O gênio, o caos e o Rex

Tem aquela piadinha meio fraca, do judeu que encontrou uma lâmpada mágica no meio do deserto. Esfrega a lâmpada e o gênio pergunta qual o pedido. Jacob pede a paz no oriente médio. O gênio diz que esse é um pedido muito difícil, se não haveria outro menos complicado. Então, ele entrega uma foto da esposa e diz que gostaria de sentir novamente desejo por Sarah… O gênio olha o retrato, pensa, vira de cabeça para baixo… e com aquela cara de quem não sabe nem por onde começar, pergunta novamente: escuta, Jacob, como era a história da paz no oriente mesmo?

 

Pois é, atualmente, quando alguém me pergunta como vão as coisas, me sinto como o gênio frustrado da lâmpada e não sei nem por onde começar…

 

Outras coisas nem me sinto no direito de contar, pois tocam a outras pessoas e sempre fui bastante séria em não pintar um “x” vermelho na testa de ninguém, além da minha própria.

 

Então, vamos ao que me tocou entre toda essa confusão.

 

Final de semana passado, fomos à Suíça. Luiz tinha que trabalhar na segunda-feira e eu peguei uma carona para aproveitar a viagem. Daí, fomos no sábado bem cedinho para tentar dar uma relaxada no fim de semana.

 

Não é que as coisas estivessem de todo tranquilas, mas a questão é que já vivenciamos esses problemas de saúde paternos há alguns anos e fomos aprendendo a administrar. Há coisas que são urgentes e outras que podem durar meses ou anos, assim que não se pode parar a vida e, simplesmente, esperar.

 

Se há uma chance de tomar fôlego, a gente procura desfrutar. Aprendi que isso ajuda e muito a recarregar as baterias para momentos realmente difíceis. Já disse e repito, uma guerra grande se ganha em pequenas batalhas, cada vitória precisa ser celebrada e uma derrota nem sempre significa guerra perdida.

 

Dito isso, a verdade é que aproveitei bem o sábado, passeamos pela beira do lago, comemos bem e o jantar foi bastante especial, até porque era nossa comemoração de aniversário do Luiz. Fomos ao La Table d’Edgard, um estrela Michelin com vistas para o lago e os Alpes. Lógico que comi e bebi de maravilhas!

 

Engraçado que a Suíça tem fama (merecida) de ser monótona, um fazendão! Mas por algum motivo, nessa noite Lausanne estava bombando! A rua cheia de gente, DJ tocando ao ar livre… verdade que era um público bastante jovem, mas normalmente não me esquento muito, me adapto à paisagem!

 

Muito bem, domingo acordamos cedo, fizemos um passeio a pé pelo centro da cidade e pela hora do almoço, encontramos com um casal de amigos que nos levou para comer em Lutry, uma cidadezinha super charmosa e, para variar, a beira do lago.

 

Quando eles nos deixaram no hotel, ainda fomos até Vevey, passear um pouco de carro e caminhar pela orla.

 

Não saímos tarde para jantar, afinal, além de estar na Suíça e os horários serem bem mais estritos que Espanha, Luiz precisava acordar muito cedo no dia seguinte. Sua primeira reunião era às 8 da matina. Eu ficaria no hotel um pouco mais e logo ia fazer hora passeando pelas ruas ou pegaria um barco a Montreaux. Ele voltaria no início da tarde e partiríamos com calma para Genève, de onde sairia nosso avião.

 

Olha que organizadinhos nós somos, né?

 

Pois é, no meio do jantar, com esse espírito de tudo tranquilo, recebemos uma ligação da irmã do Luiz, dizendo basicamente que meu sogro seria operado naquele dia, minha sogra estava com pneumonia em estado grave e ela, minha cunhada, com 39 graus de febre indo para um hospital em Zurich (onde ela mora).

 

Hein? Tudojuntoaomesmotempo! Por onde a gente começa?

 

Vamos pensar com calma. A gente, nem com toda boa vontade do mundo, conseguiria chegar no Rio hoje. Precisaríamos voltar a Madri, onde inclusive nosso carro estava estacionado no aeroporto, e de lá pegar um voo para o Brasil. Além do mais, as informações ainda estavam muito picadas e vai que o quadro não era exatamente esse?

 

Perguntei ao Luiz, você quer que eu vá para Zurich ajudar sua irmã? Você faz a reunião que precisa fazer e, se ainda for o caso, vai para o Brasil.

 

Acontece que já estava meio tarde, perto das 21h e não havia mais trens ou ônibus para Zurich. Nós estávamos com um carro alugado. Então, Luiz resolveu que íamos os dois para lá, de carro, são mais ou menos 3 horas de viagem.

 

Ligou para a pessoa que faria a reunião, explicando a situação, cancelou tudo, arrumamos nossas coisas, fizemos o check out meio às pressas do hotel e nos mandamos para Zurich pelas 22h.

 

Outro pequeno detalhe, como inicialmente nossa viagem era simples, uma meia hora entre Genève e Lausanne, Luiz pegou um carro pequeno, sem GPS e com limite de quilometragem.

 

A gente usou o celular do Luiz como GPS, o que para uma distância curta e sem pressa não era nenhum problema.

 

Acontece que agora estávamos no meio da noite, indo para Zurich, onde metade da estrada fala francês e o resto alemão! E minha cunhada nem mora exatamente em Zurich, e sim uma cidade próxima.

 

Beleza, o que não tem remédio, remediado está. Pegamos o celular como GPS novamente, o que não seria um grave problema… se ele não estivesse só com dois pontinhos de bateria. Porque vamos combinar, lei de Murphy é infalível!

 

Assim que pegava as indicações principais e sempre que a próxima entrada ficava meio longe, desligava o telefone para economizar bateria.

 

Sim, chegamos direto, mas o celular já sinalizava que a bateria estava acabando quase na porta da minha cunhada. Chegamos pela uma da manhã. Sabe-se lá com quantas multas por velocidade na bagagem. Mas francamente, era o que menos importava.

 

Foi bom termos ido, acho que minha cunhada se sentiu mais apoiada e melhorou rapidamente. A febre baixou e a voz ficou melhor. Acho que nessas horas, quando a gente está sozinha e fragilizada, os problemas sempre são maiores do que parecem, e vamos combinar, que não eram exatamente pequenos.

 

Fazendo uma longa história curta, ficamos até às 5 da matina acordados resolvendo pepinos, alguns mais intragáveis que outros. Mas fomos dormir sabendo que meu sogro não seria operado naquele momento e que minha sogra havia conseguido ser internada e não estava ainda com pneumonia. Sim que tinha uma infecção que precisava ser cuidada, mas era bem melhor do que o quadro que nos pintaram inicialmente.

 

Eu mesma, não resolvi nada diretamente, meu papel era muito mais dar apoio e tentar estar lúcida para ter ideias, caso fosse necessário.

 

Bom, com a história encaminhada e a irmã mais tranquila e melhor de saúde, resolvemos voltar no dia seguinte e tentar cumprir com a agenda inicial da melhor maneira possível.

 

Luiz, acordou cedo, ligou para Lausanne e perguntou se era possível fazer as reuniões canceladas na parte da tarde. O outro lado, que entendeu a situação, disse que se não todas, pelo menos boa parte delas.

 

Muito bem, então, lá fomos nós correndo para Lausanne de volta, com o GPS improvisado no celular do Luiz. Felizmente, agora com a bateria carregada. O local que íamos não era exatamente Lausanne, era uma cidade minúscula nos arredores. Assim que não havia, por exemplo, um shopping, um restaurante ou alguma praça para eu ficar andando e fazendo hora. A empresa em si era bem moderna e francamente, não combinava com o contexto de gramado e vacas ao seu redor.

 

Mas já não havia tempo do Luiz me deixar em Lausanne e voltar, assim que Bianquinha se instalou na cantina da empresa e esperou a tarde inteira por ali. Por sorte, com meu Ipad (carregado) a tiracolo.

 

Pelas 17h, Luiz conseguiu terminar todas suas reuniões, o que me deixou muito mais aliviada. Acontece que antes das 21h saía nosso avião… de Genève!

 

Lá saímos nós, praticamente voando baixo, de carro para o aeroporto de Genève. Sem direito a errar o caminho, porque estávamos bem curtos de tempo, ainda teríamos que abastecer e devolver o carro.

 

Foi um pouco tenso, mas conseguimos! Quem me disser agora que a Suíça é monótona, vou perguntar: para quem, cara-pálida? Porque, aparentemente, escolhi a opção Suíça com aventura! Por mais paradoxal que essa frase soe!

 

Não tivemos problemas nem demoramos nos processos de segurança, assim que por incrível que pareça, ainda nos sobrava uma hora antes do avião decolar… e uma fome do caramba!

 

Mas alguém acha que queria me conformar com um sanduba meia boca? Vamos ver se tem algum lugar decente para comer aqui dentro. E tinha.

 

Sentamos em um Caviar House da vida, comemos bem e com uma boa taça de vinho branco na temperatura perfeita. Como disse, se podemos celebrar, não perdemos nenhuma chance. E vamos combinar, tudo que poderia ter dado errado e não deu! Valia um vinhozinho, não?

 

Considerando que dormimos cerca de 3 horas durante a noite, o dia não foi de todo simples e levava duas taças de vinho na cuca… nosso diálogo durante o voo não foi exatamente longo. Luiz apagou na decolagem e eu, que nunca durmo em avião, bem que dei minhas cabeçadas.

 

Muito bem, chegamos finalmente a Madri e a tendência era que as coisas se acalmassem. Mas a verdade é que não cheguei a relaxar, porque sabia que mais cedo ou mais tarde alguma bomba ia estourar.

 

Logo no começo da semana, começou o zum zum zum de Luiz e a irmã de quem poderia ir para o Rio para ajudar. Nenhum dos dois podiam, o nome na sequência era o meu. Será que eu podia?

 

Veja bem, poder, até posso, não me importo com a trabalheira em si, a questão é que não teria autonomia de decisão, e essa história é bastante complicada para explicar agora. Daí pintou a possibilidade da irmã ir e eu também, para apoiar o processo.

 

Cancelei minhas aulas na Le Cordon Bleu (outra história que vai ficar na manga, depois eu conto) e as sessões de cavitação. Porque poderia viajar a qualquer momento.

 

Outro pequeno detalhe, tinha hóspede programado para chegar na sexta-feira e eu sem saber se avisava para ele o tamanho da encrenca!

 

Acabou que chegaram a conclusão que seria melhor o Luiz ir, a presença de todos os filhos estava sendo requisitada e tal. Sendo que a irmã ia primeiro.

 

Recebemos nosso hóspede e para falar a verdade, achei foi bom. Mudou um pouquinho o foco das conversas, a gente foi encontrar com a sua filha, que também é nossa amiga e mora no Brasil. Aliás, esse foi o motivo dele sair da França para cá, encontrar a filha, que estava de passagem por Madri.

 

De maneira que, apesar do turbilhão, o fim de semana foi bem agradável, outro fôlego.

 

Mas não havia acabado. Começo da semana, com minha cunhada já no Rio, o caldo entorna novamente! Outra crise carioca daquelas que você não sabe por onde começar. Lá vamos nós na montanha russa…

 

E nesse vai-não-vai-quem-vai, acredito que vamos os dois para o Rio no próximo fim de semana. Digo acredito, porque a cada dia os planos mudam e nunca sei o que vou fazer.

 

Fico bastante incomodada, porque em boa parte dos casos, me sinto impotente e é uma mistura de sensações. Há um lado que talvez seja egoísta, afinal também tenho meus planos e atividades que estão empacados. Com esse inferno de “a qualquer momento” que me persegue ao longo da vida, me paraliso. Há um lado de raiva, de ver que apesar dessa cruz ser pesada, não precisava ser tanto se não lhe pendurassem problemas desnecessários, brigas e discussões sem sentido. Há um lado de pena pelos meus sogros e, em outras situações, pelos meus pais, que merecem apoio e nem sempre a gente consegue estar presente. E o pior de tudo, ver Luiz triste e sem dormir direito.

 

E me considero com sorte, porque há anos me livrei da culpa e aprendi o perdão. Menos duas cargas pesadas para ter nas costas. Ainda assim, é duro.

 

Eu sei que tem família e amigos dispostos a nos apoiar, e de uma maneira ou de outra, sinto que estão ao redor. Mas nesse momento, não há muito o que dizer ou fazer, às vezes até elejo a distância, quase prefiro conversar com estranhos, assim posso me limitar a assuntos banais.

 

Na prática, atualmente, só me resta ser o “Rex”. O cão que não tem poder de decisão, mas está prontinho para ouvir o comando: pega Rex!

 

E aí do pescoço que se meter no caminho…

Baixando a poeira e pé na estrada

Acho que o temporal passou (isola!), ainda há sinais de alagamentos e os raios de sol são meio fraquinhos, mas enfim, as coisas parecem melhorar.

 

Sigo sentindo falta do Jack, mas já não tenho vontade de chorar em todas as vezes que falo nele. De certa maneira, nossas preocupações com a família ocuparam esse lugar.

 

Meu pai saiu relativamente rápido do hospital, o que foi um alívio e tanto. Mas minha sogra não tem muita previsão. Fisicamente, ela está bem, o que também é uma notícia favorável, mas psicologicamente, a cabeça ainda está meio bagunçada. É necessário esperar, ter paciência.

 

De toda maneira, não tínhamos muito o que fazer nesse sentido e nossas passagens para Londres estavam compradas. Luiz precisava ir a trabalho e eu não tinha porque ficar em Madri sozinha.

 

Não escolhi estar na situação em que estou agora e não estou comparando, porque quem compara sempre perde, mas o fato é que não tenho filhos, nem gravidez, nem gatos. Estou totalmente livre. Isso tem um lado horrível, é verdade, mas também há um lado muito positivo que resolvi tentar aproveitar.

 

Atualmente, posso simplesmente trancar a porta, sair e voltar quando bem entender! E confesso que, mesmo em meio a todo esse tufão, a sensação foi boa. Ela é relativa e temporária, mas é minha e desfrutei.

 

Luiz e eu fomos juntos para o aeroporto, mas estávamos em voos separados. Minha passagem foi comprada depois da dele e, por isso, não havia mais lugar no seu avião. Mas tudo bem, porque nossos horários não eram tão diferentes, o meu saía uma hora depois do dele.

 

Luiz tem uma falta de sorte impressionante com horários de vôo. Não sei o que ele arruma que seus aviões nunca saem na hora! Resultado, ainda que meu vôo estivesse marcado para uma hora depois do dele, acredite se quiser, saiu antes! Minha mala chegou rápido, tudo certo. Fiquei em Heathrow esperando por ele mais de uma hora, porque o vôo atrasou, a mala atrasou… tudo atrasou!

 

Não tem problema, chegamos sãos e salvos no hotel, que ficava bem centralizado. Mas por volta da meia noite, quando conseguimos nos acomodar, já não havia grandes programações nos arredores. Felizmente, ele havia comprado uma garrafa de vinho no aeroporto e tomamos uma tacinha no próprio quarto.

 

O bom de viajar para uma cidade que você já conhece é não ter nenhuma pressão em precisar fazer os programas turísticos “imperdíveis”. Queria apenas curtir a cidade com calma e relaxar com Luiz.

 

Na verdade, havia só um lugar que queria ir de todo jeito, que era a Tate Modern. E assim fizemos, acordamos relativamente cedo, tomamos um café com calma pela rua e saímos a pé em direção à Tate. Era uma boa caminhada, mas a temperatura estava agradável e é justamente caminhando que aproveito mais os lugares.

 

Passeamos por Covent Garden e logo em seguida, avistei uma vitrine que dizia “Champagne + Fromage”. Parei para fotografar meu conceito de paraíso: a combinação de champagnes e queijos! Luiz resolveu olhar a loja, daí já viu, né? Ajoelhou, tem que rezar. Ao invés de parar em algum restaurante para almoçar, preferimos resolver o assunto ali mesmo.

 

Seguimos nossa caminhada até achar a bendita Tate Modern, que adoro. Tentei não prorrogar tanto a visita, para Luiz não ficar muito entediado. Acho até que ele gosta, desde que eu não resolva morar nas salas de exposição.

 

Voltamos caminhando também, mas ele já estava meio cansado, queria pegar o metrô, coisa que felizmente não encontramos. Achamos algo muito melhor, um taxi-bicicleta!

 

Vai um cidadão pedalando um tipo de mini charrete, para duas pessoas. É bem mais barato que o taxi tradicional, mais ecológico e, convenhamos, muito mais divertido e agradável!

 

À noite, temos uma amiga que estava morando por lá e combinamos com ela de ir a um Pub. Bem próximo ao hotel, havia um que me deixava com vontade de conhecer, o Northumberland Arms. Parecia um Pub normal, mas tinha um aviso como propaganda na porta que adorei o texto, algo como “excelente comida, extraordinário serviço, fantástico ambiente…” e por aí seguia. Achei tão otimista que valia a pena comprovar, né?

 

Enfim, nos encontramos por lá e foi bastante agradável. Eu estava com uma lombriga desesperada por comida de pub! Me atraquei com uma porção de peixe à milanesa e um Mac and Cheese! A dieta foi para o saco, paciência! E até que estava gostoso.

 

Aliás, aí está uma coisa que gostaria de ressaltar, a comida de Londres melhorou radicalmente desde a última vez que estive por lá.

 

Não dormimos muito tarde. No domingo, marcamos com essa mesma amiga de ir passear em Greenwich. Almoçamos com ela e passamos o dia juntos. Chuviscou um nadinha de nada e não chegou a atrapalhar nosso programa.

 

O jantar, Luiz havia reservado no Nobu, um asiático show de bola! Ele já conhecia, eu não. Achei excelente! Destaque especial para a degustação de sake e o tartar de touro com caviar.

 

Na segunda-feira, nos dividimos. Porque Luiz tinha que trabalhar um pouco, sua irmã tentaria nos encontrar e no fim da tarde ele seguia para outro hotel. Na verdade, ele foi para lá a trabalho, só aproveitamos o fim de semana mesmo. Seu treinamento começava na terça pela manhã e ele já precisava dormir no mesmo hotel do restante do pessoal da empresa na própria segunda.

 

Como não tínhamos idéia de que horas sua irmã passaria para nos encontrar e ele estaria ocupado, marquei com minha amiga de Londres da gente passear no Victoria’s Park e almoçar em um restaurante vietnamita, que me esqueci do nome, mas também era bem legal. O dia estava perfeito, o maior sol, nem parecia a cinzenta Londres.

 

Nisso, a irmã do Luiz chegou e eles foram almoçar. E nós voltamos para o hotel para encontrar com eles. Foi bem rápido, só deu realmente para me despedir dos dois. Mas de certa forma, acho que foi bom eles terem um tempo sozinhos para conversar sobre a mãe e se ajudarem a decidir detalhes. Eu sou e me sinto parte da família, mas não é a minha de sangue, e procuro interferir o mínimo possível.

 

A irmã do Luiz deu carona para seu novo hotel, em Windsor e fui com minha amiga tomar um autêntico chá das cinco.

 

… que de autêntico não teve nada! A gente não conseguiu achar o lugar que íamos nem a pau! Cansamos, achamos outro lugar que parecia legal e que também tinha chá. Mas quer saber, que Mané chazinho, tomamos foi uma bela de uma champagne! Sanduíche de pepino? Nada, comi um mil folhas delicioso e minha amiga uma èclair divina!

 

De lá ela ainda me acompanhou até o hotel e seguiu seu caminho. E eu também já fui para o hotel arrumar minha mala e deixar tudo encaminhado para o dia seguinte.

 

Na terça-feira, ainda tive tempo de tomar um café com calma pela rua e peguei um taxi para o aeroporto às 12h. Luiz já tinha deixado reservado para mim.

 

Cheguei no aeroporto meio que na hora do almoço, meu vôo saía às 15h. O aeroporto de Heathrow tem boas opções para comer. Aliás, acho esse um mercado com bastante espaço para se desenvolver, quase todo aeroporto que vamos, com raras exceções, a comida é um lixo!

 

Ali também tem lanchonetes normalzinhas e são as que mais enchem. Mas quer saber, eu gosto de me cuidar muito bem! Meu luxo é na comida e bebida, no resto, francamente, nem faço tanta questão.

 

Daí fui no restaurante do Gordon Ramsay e comi mais que decentemente! Uma sopa de cebola cremosa divina e uma costeleta de porco com ervilhas bem suculenta. Com vinho, é lógico! Tinha tempo!

 

Enquanto estava por lá, o cliente do meu lado pediu uma bolsa térmica que fiquei curiosa. Havia visto delas quando entrei no restaurante. Na mesa, vi um folheto com outro cardápio pequeno, escrito “Plane Food” (comida de avião). Fiquei curiosa e perguntei ao garçon do que se tratava e é exatamente isso, comida para levar no avião. Eles tem uma pequena bolsa térmica, onde você escolhe entre algumas opções uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Custa ao redor de $13 libras e inclui a bolsa térmica.

 

O vôo da Ibéria Londres-Madrid não tem direito à refeição. Você pode comprar se quiser, dentro do avião. Mas costuma ser fraco e caro. Não tive dúvidas, nem estava com fome, mas comprei minha marmitinha chic!

 

No avião, não aguentei comer tudo, mas o que sobrou, ficou para meu jantar. Afinal, chegaria sem nada em casa. Fora que achei muito legal esse negócio de fazer pic nic aéreo!

 

Muito bem, cheguei em Madri no fim da tarde e voltei dirigindo para casa. Havíamos deixado o carro no aeroporto. Dava menos que se tivéssemos que pagar os dois taxis. O GPS me deu o caminho mais louco possível! Acho que fiz Barajas-Las Rozas via Bangladesh! Mas cheguei.

 

Ruim vir sem Luiz, mas ainda estou naquela fase de redescoberta da vida independente. Aproveitei esse par de dias para dar uma ajeitada na casa.

 

Hoje é aniversário dele, quinta-feira, dia 6 de setembro. Mais tarde vou buscá-lo no aeroporto de carro. Vamos ver por onde o GPS me manda agora, né?

 

Vai ficar tarde para comemorarmos hoje, assim que amanhã a gente faz um jantarzinho a dois para celebrar.

 

E no sábado pela manhã, pé na estrada outra vez. Vamos para Suíça! Mas essa história, vai ficar para semana que vem…

Entre calmarias e tempestades

Entre a saída de Madri e a volta para casa, ficou um hiato perdido, as férias no Rio. E a verdade é que foram ótimas e bastante aproveitadas.

 

Por lá, não queria perder tempo sentada escrevendo. Meu plano era chegar aqui e começar a contar tudo com calma. Mas logo de cara perdemos ao Jack, que parecia estar apenas esperando que a gente voltasse.

 

Depois fiquei sem vontade de falar ou escrever nada. Para ser sincera, só me dava vontade de dormir e, às vezes, dar uma ajeitada no apartamento novo. Até meu vício, que é a internet, diminuiu radicalmente.

 

Mas também não quero fazer drama, sei que são só momentos que vem e vão e a gente tem que aprender a respeitá-los.

 

Então, como um exercício de sanidade, vou voltar no tempo um pouco e contar o que passou nesse período, cronologicamente.

 

Chegamos ao Rio no dia 26 de agosto. Meu irmão e minha mãe nos esperavam no aeroporto. É o único lugar do planeta para o qual viajo com o número de bagagem que tenho direito. Porque sempre viajamos o mais leve possível, mas para o Rio não dá!  E, obviamente, tudo contrabando de comida! Vou com jamón, fuet, azeites… volto com cachaças, carne seca, paio, costelinha defumada… e, claro, com algumas poucas peças de roupa para acomodar as encomendas.

 

Por quase todos os dias, o plano era família durante o dia e amigos à noite.

 

Como sempre, é muito difícil a gente conseguir visitar algum amigo em sua casa. Nas primeiras vezes que íamos, não era raro que a gente marcasse, mas no dia acontecesse algum imprevisto e nos ferrasse os planos. Além do que, se íamos à casa de um, mas não na de outro, já viu, né? Quer saber, instituímos como regra: sinto muito, mas não vamos à casa de ninguém! Marcamos em algum bar, avisamos por Facebook e quem quiser e puder aparece! Não é infalível, mas funciona bem melhor assim.

 

Além do mais, vamos sem carro, por isso, preferimos sempre marcar as coisas pelas redondezas. Vamos combinar, nós atravessamos um oceano literalmente para estar ali, certo? Quem quiser nos ver, que pegue seu carrinho e atravesse algumas ruas, estou errada?

 

O fato é que adoro rever as pessoas e as que se dispõem a sair um pouquinho da sua rotina e nos encontrar são extremamente bem vindas!

 

Não me sinto tão distante, a internet encurta bastante os caminhos e me sinto participando da vida da família e dos amigos e eles participando da minha. Para quem mora em outro país, as redes sociais ganham outra dimensão. Mas para ser muito honesta, sinto falta de ver as pessoas ao vivo e a cores! E se tenho essa oportunidade, aproveito e curto mesmo.

 

Posso dizer que essa viagem foi aproveitada em todos os sentidos. Em relação à família, esperava até ter um pouco mais de trabalho. Nossos pais seguem envelhecendo, como nós mesmos, e sempre é uma incógnita se, ao estarmos aí, vamos passear em algum restaurante ou hospital.

 

Meus pais estavam bem, dentro do possível. Minha mãe me parece um pouco cansada e precisando relaxar mais, mas entendo que é complicado. Meu pai segue dando trabalho com sua indisciplina alimentícia, mas para ser sincera, quem sou eu para julgar? O que mais na vida lhe dá prazer além de comer bem? Será que eu não faria igual? Eu já desisti de me sentir culpada por isso. Se estivesse morando ali, ele estaria comendo o mesmo e minha mãe continuaria meio cansada. Lógico que o apoio da presença ajudaria, mas não resolveria. Aprendi simplesmente a aceitar e a estar disponível quando o calo aperta.

 

Acho até que quando vou, eles seguram um pouco a onda. Minha mãe procura reclamar menos e meu pai faz-de-conta que é um pouco disciplinado, tenta não abusar tanto. Assim a gente consegue aproveitar melhor o tempo, que sabemos que é curto.

 

Não fazemos grandes programações, além de estar mais em casa, almoçar juntos e coisas desse gênero. Entendi, ou me pareceu, que no final das contas, importa mais estarmos juntos em atividades rotineiras, que lembrem o estilo de vida que tínhamos quando ainda éramos crianças e morávamos ali.

 

Com os pais do Luiz, as coisas andavam um pouco mais complicadas. Seu pai vem se recuperando, mas precisa de bastante ajuda. Sua mãe estava cansada, triste e distante. Ainda assim, tivemos bons momentos. Dentro do quadro, achei que meu sogro se recuperou mais do que imaginava, seguia com certa atitude positiva e uma lucidez que nem esperava.

 

Um dos dias que estive por lá, chamei minha mãe e minha sogra para um chá da tarde. Também foi uma amiga da minha mãe que gosto muito. Era uma maneira de tirar minha sogra desse ambiente de médico, enfermeira, doença… enfim, sair um pouco do contexto. Ao mesmo tempo, passar uma tarde com minha mãe era bastante agradável. Fomos ao Julieta de Serpa, uma casa de chás bastante refinada na Praia do Flamengo. Elas escolheram um dia que havia apresentação de músicas italianas. Vamos combinar, que as músicas não eram exatamente o meu forte, mas se elas estava felizes, eu também estava! E a verdade é que a apresentação era muito bem cuidada.

 

Vivo brincando que em uma relação é importante que haja uma cigarra e uma formiga, por isso, corri e gritei primeiro: Cigarra! Cigarra! Por outro lado, a cigarra também tem suas responsabilidades e cumpro direitinho com as minhas!

 

Resumindo, desde que chegamos até sairmos do Rio, não houve nenhuma grande alteração ou preocupação com os nossos pais, fora as de sempre. E isso é algo que já me vale as férias! Consigo relaxar e curtir também o restante da família, os amigos e a cidade.

 

E foi o que fiz.

 

Meu irmão está namorando sério e gostei da minha cunhada. Nessas coisas não há nada garantido, mas há bons começos e é o caso. Achei ele mais equilibrado e, principalmente, feliz com a relação. E, nem que fosse só por isso, já teria minha simpatia. Fico na torcida para que seja o melhor para os dois.

 

Minha mãe fez em casa um lanche para a família, que acabou virando uma festa! Minha família é muito bagunceira e festeira, honro minha origem. Achei ótimo, porque assim consegui ver bastante gente. Como disse antes, é difícil sair visitando de casa em casa, ainda que, às vezes, me bate essa vontade.

 

Também fomos a vários bares e, aos poucos, conseguimos ver a maioria dos amigos.

 

Alguns encontros bem diferentes, um deles, com mais dois casais de amigos que vivem aqui em Madri e, por coincidência, estavam de férias no mesmo momento. Foi meio bizarro fazer um encontro madrileño em plena Urca, mas bastante divertido. Ao longo da noite, chegaram amigos cariocas para aumentar a mesa.

 

Outro encontro bastante marcante foi com o pessoal que estudou comigo no segundo grau, em Brasília. Fizemos um encontro no Rio, reunindo não toda turma, afinal, a maioria segue morando em Brasília, mas com bastante gente querida que não encontrava há apenas 26 anos. Fiquei até nervosa no dia, mas a conversa fluiu naturalmente.

 

O único detalhe é que enchi a lata de cachaça, afinal é só o que bebo quando vou ao Brasil. Fala sério, o preço de vinho por lá é uma barbaridade! E cachaça boa é super difícil de se encontrar por essas bandas. Assim que minha escolha não é nem difícil!

 

Minha fama de boa bebedora me precede e, de modo geral, mantenho razoavelmente a classe. Pois é, mas com a emoção do momento, acho que desceu diferente, comi pouco, sei lá, fiquei lararí larará e liguei para Luiz ir me buscar! Ele, por sua vez, estava com amigos de colégio e também havia chutado o pau da barraca, mas estava melhor que eu. Muito bem, assim que ele apareceu, me despedi, pegamos um taxi e viemos embora.

 

Cheguei em casa colocando a alma para fora e só líquido! Foi quando me toquei que deveria haver lembrado de comer, né? Não seja por isso, fui cozinhar lingüiça com tutu, um jantarzinho básico para a madrugada. Mas o fato é que me fez melhorar. Fomos dormir e apaguei.

 

Pelas 4 da matina, acordei na cama e, já boa, comecei a pensar na noite, se havia falado alguma bobagem… se deveria pedir desculpas para alguém… essas besteiras… Daí comecei a tentar me lembrar se na hora que viemos embora havia pego minha bolsa e não lembrava nem a pau! É que sempre que saio com Luiz, não levo bolsa e das poucas vezes que isso acontece, não é raro que eu a esqueça. Entretanto, se estamos na casa de amigos isso não é um grande problema, mas em um bar no Rio de Janeiro…

 

Levantei num susto: Luiz, eu trouxe minha bolsa?

 

Ele acorda assustado, não sei, ascende a luz para procurar. Olhamos tudo em volta e nada!

 

Levantamos, fui para a internet ver se havia algum recado de amigos… e nada. Luiz telefona para meu celular… e nada. Descobrimos o telefone do bar, mas a essa altura já estava fechado e ninguém atendia. Ele me diz: você precisa ligar para algum dos seus amigos  que foi  ao encontro para confirmar.

 

Hein? Como é que vou ligar para alguém às 4h30 da manhã?

 

Bianca, se você não ligar, temos que começar a cancelar os cartões agora!

 

Caraca, que vergonha! Mas ele tinha razão, não tinha outro jeito. Saí ligando. A primeira amiga, felizmente, não atendeu. O segundo, atendeu com voz de sono, é claro. Pedi milhões de desculpas, mas perguntei sobre a bolsa e ele não sabia de nada.

 

Quando estávamos a ponto de começar a cancelar os cartões, meu maravilhoso marido teve uma idéia brilhante! Meu Iphone tem GPS e nos conectamos para ver onde ele estava. Luiz tinha certeza que ele apontaria o endereço do bar e eu que ele estivesse passeando por algum morro!

 

Mas, de repente, ele me diz: Bi, está dizendo que o telefone está aqui!

 

Aquilo foi música para meus ouvidos, reascendeu uma chama de esperança! Voltamos a procurar no quarto, com Luiz telefonando para meu celular. Começamos a escutar um som que parecia vir do fundo do mar e descobrimos minha bolsa abafada embaixo de uns travesseiros! Por isso, não escutávamos nada antes.

 

Eu não conseguia nem comemorar de tão nervosa! Tinha meus documentos brasileiros e espanhóis, cartões de crédito, Iphone novo, celular do meu pai… putz! Olha o tamanho da encrenca!

 

Mas tudo bem, quando acaba bem! Minha bolsa não estava perdida e agora era só a vergonha de ter enchido a lata e acordado o povo de madrugada! Como minha dignidade já foi abandonada há anos (e assim vivo bem melhor), tudo bem também.

 

Mudando um pouco de assunto, as notícias que tinha do Jack em Madri também eram tranquilizadoras. Ele estava bem com o casal que ficou aqui em casa e eles mandavam notícias sempre. Provavelmente, já estava perdendo peso, mas é muito difícil para quem não convivia com ele notar, ele é muito peludo. Estava segura que ele estava sendo bem tratado e, pelas informações, estava gostando deles, conheço meu bicho. É que estava doentinho mesmo, coitado, e havia algum tempo.

 

O fato é que estava curtindo muito minhas férias, me sentindo bem, relaxada, calma. Daí me preocupou um pouco, conheço a diferença entre a calma e os períodos de calmaria que precedem as tempestades. Nas vésperas de vir embora, comecei a ficar meio angustiada. Mas é difícil saber o porquê, volta de férias é sempre difícil.

 

Chegamos muito bem, nossos amigos que ficaram em casa nos receberam no aeroporto com o carro. Assim que já voltamos com ar de vida normal.

 

Quando entramos pela porta, Jack veio correndo nos receber com seu tradicional miado de reclamação por companhia. Quando pegamos ele no colo, tanto eu como Luiz notamos que ele havia perdido mais peso e nos preocupou. Não estava estressado, se via que foi bem tratado, mas provavelmente, o problema nos rins havia avançado, a gente só não sabia o quanto.

 

Passamos o dia tentando que ele comesse, mas ele estava se recusando. No resto, parecia quase normal, seguia ronronante e gostando de carinho. No início da noite, quando costumo dar seu remédio com o patê que ele adorava, ele se recusou novamente. Isso sim era um sinal complicado, ele não estava simplesmente enjoado da comida renal, estava sem nenhum apetite.

 

Dormimos muito mal essa noite. Ainda assim, meu felino me fez sua habitual visita noturna pedindo carinho. Seguia ronronante, feliz, mas muito magrinho.

 

Pela manhã, Luiz deu uma fugida do trabalho e fomos levá-lo ao veterinário. Estávamos preocupados, mas sempre tento ter um rasgo de otimismo e pensar que pode haver tratamento mais um tempo.

 

Ele havia perdido outro kg, estava com praticamente metade de seu peso habitual. Os exames de sangue acusaram que realmente seu problema renal havia avançado. Não conseguimos que estabilizasse com o remédio e a comida especializada. Afinal, ele também tinha 13 anos, já era um senhor, não tinha a mesma capacidade para se recuperar.

 

Havia a possibilidade de interná-lo para tomar soro e medicação um par de dias, sem nenhuma garantia que isso melhoraria sua condição. Do que conheço meu gato, deixá-lo só em uma clínica tomando medicação intravenosa não melhoraria em nada, só o faria sofrer e se sentir sozinho. E para que? Para a gente ter mais alguns dias com ele? Para vê-lo definhar?

 

Preferia que ele se fosse ainda feliz, ronronante e sabendo que não o havíamos abandonado. O veterinário ainda se sensibilizou e disse que não precisávamos tomar a decisão naquele minuto, mas ele não sabia que essa decisão estava tomada há 8 anos, quando perdi minha primeira gata. Esperar só prorrogaria o sofrimento para todos, inclusive para meu Jack.

 

Ficamos com ele em todo o procedimento e voltamos para casa como menos um na família.

 

É duro, mas uma hora passa. Outro dia estava escrevendo sobre o luto e sei que um dia a gente acorda melhor, não dói tanto, é só saudade. Sigo me centrando que esse dia vai chegar. Hoje é mais fácil que ontem.

 

Tenho tentando me manter nos planos que havia feito antes, de cuidar mais de mim. Preciso um pouco desse egoísmo momentâneo de olhar para meu umbigo e me sentir melhor dentro do próprio corpo. Tenho a sensação de estar um pouco desequilibrada, fora do eixo. E não é só pelo Jack, é por tudo.

 

Voltei a pintar meu cabelo de vermelho, comecei a fazer alguns tratamentos estéticos menos invasivos, tento minha sexagésima dieta, pinto paredes, decoro a casa nova…

 

Vou começar a viajar mais, em princípio, acompanhando Luiz em viagens de trabalho, mas em breve, quero voltar ao Caminho de Santiago. Uns diazinhos caminhando e só pensando nos meus pés, setas amarelas e bosta de vaca, me fariam muito bem!

 

Ando sem vontade de cozinhar, comprando comida pronta direto. Na primeira semana, Luiz cozinhou! Como ele só tem duas especialidades, pipoca e carne na brasa, acabou sendo a segunda opção. Na verdade, ele se transformou no “Homem-Churrasco”! Passamos uma semana inteira comendo carne no carvão! Na boa, chegou o momento em que simplesmente não aguentei mais! Sugeri um churrasquinho de frutos do mar, só para variar um pouquinho! Ficou muito bom também.

 

Montamos um tipo de jacuzzi inflável na terraza, que tem sido meu xodó! Não consigo aguentar o sol do verão madrileño, mas dentro da água, posso passar um dia inteiro! Assim que estou até moreninha, acredite quem quiser.

 

Pois é, daí parecia que tudo caminhava para seu eixo, até sentir a sensação de calmaria outra vez.

 

No último domingo, resolvi tentar falar com minha mãe. Nosso fuso horário é muito diferente nessa época do ano e sei que ela estava evitando me perguntar sobre como estava porque me conhece. Quando estou triste, prefiro estar quieta e sem falar muito. Quando vai passando, eu mesma vou me encarregando de voltar ao mundo dos vivos.

 

Mas comecei a achar tudo muito quieto. Enfim, domingo consegui falar com ela e parecia tudo bem. Fofocamos um pouco e ela estava fazendo hora para ir ao clube, meu pai já estava lá. Então tá, foi implicância minha, estava tudo bem.

 

Segunda-feira, pela hora do almoço daqui, ela me procurou no Facebook, mas foi justamente no minuto em que estava desligando, porque tinha minha primeira sessão de cavitação (o mais parecido a uma lipoaspiração, mas sem cirurgia). Disse que a procurava mais tarde. Nem me toquei que, pela diferença do fuso, devia ser pelas 6 da manhã no Brasil, o que raios ela estava fazendo essa hora na internet, né?

 

Mas não pensei e passei boa parte do dia fora. Daí, quando chegou à tarde e estava mais tranquila, procurei por ela. Descobri que meu pai estava internado na UTI e nem queriam me falar nada.

 

Hein?

 

Aparentemente, não é tão grave. Ele estava gripado, abusou um pouco no clube e passou mal, foi um pouco depois que eu havia falado com minha mãe. O caso é que, com tanta complicação que ele já teve, uma gripe pode assustar bastante e todo cuidado é pouco. Foi levado para o hospital e, por seu histórico, por precaução ele já vai direto para UTI, mas pode receber visitas, é um quarto particular. Está com uma infecção (provavelmente da gripe mesmo) e a respiração bastante pesada. Então, começaram a dar antibióticos e a alterar um pouco a dosagem da sua medicação. Para uma pessoa normal e jovem, isso é bobagem, mas no caso dele, como disse, precisa ser tudo monitorado.

 

Ainda é pouco? Vamos complicar mais?

 

Minha sogra também começou a ter alterações e precisou ser internada. Se não foi no mesmo dia que meu pai, foi no dia seguinte. Não corre risco de vida, felizmente, mas é sempre preocupante.

 

Ou seja, o clima aqui em casa está uma delícia, né? Parecemos dois zumbis!

 

Às vezes, tenho saudade de quando éramos crianças e acreditávamos que tudo daria certo e correria bem. Eu sei que era uma falsa expectativa, primeiro porque nossos pais filtravam boa parte dos problemas e depois, porque nossa perspectiva era muito menor. Os problemas seguiam ali, simplesmente não notávamos. De toda maneira, sinto falta dessa sensação.

 

Por outro lado, a experiência me fez entender que apesar das calmarias precederem tempestades, também há boa chance das tempestades anunciarem que o sol brilhará novamente. Simplesmente, ele não brilha para sempre, uma hora a noite precisa tomar seu lugar, e a noite também tem seu lado bom.

 

Hoje é quarta-feira e meu irmão acabou de me ligar, avisando que meu pai sai da UTI para o quarto normal. Normalmente, quer dizer que ele deve receber alta amanhã ou perto disso. Assim que espero que venha por aí um primeiro raio de sol!

 

Enfim, com tudo isso acontecendo, resolvemos não fazer a famosa tradicional feijoada do Luiz. Se toda essa história vai dar uma guinada de 180º e no dia estaremos animados… como vou saber? Espero que sim e, então, a gente muda tudo outra vez! Mas agora não tem clima e não quero estressar mais o Luiz.

 

De momento, um dia de cada vez e um leão por dia.

Our good old Jack Daniel’s

Não é a primeira vez que falo nele e provavelmente não será a última, mas é a mais triste. Nosso gato se foi, após 13 anos fazendo parte da nossa família.

 

Falar nisso é difícil, mas escrever tem sido minha terapia há bastante tempo, então lá vamos nós ver se adianta ou se, ao menos, tira um pouco do peso que fica no peito.

 

É estranho escrever o epitáfio de um gato, soa quase maluco. Acontece que por tudo que ele nos deu, por sua personalidade e caráter tão marcantes, ele merece.

 

Nem Jack, nem Buchannan eram tratados como gente. Eles eram gatos e gostavam de ser gatos. Animais também precisam ser compreendidos e respeitados como são e era exatamente assim que nós os amávamos.

 

É difícil para eu falar de um sem falar da outra. Eram irmãos e chegaram juntos à nossa casa quando tinham apenas 40 dias, Luiz me trouxe de presente por meus 30 anos.

 

Quando Buchannan morreu, com 5 anos, Jack ficou totalmente deprimido e teve sua primeira complicação renal. A partir daí, paramos de falar o nome dela em casa, porque víamos as orelhas de Jack se mexerem a procurando. Passou a ser “a gata”. Eu pensava nela, às vezes sonhava com ela, mas pouco conversávamos sobre isso em casa. Por ele.

 

Em 2005, com a morte da Buchannan, Jack adoeceu e meu coração apertou. Parecia ter acabado de ver aquele filme. Mas ainda era um gato jovem e forte, havia condição de tratá-lo e assim o fizemos. Sabíamos que seus rins não seriam os mesmos, que era um gato obeso e blá, blá, blá… mas era o gato mais feliz que nós conhecíamos e essa era a sua característica mais marcante. O tratamento durou cerca de 9 meses, toda uma gestação para que ele tivesse alta. Gastou algumas das suas 7 vidas, para cumprir o pacto que havíamos estabelecido e que já vou contar.

 

Buchannan eu escolhi, Jack me escolheu. Fui ao gatil atrás de uma gata vermelha com personalidade forte, dona do seu nariz. Não tive dúvidas quando bati o olho na minha felina: era ela. Não queria ficar no meu colo, mas não saía de perto de mim, com seu rabo bastante empinado. Deixou claro que sabia que havia sido escolhida, mas era ela quem decidiria vir comigo. Jack estava brincando distraído com sua mãe, mas quando me viu, ficou curioso (como um bom gato), levantou sua carinha de neném que manteve até a velhice e veio imediatamente em minha direção. Escalou meu colo e começou a cheirar meu hálito (também manteve essa mania). Se posicionou ali, me deixando impossível não levá-lo também. Foi ele quem decidiu que eu era sua dona.

 

O tempo passou e fui conhecendo bem a personalidade de cada um. Buchannan era a inteligente sensível e Jack o pateta feliz. A gata cuidava de todos, como uma grande mãe e Jack era um reizinho que tinha um prazer enorme em ser cuidado.

 

Entendendo os dois, fizemos um pacto. Buchannan era soberana, decidiria sua hora e, quando isso aconteceu, soubemos respeitar sua vontade. Com Jack, deixei bem claro: você é meu! Será o que quiser, gordo, bonachão, mimado… Em troca, quero 10 anos de saúde e que neles você seja feliz. Você morrerá de velho, nos meus braços.

 

Como sempre, ele me deu mais. Foram 13 anos com o gato mais feliz do mundo!

 

E quando sua hora chegou, estávamos Luiz e eu com ele. Se foi com a cabeça recostada na minha mão e escutando nossa voz. Para que não se sentisse só.

 

O procedimento é rápido e indolor, dói mais na gente. Ele recebe um tranquilizante e cai em sono profundo. Só depois recebe uma dose extra de anestésico, que faz com que seu coração pare. Vai literalmente em paz, dormindo.

 

Não é apenas uma metáfora dizer que sua vida foi escorregando pelas minhas mãos e não é exatamente uma cena que gostaria de presenciar. Mas era minha parte do nosso acordo. Ele cumpriu a dele e eu a minha. E é muito estranho que, de um momento para outro, um ser tão amado se converta em um corpo.

 

É o ciclo da vida. Sou uma escorpiana e o entendo desde que nasci. Mas ainda assim, dói muito.

 

Jack me ensinou a ter algo de rotina e a importância dessas pequenas rotinas para nossa sensação de segurança, me ensinou que cuidar de alguém não é ruim e, se hoje tenho algum instinto maternal, não tenho dúvidas que ele teve grande responsabilidade nisso, me ensinou a voltar para casa com prazer, a desfrutar de coisas simples e a ser irracionalmente feliz porque sim.

 

Jack era um sedutor. Quando chegou na nossa casa, Luiz não ligava para gatos, gostava de animais, mas era de cachorros. Ver seu amor por esses bichinhos crescendo todos os dias e o carinho que os cuidou até o final, me fez amá-lo mais. Verdade que às vezes beirava as raias do ridículo e eu, como boa sacana que sou, lhe perguntava irônica: você sabe que está negociando com um gato, né? E está perdendo!

 

Os dois sempre foram loucos por Luiz. Jack esperava seu despertador tocar impacientemente para ser cuidado. E nos fins de semana, quando isso não acontecia, ele tratava de encher seu saco até ele levantar, porque afinal, ele precisava ser escovado! E lá levantava Luiz, às 6:30h da matina, em pleno domingo, para escovar o gato. Está pensando que ele reclamava? Ainda ia dizendo: pronto Jack, seu mordomo já levantou… E Jack fazia todos os ruídos de alegria possíveis e imagináveis, deixando impossível que alguém se aborrecesse.

 

Ele ensaiava fazer o mesmo comigo, quando Luiz viajava. Só olhava para ele e deixava bastante claro: no fucking chance, my friend! Ele entendia, suspirava e deitava no meu pé ou se espalhava pela lateral da minha barriga, pedindo carinho. Aliás, fazia isso algumas vezes durante à noite.

 

E quem conseguiria se aborrecer ouvindo seu típico ronronado de felicidade?

 

Posso passar uma tarde enumerando o quanto ele se metia nas nossas bolsas, na nossa vida, na nossa rotina e no nossos pés! Às vezes, era um pentelho! E o estranho é que é exatamente dessas pequenas manias que sentimos tanta falta.

 

Nos habituamos a caminhar olhando para o chão, para não pisá-lo; a entrar em casa olhando para o canto da porta e a fechá-la com rapidez para ele não sair; a tomar cuidado com as portas de armário, com as janelas, com as cadeiras… e vai ser difícil mudar esses hábitos novamente.

 

O momento mais duro para mim e acho que para Luiz também é chegar em casa. Porque nosso gato-cachorrinho nos recebia na porta, e boa parte das vezes com certa reclamação por atenção.

 

Mas não quero que isso se transforme em um muro de lamentações. Porque se conto a verdade, às vezes no meio do choro de saudade, começo a rir lembrando das bobagens que ele aprontava. E é assim que quero lembrá-lo no futuro, do meu buda bonachão, da sua silueta de pera e da sua elegância de sapo-boi!

 

Nosso bichinho que a família e os amigos foram capazes de compreender o quanto era importante e peculiar. Há gente que não gostava de gatos e gostava dele; há gente alérgica que convivia com ele sem problemas; amigos que dormiram aqui em casa para que ele não ficasse só; amigos que tiravam os sapatos ao entrar no apartamento para evitar que Jack adoecesse; amigos que resolveram ter gatos depois de conviver com ele; gente que simplesmente achava ele lindo… quem poderia imaginar que um animalzinho gorducho pudesse impactar tanto seu contexto?

 

Ainda vai doer um pouco… ou bastante. Mas é um alívio saber que ele foi sem sofrimento e do nosso lado. Poder se despedir dos seus amores é uma benção, apesar de duro. A dor vai durar algumas semanas, depois vai virar saudade. E esse tempo nem se compara aos 13 anos de alegrias que ele nos deu. Claro que faria tudo outra vez!

 

E acho que seu epitáfio deveria ser simplesmente: aqui jazZ Jack Daniel’s, nosso felino etílico, o gato mais guloso, lindo e feliz do mundo!

 

Vai em paz meu gorducho e, Buchanninha, recebe ele por aí!

Furacãozinho básico entre calmarias

Nada tão grave, aviso para não criar muito suspense, mas sabe quando as coisas parecem ir no prazo, redondinho e de repente, embola tudo e você não sabe o que fazer? Pois vamos por partes.

 

Segunda-feira à noite, fomos ao concerto do Toquinho. É a segunda vez que o assistimos aqui em Madri. Um showzaço! Acho ele muito fera e adoro o repertório de bossas, sambas arrojados e música brasileira de excelente qualidade! Os músicos que acompanham são fantásticos, mas dou destaque à pianista, Silvia Goes. Entra no palco aquela senhora de óculos que poderia ser minha mãe e dois segundos depois que começa a tocar, se transforma num monstro de habilidade e carisma. A tia era enfurecida! Acompanharam também um baterista, um baixista e outra cantora, todos muito bons, mas não consigo lembrar os nomes, infelizmente.

 

Depois do show, ainda tinha o concerto de uma amiga, Flávia-N, no bar desse mesmo local onde tocou o Toquinho (tocou Toquinho é engraçado, né?). Não pudemos ficar até o final, porque Luiz tinha que acordar cedo no dia seguinte, mas deu para curtir um pouco.

 

Assim que fui dormir na segunda bastante leve e com uma trilha sonora de cordas e acordes ressoando na cabeça.

 

Decidi que queria ficar com o carro na terça-feira, para resolver algumas coisas antes da viagem ao Rio, marcada para 26 de julho, quinta-feira. Então, acordei bem cedo para levar Luiz e assumir nosso veículo.

 

A primeira coisa que fiz quando acordei foi o teste de gravidez e nem foi por ansiedade, é por ser melhor logo pela manhã. Para ser brutalmente sincera, fiz bastante indiferente e com a expectativa baixa de quem sabia que o resultado seria negativo. E foi. Não fiquei triste, essa etapa já passou, estava apenas nas formalidades. No início, queria muito engravidar, mas já faz algum tempo que só quero que se acabe. Está mais do que na hora de mudar algumas prioridades. Se vai acontecer no futuro, talvez, mas meu papel foi cumprido e modéstia às favas, muito bem obrigada.

 

Bom, depois de deixar Luiz no trabalho, voltei para casa porque as lojas ainda estavam fechadas e fiquei fazendo uma horinha. Pelas 10h, hora que abre o comércio em geral por Madri, lá vou eu para a rua.

 

Passei em um outlet aqui perto, que vende roupas de marca a preços excelentes. Não é que seja baratinho, até porque são marcas boas, mas proporcionalmente ao preço das lojas, é bem razoável e você sabe que está comprando algo de qualidade. Tinha uma encomenda da minha mãe e aproveitei para ver alguma coisa para mim também. Geralmente, a gente ia nesse outlet nos sábados, quando fica bastante cheio e insuportável. Adorei ir cedo durante a semana e poder ver tudo tranquila.

 

Depois fui fazer umas últimas comprinhas, tanto aqui para casa quanto para levar ao Brasil. Sabe como é, as lembranças de viagem na minha família são sempre comida. Assim que lá fui eu comprar jamón, fuet, chocolates diferentes… enfim, o contrabando que costumo levar.

 

Ir ao mercado é algo rotineiro para qualquer mortal, mas nesse caso havia um certo tom de novidade. Primeiro, porque não vou sozinha dirigindo a um supermercado desde que morava em Atlanta, ou seja, lá se vão uns 8 anos! E nos últimos 3 anos, tenho feito as compras por internet. Até ia ao mercado de vez em quando, mas sempre com Luiz. Por isso, bem que estava curtindo essa história de um novo olhar em algo básico. Dá um gosto de conquista, mesmo sendo uma atividade simples.

 

Aproveitei para dar uma volta de carro, fazer alguns caminhos diferentes, explorar o território. Queria ter um gostinho do que será a vida por aqui antes de viajar de férias.

 

Fui para casa, preparei meu almoço devagar, comecei a separar algumas roupas para viajar, ver o que tinha para lavar, enfim tudo sob controle.

 

É que, enquanto estivermos viajando, vem dormir aqui em casa um casal de amigos para cuidar do Jack, nosso felino mimado. E daí gosto de deixar comidinhas, o apartamento arrumado e confortável para que eles se sintam em um hotel! Afinal, estão me quebrando um galhão!

 

Aproveitei para pintar e arrumar o cabelo, afinal quero chegar ajeitada no Rio, né? Minha amiga que faz minha depilação ficou de chegar pelas 17h, assim que tinha tempo para tudo.

 

Muito bem, quando estou no banheiro terminando de guardar o secador de cabelos, cai a luz. Às vezes, quando você liga vários eletrodomésticos ao mesmo tempo, ou dois que puxem muita energia, a luz cai. Mas achei estranho um apartamento desse tamanho não ter capacidade para aturar um ar condicionado e um secador!

 

Fui checar o painel de luz e estava tudo normal, não havia caído nenhum fusível.

 

Havia escutado alguns sons de obra embaixo e pensei, vai ver eles desligaram a energia por algum tempo para resolver algum pepino. Que sorte que pelo menos terminei de lavar a cabeça e fazer minha escova!

 

Liguei para o Luiz para contar, mas ele estava em reunião enrolado, então nem falei nada e desliguei.

 

Fui procurar o telefone do zelador do condomínio para perguntar se ele sabia alguma coisa. Ele veio aqui em casa, mostrei o painel de luz para ele, que me disse que iria confirmar no quadro de energia do edifício.

 

Dali a pouco ele volta com um ar de dúvida e me diz: olha seu apartamento não tem nem contador de luz!

 

Como assim não tem contador? Minha luz foi cortada? Bom, agradeci e disse que ligaria para a imobiliária para tentar entender o que estava acontecendo.

 

Será que Luiz tinha esquecido de pagar a conta? E agora, como a gente fazia? E isso já era umas 17h, como vou conseguir resolver isso hoje? Caraca, e o casal que vem para cá cuidar do Jack? Entrei em pânico!

 

Mandei uma mensagem para Luiz e liguei em seguida, sinto muito, não interrompo suas reuniões nunca, mas isso era uma urgência! Pergunto para ele: Luiz você pagou a conta?

 

Ele ficou até meio ofendido, mas o que eu poderia pensar. É assim, os proprietários do nosso apartamento moram na Bélgica e a imobiliária é que administra. Ele me disse que havia combinado com a corretora que ela passaria todas as contas do antigo inquilino para ele. Que eu ligasse para ela para ver se havia algum problema. Eu achava que ele deveria ligar, afinal era quem tinha combinado tudo. Mas ele estava todo enrolado, então ligo eu para a corretora, toda sem graça, achando que a gente devia ter feito alguma besteira.

 

Quando conto a história para ela que a luz havia sido cortada, ela responde do outro lado com um jeito de que sabia do que se tratava: não acredito que eles cortaram! Eles me disseram que não iriam cortar…

 

Eles quem? Do que a gente está falando?

 

Encurtando o assunto, os inquilinos anteriores deixaram uma dívida de mil e tantos euros em energia e, por isso, simplesmente, cortaram nossa luz e quase cortam o gás também!

 

A corretora estava tentando resolver esse assunto nos bastidores e não nos falou nada. Até entendo que ela não quisesse nos preocupar, mas acabou nos deixando numa saia justa danada! Sem energia, em um momento péssimo e ainda passo por caloteira com o zelador!

 

Enfim, nisso consegui falar com Luiz que disse que estava indo para lá conversar com a corretora pessoalmente e ela me disse que já estava providenciando um eletricista que ligaria minha luz naquele momento.

 

No meio dessa confusão, me liga a amiga depiladora que havia saltado no ponto errado e não sabia como chegar direito aqui em casa. Putz, estava de carro, em outra situação, iria buscá-la, mas como poderia sair de casa com essa muvuca armada?

 

Expliquei por telefone como ela chegava, avisei que era longe e disse que podia vir com calma porque estava sem luz em casa!

 

Me liga Luiz: Bi, falei que ia para a imobiliária, mas esqueci que quem está com o carro é você!

 

Pega um taxi, daqui não posso sair!

 

Liga a corretora que havia conseguido falar com o eletricista e ele estava a caminho da nossa casa, um tal de Miguel Angel. E eu pensando, é bom esse anjo Miguel saber operar milagres, porque como é que ele vai ligar minha luz sem contador? Em bom português popular, ele ia me fazer era um belo de um “gato”, certo?

 

Nisso, minha amiga depiladora me ligando perdida e pedindo instruções para chegar. E eu pensando, o pior é que ela vai chegar aqui e não vamos poder fazer nada. Onde é que ela vai ligar os aparelhos para esquentar a cera? Não tem luz!

 

Liga meu irmão do Rio, para falar que nos buscaria no aeroporto e todo animado para conversar. Caraca, agora não dá, estou no meio de um furacão, falamos mais tarde!

 

Chega Luiz em casa, já havia conversado com a corretora por telefone e entendido melhor o problema. Que será solucionado a gente sabe, a responsabilidade não era nossa. O caso é que estamos para viajar e não podemos deixar esse pepino para quem ficar aqui, né? O casal de amigos pode ficar no seu próprio apartamento, afinal, só estão vindo para cá por um favor. Mas e meu gato? Já comecei a pensar em um plano B para o Jack, podia deixá-lo na casa de amigos, mas seria bem chato ter que tirá-lo do apartamento. Ele está velhinho, tem que tomar medicação todos os dias e agora que está começando a se acostumar aqui, sair de seu ambiente e sem a gente por perto… putz!

 

Bom, o eletricista estava a caminho e Luiz disse que não adiantava ele ficar aqui esperando comigo, o que concordei. Então, voltou para seu trabalho e levou o carro.

 

Uns minutinhos depois, chega a amiga depiladora. A coitada caminhou uma hora com o sol na cuca e uma bolsa pesada, estava roxa! Entra, senta um pouco, toma uma água que te conto o tamanho da encrenca!

 

Sentamos na sala, ficamos esperando juntas o eletricista, conversando com aquela cara de nádegas, sem saber que raio fazer. E eu pensando, cassilda, minha geladeira cheia de comida…

 

Escutamos um carro, será que é o tal Miguel? Um minuto depois toca o interfone, era ele. Abri a portaria e fiquei esperando ele subir. Começou a demorar um pouco, daí deduzimos que ele já estaria tentando resolver lá no quadro de energia do edifício.

 

Uns minutinhos depois… e fez-se a luz! Nem acreditei! Ele subiu para conferir, tinha mais jeito de executivo que eletricista. E eu pensando, deve estar tudo engatilhado aí embaixo…

 

Passei um SMS para Luiz, já que ele nem poderia atender o telefone e avisei que, pelo menos por hoje, tínhamos energia.

 

Fui fazer a depilação e bem no meio, me liga Luiz: esqueci de te avisar, combinei com um casal de amigos de passarem no apartamento hoje no fim da tarde, se eles tocarem aí, recebe por favor que estou chegando… Veja bem, nesse exato momento tenho cera em locais que prefiro não pronunciar, não tenho como levantar daqui, melhor você correr e chegar rápido!

 

Ele chegou a tempo e recebeu nossos amigos, enquanto eu terminava minha sessão de torturas particular. Chato, porque gosto de preparar alguma coisa quando recebo as pessoas, mas enfim, era o jeito. Por sorte, são de casa.

 

Ficamos conversando um pouco e ainda deram carona para a amiga depiladora, que ao menos na volta, não precisaria correr o risco de errar a condução outra vez.

 

Só aí que consegui conversar com Luiz para entendermos melhor a situação. Ele me deu mais detalhes que havia falado com a corretora. Ela disse que já havia conseguido solucionar com a companhia elétrica e que eles voltariam no dia seguinte, hoje, para regularizar a situação e que já haviam sido informados que foi feita uma ligação, digamos, “provisória”. Como essa história vai terminar, ainda não sei, mas um passo de cada vez.

 

Tudo bem, quando acaba bem.

Notícias do novo lar

Mudamos para meu trigésimo sexto endereço no dia 16 de julho, segunda-feira.

 

Desde que cheguei a Madri, tive 6 endereços, sendo que em 2 deles nossos móveis ainda não haviam chegado. As outras quatro mudanças, fizemos com a mesma empresa. Ou seja, já somos até conhecidos! O curioso é que, dessa vez, da equipe que nos apoiou, reconhecemos dois funcionários, ambos já haviam feito outras duas mudanças anteriores nossas, estavam na terceira! Assim que conheciam nossos móveis e uma parte da nossa história.

 

Modéstia às favas, deixo tudo bastante organizado para sair. Até porque, depois de mudar tanto, nossa casa é toda adaptável. Os móveis tem rodas, as coisas são guardadas em caixas organizadoras… enfim, como sei que é parte da nossa vida, fui criando esquemas que facilitam muito. Portanto, apesar de trabalhosa como todas, nossa mudança não é difícil.

 

A maior complicação que tínhamos era o fato do edifício não ter elevador e a rua ser muito apertada. A rua se resolve interrompendo o trânsito no quarteirão por um determinado período. E eles tem um tipo de elevador externo que utilizam para realizar sua mudança pela janela. Esse elevador se chama “monta cargas” e é muito prático, agiliza uma barbaridade!

 

Pequeno detalhe, as empresas costumam achar (ou dizer) que nessas ruas apertadas do centro não cabe o tal do monta cargas e tem que ser feito pela escada mesmo. Acontece que na mudança anterior eu dei uma rodadinha de baiana e eles conseguiram usar o tal monta cargas sem o menor problema.

 

Muito bem, acho que eles esqueceram disso e dessa vez a administradora insistia em me dizer que não cabia porque não cabia. Eu disse a ela, mas vocês mesmos fizeram minha mudança anterior para cá e usaram o monta cargas! Acho que ela pensava que eu estava chutando ou confundindo com outro endereço e não me dava ouvidos. Até que me irritei e soltei o argumento definitivo: tenho fotos da mudança anterior!

 

Daí rolou aqueles segundos de silêncio, onde ela finalmente parou um pouco para me ouvir. Respondeu que ia verificar e faria o possível. De qualquer maneira, enviei as fotos a ela para que não restasse dúvidas!

 

E sim, o monta cargas veio.

 

A equipe chegou cedo, como sempre. Às 8 em ponto eles tocam na sua porta! Já sabíamos e também estava prontinha. Luiz tirou o dia de folga para me ajudar.

 

Depois que reconhecemos metade da equipe, eles ficaram até mais simpáticos. Ainda assim, como deve ser, entram como furacões na sua casa e saem mandando bala! Por volta das 13h já estava tudo no caminhão embarcado. Eles dariam uma parada para almoçar e marcaram conosco no apartamento atual às 14h30.

 

Passei aspirador rápido no apartamento, para ficar com uma carinha mais ajeitada na hora de devolvê-lo, catamos nosso gato e seguimos para o próximo endereço.

 

Luiz me deixou com Jack, para ele ir se adaptando, enquanto foi buscar um sanduíche para a gente comer também.

 

Pontualmente, a equipe chegou e tratou de desembarcar as coisas: 102 caixas + móveis!

 

Nesse apartamento é bem mais fácil, porque a rua é tranquila, nem precisou reservar vaga, temos mais espaço, a escada é boa e tem elevador. Ou seja, comparativamente, uma moleza! Não me lembro exatamente, mas acredito que por volta das 18h eles encerraram o assunto.

 

Daí fomos limpar o chão para soltar o gato. Ele fica preso no banheiro enquanto o pau come, assim não fica estressado. Fiz alguma coisa básica para jantarmos e às 21h o Luiz disse que já queria dormir.

 

Quer saber, também estou morta! Havia dormido apenas 3 horas na noite anterior e mudança cansa pacas!

 

A gente ainda tinha um aniversário para ir, mas não havia a mais remota possibilidade.

 

Fomos deitar com o dia ainda claro, porque essa época do ano só vai anoitecer depois das 22h. Nem me lembro quando dormi tão cedo assim, mas a verdade é que apaguei!

 

Na terça, acordei com a corda toda e me atraquei com as caixas, acho que abri umas 50! No fim da tarde, chegou Luiz do trabalho e me ajudou. O balanço do final do dia foram 64 caixas e uma montanha de plástico bolha! Lembrei do nosso amigo que vai mudar para o apartamento anterior. Não havia porque desperdiçar tanto material e oferecemos a ele, que gostou da idéia.

 

Na quarta-feira, terminei o restante das caixas e na quinta só sobrou algo de limpeza e arrumação. Em três dias, nossa confusão de caixas já era um lar. Na sexta-feira, o material que havia foi buscado pelo nosso amigo e quem chegasse naquele momento, jamais pensaria que acabávamos de mudar.

 

De fato, oferecemos um jantar na própria sexta, para o casal de amigos que vai ficar aqui em casa com nosso felino mimado. Assim passamos a chave e explicamos como cuidar do Jack.

 

Sábado, inauguramos a churrasqueira. Bem tranquilo, com meia dúzia de amigos. Acabou mais tarde do que imaginei, por volta da meia noite. A gente tinha outro aniversário para ir, mas não demos conta. E domingão só morgamos.

 

O apartamento novo é show! Bastante espaço, boa energia e uma terraza ótima! A rua é bem silenciosa e residencial. O extremo oposto de onde estávamos. Eu gostava da muvuca anterior, mas não estou encontrando o menor problema em me adaptar ao conforto e ao silêncio.

 

Tomar um vinhozinho na varanda, olhando o entardecer e escutando boa música é um prazer que não enjoa.

 

O gato está bem. Não está 100% adaptado, mas vai se acostumando à sua velocidade. Apesar de ainda estar agarrado ao nosso quarto, cada dia ele domina um ambiente a mais e expande seus horizontes. Ensaiou passear pela varanda, mas morre de medo do vento. Não está nervoso, já se acostumou com cheiros e encontrou seus objetos de conforto. Ele também não vai demorar a se acostumar.

 

E agora, toca a começar a organizar a próxima etapa, porque nessa quinta-feira, vamos para o Brasil de férias! Ou seja, mal terminei de arrumar a mudança e bora arrumar mala!

 

Até agora, nem tive tempo de pensar muito nisso, por uma questão de prioridades. Mas com a casa organizada, começo a me empolgar com a viagem. Minha mãe já está em contagem regressiva por lá!

 

Logo no primeiro fim de semana, vou encontrar amigos de colégio que ficaram perdidos no tempo e não vejo há somente 26 anos! Estou até nervosa! Vontade de encontrar os amigos de sempre também. E, claro, saudade da família que a gente aprende a conviver, mas permanece.

 

Enfim, podem ir separando uma cachacinha e colocando água no feijão, que eu tô chegando!

Corre da bruxa!

Como sempre, o final de semana foi bastante movimentado, mas juro que segurei minha onda ao máximo. Queria estar bem, porque na próxima segunda-feira sai nossa mudança (assim espero!) e estamos nos finalmentes da arrumação prévia.

 

Portanto, na sexta-feira fomos a um bar para o aniversário de uma amiga. Foi tranquilo e agradável. Ficamos nas mesinhas do lado de fora para aproveitar a temperatura. Para quem vive em estações definidas, esses momentos tem seu valor. Pela hora da Cinderela, puxamos nossa carroça e voltamos para casa. Eles seguiram.

 

Sábado, acordamos relativamente cedo, separei umas coisas para levar ao apartamento e de lá íamos a um churrasco.

 

Por isso, três amigos pediram carona para esse tal churrasco, que era fora de Madri. Sem problemas, galera, mas tem pedágio! Precisamos passar em Las Rozas antes e levar um monte de tralha! Vai sobrar para quem estiver no carro…

 

Eles toparam e achei foi muito bom, porque nos ajudaram a descer as coisas e, vamos combinar, que três andares carregando peso é um saco! Qualquer viagem poupada, agradecemos!  Luiz fica num mau humor do cão, parece que estou mudando sozinha e dando o trabalho para ele só de sacanagem. O que eu posso fazer, we gotta a do what we gotta do!

 

Contratamos uma equipe para a mudança, mas acontece que tem coisas que é melhor você fazer. Por exemplo, prefiro levar minhas roupas antes, caso contrário, a probabilidade de eu ter que lavar toda a roupa outra vez é enorme! Temos objetos de arte frágeis, copos de cristal que, se precisarmos repor, só importando da Áustria, garrafas de vinho, ingredientes de feijoada congelado… enfim, se não pensar nesses detalhes com antecedência, é dor de cabeça na certa em um futuro bem próximo!

 

E vamos combinar, estou caminhando para minha 36ª mudança, alguém se atreve a contestar a experiência?

 

Chegando lá, os amigos nos ajudaram a desembarcar as coisas, mas daí era mais fácil, porque no outro apartamento tem garagem no próprio edifício e elevador (ah, elevador… que saudade!).

 

Muito bem, entrega despachada, fomos para o tal churrasco. Fazia parte da maratona de despedidas de uma amiga, a mesma que fizemos a festinha na semana passada aqui em casa. E para a gente e nossos amigos, qualquer pretexto é motivo para festa.

 

Diferente da enorme maioria, Luiz não bebeu nada, afinal estava dirigindo e eu não estava afim de me passar, ainda tínhamos que arrumar o monte de tralha que deixamos no apartamento mais cedo. Assim que até tomei minha cachacinha, mas muito light e mais observando do que participando. Me entretenho assim também.

 

Diversão garantida, como sempre, os anfitriões super animados e o pessoal é bem legal.

 

Infelizmente, às vezes rola uma exceção e caem de pára-quedas seres que a gente não sabe o que foram fazer ali. Por sorte, nunca permanecem. Apareceram um mexicano e um belga chatos para cassilda! Sabe o pessoal que acha que porque entrou no meio de brasileiro tudo é zona? A gente ama isso de paixão, né? Me irritaram nos primeiros 15 segundos de conhecimento. Enfim, conseguiram azarar boa parte das mulheres casadas da festa, o belga achou normal tomar banho de piscina de cueca… e uma série de pérolas que nem estou afim de enumerar. Até que resolveram pentelhar na churrasqueira, onde estava Luiz e eu, dando uma folguinha para nosso amigo que costuma ser o churrasqueiro oficial. Estava vendo a hora que Luiz ia sair de voadora no belga e prontinha para contribuir, mas enfim, como pessoas educadas e civilizadas, só nos posicionamos verbalmente e com certa atitude intimidadora. Ele não nos aborreceu mais.

 

Um pessoal foi contratado para tocar um samba e música ao vivo sempre é muito mais legal. Não eram os que costumam tocar nas nossas festas, mas sempre bom ter outras opções. Dessa vez não entrei na batucada, só toquei um pouco o caxixi discretamente no meu canto.

 

E a bebida rolando solta! Luiz achou que estavam exagerando e que isso não ia dar certo. Sou um pouco mais relaxada que ele com essas coisas, mas concordo que com o sol na cuca e na piscina, é mais fácil não perceber que se passou dos limites. Mas acho o seguinte, é todo mundo maior de idade e vacinado, certo? Se os anfitriões estão tranquilos, eu também!

 

Em determinado momento, resolvemos vir embora. A festa ainda estava bombando, mas para gente estava ficando tarde. Além do mais, ficamos de dar carona para uma amiga que ia ao Rock in Rio Madrid e ela tinha hora.

 

Nem saímos à francesa dessa vez, nos despedimos de quem encontramos pelo caminho e demos carona para duas amigas, a do Rock in Rio e outra que ainda tinha um jantar para ir.

 

Chegamos no apartamento pelas 22h30 e pensei que nem ficamos tão pouco assim, afinal, havíamos saído de casa às 14h. Será que estou ficando velha? Porque estava cansada! Bom, não saímos depois disso, nem dormimos muito tarde, o que foi ótimo!

 

No dia seguinte, ficamos sabendo que pouco depois da gente ir embora do churrasco, passou a bruxa!

 

Uma amiga, que chutou o pau da barraca literalmente, caiu em um tombo besta e machucou os dois pés. Felizmente, um dos amigos é fisioterapeuta e conseguiu colocar um dedinho no lugar na hora. Enquanto ela estava na festa, até por causa do teor alcoólico, nem sentiu tanta dor, mas no domingo precisou engessar o pé e ficará 3 semanas sem poder pisar e tomando aquela injeçãozinha gostosa na barriga para evitar trombose. Ui!

 

Outra amiga, por causa de uma brincadeirinha de “vou-te-jogar-na-piscina”, acabou escorregando e bateu o cotovelo feio no chão. Precisou viajar toda dolorida no dia seguinte. Aliás, taí outra brincadeira que adoro do fundo do meu útero, esse negócio de resolver empurrar todo mundo na piscina. Tem sempre um machucado: fato.

 

Lembra do belga pentelho? Pois é, conseguiu cortar com uma faca a mão de outro amigo. Delícia, né? Ele já tinha se engraçado comigo com a faca do churrasco, quando eu estava nessa função, foi mais ou menos quando eu rosnei para ele e Luiz quis avançar no seu pescoço. Nosso amigo foi mais simpático, ou não teve alternativa coitado, e levou um belo de um corte em dois dedos.

 

A amiga que tinha o jantar e demos carona, chegou em casa e apagou: perdeu o jantar! Verdade que quando a deixamos ela estava lalari lalará… Mas felizmente, não se machucou e conseguiu levantar no meio da madrugada e se redimir.

 

E para completar o quadro, já no domingo, outra amiga bateu com a cabeça na quina da janela e foi parar no hospital!

 

Enfim, menos mal que não foi nada tão grave com ninguém e tudo tem solução, mas vamos combinar que a bruxa andou solta e eu, quando soube desse festival, tratei de correr dela! Tomei um cuidado danado no domingo, eu hein? Sai para lá uruca e deixa meus amigos em paz!

 

Mas a verdade é que (isola!) conosco não aconteceu nada mau. Acordamos bem no domingo, levamos outra leva de coisas para o apartamento novo e esperamos dois amigos que foram montar uma televisão por lá. Um deles também me ajudou a fazer uns reparos aqui e ali.

 

A ideia inicial era que, enquanto eles montassem a TV, eu faria um churrasquinho inaugural e a esposa de um deles aproveitava para tomar um solzinho. Mas a esposa foi justamente a que quebrou o pé, ou seja, que nossos planos carnívoros foram para o saco. Congelei a carne e ficará para a próxima vez.

 

Saímos de lá pouco depois das 22h. Um pouco cansada, mas feliz com a cara que está ficando a casa nova. Estou louca para mudar de uma vez!

Chegou verão com tudo que tem direito

Os termômetros já subiram, chegou a época mais animada em Madri. As “terrazas” estão todas abertas e as mesas dos bares se mudaram para o lado de fora.

 

Acho até meio desconfortável, mas o povo aqui gosta de um calor. E é verdade que rola uma energia mais positiva também, as pessoas ficam mais alegres, principalmente as mulheres que notam mais essas mudanças de estação e de ciclos em geral.

 

Pena que ainda leva um tempinho para nossa mudança de casa sair, porque no apartamento novo se aproveitaria muito melhor essa época. Mas é o jeito, está marcada para dia 16 de julho. Minha cabeça já está lá.

 

O apartamento está pintado, com máquina de lavar e forno instalados. Comecei a dar uma limpada nos armários também, para começar a levar as roupas e alguns objetos mais frágeis com antecedência. Um amigo nos ajudou no domingo a arrumar melhor a “terraza”, não sei porque diabos, a proprietária tem um milhão de pedras decorativas! Que na minha opinião, nem decoram tanto assim, são pesadíssimas e tomam um espaço tremendo. Enfim, Luiz e nosso amigo deram um jeito delas ocuparem menos espaço e não ficou ruim.

 

Estou dirigindo normalmente, passou a fase em que isso era uma novidade. A única coisa, é que como só temos um carro, quando preciso usá-lo tenho que sair cedo com o Luiz, deixá-lo no trabalho e depois seguir. Só vamos pensar em uma alternativa quando voltarmos das férias no Brasil. Talvez Luiz compre uma lambreta. O apartamento é muito perto do trabalho dele, mas o caminho é ruim para ir a pé, ainda mais de terno e sapato social.

 

Para mim, não tem jeito, vou ter que fazer tudo de carro. E como lá também é mais sossegado, melhor ter coisas para fazer nos arredores e assim socializar um pouco.

 

Bom, na quarta-feira passada fiz um teste de gravidez, o resultado saiu na sexta. Pelo silêncio desses dias, acho que se pode imaginar que foi negativo. Eu já esperava que fosse, mas não esperava ficar triste como fiquei. Acho que, de certa maneira, caiu a ficha de que não vai rolar mesmo dessa forma. Vacilei um pouco em tomar a nova medicação recomendada, mas como é o último mês, acabei topando. É um tal de “Ovucitol”, pelo que entendi, começou a ser utilizado em mulheres obesas, para regular seu ciclo menstrual. Acabou verificando-se que também melhorava a qualidade do óvulo. Como não tenho nenhum impedimento físico, na verdade, meus resultados são sempre muito bons, é provável que esteja acontecendo algo na hora da reprodução em si, ou o óvulo ou o esperma já estão meio chumbados. Então, vamos tentar essa última alternativa.

 

No sábado, tinha uma festinha marcada aqui em casa. Na verdade, era despedida de uma amiga que vai para Londres. Chamamos alguns amigos em comum, mas não dava para ser gente demais, porque como já contei, estamos em clima de mudança. A gente queria fazer no apartamento novo, mas não deu tempo de providenciar tudo, então fizemos aqui mesmo.

 

Chutei o pau da barraca com vontade. Sabia que não era o melhor dia para beber, mas que se dane, estava afim. Obviamente, no meu estado de espírito do dia, a bebida fez seu estrago. Fico muito mais alterada do que normalmente, queria um pouco de anestésico e funcionou. Se não ofendo ninguém, não me importa pagar o mico de vez em quando.

 

E me diverti.

 

Um amigo músico trouxe o violão e um amplificador. Acho que a gente devia estar fazendo um esporro daqueles, porque finalmente, algum vizinho chamou a polícia.

 

Em outras ocasiões, eu me chatearia. Mas na última festa nesse apartamento, achei que a polícia fechava com chave de ouro e até isso achei legal! Fora que tenho experiência, recebo os agentes na maior tranquilidade e bom humor. Ofereci água, coca-cola… só faltou um chazinho com biscoito!

 

Pequeno detalhe, era dia do orgulho gay e moramos no bairro ao lado de Chueca (bairro alternativo GLS de Madri). Assim que a rua estava lotada de gente fazendo festa nesse temática. Imagina, bate na minha porta um casal de policiais, o que dá vontade de você falar?

 

Podem entrar e começar o striptease, por favor!

 

Mas muita calma nesse momento, ficou só na vontade, não chegamos a fazer a piadinha.

 

Bom, paramos com a música, até porque realmente estava meio tarde. Mas o pessoal continuou batendo papo. Em algum momento, me bateu os cinco minutos e saí à francesa para meu quarto. Assim que não vi o final da festa.

 

Dia seguinte, acordei de ressaca. Não é muito comum, minha resistência à bebida é conhecida. Mas se estiver um pouco triste… já era! Sobe rápido e me dá ressaca no dia seguinte. Como disse antes, sabia disso e não me importava.

 

Também não estava tão mal assim. Deu para levantar umas 15h e saímos direto para o apartamento novo. Fomos encontrar com nossos amigos e dar a tal ajeitada nas pedras da “terraza”. O plano A era sair de lá e ir direto para a casa de outro casal assistir a final da Eurocopa: Espanha x Itália.

 

Só que a gente ficou até meio tarde no apartamento, mortos de cansaço, e ainda saímos para comer alguma coisa, porque estávamos todos roxos de fome. Resultado, não aguentamos ver o jogo na casa dos amigos. Por sorte, ainda assistimos uma parte no restaurante onde comemos. E o legal é que havia uma promoção, se a Espanha ganhasse, nós ganhávamos também outro jantar grátis.

 

Achei legal a Espanha ganhar e não só pelo nosso próximo jantar na faixa. Primeiro, porque mereceu. Segundo, porque dá um outro astral, as pessoas ficam mais animadas, vão aos bares, gastam mais… enfim, a economia gira um pouco e alivia esse “bajón” da crise.

 

Aliás, outro dia estava pensando, o mal humor espanhol é conhecido mundialmente, a tal da “mala leche”! Daí observei que na TV há uma infinidade de comerciais contra prisão de ventre, mas muitos mesmo, não sei se o espanhol é mais preso que as outras pessoas no planeta, mas definitivamente, isso afeta o humor. Ou seja, será que a mala leche espanhola se deve a uma enorme prisão de ventre coletiva? Será que é por isso que eles gostam tanto de falar que se “cagam” nas coisas?

 

Enfim, filosofias escatológicas à parte, a vitória da seleção deu uma renovada de ares, pelo menos em Madri. E gostei.

 

E lá vou eu arrumar mala e toca a providenciar mudança!

Da série: as besteiras que escuto com tom de sabedoria

Somos acostumados a ouvir certas verdades absolutas quase que goela abaixo. Infelizmente, cheguei a conclusão que boa parte das pessoas simplesmente não presta atenção no significado do que escuta e sai repetindo o que se considera sabedoria popular, mas que na realidade não passa de uma besteira reforçada há anos.

 

Vira e mexe, alguma dessas “sabedorias” me doem no ouvido e resolvo entender um pouco mais a fundo.

 

E hoje estava pensando sobre o super valorizado amor incondicional. Por que raios as pessoas acham isso tão bonito mesmo?

 

Começamos pelo mundo animal. Escuta-se muito falar de que o cachorro é melhor que o gato porque ama o dono incondicionalmente. O gato quer ser bem tratado, é um egoísta!

 

Para começar, dizer que um cão ama incondicionalmente é mentira, se o animal é maltratado, no máximo, terá medo do dono, não amor. Mas meu ponto principal nem é esse, eu gosto de cães e de gatos, a questão é por que se considera o gato egoísta por querer seu próprio bem?

 

E vamos ao mais citado de todos os amores incondicionais: A mãe ama o filho incondicionalmente!

 

Outra mentira, tem muito filho que não presta e muita mãe que também não. Podemos falar de um amor gigante, que aceita muita coisa, mas isso não significa incondicional.

 

Amor se conquista, se merece e acho muito bom que seja assim. Eu não quero dar nem receber um amor incondicional. Meu amor tem condições sim e a primeira delas é o respeito.

 

A busca da ausência de condições tem a ver com colocar a responsabilidade no outro. Não sou eu que não devo ser violento, é o outro que deve me tolerar assim. Não sou eu que preciso me cuidar, é o outro que tem que gostar de mim do jeito que eu quiser ser. E se isso não é egoísmo, por favor, alguém me desenhe o que é.

 

O amor incondicional, se existir, é a supremacia do egoísmo!

Desfazendo os nós aos poucos

Pois é, com tanta coisa que resolveu acontecer ao mesmo tempo, às vezes fica até difícil você saber do que cuidar.

 

Então, vamos por partes.

 

Primeiro, tenho amigos show de bola! Foi um tal de gente aparecer e se oferecer para ajudar na mudança, carregar coisas, limpar etc. Eu acho o máximo essa disposição! Procuro pedir o mínimo possível, porque acredito que a gente só deve gastar o tempo dos outros quando não tem jeito mesmo. Mas não nego que é bacana saber que, se a gente precisar, sempre tem com quem contar.

 

Falando em mudança, contratei a mesma de sempre, a El Retiro. O engraçado é que, depois de tantas vezes, umas quatro, eu acho, acaba que tenho atendimento de empresa. Inclusive recebo cartão deles de Natal. Cliente VIP total! Também, eles sabem que de dois em dois anos eu bato lá para mudar outra vez.

 

Mas teremos que esperar sair a autorização da mudança, não vai ter jeito. Minha rua é muito apertada e precisam fechar o quarteirão por algumas horas para a gente poder tirar os móveis. Custa uma taxa de 100 euros e leva um mês para conseguir.

 

Fora que é um mico daqueles, né? No horário combinado, chega a polícia e fecha a rua. Depois estaciona o caminhão e começam a descer as caixas e móveis, geralmente, pela janela. Chama a maior atenção, todo mundo quer ver! Mas já nem me abalo com isso, estou calejada.

 

Bom, nós fizemos um acordo com o novo proprietário de não pagar a primeira mensalidade, mas em troca, pintar o apartamento (se a gente quisesse), colocar um forno e uma máquina de lavar roupa.

 

A gente quis pintar as paredes. A cor da sala era muito escura e o resto da casa, não estava terrível, mas se notava que havia sido usado. Queria entrar com tudo limpinho e novinho. Contratei uma pessoa para fazer isso. O mesmo operário que fazia tudo aqui no apartamento atual. Já estou acostumada com ele, não é muito barateiro, mas faz as coisas direito e é de confiança. Tem que ficar um pouco no pé dele, como todos, mas também conheço esse esquema.

 

No fim de semana, fui com Luiz comprar o tal do forno e da máquina de lavar. Ele conhecia um outlet por Las Rozas (bairro onde vou morar) que estava com bons preços. Devem entregar na quarta-feira, mesmo dia que o pintor ficou de começar.

 

Vira e mexe eu vou no apartamento novo. Ou para fazer o orçamento com o pintor, ou para mostrar para uma amiga, ou para levar material de limpeza… enfim, minha cabeça já está lá. Levei também uns incensos e comecei a deixar a casa com uma energia bacana. Só é meio complicado porque é longe e ruim para ir de condução. Então, tenho que ir cedo com Luiz para o trabalho dele e ficar com o carro.

 

Meu estilo de vida vai mudar muito, mas estou gostando. Tenho certeza que se fosse há um ou dois anos atrás, não daria certo, mas agora estou prontinha para esse passo. Acredito que minha vida parecerá mais com a que tinha no Brasil ou nos EUA, no sentido de estar sempre dependente do carro. Mas tudo bem, eu já brinquei de casinha europeia quase 8 anos, agora quero mais é conforto.

 

Semana passada, fui no médico. Ele é sempre animado. Minhas medidas do endométrio estão muito boas, fluxo de não-sei-o-que muito bom… mas sei lá, me preocupa um pouco me animar demais. Ele me marcou exame de sangue nessa quarta-feira, assim que até sexta, devo saber se rola ou não rola gravidez. Honestamente, não sei o que pensar, tem horas que acho que sim, outras que não. Não noto sintomas, mas não quer dizer muita coisa, porque além de muito cedo, não tive grandes sinais quando engravidei pela primeira vez. O que tiver que ser, será. Pelo menos, estarei bastante ocupada para me preocupar com isso ao longo da semana.

 

Quanto ao meu sogro, não melhorou. Os sinais vitais, digamos assim, se estabilizaram, mas sua lucidez está se perdendo e não dá para saber quando e se voltará. É bem duro, estou tentando não me envolver tanto, pelo menos até confirmar essa história da gravidez. Sei que não é bonito de se dizer, mas não vou negar que estou me preservando. A família do Luiz tem uma maneira diferente de se relacionar do que a minha e não quero confusão. Ajudo no que posso, mas não pretendo puxar essa responsabilidade e também ninguém me pediu que o fizesse.

 

Final de semana foi movimentado. Durante o dia, para variar um pouco estávamos resolvendo coisas do apartamento novo. E na sexta e no sábado tínhamos aniversários de amigas para ir.

 

Na sexta-feira, foi aniversário de uma amiga de trabalho do Luiz, que eu conhecia. Ela fechou uma área de um bar lounge em Las Rozas. Achei legal conhecer um pouco as redondezas e ver que por lá também há boas opções. Conheci outros companheiros de trabalho do Luiz e achei o pessoal bem legal. Acredito que ao mudar para lá a gente vá se entrosar mais com alguns deles.

 

Como curiosidade, conheci uma argentina e, no primeiro momento, admito que tinha meus preconceitos. Ela perguntou da onde eu era e quando eu falei Brasil, ela soltou um “ah”, meio antipático. Luiz e eu nos entreolhamos como quem diz, só podia ser argentina, né? Acontece que às vezes a gente se engana com a maneira de falar das pessoas, porque depois que ela terminou de cumprimentar o pessoal, voltou para mim e disse que adorava o Brasil, que o pai tinha apartamento no Rio e ela passava as férias por lá. Ou seja, o “ah” não era de despeito, era pela coincidência. O golpe de misericórdia foi quando ela disse que era Portela! Aí, eu já estava querendo virar amiga! É verdade que no decorrer da festa, se fizeram dois grupos, um bastante grande com o pessoal do trabalho e acompanhantes e outro pequeno só de argentinos. Como costume, acho que não queriam se misturar. Uma pena, poderia ter ficado amiga da portelense.

 

Enfim, não ficamos até muito tarde, estávamos meio cansados e tínhamos coisas para resolver na manhã do sábado.

 

E no sábado, foi aniversário de outra amigona, que se juntou com mais duas e fecharam uma boite só para os amigos. Foi um dia meio confuso, porque a Espanha estava jogando contra França um pouco antes de começar a festa. A cidade estava com os bares e ruas bastante cheios por isso. Mas a verdade é que para gente, acabou dando no mesmo. Fiquei feliz que a Espanha ganhou da França e fiquei feliz de ter uma noite reservada com os amigos. Estava afim de dançar e botar as bruxas para fora e assim o fiz.

 

Bebi minhas caipirinhas e nasceu um whisky na minha mão! Mas bebi bastante água e não chutei o pau da barraca. Melhor me cuidar. Porque ando com minha labirintite doida para vir. Felizmente, sem crise, mas meio tonta quando faço movimentos mais rápidos com a cabeça. Então, não quero abusar.

 

Durante a festa, perguntei a uma amiga se ela e o marido não queriam morar duas semanas lá no apartamento, quando formos ao Brasil de férias. É que agora é mais complicado ter alguém que possa ficar por lá. Como disse, precisa ter carro. Meu amigo trabalha bem perto e minha amiga gosta daquela área. Para gente, seria uma mão na roda, para cuidar do Jack. Eles toparam e fiquei mais tranquila por termos com quem deixar o gato. Beleza! Mais um assunto resolvido!

 

Na saída da festa, quando vou me despedir de uma amiga, ela me dá uma bolsinha e fala para eu ver depois. Não dava para a gente se escutar direito. Do lado de fora, abri e era um colar lindo! Fiquei na dúvida se ela havia se confundido, achando que eu fiz aniversário, ou se era para eu entregar para alguém e eu tinha aberto achando que era para mim. Mas nada, ganhei um presente assim de graça! Ela viu um colar que achou minha cara e simplesmente me deu. Adorei.

 

No taxi para casa, falo para o Luiz: olha, só para você não ser pego desprevenido, é possível que eu tenha convidado algumas pessoas para um churrasco lá no nosso apartamento novo no próximo sábado… Ele começou a rir sozinho, e eu estou convidado, tenho que levar alguma coisa? Claro que sim, e você tem que levar a churrasqueira!

 

Bom, honestamente, não sei se vai rolar. E nem é porque não temos nenhum móvel no apartamento ainda, isso os amigos não ligam. Mas é porque não sei se o pintor termina a tempo e se consigo limpar a casa. Já veremos.

 

De qualquer forma, tentamos comprar uma churrasqueira no domingo, mas estava tudo fechado. Vamos tentar durante a semana. Se não for para agora, será para depois. Mas uma churrasqueira na nova terraza é fundamental! Também vi um SPA portátil, na verdade, parece uma ofurô inflável que fiquei doida! Está na minha lista de desejos, mas preciso medir direitinho para ver se cabe bem.

 

E assim, pouco a pouco se desfazem os nós. Muito trabalho, mas tudo tem solução. E quer saber, bem que gosto desse movimento.

Tudo-junto-ao-mesmo-tempo e um baita susto no meio

Na semana passada, me prometi que não queria sair nem confusão, queríamos um pouco de sossego, né? Realmente, no que dependeu da gente, isso foi verdade. Começamos a semana bem tranquilos e nosso único compromisso era a viagem a Istambul na sexta-feira.

 

Na quarta-feira, tive médico e ele constatou que minha ovulação tinha adiantado um pouquinho. Esperávamos que fosse começar pelo fim de semana seguinte, um dos motivos pelo qual ia com Luiz para Turquia. Ele precisava viajar a trabalho e eu para procriar!

 

Pequeno detalhe, já que foi tudo junto, durante a semana, a gente tinha comprado passagem para o Brasil, de férias, indo dia 26 de julho e voltando 11 de agosto. Estava toda empolgada com a notícia e nem havia tido tempo ainda de contar para nossos pais.

 

Nisso me liga minha mãe, avisando que achava que meu sogro estava no hospital. Mas a história ainda parecia confusa, não entendemos bem se ele havia ido para uma consulta de rotina ou se era algum problema mais sério. Levou um tempo até a gente conseguir se comunicar direito.

 

Em paralelo, nós estávamos procurando casa para mudar, lembra? Então, todo dia eu checava se havia entrado algum imóvel novo para ver e entrou um apartamento que parecia perfeito na quarta-feira à noite. Luiz ligou para lá, foi ver logo na quinta pela hora do almoço e gostou. Marcou que eu fosse com ele no fim da tarde.

 

Enquanto estávamos entre as visitas ao apartamento, conseguimos entrar em contato com a família do Luiz e entender um pouco melhor o que estava acontecendo. Era grave e meu sogro estava internado no CTI.

 

Luiz sem saber se mantinha a viagem a Istambul ou se deveria ir ao Rio.

 

E eu sem saber se ia atrás dele! Afinal, ele é meu garanhão reprodutor, né? E como é que posso pensar nisso uma hora dessas? Fácil, há quase um ano eu penso assim, vivo fazendo contas, ecografias e consultando tabelas. E esse é o último mês que me propus a tomar os hormônios. Assim que ou vai ou racha!

 

Consegui ver o tal apartamento e adorei! É uma cobertura perto do trabalho do Luiz, onde ainda vamos pagar menos que aqui por ser fora do centro de Madri. Fechamos negócio no mesmo dia. Luiz assinou o contrato na sexta-feira pela manhã.

 

A situação do meu sogro deu uma estabilizada, ele já não corria risco de vida e achamos melhor esperar um pouco para Luiz ir ao Rio. Não sabemos se ele espera até dia 26 ou vai antes, já veremos. Com a mudança de casa no meio, não dá para eu ir com Luiz agora, preciso esperar até fim de julho mesmo.

 

Resolvemos, então, manter a viagem do fim de semana e monitorar a situação à distância.

 

Apesar da preocupação, entre altos e baixos, conseguimos aproveitar a viagem e a cidade. Talvez pareça estranho, mas pelo meu histórico (e talvez seja assim com todo mundo) aprendi a viver tristezas e alegrias ao mesmo tempo. A vida é misturada, não adianta a gente esperar um momento só de felicidade para celebrar. Cada passo é uma vitória, é o que acredito e como decidi viver. E, a propósito, adoro Istambul! Não sei se vou escrever novamente sobre a cidade, mas quem quiser saber um pouco mais, pode ir nesse link de uma crônica passada. Uma coisa achei muito curiosa dessa vez, havia uma quantidade de brasileiros enorme por lá! Não sei se a cidade está na moda ou o que, mas me impressionou.

 

E voltando a contar nossa odisséia, vamos complicar um pouquinho?

 

Porque, a princípio, iríamos juntos a Istambul na sexta-feira e voltaríamos na terça seguinte, também juntos. Com as passagens compradas e no meio desse furacão, o chefe do Luiz marca uma reunião importante para ele em Amsterdam. Assim que, no caminho, tivemos que trocar minha passagem para voltar um dia antes e a dele para ir direto à Holanda.

 

E foi fundamental que ele fosse mesmo, porque além de tudo, Luiz recebeu um prêmio do seu trabalho que não esperávamos. Achei bacana! Fico muito orgulhosa vendo que em uma situação de crise e dificuldade, ele ainda é capaz de se destacar.

 

Bom, agora estou em Madri, meio doida tentando organizar a mudança. Porque, como moramos no centro em uma rua apertada, a gente precisa de uma autorização da prefeitura para fechar um trecho da rua que leva um mês para sair. Ou seja, que nossa mudança sairá quase quando eu tiver que ir para o Rio! Que horas vou arrumar a casa?

 

Então, agora está simples, não sei se Luiz volta para casa ou vai direto para o Brasil. Meu sogro segue internado e estamos preocupados com isso. Aparentemente, já não corre risco de vida e saiu da UTI, mas quando voltar para casa (e não sabemos que dia será) precisará de assistência integral. Não sei que dia sai minha mudança ou se terei tempo de arrumar a casa. Precisamos também fazer alguns reparos no próximo apartamento antes de morar. Não sei com quem vou deixar meu gato quando formos ao Brasil. E posso estar grávida ou não. Moleza!

 

No meio do caos, o que nos salva é acreditar que no final vai dar certo.

E seguindo com as festas e hóspedes…

Na quarta-feira, passei o dia pela rua com minha amiga hóspede. Fomos a uma exposição na Fundación Telefónica muito boa, chamada “Arte y Vida Artificial. VIDA 1999-2012”, recomendo.

 

Enfim, ficamos até umas nove e pouco da noite conversando, até que a sua irmã veio buscá-la. O último dia ela dormiu na casa dessa irmã e no seguinte voltaria para o Brasil.

 

Daí tinha uma festa de despedida para ir, na sala Caracol. Eu juro que queria muito ir e é difícil que eu fure alguma coisa que já confirmei. Mas na boa, estava sem energia. Luiz, que também chegou meio tarde do trabalho, já me disse que não aguentava ir. Então, teria que ir sozinha. Quer saber, prefiro admitir que não dou conta!

 

Na quinta-feira, até tinha programação, mas me fiz de morta! Tinha um jantar com o pessoal do trabalho do Luiz, em que eu poderia ir, mas não ficava chato ele ir sozinho. Afinal, era uma comemoração do seu trabalho mesmo. Sinto muito, me inclua fora dessa!

 

Foi bom, porque na sexta eu já estava mais descansada e pronta para o fim de semana.

 

Porque lembra que havia um casal de hóspedes antes que foi para Istambul? Pois é, eles voltaram na sexta-feira, para uma última noite. Fomos jantar com eles no El Fogón de Trifón, como sempre, uma delícia!

 

Até que estava animada para seguir a noite, mas estava todo mundo bem cansado. E o vôo dos nossos amigos saía pelo meio dia daqui. Então, seguimos para a casa e tomamos a última garrafa de vinho no conforto do lar.

 

Sábado, fomos levá-los ao aeroporto, o que quer dizer que pelas nove da manhã já estávamos de pé e preparados! Eles disseram que não precisava, mas também não custava nada. Um pouco mais de sono… um pouco menos de sono…

 

Muito bem, depois de deixá-los, voltamos para casa e demos uma descansadinha, porque às 14h a gente saía para um churrasco. Felizmente, conseguimos carona, o que adorei! Porque assim podia beber Luiz e eu sem problemas. A gente nunca bebe e dirige, gosto sempre de repetir. Porque chutar o pau da barraca é muito bom, desde que a gente não arrisque a vida dos outros.

 

E é lógico que a gente chutou o pau da barraca, né?

 

Não sou autorizada a contar a vida dos outros e nossas festas respondem a um rigoroso pacto de silêncio, afinal, todos tem telhado de vidro! Só vou dizer que teve música ao vivo, batucada, carne boa, cachaça, secante de esmalte, dança, arroz à carreteira da meia noite, carteado… e saímos de lá acho que pelas duas da matina, talvez um pouco antes. Confesso que quando começou o carteado, dei uma perdida e fui cochilar. Jogos de cartas me deixam entediada.

 

Enfim, chegamos sãos, salvos e mortos de cansados!

 

Domingo, a gente deu uma certa hibernada, levantei só porque estava com fome e voltei para cama outra vez! Mas ainda tinha a despedida de outro amigo no Maloka. Bom que uns amigos cantavam por lá na mesma noite, daí decidimos dar uma passadinha.

 

Chegamos cedo e juro que foi realmente só uma passadinha. Tomamos água e nem aguentei a garrafa toda! Estava bem legal, um bom astral, gente boa. Eu é que estava meio mais ou menos, mas era só cansaço mesmo.

 

Já avisei que quem me chamar para sair essa semana apanha! Disposição, até tenho, mas não há dieta que aguente toda essa programação, álcool engorda! E nunca é só álcool, sempre tem alguma comidinha boa acompanhando, né? Chega! Final de semana, contem comigo, mas durante a semana, vou puxar meu carro um tempinho!

 

Enquanto isso, na sala de justiça, estamos procurando apartamento ou casa para mudar. Sem pressa e sem data, mas com vontade de mudança. Eu adoro o apartamento que moro hoje, é bastante charmoso, mas o prédio é muito caído e não tem elevador. Isso tem nos cansado ultimamente. Mas para ser sincera, está um pouco difícil de achar. Sei que estou bastante exigente, mas a verdade é que por não ter nenhuma urgência, quero escolher com calma e só fechar um negócio que realmente valer a pena.

 

Ando com muita vontade de mudar para Las Rozas, perto do trabalho do Luiz. Eu nunca quis sair das zonas centrais de Madri antes, mas de uns tempos para cá, sei lá, quero mudar um pouco o estilo de vida. Os imóveis por lá são melhores de preço e pelo mesmo que estamos pagando no centro, lá poderíamos ir para uma cobertura, por exemplo. Ou quem sabe uma casa, com jardim. Com o carro na mão, talvez também me animasse a fazer a Cordon Bleu, que é por aquelas bandas. Podia começar a montar um negócio em casa… enfim, tenho alguns planos que poderiam funcionar. Agora é paciência para procurar.

 

Esqueci de contar uma coisa curiosa, o casal de hóspedes que foi para Istambul havia nos chamado para ir com eles. Ficamos com muita vontade, mas Luiz não poderia tirar os dias de férias. Muito bem, nessa segunda-feira, com eles por lá, me liga Luiz: você não vai acreditar onde é minha próxima reunião!

 

Sim, justamente lá. Por uma semana de diferença, não nos encontramos na Turquia. Enfim, é só um fim de semana, mas resolvi ir com ele. Acompanhar viagens a trabalho tem suas vantagens, só pagamos minha passagem e a estadia costuma ficar por conta da empresa. No máximo, pago um complemento, mas o hotel não costuma cobrar.

 

Assim que na próxima sexta-feira, 15/06, lá vamos nós para Istambul!

 

Ai, ai… vidinha monótona…

Sanduíche de festas recheado com rodízio de hóspedes

Como sempre, nossa vida esse marasmo, né? Movimento pouco é bobagem!

 

Conseguimos descansar na terça e na quarta-feira, um intervalo para pegar fôlego e seguir na maratona.

 

Na quinta, chegou em casa uma amigona do meu tempo de colégio de Brasília. Ela já morou um ano aqui em Madri, perto da onde moro hoje. Assim que a programação já estava definida: qualquer coisa, desde que terminássemos no El Junco!

 

Luiz em fechamento de ano fiscal, trabalhando enlouquecidamente. Na verdade, era exatamente o dia do encerramento.

 

Então, fui minha amiga e eu para o Olé Lola. Gosto de lá pelo ambiente lounge e da possibilidade de beber e comer, coisa que não é tão comum aqui. Boa parte dos bares, depois das 23h só serve bebida. Costuma rolar uma boa música eletrônica também. E assim foi, ficamos por lá até umas onze e pouquinho, quando chegou Luiz. Foi direto do trabalho nos encontrar e tomar uma única dose conosco.

 

Luiz voltou para casa, afinal, ainda que tivesse encerrado seu ano, ainda trabalhava no dia seguinte. Estava cansado, mas bem. Seus resultados foram excelentes, principalmente considerando a situação do país.

 

Nós seguimos para o Areia, mais para minha amiga matar a saudade. Pelo menos não estava tão cheio e deu para a gente sentar e conversar um pouco.

 

Finalmente, toca para a melhor casa noturna de Madri, na minha opinião, El Junco. Acho as noites de quinta por lá as melhores. Geralmente, a música ao vivo rola até uma e meia da manhã, e logo entra o DJ. Mas nas quintas, acontece uma real jam session e os músicos saem brotando na casa e prorrogam a festa até depois das três. Meu amigo barman estava por lá e me serviu minha tradicional dose cavalar de single malt.

 

Confesso que pelas duas e pouco da matina, estava meio morta. Depois a casa estava cheia e eu derretendo de calor! Chamei minha amiga para irmos embora. Coisa rara, porque geralmente, sou eu que saio puxada dos lugares.

 

Na saída, a porta estava meio pesada para abrir, me distraí com isso e esqueci que tem uma porcaria de um degrauzinho, que o porteiro sempre avisa, mas justo esse dia não lembrei. Eu com um salto plataforma de uns 10cm, pisei torto. Tinha duas alternativas, tentar não cair e correr o sério risco de torcer o tornozelo, ou aceitar o destino, relaxar o corpo e cair com o menor dano possível. Fui pela segunda alternativa, me estabaquei bem na porta do El Junco! Nem sei direito o que fiz, mas dei um jeito de rolar para não torcer o pé e amorteci com os joelhos. Em segundos o porteiro já tinha me levantado. Fiquei meio desconfiada, porque tinha tudo para ter me machucado feio, mas fui conferindo aos poucos e, tirando minha dignidade, o resto seguia muito bem.

 

Depois de confirmar que não estava lesionada, saímos rindo para casa do mico. E o pior é que a noite inteira só havia bebido duas doses, ou seja, que nem na bebida podia por a culpa! Paciência, hematoma é feio mas se cura logo, o importante foi não torcer nem quebrar nada!

 

Minha amiga ainda estava meio tontinha e queria andar mais um pouco para não acordar ruim. Então, ainda demos uma volta caminhando pela Plaza 2 de mayo e as ruas das redondezas. Pelas três nós chegamos em casa.

 

No dia seguinte, essa amiga viajou para Portugal, mas deixou uma mala aqui em casa, porque voltaria.

 

Na sexta-feira, tinha um super jantar para oferecer. Temos amigos que se casaram há pouco e vão se mudar de país. De maneira que era difícil dar um presente de casamento, porque eles não irão contratar uma empresa de mudança. Por isso, queríamos fazer alguma coisa que eles pudessem se lembrar depois.

 

E assim foi, como ela é baiana, queria dar um toque de memória afetiva no cardápio, que foi o seguinte: amuse bouche, ninho de ovo de codorna com caviar e canapé de kani e curry; entrada, um duo de texturas, mini souflê de queijo coalho e bolinho de moqueca; primeiro prato, bobózinho na moranga; prato principal, Beef Wellington com queijo arzúa e creme de batata trufada; queijos; sobremesa, tiramisú de tapioca com redução de Porto e amoras. O maridaje feito com Champagne Heidsieck Monopole Rosé, Vinho tinto Lacoste-Borie – Pauillac 2000 e Vinho do Porto Noval Black.

 

Depois é só pedir uma ambulância e sair rolando! Enfim, achei uma delícia o jantar e a companhia.

 

No sábado, pela manhã, recebemos outro casal de hóspedes. Bianquinha escondeu a mala da primeira hóspede e preparou o quarto para os novos ocupantes. O marido, Luiz e eu conhecemos desde a época que ainda éramos namorados, trabalhávamos os três na mesma empresa. A esposa, conhecemos há uns três anos mais ou menos e já nos encontramos em alguns países diferentes. Eles iam para Istambul, e dormiram duas noites aqui de passagem.

 

No próprio sábado, tínhamos já agendado um churrasco para ir. Mas realmente, para nossos visitantes, não fazia muito sentido ir para a casa de alguém. Melhor aproveitar para descansar um pouco da viagem e passear pela cidade. Como moramos bem no centro, é muito fácil se locomover. Deixamos com eles uma chave de casa e seguimos a programação.

 

O tal churrasco foi show de bola! Animadérrimo! Costumamos ter música ao vivo nas festas aqui de casa, mas é algo muito democrático, toca quem quiser, se quiser e o que quiser. Os amigos dessa casa também queriam músicos e chegamos a conclusão de que era só contratar e dividir entre os convidados, assim não era pesado para ninguém e também ficávamos à vontade. Porque é difícil separar a amizade do trabalho e nossos amigos músicos vivem disso, né? Pois foi ótimo! Chamamos dois amigos para tocar, eles levaram som, microfone e conduziram a bagunça. A gente levou mais um monte de instrumentos e participou da farra. Adicionalmente, foi um dia gostoso, a temperatura estava boa, as pessoas ficam mais alegres quando o inverno acaba e rolou uma energia muito bacana.

 

Chutei o balde com vontade e acho que sigo com minha resistência à bebida. Pelo menos, da parte que me lembro, e como se eu não lembro eu não fiz… acho que estava ótima! Porque se não tomei sozinha uma garrafa de cachaça, cheguei bastante próximo a isso.

 

Mas nosso sábado não acabava aí! Lembra que tínhamos hóspedes? Pois é, saímos do churrasco antes do final, até porque as festas dessa galera são intermináveis, e voamos para casa. Tínhamos jantar já reservado.

 

Encontramos nosso casal de hóspedes e fomos para o Nikkei 225, uma fusão gourmet de peruano com japonês. Outra chutada de balde impressionante! Degustação completa, acompanhada de duas garrafas de vinho. Tudo uma delícia, jantar e companhia.

 

Chegamos em casa e depois de tanto álcool na cuca, me dá vontade de conversar com Luiz. Fico falante e emotiva que é uma beleza! Tive uma certa recaída em relação a todo esse processo da gravidez. Ainda é tudo muito recente para estar bem resolvido. Por um lado, me sinto aliviada, leve e com vontade de recuperar minha essência. Ao mesmo tempo, um pouco frustrada e bastante insatisfeita com meu corpo. Sei que vou me recuperar, mas por enquanto, nem roupa eu tenho vontade de comprar. Felizmente, o último mês sem progesterona já começou a refletir e estou menos inchada. Também voltei a correr e a pegar mais pesado nos exercícios, assim que pouco a pouco acho que as coisas voltam para o lugar.

 

Luiz acha que eu exagero e eu não acho, tenho certeza. Mas para mim é difícil fazer qualquer coisa pouco, eu não sei fazer só um pouco. Meu equilíbrio é sempre nos extremos, nunca no meio. Não sei se isso um dia muda, nem se quero mudar.

 

Domingo amanheceu e de dia as coisas ganham outra perspectiva, voltam ao seu tamanho real. Acordamos por volta das onze, porque queríamos almoçar em Cuenca. Não acordei exatamente de ressaca, o que é impressionante considerando o dia anterior, mas estava com uma preguiça de lascar! Ainda assim, não íamos perder o domingo, muito menos decepcionar nossos hóspedes, então, bora para estrada!

 

Cuenca fica há umas duas horas de Madri, é uma cidadezinha charmosa, cuja principal atração são as “casas colgadas” (penduradas). São casas construídas por penhascos. A natureza dessa região é bastante interessante e mais interessante ainda como a cidade se adequou a esse contexto. Há uma série de construções também do século XVII. Enfim, almoçamos por lá e passeamos um pouco. Ainda que estivesse sonolenta, gostei do passeio.

 

Na segunda-feira, pela manhã, esse casal seguiu para Istambul. Mas lembra que tinha uma amiga antes em casa que foi para Portugal? Pois é, foram eles saírem e ela chegar! Alta rotatividade!

 

E à noite, era a festa de comemoração dos 50 anos da Casa do Brasil. Organizaram um evento aberto nos seus jardins com Dj Pureza e a Maíra Freitas (filha do Martinho da Vila). E lá fomos nós!

 

Gostei de ter ido e encontrar os amigos, para variar um pouquinho. Mas dessa vez, assim que acabou o concerto, nós puxamos o carro, porque haja resistência! Nossa hóspede tinha a chave de casa e precisávamos descansar.

 

Hoje é terça-feira e já vi que a programação seguirá. Minha amiga fica em casa até quarta à noite e na quinta pela manhã volta o casal que está em Istambul. Dormem outra noite e seguem para o Brasil.

 

Mas essa já é outra história…

Muita, mas muita música boa!

Nem sei por onde começar, porque nessas últimas semanas me passou toda uma vida! Para minha sorte, um fio condutor feito de música e de amigos entrelaçados.

 

Como tenho que começar por algum lugar, começo pelo fim de semana anterior. Uma amiga música me pediu palpites em umas letras que está compondo para o CD novo. Se eu topo? Nossa, toda uma honra! Dá até um pouco de nervoso pela responsabilidade, mas a verdade é que tinha certeza que viria coisa boa e pronta, então tudo é mais fácil.

 

Há algum tempo, tive vontade de abrir uma categoria nova no blog, chamada justamente “letras para músicas”. Estava com uma certa vontade de compor, mas ao mesmo tempo, me sentia meio manca porque meu negócio são as palavras, me falta conhecimento musical para complementá-las.

 

Em outro momento dessa mesma semana, um amigo músico, que pelo que entendi, trocou figurinhas também com ela, veio falar comigo que se estivesse interessada em compor, a gente podia tentar alguma coisa.

 

Achei o máximo! E o engraçado é que a possível proposta veio depois de uma conversa que tive com um terceiro amigo músico, onde contava como me sentia privilegiada de estar em um ambiente com tanta gente talentosa ao mesmo tempo! Falava que a música tinha um espaço muito importante dentro da minha vida e que, finalmente, era um idioma que entendia, ainda que não soubesse falar direito.

 

Como a gente precisa ter cuidado com o que deseja, não é que alguns minutos depois, recebi a possibilidade de um “tradutor” que me ajudasse a fazer parte desse contexto?

 

Não sei o que virá por aí, mas a oportunidade me empolgou.

 

Nessas últimas semanas também houve duas coincidências em encontros. Uma da minha turma de colégio, que nos formamos juntos na 8ª série (Escola Paroquial Santo Antonio) e outra da turma que nos formamos no 3º ano (Colégio LaSalle). Por alguma ironia do destino, afinal são amigos diferentes, começamos a nos reencontrar virtualmente, através do Facebook, no mesmo período. Resultado, se já sou uma viciada em redes sociais, imagina com esse povo resurgindo das cinzas!

 

Do pessoal do Santo Antonio, tinha mantido contato com vários, mas além de terem aparecido novos amigos, agora reunidos em um grupo de tão fácil acesso e que podemos trocar fotos e lembranças, ganhou nova dimensão. É muito bacana ver como as pessoas evoluíram!

 

E o segundo grupo também é muito especial para mim. Cursei o segundo grau quase todo em um colégio, mas no último ano estava bem de saco cheio, enfim, longa história que ficará para outro dia. Assim que mudei para o Colégio LaSalle quando já havia começado o segundo semestre. Não tinha grandes expectativas de fazer amizades, afinal, estava pegando o bonde literalmente andando. Minha preocupação era simplesmente fazer um bom vestibular e escolher minha faculdade.

 

Acontece que fui mais do que bem recebida e o pessoal era show de bola! Rolou uma afinidade entre os alunos que nem sei explicar da onde vinha, mas terminamos o ano como um grupo muito unido e querido. Acho que foi a primeira vez que me senti parte de uma turma como um todo, sem as famosas “panelinhas”.

 

Agora, encontrar o pessoal, grisalho, com filhos, com carreiras definidas… é muito louco! Faz a gente voltar no tempo e se sentir com 16 anos outra vez, mas sem as inseguranças adolescentes, só com a energia e a crença que a gente podia tudo!

 

Eles já se encontraram em Brasília. Eu só consigo participar virtualmente e por fotos, por enquanto, mas tem sido viciante!

 

E voltando ao mundo real, na quarta-feira, foi o concerto em homenagem a Urano Souza, um músico “das antigas”, que leva em Madri quase 30 anos. Uma parte considerável dos músicos brasileiros que chegaram ao país, tiveram as portas de alguma maneira abertas por ele. Assim que, nessa homenagem, também vieram para dar sua contribuição musical. Então, imagina essa fera no palco acompanhada de uns 20 músicos de primeira linha! Imaginou? Pois multiplica por mil! Uma explosão de talento que chegou a emocionar.

 

Na quinta-feira, outro tremendo concerto do David Tavares em quarteto. É um monstro no violão e, dentro do quarteto, ainda estava acompanhado do Evaldo Robson (flauta e sax), outra fera que tocou com gente pequena como Tim Maia e Maria Betânia.

 

Ainda tinha outro concerto no mesmo dia do Arturo Lledó, que a gente ama de paixão, mas infelizmente, não conseguimos nos duplicar e comparecer a todos. O próximo a gente não perde!

 

Enfim, não costumo falar em nomes aqui no blog, mas para contar sobre concertos, às vezes fica difícil não citar, considero que shows são públicos e artistas precisam de divulgação. Ouvir esse pessoal a meio metro de distância, quando não na sala da minha casa, é uma experiência ímpar que tem me aberto um horizonte gigantesco de uma linguagem universal, a música. Então, hoje, de alguma maneira, abro uma exceção porque queria dizer o nome de vários. E sinto muito se faltar alguém, mas é que aqui só me sinto no direito de contar minhas histórias.

 

E dito isso, seguimos. Nesse concerto do David, Luiz chamou o pessoal do seu trabalho. Eles estão em uma época ocupadíssima, porque é fechamento de ano fiscal. Mas pareceu uma boa idéia dar uma relaxada e quebrada nesse clima com um show de música boa e tranquila. Acabou que foi só um casal, que achei muito simpático. Foi legal falar mais em espanhol, porque com a quantidade de amigos brasileiros que temos, às vezes sinto falta de exercer um pouco minha segunda cidadania. Além deles, mais alguns amigos compareceram e conhecemos outro casal de brazucas que parecem bem animados. Assim que nossa família segue crescendo…

 

E falando em família, e porque tudo na vida é misturado, na sexta-feira, primeiro horário, eu precisava fazer um teste de gravidez. Dessa vez, meu médico me recomendou um exame de sangue. Uma maneira de adiantar o resultado, afinal assim consigo a resposta uma semana antes e isso representa uma semana menos de ansiedade. Ele sabe que estou no meu limite e acho bacana que tente fazer com que o processo seja o menos complicado possível.Pediu urgência no resultado, que saiu pelas 19h30. Foi negativo.

 

A gente tinha um jantar para ir na sexta-feira, na casa de amigos espanhóis que adoramos e infelizmente temos pouca chance de nos encontrar. São inteligentes e engajados, aprendo muito com eles sobre a cultura espanhola em sua melhor parte.

 

Estava me maquiando quando o médico me telefonou para dar o resultado. Tinha expectativas positivas, porque sentia alguns sintomas, assim que foi algo decepcionante.

 

Por outro lado, foi um decepcionante rápido. Ensaiei uma vontade de chorar, mas não queria borrar minha maquiagem, não queria mais sofrer e não me caiu uma lágrima. Na minha cabeça só vinha, chega! Hasta aquí hemos llegado! Admito que estava um pouco puta, mas não estava triste, até porque nem aguento mais ficar triste por isso. Raiva é bem mais fácil de administrar do que tristeza. Deixa eu terminar de me maquiar, porque não quero me atrasar.

 

O jantar foi uma delícia e juro que não precisei disfarçar nada, não fiquei me martirizando. Na verdade, deixei esse assunto para depois e aproveitei o momento.

 

Na volta para casa, pensei um pouco a respeito, até para me entender melhor. Só tinha vontade de começar a me cuidar, fazer um regime mais sério, algum tratamento que me ajudasse a perder peso ou me deixasse mais bonita. Queria planos, por mais fúteis que fossem, queria estar bem na pele que habito. Não tinha mais vontade de pensar em sacrifícios para uma terceira pessoa que talvez nunca exista, queria cuidar de mim. Estaria em processo de negação? Será que era isso? Porque aceitei o não de maneira tão conformada que estranhei. Mas aceitei.

 

Tenho mais dois meses de tratamento, os quais vou cumprir. Afinal, tem muita gente que precisa que os outros não desistam, então, não me custa dar um pouco de esperança alheia. Mas sem progesterona e sem prioridade. Honestamente, mais para não decepcionar a família e alguns amigos do que por mim mesma. É impossível que aconteça? Não, não é. O ponto é que eu não acredito mais. Levo mais de três anos em tentativas incertas e quase um ano a sério nessa brincadeira, como prioridade absoluta, acontece que uma hora isso precisa ter um fim. Tenho uma atitude que nem sei se é boa ou má, mas é assim, me preocupo ou sofro enquanto é “talvez”, com o “sim” e com o “não”, sei lidar.

 

Certa ou errada, me sinto bem, leve e morrendo de vontade de voltar a ser ruiva!

 

E seguindo com nossa maratona, no sábado, almoço de aniversário de uma amiga. Seu marido, só para variar um pouquinho, também é músico, o Tinho. Que aliás, dá palhinhas excelentes aqui em casa nas festas! Comemos um strogonoff  divino, mas na hora que começou o samba, puxamos o carro, porque ainda tínhamos longo caminho pela frente.

 

Porque, na noite de sábado, tinha mais um concerto imperdível! Os personagens principais eram Vaudí Cavalcanti e Armandinho Macedo, duas feríssimas e vulcões de energia! Tocavam com Rogerinho, Mankuso, David Tavares e Fábio Neto. A Surama, esposa do Armandinho, também deu uma canja. Temos a sorte de conhecer todos e me sentia em casa! Generosos, não deixaram distância entre palco e plateia, tudo junto e misturado! Show para a gente se acabar e é lógico que a gente se acabou!

 

Antes, fizemos um “esquenta” na casa de uma amiga que morava perto de onde seria o evento. Cheio de coisinhas deliciosas para beliscar e bebida à vontade. É que no lugar do show, a bebida tinha a tradição de ser meio cara, então uma amiga foi logo dizendo que precisávamos já chegar no local todos “bonitos”! Pois chegamos lindos e maravilhosos! Uma galera de gente legal!

 

Engraçado que sempre leio coisas do tipo, amigos de verdade se contam com os dedos da mão, são raros e poucos. Às vezes, tenho a sensação que se desvaloriza o fato de se ter muitos amigos, como se a qualidade nesse caso fosse diretamente prejudicada pela quantidade. Eu acreditei nisso muitos anos, mas quer saber, hoje em dia acho esse um jargão sem sentido, uma besteira! Se a pessoa é tímida e prefere círculos mais reservados, não vejo o menor problema, mas se tem algum bobo contando os amigos nos dedos da mão, aviso que está no lugar errado, porque na mão não deveria caber nenhum. No meu coração (e no do Roberto Carlos) cabe um milhão!

 

Se posso contar com todos eles? Sei lá! Para que vou fazer amigos pensando em me ajudar nos meus problemas futuros que nem sei se existirão? Sei que eles podem contar comigo e isso mais do que me basta. Essa matemática é minha favorita, porque quando mais damos, mais recebemos.

 

Enfim, como disse, o show foi alucinante! Quando terminou, ainda ficamos por lá decidindo para onde seguir. Mas imagina chegar a alguma conclusão com esse povo todo, né? Nós descemos e ficamos esperando um pouco. Até que foi me dando fome, Luiz começou a me lembrar dos prazeres de ficar em casa agarradinho no ar condicionado… e resolvemos sair de fininho. Nem nos despedimos, achando que ninguém ia notar nossa falta, segredo de liquidificador total!

 

Em casa, ainda fui para cozinha fazer calabresa e mandioca com manteiga de garrafa, estava com desejo!

 

Já cansou? Pensa que acabou? Na-na-ni-na-não!

 

Domingo, acordamos com o telefone. Um amigo chamando para comer uma feijoada aqui perto, no Gula Gula. Também rolaria uma roda de samba. Ai, meus orixás, lá vamos nós! Mas a verdade é que depois da chutada de balde do sábado, uma feijuca caiu como uma luva. Na nossa mesa, todo mundo se encharcando de tomar água, a bebida mais radical era guaraná! Afinal, ressaca pouca é bobagem! Enfim, sobrevivemos!

 

Daí chegou segunda-feira, dia de ficar em casa, certo? Certo para quem cara pálida?

 

Foi a despedida do Fábio Neto, outro super músico que está indo embora para o Brasil, depois de uns 20 anos por essas bandas. Sorte dos cariocas! O considero bem completo, joga em diferentes posições e sempre faz gol! Não tinha como perder!

 

O local desse evento foi o Oba Oba, cuja reputação é, diria, duvidosa. A frequência geralmente inclui certas mocinhas trabalhadoras e seres bastante estranhos. Apesar do que, os músicos são sempre muito bons. Acontece que esse dia seria especial, pois a casa estaria cheia de amigos. Então, estávamos todos protegidos pelos deuses da boa energia!

 

Outra noite difícil de descrever, só feras! Além do próprio Fábio, dentro do recinto e participando ativamente, Urano Souza, Flávia Enne, Pedro Moreno, Evaldo Robson, Mankuzo, Rogério, Anderson Bezerra, Wagner Neto, Batata Galiza, Douglas Aguiar, Tinho, Cabelinho do Cavaco, Marreta, Diego Ebbeler… e a lista seguia. Cito esses só para dar uma idéia em que padrão ia a coisa. Pelas tantas, chega Surama e Armandinho com sua guitarra enfurecida para canjear.

 

E eu babando por poder fazer parte dessa história.

 

Tentei vir embora a primeira vez, não consegui, acabei voltando. Fui felizmente convencida por amigas, enquanto Armandinho dava um pulo no hotel para buscar sua super guitarra. Como é que perderia isso, né? Enfim, da segunda vez, nem me despedi de novo, saí à francesa porque senão, só amanhã de manhã… Assim que tenho certeza que perdi o finalzinho, mas simplesmente, precisava ir para casa.

 

Estava em um tipo de transe, em êxtase musical! Tinha uma necessidade louca de caminhar e sentir o ar fresco da madrugada pelas narinas.

 

Luiz também foi ao concerto, mas precisou voltar antes, porque acorda muito cedo. Eu estava tranquila, esse é o lado melhor de viver em província, a gente conhece todo mundo mesmo e as ruas são razoavelmente seguras.

 

Por isso, não tive a menor dúvida em voltar caminhando sozinha para casa. E foi um prazer passear pelas ruas já tranquilas e com a maioria das pessoas dormindo. Me senti outra vez privilegiada, especial, protegida. Sensação de lucidez, de saber, de outra vez poder tudo.

 

A música salva e liberta!

Segunda-feira, no médico…

Lá fui eu para minha consulta de rotina.

 

É assim, se espera a regra baixar e pelo quinto dia começo a tomar um estimulante para ovulação por 5 dias seguidos, um comprimido pela manhã e outro pela noite.

 

Daí, tenho que ir ao médico para ele checar como vai a tal da ovulação e pelas medidas que ele tira, faz as contas dos meus dias férteis. Assim, que todo mês vou ao ginecologista fazer uma ecografia para ele definir meus dias de “procriação”.

 

Não é tão ruim quanto soa, na verdade, até que a gente leva no bom humor. Às vezes, tenho que ir depois para checar se ovulei mesmo e já chego logo dizendo: fiz meus deveres de casa direitinho! Ele ri e sinto que fica na maior torcida para que eu engravide mesmo. É bom que me anima.

 

Mas na última consulta não cheguei tão animada. Queria conversar com ele sobre parar de tomar os hormônios e estava com algumas dúvidas. Ele percebeu logo e, felizmente, teve a sensibilidade de me ouvir e esclarecer melhor algumas coisas.

 

Primeiro, porque minha última menstruação foi a coisa mais estranha do planeta. Atrasei uns 3 ou 4 dias e sou um relógio. Logo veio cheio de coágulos. Estava desconfiada que fecundava, mas o embrião não seguia. Ao mesmo tempo, não sabia se isso era coisa da minha cabeça. Até porque os testes de gravidez de farmácia me davam sempre negativo.

 

Ele achou que era uma teoria possível, na verdade, até concordava com ela. Não achei o melhor dos mundos, mas de certa maneira, senti que posso reconhecer algumas sensações físicas e que não era simplesmente loucura minha. Também me disse que era um bom sinal, porque ainda que o ideal fosse a gravidez, meu corpo segue reagindo.

 

Perguntei se isso queria dizer que eram meus óvulos que já não estavam bons e por isso não evoluíam. Ele respondeu que poderia ser, mas não necessariamente, há outros fatores que poderiam influenciar. O que também me tranquilizou.

 

Expliquei que estava cansando e antes de seguir, ele já me adiantou que eu estava no quarto ciclo de tentativas e que se tenta no máximo seis. Assim que, eu não sabia, mas havia um final previsto. Tinha decidido tomar os hormônios só mais esse mês, mas diante dessa resposta, prefiro fazer o seis ciclos completos. Mais um, menos um…  fico tranquila e não tenho a responsabilidade por essa decisão. Não sou eu que preciso desistir, se for o caso.

 

De qualquer maneira, eu normalmente preciso começar a tomar progesterona a partir dos dias férteis. E é o hormônio que mais tem me enchido o saco. Perguntei se a gente não podia cortá-lo e, se realmente engravidasse, voltava a tomar imediatamente.

 

Ele me explicou que, na minha idade, é normal as mulheres terem carência de progesterona e tal… seria mais prudente manter… mas o que exatamente estava me afetando a progesterona?

 

Comecei dizendo que estava me dando muita retenção de líquidos, meus cistos estavam aumentando e que estava incômoda.

 

Ele seguiu meio na dúvida, tentando me convencer que não era tão mal, até que me perguntou novamente, está te incomodando tanto a progesterona?

 

Não tive outra alternativa, precisei usar a resposta que toda mulher sabe que não se pode contra argumentar:

 

_ Doutor, estou gooorrrrrda!

 

Muito bem, antes de ser médico, ele é homem e bem casado, sabe muito bem o que essa frase significa. Qualquer ser masculino razoavelmente inteligente e em sã consciência, nesse momento não dá mais um pio!

 

O discurso mudou para, veja bem, a progesterona é importante, mas é mais importante você estar bem com seu corpo, isso também afeta. Então fazemos assim, não começa a progesterona ainda e volta aqui na semana que vem, vamos ver seu endométrio e dependendo de não sei o que, isso indica se há ou não carência de progesterona. Daí a gente decide. Mas de toda maneira, pelo menos adiamos o hormônio!

 

Minha sanidade agradece!

 

Ele quer fazer outra coisa diferente também, esse mês não faço só o teste de farmácia, ele deve me pedir um exame de sangue para medir meu FSH (ou algo assim, sei que tem “H”).

 

Enfim, não saí de lá exultante, mas saí tranquila. Pelo menos entendi as coisas um pouco melhor, diminuiu a quantidade de hormônios, sei que meu corpo ainda reage e sei que existe uma data final para o processo.

 

Uma última coisinha, antes de vir a famosa frase: relaxa que acontece! Que, a propósito, não faz nenhum sentido para quem realmente está tentando. Gostaria de contar a experiência de uma amiga que tentou por uns três anos (e está gravidíssima agora). Ela ficava preocupada por não conseguir “relaxar” e perguntou a sua médica se isso poderia estar afetando a falta da gravidez. A médica respondeu que não afetava em absolutamente nada! Na-da! Daí veio a próxima pergunta, então, por que é normal, por exemplo, as pessoas engravidarem em viagens de férias? Não é porque relaxam e saem da rotina? Pois não, queridas, é simplesmente porque fazem mais sexo!

 

E dito isso, relaxada ou não relaxada, agora me toca a desfrutar da parte mais divertida da história. Deixa eu fazer meus deveres de casa, né?

Tristeza se mata por inanição

Vou falar de tristeza, mas não por estar triste, muito menos por renegá-la. Nada existe sem seu oposto, sem seu contraste. Se alguém quer ser feliz precisa conhecer o outro lado. Por qual sensação irá optar ou se manter, é outra história.

 

E hoje eu queria falar sobre luto. Não necessariamente da morte, mas da perda, porque acho que é do que o luto ao final se trata.

 

E é foda! Desculpem o francês!

 

Já passei por alguns e, a medida que envelheço, essa probabilidade aumenta. O primeiro foi o mais duro e não por ser o pior, mas por não conhecer como funcionava.

 

Havia a opção de deixar acontecer, fazer de conta que nunca mais ocorreria, até que inadiavelmente me daria de cara com ele outra vez, a bosta do luto! Mas sabendo que seria inevitável, achei mais inteligente entendê-lo e prestar atenção no processo. Achei que assim sofreria menos e se provou verdade.

 

Eu não chorava tanto, e nem era por falta de vontade, era repressão mesmo. Acho que era uma tentativa de me enganar e espantar a tristeza. O peito doía e minhas veias se rompiam, ficava cheia de hematomas. A sensação era de que não passaria nunca, doeria para o resto da minha vida. Então, eu achava que precisava aprender a viver com uma dor apêndice.

 

Acontece que o tempo passou e descobri que um dia a dor passa sim. Chega um momento que você acorda pela manhã e não sente tanto peso, não tem vontade de chorar e às vezes nem se lembra. E quando se lembra, é tão bom que dá vontade de sorrir, porque a dor se foi, mas ficou a saudade. E a gente só tem saudade do que foi bom e nos fazia bem.

 

E depois de aprender isso, é exatamente nesse momento de alívio que concentro minhas esperanças. É mais fácil passar por qualquer problema sabendo que ele tem um fim, que um dia vai curar. Vivo a tristeza pela completa falta de opção, mas não a alimento.

 

Sabendo disso, hoje choro mais, me exponho mais e, aos poucos, tenho aprendido a pedir ajuda se precisar. Minhas veias já não se rompem e meu tempo de luto é menor.

 

Ainda que tenha aprendido também a valorizar esse tal tempo do luto, porque ele é necessário. Sem ele a gente não completa o ritual de passagem para outra etapa. Fica uma história incompleta.

 

Meu último luto foi a perda da gravidez. E no início era corrosivo. Depois foi melhorando e a vida foi entrando em relativa rotina. De certa maneira, as novas tentativas de engravidar ocupavam esse espaço ou, pelo menos, eu achei que ocupasse.

 

Não era exatamente assim, porque a vida não para e você pode até se distrair, buscar outros interesses. Mas enquanto não resolver o que estava pendente, o problema não vai embora sozinho.

 

Eu ainda estava de luto e nem sabia.

 

Porque o choro havia quase desaparecido, mas aquela ponta de tristeza não me largava. Eu não dava muito mole para ela, nem a alimentava, mas sabia que ela estava lá. E novamente tentava me concentrar naquele famoso momento de alívio que eu sabia que um dia chegaria, com certeza.

 

Acontece que nos momentos em que me divertia, e posso perfeitamente me divertir ainda que dolorida, era inevitável que não me passasse um pensamento comparativo. E logo comigo, que sou totalmente contra comparações, porque quem compara sempre perde. Um tipo de consolo, pensava que se eu estivesse grávida, não poderia estar fazendo determinada coisa. Mas saía pela culatra, porque imediatamente só conseguia achar que trocaria tudo aquilo pela gravidez novamente. E me entristecia.

 

Se eu concordo com o pensamento acima? Claro que não, racionalmente não. Mas era espontâneo, saia sem controle.

 

Até que no sábado passado, estivemos em um show com amigos. Uma das farras habituais regadas a bom whisky. Era o momento em que tudo indicava que entraria em comparação sozinha outra vez e me entristeceria discretamente.

 

Mas não aconteceu.

 

Não me veio mais nenhuma comparação. Só me veio a pergunta de confronto, direta, reta: e se eu não engravidar? Porque o passado já foi, não há mais o que fazer ali, importa agora daqui para frente e assusta muito mais o que pode ser do que o que não aconteceu. E a resposta veio rápida, leve e serena: vai ficar tudo bem. E, de repente, percebi que não estava com medo, estava feliz!

 

Reconheci o alívio e soube que meu luto finalmente havia acabado. Tenho a saudade e a experiência, mas a tristeza sobra, pode ficar para trás.

 

Já não me preocupa mais qual o caminho que se abrirá, porque agora eu acredito que vai ficar tudo bem.

De Tapas por Madri

A Espanha, e Madri em especial, tem essa cultura das “tapas” que acho bem bacana.

 

Tapa em espanhol quer dizer tampa. Antigamente, se usava uma torrada com alguma coisa para cobrir as bebidas, como uma tampa. Daí o nome.

 

Além disso, no passado, um rei (que já não lembro qual foi) achou que a população estava se embebedando muito e criou uma lei estipulando que toda bebida alcoólica fosse vendida junto com algo de comer. A lei não existe mais, entretanto, a tradição ficou e é muito comum nos bares se oferecer alguma “tapa” de cortesia, junto à bebida.

 

E para completar, espanhol adora uma rua! Faça chuva ou faça sol, o povo está passeando! Incluído nesse passeio estão as paradas nos bares. Porque outra coisa que adoram é um balcão de bar! Esse negócio de tomar uma cerveja ou um vinho de pé com os amigos, beliscando alguma coisa, faz parte da rotina.

 

Vamos combinar que não custei nem 15 minutos a me adaptar a esse quesito da cultura local. Eu amo um balcão, que aqui se diz “barra”.

 

Mas o habitual não é se ficar muitas horas no mesmo bar. A gente entra, toma alguma coisa, conversa um pouco e logo segue para o próximo paradeiro. Na grande maioria das vezes, esse trajeto é feito a pé. Por isso é comum ver sempre muita gente caminhando na rua pela noite e madrugada afora, principalmente no centro da cidade.

 

Pois muito bem, aproveitando todo esse contexto, o governo de Madri, junto com outros dois patrocinadores, La Viña e Cruzcampo, organizaram um evento chamado “De Tapas por Madrid”. Esse ano, de 10 a 20 de maio.

 

Consiste em um grupo grande de bares que oferecem um tipo de promoção, com uma cerveja pequena Cruzcampo e uma tapa, tudo por $2,40 euros. Cada bar define qual tapa irá promover, mas o preço é fixo e a promoção só vale com a cerveja. Outra coisa, você não pode sentar nas mesas, só de pé no balcão.

 

Enfim, os bares seguem funcionando normalmente. Se você quiser tomar seu vinho ou pedir outras comidas, é igual e pode se sentar nas mesas. Mas o objetivo dessa promoção não é que você fique no mesmo lugar muito tempo, e sim, saia circulando e conhecendo as diversas opções pela redondeza.

 

É bom estar atento aos horários de promoção em cada bar, porque são diferentes.

 

E para dar mais graça ao evento, você pode votar na sua tapa preferida e todos os bares pedem que você vote neles, é lógico! Quando você vota, também passa a concorrer a alguns prêmios, que são 2 iPad, 50 camisetas da Cruzcampo, réplica da oficial da seleção espanhola e 4 prêmios da sua idade em produtos Cruzcampo.

 

E é claro que nós fomos conferir, né? Elegemos a rota vermelha, com os bares mais perto de casa. Marcamos com os amigos e toca a rodar de bar em bar!

 

Estávamos em 14 pessoas! Não me lembro de ter saído “de marcha” com tanta gente junta! E não é que funcionou? Lá fomos nós fazendo a via crucis etílica!

 

Eu achei que cada conta seria um suplício, por causa dessa quantidade de gente. Mas que nada, até porque o preço é padrão, então, todo mundo sabia quanto tinha consumido. Elegemos um “diretor financeiro” para controlar o caixa  e deu tudo certo!

 

Fiquei freguesa! E para quem quiser aproveitar, pode buscar mais informações no link WWW.tapaspormadrid.es. Assim que chegar no primeiro bar, procure o mapa que eles oferecem, com fotos de todas as tapas, endereços dos bares, horário de funcionamento etc. E corre que só vai até dia 20 de maio!

Aventuras automobilísticas cotidianas

O feriado tinha tudo para ser chato. Luiz viajando, tempo chuvoso, enfim, nada muito promissor.

 

Felizmente, tenho amigas! Aliás, por coincidência, o marido de duas delas também estavam viajando. Assim que vira e mexe a gente arrumava alguma coisa para fazer, nem que fosse simplesmente colocar o nariz na rua e cheirar um pouco de ar fresco.

 

Muito bem, uma amiga resolveu marcar um almoço da mulherada na sexta-feira passada. Essa amiga mora fora do centro de Madri. É possível chegar de trem/metrô, mas, para ser sincera, tenho muita preguiça.

 

Daí, aproveitando que estou nessa fase automobilística e que havia um carro dando sopa na garagem, resolvi me arriscar. Coloquei como objetivo: vou para o almoço dirigindo!

 

Ainda me perguntaram, mas você vai dirigir? Não vai poder beber! Tudo bem, não me importava. Eu queria porque queria tirar esse ranço e me provar que, se realmente quisesse, podia ser uma pessoa motorizada outra vez.

 

Pequeno detalhe, Luiz deixou o carro só com ¼ de combustível. Segundo ele, isso dava para uns 200 km, mas acontece que, além de poder ser exagero da parte dele, não queria ficar preocupada caso me perdesse. E decidi também que ia aprender a abastecer o carro.

 

Porque para quem não sabe, esse negócio de frentista que abastece e faz tudo para você e ficamos sentadinhas lindas e maravilhosas dentro do carro é coisa de brasileiro. Aqui e em boa parte da Europa e EUA, quem abastece seu carro é você mesma.

 

Não é que seja algo complicado. Mas eu detesto! Fiz uma única vez nos EUA, para saber como era e aqui nunca! Claro que estava com o Luiz algumas vezes quando ele abastecia, mas nem me tocava.

 

Muito bem, três amigas que moram perto de mim e iam também nesse almoço, me pediram carona. Eu avisei, galera, dou carona com a maior boa vontade, mas aviso que não sei abastecer. Alguém sabe?

 

Todas disseram que sim. Eu pensando, devem saber igual a mim… uma delas nem tem carteira! Mas tudo bem, o importante é ter apoio moral! E mulher é muito solidária, a gente pode não ter idéia de como fazer alguma coisa, mas não deixamos uma amiga sozinha na mão, pagamos mico todas juntas tentando descobrir uma solução!

 

Então, tá, né? Nos encontramos as quatro, cheias de bolsas com comida e bebida, a maior farofa, e fomos para a garagem buscar o bendito carro. Como é um estacionamento público, nós temos uma chave específica para o elevador abrir no andar das vagas para residentes. Entramos no elevador mínimo, como de costume, com aquele monte de bolsas e eu fingindo que sabia o que estava fazendo. Coloco a chave do jeito que Luiz costuma fazer e o elevador desce. Mas quando chega no andar, nada de abrir. Ficamos presas!

 

Putz grila, ninguém merece! O elevador vai enguiçar logo agora?

 

Como não abria, tentei então apertar um andar acima e ver se a gente conseguia ir pela escada. No início deu certo, o elevador subiu e a porta abriu. Saímos todas correndo com medo dele fechar outra vez.

 

Lá fomos para a escada. Coloco a tal da chave e nada dela funcionar. Dedução de alguém: deve haver algum problema para descer, melhor avisar a manutenção!

 

Depois, contando ao Luiz, ele me disse que a chave está mesmo com mau contato e às vezes tem que balançar um pouco. Mas nesse momento, não tinha essa informação.

 

Espera, acho que o elevador podia estar com excesso de peso, também demorou a abrir no andar superior. Tento descer sozinha, se ficar presa eu grito e vocês chamam alguém. E se conseguir saltar no andar correto, pego vocês já na rua.

 

Sozinha o elevador funcionou normalmente e consegui saltar. Berrei do andar de baixo que havia conseguido, mas não tinha certeza se haviam me escutado. Tentei telefonar, mas não tinha cobertura na garagem.

 

Caraca, essa novela toda e eu nem cheguei na vaga ainda!

 

Mas não estava nervosa, só achando engraçado. Entrei no carro e comecei a colocar o endereço no GPS, aliás, a primeira vez que fazia isso sozinha, sem Luiz dando pitaco do meu lado. Prestando uma atenção danada e torcendo para aquilo funcionar, porque as meninas já me esperavam do lado de fora.

 

Funcionou.

 

Subi e lá estavam elas… e aquele monte de sacola de comida! Eu estava acostumada a dirigir carros normais. Esse do Luiz é cheio de nove horas e tem coisas que nem sei usar! Resulta que nos bancos, inclusive nos de trás, há um sensor de peso que apita se alguém estiver sem cinto. Com as bolsas e casacos no banco, o diabo do carro interpretou que havia alguém sentado sem cinto e cadê que parava de apitar!

 

Saímos as quatro com aquele carro apitando e as duas de trás mudando cinto de buraco, colocando as sacolas no colo e nada! Podíamos haver simplesmente colocado o cinto sem ninguém, provavelmente pararia de apitar, mas não tivemos essa idéia na hora.

 

Tudo bem, porque o posto de gasolina era perto e pensei, quando o carro parar, a gente ajeita as bolsas e ele vai parar de apitar.

 

Paramos no posto e saltaram as quatro mulheres! Ninguém tinha muita certeza do que fazer, mas como disse antes, mulheres são solidárias. Foi quando percebi que havia parado do lado oposto da bomba de combustível. Pergunto para a que parecia saber mais, tenho que mudar de lado ou a mangueira alcança aqui? Ela bastante segura: muda de lado!

 

Então, deixa eu tirar o carro outra vez!

 

Nisso, escuto uma voz dos céus me perguntando que combustível usava. Olho para o lado e vem um cidadão uniformizado com a mangueira da gasolina na mão! É uma raridade, mas não é que parei justamente em um posto que tinha frentista!

 

As três amigas quase decepcionadas, porque todo mundo queria levar o mérito de ajudar e colocar a gasolina, aliás, diesel. Mas a verdade é que foi uma mão na roda e morremos de rir da história.

 

Não precisei trocar o carro de lado e já decidi que posso morar na outra ponta da cidade, mas só vou abastecer nesse posto agora! Imagina, um frentista, o máximo do luxo!

 

Nos arrumamos no carro,  ele parou de apitar, tínhamos o tanque cheio e o GPS funcionando. Beleza!

 

O resto do caminho foi bem tranquilo, pelo menos para mim e acho que para elas também. Sem grandes incidentes e achei uma vaga fácil perto da entrada.

 

O almoço foi uma delícia. Quando era mais nova, não gostava muito desse negócio de dividir os grupos entre homens e mulheres. Na verdade, até hoje não gosto de festa assim, prefiro misturado. Acontece que, às vezes, não tem nada melhor do que se juntar com a mulherada e ficar à vontade para falar nossas besteiras. Assim que hoje em dia, adoro uma reunião de luluzinhas!

 

Na volta para casa, viemos só em três meninas. Coloquei o GPS, agora já tinha aprendido e me sentia mais segura. Quando estava quase chegando, me ocorreu que deveria deixar minha amiga em casa, ela não morava tão longe e para outra amiga era uma linha de metrô melhor.

 

Perguntei se ela sabia o caminho, ela disse que sim, mas fiquei meio na dúvida. Quando a gente não está dirigindo, a gente sabe as direções, mas é muito fácil perder uma entrada. E com esse negócio de seguir os navegadores, a gente sabe cada vez menos os caminhos de memória.

 

Quer saber, vou mudar o endereço no GPS. Mas precisava fazer isso com o carro em movimento. O Luiz faz sempre, mas me parecia algo complicado e morro de medo de me distrair e provocar um acidente. Consegui parar em um santo sinal fechado e mudei o endereço rapidinho. As duas co-pilotas ficaram me sacaneando e apoiando ao mesmo tempo, dizendo que estava arrasando!

 

E quer saber, sei que era uma besteira, mas me senti poderosa!

 

Deixei as duas e coloco o navegador para voltar para casa sozinha. Ele me dá um caminho estranho. Encostei o carro e fui rever o endereço. Me dei conta que agora havia 3 entradas salvas como endereço da minha casa, e um desses endereços era o da amiga que acabara de deixar.

 

Ops! Que raios fiz aqui? Deixa eu corrigir logo esse negócio e ficar bem quietinha quando Luiz chegar. Bom, até consegui corrigir, mas não aguentei ficar quieta e acabei contando da mancada que nem sei como fiz.

 

O importante é o seguinte, resumo da ópera, saí de casa, me acertei com o GPS, abasteci e voltei sã e salva! E isso com um carro cheio de mulheres falantes e sem querer perder o assunto! As mancadas foram a melhor parte e não atrapalharam nada. Ou seja, 100% de efetividade!

 

No sábado à noite, reunião pequena na casa de amigos de última hora. E aí, vou de carro ou bebo? Sinto muito, mas sabadão e podendo tomar uma cachacinha… vou dirigir nada! Já me provei!

 

O problema é que acabei dormindo umas quatro da matina, compartilhando com minha companheira de cachaça praticamente toda uma garrafa. Verdade que era boa cachaça, tomando bastante água e comendo. Mesmo assim, o dia seguinte merecia dormir até à tarde.

 

Acontece que Luiz chegava no domingo pela manhã. E, além da saudade, eu estava doida para buscá-lo de carro. Seria a coroação da minha semana motorizada.

 

Por via das dúvidas, combinei com ele que mandaria um SMS logo cedo, dizendo se ia realmente ao aeroporto ou se não tinha condições de levantar.

 

Claro que a maioria dos amigos apostou que enviaria o SMS e só acordaria quando ele aparecesse na porta de casa. Mas eu sabia que isso não ia acontecer. Ou melhor, só se eu estivesse praticamente em coma!

 

Domingão e às oito da matina eu já estava acordada. Fiquei enrolando na cama até umas 10:30h. Levantei e o mundo  não girava. Só estava com sono, mas muito bem. É verdade que ainda sentia o gosto da cachaça na boca. Fiquei torcendo para não haver algum controle com bafômetro no meio do caminho! Tomei um café com cafeína, coisa raríssima, mas nesse caso era justificado.

 

Passei a mensagem avisando que estava saindo de casa para o aeroporto. Fui para garagem, nenhum problema com a chave, nenhum problema com o GPS, nenhum problema com o caminho. Conforme prometido, lá estava no desembarque na hora correta.

 

Na verdade, meu chip de motorista foi finalmente religado e posso dizer que daqui para frente, voltou a ser algo normal.

 

Mas bem que gostei desse momento de voltar a dirigir sozinha, deu um ar de aventura a um ato que já foi parte da minha vida cotidiana. É sempre gostoso quando a gente consegue ter um novo olhar sobre qualquer tema.

 

Enfim, prova superada! Alguém quer uma carona aí?

Sobre evoluir

 

Ontem Luiz viajou para o Rio, foi ver os pais. Não pude viajar junto, foi tudo decidido meio em cima da hora. Achei importante ele ir, mesmo sozinho. Os pais estão idosos e estavam precisando desse apoio agora, tem coisas que não devemos adiar. Cada vez mais tomo consciência da passagem do tempo e de suas consequências.

 

E no fundo, eu sabia que precisava ficar um pouco sem ele. Algumas decisões precisavam ser tomadas com a perspectiva que só a distância pode te dar. Não quero com isso assustar ninguém, nosso casamento vai muito bem, obrigada. Mas em períodos de reconstrução pessoal, há momentos que preciso não me ver no seu olhar para ter certeza que fui honesta comigo mesma.

 

Ontem eu precisava do dia que tive.

 

Acordamos cedo, seu avião saía ao meio dia. Decidi que ia levá-lo de carro. O que há alguns anos atrás seria um detalhe bastante óbvio e sem importância, mas lembro que desde que vim para Espanha praticamente não dirijo. Os primeiros cinco anos não tinha carteira de motorista espanhola, há dois tenho a carteira, mas baixo interesse. No ano passado, com a possibilidade de gravidez, foi uma motivação para começar a pegar o carro novamente. Além do fato de não beber em vários encontros e, com isso, deixar Luiz tranquilo para aproveitar um pouco. A gente nunca bebe e dirige. Pois muito bem, há mais ou menos um mês, quando ele foi internado meio que de surpresa, me vi dirigindo um automóvel sozinha, pela primeira vez, após mais de sete anos morando em Madri.

 

Foi uma distância curta e em que conhecia o trajeto para casa, mas serviu para romper o paradigma. Isso também me fez pensar que tendo ou não um filho, poderia ser importante que eu estivesse pronta para conduzir, se necessário.

 

Aos 18 anos, tirar a carteira para mim era uma necessidade, um ato de independência. Quando cheguei a Madri, isso se inverteu, liberdade era poder viver e ver o mundo sem o filtro de um para-brisas (que já não sei se escreve assim).

 

Nos últimos tempos, conduzir voltou a representar independência. Acho que no fundo, tinha um pensamento meio inconsciente de que minha estada por essas bandas era passageira, então, não precisava aprender os caminhos, aprender a abastecer… enfim, aprender coisas que não utilizaria no futuro. Chegou a hora de assumir de uma vez que aqui é minha casa, não importa por quanto tempo, sou espanhola também. Sou uma mulher adulta e devo retomar algumas rédeas que deixei frouxas por comodidade ou para não me frustrar.

 

Portanto, voltar ontem dirigindo sozinha para casa, sem a menor possibilidade de um resgate do Luiz, foi um passo importante e simbólico. E eu gostei.

 

Durante o dia, fiquei hibernando e enrolando pela internet. Há alguns anos reencontrei vários amigos do tempo de colégio, mas ameaçávamos perder o contato novamente. Daí, de repente, começamos a nos achar pelo Facebook, criamos um grupo e estamos tentando nos organizar para fazer um encontro de 30 anos de formados (8ª. Série) em 2013. Isso tem me ocupado os últimos dias e me trazido boas lembranças. E esse contraste da infância e adolescência tem novamente me feito lembrar que sou adulta.

 

Também fiquei botando pilha nas pessoas por aqui para ver quem se animava a sair à noite, apesar da preguiça e do dia chuvoso. Fiquei sabendo de um concerto de amigos que adoro ouvir e ainda por cima era muito perto de casa. Quer saber, se ninguém for, vou sozinha mesmo! Madri é uma província e a gente sempre encontra alguém conhecido pela rua e, se não encontrar, não é difícil conhecer gente nova.

 

Mas não precisei ir sozinha, acabei indo com mais duas amigas e encontrei outra pelo show. Conhecia os músicos, é lógico, mas eles estavam ocupados.

 

Achei o lugar bacaninha, o nome é meio suspeito, chama Ne Me Quitte Pas, parece nome de bordel, né? Mas é uma creperia com jeitão de cabaret francês bastante simpática. Conheci a dona, jovem e animada, e quem sabe fazemos alguma festa por lá algum dia.

 

Bom, acabou o concerto e seguimos à noite, afinal, em Madri nunca se vai a um lugar só. Fomos para o El Junco, onde o marido de uma das amigas estava tocando. Mas quando chegamos lá o show tinha acabado, eles já estavam retirando os instrumentos e sem vontade de seguir por ali.

 

Então, vamos para outro lugar. Mas que lugar?

 

Quer saber, estamos ao lado da minha casa, se o problema é achar algum lugar para sentar, conversar e tomar alguma coisa… E assim, acabou rolando uma festinha improvisada aqui. Dessa vez, fui até ajuizada e não convidei os estranhos da rua.

 

Na verdade, foi bem tranquilo e agradável, estávamos em nove pessoas. Ficamos aqui jogando conversa fora, fiz umas comidinhas e quando nos demos conta era umas cinco e meia da matina.

 

Mas o mais importante para mim é que acho que precisava desses momentos ontem. Queria pensar em outros assuntos, relaxar, falar e, o principal, ouvi algo que me fez lembrar de um sonho antigo. E lembrá-lo me virou do avesso, ainda que não tenha dito nada. Sabia que essa era uma história para pensar quando todos fossem embora.

 

Há alguns anos, tive um sonho que me foi bastante marcante. De tempos em tempos eu lembro dele e, às vezes, dependendo do momento que esteja passando, ele ganha novas interpretações.

 

Estava em um salão enorme, com um pé direito muito alto. Comecei a me sentir angustiada e vi entrar um senhor oriental muito velho, desses com bigode chinês caindo pela lateral da boca, em traje característico, imponente, montado em um burro. Vinha em minha direção. Ele entrava pela única porta desse salão, de maneira que eu não tinha uma saída, não tinha como fugir. Então, dissimulei que não estava preocupada, porque sabia que se ele percebesse que eu tinha medo, estaria em maus lençóis. Quando ele chegou bem perto, me arrepiei e a sensação de angústia era mais forte. Ele me perguntou: você sabe quem eu sou? Não tinha outra opção a não ser encará-lo. E, de repente, senti que tinha coragem, ele já não parecia tão velho, passei a mão no seu rosto com certo carinho e respondi: eu sem quem você é, você é o demônio. No exato momento que terminei de dizer isso, ele gritou de raiva e eu recuperei minha capacidade de voar. Voando já não tinha mais medo, pois sabia que ele não me alcançaria. Como se meu ganho de força o enfraquecesse.

 

Acordei sem saber se era um sonho ou pesadêlo. Mas tinha certeza que era uma mensagem importante.

 

Abro um parênteses para lembrar que não tenho fé, coisa que não considero nenhum mérito, pelo contrário. Aliás, algo que conversamos ontem, queria ter fé, mas isso não se falsifica. Entretanto, quero dizer que existe uma única vantagem em não acreditar em Deus, e é o fato de não fazer nenhum sentido acreditar no seu opositor. Portanto, ao perder a fé, também perdi a crença e o medo do diabo. Porque um não existe sem o outro. Acredito em bem e mal, mas não atribuo nenhum poder sobrenatural a eles.

 

Por isso, ressalto que não há nada de religioso no sonho que contei. Todas as figuras e diálogos são simbologias.

 

Sou humana e também temo “meus demônios”. Também quero que me afastem o cálice. Acontece que em alguns momentos não tenho outra opção que não seja confrontá-los. De perto, eles são menos assustadores, ganho coragem. Ao ganhar coragem, acredito que posso. E ao acreditar, tenho poderes, tenho saída, tenho alternativa. Não acaricio o rosto do demônio por carinho, mas por perdão, ele não escolheu ser o que é. E o perdão deixa qualquer um incrivelmente forte.

 

É no momento em que pronuncio o nome do demônio que realizo a coragem, pois concretizo a ideia, me expresso. E comigo funciona assim, preciso dizer ou principalmente escrever para concretizar as ideias. Elas deixam de ser abstratas. Só posso confrontar o que existe. Contar me libera. Faz as coisas voltarem ao seu real tamanho.

 

E ontem, quando meus amigos se foram, sabia que tinha um encontro marcado com um demônio. Eu preciso falar seu nome, portanto vou contar.

 

Ontem consegui dizer algumas vezes que estou cansada de tentar engravidar. Eu precisava me ouvir falando isso. Eu preciso escrever que não aguento mais tomar hormônios, não aguento mais ter uma tentativa de gravidez como prioridade absoluta na minha vida, não aguento mais fazer ecografias, não aguento mais me sentir inchada, não aguento mais perceber que meus cistos se desenvolvem, não aguento mais lavar minha cabeça e terminar com a mão cheia de cabelos, estou chata, monotemática e muitas vezes triste. Esse é o meu limite. Hasta aquí hemos llegado! Preciso seguir.

 

Se não estiver grávida agora, e acho que não estou, tomo hormônios até o próximo mês e chega. Eu precisava de uma data para isso acabar e agora eu a tenho.

 

Isso não impedirá que uma gravidez venha, se tiver que vir, mas tudo que estava ao meu alcance eu já fiz. Não me sinto fraca, nem culpada e muito menos arrependida.

 

Preciso contar também o lado bonito dessa história e o porquê de não me arrepender. Eu aprendi de verdade que mais importante não é a chegada, é o caminho. E, apesar dos pesares, eu gostei de trilhar esses últimos meses.

 

Há alguns anos atrás, quando fiz pela primeira vez o Caminho de Santiago, cheguei na última etapa com uma pergunta me atormentando. Foi no Monte do Gozo que precisei de uns minutos sozinha para me perguntar com toda sinceridade se eu realmente queria ser mãe. A minha resposta naquele momento foi: não.

 

E eu sofri por isso. Não pela decisão em si, mas por não ter sido capaz de me converter na pessoa que gostaria. Nem toda consciência de quem você é na realidade é agradável.

 

Eu queria ser uma pessoa melhor. Não acho que a maternidade seja o único caminho para isso, mas ali  poderia ser um dos caminhos e eu decidi não seguir por ele.

 

Ano passado eu mudei de ideia e resolvi comprar essa briga. E no meio de toda essa confusão, de altos e baixos e tudo mais, houve um período que eu engravidei de verdade. Não era abstrato, eu ouvi um coração e por um pouquinho eu fui mãe.

 

As mães sempre falam sobre a experiência de amar um filho. Eu acreditava nelas, ainda que esse amor não me fizesse falta, afinal, ninguém sente falta do que não conhece. E sobretudo, existem muitas formas de amor. Não acho que haja um amor menor que outro, porque essa comparação por princípio seria absurda.

 

O que importa é que tive o privilégio de por algum tempo provar o amor que sente uma mãe. A intensidade com que isso te tira o chão e o poder que você desenvolve através dele. A sensação foi inesquecível e esse tempo me valeu uma vida. Independente do resultado final dessa história, esse caminho finalmente me converteu em uma pessoa melhor.

 

Antes de dormir, recorri às minhas bruxas e acendi uma vela para cada avó. Às vezes, faço isso para me sentir protegida e também me sinto menos louca do que falando sozinha. E foi alentador acordar hoje e ver que as velas permaneciam acesas. Algo como, tranquila, seguimos aqui no caminho em que você estiver.

 

Chorei o que tinha para chorar ontem e nem acho que foi por tristeza. Foi mais para limpar o que sobrava de dor e deixar só o que me faz bem. Acordei hoje com essa consciência. Ainda estou um pouco sensível, mas absolutamente em paz, aprendi a lição que eu precisava desse ciclo.

 

E agora que já disse seu nome, posso novamente voar.

Cansando

Caminho rapidamente para um ano de tentativas para engravidar. Verdade que nos primeiros meses não foi tão a sério, mas de uma maneira ou de outra, comecei a tomar hormônios e a direcionar minha cabeça para isso por agosto do ano passado.

 

Foi invadindo minha vida de uma forma mais ou menos intensa e virou minha prioridade declarada.

 

O fato é que a gente começa muito animada, sou otimista por natureza, sempre acho que vai dar certo. Por que não daria?

 

Mas a questão é: o que é dar certo?

 

Meu balanço desse período são 4kg a mais, meu cabelo caindo, um cisto começou a dar sinais e tive um aborto. A cada mês minhas chances diminuem. Não é muito animador, ainda não desisti, mas confesso que estou cansando.

 

Não falo de arrependimentos, os quais não tenho, e é verdade que houve muita coisa bacana por esse período também. Mas começou finalmente a rondar minha cabeça que devo estabelecer qual é o meu limite. Em que momento devo dizer chega e simplesmente seguir o que sou? E como tomar essa decisão sem decepcionar a família, os amigos e principalmente a mim mesma?

 

Porque em última instância, é a mulher que toma essa decisão, ou deveria ser, mas é ingênuo pensar que não se envolve quem está em volta. Isso sem falar da força e da esperança que pode exercer um exemplo.

 

Por duas vezes eu desanimei. E das duas recebi em seguida a notícia positiva da gravidez de amigas que também estavam tentando com dificuldade. Para mim vem como um fôlego a mais, como se fosse um sinal me dizendo, tenta mais um pouco, olha como elas tiveram determinação e conseguiram.

 

E penso que se eu também tentar mais um pouco posso conseguir ou posso inspirar a que mais mulheres sigam tentando e, quem sabe, algumas consigam.

 

Ainda assim, estou cansando.

 

Eu sei que tem mulheres que tentam anos e que fazem mil tratamentos. Eu respeito essa vontade e determinação. Mas eu não sou assim. Eu gosto do resto da minha vida e tenho sentido falta de poder ser mais espontânea, planejar menos, arriscar mais. E sobretudo, sinto que não tenho controle, me sinto meio impotente. Posso tomar algumas iniciativas para auxiliar, mas nenhum ato ou comportamento meu irá garantir uma gravidez.

 

E eu não sei lidar com a frustração de não conseguir algo que quero. Pode ser um pouco de arrogância, nem me importa, mas eu sempre consegui e o histórico me fez assim.

 

Ao mesmo tempo, não quero parecer uma louca amargurada, insistindo em algo que talvez não seja para mim. E será que é para mim?

 

Olho para as amigas da minha geração que optaram por ter filhos e estão todos, ou quase todos, criados. São adolescentes ou adultos. E me dá até um pouco de vergonha de engravidar nessa idade. Fico meio deslocada. Em que momento o julgamento alheio ganhou essa importância? Com isso, sei que posso lidar, mas ainda assim é estranho.

 

Eu queria terminar esse texto bem, alguma coisa como, apesar de tudo, não desisti, finalmente deu tudo certo e fomos felizes para sempre. Mas a verdade é que não tenho nem idéia de como essa história vai acabar e preciso me acostumar que nem sempre os finais de ciclos são como a gente quer.

 

E talvez também haja outras mulheres cansadas e sem querer desistir para não parecerem fracas ou com dificuldade para aceitar que pode não ser para elas. Se ajuda em algo, posso dizer que é humano, todo mundo se cansa um dia e há muitas formas diferentes de felicidade. Ninguém deveria se sentir culpado pelo que não pode controlar.

 

Sigo aqui, estou cansada, mas ainda não desisti.