Faz de conta que não viu e pula para a próxima

Ando de mal com minha terapia favorita. Algumas vezes, ensaiei escrever, mas no fundo, não gostava do que ia contar. Então, voltava ao silêncio escrito até esse ciclo passar. Essa é daquelas histórias que torço para ninguém ler.

Nenhum fato específico, nenhum problema com a cidade, simplesmente, uma fase meio depressiva. Dessas ondas negativas que nos atravessam e não há o que fazer a não ser esperar a maré baixar.

Difícil dizer como começou, mas desconfio que é porque a cada mudança fica inevitável pensar se voltaria a morar no Brasil. Nem tanto por mim, mas por ser uma pergunta comum que temos que responder quase diariamente à família, aos amigos e às vezes a desconhecidos: vocês ficam até quando? Vocês tem planos de voltar ao Brasil?

Não tenho a menor ideia! Primeiro porque acho que não “voltaríamos”, talvez “fôssemos” para o Brasil, mas não vou discutir o verbo nem o conceito agora mesmo. Porque o que me importa é que me perguntei muito intimamente: e eu quero morar no Brasil?

Não, a menor sombra de vontade. E fico até com um pouco de vergonha em assumir isso para mim mesma.

Queria que minha família morasse mais próximo e poder ir mais vezes encontrar os amigos, mas não tenho a menor vontade de viver no Brasil na situação atual. E não vejo uma perspectiva de melhora. Acho bacana ler na imprensa sobre esse país que está “bombando”, mas francamente, não reconheço o que eles falam.

Vejo amigos discutindo o óbvio de forma absurda, muitas vezes de maneira agressiva; ou a total indiferença e falta de consciência da seriedade dos fatos. Ou talvez o que considere pior, a impunidade absoluta, o que, na minha opinião, é o que mina o ânimo e qualquer possibilidade de mudança positiva. Essa sensação generalizada de que nada adianta e a desculpa fácil do sempre-foi-assim. O sempre-foi-assim é cruel! Ele encerra discussões que poderiam ser proveitosas, ele pisoteia qualquer esperança, ele é covarde.

Não, nem tudo sempre foi assim e, entre o tudo e o nada, há infinitas matizes.

E, de repente, tenho aquela sensação de alívio de não precisar estar ali, de ter opção. Aqui não é perfeito, mas é melhor, minha qualidade de vida é melhor, dentro do que pode ser. Eu já não sou de lugar nenhum mesmo, nem sei porque essa tecla me bate de tempos em tempos. Mania de camelo, não consigo digerir essa porcaria de uma vez! Vou repensar minha identidade até quantos anos?

Daí, uma pergunta gera outra. E lá volto eu a pensar na questão da maternidade. Andei sondando os processos adotivos por essas bandas. Não parecem tão complicados como no Brasil. Não sei para a gente, por sermos estrangeiros, mas a ideia começou a me animar. O problema é que o ânimo é só meu, a vontade é só minha e tem uma hora que isso realmente cansa.

De qualquer jeito, por algum motivo maluco, acho que o fato de começar a revirar esse universo na minha cabeça, afetou o corpo e tive a sensação de estar ovulando. Depois do tratamento, eu noto alguns detalhes que não percebia antes. Eu já deveria ter aprendido a lidar com isso, a aceitar que já foi, mas às vezes a gente não controla os instintos mais básicos.

Cheguei em casa empolgada com a ideia, ainda não tinha comentado com Luiz, nem tenho certeza porque. Acho que é um assunto que está virando tabu entre nós, ou talvez sempre tenha sido. Antes disso, recebi um presente.

Uma amiga está compondo músicas personalizadas para você presentear alguém. Há algum tempo, comecei a escrever letras de músicas para quem quisesse musicar, Luiz combinou com ela secretamente dela musicar uma de minhas letras. E a eleita foi exatamente uma letra de desabafo, que escrevi quando perdi a gravidez. Por algum motivo que desconheço, eu deveria ficar feliz em receber uma canção sobre meu aborto. Um dia perfeito para recebê-la.

Cansei. Meta alcançada. Da minha parte não sairá nenhuma iniciativa mais sobre esse tema. Assunto encerrado.

Mas acho que foi pouco, então vamos complicar. Fui para academia com toda essa energia deliciosa para queimar. Corri mais rápido e mais forte do que estava preparada. Não sei se pisei errado, se torci o pé sem sentir, se a musculatura era fraca para tanto… resultado, lesão no tornozelo. Uma bobagem, que achei que estaria boa no dia seguinte. Insisti em treinar, mas a coisa estava ficando preta para meu lado, melhor parar de resistir.

Fiquei completamente de molho por duas semanas, sem sair de casa e com o tempo cinza. Depressão na certa! Comecei a trocar o dia pela noite e meu sono voltou a ser uma bosta!

É pouco ainda? Vamos complicar mais um pouquinho, meu sogro internou no Rio em uma situação muito delicada. Luiz teve que ir às pressas ao Brasil, achei que não daria tempo dele chegar, ficou o que pôde, mas o quadro é difícil e sem nenhuma previsão que o pai saia do hospital. Ele está internado há umas três ou quatro semanas e a situação segue sendo bastante crítica, apesar de algumas melhoras.

Por dura que seja essa situação, de certa forma, fez que nossas energias se concentrassem nisso e sempre é uma maneira de colocar os problemas em perspectiva. A saúde é o principal, o resto se resolve. A vida pode passar muito rápido, preciso fazer alguma coisa de bom com ela.

Meu pé vai melhorando, já comecei a fazer alguns exercícios leves e o principal, voltei a ir para a rua. Esse negócio de virar ostra não ajuda em nada. Meu sono ainda vai bem desregulado, acho que só vai equilibrar quando voltar a malhar mais pesado.

Ainda não sei o que vou fazer da vida por essas bandas. Estava animando a fazer um curso de gastronomia. O que estava interessada começava justo quando machuquei o tornozelo, sei lá, às vezes parece o universo conspirando! A verdade é que estou sem grandes vontades de nada. Aquela sensação de que o bonde partiu, não peguei, me ferrei! E a cada vez que alguém me pergunta no que estou trabalhando por aqui, me dá uma preguiça enorme em responder. Como contar o que quero fazer, se no fundo já nem sei o que quero mesmo. E pior, quando respondo, vem logo um monte de sugestões super interessantes, que a pessoa que sugere jamais faria, esquema, pimenta nos olhos dos outros. Tem sempre alguém que fez não sei o que e foi um sucesso… Tudo na melhor das intenções, mas que preguiça! Preciso pensar em alguma resposta padrão que não queira dizer absolutamente nada, mas que não pareça mal educada.

Enfim, aos poucos, a nuvenzinha negra vai se dispersando. A última semana foi bastante boa. Coincidiu de vários amigos de diferentes procedências darem o ar da graça por terras britânicas. Assim que entre jantares, encontros e hóspede, foram dias divertidos e agradáveis. Meu tornozelo se comportou e até consegui dançar um pouco.

Hoje amanheceu uma segunda-feira de sol e resolvi fazer as pazes com a escrita. Quem sabe agora os problemas sejam das letras na tela e me baixe novas ideias e novo ânimo.

3 comentários em “Faz de conta que não viu e pula para a próxima”

  1. Transmissão de pensamento! Ainda ontem pensei em ti, que o blog andava caladinho 🙂 Na verdade achei que por tu estares em casa se recuperando do tornozelo novos posts sairiam , mas agora entendo a razão. Te enviarei email depois. Fica bem, love xxx

  2. Pois eu li a “próxima” e acabei parando aqui 🙂
    Sabe q esse tema de voltar ao Brasil tem me tocado bastante. E pra te ser bem sincera, me arrependo um pouco. Digo um pouco pq o principal para mim e’ estar perto da familia. Mas fora o apego sentimental, nao vejo nada de “bombando” no Brasil. A roubalheira e’ grande, a comodidade e a passividade das pessoas chega a chocar. Sem contar q a vida em uma grande cidade e’ tão cara qto na Europa, porém sem a mesma qualidade. Fiquei 4 horas em Londres esperando o vôo pra Roma e foi inevitável fazer comparações.
    Se vc me perguntasse se voltaria para essas bandas, minha resposta seria um SIM bem gigante. Compartilho com vc essa sensação de q já nao pertenço a lugar algum. E nao acho q isso seja um aspecto negativo.
    Mas …
    Sobre os outros temas … Nao faca questão de ser educada, seja clara e direta. As pessoas, mesmo q algumas poucas vezes inconscientemente acabam sendo bastante indiscretas. Aquele ditado de “quem fala o q quer, ouve o q nao quer …” … Pois e’!
    Melhoras!
    Dias lindos vem pela frente 😉

  3. Well, se voce acha que o povo nao le as cronicas, ESTA ENGANADISSIMA, D. Biancosa!!!!!
    Nao me espanta essa fase de humor, porque todos passam por elas (pois e, estou saindo da minha tambem :):):)).
    ACHO QUE VOCE ESTA PRECISANDO DE UMA DOSE DE OLGA!!!!! Xa comigo, que eu estou chegando :):):):)
    Vamos levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima juntas 🙂
    Estou contando os dias para ter voce SO PARA MIM !!!!!!
    Beijos

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