Celular: esse amigo imaginário chato e possessivo para adultos!

Eu já contei por aqui que quando era criança tinha amigos imaginários. Sim, no plural, não era um amigo, era toda uma galera imaginária!

Não sei porque eles apareceram, mas desconfio que em parte era porque me fazia falta companhia. À medida que fui crescendo eles foram sumindo naturalmente e não só porque parecesse maluco falar sozinha, mas porque passou a haver amigos de verdade ao meu redor. E eram bem mais interessantes.

Depois veio uma fase de jogos. Gostava particularmente de alguns que meu avô fabricava, até porque vê-los sendo construídos ou participar dessa elaboração era parte do pacote. Em algum tempo, o jogo em si passava a um segundo plano, porque era em parte um pretexto para nos juntarmos e começarmos nova brincadeira.

Logo vieram os vídeo games, mas nunca me convenceram muito. De certa forma, a tela da televisão passava a substituir outra pessoa. Os computadores também ocuparam esse lugar.

E podemos abrir uma lista de queixas e de vantagens que vieram com a popularização dos computadores, mas hoje gostaria mesmo de falar dos telefones celulares. Esses pequenos objetos que surgiram com o objetivo inicial de falar com outra pessoa, mas que sofreram um tipo de mutação genética e se tornaram computadores ambulantes.

É inegável, os celulares hoje em dia se parecem cada vez mais a computadores, englobam imagens, dados, jogos etc. O que nem acho ruim, mas é que, às vezes, tenho essa sensação que eles passaram a ocupar o lugar do amigo imaginário infantil, mas em uma versão aceita socialmente por adultos.

Vamos voltar o filme um pouco, repetindo, seu objetivo inicial não seria a comunicação, a interação? Porque na prática, os celulares estão paradoxalmente ocupando o espaço de alguém real e tornando as pessoas de verdade que estão ao seu lado em invisíveis.

Isso me irrita, às vezes me ofende.

Tenho o exemplo vivo em casa, um marido viciado em super celulares. Não é o único, ele é dessa categoria que recebe o celular do trabalho. Faz parte desse grupo que reclama eventualmente por ter que estar sempre disponível e não receber horas extras por isso, mas que no fundo, tenho certeza que gostam dessa situação. Afinal, tem desculpa melhor do que ter que checar o celular o tempo inteiro? Porque não há argumento mais incontestável do que: preciso checar, pode ser trabalho! Como você vai atrapalhar alguém que “pode” estar trabalhando?

Não importa que isso seja no meio do jantar, sábado às 22h, mas sabe como é, pode ser trabalho…

De tempos em tempos eu me rebelo, me nego a ser conivente com essa situação absurda e me recuso a ter aquela porcaria sobre a mesa todo o jantar. Daí ele se esforça em achar qualquer coisa que eu fale que precise ser checada imediatamente na internet, pelo celular é claro. Algo besta como, nossa está mais frio hoje, né? Sabe aquela frase que você diz para puxar assunto? Ah, para que? Motivo perfeito para resgatar o celular e me “ajudar” com a precisa informação da temperatura exata em três países diferentes. Bom, daí ele aproveita e dá mais uma checadinha se chegou algo novo nos últimos 90 segundos.

E fico eu jantando sozinha, enquanto ele busca informações metidas em seu amigo imaginário, para mim, é claro!

Também funciona para nossos amigos. Quantas vezes estamos em grupo e ele se enfia no seu universo paralelo e larga todo mundo falando sozinho. Quero morrer de vergonha da falta de educação, mas o problema é que é geral e já nem se considera mais como falta de educação.

Olho em volta e constato que ele não é o único. Quase todas as mesas tem sua própria tecnologia e seu ralo virtual. Infelizmente, o bicho raro sou eu.

Semana passada saímos em quatro pessoas, Luiz, eu e duas amigas, também da categoria mega profissionais que precisam muito estar conectadas 24 horas por dia. Por acaso, estava eu com meu celular também, digo por acaso porque ele costuma ser um excelente despertador, mas muito pouco usado. Nesse caso, elas poderiam se perder ou precisar de direções, então, o mantive comigo até elas chegarem. Meu primeiro impulso quando as vi foi justamente guardar o celular, afinal, já não era mais necessário. Sou dessa estranha parte da população que ainda acha estranho você ficar com sua atenção dividida quando interage com gente de verdade, lembra?

Bom, novamente, o bicho raro era eu. Porque os três trataram de posicionar seus celulares ao lado dos pratos, afinal poderiam receber chamadas muito importantes. E, lógico, podia ser trabalho…

Juro que chegou o momento em que Luiz pediu o código wi-fi. Nós em um excelente restaurante, um belo vinho, companhia agradável e… três pessoas com as caras enfiadas em celulares!

Estava desagradável? Não, gosto da companhia deles. Só me pareceu insano! Sem perceber, me escapou pela boca o que ressoava na cabeça: sou muito mais feliz!

E livre.

Quando quero companhia, viro para o lado, vejo quem tem cara de que também quer papo e pergunto alguma coisa estúpida como, nossa está frio hoje, né? E apenas espero que o interlocutor olhe para mim e responda qualquer besteira como, é, também achei…

7 comentários em “Celular: esse amigo imaginário chato e possessivo para adultos!”

  1. É verdade mesmo Bibis, eu NAO TENHO internet no celular e ele sempre esta na minha bolsa mas, as vezes nao o escuto… e se ja estou com quem eu marquei, ai sim que esqueço mesmo dele. Realmente ele nao é meu vicio. Ja na internet sou viciada sim, mas em doses controlaveis rsrs e ja que aqui em Madrid, que a gente mais usa a internet do que o telefone temos que estar ligadas na programaçao senao a gente perde rsrsrs. Esse video é realmente fantastico e diz tudo…

    Beijos reais pra voce chica 🙂

  2. Bi, concordo totalmente com vc!!!!Sou do seu time e muitas vezes meu celular toca e eu nem escuto!Como vc sabe, tenho 2 High techs em casa, q reclamam q eu nao atendo telefone…rsrsrsrs Bjs

  3. Bianca, fecho com vc em tudo….não existe coisa mais mal educada que telefone, seja fixo ou celular…eles tocam nas horas mais impróprias….invadem teu espaço e normalmente numa hora meio estranha, daí vc pensa: Aconteceu alguma coisa com alguém da familia, etc….Meu marido não trata assuntos de trabalho depois de um determinado horário e isso eu acho legal….tanto é que temos celulares, tipo pai de santo..só recebe! e não queremos saber de celulares de ultima geração.Me nego a ocupar meu cérebro com leitura de manual, etc,etc…vc tem que fazer um intensivo para saber operar esse amiguinho….
    Tô fora tbm.
    bj

  4. Pois eu tb faço parte desses “bichos raros” que usam o celular mais como despertador do que qualquer outra coisa. Quase sempre ele està metido dentro da bolsa, passo dias sem olhar pra ele e, qdo o encontro, é aquela sensaçao: “ahhhh, tu estava aqui …”
    Outra coisa em comum: aqui em casa o marido tb nao desgruda do aparelinho. Aonde ele vai o “bichinho” vai junto. Nos dias de TPM tenho vontade de atirà-lo pela janela (o aparelinho … o marido, sò de vez em qdo …rs). O pior sao as ligaçoes do trabalho por volta das 4, 5 da manha. Mas, faz parte …

  5. Bianca, gostei muito deste post. Você tem razão. Acho preocupante um mundo em que as pessoas preferem o celular à companhia de outras. Adoro observar o mundo, seja em que lugar eu estiver: shopping, avião, aeroporto, ruas, praças, cinemas… Mas infelizmente as pessoas não tem mais este hábito. Não se olha mais para o outro. Fico feliz de saber que você faz parte do grupo que prefere o mundo real ao mundo digital. Ah! O vídeo é maravilhoso…

  6. Ai Bianca isso foi um tapa em mim, hoje muito menos claro, me policio agora, mas uns tempos atras, eu mereceria umas belas broncas, mergulhava num mundo paralelo, esquecia dos outros, mudei bastante ainda bem. Atualmente acho feio, mas cada um sabe de si, já vi gente fingindo que usava o celular pra fugir de contato pessoal, e nao foi só uma vez, como disse cada um sabe se si e o que faz, mas tem horas que irrita e da vontade de tomar o bendito da mão e desligar, claro que nao faço isso, pois me controlo e olha que a tentação é grande, abraço.

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