E depois de uma longa pausa…

Saudade de escrever!

Sim, andei sumida! Viajei, voltei, fiquei sem computador, sem tempo, festas de fim de ano etc. Agora o difícil é lembrar de tudo que aconteceu nesse período. Então, vamos pouco a pouco.

Na semana seguinte ao meu aniversário, viajamos para o Rio, para o casamento do meu irmão. Nem me lembro quantas vezes precisamos ir ao Brasil em 2013, mas finalmente, era por uma boa razão e acho que a única viagem planejada do ano. Não perderia por nada!

Um pouco antes do dia da viagem, Luiz me chama para irmos ao nosso Pub local e pelo caminho me solta um: precisamos conversar… Ops! O que mesmo eu fiz de errado que nem lembro? Ferrou! Mas não era discussão da relação, era sobre seu trabalho. Contou que havia recebido um convite da sua empresa para sairmos de Londres, assim, na lata!

Fiquei até tonta! Por essa, realmente não esperava. Tudo ainda muito no ar, mas uma proposta para voltar aos EUA. Viajamos com isso na cabeça, no meio da negociação, digamos assim. E talvez tenha sido um bom momento para viajar ao Rio, pois ajudava a colocar as coisas em perspectiva, além de poder contar pessoalmente aos nossos pais e família muito próxima. Afinal de contas, ainda não dava para comentar com mais ninguém.

O bom de correr é que tudo vira motivação! A corrida é tipo Bombril, tem mil e uma utilidades, principalmente no quesito desabafo! Então, se não podia falar nada, lá ia Bianquinha para academia correr e soltar a franga! E talvez por essa adrenalina adicional, acabei chegando antes aos 10km, minha meta para o fim de 2013. Nem acreditei! Cheguei mortinha da silva, mas evoluindo e, como consequência indireta, entretanto muito bem vinda, continuei emagrecendo. Malhei pesado até o dia da viagem, endorfina na veia e, porque não, a satisfação de ficar bem no vestido.

Chegando ao Rio, a prioridade absoluta era o casório do meu irmão, o que também foi bom para ter outras coisas para pensar. Fomos uma semana antes da data e voltamos no dia posterior ao evento. Era o que dava para Luiz tirar de férias.

Para falar a verdade, essa semana anterior à boda foi uma neura total! Uma série de últimos detalhes para resolver, meu irmão nervoso, todo mundo meio histérico! Para complicar, meu pai passou mal de uma maneira bem complicada, que até hoje não consigo falar direito no assunto. Não me lembro de ter me sentido tão covarde antes. Minha sogra descobriu um quisto maligno no seio, estava razoavelmente tranquila, mas todos sabemos que nunca é tão tranquilo assim. E a gente não queria falar muito a respeito disso na casa dos meus pais para não tirar o foco do casamento. Eu também tinha consulta com mastologista e, dentro desse quadro, não posso dizer que não estivesse meio grilada. E se ainda por cima desse pau para o meu lado também? E justo agora!

Caraca, mas essa não era a viagem legal? Aquela que a gente ia relaxar e aproveitar um festão? Respira fundo, a vida é assim mesmo, depois de tocar o fundo do poço, só dá para ir para cima.

Fiz minha consulta médica e para meu alívio, tudo certo! Nada de novo, meus quistos em tamanhos controláveis, nem precisei tirar nada! O que para mim, veio como um ar fresco. Sigo com saúde, então o resto a gente corre atrás. Aliás, ultimamente, corro literalmente atrás! Daí para frente, acho que as coisas começaram a melhorar.

Quase todos os dias, consegui aproveitar para caminhar na praia com minha mãe e sentir um pouco desse bom astral de cidade litorânea. Teve feriado não-sei-de-que e o Rio estava lotado de gente! Até que divertido! Foi bom também para queimar o musgo da pele e ter uma aparência mais saudável para festa, afinal, queria caprichar!

Conseguimos encontrar com alguns amigos, meio corrido, mas sempre que há uma brecha a gente tenta se administrar.

Muito bem, finalmente, chegou o dia, 23 de novembro! A agitação começou pouco depois do almoço, minha tia chegou de viagem com meus primos e a mulherada já se encontrou no salão de beleza do bairro para começar a se arrumar! Foi uma luta para conseguir encaixar horário para todo mundo, mas deu tudo certo e adoro essa confusão feminina de família se arrumando e dando palpite.

Eu faria minha maquiagem no salão mesmo, mas para ter agenda para elas, resolvi abrir mão do meu horário e fazer só o cabelo. Aliás, diga-se de passagem que para manter os cachos até a hora de sair, voltei para casa com o cabelo todo enrolado em grampos de plástico coloridos, ridícula! Naquele esquema, por favor que absolutamente ninguém conhecido passe pela rua nesse momento e me veja! Se viram, não sei, eu olhei para o chão e caminhei na velocidade da luz!

Bom, fiz alguns testes de maquiagem durante a semana e tinha tudo mais ou menos sob controle… desde que não errasse nada! Assim que confesso que rolou um momento meio tenso quando comecei a me arrumar em casa para sair. Concentração total e absoluta! Nem falem comigo! Principalmente, quanto estiver pintando os olhos!

Mas não vou fazer suspense nem fingir modéstia, foi um daqueles poucos dias que você se olha no espelho e pensa, acertei tudo! Hoje estou podendo! Enfim, estava me sentindo poderosa! Pronto, falei! Ou talvez, apenas estivesse feliz.

Não quer dizer que estivéssemos todos tranquilos, porque estou contando minha parte, mas o resto da casa também estava se arrumando. Minha mãe não estava muito segura com a cor do seu vestido e com medo do sapato machucar. Eu, francamente, achei que ela estava lindíssima! Daí foi ajudar meu pai a se vestir… o smoking estava curto! Putz, agora já era, faz de conta que não notou. A gravata também estava meio pequena, mas ele tinha outras em casa, ufa! Nisso liga meu irmão estressado porque a sua gravata estava grande, se não tinha alguma de elástico lá em casa para trocarem com ele. Respondi que sim, pode deixar que a gente leva e se encontra no carro! Verdade que não tinha nem ideia se tinha mesmo a tal gravata de elástico, falei só para ele ficar tranquilo enquanto procurava alguma em casa! A do Luiz era de elástico, então, troca com meu irmão e pega a do meu pai! Enfim, rolou aquele escravos-de-Jó dos três homens com suas gravatas! E o tempo passando…

Entram todos no carro que meu irmão deixou contratado para a gente e já todo mundo nervoso com a hora, ele lembra que ainda tinha que passar no caixa eletrônico no caminho! Eu tive vontade de me enfiar no banco porque estava vendo a hora do meu pai dar um chilique! Para no caixa eletrônico, pelo menos foi rápido e voa para a casa de festas! Chovendo, trânsito, mas chegamos! Felizmente, antes da noiva, mas já havia vários convidados no local. Eu doida para falar com o pessoal, mas éramos padrinhos e mandaram a gente subir direto e aguardar nossa vez de entrar.Tudo bem, nada grave, chegamos todos lindos e inteiros! A partir de agora, só alegria!

Fotoa

E assim foi! O casamento foi na Casa Julieta de Serpa e o lugar é realmente um charme. Sei que minha opinião é muito suspeita, mas achei tudo perfeito! Eles optaram por uma cerimônia budista, pois minha cunhada é seguidora. Foi a primeira vez que fui a uma cerimônia assim e gostei muito, acho que tem uma energia bacana.

Eu simplesmente amo casamentos! Amo mesmo, eu vibro e fico feliz da vida! Acho o máximo aquele momento em que noivo e noiva se olham no início da cerimônia, enquanto ela caminha até ele! É um olhar único, cúmplice! Noiva deslumbrante e mais bonita ainda depois do olhar do meu irmão. Ambos estavam realmente felizes e iluminados.

Para mim, depois do meu próprio casamento, esse foi o próximo em importância. Tínhamos a mesma família presente, que a gente acaba só conseguindo juntar inteira ou quase inteira nesses eventos. Sendo que dessa vez, me cabia somente aproveitar, sem a responsabilidade da festa. Meu irmão fez um discurso bonito no final da cerimônia, me surpreendeu pela facilidade e intensidade do que disse. Sempre será meu irmão pequeno, que só eu tenho o direito a criticar, mas ai de quem concorde. Pois ali se mostrou um homem adulto de verdade, em paz e muito bem acompanhado.

Passadas as formalidades, toca aproveitar a festa! E que festão! Nem preciso dizer que me acabei! Só queria conseguir me dividir em várias e aproveitar mais as pessoas que nem sempre consigo encontrar, fofocar mais com as primas e primos, dançar ainda mais, abraçar ainda mais, pagar aqueles micos de fim de festa em que se ama todo mundo! E tentar não pensar em quão improvável será ter essas mesmas pessoas queridas novamente no mesmo espaço, ao mesmo tempo, ao alcance da minha vista. Mas naquele dia eu tive.

Fomos os últimos a deixar a festa, os noivos, Luiz, eu, minha mãe, um primo e um amigo de infância do meu irmão que caiu na besteira de me acompanhar no whisky e mal conseguia se levantar.

Fui a última a me deitar. Tentando proteger a casa com o novo mantra budista aprendido. Não tenho fé para rezar, mas posso expandir minha energia. Pelo menos, naquele dia que estava podendo tanto, por que não? Mal não iria fazer.

Não acordamos tão tarde. Nós voltaríamos à noite para Londres, mas ainda queria fazer um esforço e almoçar com quem estivesse da família. Marcamos com minha prima no restaurante da Casa Daros, mas sem muita certeza de quem conseguiria ir. Meu pai estava no clube, achamos que ele não fosse… os noivos viajariam à noite para a lua-de-mel, não sabíamos se iam aparecer… não tinha certeza do horário do voo da minha tia… Pois vamos ver no que dá! E saiu melhor que a encomenda!

Minha mãe é filha única e meu pai tem só uma irmã. Assim que, de primeiro grau, tenho uma única tia e três primos. Só uma das primas mora no Rio há pouco tempo, os outros todos moram em Minas. Enquanto éramos crianças, a gente sempre se encontrava em férias na casa dos meus avós paternos em Cabo Frio. Meus avós maternos também moravam ali, assim que reunir essa parte da família era algo normal na nossa infância. Até hoje, mesmo quando levamos anos para nos encontrar, não rola aquele silêncio esquisito, porque a intimidade já foi há muito conquistada. Mas paciência, com o tempo, cada um foi fazendo sua vida, as avós e avô faleceram, filhos nasceram, fui morar fora do país, enfim, já não é simples que a gente se encontre. Há alguns anos meu pai não aguenta mais viajar e agora minha tia também terá dificuldade para sair da sua cidade, assim que apesar de não ser impossível, juntar esse grupo, todos ao mesmo tempo, será bastante complicado.

Não nego que bateu um pouco de nostalgia, mas isso também não fez que o astral do almoço baixasse. Pelo contrário, foi mais e mais gente se juntando até quase não caber na mesa, aperta daqui, levanta dali, sai um, volta outro, chega prima do lado da minha mãe, os noivos, a mãe da noiva, meu pai pega um taxi sozinho e aparece no restaurante… E quando nos demos conta, um almoço de família como vários que já foram antes em uma mesa grande armada na garagem da casa da minha avó.

Talvez tenha sido como naqueles filmes de casamento em que tudo acontece, parece que o caos vai se apoderar, todo mundo reclama, todo mundo fala ao mesmo tempo, de repente tudo parece que se resolve e, pelo menos dentro de um momento, somos todos felizes para sempre.

fotob

44 aninhos e a primeira batucada britânica!

E os 44 chegaram! Com a vantagem adicional do dia do aniversário cair exatamente em um sábado. Ou seja, se ainda precisasse de algum pretexto para uma festa, o dia era perfeito!

Andava sentindo falta de casa cheia e, por que não admitir, falta também de um pouco de barulho. Madri havia me deixado mal (ou bem) acostumada a reuniões embaladas por música ao vivo e a energia diferente que os tambores deixam no ar.

Mas, honestamente, já tinha me desencanado dessa questão musical, queria mesmo era celebrar com os amigos. Entre os convidados, até havia músicos, mas não acreditava na possibilidade de rolar nada nesse sentido, chamei pela farra mesmo.

Chegou sábado e sabe esses dias em que você acorda feliz? Pois foi assim, estava de ótimo astral! Agitada igual a criança, doida para começar logo a comemoração!

Normalmente, não usamos sapatos em casa, mesmo quando recebemos visitas. Aqui em Londres inclusive é bem mais comum do que na Espanha e ninguém estranha muito. Acontece que nesse dia havia convidado bastante gente e achei que podia ficar muito tumultuado aquele monte de sapatos na entrada. E depois, cá entre nós, eu queria passar o aniversário em cima do salto! Então, que se dane, no dia seguinte eu limpava a casa e pronto!

Sim, no dia seguinte dava vontade de lavar o chão com ácido! A diferença na limpeza é impressionante! Mas paciência, não me arrependi e uma vez ou outra não mata ninguém.

Voltando à festa, fiz várias comidinhas, todas fáceis de servir e que podiam estar dispostas na mesa logo no início. Assim, podia desfrutar melhor a companhia dos convidados. Pedi que trouxessem bebida, mas sempre temos algumas ofertas da casa, por garantia.

Eu tinha tomado uma decisão, beberia cachaça! Mas não qualquer uma, meu plano malévolo era abrir uma garrafa de Havana, que para quem não conhece, é considerada entre as melhores do mundo e, definitivamente, acredito que seja a mais cara. Um pouco de mito, é óbvio, não acho o valor justo, mas enfim, nós tínhamos uma dessas garrafas há uns 10 anos em casa! Sempre naquela história de aguardar uma data especial, o que me parece impressionante, porque nós nunca colecionamos nada! O que há em casa é para consumo e deleite! Mas por algum motivo, a tal garrafa viajou o mundo conosco por todos esses anos, sempre na nossa mala a cada mudança. E sempre com uma ligeira preocupação se iria ou não quebrar e a gente nem teria aproveitado. Estava virando lenda! Esse ano, já tinha avisado ao Luiz, dessa casa essa garrafa não sai impune! Vou abrir no seu aniversário ou no meu. O dele foi complicado e estávamos no Brasil, logo, ficou para o meu. Tomei até a última gota, compartilhando com amigos que curtem uma boa cachaça.

Aliás, o pessoal bebe direitinho por essas bandas! O que acho legal, porque fica todo mundo na mesma onda, ou assim enxergo. Verdade que algum tempo depois, metade da festa me confessou que não tinha noção de como havia conseguido chegar em casa!

Mas muito bem, e a batucada?

Pois é, chega um amigo meu que conheci através do Facebook, por termos vários amigos em comum. Músico que, só para dar uma ideia, toca na bateria da Mangueira. Enfim, ele já sabia que eu gostava de tocar percussão e que em Madri rolava música em casa e tal, mas que em Londres eu ficava meio grilada com os vizinhos e não tinha quem puxasse ou me fizesse companhia. Entretanto, sério que não achei que ele fosse tocar aqui, foi coisa que a gente conversou em chat, porque estava interessada em ter aula com ele. Acontece que ele já chegou animado, junto com um amigo espanhol, e pouco depois de se ambientar, beber e conversar um pouco, me pergunta algo como, e aí, vamos fazer um barulho?

Está perguntando para mim? Em trinta e dois segundos eu saí desenterrando os instrumentos, afinal, já era hora de checar a tolerância dos vizinhos!

Resulta que o amigo dele espanhol também tocava bem, o que não é comum, às vezes é complicado para um estrangeiro entender os contratempos da percussão brasileira. Óbvio que fui na cola, Luiz também tocou e os convidados se atreveram a seguir. Mais tarde, chegou outro percussionista inglês, que também toca pacas e entrou na roda. E assim, rolou finalmente a primeira batucada em casa nas terras britânicas! E, na minha opinião, show de bola!

Nenhum vizinho reclamou, ou se reclamou, a gente não ouviu! O que ocorre é que as festas aqui começam e acabam cedo. Porque as pessoas dependem de transporte público. Então, acho que há uma certa tolerância ao ruído no caso de uma celebração, porque todo mundo sabe que tem hora para terminar. Ainda assim, sempre temos alguns corajosos amigos que resistem bravamente madrugada adentro, hora da “diretoria”. Na minha opinião, a melhor parte de toda festa.

Fui dormir realizada! Não podia esperar aniversário melhor! Amigos de mais ou menos tempo já bastante queridos e som de tambores alegrando a casa, marcando território para a uruca não passar! Deixando claro que, não importa onde pouse nosso lar, dessa porta para dentro, “todo mundo é bamba, todo mundo bebe e todo mundo samba”!

DSC_0108

Es lo que hay

Acho que de todas as expressões espanholas, “es lo que hay” é a minha favorita. Em sua tradução literal: é o que há!

Mais que da simples tradução, gosto da maneira como ela é empregada, es lo que hay é definitivo! Não deixa dúvidas, não deixa margem para discussão. Não é a melhor nem a pior opção, goste ou não goste, é a única que existe. Ela embute um “aceite”, um “é o melhor possível”, com uma pitada de “se vira negão” é “pegar ou largar”. Até me atrevo a reconhecer certo toque otimista, afinal de contas, em um país com a tradição de que o bom é o “de toda la vida”, o que já existe não pode ser de todo ruim.

Enfim, o fato é que há alguns anos, frequentemente, es lo que hay, me cai como uma luva!

Estou em pleno inferno astral, falta menos de um mês para o próximo aniversário. Faço em breve 44 anos. Não gosto do número 4, por representar a morte, mas dobrado por outro 4, soma 8, símbolo do infinito. Portanto, dentro da minha loucura numero(pato)lógica, parece promissor. Tenho nítida a sensação de que tanto escutei falar, que o tempo voa.

No último ano, envelhecer tem sido um tema recorrente em meu pensamento. Talvez seja uma preocupação que vá numa direção crescente daqui por diante, não sei. E não vou negar, a experiência não tem sido exatamente uma delícia.

Acho que houve um conjunto de fatores que contribuíram para me sentir um pouco velha, sem querer usar essa palavra de maneira pejorativa. Uso porque não há outra, es lo que hay. A não possibilidade de gerar um filho pela decisão tardia; a convivência com problemas de saúde, tanto na nossa família, quanto nas famílias de amigos da nossa geração; mortes de gente próxima; reclamações de amigos com dores e doenças que antes eram coisas das minhas avós; enxergamos cada vez pior; as menopáusicas já não são as amigas da minha mãe, são minhas amigas, em breve serei eu, poderia ser eu. O círculo está se fechando e tudo isso está cada vez mais próximo e frequente, o futuro chegou.

Várias vezes, me pego pensando: Caraca, envelheci! Estou velha! Admito que o pensamento que segue é: que merda! Era isso que eu tinha que achar bom? Essa é a parte bonita da vida? Jura?

Filosofia é poesia, já dizia minha avó, limitações são um saco! E não há como dourar a pílula, envelhecer traz uma pancada de limitações! Algumas bastante duras! E, sim, já entendi que, no meu caso e na minha idade, isso ainda não é nada, vai piorar!

Daí vem aquela conversinha de que a gente não envelhece se o espírito continuar jovem e blá, blá, blá… Fala sério! Como, por exemplo, eu faria para meu espírito deixar de se concentrar nos meus quadris? E para ele se recuperar da ressaca mais rápido? E para parar de nascer esses humilhantes (taquêopariu) fios de barba? E para a orelha não crescer?

Ah, mas essa é a parte física, estética e tal. O importante é que você esteja bem por dentro, em sua essência. Ok, meu fígado segue lindo! Beleza! E juro que a essa altura, nem irônica estou sendo, porque minha saúde passou a ocupar uma prioridade absurda! Sabe como é, coisa de quem está ficando velha!

Então, vim aqui só para reclamar? Não há esperança?

Veja bem, esperança que eu vá rejuvenescer, nenhuma! Não vou tocar violino, não serei bailarina nem ginasta olímpica. Acontece que eu nunca fui mesmo. Es lo que hay. E é aí que essa história dá uma guinada.

Há um bom tempo, não tinha mais vontade de sair em fotografias nem de comprar roupas. Diversas vezes, olhava minha imagem no espelho ou em fotos atuais e, sinceramente, não me reconhecia. Achava que estava fora do peso, o ângulo da foto não favorecia, ficava insatisfeita. Não me reconhecia mesmo! Parecia ver outra pessoa.

Custei a entender que o tal problema era que meu cérebro ainda me imaginava mais jovem, por isso havia esse estranhamento. Não percebia ou não queria ver o que me tornei. Acho que ainda estava esperando “voltar” a ser como era. Isso quer dizer que não aceitava envelhecer? Não, só quer dizer que não entendia que já havia envelhecido. A ficha não havia caído!

Um belo dia, me arrumando para sair, não encontrava uma santa roupa que me agradasse. Tipicamente feminino! Uma me engordava, a calça marcava, o rímel não estava simétrico… acho que não quero sair…

Até que, diante do espelho, tive uma revelação bíblica! Não, Bianca, a roupa não te engorda, você engordou! Seu corpo mudou! A calça não te marca o que não existe! O rosto humano não é simétrico e sua pálpebra direita está meio caída mesmo! Você é assim.

Caramba, eu sou assim!

Não vou dizer que fiquei radiante, seguia havendo vários pontos que gostaria de melhorar, mas o que iria fazer, me esconder para sempre? Curiosamente e contra todas as minhas próprias expectativas, a única frase que me veio à cabeça foi um retumbante: es lo que hay!

Não pensei mais, resolvido!

E foi uma das melhores sensações de alívio da minha vida! Um foda-se gutural. Saí com a roupa que me engordava, a calça que me marcava e com a maquiagem imperfeita. Francamente, sabe quantas pessoas acho que notaram todos esses enormes problemas? Ninguém! Eu mesma esqueci depois que passei da porta!

O ponto é que, certamente, há algum tempo, se essa mesma situação acontecesse, é bem provável que ao invés de aliviada, me sentisse insegura. Levei quase meio século para me olhar no espelho, ver que tenho pontos que gostaria de mudar, aceitá-los como são e decidir que, sinceramente, tenho coisas mais importantes para me preocupar. Es lo que hay!

E isso, não tem jeito, você só entende de verdade, nas suas entranhas, envelhecendo. Acredite se quiser, não é que tem uma parte muito boa? Sua perspectiva do que é importante muda.

Por exemplo, não quero mais fazer uma dieta radical, não porque não possa ou não consiga. Eu simplesmente não quero perder um momento de prazer porque sei que eles são raros e podem acabar amanhã. Já não é mais uma possibilidade remota, eu sei e sinto que realmente podem acabar amanhã!

Vamos combinar, Luiz está comigo há 20 anos! Não é possível que ainda exista algum “defeito” em mim que ele não tenha notado ou visto em 32 ângulos diferentes! Se isso não foi um problema sério até o momento, por que mesmo deveria ser agora? Sem nenhuma demagogia, valerá mais uns centímetros nos quadris ou passar uma noite ótima, gastronômica, divertida?

Talvez, minha visão ter piorado não seja de todo ruim. Deixei de ver uma série de defeitos nos outros e em mim mesma. Nem estou sendo filosófica, é que não enxergo! É difícil achar uma pessoa da minha idade em diante realmente feia. A gente fica cada vez mais parecido, padronizado, vamos ficando todos com caras de irmãos! Ou talvez, a gente passe a prestar atenção em coisas que sejam mais importantes.

A primeira vez que aceitei óculos emprestados em um restaurante para ler o cardápio, me pareceu quase constrangedor, surrealista. Hoje em dia, depois de repetir a experiência algumas vezes, inclusive emprestando meus próprios óculos, acho solidário e divertido, chego a me sentir compreendida. Assim é a vida, es lo que hay!

Não defendo o relaxamento, não gosto de gente que parece que se entregou, deixou para lá, desistiu. Acredito que a gente deva fazer o melhor possível para se cuidar. Só conto que, com toda honestidade, finalmente me olho no espelho tranquila, independente de estar ou não na melhor forma. Esse dia chegou! E é um alívio.

Curiosamente, a partir daí comecei a emagrecer um pouco. Meu preparo físico melhorou muito. Pelo menos, nos padrões que considero importantes hoje. Consegui começar a correr de verdade, quatro a cinco vezes na semana, chego quase aos 7 km e sigo aumentando, o que considero um verdadeiro milagre. O que mudou? Parei de pensar que corria para emagrecer, coloquei metas baseadas no aumento da minha própria capacidade e não comparativas. Não sei como será daqui para frente, mas é um bom começo.

E começar qualquer coisa a essa altura do campeonato é um privilégio que aprendi a valorizar. Preciso de fôlego, de maior capacidade cardiovascular, de ossos fortes, de postura correta e de tantas outras coisas que farão minha vida melhor e com menos dor. Se no pacote vierem belas panturrilhas e uma bunda mais dura, maravilha, mas sei bem o que me fará mais falta nos próximos anos e, portanto, estão claras minhas prioridades.

Gostaria de haver me sentido antes assim, de ter me aceitado melhor mais cedo, mas fazer o que? Precisei desse tempo e foi mérito da idade. Acho engraçado ver fotos antigas e lembrar de tudo que eu não gostava, quando francamente e modéstia às favas, estava ótima! Por que havia sempre alguma coisa que eu não estava satisfeita? Qual era o grande problema mesmo no meu cabelo, nas minhas pernas ou nas minhas orelhas? Se eu tiver sorte, no futuro, olharei minhas fotos recentes, aquelas que hoje nem gosto tanto, e desejarei ter a mesma energia, a mesma pele e o mesmo pique.

O mais provável é que no fundo deseje ter as mesmas pessoas queridas em volta, saudáveis, vivas, e quem sabe, ainda me emprestando os óculos quando eu esquecer. Preciso gastar menos tempo para escolher a roupa, não por falta de vaidade, mas porque cada vez teremos menos tempo e ponto, então, melhor contar que prestarão mais atenção no meu sorriso. E esse, não me custa oferecer e que não me custe nunca!

Às vezes, a vida pode ser bastante dura, mas nem sempre. Também pode ser divertida ou, pelo menos, justa. Ela é o que é, tão óbvio assim. E se aceitamos o que nos cabe e tentamos melhorar o que for possível, aproveitamos o que há de melhor. Afinal, es lo que hay!

E, es lo que hay, é libertador.

Home, Sweet Home

Voltar à rotina não foi difícil e foi rápido! Do jeito que prefiro.

Chegamos na terça-feira, pela manhã, e no mesmo dia, já recebemos um hóspede. Só deu tempo de dar uma cochilada e parti para o faxinão! Achei até bom, porque se dependesse apenas do Luiz e de mim, acho que teria dormido o dia todo e deixado para depois. Aliás, ele também não teve folga, só deixou as malas em casa, tomou um banho e partiu para o trabalho.

À noitinha, a casa já se encontrava em perfeita ordem, nem parecia que estava há um mês e meio fora. O jantar, nos convidou nosso hóspede e fomos ao pub da esquina, ver se o planeta seguia no mesmo lugar.

Quarta-feira, dia para terminar de por a casa nos trinques, fazer compras, lavar roupa… enfim, aquele “glamour” que é a volta de viagem, principalmente quando se mora na Europa. Aproveitei também para dormir um pouco melhor e me ajustar à programação do que estaria rolando pela cidade.

Na quinta-feira, voltei a treinar na academia. Não quis nem esperar a semana seguinte, marquei logo uma aula adiantada (normalmente faço nas terças) e tratei de suar a camisa. Não tem milagre, tenho que recomeçar e buscar o condicionamento físico todo outra vez! Mas tudo bem. Quando cheguei em casa, tomei finalmente coragem de me pesar, coisa que não fazia por todo esse tempo que estive fora. Para minha feliz surpresa, meu peso continuava igual, não engordei rosca! Considerando que não fiz dieta, que no Brasil acabo comendo mais, bebendo durante a semana com os amigos etc, foi uma notícia e tanto!

Ainda na quinta, descobri que uma amiga que me desencontrei no Brasil estava em Londres para comemorar seu aniversário. Teoricamente, eu chegaria na cidade no domingo e, por ter adiantado nossa volta, deu certo da gente se encontrar aqui. Fomos em quatro casais jantar em um restaurante indiano, Khan’s of Kensington. O que por si só já teria valido a noite, mas adicionalmente foi divertidíssimo! A conversa animou e fazia tempo que não ria tanto de gargalhar! Terapêutico.

Quando voltamos, ao chegar na nossa rua, vimos uma luz acesa na casa da gata que me visitava todos os dias, antes de viajar. Luiz perguntou se queria ir até lá e eu já estava careca de decidir que é lógico! Mal nos aproximamos e quem aparece? Minha super amiga, a gata! Toda feliz e adorando receber mimos e carinhos. Entrou conosco em casa e não queria ir embora de jeito nenhum! Eu estava amarradona, mas ao mesmo tempo, morta de sono, Luiz precisando dormir, enfim, tive que praticamente enganá-la para ela sair e eu conseguir fechar a janela. Afinal, ela não podia ficar aqui durante a noite, ela tem dono! Depois desse dia, a vi algumas vezes pelas redondezas, mas ela já não tem mais o hábito de me visitar, acho que fiquei muito tempo fora ou talvez ela entenda que sua missão principal foi cumprida, sei lá, gatos são muito espertos e sensitivos. De toda maneira, fiquei tranquila em confirmar que ela está bem, saudável e tem quem a cuide. Acho que já é hora de que a gente busque nosso próximo e próprio felino.

gata3

gata2

Na sexta, despedida de outra amiga querida que se mudava para São Paulo. Novamente, conseguimos participar por termos voltado antes para casa. Fomos a um club bacaninha em Shoreditch, The Book Club. Outra vez, super divertido! Com o bônus extra de ter uma mesa de futebol totó, que eu amo e modéstia às favas, jogo bem. Claro que enchemos a lata, fazer o que?

Um amigo, o mesmo que Luiz conhece desde os tempos de faculdade, voltou conosco para casa e acabou ficando para dormir. Chegamos da noitada famintos e resolvi cozinhar no meio da madrugada, até para manter o costume, né? O dia seguinte sempre agradece.

No sábado, acordamos tarde e fomos almoçar, os três, no Borough Market. Estava com saudade das ostras do Wright Brothers e ne-ces-si-ta-va comprar burrata e azeite de trufas brancas.

Nosso amigo se animou e comprou boa parte do estoque de queijos de uma tenda francesa quase fechando. Com uma sacola cheia de queijos na mão, fedidíssimos, do jeito que adoro, se deu conta que era muita coisa só para ele e nos perguntou se queríamos ir para sua casa ajudar no consumo. Macaco quer banana? Dessa vez, lá fomos nós dormir por lá, assim ele podia beber tranquilo sem ter que dirigir depois. Banquete de queijos e vinhos!

Domingo, pela hora do almoço, ele nos deixou de carro e seguiu seu caminho. Para ser sincera, eu estava mortinha! Admito! Só queria saber de dormir e fazer algo leve para comer em casa mesmo.

E assim foi nossa chegada! Não sei dizer se estou há muito ou pouco tempo por essas bandas, são 9 meses, um pouco interrompidos, mas toda uma gestação. Sinto saudades de muita gente e muitas coisas, mas isso sempre fará parte da minha vida, então já não conta. O fato é que me sinto em casa e adoro saber ter essa sensação de lar em diferentes países e realidades. Talvez um dia, sinta saudades daqui também, quem sabe, mas agora não.

Aberta a caixa de Pandora

Já tive fases diferentes em relação à escrita, às vezes, escrevo compulsivamente, outras preciso dar um tempo, que nunca é tão longo. Afinal, como sempre costumo dizer, escrever tem sido minha terapia mais eficiente nos últimos anos. Mas agora estou numa fase que não sei exatamente o que há, porque não me falta inspiração ou histórias, na verdade, não me faltam nem mesmo problemas, mas falta vontade de sentar e contar o que sinto.

Chato, porque ando mesmo é de saco cheio de um monte de coisas e desabafar com o “papel” não seria nada mau. O difícil é saber por onde começar, porque não sei se quero abrir essa caixa de pandora. Mas sei que ela está lá e é preciso digeri-la.

Tudo começou com uma enorme insatisfação em relação ao meu país de origem, sim, o Brasil. E o que isso tem a ver com as calças? Pois tudo, e só agora a ficha está começando a me cair.

Tenho costume de dizer que posso morar em qualquer lugar, é uma questão de haver uma oportunidade. Levo mais de 10 anos fora do Brasil e é comum a mesma pergunta me ser repetida: e você não quer voltar? Acho que a gente nunca realmente volta, porque tudo muda, mas me concentro no fato de ir morar novamente no Brasil.

Pois muito bem, até o ano passado, era uma possibilidade como as outras, havendo boa oportunidade, por que não? Houve um momento, há uns três ou quatro anos, que cheguei a sentir vontade de ir. Foi mais ou menos quando se iniciou a “pacificação” das favelas do Rio e a cidade estava desbundantemente linda! Ou talvez, fossem meus olhos, mas juro que fiquei tentada. Acho que porque foi a única vez que, pelo menos o Rio, parecia haver melhorado um pouquinho. Só parecia, mas enfim, naquele momento, cheguei a acreditar.

Os amigos chamando, a imprensa dizendo que o país estava “bombando”, tudo parecia ir a favor. Fiquei contente e com uma ponta de esperança, mas entre nós, meu pé estava bem atrás. Não via essa situação tão positiva, na verdade, o cenário não me parecia nada bom.

Posso entrar em mil questões políticas, o que francamente, estou sem a menor paciência agora, mas havia um ponto que sempre bati e sigo batendo como um dos principais: a corrupção do país foi institucionalizada!

Sentia dizer isso num vazio e nas vezes que ainda tive um mínimo de vontade de entrar nessa discussão, vinha sempre o irritante argumento que hoje em dia é quase capaz de me fazer perder uma amizade: mas não foi sempre assim?

Não, eu acho que não.

Corrupção sempre existiu e sempre existirá, mas nunca percebi viver em um país onde ela fosse INSTITUCIONALIZADA. Parecida ao modelo russo, que acho que é para onde o Brasil caminha. Terra de ninguém.

Essa coisa “malufista” do rouba, mas faz, que o PT condenou tanto no discurso e agora dissemina aos sete ventos.

É o único partido corrompido? Também acho que não, mas foi o primeiro que vivenciei cravar a máxima de que os fins justificam os meios. E nos últimos 10 anos, é o que está no poder e com a maioria na câmara e senado em alianças, portanto, sujeito a maior parte das críticas.

Eu não acho que qualquer fim justifique qualquer meio. E o favorecimento dos seus é gritantemente visível. Além do que, não vejo nenhum avanço significativo para o país. Algum benefício social, é verdade, mas a um custo estúpido e não sustentável.

E se olharmos para o lado, se não for quem está no poder agora, quem seria? E já nem vou mais para o discurso de direita e esquerda, coisa que não vejo clara no Brasil há anos! É uma única massa misturada, beneficiando seu pequeno grupo. Conheço gente, teoricamente bem informada, que nem se importa se houve ou não corrupção, só importa de que lado foi! Se foi do lado “oposto” é um absurdo, se foi do “seu” lado, só pode ser intriga da mídia! Fala sério! Bandido é bandido de qualquer lado! Às vezes, a discussão beira as raias do ridículo quando você aponta um roubo e ao invés de concordar que é absurdo, o cidadão te responde algo como: ah, mas beltrano roubou muito mais! Alguém se dá conta que isso não está certo? O fato de alguém estar “mais errado” não justifica ninguém! Estão todos errados! E estão contra nós, as pessoas de bem! As pessoas que trabalham, honestas, que pagam seus impostos, que respeitam os direitos alheios e que se não concordam com alguma falcatrua, se transformam em elite burguesa ou socialista de botequim, dependendo de quem se queixe. Sei, sei…

Existe gente reacionária? Claro que sim! Existe gente mais preocupada em meter o bedelho na vida alheia do que cuidar da sua? Óbvio! O ponto é que essas pessoas continuam sendo vistas como erradas, ainda não se “institucionalizou” como um fim que justifica os meios. O que, infelizmente, pode mudar em breve. A bandalha geral costuma trazer à tona a repressão moral. E já se nota essa reação, principalmente, com a força que ganhou a bancada evangélica. Nada contra nenhuma religião, nada mesmo! Mas tudo contra a religião ditando política!

E assim, la nave va…

Já era! Não vejo nada próximo a uma melhoria na minha geração. Não digo nem solução, mas alguma melhoria significativa. Desesperança total!

Meu blog nunca foi político. Tenho minhas opiniões, só não costumo manifestá-las aqui, não é meu foco. Por isso, não vou entrar em maiores discussões políticas nesse momento. Mas precisava dar essa introdução para chegar onde preciso.

E o que quero dizer é que, pela primeira vez desde que saí do Brasil, não quero voltar de jeito nenhum! E o impacto desse sentimento tem sido uma das sensações mais difíceis desde então.

Estou com isso martelando na cabeça desde o início do ano, querendo e não querendo falar ou pensar a respeito, porque me remete mais uma vez à questão da identidade, que já me deu bastante pano para a manga nos últimos anos.

Há alguns meses, quando vi uma multidão ir para as ruas protestar e dizer “chega” (e tive o privilégio de estar no Rio nesse momento), me reascendeu um fiozinho de esperança. Sim, é possível que não estivesse claro para todos sobre o que estavam protestando, mas era mais do que óbvio que existia uma sensação de insatisfação generalizada, algo como: não, a gente não acha que está tudo bem! E não, não era por vinte centavos!

Da mesma forma que tive o prazer de estar presente no momento acima, tive o desprazer de também estar em 7 de setembro, quando outra grande mobilização estava marcada. Vi por toda a semana anterior a mídia mostrando cenas dos “vândalos” perigosíssimos, que todos nós sabemos que foram infiltrados para assustar o pessoal do bem. Controle pelo medo, já vi esse filme.

Sim, eu sei que há muito mais envolvido, uma pena, mas também não tenho vontade de discutir a respeito, porque não preciso convencer ninguém. Novamente, estou simplesmente pintando o cenário que foi se moldando ao meu redor.

Para mim, foi como uma pá de cal em qualquer esperança que o país tivesse algum caminho melhor. Francamente, espero estar errada, mas não acredito mais. Não acredito de jeito nenhum. Eu não tenho vergonha de ser brasileira (ou o que me sobrou disso), mas tenho muita vergonha do que andam fazendo com meu país de origem.

E como sou de extremos, de sim ou não, de certo ou errado, de quero ou não quero, cheguei à conclusão que precisava me posicionar. Não sou capaz de mudar nada no Brasil, não tenho voz nem vontade, portanto, por que me importar tanto com isso? Se nada vai mudar, mudo eu, mudei eu.

E me dói muito assumir que não quero mais morar ali, independente da proposta que houvesse, não faço mais a menor questão de ser brasileira e não me identifico. O país que lá está não é mais o meu país. Fico triste em saber que entristecerei gente muito querida ao dizer isso, principalmente minha família, mas muito mais triste ficaria eu se fosse obrigada a voltar. A única razão pela qual vou de visita, e irei quantas vezes forem necessárias, são as pessoas, minha família e meus amigos. Meus pais seguem envelhecendo, a mãe do Luiz anda precisando de maiores cuidados e não tenho resposta sobre como vamos lidar com essas questões no futuro. Só posso tentar fazer o melhor possível.

Assumir isso para mim mesma é bastante duro, mas precisava escrever para realizar. Entubar!

Não acho que seja uma decisão definitiva, porque nunca sabemos que necessidades teremos e o que seremos obrigados a aceitar. Mas é como penso hoje.

Estive no Brasil por seis semanas. Bastante tempo, entre Rio e São Paulo. Luiz foi a trabalho e fui atrás. Acho que as coisas acontecem quando devem e talvez eu precisasse estar lá por esse período para entender como isso vinha me martirizando nos últimos meses.

Houve um lado muito bacana que foi poder estar mais de duas semanas direto na casa dos meus pais. E pouco mais de três semanas em São Paulo, onde havia morado por dez anos, antes de sair pelo mundo.

Foi impagável poder dar mais atenção à minha mãe e aproveitar sua companhia em atividades rotineiras, conviver com meu pai e suas rabugices, saber sobre o casamento do meu irmão e vê-lo feliz, ver minha sogra melhor e reagindo, rever primos, encontrar amigos e filhos de amigos, enjoar de comer pão de queijo, lembrar o sabor de carne boa, encher a lata nos botecos cariocas, jantar nos divinos restaurantes paulistas, encontrar amigos do colégio, lembrar que sei dirigir e me sentir poderosa por estacionar de baliza na primeira tentativa, escutar amigos músicos, encontrar a “Diretoria”, receber visitas, visitar, tomar sol na piscina, caminhar no calçadão, ter amigos que saem de casa ou de outras cidades para te encontrar, ter vontade de ir para outras cidades rever amigos, relembrar antigos caminhos e descobrir novos, me sentir mais alta que a média das pessoas em volta, achar que nem preciso emagrecer, cortar o cabelo e fazer escova na minha cabeleireira favorita, andar de camiseta na rua sentindo a brisa da praia, saber os nomes dos garçons, ter sempre uma casa oferecida para dormir, rever amigos que conheci em países diferentes e me sentir em um universo paralelo como se fosse ontem, cantar música ruim sem me importar e ainda decorar a coreografia, bater perna no Rio Sul, comer feijoada olhando para o mar ouvindo música boa, tomar água de côco geladinha, beber sucos naturais realmente naturais… e tantas coisas que me fazem guardar um vínculo e não querer sair correndo sem olhar para trás.

Na última noite, depois de jantar com amigos, voltei para casa chorando. A bebida me caiu mal, não devo beber quando estou triste, mas não sabia que estava. É que pelo caminho me bateu a consciência de que estou condenada a viver com saudade sempre, de carregá-la nas veias. Não há mais lugar no mundo onde eu possa viver sem ela. Eu sei que é o preço, mas naquela noite me pareceu tão injusto. Contraditoriamente, também me deu raiva de sentir tanta saudade, de ainda gostar tanto de um lugar que não é mais meu e nunca será, porque eu já não sou.

E agora que está dito e assumido, não posso dizer que estou feliz, mas aliviada. De certa forma, ainda me resta o privilégio da escolha. Talvez agora pare de tossir com esse sapo entalado na garganta. Tentar ressurgir das cinzas uma vez mais e esperar que possa renascer melhor.

Uma rapidinha!

Caminhando por Piccadilly, passamos em frente a “Royal Academy of Arts”.

Até aí, normal, pois bem, justo em frente, há uma placa anunciando o restaurante do local. Alguém que não deve ter muito o que fazer, teve a brilhante idéia de desenhar um minúsculo “f” em frente da palavra “arts”, ou seja, virou “farts”.

Dessa maneira, a Real Academia de Artes passou a ser a Real Academia de… Peidos!

E aí, quem se atreve a visitar o restaurante? Será que são especializados em repolho?

farts

Minhas gordas

Sou uma mulher normal, com as mesmas neuras em relação ao próprio peso que outras muitas mulheres normais. Mas entre nós, no fundo gosto da palavra “gorda” ou “gordo”, é gostoso de dizer, principalmente em tom carinhoso. A gente enche a boca para falar e ainda faz biquinho.

Enfim, conto isso pelo costume que ganhei quando entraram dois felinos na nossa vida, o Jack Daniel’s e a Buchannan. Ele gordinho desde filhote e ela magrela que era pelo e osso. Não fazia diferença, chamava os dois de gordos. Assim que meus gatos tinham nome e apelido, e pasmem, atendiam aos dois!

JackBuck2

Muito bem, nessa época, eu trabalhava como artista plástica e um belo dia, minha vizinha tocou na minha porta para conversar. Dizia que tinha uma filha com uns 9 anos, que estava com alguns problemas sérios de timidez. A mãe acabara de mudá-la de escola, pois na anterior sofria “bullying” constantemente. Também havia mudado de casa e ficou, de uma hora para outra, completamente sem amigas. Ela perguntou o que eu achava de dar aulas de arte para a filha, achou que podia ajudar.

Como não? Fiz um preço camarada e topei.

Chegou na minha casa uma menina que mal abria a boca de vergonha, toda sem graça! Fiz de conta que não notei e fui tocando a aula de uma maneira mais livre, sem cobranças. Até que duas figurinhas resolveram aparecer na sala para checar quem era a nova visitante.

Quando minha aluna percebeu a presença dos dois felinos, parece até que esqueceu da tal timidez. Ficou completamente encantada e doida para brincar com eles!

Pensei, agora ferrou de vez! A pobre já está toda triste e se sentindo rejeitada, vai querer fazer amizade logo com os gatos! Sim, conosco eles eram muito carinhosos, mas fora a gente, só com raríssimas exceções e assim mesmo levava um tempo para ganhar confiança. E com criança então, putz, eles fugiam e se escondiam igual diabo foge da cruz!

Meu gordo, como diz um amigo meu, não estava nem aí para a paçoca! Não deu grandes bolas, mas verdade que também não atrapalhou, ficava sempre de longe observando.

Já com Buchanan, aconteceu algo incrível, que talvez só quem tenha bicho possa entender. Ela parece que percebeu que a menina precisava dela e simplesmente a adotou de cara! Foi completamente receptiva, carinhosa e dócil. Se deixava carregar para cima e para baixo, das maneiras mais esdrúxulas, com toda a paciência. E isso porque era uma gata que detestava ficar presa em colo! Era realmente bonito ver os laços que as duas criaram, ao ponto da minha jovem aluna dizer que minha gorda era sua melhor amiga! E veja bem, nessa idade, “a melhor amiga” era importantíssima!

Poderia contar mil histórias bonitinhas a respeito, mas hoje queria mesmo dizer que a menina achava muito curioso eu chamar uma gata tão magrinha de gorda. Expliquei que era uma maneira carinhosa de falar, não me importava o peso ou a aparência, o gato era meu “gordo gorducho” e a gata minha “gorda magrela”. Ela entendeu muito rápido e passou a adotar a mesma terminologia, geralmente, se divertindo bastante em chamar “gooooorrdaaa” e a gata responder toda manhosa.

Resumindo a ópera, algum tempo depois, me mudei desse apartamento. Minha aluna entrava na adolescência completamente diferente da primeira vez que entrou na minha casa. Acho que foi um conjunto de providências tomadas por uma mãe atenta, também por seus próprios méritos, nunca é uma coisa só. Mas tenho certeza absoluta que minha felina teve um papel fundamental na recuperação da confiança e da auto estima da menina. Entendi o poder que tinha o amor e a amizade de um bicho.

Faz uns nove anos que minha gorda sensível se foi, às vezes, me visita em sonhos. E faz um ano que se foi meu gordo bonachão, sinto sua falta, ainda que já não seja mais sofrido.

Andamos pensando em adotar outro gato ou gata. Mas ainda não surgiu a ocasião certa, acho que essas coisas a gente sente.

Reparei que pelas redondezas da minha casa, passeava uma felina malhada muito sociável e simpática. Bom, assumi que era fêmea por causa de uma barriguinha flácida, parecida a de gata parida, mas certeza mesmo, não tenho, acho que não importa tanto seu sexo. E por não saber se levava um nome, e pela barriguinha peluda que balança quando ela anda, também a chamo de gorda.

Luiz já a viu dentro de um apartamento, que é onde desconfio que ela more. Acontece que é bastante livre, acostumada a passear pelos jardins do condomínio e pelos parapeitos do edifício. Assim que, também não tenho certeza absoluta que ela tem dono, mas quase certeza. Afinal, está bem de peso, parece saudável e com certa idade.

Muito bem, agora em julho, Luiz viajou, fiquei sozinha em casa por uma semana. Não costumo ter problemas com isso, tenho minhas coisas para fazer e geralmente não sou audiência para solidão. Mas confesso que nesses dias, senti falta do meu felino gordo e da companhia que ele me fazia em casa.

DSC00122

Não me queixo de Londres, aos poucos venho conhecendo gente bem bacana. Mas leva um tempo até poder ter a mesma facilidade que tinha em Madri, de sair sozinha sem me importar, porque tinha certeza que no bar, no concerto ou na esquina, encontraria um rosto conhecido. Sinto falta de me locomover sem dificuldade pela cidade, saber onde é tudo e poder sempre voltar caminhando.

Sinto falta da casa cheia, de cozinhar para os amigos, de receber visita. Não tenho certeza, porque não sou íntima do conceito, mas talvez estivesse me sentindo um pouco só.

Daí, dentro desse clima, estou eu no computador, olho para o lado e quem me aparece?

A gorda malhada, dona do condomínio, veio checar se tudo estava nos conformes. Me fitou com aqueles arregalados olhos felinos, que parecem sempre estar te perguntando alguma coisa: e aí, me chamou?

i

Fiquei sem saber muito o que fazer, abri um pouco a janela e comecei a brincar com ela desde dentro. Nesse dia, ela só botou a cabeça e pediu um pouco de carinho. Tentou entrar, se embolou com a corda da persiana, se assustou um pouco e foi embora.

Dia seguinte, ela voltou. Admito que estava esperando, o que parece meio maluco, considerando que era uma gata! Mas ela não decepcionou. Dessa vez, tirei as cordas da persiana da frente e já providenciei um copo de água.

Aos poucos, fomos criando nossos códigos e surgiu nossa amizade. Há semanas, ela me visita diariamente. Como quem recebe uma amiga, já deixo separado e a mão água, um pouco de comida e a deixo passear por alguns ambientes da casa.

Suas visitas são rápidas e rotineiras, ela chega, pede para entrar, pede carinho, aceita comidinha, bebe água, pede mais carinho, passeia pela casa, confere se está tudo bem, pede mais carinho, fica um pouco ao lado fazendo companhia e olhando da janela, depois vai embora, do mesmo jeito que chegou. Não parece querer uma dona, não parece precisar de nada, simplesmente vem me visitar. E é o suficiente para equilibrar a energia da casa e animar meu dia.

q

n

E só para concluir uma história que ficou incompleta lá atrás, sobre que fim levou minha aluna. Ainda mantivemos contato por algum tempo, até me mudar do Brasil. Eu a tinha como amiga no falecido Orkut, onde procurava não passar muito nem deixar recados, afinal, ela já estava uma mocinha e não ia fazer ela pagar esse mico! Pois até onde sei, era uma adolescente normal, bonita, feliz e com várias amigas. Fiquei curiosa de ver suas fotos e me parecia sociável e confiante, nem de longe a menina tímida e insegura que conheci. Me perguntei se ela ainda lembraria da Buchanan, o que não era importante, afinal a gata já tinha cumprido com louvor sua função. Até que vi uma foto de um grupo de meninas muito queridas, pareciam grandes amigas abraçadas, com o interessante e familiar título de “minhas gordas”.

Hakkasan

Alan Yau, é o nome que está por trás de grande parte dos restaurantes asiáticos de Londres, voltados para públicos e preços diferentes. Um desses restaurantes em especial, o Hakkasan, nos chamou a atenção.

O nome parece de palavra mágica, mas é um restaurante chinês. E, veja bem, não um simples restaurante chinês, mas o primeiro a receber uma estrela Michelin.

Então, lá fomos nós conferir se era isso tudo mesmo!

Logo na recepção, fui surpreendida. O local era bastante moderno, com música nada oriental e diria que até um ponto mais alta do que imaginaria. Troquei rapidamente meu chip e aproveitamos uma taça de champagne no bar, enquanto aguardávamos nossa mesa.

photo

photo1

Em seguida, fomos encaminhados ao andar de baixo, um salão bastante amplo, mas com algumas divisórias que davam um ar mais aconchegante a cada ambiente. Parece um pouco escuro em princípio, mas a iluminação das mesas e dos pratos é bem equilibrada. A música também passa a uma altura adequada. Serviço, educado e simpático.

Enfim, tudo indo bem, mas o que importa no final das contas é a comida, certo?

Comecei com um softshell crab, nosso siri-mole, que estava bom, mas um pouco fritura demais para meu paladar. Até aí, normal, foi o que escolhi, estava correto, apresentação bonita, mas nenhuma grande emoção.

photo2

Na sequência, os pratos principais, Luiz pediu um camarão ligeiramente picante, como um curry e pedi, o que modéstia às favas, foi a grande estrela da noite: um pato trufado de ajoelhar e rezar!

photo3

photo4

Sério, foi provavelmente o melhor pato que comi na vida! Até Luiz que nem liga para a dita ave se encantou! Recomendadíssimo! É verdade que estou para achar alguma coisa que não combine com trufas, mas confesso que não havia pensado em adicioná-las a um pato. Funcionou.

photo5

A sobremesa nos foi oferecida como cortesia da casa, imagino que porque o horário da mesa seguinte havia chegado. Achei estranho a rotatividade em um Michelin, mas enfim, tivemos um bom tempo para a aproveitar o jantar e foram bastante delicados. Assim que ao final, meu parecer é positivo. Vale conferir!

photo6

photo7

O primeiro barraco a gente nunca esquece!

Pois é, minha vista de águia já foi para o saco após os 40 anos, mas sigo tendo um sono leve e uma audição canina! Eu acordo em casa se faltar luz, porque o som da casa muda. Nesse nível.

Enfim, estava eu dormindo tranquilamente, quando algum som diferente me desperta. Algo que parecia discussão, briga, sei lá, na hora que a gente acorda é difícil ter certeza se não estava sonhando. Olhei o relógio, 3 da manhã… hum… horário muito suspeito! E já explicarei o porquê.

Levantei e fui buscar de onde vinha o som, comecei a ouvir novamente uma discussão. Na verdade, um belíssimo quebra pau de marido e mulher! Eu fico logo nervosa! Porque tenho um lado que me diz para respeitar a privacidade do casal e outro que me diz, atenta porque se ele for violento você pode precisar chamar a polícia. Nada impede que ela também seja violenta, mas não costuma ser o normal.

Muito bem, lá fui eu prestar atenção na conversa. Aparentemente, a cidadã saiu para balada, deixou o marido em casa, voltou às três da matina, mas não atendia o celular desde às 21h. Devo confessar que acho que o marido tinha uma certa razão de estar aborrecido. Ele berrava “fuck off”… você desrespeita nosso casamento… vai embora de uma vez… está tudo acabado… e apenas ouvia ela responder que só estava “having a good time”…

Por algum motivo, ele abria e batia a porta de casa, enquanto berrava essas frases. Por isso, sei que são meus vizinhos da frente. Apesar da agressão verbal bastante intensa, não acredito que a coisa tenha ficado física. Assim que também não chamei a polícia.

Até que em algum momento eles apagaram as luzes e não ouvi mais nada. Acho que ela dormiu no sofá.

Voltei para cama e ouvi passos do vizinho de cima. Esse vizinho fala pelos cotovelos! Acho que moram pelo menos uns três homens no andar de cima e parecem falar um idioma búlgaro, albanês, algo desse lado ao leste que me dá um pouco de medo.

Já fiz logo a intriga, será que o albanês mafioso de cima chegou junto com a vizinha vagabunda da frente? Será que estão tendo um caso sórdido?

Não sei, mas ficou uma informação lá atrás que gostaria de fazer uma reflexão, o fato do quebra pau ter acontecido às 3 da manhã e porque acho esse horário suspeito.

Houve um apartamento em Madri que tivemos que mudar por não aguentar mais as brigas do casal ao lado. Eles brigavam religiosamente todos os dias às 3 da manhã. Juro que às vezes tinha vontade de bater na porta deles pelas 19h e perguntar, escuta vocês não querem começar a brigar logo agora? A gente já sabe que vocês vão brigar mesmo, então, pelo menos comecem mais cedo e deixem todo mundo dormir, né? Na verdade, não sei se era pior quando eles brigavam ou quando faziam as pazes! Porque a gente também escutava o tigrão e a alucinada na trepada de reconciliação e garanto que era bem mais assustador que as discussões!

Enfim, acabei desenvolvendo uma teoria que esse é um horário cabalístico para discussões de casal: às 3 da manhã! Acho que até às duas, quem está esperando tem na cabeça como o horário limite de tolerância. Algo que deve vir no inconsciente desde o período adolescente, quando tínhamos uma hora para chegar em casa. A partir daí, a imaginação ganha proporções incontroláveis. Até às três, deu tempo de pensar um monte de bobagens! Mas quando vai chegando perto de quatro, ou as bobagens viraram real preocupação ou muito sono. Daí, quando a pessoa chega, já não há energia para discutir, deixa-se para o dia seguinte, quando a poeira estará mais baixa.

Portanto, se algum dia você resolver fazer merda, chegue até às duas ou chegue depois de quatro, mas nunca, nunquinha, às três da manhã!

Ou faça muito mais fácil, desfrute saindo junto do seu parceiro ou parceira; ou aceite que um queira sair e outro não; ou confie em quem fique ou quem vai, porque não há nenhuma razão para se fazer nada escondido. Casamento não é uma prisão, ninguém precisa fugir para se libertar, nem sofrer por abandono. A vida a dois pode ser muito mais simples se você apenas perguntar o que quer saber ou dizer o precisa.

Nada não, foi lutando boxe…

Parte do meu treinamento na ginástica é lutando boxe. Acho que basta me conhecer por 5 minutos para saber que para mim é a melhor parte da aula! Fico amarradona!

Veja bem, o fato de gostar não significa que o faça direito, pelo menos, não por enquanto. Inclusive, acho que deva ser mais divertido para quem me assiste. Porque, digamos, a coordenação não é exatamente meu forte. Eu brigo como mulherzinha mesmo, afinal, vamos combinar, quando garota, nunca precisei sair no braço com os amigos no recreio.

Mas acontece que eu gosto e daí eu quero fazer melhor. Não me importo muito com o mico, porque vejo que vou evoluindo. Já faço umas sequências de “jabs”, “cross hooks” e “uppercuts” que nunca havia sonhado possíveis!

E por que estou contando isso? É que em uma das minhas últimas aulas, acabei com um hematoma na mão, bem no lugar de dar o soco. Se eu fosse uma mocinha normal, desconfio que não deveria ter gostado muito disso, mas entre nós, eu adorei! Fiquei completamente orgulhosa do meu “hematoma de briga”!

Ok, briga é um baita exagero, porque a gente não chega nem propriamente a lutar, é um treino onde eu soco a mão do professor, eu com as luvas e ele com a proteção. Fora que é tudo combinado, né? Acontece que basta eu colocar aquelas luvonas que já me sinto toda poderosa!

Enfim, tentei exibir displicentemente meu hematoma para todo mundo que encontrava, doida para tirar onda! Torcendo para alguém me perguntar o que foi aquilo. Daí eu diria distraída: ah, isso? Nada não, foi lutando boxe…

A burocracia da morte

Assunto tabu, eu sei, para mim também era, não é mais. Ninguém gosta muito de falar a respeito, é fato, mas está lá e não há como fugir. Tem que resolver e se resolve no olho do furacão mesmo.

Assim que nossos dias no Rio seguiram trabalhosos. A gente não pensa muito nisso normalmente, mas há uma grande burocracia após um falecimento. É necessário dar entrada em pensão, seguros, inventário, trocar nome de contas etc. Acho complicado, porque geralmente a família está sensível, principalmente os viúvos, muitas vezes idosos, e pensar em todos esses detalhes deixa qualquer um baratinado.

Vou logo avisando que nem adianta a hipocrisia de dizer que não é hora de se pensar em dinheiro nesse momento, porque as contas continuarão caindo do mesmo jeito, nada para no planeta porque você ainda está dolorido por sua perda. Tampouco pense que a maioria será ao menos condescendente. Principalmente os seguros, farão o melhor para dificultar seus direitos e se esforçarão para que você fique em um vai-e-vem insano. Tudo vale para prolongar o tempo de recebimento de seus benefícios. Sem falar na máfia dos cartórios. Não importa que você vá pessoalmente, com sua identidade original a algum lugar, você não é você se sua assinatura não estiver reconhecida em um cartório.

No caso da minha sogra, ainda havia uma complicação extra, dos três filhos, dois moram fora do Brasil e o que mora no Rio não quer resolver essas coisas. Assim que precisávamos botar as pilhas e já deixar tudo o mais adiantado possível.

De uma maneira torta, há uma vantagem, porque apesar de muito cansativo, faz você desviar o pensamento. Você ativa seu lado racional e automaticamente, suas emoções ficam sob controle.

Acho o tempo do luto muito importante, ele é necessário para você entender a perda e seguir bem. Mas nada impede que ele seja misturado com outras emoções ou afazeres e talvez isso também seja bom. Porque é possível que na hora mesmo que você precise encarar a realidade, esteja mais forte e tenha ampliado sua perspectiva.

Meu sogro deixou sua morte muito bem preparada. Se preocupou com detalhes que me impressionaram. Para dar um exemplo, seu velório estava pago, definida a roupa que queria usar e o que colocar sobre o caixão. Havia por escrito os passos que deveriam ser tomados, quem deveria ser procurado, telefones, endereços etc. Uma preocupação sobretudo em deixar minha sogra amparada.

Achei de uma generosidade ímpar! Porque a maioria das pessoas não quer nem pensar nisso, acha de mau tom, mau agouro. E na verdade, não falamos a respeito porque nos incomoda pensar na nossa própria morte. Só que para quem fica é um tremendo abacaxi, pelos motivos que estou enumerando e por muitos outros. E um abacaxi para ser descascado em um momento de fragilidade. Assim que foi muito lúcido e corajoso de sua parte se organizar com antecedência.

Acho que a naturalidade com que tratou sua futura morte para mim foi um exemplo. Desmistificou o evento e, o mais importante, o deixou presente em todos momentos. Seguros de estar fazendo o que foi pedido ou desejado. Ter um norte nessa hora é fundamental.

Minha parte era mais fácil, de certa maneira, não tinha a responsabilidade de fazer nada propriamente dito, mas aprendi bastante estando ali e tentando apoiar na medida do possível. Lição dura, mas impagável!

Nem tudo foi trabalho ou tristeza, procuramos estabelecer uma rotina com pequenas válvulas de escape. De dia, resolvendo os pepinos que precisassem e à noite tentávamos relaxar um pouco. Minha sogra dorme muito cedo, pelas 20h. Mas conosco em casa, ela ficava sem graça de se deitar. Então, quando chegava perto desse horário, a gente saía para dar uma volta a pé. Era bom para ela, que ficava à vontade para ir dormir e para gente que mudava um pouco de ambiente. Não era tão planejado, saíamos caminhando pelas calçadas da Urca, daí quando chegava perto do Belmonte, nos perguntávamos, bebemos o morto? Sentávamos, tomávamos uma cachacinha com ele e voltávamos. Nada em excesso, não queria me arriscar à bebida descer torta, mas o suficiente para deixar o peso mais leve.

Um pequeno grande detalhe é que em meio a tudo isso era o aniversário da minha mãe. Ela não estava com vontade de comemorar, por motivos óbvios e também porque imagino que estivesse constrangida por causa do Luiz. Pois já fui logo dizendo que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! A gente sempre acha que a vida deve ser celebrada. Contexto perfeito não existe, a gente tem que se ajustar. Luiz também não via nada demais e deu força. Então, agitei um barata voa de fazer um jantar no dia do aniversário dela, caiu numa terça-feira.

É lógico que não era um festão animado, ninguém é tão insensível assim, mas por que não um jantar mais especial com a família, certo? Para meus pais, não é sempre que estão os dois filhos juntos, apesar dos pesares, também tínhamos muito o que comemorar.

E assim foi, na terça-feira à tarde, me dividi com Luiz, ele ficou resolvendo papelada e fui para casa dos meus pais ajudar a cozinhar e preparar as coisas. À noite, Luiz se juntou a nós. Minha mãe fez um camarão no leite de côco, que é parecido a uma moqueca, preparei uma lagosta na manteiga de alho e uma bacalhoada. Adianto que ficou uma delícia, principalmente bem regado a espumante! Foi divertido, minha mãe fica engraçada depois de umas taças de prosecco, que ela adora.

Valeu e achei ótimo poder aproveitar uma coincidência triste da viagem de uma maneira positiva e alegre. Prefiro que, no futuro, a lembrança desse período siga sendo de um aniversário.

E já que estava falando em comida, minha sogra gosta muito do meu feijão, assim que aproveitei a mão e, na quarta-feira, fiz uma feijoada caprichada para gente. Sei lá, acho que tem um momento brazuca que a gente precisa do conforto que traz um arroz com feijão. Não é só o alimento, é a memória do conforto de casa. Pelo menos, comigo funcionam esses pequenos rituais, como sinais ou amuletos de que tudo está no seu lugar ou vai dar certo. Ok, sei que às vezes é um pouco viagem na maionese, mas o que importa é que o feijão ficou bom pacas! Minha sogra comeu dois pratos, o que para quem come como um passarinho, é um elogio astronômico. Minha cunhada estava conosco e foi ainda melhor compartilhar alguns minutos breves para esquecer que o mundo é louco.

Na quinta-feira, Luiz ainda conseguiu dar entrada nos últimos seguros pela manhã, eu fiquei para passear um pouco com minha sogra pelas calçadas da Urca. Minha mãe veio se despedir da gente e aproveitar para visitar minha sogra.

À tardinha fomos para o aeroporto. Saímos cedo, com medo de ficarmos parados pelos protestos contínuos que vinham acontecendo. Abro parênteses para dizer que esse capítulo das manifestações no Brasil, que começaram exatamente quando estávamos por lá, só nos encheram de orgulho. Em outro momento, falarei sobre isso.

A viagem de volta foi cansativa, turbulenta e longa. Cheguei exausta e com o corpo dolorido! Mas enfim, chegamos sãos e salvos e, no final, é só o que queremos.

Decifra-te ou devoram-te

Há um texto sobre um chapéu violeta que rola há algum tempo pela internet – atribuído a Mario Quintana, digo atribuído porque hoje em dia tenho dificuldade em saber o que é de verdade e também já li que não é dele – enfim, um texto simples, quase bobinho, e que acabou virando piada interna entre minha mãe e eu. Acredito que entre ela e as amigas também. Para quem tem curiosidade, o texto é o seguinte:

“3 anos: ela olha pra si mesma e vê uma rainha.
Aos 8 anos: ela olha pra si e vê cinderela.
Aos 15 anos: ela olha e vê uma freira horrorosa.
Aos 20 anos: ela olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, decide sair mas… Vai sofrendo…
Aos 30 : ela olha pra si mesma e vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, mas decide que agora não tem tempo pra consertar então vai sair assim mesmo…
Aos 40 : ela se olha…. Vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, mas diz: pelo menos eu sou uma boa pessoa… E sai mesmo assim…
Aos 50 anos: ela olha pra si mesma e se vê como é…sai e vai pra onde ela bem entender…
Aos 60 anos: ela se olha e lembra de todas as pessoas que não podem mais se olhar no espelho…sai de casa e conquista o mundo…
Aos 70 anos: ela olha pra si e vê sabedoria, risos, habilidades, sai para o mundo e aproveita a vida…
Aos 80 anos: ela não se incomoda mais em se olhar… Põe simplesmente um chapéu violeta e vai se divertir com o mundo…
Talvez devêssemos por aquele chapéu violeta mais cedo…”

Vejo o “chapéu violeta” como uma versão delicada e talvez mais madura do “botão do foda-se”. Assim que quando queremos dizer uma para outra que não se importe muito com o que vão pensar ou falar, perguntamos, e aí, já colocou o chapéu violeta?

Pois é, aviso que segui o conselho antes mesmo de ler o texto e coloquei meu chapéu bem mais cedo. Na verdade, o enterrei até as orelhas! E conto isso porque a história do tal chapéu permeou, de uma forma ou de outra, minhas últimas semanas.

Também aviso que o levo enterrado até as orelhas agora mesmo, assim que para os mais sensíveis, melhor parar a leitura por aqui, porque de agora em diante, posso ser bastante politicamente incorreta. Portanto, ou ponha também seu chapéu, ou tire as crianças da sala.

Há algumas semanas, meu sogro foi internado, mais uma vez, sua última vez. Ele faleceu na madrugada do dia 14 de junho, após passar pouco mais de um mês na UTI.

Por isso, há pouco mais de um mês, quando ainda não sabíamos quanto tudo duraria, Luiz foi às pressas ao Rio e passou por lá uma semana. Voltou porque não tinha férias e não havia nenhuma previsão de quanto tempo essa situação poderia levar.

Eu não fui. Luiz me parecia equilibrado e eu sabia que não havia nada que eu pudesse fazer para realmente ajudar ou mudar alguma coisa. Exerci minha praticidade, ou dependendo do ângulo de quem olhe, meu egoísmo, e me preservei. O custo emocional e, porque não dizer financeiro, de ir ao Brasil é alto. Também tenho dois pais que podem ter problemas a qualquer momento, aliás é o que a experiência tem me mostrado. Além do que, meu irmão pensa em se casar esse ano e, podendo escolher, prefiro ir ao Rio por um motivo feliz que por um triste, assim de simples.

Minha família teve um pouco de dificuldade em entender como eu não estava com meu marido em um momento assim, mas na nossa cabeça, estávamos juntos e ninguém tem data certa para morrer. Tanto não havia, que isso não aconteceu e Luiz precisou retornar a Londres.

Daí para frente, foram algumas semanas de angústia, porque meu sogro seguia internado e eu não tinha a menor esperança que ele fosse melhorar. Acho que nem Luiz, mas só posso falar por mim.

É uma situação complicada, porque você escuta a família e os amigos tentando manter a esperança, o que é normal. Assim que me sentia um pouco estranha porque enquanto muitos torciam ou rezavam, de acordo com suas crenças, para que ele se recuperasse, no fundo eu só conseguia pedir que ele se fosse logo e que parasse de sofrer. Na minha maneira de pensar, a morte e a vida são lados da mesma moeda, posso entender e suportar com dignidade ambos os lados. Mas tenho imensa dificuldade em aceitar o sofrimento.

O problema é que quando você não tem mais esperança, não tem mais briga, tudo se torna uma mórbida espera que a morte chegue. Já perdi outras pessoas ao longo da minha vida, mas foi a primeira vez que tive a experiência de esperar uma morte acontecer, de não querer brigar mais.

E é maluco porque o tempo não para e as coisas seguem acontecendo. É triste, mas tem horas que não, tem horas que você não pensa nisso, tem horas que você está feliz por outras coisas. E às vezes me perguntava se não deveria me sentir culpada por estar desfrutando em um momento onde outros não estavam. E ao mesmo tempo, vinha a pergunta retórica na cabeça, e não é sempre assim?

Talvez seja, mas ainda estou absorvendo e entendendo melhor essa experiência.

Até que recebemos uma ligação da médica, explicando que a coisa havia se complicado de verdade, que já não havia mais o que fazer, ele estava sedado e deveria ter um par de dias. Luiz sentiu que dessa vez estava realmente próximo e resolveu ir ao Rio.

Diferente da vez anterior, nessa achei que deveria ir junto. Luiz estava bem, mas tinha a impressão que dependendo do que encontrasse por lá, poderia resvalar. Eu mesma não ficaria tranquila sem saber exatamente o que estava acontecendo. Queria observar minha sogra de perto, meu pai também não anda muito bem, minha mãe muito mexida com tudo isso, enfim, tenho o maldito dom de sentir a proximidade da morte no olhar alheio e queria saber se ela seguia rondando o ambiente. Não seguia, não sei quando chegará, mas ainda não.

No aeroporto, Luiz me falou que ele mesmo entenderia se eu não quisesse ir, mas que achava que a cobrança social sobre mim seria grande se eu não fosse.

Achei curioso, porque talvez ele tivesse razão, mas a verdade é que o comentário me surpreendeu por completo, porque nem remotamente me havia passado pela cabeça que alguém pudesse me julgar mal por não ir. E mesmo ao pensar nisso, não me preocupava em absolutamente nada! Tudo que não queria era que Luiz estivesse sozinho, só isso. Depois ainda pensei que era um bom momento para estar com minha família e nada, mas absolutamente nada além disso.

Fiquei pensando a respeito durante a viagem, em quanto esforço na minha vida já fiz para estar segura de minhas decisões e bem com elas, quanto tempo para não me guiar pela opinião dos outros, até que finalmente não só coloquei meu chapéu violeta, como achei que combinava perfeitamente com minha pele. Quantas vezes ouvimos sobre a importância disso tudo e logo que alcançamos esse patamar, nos jogam contraditoriamente a culpa por sermos exatamente assim. Mas enfim, não tenho ideia se me julgariam ou não, porque, nesse caso, tampouco me importaria. Francamente, acho que meus amigos e minha família são melhores pessoas e por isso também me sinto protegida.

Entretanto, de alguma forma liguei meu alerta, talvez a mim não afetasse, mas à minha sogra sim, ao meu marido sim. E queria que eles tivessem a certeza que não estaria julgando a forma de suas reações ou emoções, não me cabe esse papel e não é minha natureza. Aprendi cedo que o mórbido as pessoas entendem com muita facilidade, o diferente não. Desse mal estou vacinada, mas não sabia o quanto eles estavam e o quanto a situação os haveria deixado vulneráveis.

A viagem não foi das mais tranquilas, fui pelos motivos que já expliquei, mas não estava com um pingo de vontade de ir. Adoraria ter uma desculpa razoável para mim mesma e fugir, essa é a verdade. No coração, um mantra ateísta com ares de oração, afasta de mim esse cálice… afasta de mim esse cálice…

Chegamos no Rio por volta dàs 22h, no mesmo dia em que meu sogro havia falecido na madrugada. Recebemos a notícia pouco antes de sair para o aeroporto. Meus pais foram nos buscar, sabiam que estaria mais na outra casa e seria uma oportunidade para a gente se ver um pouco. Gostei muito, porque estaria preocupada no dia seguinte se não conseguisse um tempo para vê-los, minha prioridade era atender minha sogra e meu marido, mas seguia tendo pai e mãe e isso é um pouco difícil de dividir, assim me sentia mais tranquila.

Não vou negar que tive o pensamento egoísta e inapropriado de que bom ainda não era meu próprio pai. E desejei que eles nunca precisassem ficar internados ou com dor, que o dia que se forem seja o mais rápido e indolor possível. Outra vez, pedi que me afastassem o cálice.

Finalmente, encontramos minha sogra e o que vou dizer pode parecer muito estranho, assim que tomarei um tempo em seguida para explicar. Achei que ela estava arrasada e feliz.

Há muitos anos, nem conhecia Luiz (antes que perguntem), terminei um noivado. O dia que tomei essa decisão foi o mais difícil da minha vida até então, tinha apenas 19 anos e por mais que acreditasse na época que estava pronta para comer o mundo, era uma garota. Literalmente, fugi para a biblioteca da faculdade e me escondi por lá enquanto pensava como contaria isso para minha família, e o pior, como falaria isso para ele. Eu me sentia completamente arrasada, destruída, perdida, assustada, culpada e mais 25 adjetivos nessa linha. Chegou um amigo que me conhecia razoavelmente bem, olhou para mim e perguntou sorrindo: nossa, você está feliz? Está radiante!

Levei um tempo para entender que a leitura da minha expressão pelo meu amigo, que me soava como um completo absurdo, era verdade. Não era a única verdade, mas era verdade também. Estava devastadoramente triste com a situação, mas feliz porque estava livre.

Foi exatamente essa expressão a primeira coisa que reconheci na minha sogra e agradeci por isso, foi um momento, mas me deu esperança. Duvido muito que ela tenha consciência disso e talvez seja até doloroso para ela ter essa consciência. Foi só minha leitura, não foi o que ela disse, é só minha opinião. Assim como é apenas minha opinião o que narro agora.

Minha sogra é uma lady, agradável, correta e mil qualidades que posso enumerar sem nenhuma demagogia. Mas às vezes, me passava essa sensação dela ser mais o que esperavam que ela fosse, do que o que ela mesma queria ser. Até o ponto que isso se confundia de tal maneira, que tenho sinceras dúvidas se ela sabe mesmo o que ela quer de verdade, lá no fundo da alma. Acho que ela foi controlada por toda a vida e agora se sente perdida, mas livre.

Não sabemos exatamente como ela reagirá daqui para frente. Pessoalmente, acho que ela tem dois caminhos extremos, em um ela se entrega em outro ela se salva. Meus sogros viviam um para outro, o que tem um lado muito bonito, mas que deixa confuso quem era quem, pareciam uma pessoa só. Não sei quem são as amigas da minha sogra, que lugares ela gostaria de ir, que viagens ela gostaria de fazer… não sei as motivações que ela tem para seguir vivendo. Mas sei que agora ela tem a chance de ser quem ela quiser. E a pergunta é se ela terá coragem, conseguirá se reconstruir?

Para mim, nesse momento, ela é um enigma, a vejo como uma esfinge antropofágica com um ultimato, decifro-me ou devoro-me. Sou otimista, dentro de sua aparente vulnerabilidade, vejo uma força que não sei se ela mesma tem consciência que possui.

Mas seguindo, no domingo foi o velório, meu sogro elegeu ser cremado. Essa também é minha opção e do Luiz.

Essa parte foi mais leve do que me preparei. Acho que nesse momento o corpo é só um corpo, não significa nada. O mais importante é a possibilidade de encontrar gente querida, alguns que não se veem há anos. Um ritual de passagem para as pessoas se despedirem, prestarem uma homenagem, demonstrarem apoio e principalmente, valorizarem as próprias vidas. Portanto, velórios não me assustam.

Cada pessoa reage às situações à sua maneira, a minha defesa é quase sempre o humor. É praticamente a última coisa que perco, mesmo nos momentos mais duros. Pois é, eu sou das loucas que fica doida para fazer piada em velório.

Luiz e eu fomos os primeiros a chegar, para receber o corpo e esperar as pessoas. O velório foi de 12h às 18h e achamos que era muito tempo para minha sogra ficar. Assim que ela só foi por volta dàs 14h.

Aliás, ela aguentou firme até o final, com mais energia do que imaginávamos. Muito aérea, como se estivesse sonhando, como se não estivesse ali. Ela já não consegue chorar. E se preocupa muito com isso. Acho que ela pensa que os outros vão pensar que ela não está sentindo tristeza o suficiente pela falta de lágrimas, a velha história dos julgamentos alheios. Tentamos deixá-la tranquila em relação a isso, como acabei de dizer, as pessoas reagem de forma diferente à dor e ninguém que fosse besta de julgá-la mal. Mas acho que isso não aconteceu.

Enfim, enquanto esperávamos sozinhos, já em frente ao corpo, fizemos nossos juramentos e pedidos pessoais. Não queremos caixão aberto, não queremos ninguém olhando para gente e sofrendo. Eu mesma evito ao máximo olhar alguém querido morto. Não por me impressionar, mas porque a última memória que temos é sempre a mais presente, e não quero me lembrar das pessoas mortas, quero me lembrar delas bem, sorrindo, felizes.

Aviso logo que quero uma festa no meu velório! Sabe aqueles velórios americanos cheios de comida? Eu quero assim, um velório gastronômico! Luiz disse que quer o dele num bar, para beberem o morto. Pois já prometi que beberei seu peso em cachaça!

Nisso entrou na sala uma freira doidinha! Era simpática e falava sem parar! Buscava consolo em palavras religiosas que nem para mim nem para Luiz faziam o menor sentido, mas concordávamos porque era mais fácil. O que gostei é que ela era alto astral. Mesmo dentro daquele ambiente, ela puxava (e emendava) os assuntos mais diversos. Ela voltaria no final da tarde para fazer uma prece, algo que aliviasse as pessoas presentes. Independente das nossas crenças, achamos que pelo menos para a velha-guarda seria importante.

Quando ela saiu, virei para Luiz, você sabe que essa é a maluquinha do cemitério, né? Ela fugiu do manicômio, se veste assim de freira e fica passeando pelos velórios… você acreditou que ela vai voltar aqui para essa prece?

Adianto que mais tarde, a freira maluquinha voltaria e faria a tal prece ecumênica, que apesar do meu ateísmo, gostei muito. Achei que foi um alívio para a família, uma oportunidade de amigos se pronunciarem, enfim, uma homenagem bacana que fez o encerramento necessário. Afinal, quem sabe o que dizer nessas horas? Mas isso foi só no final do dia.

Durante as seis horas que ficamos ali, houve momentos tristes, divertidos, bizarros… acho que deve ser sempre assim. Para mim, era difícil ver meu sobrinho chorar, os filhos sofrerem, cada um à sua maneira, e minha sogra parecendo uma zumbi, ainda que altiva em sua desorientação.

Aprendi todo um glossário de doenças! Por que gente mais velha quer te contar todas as dores e doenças que tem nos mínimos detalhes? Eu sei pormenores da próstata de totais desconhecidos! Intimidades que me faziam perguntar se eu estava ouvindo aquilo mesmo!

Fora o pessoal que, para consolar, resolve te contar desgraças impensáveis, acho que para parecer que sua dor é menor, sei lá! Eu realmente acredito que essas pessoas pensem que estão ajudando, só que não. Quando falavam comigo, tudo bem, fazia parte das minhas atribuições deixar o povo desabafar, mas contavam aqueles absurdos para minha sogra!

Pessoalmente, desenvolvi a capacidade de fazer aquele sorriso de padre, dizendo sim com a cabeça, como quem diz, claro, concordo, entendo… e pensava, Bianca, aprende rápido o que não fazer quando você ficar velha, pelamordedeus!

Ao mesmo tempo, foi bacana irem amigos nossos apoiar Luiz, acho que fez diferença e deu força a ele. Mesmo os não presentes, ou por mensagens, ou por telefone, ou pela forma que fosse, de alguma maneira enviaram suas boas energias e seguramente isso ajudou a passar por esse momento.

Não era meu sangue, não era meu pai, mas há anos isso já não me faz diferença. O que toca os meus, toca a mim. E tentei, dentro das minhas possibilidades também ser útil naquela situação. Ver no que eu poderia apoiar.

O que me ocorreu foi ajudar a receber as pessoas, afinal, modéstia às favas, isso eu sei fazer. Porque chega todo mundo meio perdido ou sem saber o que falar. E não há muito mesmo o que dizer, é uma merda, sejamos francos! A gente sabe que é duro, mas a gente também sabe que um dia vai doer menos.

Então, quando chegava gente e a família estava ocupada ou cansada, eu ia, me apresentava: eu sou a nora!

Abro um parênteses para contar que em meu casamento, apareço no vídeo explicando para a falecida avó do Luiz, a essas alturas já um pouco maluquinha: eu sou a noiva! E me lembrava disso a cada vez que repetia, eu sou a nora!

Entre nós, vinha em meu pensamento, Bianca, não vai se confundir e dizer: eu sou a noiva! E daí, logo mil piadinhas povoaram minha cabeça, como perguntar: você veio para o casamento?

Mas segurei minha onda, não sei se iriam entender. Fiz uma ou outra brincadeira com Luiz ou com amigos muito próximos. Ainda que tenha certeza absoluta que meu sogro entenderia, ou faria parecido, provavelmente bem melhor, afinal teria os anos que lhe davam a autoridade legítima para tal.

Meu sogro tinha um humor ácido inteligente do qual eu gostava muito. Sempre conto uma história de quando comecei a namorar o Luiz. Fomos uma vez para Teresópolis, com meus sogros, e logo pela manhã ele veio me perguntar: minha filha, onde almoçamos hoje? E eu, começando o namoro, ainda meio sem graça, respondo toda educada, que onde eles quisessem… Ele me diz sério, não, minha filha, veja bem, vou te explicar, minha mulher manda em mim… meu filho manda na minha mulher… e você manda no meu filho… assim que resolvi encurtar todo esse processo e vim direto na fonte, então, onde nós vamos almoçar?

E é assim que lembro dele, debochado, irônico e inteligente. Se podia notar pelo concorrido funeral que era querido e respeitado, correto. E acho que é disso que se tratava esse ritual, lembrar à família que o final é duro, mas é só um pedaço de toda uma vida cuidadosamente construída e bem vivida. Entre acertos e erros, afinal somos humanos, minha conclusão pelos olhos de quem vi, é que ele foi um homem bom. E isso é muita coisa!

Quanto à minha sogra, não sei que caminho tomará. E sinceramente digo que só quero que ela seja feliz. Não sei se será capaz de se reconstruir, de chorar, de assumir o que quer, de buscar novos sonhos ou de fazer planos, e vamos combinar que depois dos 80 anos isso não é de todo simples. Da minha parte, digo que tem meu total apoio, que mais do que sua lucidez ou de sua irrepreensível educação, tudo que desejo a ela é que, finalmente, ponha seu chapéu violeta.

Será que a primavera finalmente achou o caminho?

Não é que o último par de dias estejam bonitos, é que estão irreclamáveis! Sol, céu claro, sem chuva e brisa fresca! Dá até medo de elogiar!

Ontem, consegui voltar a malhar, sem sentir dor no tornozelo, o que é um alívio! Endorfina na veia é mais que bem vinda. E para completar, Luiz ainda conseguiu chegar cedo e se animou a caminhar pelas redondezas. Convite que, inclusive, partiu dele! Eu, por mim, caminharia todos os dias quando ele chegasse do trabalho, mas nem sempre isso é tão simples, ele chega cansado e tal. Pois ontem, acho que ele estava afim de uma rua, então, bora para rua, ?

Aliás, isso é interessante, por não serem tão comuns, os dias bonitos aqui são celebrados a peso de ouro. O parque vizinho à nossa casa e, provavelmente os outros espalhados pela cidade, ficam abarrotados de gente espalhada pela grama, tomando sol, praticando algum esporte, brincando, batendo papo… é realmente algo que afeta o astral geral das pessoas.

Depois de passear pelo parque, lembrei que há algum tempo havia visto um pub que achei bonitinho e meio escondido, próximo a Little Venice, The Warwick Castle. Fomos conhecê-lo. O local tem seu charme, não nego, mas achamos o serviço médio. Valeu pelo passeio à pé até lá e por ter mais uma opção, mas seguimos fiéis ao nosso “local pub”, o bom e velho Warrington.

Resultado, ótima noite de sono! Acho que sou igual a cachorro ativo, preciso ir para rua gastar energia ou destruo a casa!

De qualquer maneira, melhor não abusar do tornozelo, está muito melhor, mas ainda me manda alguns sinais no estilo, estou aqui, hein? Vacila não que eu volto a doer… Então, vamos pouco a pouco.

Hoje, Luiz ia tentar sair mais cedo outra vez, espero que dê certo e ele pegue o gosto.

Enquanto isso, na sala de justiça, estou algo viciada na história real inglesa. Acabo de devorar a série “The Tudors”, que ok, é um pouco romanceada, mas até que ensina algumas coisas. Estou lendo sobre a vida da Rainha Elizabeth I, de quem fiquei fã. Sem falar que vira e mexe, me pego na internet, pela wikipedia da vida, tentando entender quem é filho de quem, quem matou quem, quem estava em guerra com quem… é uma zorra! Qualquer hora faço uma planilha! Devo haver estudado isso em algum momento na escola, mas francamente, não lembro. E estar no local onde as coisas aconteceram é muito mais estimulante.

E falando nisso, enquanto Luiz não chega, deixa eu voltar para meu livro e “cotillar” um pouco mais a vida da Elizabeth!

Burger & Lobster

Restaurante explicado no próprio nome, o Burger & Lobster serve hambúrguer e lagosta, assim de simples e assim de delicioso.

No momento, são quatro restaurantes em Londres (Mayfair, Soho, Farringdon e City) e não costumam aceitar reservas. Alguns deles aceitam para mesas com mais de 6 ou 8 pessoas.

Assim que, no final de semana, se você for aos mais badalados, como Mayfair e Soho, pode haver espera de duas horas na fila, coisa que não tenho paciência. Entretanto, nós fomos no da City, que no sábado à noite estava agradável.

Os hambúrgueres pareciam bastante apetitosos, mas não saberia opinar, porque toda nossa mesa optou pela lagosta. Comi uma belíssima lagosta grelhada, salada verde e uma batata frita fininha e crocante. Tudo por $20, o preço é fixo. Você pode eleger os molhos (eu escolhi manteiga e limão) e se a lagosta é cozida, grelhada ou em um sanduíche.

burger-and-lobster-farringdon-L-IcuevF

tumblr_mcv6uc6s0Z1r3pwino1_500

6803063951_7f0b65c197

O atendimento é simpático. O lugar é charmoso e despojado, com um grande balcão, além das mesas. E o principal, a comida é boa por um preço para lá de razoável, pelo menos aos padrões britânicos.

Voltaremos, com certeza!

Faz de conta que não viu e pula para a próxima

Ando de mal com minha terapia favorita. Algumas vezes, ensaiei escrever, mas no fundo, não gostava do que ia contar. Então, voltava ao silêncio escrito até esse ciclo passar. Essa é daquelas histórias que torço para ninguém ler.

Nenhum fato específico, nenhum problema com a cidade, simplesmente, uma fase meio depressiva. Dessas ondas negativas que nos atravessam e não há o que fazer a não ser esperar a maré baixar.

Difícil dizer como começou, mas desconfio que é porque a cada mudança fica inevitável pensar se voltaria a morar no Brasil. Nem tanto por mim, mas por ser uma pergunta comum que temos que responder quase diariamente à família, aos amigos e às vezes a desconhecidos: vocês ficam até quando? Vocês tem planos de voltar ao Brasil?

Não tenho a menor ideia! Primeiro porque acho que não “voltaríamos”, talvez “fôssemos” para o Brasil, mas não vou discutir o verbo nem o conceito agora mesmo. Porque o que me importa é que me perguntei muito intimamente: e eu quero morar no Brasil?

Não, a menor sombra de vontade. E fico até com um pouco de vergonha em assumir isso para mim mesma.

Queria que minha família morasse mais próximo e poder ir mais vezes encontrar os amigos, mas não tenho a menor vontade de viver no Brasil na situação atual. E não vejo uma perspectiva de melhora. Acho bacana ler na imprensa sobre esse país que está “bombando”, mas francamente, não reconheço o que eles falam.

Vejo amigos discutindo o óbvio de forma absurda, muitas vezes de maneira agressiva; ou a total indiferença e falta de consciência da seriedade dos fatos. Ou talvez o que considere pior, a impunidade absoluta, o que, na minha opinião, é o que mina o ânimo e qualquer possibilidade de mudança positiva. Essa sensação generalizada de que nada adianta e a desculpa fácil do sempre-foi-assim. O sempre-foi-assim é cruel! Ele encerra discussões que poderiam ser proveitosas, ele pisoteia qualquer esperança, ele é covarde.

Não, nem tudo sempre foi assim e, entre o tudo e o nada, há infinitas matizes.

E, de repente, tenho aquela sensação de alívio de não precisar estar ali, de ter opção. Aqui não é perfeito, mas é melhor, minha qualidade de vida é melhor, dentro do que pode ser. Eu já não sou de lugar nenhum mesmo, nem sei porque essa tecla me bate de tempos em tempos. Mania de camelo, não consigo digerir essa porcaria de uma vez! Vou repensar minha identidade até quantos anos?

Daí, uma pergunta gera outra. E lá volto eu a pensar na questão da maternidade. Andei sondando os processos adotivos por essas bandas. Não parecem tão complicados como no Brasil. Não sei para a gente, por sermos estrangeiros, mas a ideia começou a me animar. O problema é que o ânimo é só meu, a vontade é só minha e tem uma hora que isso realmente cansa.

De qualquer jeito, por algum motivo maluco, acho que o fato de começar a revirar esse universo na minha cabeça, afetou o corpo e tive a sensação de estar ovulando. Depois do tratamento, eu noto alguns detalhes que não percebia antes. Eu já deveria ter aprendido a lidar com isso, a aceitar que já foi, mas às vezes a gente não controla os instintos mais básicos.

Cheguei em casa empolgada com a ideia, ainda não tinha comentado com Luiz, nem tenho certeza porque. Acho que é um assunto que está virando tabu entre nós, ou talvez sempre tenha sido. Antes disso, recebi um presente.

Uma amiga está compondo músicas personalizadas para você presentear alguém. Há algum tempo, comecei a escrever letras de músicas para quem quisesse musicar, Luiz combinou com ela secretamente dela musicar uma de minhas letras. E a eleita foi exatamente uma letra de desabafo, que escrevi quando perdi a gravidez. Por algum motivo que desconheço, eu deveria ficar feliz em receber uma canção sobre meu aborto. Um dia perfeito para recebê-la.

Cansei. Meta alcançada. Da minha parte não sairá nenhuma iniciativa mais sobre esse tema. Assunto encerrado.

Mas acho que foi pouco, então vamos complicar. Fui para academia com toda essa energia deliciosa para queimar. Corri mais rápido e mais forte do que estava preparada. Não sei se pisei errado, se torci o pé sem sentir, se a musculatura era fraca para tanto… resultado, lesão no tornozelo. Uma bobagem, que achei que estaria boa no dia seguinte. Insisti em treinar, mas a coisa estava ficando preta para meu lado, melhor parar de resistir.

Fiquei completamente de molho por duas semanas, sem sair de casa e com o tempo cinza. Depressão na certa! Comecei a trocar o dia pela noite e meu sono voltou a ser uma bosta!

É pouco ainda? Vamos complicar mais um pouquinho, meu sogro internou no Rio em uma situação muito delicada. Luiz teve que ir às pressas ao Brasil, achei que não daria tempo dele chegar, ficou o que pôde, mas o quadro é difícil e sem nenhuma previsão que o pai saia do hospital. Ele está internado há umas três ou quatro semanas e a situação segue sendo bastante crítica, apesar de algumas melhoras.

Por dura que seja essa situação, de certa forma, fez que nossas energias se concentrassem nisso e sempre é uma maneira de colocar os problemas em perspectiva. A saúde é o principal, o resto se resolve. A vida pode passar muito rápido, preciso fazer alguma coisa de bom com ela.

Meu pé vai melhorando, já comecei a fazer alguns exercícios leves e o principal, voltei a ir para a rua. Esse negócio de virar ostra não ajuda em nada. Meu sono ainda vai bem desregulado, acho que só vai equilibrar quando voltar a malhar mais pesado.

Ainda não sei o que vou fazer da vida por essas bandas. Estava animando a fazer um curso de gastronomia. O que estava interessada começava justo quando machuquei o tornozelo, sei lá, às vezes parece o universo conspirando! A verdade é que estou sem grandes vontades de nada. Aquela sensação de que o bonde partiu, não peguei, me ferrei! E a cada vez que alguém me pergunta no que estou trabalhando por aqui, me dá uma preguiça enorme em responder. Como contar o que quero fazer, se no fundo já nem sei o que quero mesmo. E pior, quando respondo, vem logo um monte de sugestões super interessantes, que a pessoa que sugere jamais faria, esquema, pimenta nos olhos dos outros. Tem sempre alguém que fez não sei o que e foi um sucesso… Tudo na melhor das intenções, mas que preguiça! Preciso pensar em alguma resposta padrão que não queira dizer absolutamente nada, mas que não pareça mal educada.

Enfim, aos poucos, a nuvenzinha negra vai se dispersando. A última semana foi bastante boa. Coincidiu de vários amigos de diferentes procedências darem o ar da graça por terras britânicas. Assim que entre jantares, encontros e hóspede, foram dias divertidos e agradáveis. Meu tornozelo se comportou e até consegui dançar um pouco.

Hoje amanheceu uma segunda-feira de sol e resolvi fazer as pazes com a escrita. Quem sabe agora os problemas sejam das letras na tela e me baixe novas ideias e novo ânimo.

Como comprar ingressos para shows em Londres?

Pergunta bastante razoável quando você mora ou vem a passeio a uma das principais cidades do mundo, incluída com certeza nas turnês de grandes bandas. Goste ou não goste de Londres, aqui é uma meca cultural inegável!

Tenho uma amiga super gente boa, que conheci quando ainda morava em Madri e mudou-se para Londres antes de nós. Ela tem um blog que adoro e acompanho há um bom tempo, o Segredos de Londres. Como nós duas agora moramos e escrevemos sobre a mesma cidade e, às vezes, estamos presentes nos mesmos eventos, resolvemos fazer uma parceria blogueira e, de vez em quando, dou um pitaco por lá e ela por aqui. Essa semana, a Deborah escreveu um post exatamente com esse título e assunto: Como comprar ingressos para shows em Londres.

Pois bem, eu poderia estar roubando… eu poderia estar matando… eu poderia estar reinventando a roda… mas simplesmente inauguro por aqui nossa parceria e recomendo seu texto que conta tudo e começa assim:

“Muita gente me pergunta como se faz para comprar ingressos de shows aqui. Assistir um show do seu ídolo em Londres é um sonho realizável; o complicado é que os ingressos em geral acabam rapidamente, logo que a venda começa. E quando você finalmente confirma as datas da viagem e vai checar a turnê da sua banda preferida, percebe que o show já esta esgotado meses antes do show…”

Quer saber mais? Dá uma passadinha aqui. Aproveita, diz que mandei um beijo 😉

Onde tomar um autêntico chá inglês em Londres

Em muito pouco tempo morando por essas bandas, adquiri o excelente vício de tomar chá. No início era uma mistura de curiosidade com facilidade e diferentes ofertas, mas não demorou nada a entrar na minha rotina.

Porém, ainda não havia tido tempo de sair para tomar um chá da tarde que se preze, daqueles autênticos, com pequenos sanduíches, doces e sendo servido em jogos de porcelana fina.

Gosto desses chás da tarde desde pequena. Minha mãe, de vez em quando, marcava com suas amigas e era o típico “programa de gente mais velha” que nunca me importei em fazer. Na verdade, ficava doida para participar!

Enfim, agora morando em Londres, como poderia perder essa oportunidade?

Por completo acaso, acabei conhecendo uma leitora do blog que estava de passagem pela cidade. Ela se interessou em tomar o tal chá e pensei: perfeito, ainda terei companhia! Aliás, ótima companhia!

Marquei no Salão de Chá da Fortnun & Mason. Fica no quarto andar dessa tradicional loja de departamentos e é um espaço bastante elegante. Antes era ocupado pelo restaurante St. James, foi totalmente reformado e inaugurado, em 2012, pela própria rainha, como The Diamond Jubilee Tea Salon. É recomendável fazer reserva, principalmente, se for próximo às 17h.

article-2108587-11FC8AFE000005DC-214_964x624

Muito bem, você chega a uma recepção ampla, de madeira clara, com um belíssimo piano de cauda ao fundo, que a propósito, é tocado por toda à tarde. Ali guardam seus casacos, se for necessário, e te encaminham à sua mesa.

cha3

A decoração do salão é relaxante, em tom de azul turquesa suave, que é a cor da loja. Talheres de prata e flores naturais. Contando pode parecer meio pedante, mas a verdade é que tudo flui naturalmente, com certa classe, mas sem grandes afetações.

photo

DSCN7659

Sugiro uma taça de champagne ou espumante da casa para iniciar os trabalhos, e enquanto isso, você pode se decidir entre os três menus de chás disponíveis.

cha2

Escolhi o que me pareceu mais tradicional, o Fortnum’s Afternoon Tea, que consiste em sanduichinhos de pepino com menta, frango, cordeiro, ovos com mostarda e salmão defumado; seguido pelos “scones” com manteiga ou geleia; docinhos variados; tortas diversas e, o principal: o chá, que possui cardápio à parte. O custo desse menu completo gira em torno de £40. Não acho barato, mas considerando o que oferece, o serviço, o local e a cidade, não há milagre.

cha1

Tudo muito gostoso, garçons e garçonetes educados, bem arrumados e discretos, assim que, fora a culpa por relaxar na dieta, nada a reclamar! Admito que um bom papo também ajuda muito. O fato é que voltei para casa feliz, finalmente, desde que habito em terras britânicas, tomei um autêntico chá inglês com tudo de direito!

Lovely!

Fim de semana de pedras, sol e bom choro

Admito que a semana não foi a mais tranquila de todas. Meu sogro internou outra vez e isso, por motivos óbvios, não deixa o clima da casa dos mais alegres. Hoje em dia, lidamos melhor com esse tipo de situação, o que não sei se é bom ou mau, mas quando não há alternativa, o jeito é se acostumar.

Mais para o final da semana, as coisas pareceram clarear um pouco. Ao menos, foram essas notícias que tive da minha família, porque do Luiz, tenho que arrancar as informações a fórceps!

Tinha o plano malévolo de viajar para algum lugar próximo nessa sexta-feira, mas com o decorrer dos fatos, a gente desistiu da ideia. Além do mais, o dia de trabalho do Luiz da sexta foi razoavelmente tenso e longo. Muito bem, sem problemas, ficamos em casa e faço alguma coisa para relaxar.

Chamamos um amigo que acabou dormindo por aqui e ficamos tomando vinho e comendo bobagens até às tantas! Essas sextas são engraçadas, porque a gente enche a lata, planeja mil viagens, sempre começando por ir a Bruxelas em um restaurante português, e no dia seguinte a gente pensa melhor e conclui que não é um plano tão bom assim.

Após cinco garrafas de vinho, resolvemos que o melhor lugar para ir no sábado seria Stonehenge, com esse nosso amigo que dormiu em casa e dirige.

Acordamos meio tortos, mas fazia sol. Em muito pouco tempo morando em Londres, aprendi que quando faz sol você vai para rua, não importa em que condições esteja! Está em coma? Acorda! Se vira! Dias bonitos são artigo de luxo, principalmente após um longo inverno!

Ok, levantamos razoavelmente cedo e, salvo as devidas proporções, até muito bem. Verdade que só consegui tomar um suco de laranja e não podia ouvir a palavra “vinho” sem fazer careta. Mas beleza, fazia sol, lembra? Então: rua!

Pegamos um trânsito do caramba, mas nem reclamo, porque aproveitei para ir conhecendo melhor a cidade, ainda há muito de novidade e como não era eu quem dirigia, não me incomodou.

Pouco antes de chegar a Stonehenge, me bateu ataque de fome, afinal, estava praticamente em jejum, desejando algo gorduroso e bastante água. Avisei aos meninos que precisava comer e Luiz, que sabe o risco de vida que implica em me deixar com fome, apressou nosso amigo a fazer uma parada estratégica.

Encontramos um pub-restaurante bem bonitinho e caseiro, Popular Farm. Comemos bem, me hidratei e seguimos viagem, com uma preguiça daquelas!

Chegamos a Stonehenge e era um pouco diferente da minha expectativa. Porque não fica em um campo isolado de tudo, ou melhor, até fica, mas passa uma estrada bem ao seu lado. Também cercaram em volta e os turistas já não podem circular por entre as pedras. O que tem seu lado positivo, nas fotos você ainda consegue bons ângulos sem ninguém estranho no meio da sua composição.

Stonehenge3

Stonehenge4

Stonehenge

Luiz tinha uma ligação de trabalho bem na hora que chegamos. Ficou no carro trabalhando enquanto fui com nosso amigo visitar o local.

Estava cheio, mas não tumultuado. Tinha uma maluquinha com jeito de bruxa, descalça e cantando para as pedras. Até que tinha uma voz bonita, mas não puxei conversa para não atrapalhar seu transe. Depois vi que estava com uma amiga ao lado, também descalça, de olhos fechados, mas essa não cantava, só se balançava para um lado e para outro ao som da primeira!

Meu amigo reclamava que elas nem ofereceram o que tomaram para a gente! Mas devia ser muito bom…

Também havia um homem com uma fantasia que não sei se era de bruxo, peregrino, antepassado ou sei lá o que! Mas acho que ficava ali para tirar fotos com os turistas. Esse estava doido por um papo, porém não me arrisquei porque não sabia se ia me cobrar por isso.

Quando terminamos o passeio e retornamos ao carro, Luiz conseguiu se liberar do trabalho e voltamos, agora mais rápido, para ele também visitar e tirar aquela foto clássica do “estive aqui”.

Stonehenge2

Já devia ser umas 17h e tínhamos que estar em um concerto de chorinho às 18h30. Nem passamos em casa, fomos direto. Sabe como é, em Londres, às 23h quase todos viram abóbora! Assim que não iria até tão tarde, mas pelo menos começava cedo.

Sou meio desligada e só me toquei que esse concerto era em uma igreja quase chegando lá. Eu gosto de ouvir música em igrejas, a acústica costuma ser excelente, mas até então, só havia escutado música clássica, fiquei na dúvida se uma roda de choro combinaria com o local ou ficaria muito formal. Além do mais, acho que seria interessante comer e beber alguma coisa durante o show e não sabia se poderiam vender nada na igreja.

Pois adianto que foi muito legal! Fizeram literalmente uma roda de choro, com a informalidade e democracia necessárias! Aproveitaram a data, aniversário do Pixinguinha, para homenageá-lo. Músicos de primeira! Acabei reconhecendo um deles, que outro amigo músico de Madri havia me apresentado virtualmente. Sim, o mundo segue pequeno!

choro

choro2

Estavam vendendo comida, coxinha, mandioca frita, feijoada tradicional e feijoada vegetariana. Inclusive, o chef de cozinha, dava sua palhinha de vez em quando na roda. Também serviram bebidas, refrigerantes, vinho, cerveja, pena que não tinha caipirinha, porque deu vontade. Não vi ninguém exagerando, mas achei bom haver essa liberdade, considerando que estávamos em uma igreja.

A verdade é que me senti bastante à vontade. Estávamos com um grupo de amigos legais, conheci outras pessoas por lá, boa música rolando, até deu para sambar um pouquinho.

Esse grupo, Clube do Choro UK, se reúne com frequência e fiquei freguesa! O próximo encontro será dia 25 de maio, em St. Mary’s Church. Vou levar meu caxixi e quem sabe tomo coragem para entrar na roda.

De lá, voltamos para casa e na hora da Cinderela eu já estava apagada!

Bom que no domingo não acordamos tarde e, advinha? Sol outra vez! Ou seja, rua de qualquer jeito!

Uma amiga ficou de ligar para ir a um picnic, mas não tínhamos certeza, achei que não ia rolar. Então, decidimos passear por Little Venice. Colocar as manguinhas de fora e queimar o musgo!

Fomos só Luiz e eu e também estou gostando muito de descobrir os lugares com ele. Sou um animal social, mas curto alguns momentos de privacidade. Caminhamos pelo canal e almoçamos com calma no The Waterway. Voltamos para casa quando o sol se foi e a temperatura caiu bem rápido. Nada desesperador, mas estávamos muito frescos.

Segunda-feira, baterias carregadas e pronta para encarar a semana!

Little Venice, um pedacinho de Veneza em Londres

Perto da minha casa há uma região de canais chamada de Little Venice, em português, pequena Veneza. Na verdade, me parece muito mais aos canais de Amsterdam, mas não vamos discutir por causa disso. O fato é que é uma zona bastante charmosa e acessível.

14

No inverno, fica meio sem graça, mas agora que a primavera parece haver se decidido, acho um programa muito agradável. O lugar é razoavelmente conhecido, em dias de sol é movimentado. Entretanto nunca vi abarrotado de gente, imagino que por não ser tão central nem próximo às atrações turísticas mais famosas. Enfim, às vezes, passeio por lá e tenho essa sensação que é mais frequentado pelo pessoal local que por turistas.

A estação de metrô mais próxima é a “Warwick Avenue”. Inclusive, na saída dessa estação, você pode alugar bicicletas públicas. Eu prefiro caminhar.

Ao largo de todo o canal, se encontram barcos compridos e finos, não tão grandes e alguns bastante curiosos. Há pessoas morando nesses barcos, me lembra muito um acampamento de trailers, só que na água.

LittleVenice3

Além dos barcos que funcionam como residências, também é possível tomar um café ou assistir a um show de fantoches.

O café-barco é bem bonitinho, mas entre nós, fiquei meio encanada em relação à higiene. Não que tenha visto nada de errado, mas fico pensando de onde viria a água para lavar a louça e cozinhar. Sei lá, nunca ouvi sobre nenhum problema a respeito, mas não me arrisquei, quem sabe algum dia desses eu reveja essa posição.

7

Até porque, há algumas opções de restaurantes, bares e cafés pelas margens do canal bastante interessantes. Ainda não experimentei todas, mas dou as dicas das que me pareceram melhores.

O primeiro que conheci foi o Café Laville. Do lado de fora ele não chama muita atenção, salvo por sua localização. Mas por dentro é uma graça e recomendo para tomar um café ou chá, principalmente se o dia estiver agradável e puder se sentar do lado de fora. Muita gente vai tomar brunch por lá nos fins de semana. O atendimento é educado, mas para meu gosto, a comida não impressiona. Vale pelo local e ambiente.

LittleVenice1

Uma outra opção, para lá de charmosa é o restaurante The Summerhouse. Fica exatamente no nível da água, com grandes janelas, de onde você tem a sensação de estar dentro de barco. A decoração me sugere um lugar de praia, é informal com seu toque de elegância. O atendimento é muito bom; a comida honesta e bem cuidada, foi o próprio chef quem veio saber nossos pedidos. A cozinha é aberta para o salão e às vezes pode passar um pouco cheiro de fritura. Ainda assim, acho muito recomendável e o ‘best ever’ popcorn shrimp merece ser provado.

1

Próximo a ele, há outro bar e restaurante que achei bem bacana, The Waterway. Esse tem um bom espaço para mesas na varanda, que ficam disputadíssimas em fins de semana de sol. Dentro possui um bar lounge e restaurante. Nas quintas-feiras, a partir dàs 20h, oferecem música ao vivo. Pois bem, de passagem por ele, nos pareceu bastante badalado, com mais jeito de bar que restaurante. Resolvemos almoçar ainda assim, sem grandes expectativas em relação à comida. Fomos positivamente surpreendidos com a cozinha. Comi um ótimo crayfish coquetel com guacamole e molho de Blood Mary, seguido por um atum fresco, na minha opinião, no ponto perfeito, quase um sashimi quentinho. Atendimento simpático e correto. Deu vontade de voltar.

18

Retornando ao canal, caminhando para o lado de Paddington, a paisagem fica cada vez mais moderna, com edifícios comerciais, enfim, uma zona de negócios. Não tem o mesmo charme, mas há outras opções de restaurantes que não parecem nada maus.

6

Pouco antes dessa zona mais industrial, há um pequeno parque, onde as pessoas se espalham pela grama para pegar um pouco de sol. Aliás, isso é muito europeu, fez sol e tem grama, o pessoal se joga mesmo! Sabe lá quando haverá outra oportunidade, né? Apareceu uma nesga de luz o povo corre para rua para fazer fotossíntese!

17

E se quiser passear pelo canal de barco, pode usar o “Waterbus”. As estações são em Little Venice, Camden Lock e London Zoo. Os dias de funcionamento variam de acordo com a época do ano, assim que melhor sempre checar. No que eles chamam de inverno, que vai de novembro ao final de março, só funciona nos fins de semana; em outubro, funciona entre quinta e domingo; e no verão, entre abril e final de setembro, há passeios diários, mais ou menos de hora em hora, entre 10 e 17h. Atualmente, o preço do passeio para um adulto é de $8, só ida, ou $11,30, ida e volta. Cada viagem demora em torno de uma hora.

10

E a primavera deu as caras, finalmente!

Após um longo inverno, a primavera comparece e que seja bem vinda!

Depois de um tempo morando na Europa, tenho sempre um dia no ano que é um marco. O dia em que consigo caminhar pela rua de camiseta, sentir o ar fresco nos braços e na nuca. É uma coisa quase boba que nunca parei para prestar atenção enquanto morava no Brasil, afinal, a gente toma esse bom clima por garantido, não é nada raro e não nos acostumamos a valorizar.

Pois é, mas acontece que depois de passar meses saindo com o peso dos casacos nos ombros, sentir apenas o tecido fino de uma camiseta é um luxo! E, nesse último domingo, dia 14, foi o primeiro do ano que botei minhas mangas de fora!

E hoje, abri as janelas para arejar a casa, sem a preocupação de fechar correndo para não perder a calefação, que a propósito, está desligada.

A árvore do quintal de trás pipocou em flores, o parque da esquina está cheio de gente pelos bancos, cachorros pela grama e crianças pelos brinquedos. Em breve, começará o cio das gatas, as mesas da calçada serão mais disputadas que as próximas à lareira, os dias se esticarão e caberá mais luz.

arvore

E eu fico meio piegas, tentando não pensar no funeral da Thatcher, na explosão de Boston, na maioridade penal brasileira, na corrupção política, no fanatismo religioso, na intolerância de quem tem mania de mandar na vida dos outros… por favor, um tempo, sai da minha cabeça uruca! Sai que esse corpo não te pertence!

Faz sol em Londres, a primavera achou seu caminho e quero acreditar que o mundo pode melhorar!