A Confraria da Cachaça

Para quem não sabe, sou cachaceira de marca maior.

 

Nunca fui de cerveja, o que no meu tempo morando no Rio, não ajudava muito a minha vida social. Era bastante constrangedor quando o garçon chegava à mesa, contava as pessoas e dizia: “x” chopps! Daí lá ia eu, morrendo de vergonha dizer, não, eu não tomo chopp. E todo mundo me olhava como se eu estivesse dizendo a coisa mais estranha do planeta.

 

Vale ressaltar que nessa época, a oferta de vinhos era ainda bastante ruim. E Whisky não combinava muito com o verão carioca. Não me sobravam muitas alternativas.

 

Paciência!

 

Daí abriram a “Academia da Cachaça” e para mim foi ótimo ter uma opção de lugar onde eu não era um bicho esquisito. Aliás, por curiosidade, o primeiro bar que Luiz me levou quando saímos foi exatamente esse, porque ele também era frequentador.

 

Ou seja, que podemos dizer que a cachaça batizou nosso relacionamento e, de momento, 19 anos depois, não podemos reclamar.

 

Quando saímos do Brasil, dificultou seu consumo. São poucas as cachaças que chegam à Espanha e todas brancas. Temos uma barriquinha de carvalho, o que quebra bastante o galho, envelhecemos nossa própria cachaça. E, lógico, a cada ida de férias, a mala vem cheia.

 

Um dia, Luiz teve a idéia de montar a “Confraria Européia da Cachaça”. Nos juntamos com um amigo brazuca que mora na Suíça e começamos a brincadeira. Não temos fins lucrativos, mas tentamos reunir amigos que apreciem a bebida. E quem sabe, ajudando a difundir seu consumo, direta ou indiretamente a gente consiga incentivar que outras marcas cheguem à Europa.

 

Aqui em Madri, temos um amigo dono de uma coqueteleria que se interessou pelo tema. Também é um apreciador de cachaças. Então, começamos a promover alguns cursos e degustações no seu bar. O que a gente faz é apresentar 5 cachaças para serem degustadas, cada uma harmonizada com a respectiva “tapa”. Aqui chamamos isso de “maridaje”, feito normalmente com vinhos, mas que se encaixa à perfeição com as cachaças. Luiz faz a apresentação de cada bebida e conduz a palestra, e eu faço as comidinhas.

 

Degustamos o seguinte “maridaje”:

 

Começamos por uma cachaça branca. Normalmente, utilizadas para drinks, justamente por serem mais neutras que as envelhecidas. Ainda assim, aportam bastante personalidade. A cachaça ficou internacionalmente conhecida através da “caipirinha”, drink bastante popular no Brasil e cada vez mais pelo mundo. Mas existe uma série de possibilidades de outras combinações e não há limites para a criatividade em novos drinks. E a cachaça branca, também pode ser consumida pura. Aqui encontramos a “Velho Barreiro” e optamos por ela, acompanhada por um caldinho de feijão.

 

Seguimos com a Sanhaçu, envelhecida em Freijó. Madeira nobre que não altera muito as características da bebida (cor, sabor e aroma), sendo muito utilizada para o “descanso/repouso” das bebidas brancas, que adquirem com o freijó maior estabilidade dos seus elementos e compostos. O processo de “repouso” assenta a aspereza natural da bebida e a torna mais gostosa de tomar. Degustamos a Sanhaçu acompanhada de bolinho de tapioca com queijo. Sobre a cachaça, na Zona da Mata pernambucana, esta família trabalha com agricultura orgânica desde 1993, o que propiciou o retorno de animais silvestres como o teju, o coelho do mato e o sanhaçu ou sanhaço, pássaro que dá nome à cachaça. Com notas frutadas, de rapadura e de especiarias, é um pouco ácida na boca, deixando a boca bem enxuta. Por sua adstringência, a gordura do queijo dá o equilíbrio e combina bastante com o toque de rapadura.

 

A terceira foi a Salinas, envelhecida em Bálsamo. Famoso na produção da cachaça de Salinas, o envelhecimento em bálsamo deve ser muito cuidadoso. É de processo mais específico e pode deixar a cachaça com gosto de “madeira de marcenaria”. Já em boas mãos, propicia uma bebida vivamente amarelada, com gosto forte e marcante – muito atraente. Antigamente abundante na região de Salinas, foi usada por esses com maestria. A Salinas é uma cachaça premiada várias vezes, é suave e versátil, pode ser consumida pura ou em drinks. Há uma falsa idéia de que a cachaça só deve acompanhar aperitivos fortes, o que não é verdade. No caso da Salinas, pode perfeitamente se harmonizar, por exemplo, com peixe. Foi degustada com bolinho de bacalhoada.

 

A próxima foi a Magnífica, envelhecida em carvalho. É a madeira mais usada no envelhecimento, junto com o bálsamo, o jequitibá e a amburana. Por ser tão famosa há jeitos e jeitos de envelhecê-la aí: há cachaças mais claras feitas em carvalho, mas também há outras bastante escuras. Sem sombra de dúvida, uma das madeiras mais próprias ao envelhecimento de bebidas alcoólicas, o carvalho proporciona uma melhora na aguardente, encorpando-a e deixando cor e aroma marcantes e característicos. Muitas vezes se empregam tonéis em que já foram usados para envelhecer outras bebidas e, por isso, a cachaça adquirirá um sabor diferente, de acordo com o que tiver sido anteriormente armazenado neles (vinho, whisky, Bourbon etc). Já que muitos produtores utilizavam tonéis que uma vez envelheceram whisky, a cachaça curada nessa madeira é aquela que fica mais parecida com a bebida escocesa – mas com um grande sotaque brasileiro. O “maridaje” da Magnífica foi com bolinho de mandioca com calabresa. É uma cachaça de cor dourada, sabor suave e aroma perfumado. É envelhecida por 2 anos em barris de carvalho. Indicada para ser apreciada pura como aperitivo. A linguiça calabresa, assim como a mandioca estão bastante presentes nos aperitivos de bar no Brasil. Sua combinação harmoniza muito bem com o sabor do carvalho.

 

A quinta cachaça foi a Saliboa, envelhecida em Ipê. Da mesma forma que outras madeiras como o jatobá, o ipé empresta à cachaça um tom e um sabor bastante pessoais. Sua cor chega a um alaranjado escuro, e o sabor fica bastante peculiar e muito atrativo para aqueles de personalidade forte e que buscam prazeres igualmente profundos e marcantes. Foi acompanhada de doce de tapioca com côco. Com uma produção anual de 30 mil litros, é intensa e persistente no aspecto olfativo, com notas de fruta, flor, madeira e especiarias. Na boca, é leve, de acidez equilibrada e macia, destacando a forte presença de canela. Muito boa na harmonia geral. É comum as pessoas degustarem a cachaça com “salgados”, mas também funciona muito bem como digestivo, ao final da refeição com doces (como um “orujo”). A Saliboa poderia ter sido harmonizada perfeitamente com um aperitivo salgado, com os torresmos, por exemplo, mas queríamos mostrar outras possibilidades para a bebida e foi bem recebida assim.

 

Nossa degustação acabaria aí, mas Luiz resolveu adicionar um “bônus” e degustamos também a Ypioca 160, que tem um sabor que lembra razoavelmente a um whisky.

 

Atrevo-me a dizer que foi um êxito total! Fizemos no dia 15 de março, na Belmondo Coqueteleria. O local é pequeno, charmoso e aconchegante. Não cabe muita gente e lotou! Tanto as cachaças quanto as tapas fizeram bastante sucesso e o pessoal pareceu se divertir bastante. Verdade que à medida que o álcool circulava pelo cérebro o grupo ficava mais animado, mas todos saíram bem de lá. Não era nossa intenção embebedar ninguém.

Para mim, também não deixou de ser uma experiência com catering e adorei! Estou pensando seriamente em montar um curso de tapas em casa mesmo, mas já veremos.

 

Enfim, ainda não sabemos quando será a próxima, mas já tem fila de espera. Assim que vamos fazendo nossa parte em converter mais e mais cachaceiros pelo mundo!

8 comentários em “A Confraria da Cachaça”

  1. Meu Deus!!!
    Vc conseguiu me dar a sensação de curso por correspondência!!! Claro q sem os benfícios da degustação… gostaria muito de participar do Curso de Tapas, qdo for realizado no Rio :o)…. bjs e cuidem-se!!!

  2. Olha, também me candidato pro curso carioca 🙂
    Fiquei com àgua na boca … pelas cachacinhas (tb sou cachaceira …rs) e pelas tapas … hummmm
    Bjos!

  3. Na-na-ni-na-não! Tem que vir aqui em Madrid! 😀 Tá bom, tá bom… faço uma no Rio e chamo vocês! Besitos

  4. E a degustação na Alemanha. Talvez o Peter como grande apreciador de cachaça que se tornou finalmente se anime e funde a confraria por aqui.

  5. Oi. Eu tenho um site para valorizar a história e a cultura da cachaça. Estamos viajando pelo Brasil documentando alambiques. Adorei a sua experiência com cachaça na Europa. Muito legal. E vcs entedem bastante de degustação, aprendi coisas novas com o seu post. 🙂 grande abraço.

  6. Oi, Felipe! Obrigada! Passei lá no “mapadacachaça” para conhecer, bem legal! Sempre bom conhecer outros apaixonados pelo tema 😉 Se vier pelas bandas espanholas, avisa a gente que fazemos um encontro cachaceiro!

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