderia voltar em breve e isso quer dizer que fui bem mais crítica e atenta. Foi confuso e ambíguo, como já esperava. Algumas coisas me davam vontade de voltar correndo e outras me provocavam rechaço. E porque não dizer, tive saudade de uma série de aspectos que vivemos por Madri e que acabamos por não valorizar tanto, afinal está logo ali.

Para mim, uma coisa ficou absolutamente clara, o que mais pesaria na decisão de ir (porque nunca se volta) para o Brasil é minha família, mais especificamente, meus pais e meu irmão. Não digo que não pesasse o restante da família e os amigos, também tem um peso considerável, mas não é o definitivo. Porque das outras pessoas sinto saudades, mas sei que minha presença física não é necessária, não afetaria significativamente a vida delas.

Principalmente as amizades, por mais profundas que sejam e exatamente as pessoas mais queridas, continuam amigas independente de onde a gente more. Nos encontrando com frequência ou não, sempre damos um jeito de manter o contato. Quando nos vemos ou nos falamos, é aquela sensação de que parece que foi ontem. E felizmente, temos grandes amigos onde quer que a gente more.

Em termos de qualidade de vida é difícil julgar. Tenho consciência que minhas exigências em relação a isso são muito diferentes do que as pessoas normais costumam esperar de uma vida tranquila. E Luiz é igual. A gente dá nosso jeito de ser feliz em quase qualquer lugar do mundo.

E o que mais pesa para ficar aqui? A segurança, a liberdade de caminhar pela rua sem armaduras de carros blindados. Viver sem o medo encarnado. Reclamo do lado provinciano madrileño, mas é bom sair pela noite sabendo que sempre encontrarei um rosto conhecido e se não encontrar, posso
simplesmente puxar papo com quem estiver ao lado.

Além do mais, chega a me impressionar o quanto mudou minha relação com o país depois que a nossa cidadania saiu. Como tudo do dia para noite passou a me aborrecer menos, me incomodar menos. E como foi boa a sensação de entrar na Espanha como cidadã européia. É uma fila de diferença, deveria ser só essa a diferença não? Mas não é, me senti parte de onde vivo e essa sensação é muito boa.

Continuo com certo espírito aventureiro, mas menos do que antes e menos do que Luiz. Quero a experiência, mas já não mais a qualquer custo. Entendi que não temos mais tanto tempo para apostar tudo e recomeçar, precisamos nos alavancar sobre o que já temos porque não vai demorar a chegar na curva descendente. O máximo que podemos fazer é adiar um pouco esse processo, mas ela vai chegar, chega para todos. Não quero uma velhice onde não possa escolher meus médicos, se é que alguém me entende. E sim, já comecei a pensar nisso, sem paranóias e sem pressa, já sei que ainda somos relativamente jovens e blá blá blá, mas é um fato. Temos mais uns quinze anos, no máximo, para garantir uma aposentadoria tranquila. Podemos trabalhar depois disso, mas o principal se alcançará nesse período.

Portanto, sendo curta e grossa, o que vai decidir nossos próximos passos de onde morar é o dinheiro. Simples assim. Calculista, né? Sinto muito por quem esperava algo mais poético e filosófico, mas é isso mesmo. Precisamos ter a cabeça fria e pesar os fatores com calma, mas financeiramente, precisa compensar e ponto final.

3 comentários em “E no fundo, no fundo, como foi?”

  1. Que bom que eu não sou a única que está pensando em um retorno a Patria Amada! Decisão tão dificil, carregada de emoções mas que no final tem que ser mesmo feita baseada na nossa vida qualificada e não na qualidade de vida.

  2. Hum, profundo.Independente da decisão, vc é querida em qualquer lugar e pessoas positivas atraem energias positivas. Aqui ou lá, boa sorte.

  3. 55 anos como marco pra garantir a possibilidade de uma aposentadoria tranquila também é a música que toca aqui em casa. E o fator de cada euro ganho vale aproximadamente 3 vezes mais que o real é um fator decisivo. Os 55 anos como horizonte tem como objetivo permitir ainda algum tempo pra aproveitar a vida sabendo que o futuro está de certa forma garantido. A decisão de onde envelhecer vai ser tomada considerando principalmente o aspecto de ter uma boa qualidade de vida com dinheiro suficiente no bolso. E isso quer dizer que até ter os meios pra uma aposentadoria segura fico por aqui.
    A impossibilidade de estar presente Brasil durante os próximos anos pra ajudar a família durante o seu processo de evelhecimento é um dilema muito grande. Mas vou fazendo o que posso à distância, pois presente poderia participar mais, no entanto não posso resolver os problemas mesmo estando por lá.
    Em relação o futuro, a segurança na Europa é um aspecto fundamental na balança quando se compara com o Brasil. Por outro lado, o comportamento frio das pessoas que na minha opinião é muito relacionado ao tempo frio por aqui, são aspectos que eu não desejo na minha velhice.
    Aonde vamos parar ainda não sei. Mas sei aonde vou estar nos próximos anos (e a razão pra isso). Tenho, assim como você, consciência dos bons e maus aspectos vinculados a essa decisão e tenho que viver com eles da melhor forma possível.
    Torço pra que o Brasil melhore nos próximos anos em termos de segurança e de consciência e luta das pessoas pelos seus direitos. Dessa forma se reduziria o gap que existente atualmente entre a Europa e o Brasil fazendo esse país cheio de alegria e beleza e repleto de parentes e amigos queridos ficar viável pra um final de vida feliz e tranquilo.

Seja bem vindo a comentar! Sua resposta pode demorar um pouco a ser publicada.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s