Bubbledogs, cachorro quente com champagne

Bizarra combinação, estamos todos de acordo. Alguma vez passou pela sua cabeça comer cachorro quente tomando champagne? Porque na minha, nunca! Mas se para o chef James Knappett pareceu uma boa idéia, quem sou eu para discordar sem antes conhecer e provar.

E se existe alguma cidade onde um lugar assim funcionaria, só poderia ser Londres!

Pois muito bem, me informei a respeito e uma das primeiras coisas que você descobre é que não fazem reserva. A segunda é que sempre há filas enormes na porta e, se quiser arriscar, pode ir se armando de paciência!

Ontem marcamos de jantar por lá com mais um casal de amigos. Chegamos pouco antes dàs 20h, naquela esperança do povo já ter se enchido da história das filas e a espera estar algo razoável.

A previsão era de, no mínimo, 45 minutos de espera, sem garantias! Veja bem, Bianquita não espera isso para comer um cachorro quente nem morta!

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O casal de amigos também estava sem saco de esperar e buscamos alguma opção pelos arredores. Sentamos no Zizzi, que não sabia, mas trata-se de uma cadeia de restaurantes italianos. Atendimento muito simpático, comida corretinha, mas um ruído ensurdecedor!

Muito bem, decidimos tomar um café ou alguma bebida em outro lugar e escutar nossos pensamentos. Acontece que os pubs ao redor estavam bem cheios.

Alguém sugeriu que voltássemos ao Bubbledogs e, se estivesse mais tranquilo, poderíamos ao menos tomar uma champagne. Bem que me animei com a idéia e voltamos.

Já passava dàs 21h, as pessoas em Londres comem cedo e imaginei que a fila já estaria no fim. O que foi mais ou menos verdade. Realmente, a fila estava radicalmente menor e resolvemos tentar. Esperamos cerca de meia hora.

Meia hora segue sendo muito tempo, mas pensei que não voltaria uma terceira vez para tentar, era fato! Ou esperava aquela vez ou não conheceria o tal Bubbledogs! A conversa estava boa, resolvemos ficar e pagar para ver.

Finalmente, entramos! Primeiro de tudo, o serviço é muito atencioso e educadíssimo! Acho que isso ajuda significativamente a você não ficar com uma cara amarrada pela chateação da espera. Olhando o tamanho da casa e considerando que se vende cachorro quente, se eles fizessem reserva, nunca teriam escala para algo de lucro. E, vamos combinar, ninguém é obrigado a esperar, fica quem quer.

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O ambiente é bonito, bem decorado, com paredes de tijolos aparentes e luminárias redondas que sugerem bolhas. Um pouco apertado, todo espaço é aproveitado, inclusive a lateral da escada, como balcão.

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A carta de champagnes é muito boa e são servidas na temperatura ideal! Realmente é um ponto forte.

O cachorro quente é bom, nada de outro planeta, mas dentro do que se pode esperar de um cachorro quente, não me decepcionou. Não há milagre, você enfeita, mas no fundo estamos falando de pão com salsicha. Sim, a salsicha é de boa qualidade, o pão vem quentinho e os recheios são originais. Comi o Caesar, que é minha recomendação, vem com molho caesar, alface, queijo parmesão e crispy de pele frango.

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Acho que valeu à pena conhecer? Sim, não saí com vontade de criticar. Considerando minha falta de paciência com qualquer fila, pode acreditar que isso é um ponto muito positivo para o local, principalmente para o serviço.

Se tenho vontade de voltar? Não sei, acho difícil. Talvez se for em um horário alternativo e não tiver que esperar mais que 10 minutos!

E afinal, cachorro quente combina com champagne? Pois melhor do que imaginava. Veja bem, para início de conversa é complicado achar algo que champagne não combine, praticamente, só não combina com comida ruim! De certa forma, não deixa de ser um programa relativamente barato, cada cachorro quente está por volta de $8 e te alimenta como uma refeição. Para Londres, esse é um valor muito razoável! E a champagne é o preço que se pagaria em qualquer outro restaurante, assim que o custo benefício compensa.

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Acontece que o Bubbledogs tem um espaço a mais. No fundo do salão, você vê uma cortina de veludo fechada. Atrás dessas cortinas há a “Kitchen Table” (mesa da cozinha). Apesar de tudo funcionar no mesmo local e ser uma concepção do mesmo time de profissionais, o conceito é outro. Eles conseguiram gerar inclusive uma sensação de algo clandestino, misterioso.

A entrada é absolutamente a mesma, você passa por dentro do salão onde o pessoal come os cachorros quentes, atravessa as cortinas e vai para outro espaço totalmente diferente. Esse sim, restrito a quem faz reserva e com menu mais elaborado. São apenas 19 lugares e você se senta ao redor da equipe e do chef que cozinha exclusivamente para esse grupo.

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Infelizmente, ainda não tive a oportunidade de conhecer a tal “Kitchen Table”, mas fiquei com uma vontade…

Local Pub, a versão inglesa do boteco da esquina

Pouco depois de mudar para Londres, você descobre a importância de ter seu “local pub”.

A cidade oferece uma infinita possibilidade de locais para sair e isso, muitas vezes, torna difícil a opção de voltar a algum lugar, porque você quer sempre conhecer algo novo. E sempre há algo novo para se conhecer.

Talvez seja justamente esse excesso de opções que contribua para a existência do hábito, que considero até cultural, de se eleger o tal do “local pub”. Todo morador que se preze tem um, aquele pub onde você se sente confortável em frequentar, em voltar, em conhecer quem te atende, em passar na volta do trabalho, em tomar um café quando sai para passear com o cachorro.

Engraçado porque vejo como uma necessidade bastante provinciana em uma cidade que é cosmopolita até os ossos! Parece incoerente, mas acredito que seja exatamente a impessoalidade cosmopolita que gere essa necessidade de um canto aconchegante, confortável.

No meu caso, antes de pensar sobre tudo isso e de sequer saber que eu “deveria” ter um pub local, comecei a frequentar um. Por um motivo muito simples, acabara de me mudar. Não tinha conexão de internet em casa e não tinha como cozinhar. Pelo menos, até a mudança chegar e os serviços básicos estivessem instalados, basicamente, a única coisa que havia para fazer no meu apartamento era dormir.

Bem perto da minha casa, havia um pub com uma cara ótima, The Elgin. Oferecia wi-fi gratuito, o serviço era simpático, a comida era boa e ninguém me enchia o saco! Passei a frequentá-lo diariamente na hora do jantar.

Era confortante entrar e nem precisar pedir a senha do wi-fi, meu ipad já reconhecia automaticamente, me dava uma sensação de estar em um lugar que eu fazia parte, mesmo em uma cidade razoavelmente desconhecida.

Descobri pouco depois que o pub havia acabado de inaugurar, havia propaganda pelo metrô e algumas críticas bastante positivas sendo divulgadas. Fiquei satisfeita, dei sorte!

The Elgin é o que se chama hoje de gastro pub, ou seja, oferece uma atenção a mais em relação à comida. Você pode simplesmente tomar um bom café ou chá com bolo, tomar um vinho ou fazer uma refeição. O cardápio é curto e bem cuidado, com toques da gastronomia espanhola. O ambiente é moderno, com um pé direito alto e decoração ao mesmo tempo despojada e informal, mas com certa elegância rústica. Além das mesas, é possível se acomodar em alguns sofás. Enfim, para almoçar ou jantar, melhor as mesas, mas para um bate papo e alguns drinks, os sofás são bem confortáveis. Recomendo provar os croquetes de carne e o chorizo com batatas e ovo pochet. Ainda que praticamente todos os pratos sejam bons, o único que não me agradou foi o “Sunday Roast”, o famoso assado de domingo que os pubs fazem. O café é de excelente qualidade e a oferta de bebidas é bastante honesta.

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O problema é que me surgiu um dilema. O fato do The Elgin ter um cardápio pequeno tem a vantagem de oferecer tudo fresco e bem feito, entretanto depois de um tempo, se torna repetitivo para se frequentar semanalmente.

Por isso, acabamos encontrando um segundo pub, que virou nosso outro favorito, o Warrington. O lugar é lindo! Segue um estilo tradicional, elegante, com madeira escura toda trabalhada e uma escadaria imponente em seu salão. Quando você fecha os olhos e imagina em como deveria ser um pub inglês, a imagem do Warrington se encaixa à perfeição. Valeria simplesmente pelo fato de ir até lá e bater fotos! Mas vai bem além da aparência. O atendimento é simpático e torna o ambiente mais leve e informal. Inclusive, acabamos descobrindo por acaso que um dos garçons é brasileiro e nos atende muito bem, já já acho que ficaremos amigos! Sempre peço a ele indicação do que está mais fresco e sigo suas recomendações. O cardápio é amplo, sem ser gigantesco, com as tradicionais comidas de pub. Nunca me decepcionou, é honesto. Gosto de tomar as sopas do dia e acho as sobremesas bastante boas.

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Assim que por falta de um, temos dois pubs locais, The Elgin, quando queremos um local mais moderno para tomar um vinho e beliscar e The Warrington, quando queremos algo mais tradicional, comer algo caseiro e quentinho.

E já que estou falando de pubs, é bom saber como se comportar neles. Em um pub não há ninguém que te acompanhe à sua mesa. Você chega e senta onde estiver livre ou acha algum lugar pelo balcão. O garçon também não vem à mesa te perguntar o que você quer consumir, é você quem deve se dirigir ao balcão e pedir. Quando é só bebida, ele já te serve diretamente; quando inclui comida, levam na sua mesa. Geralmente, o que você pede é pago na hora, de maneira que quando você acabar, pode simplesmente se levantar e ir embora. Mas se você pretende ficar mais um pouco, jantar, tomar uma garrafa de vinho, enfim, você deve perguntar ao barman se pode deixar seu cartão de crédito com ele. E sim, deixar seu cartão de crédito no balcão é uma coisa normal. Ele costuma te dar um número para sua mesa e você no final vai lá, acerta sua conta e pega seu cartão de volta.

Não há uma gorjeta definida, até porque você não é servido como em um restaurante, é você mesmo quem se serve. Se você é turista, nem se preocupe, não estão esperando por isso. Mas por incrível que pareça, se é um pub que você frequenta, a gorjeta pode ser mal vista. Segundo nosso amigo que mora aqui há 15 anos, ele faz o seguinte, pela terceira cerveja, convida o barman a uma bebida. Ele pode tomar a bebida com você na hora, mas geralmente responde algo como, agora não posso, mas guardo para tomar mais tarde. E mais tarde ele decide se quer beber ou ficar com esse valor em dinheiro. É como uma gorjeta disfarçada.

Enfim, para quem vem a Londres a passeio, acho mais interessante variar e conhecer as diversas opções que a cidade oferece. Mas para quem mora, fica a dica, é conveniente eleger logo seu local pub. Tem para todos os gostos, o importante é que você se sinta à vontade e queira voltar.

Maratona de hóspedes

Lá vamos nós com as estatísticas. Veja bem, mudamos para Londres em janeiro, nossos móveis chegaram em fevereiro e três dias depois, recebemos o primeiro casal de hóspedes. Sim, escrevi certo, não quis dizer três semanas.

Aliás, pensando melhor, antes mesmo dos móveis chegarem, já tivemos um amigo dormindo aqui pela casa.

Agora, no início de abril, resolvi fazer contas de quantas pessoas já pousaram em nossa residência. E, em dois meses de casa arrumada, amanhã chega o 10º hóspede! E isso porque o amigo que já dormiu aqui umas quatro vezes, contei como uma pessoa só.

Se alguém pensa que estou reclamando é porque não me conhece ainda. Eu bem que gosto dessa bagunça, dá uma animada na casa. E sei que não será assim para sempre, o primeiro ano de Madri foi parecido. Depois as visitas foram se espaçando.

Mas hoje vou contar dos últimos dois finais de semana, especialmente animados, a ponto de nem me dar tempo de sentar para escrever.

Na Páscoa, tivemos um casal e a filhinha de um ano aqui em casa. Para quem leu a crônica passada, é a amiga letra “T”. Estava empolgada com a visita e, ao mesmo tempo, preocupada em receber uma garotinha de um ano. Gosto de receber bem e minha completa falta de experiência no assunto era um limitador. Será que tinha espaço suficiente para malas e carrinho? Quem dorme onde? Será que ela vai estranhar a gente? Vai estranhar o apartamento? O que criança nessa idade come? Enfim, tinha dúvidas até no básico do básico.

A amiga é de casa, então enviei umas fotos do quarto onde eles iam ficar para ela mesma ver se comportava tudo. Perguntei o que a neném comia, para deixar encaminhado e a gente se virava pela rua. Foi até mais fácil que imaginava, porque pelo sim e pelo não, ela me passou a marca do leite que a filha toma para ver se havia aqui ou se precisava trazer do Brasil. Tinha aqui e assim ficava garantido que fome ela não passaria! Demos um ou outro palpite na programação, mas deixamos as decisões por conta deles.

E não é que deu tudo certo? O primeiro dia foi um pouco enrolado até a gente conseguir sair, porque a estrutura de sair com uma criança é totalmente diferente do que só com adultos, mas ao longo da estadia, tudo foi entrando em um tipo de rotina que facilitava.

A neném é uma fofíssima e, lógico que era agarrada com a mãe, mas ficava muito bem comigo e pude curtir bastante esses momentos e brincar um pouco de casinha. E a verdade é que, quando foram embora, senti falta de acordar com voz de criança pela casa.

Muito bem, eles chegaram em uma quinta e foram embora na terça.

Na sexta-feira seguinte, nova rodada de hóspedes!

Um casal de amigos super queridos de Madri, onde ficamos hospedados da última vez que visitamos a cidade. E outra amigona que conhecemos em Madri também, mas agora mora em Miami. Essa de Miami estava de passagem por Madri e acabou se animando a esticar a viagem com um pulinho em Londres. Imagina isso?

Foi assim, tínhamos combinado já com o casal de amigos que vinham. A outra amiga, eu também já tinha convidado para ficar lá em casa, mas não tinha certeza se ela viria mesmo nem em que dia. Assim que ela confirmou, vi que as datas coincidiam. Olha, todos nos conhecemos, nenhum estranho entre nós, o casal está confirmado para o quarto de hóspedes, mas se você não se sentir desconfortável em um colchão de solteiro, dou um jeito de caber no outro quarto! E como ela pareceu não se incomodar nem um pouco, afinal é animadíssima, já avisei logo que voo o casal pegava para ela tentar vir junto com eles, quem sabe, até poderiam dividir o mesmo taxi.

Não só conseguiram pegar o mesmo voo, como sentaram todos juntos! Acho que a farra deles já deve ter começado pelo aeroporto!

Chegaram na sexta-feira, às 23 horas da noite. Se fosse em Madri, as pessoas estariam pensando em se arrumar para sair, mas aqui em Londres, a grande maioria dos bares já estava fechada. Tem um pub aqui perto, The Elgin, que exerce a façanha de abrir até meia noite. Eles simplesmente largaram as malas e fomos correndo para lá iniciar os trabalhos.

Na volta para casa, esticamos a noite até umas três da matina, tomando vinho e comendo jamón contrabandeado por eles. Digamos, um certo controle de qualidade. Porque, no dia seguinte, tinha festa aqui em casa!

É assim, quando tiramos nossa nacionalidade espanhola, tivemos que também tirar uma nova certidão de nascimento. Ou seja, passamos a ter dois aniversários, um brasileiro e um espanhol. Nosso aniversário espanhol é no dia 6 de abril e é um perfeito pretexto para se fazer uma festa!

E aproveitando o tema, resolvi fazer uma festa com comidinhas espanholas. Deixei tudo organizado antes dos hóspedes chegarem, afinal, queria passear com eles pelo sábado durante o dia.

Fizemos aquele esquema Londres-em-5-minutos, para tentar mostrar o máximo de coisas possível dentro do tempo limitado. Primeiro, passeamos a pé pelos arredores, fomos até Abbey Road (aquela rua onde os Beatles aparecem atravessando em uma capa de disco) e Little Venice (a pequena Veneza que lembra mais os canais de Amsterdam) . Pegamos o metrô e fomos almoçar no Borough Market. De lá, fomos caminhando até London Tower, de onde eles seguiram o tour com Luiz e eu voltei para casa para os últimos preparativos.

Pontualmente, como não poderia deixar de ser, nossos convidados para a festa de aniversário começaram a chegar. Dessa vez, me atrevi a aumentar um pouco o grupo e fomos umas vinte e poucas pessoas. Sigo conhecendo amigos de amigos e encontrando pessoalmente amigos que eram virtuais. Todo mundo muito legal! Profissões e interesses diferentes, mas que se integram muito bem. Afinal, gente boa é gente boa em qualquer lugar do mundo!

De comidinhas, servi os “embutidos” espanhóis (jamón, lomo, chorizo, e salcichón), queijos, sobrasada, milho torradinho etc. Parte dessa oferta, foram os hóspedes que trouxeram. Fiz chalotas assadas, salpicón de mariscos, patatas panaderas, alioli, tortilla e inventei um bolinho de paella aperitivo (mais fácil que fazer uma paella na hora). E para premiar quem ficou até mais tarde, a famosa hora da diretoria, saí da inspiração espanhola e servi abará de carne moída e creme de batatas com mascarpone trufado e camarão, o golpe de misericórdia!

Cantamos parabéns, pelos nossos 3 aninhos de vida como espanhóis, e aproveitamos para celebrar também o aniversário (de verdade) de uma das nossas hóspedes. Com bolo e tudo!

Tivemos ajuda o tempo todo! O amigo hóspede, acostumado às nossas festas madrileñas, já conhecia todo o esquema e botou a mão na massa! Outro amigo, também todo independente, tomou a frente em administrar as bebidas. Os convidados não fizeram cerimônia! E o caos, como sempre, se encarrega em fazer tudo dar certo.

Os vinhos da noite, como não poderiam deixar de ser, foram espanhóis! E olha que o pessoal bebe direitinho, viu? Muito bom me sentir acompanhada! Mas não chutei tanto o pau da barraca, afinal, era anfitriã e no dia seguinte teria mais!

E, a propósito, além dos nossos três hóspedes, acabou dormindo mais um amigo pelo sofá!

Muito bem, dia seguinte, o amigo do sofá saiu cedinho, nem despedi, mas ele já é da categoria família, sem problemas. O restante da casa, acordou por volta dàs dez da manhã. O casal de amigos iria embora nesse dia, domingo, e a outra amiga ficaria até terça-feira.

A esposa desse casal de amigos, simplesmente, não conseguia mais andar direito, uma baita tendinite! Ela já tem tendência e com a pauleira do dia anterior, já viu, né? Assim que Luiz e o marido saíram para aproveitar um pouco mais a cidade e as mulheres preferiram ficar em casa.

Alguém acha que a mulherada ficou aborrecida por causa disso? Imagina três amigas, sem homem escutando e entre quatro paredes para fofocar à vontade! Ainda fomos para o skype bater papo com outra! Enfim, faz muito tempo que não rio tanto da barriga doer!

Bom, no fim da tarde, o casal voltou para Madri e a amiga que ficou recebeu um upgrade de hospedagem! Mudou de quarto e dormiu no colchão de casal. Melhor para mim, que não saiu todo mundo ao mesmo tempo, não dá aquela sensação de vazio de uma só vez!

Mas antes da hora de dormir, o dia ainda estava bonito, aliás, fez um fim de semana de tempo ótimo! Ainda que estivesse friozinho, nada desesperador. Céu azul e pouco vento. Melhor que a encomenda!

Saimos minha amiga e eu para passear por Little Venice. Acabamos por caminhar em um outro pedaço novo para mim. Toda essa região vale um post só para ela, que quero escrever quando a primavera estiver mais engrenada e puder tirar umas fotos bacanas. Descobrimos um restaurante que é uma graça, The Summerhouse. Jantamos por lá.

Na segunda-feira, aproveitamos para bater perna. O bom é que para mim muita coisa ainda é novidade e é ótimo ter companhia para descobrir os lugares. Fomos para Oxford Street e saímos em direção a Picadilly, entramos na Liberty, uma loja de departamentos super transada, passeamos pela Carnaby Street, com suas vitrines modernésimas e fomos almoçar em Chinatown. Um cafezinho na Fortnum Mason e tomamos o rumo de casa.

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Na própria segunda-feira, minha cunhada e o marido estavam de passagem por Londres e combinamos de jantar com eles. Minha amiga aproveitou esse momento família e foi encontrar com outra amiga nossa em comum.

Enfim, fomos convidados a jantar no Koffmann’s, um excelente restaurante francês do hotel Berkeley. Comida divina, vinho corretíssimo e companhia melhor ainda!

Na terça-feira, o dia amanheceu chuvoso e bem feinho. Minha amiga tinha que sair de casa pelas 14h. Quer saber, resolvi fazer um almoço caprichado para a gente, uma feijoadinha básica com carne moída e quiabo. Ficamos de preguiça pela casa mesmo, até a hora que o taxi chegou.

Não posso reclamar de nada, é um prazer e um privilégio ter amigos tão legais, encontrar tanta gente boa em um intervalo pequeno de tempo e ainda ter a oportunidade de conviver alguns dias de perto com pessoas queridas. Assim que só agradeço!

E nem deu tempo de esvaziar o colchão inflável, porque o próximo hóspede chega daqui a pouquinho…

Borough Market

Sou daquele grupo de pessoas que adora cozinhar e comer. Por consequência, também adoro um mercado. Por recomendação de um amigo, cheguei ao Borough Market e foi amor à primeira vista.

A estação de metrô mais próxima é a “London Bridge”, já na estação, pegar a saída na direção “borough” (um pouco óbvio, mas não custa dizer). Aliás, também não custa lembrar que metrô aqui se diz “tube”. Se você perguntar onde é o “metro”, ninguém sabe do que você está falando!

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Trata-se de um mercado que abre nas quintas, sextas e sábados. Aviso que para quem não gosta de estar em um ambiente muito cheio de gente, melhor evitar o sábado.

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É um mercado de rua, com aquele jeitão de feira e várias barraquinhas onde se compra comida para levar ou desfrutar ali mesmo.

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Acho uma delícia passear pelos seus corredores e sentir uma mescla de aromas de especiarias e comidas invadindo minhas narinas. É uma orgia de queijos franceses fedidos, trufas, pães, sanduíche de carne seca, bacon, salsichas, burratas, paella… tudo-junto-ao-mesmo-tempo! Dá uma fome louca!

Também existe a opção de passear pelo mercado, fazer suas compras, mas almoçar nos restaurantes ao redor. Gosto muito do Wright Brothers, especializado em ostras. Além das tradicionais e suculentas ostras cruas e fresquíssimas, há a opção das gratinadas e de mais fácil degustação para os que não são muito fãs de crus. Recomendo pedir um Chablis para acompanhar e correr para o abraço! Importante observar que é praticamente impossível conseguir uma mesa no sábado sem reservar.

Para quem gosta de carne, recomendo o Black and Blue. Além dos steaks, meus favoritos, também fazem hambúrgueres bem honestos. O atendimento é correto e, por acaso, já fui atendida por duas garçonetes brasileiras muito simpáticas.

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Aproveitando que está por essa região, vale uma volta pelas redondezas até o Pub “The George Inn”. Abro um parênteses para contar que historicamente, os Pubs nasceram como hospedarias, onde o bar ficava no primeiro andar e os quartos nos andares de cima. Até hoje é possível encontrar esse modelo, mas a maioria se restringe a parte do bar. Enfim, esse pub, especificamente, foi fundado pelo final do século 16, ainda que o edifício date de 1677. Vale a visita e, porque não, tomar uma cerveja onde Shakespeare e Dickens já se hospedaram.

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Se ainda tiver energia, aproveite para gastar as calorias ganhas no almoço e faça uma caminhada pela “The Queen’s Walk”. É um passeio pelas margens do Tâmisa, que vai desde “Lambeth Bridge” até “Tower Brige”. Mas sobre esse passeio, contarei em outro post.

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Hein?

Sabe aquela teoria de que no mundo não há mais de 6 pessoas entre você e qualquer estranho que caminhe pela rua? Pois é, acredito matematicamente nela, mas desconfio que no nosso caso, devem ser no máximo uns 3 níveis de separação!

Então, vou tentar explicar, mas a equação não é nada simples!

Luiz estudou com P no colégio no Rio de Janeiro. O tempo passou e, morando em São Paulo, eu já casada com ele, conhecemos por completo acaso uma amiga de P e ele soube que ela morava em Barcelona.

P, T, A e R se conheceram quando faziam um mestrado juntas no Rio de Janeiro.

Logo que mudamos para Madri, Luiz foi a trabalho para Barcelona e fui com ele. Já que estávamos por lá, porque não procurar a P? Jantamos e assim conheci P.

P foi a trabalho para Madri e nos chamou para jantar. Mas Luiz estava viajando. Bom, ele não estava, mas eu já conhecia a P, então, fui jantar com ela.

Acabou virando um jantar de luluzinhas e P chamou mais duas amigas. Assim conheci T.

T morava em Madri e ficou uma amigona nossa!

T fazia um doutorado em Madri e, onde estudava, conheceu a D. T me apresentou D e também ficamos amigas. T se mudou para o Rio, D se mudou para Londres, mas seguimos todas em contato.

Antes de nos conhecermos em Madri, T trabalhou com C, que por sua vez, também trabalhou com R, em outro momento.

A mãe de D, durante uma viagem de avião entre Inglaterra e Brasil, conheceu R. Porque R viajava com uma filha pequena que não parava de chorar e no desespero, a mãe de D se propôs a ajudá-la. R ficou muito agradecida e durante a conversa, descobriu que a filha D morava na mesma cidade que ela. Até por cortesia, R procurou D e acabaram ficando amigas.

Por que estou contando toda essa história? Porque agora, por caminhos bem diferentes, exceto por P, nos encontramos todas em Londres!

P, quando descobriu que mudaríamos para cá, me apresentou por e-mail a A e R, que seguiam amigas. Eu, que já conhecia D, acabei descobrindo, por coincidência, que ela também conhecia R.

Conversando com elas, descobrimos que R e A também conheciam a T. T se lembrou que C morava por essas bandas e, assim fui apresentada a C.

T, que mora atualmente no Rio, não se aguentou em ver essa mulherada toda fofocando em Londres e veio nos visitar nesse feriado! Assim que, de maneira surreal, nos encontramos com T, R, A e D. Só não encontramos com C, porque estava viajando, mas mora aqui. A única que faltava era P, que agora mora em Nova York.

É mole? Mundinho pequeno esse! E para os maridos entenderem quem conhece quem da onde?

19 aninhos de casada!

O que tinha a dizer para ele já foi dito, Luiz é meu amor e o planeta sabe disso! Portanto, prometo nem ser piegas e só contar sobre as comemorações e do nosso “só uma coisinha” que virou uma verdadeira maratona, como sempre!

No último 18 de março, fizemos 19 anos de casados. Em todos esses anos, a gente fez uma festa em casa para celebrar. Mas justo nesse, pensei que seria meio complicado. Havia recebido gente há pouco tempo… quero fazer outra festinha no início de abril… tinha hóspedes chegando na semana seguinte e também deve rolar alguma coisa…

Enfim, Luiz, quer saber, esse ano vamos deixar a festa e comemoramos só nós dois, o que você acha? Ele achou ótimo, foi pesquisar e reservou para a gente no próprio dia 18, uma segunda-feira, num restaurante show!

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas não vamos nos adiantar.

Nós tínhamos uma perna de passagem para Madri sobrando aqui em casa. É que, quando nos mudamos para Londres, era mais barato comprarmos ida e volta do que só ida. Portanto, tínhamos realmente sobrando uma ida para Espanha no dia 15 de março, uma sexta-feira.

Pronto! Então, vamos para Madri no fim de semana, aproveitamos matamos a saudade dos amigos.

Não vou negar que lá no fundo, bem no fundinho, fiquei com aquela vontade frustrada de fazer uma festa. Mas puxa, como é que podia reclamar, né? Íamos viajar juntos, ver um monte de amigos que adoramos e ainda teríamos nossa própria comemoração romântica particular! Perfeito, deixa para lá a festa e vamos aproveitar o que a gente tem que é melhor do que mereço!

Combinamos de ficar hospedados na casa de um casal de amigos muito queridos e que, a propósito, também acabaram de fazer aniversário de casamento. O marido foi nos buscar no aeroporto. A mulher ficou em casa, porque outra amiga ia para lá e tomaríamos uma cachaça maravilhosa que ela tinha acabado de trazer do Brasil.

O avião pousou tarde pacas! Chegamos quase meia noite, mas havíamos avisado que era assim. Quando compramos a passagem, não sabíamos se Luiz poderia tirar a sexta-feira livre e, de fato, ele trabalhou o dia todo.

No carro, nosso amigo avisou que mais duas pessoas estariam esperando a gente em casa. Legal!

Resumindo a ópera, quando chegamos na casa deles, não havia apenas mais duas pessoas, havia uma baita de uma festa surpresa com uma galera super querida! Acho que foi a minha primeira festa surpresa na vida! Até porque, muita gente sabe que eu detesto surpresas! Mas dou meu braço a torcer, porque dessa vez eu a-do-rei! Fiquei emocionada e muito feliz de verdade.

Assim que, mesmo sem a gente planejar ou saber, acabamos tendo uma festa! Não será por esse ano que fugiremos à regra e tudo graças aos nossos amigos!

Ficamos até às seis da matina nessa bagunça! E é claro, regados a álcool. Vou nem contar que uma certa amiga dividiu conosco nada mais, nada menos que uma Anísio Santiago, também conhecida como Havana, considerada a melhor cachaça do mundo!

É pouco? Quer mais?

Sábado, tentamos acordar o mais cedo possível, que foi algo em torno dàs 14h. Considerando a hora que fomos dormir e do nosso estado, bastante cedo.

Tomamos nosso café com calma, nos arrumamos e partimos para a próxima etapa. Direto para festa de um amigo, que começou ao meio dia e ia até à meia noite. É lógico que me acabei! E ainda encontramos outros amigos que não havíamos visto na sexta-feira.

Mas saímos um pouco antes do final, fomos jantar, no La Tape, às 21h com dois casais que também faziam aniversário de casamento, um deles onde estávamos hospedados e mais uma amiga.

Bom, jantar é maneira de dizer, porque eu estava só o pó! Resolvi tomar água mineral e belisquei algumas coisinhas, mesmo assim, só porque estava uma delícia, mas já não aguentava nada! Chegou uma hora que eu queria ar fresco!

Por volta dàs 23h, saímos a pé para o El Junco, minha casa noturna favorita de Madri. Cheguei lá, comecei a melhorar outra vez e até ameacei um whiskão para equilibrar o PH.

É duro admitir, mas estava mortinha! Aguentaria até de manhã, por amor à arte e para manter minha reputação, mas cada vez que olhava para Luiz e os nossos amigos hospedadores, dava até pena!

Assim que ficamos mais ou menos até acabar o concerto ao vivo. Apesar do cansaço, também foi muito legal e ainda encontramos mais gente bacana. Por volta de uma e pouco da manhã, resolvi tomar uma atitude adulta e disse que a gente poderia ir embora se eles quisessem. Preciso dizer que todo mundo aceitou sem insistência? Porque vai que por educação alguém diz, não, se quiser a gente fica mais… e eu fico!

Cansou? A gente também, mas ainda tinha o domingo e fomos curar a ressaca grupal, que a propósito nem tinha, com um belo de um acarajé! A bebida mais radical que me propus a tomar foi um pouco de guaraná! Que para quem não bebe refrigerante, foi bem ousado. O casal e mais duas amigas foram conosco ao restaurante baiano. Não dava para convidar mais gente, porque não cabia na mesa, infelizmente.

De lá, já fomos direto para o aeroporto, tomar o rumo de volta. As olheiras pelo joelho, mas valeu cada minuto e cada abraço!

Foi estranho ir a Madri. Sei que não faz tanto tempo, mas perdi a referência de ser a minha casa. Francamente, às vezes até me assusta a rapidez com que troco de canal. Nem sei se isso é mau ou bom, mas acho que vem no mesmo pacote da capacidade de adaptação.

Ao mesmo tempo, entre nossos amigos, me sinto bastante aconchegada e é como se nunca tivesse ido. E me emociona muito saber que a gente deixou alguma marca positiva em gente tão especial.

Não sei se agradeci o suficiente, mas há vezes que é difícil dizer o quanto estou feliz em reencontrar alguém, porque não quero que se torne um momento dramático, prefiro ter a sensação de que foi na semana passada e pode ser na semana que vem. E quem sabe, pode ser mesmo.

Chegamos em casa sãos e salvos e sim, me sinto em casa aqui. Não é perfeita, não é para sempre, mas agora é meu lar.

E, na segunda-feira, dia oficial do aniversário, lá fomos nós ao nosso jantar especial no L’Atelier de Joël Robuchon. Trata-se de um restaurante com duas estrelinhas Michelin básicas, escolhido pelo meu querido maridinho que se esmerou! A base da culinária é francesa, mas faz algumas fusões interessantes.

Se quem está na chuva é para se molhar, imagina em Londres! Pedi o menu degustação que consistiu em, amuse bouche; alcachofra com trufas e foie gras (bem interessante); vieira com uma lulinha (normal, tudo no ponto perfeito, mas sem surpresas); pochet em vinho tinto, cogumelos selvagens e bacon (um escândalo de bom!); salmão crocante com espuma de wasabi (de ajoelhar!); foie gras envolvido em uma folha de couve, em caldo de carne (não entendi o que a couve fazia ali); prato principal, codorna recheada de foie, com trufas e purê de batatas (o melhor purê do universo! Parecido a esse, só provei no Michel Guérard); pré-sobremesa, creme de mascarpone com raspberry (primeira vez que comi uma “pré-sobremesa”); sobremesa, cheesecake de lima e frutinhas; café (descafeinado, no meu caso). Não dei conta dos queijos, antes das sobremesas, mas havia essa opção. Todo esse menu é combinado com vinhos europeus de diversas procedências e acertaram em todos, como não poderia deixar de ser.

O atendimento foi muito simpático! Informal e educado. A garçonete mais legal, com quem cheguei a puxar um pouco de conversa, era uma francesa e, no começo, achou que eu fosse francesa também (assim que começo a acreditar que realmente devo ter algo de francês!). Enfim, ela nos perguntou se celebrávamos alguma coisa e contamos que sim. Pois ao final do jantar, na hora do café, chegou para a gente dois pedacinhos de bolo, com duas velinhas e nos desejando feliz aniversário de casamento por 19 anos! Eu simplesmente amo esses detalhes!

Ela nos levou até a porta para se despedir e nos deixou com o porteiro, um brasileiro, que por sua vez nos encaminhou a um carro que nos trouxe em casa. O motorista cobrou os olhos da cara, mas tudo bem, foi chiquérrimo e me senti a própria Cinderela, então, está valendo!

Para quem achou que faria uma comemoração simples esse ano… uma viagem, festa surpresa, reencontro com super amigos e jantar mega-romântico-gastronômico… pas mal du tout! Vida dura, mas fazer o que? Alguém tem que se expor ao sacrifício, né?

Tudo ótimo! Só difícil de contar…

Pois é, não sei exatamente o que anda acontecendo, mas tem me faltado inspiração para escrever no blog. E nem é por falta de assunto, afinal tenho passado por um verdadeiro bombardeio de novas informações, sensações, sabores etc.

Portanto, passo hoje para dizer que está tudo realmente bem. Continuo me apresentando a algumas pessoas que não conheço e tentando fortalecer os laços com quem já faz parte da nossa vida, por mais ou menos tempo.

Comecei a frequentar uma academia de ginástica, que fica em um parque pertíssimo da nossa casa. Há algum tipo de subsídio do governo e é realmente barato, pelo menos para os padrões britânicos. Achei melhor assim, prefiro me exercitar ao ar livre, até cheguei a tentar correr sozinha na pista comunitária, mas não dá para contar com a boa vontade do clima.

parque

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Luiz também me deu uma lâmpada que “substitui” a luz solar. Não é para bronzeamento, é justamente para minimizar os efeitos da falta do sol. É bastante comum por essas bandas as pessoas terem algum tipo de depressão de inverno ou carência de vitamina D.

Assim que, com exercício, cuidando da alimentação e essa tal lâmpada, estou tentando me prevenir de problemas futuros. E nos dias de sol (sim, eles existem!), sempre saio para aproveitar um pouco.

Voltei a cozinhar! Não é que tivesse parado, mas Luiz andou muitos meses sem jantar, o que acabou me desestimulando. Até sou do tipo que cozinha para mim mesma, mas vamos combinar que no dia à dia não é a coisa mais motivadora do mundo. Isso, sem falar de toda a loucura que foi a mudança.

Outra coisa, é que leva um tempo até você se acostumar com os ingredientes locais, o que é mais fresco, o que é de temporada e tal. É engraçado, mas passei bem um mês travada, sem saber o que preparar.

Aqui em Londres, tenho muito mais opções e alimentos provenientes das origens mais diversas! Agora mesmo, por exemplo, estou morrendo de amores pela tal de alcachofra de Jerusalém. É como uma raiz, ainda que lembre, tanto na aparência quanto no sabor, a uma alcachofra tradicional.

alcachofra

Fiz minha própria mini-horta de ervas e estou adorando usar meus temperos direto da janela!

horta

Enfim, ando testando receitas, fazendo jantares só para a gente ou contando com a presença de amigos e assim, vou esquentando os motores. Realmente, quero tentar trabalhar com isso de alguma maneira.

É curioso porque já observei que boa parte das minhas atividades tem alguma necessidade de expressão, ainda que se alternem. Foi assim com artes plásticas, que de certa maneira, ficou à parte quando comecei a escrever. E, talvez, agora escrever não seja tão prioritário, porque quero cozinhar. Algum dia, preciso aprender a conviver com todas essas formas de comunicação em paralelo.

E não é que de vez em quando dá certo? Hoje mesmo, aqui estou e tenho uma panela cheirando no fogo. Vou lá!

Aprendendo a marcar compromissos em Londres

Sexta-feira, resolvi esquentar o umbigo no fogão. Tinha uma peça boa de cordeiro marinado com alecrim e era um pouco grande para Luiz e eu. Chamei alguns amigos para ver se alguém se interessava. Um amigo estava disponível e se interessou.

Isso é uma coisa um pouco complicada aqui, pelo que entendi, as pessoas se planejam literalmente com meses de antecedência. E não estamos falando apenas das férias ou grandes festas, mas de simples jantares e encontros entre amigos.

Por um lado, acho importante ter algo de planejamento, mas pelo que conheço do nosso histórico, se fosse muito rígida em relação a isso, estaríamos bem ferrados, porque nossa vida muda a todo momento. Posso e quero tentar me adaptar à cultura local, não me custa tanto, mas não pretendo perder a espontaneidade.

Assim que chamo quando dá, mas sem grandes expectativas nem cobranças se as pessoas poderão comparecer ou não. Me contaram que algumas podem se sentir ofendidas se forem convidadas muito próximo ao evento, imagino que conosco, ou elas também se adaptarão um pouco, ou vão nos ignorar. Paciência, parte da seleção natural, e na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe e todo mundo samba! Eu chamo, quem quer e pode vem.

Enfim, um amigo veio e a conversa se estendeu pela madrugada, ele acabou dormindo por aqui. Dia seguinte, nós três meio de ressaca, mas não acordamos muito tarde. É que fazia bom tempo e isso aqui é coisa muito séria! A gente não quer desperdiçar um dia assim dormindo.

Levantamos meio na marra e fomos ao Borough Market, meu mercado favorito em Londres. Ainda vou escrever sobre ele, com direito a fotos e tudo! Mas hoje, só vou contar que fomos para lá, comemos um sanduíche de carne seca e nosso amigo comeu um hambúrguer com várias fatias de bacon (daquele inglês, com pouca gordura). Com o PH mais equilibrado, sentamos em um restaurante de ostras e nos acabamos de comer ostras com um Chablis corretíssimo. Ainda demos uma volta pelo mercado para comprar coisinhas gostosas, como queijos fedidos, azeite de trufa, manteiga com alho…

Domingo, aproveitamos para descansar um pouco. Luiz embarcava para Alemanha ridiculamente cedo na segunda-feira.

Tomei coragem para me pesar, coisa que vinha adiando com frequência. Lógico que milagres não existem e é evidente que a balança não ia mentir só porque eu queria. É Bianquita, melhor tomar uma providência que o negócio está ficando sinistro para o seu lado!

Aproveitei o dia, que amanheceu lindo e fui tentar correr em um parque aqui perto de casa. Mais andei que corri, mas foi um começo. Nesse parque, há uma academia de ginástica, mas queria tentar sozinha primeiro.

Cheguei em casa, já com vontade de ir para a rua outra vez. Realmente, o dia estava provocador!

Recado de uma amiga. Havia combinado na terça-feira de ir até a sua casa, em Surbiton, e fazer um passeio pelas margens do Thames. Ela me perguntava se não queria adiantar o programa para segunda mesmo e aproveitar o sol.

Por que não? Achei ótimo!

Ainda bem que fui, porque acho que deve ter sido se não o dia mais bonito, um dos mais bonitos desde que cheguei a Londres. Não é que não faça sol, mas é que o tempo é muito instável. E nesse dia, fez sol o dia inteirinho!

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Surbiton

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Passeio ótimo, companhia melhor ainda! Dia seguinte, veio ela aqui em casa e também passeamos pela redondeza. O tempo não estava tão mau, mas nem se comparava ao dia anterior.

É engraçado isso, nunca morei em um lugar em que o clima fosse tão instável. Às vezes, acordo com o sol no rosto, levanto correndo para aproveitar, afinal isso é algo muito apreciado por essas bandas. Daí, dou aquela passadinha no banheiro para escovar os dentes e quando chego na cozinha está cinza e uma tempestade! Como assim? Ok, então não vou para rua, deixa eu tomar meu café. Termino o café e já faz sol outra vez… Caraca! Dá para decidir?

Na quarta, outra amiga veio almoçar no The Elgin, nosso pub da esquina. Também aproveitamos para fofocar um pouco durante a tarde.

Estou achando ótimo isso de ter sempre alguém legal para sair ou encontrar. Realmente, acho que sou uma privilegiada de encontrar amigos pelo caminho, seja ele qual e onde for.

Até que finalmente, resolvemos inaugurar a casa decentemente. Não dava para fazer aqueles festões de Madri, já havia decidido pegar mais leve, pelo menos no início. Assim que fizemos uma degustação de cachaças para uma média de 15 pessoas. Era bom que teria uma oportunidade de testar a quantidade de gente que a casa comportava e dar mais atenção aos convidados individualmente.

Uma amiga já havia me prevenido que o povo por aqui é muito furão. Que a média de assistência às festa era de 30% dos convidados! Como assim? Veja bem, pelo nosso histórico, desde o nosso casamento, costuma vir 10% a mais do que esperamos!

Fiquei grilada! Será que o pessoal viria mesmo?

Tratei de sair confirmando com todo mundo! Sei lá, acho que esse fracasso de comparecimento se deve justamente a eles marcarem as coisas com muita antecedência. Fica difícil controlar qualquer imprevisto e vamos combinar, eles acontecem. Não é possível que aconteça só com Luiz e eu!

Encurtando o suspense, o povo veio! E é lógico que adorei!

Sim, são pontuais, praticamente não tive atrasos. E os que houveram, nem poderiam ser considerados atrasos, mas a margem da educação. É o seguinte, você pode chegar até uns 15 minutos depois da hora marcada, não é gravíssimo como a gente pensa. Se não for jantar, até um pouco mais. Entretanto, nunca se deve chegar mais cedo, isso é muito, mas muito mal visto.

Se for a primeira vez que você vai à casa, é educado levar um vinho, flores ou chocolate. Essa regra não é apenas inglesa, mas eles levam a sério.

Tentei simplificar e avisei logo que quem quisesse trazer sobremesa, algo fácil, era bem vindo! De certa maneira, acho que quebra a formalidade e, francamente, facilita minha vida.

Fiquei na dúvida do que cozinhar, porque era a primeira vez que a grande maioria passava aqui em casa. Portanto, atirei para todos os lados para ver o que gostavam mais. Usei algumas receitas já conhecidas, como o quibe e o bolinho de bacalhoada e testei algumas receitas novas, como a de bolinho de tutu com paio, que se provou um sucesso de bilheteria!

A única coisa muito diferente é que quase todo mundo vai embora igual a Cinderela. Porque o metrô e os trens acabam e o taxi é caro pacas! A vida noturna britânica acaba muito cedo comparada à vida em Madri.

Sem problemas. Começamos cedo essa festinha inaugural e já entendi o esquema. Próxima festa, começamos à tarde!

Ainda assim, teve gente que bravamente topou esticar à noite e um amigo dormiu em casa. Então, lógico que terminei a madrugada quase engatinhando para cama, mas bem feliz.

Enfim, mais lições aprendidas e começando a trabalhar a boa energia da casa. E, algo fundamental, nenhum vizinho reclamou!

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Ajustar a rotina

Quinta-feira e a casa ficou vazia com a ida do meu irmão e minha cunhada. Paciência, melhor me manter ocupada. Aprendi a conviver com despedidas de uma maneira muito madura: faço de conta que elas não aconteceram. Simplesmente, tento não pensar e me ocupar com outra coisa.

Do que iria reclamar? Um mês que mudei para um país novo e já tive visita de alguém da família! Não é uma sorte?

A casa ainda precisava terminar de ser arrumada e foi o que tentei fazer. No final do dia, com tudo mais organizado e limpo, sentei na sala e me toquei que ainda não havia feito isso desde que a mudança chegou. Com a chegada dos nossos hóspedes, preferi desfrutar da companhia e da cidade, o que acredito ter sido a melhor opção.

Agora, tinha um tempinho para curtir o apartamento, reencontrar objetos, pensar no que cozinhar, fazer umas compras decentes…

Resolvi fazer minhas primeiras compras por internet. Sim, porque enquanto as visitas estavam por aqui, nossa internet começou a funcionar. Teoricamente, a TV também, mas só fomos, quer dizer, Luiz só foi instalar tudo depois que já estávamos sozinhos.

Enfim, nesse período que moramos aqui, havia visto umas duas entregas na rua do Ocado, inclusive, uma no exato dia da nossa mudança, quando sua van estacionou no mesmo local proibido que o nosso. Verdade que a entrega deles era muito mais rápida que nossa mudança.

Muito bem, fui para internet, decobri o website, me cadastrei, fiz minhas compras direitinho. Já adianto que chegou tudo perfeitamente e no horário, gostei. Você vai recebendo mensagens no seu celular, avisando que suas compras estão chegando, se tem tudo que você pediu, o nome de quem fará a entrega, todos os detalhes. Ótimo, menos um pepino! Compro o que for mais pesado por lá e os frescos pela redondeza, até bom ter algum pretexto de passear aqui em volta.

Fui a um açougue na Clifton Road, onde anunciam que a carne é orgânica! Acho engraçado isso, a outra opção seria carne de plástico? Mas enfim, escaldada de comprar carne bombada de hormônios nos EUA, achei melhor nem arriscar aqui e ir direto a um açougue que me inspirasse confiança. Ali chegando, fui tentar identificar os cortes ingleses, não tinha muita certeza do que comprar. Achei um lombo de cordeiro com boa cara e pedi um pouco de paciência ao açougueiro, porque era minha primeira vez comprando carne por essas bandas e ainda estava entendendo os cortes. Ele me pergunta simpático de onde eu era e logo em seguida, me disse que era português. Perfeito, então vou te perguntar tudo! E agora é o açougue que frequento.

Na sexta-feira, tinha uma consulta para definir quem será meu médico. O sistema de saúde na Inglaterra é basicamente público, há algo de medicina privada, mas a maioria frequenta o do governo mesmo. Nós temos direito a um plano de saúde privado pelo trabalho do Luiz, mas quis fazer a coisa direito.

Para ser sincera, ainda estou entendendo como funciona essa história por aqui, mas acho que é parecido à Espanha, com o sistema público ainda mais forte.

É assim, você precisa ter um “médico de cabeceira”, eles chamam de “GP” (General Practitioner), que é um tipo de clínico geral que acompanha seu histórico. Tudo que você sente de diferente, é no GP que você vai primeiro, e dali, ou ele mesmo resolve, ou vai te encaminhar para um especialista.

Então, logo que você chega ou muda de endereço, precisa procurar qual é o centro de saúde mais próximo, vai até lá com seu documento de identidade (passaporte), um comprovante de residência (contrato de aluguel, correspondência etc) e faz sua inscrição.

Perto da nossa casa, havia dois centros de saúde. Luiz pesquisou pela internet e um era muito mal avaliado e o outro muito bem avaliado (vai entender). Claro que fui no bem avaliado, mas não sabia se iriam me aceitar. Não foi complicado nem burocrático.

Como tenho mais de 40 anos, precisei passar por um tipo de triagem, algo simples, uma consulta com uma enfermeira para contar a ela meu histórico de família, medir pressão, anotar meus dados pessoais etc. Achei até muito bom e ela foi bem simpática.

Ela me perguntou há quanto tempo eu não fazia meu “smear test”, que não sabia, mas entendi que se tratava do exame ginecológico preventivo, o tal papanicolau. No Brasil, a recomendação é que façamos esse exame anualmente, mas já haviam me avisado que aqui eles faziam de 3 em 3 anos. Então, menti logo: acho que tem uns 3 ou 4 anos que fiz o último… E assim ela já marcou no mês que vem para eu fazer.

Igualmente pela idade e porque estava iniciando meu processo naquele GP, ela me disse que tinha o direito a pedir um exame de sangue para saber o estado geral de colesterol, açúcar etc. Perguntou se eu queria, claro que quero, não me custa nada saber como ando. Também já marquei para o mês que vem.

E o detalhe é que o tal centro médico é na esquina de casa. Espero que realmente seja bom, mas pelo menos a primeira impressão foi positiva. Verdade que não tenho a intenção de ir com frequência, isola! Mas são coisas que fogem ao nosso controle e é bastante complicado dividir o pouco tempo que tenho no Brasil de férias, para consultar médicos de confiança.

Há coisas que parecem bobas, mas como diz o ditado, o diabo mora nos detalhes. E resolver esses “detalhes” de arrumar a casa, receber correspondência no meu nome, ter instalada a internet, descobrir onde fazer as compras, fazer a entrevista para ter meu NINo, me cadastrar no centro médico e ser encaminhada a um GP… era fundamental para eu começar uma rotina. Francamente, não me considero uma pessoa rígida e estou disposta a me adaptar às mudanças pelo caminho, mas há uma diferença gigantesca quando você começa certo em qualquer lugar.

E eu queria começar certo.

Por um lado, isso me trouxe uma ansiedade adicional no primeiro mês. Não foi fácil chegar. Não cheguei adorando nem deslumbrada (como em Madri, por exemplo). Nem quero entrar na comparação de países, porque como costumo dizer, quem compara sempre perde. Só estou usando a referência porque a gente aprende com a experiência, ou deveria aprender. E por experiência, sabia que tinha passos a dar, problemas a resolver, expectativas que eliminar ou minimizar.

É engraçado porque as pessoas são imediatistas e é uma pergunta normal o: e você está gostando?

Para mim, era muito difícil responder essa pergunta até agora. Porque não podia gostar (ou não gostar) se eu ainda não conhecia.

Falta muito por fazer e conhecer, e acho estimulante que seja assim, mas só após o primeiro mês e esses, digamos, detalhes resolvidos, agora posso dizer: sim, eu gosto!

O clima poderá ser um problema em algum momento, é o que todo mundo sempre diz, morando ou não morando aqui. Talvez em algum momento, mas agora não. Não está me deprimindo e estou dormindo que é uma beleza! Durmo cedo e acordo cedo sem sofrimento. Acho que o único lugar que dormi tão bem tantos dias seguidos foi no deserto da Jordânia. Mesmo assim, estava de férias e foi por pouco tempo. Portanto, se algum dia o cinza de Londres for um problema, a gente vê o que fazer para resolver. Por enquanto, não é.

A distância da família é um problema? Sim, mas convivo com ele há quase 10 anos, não é novidade. Se considerar a mudança dentro do Brasil para São Paulo, há 20 anos! Se eu gostaria de participar mais, de ver mais, de estar mais? Claro! Mas não acho que isso me converta em ausente. Da maneira que posso, da melhor possível, sigo parte da família.

A distância dos amigos é um problema? Não, é uma saudade. Não conheci outra vida que não fosse mudando, me distanciando e reencontrando. Assim que chegou o momento que entendi que esse é o meu normal, não uma contingência. Só me faz valorizar mais as pessoas no presente, quando posso estar com elas, estou de verdade, me esforço, procuro, chamo. Tem gente que precisa de um pouco mais de espaço, de distância, e respeito isso também. Se não posso estar pessoalmente, daremos nosso jeito, e quando a gente tiver que se despedir ou se reencontrar, não vou fazer drama, será como se fosse ontem.

Gastro-Londres em menos de uma semana!

Oficialmente, recebemos nossos primeiros hóspedes! Digo oficialmente, porque um amigo dormiu aqui em casa logo na primeira semana, mas de maneira bastante improvisada e sem os móveis. Dessa vez, tínhamos hóspedes programados, meu irmão e minha cunhada!

No final do ano passado, pouco antes da gente sequer decidir formalmente que viria para Inglaterra, meu irmão me ligou pensando em vir para Europa na época de carnaval. Na dúvida se passava por Madri ou alguma outra cidade. O incrível é que uma das possibilidades na sua cabeça era exatamente Londres. Talvez estivesse escrito nas estrelas.

Falei para ele esperar um pouco, porque se duvidasse, estaríamos morando em Londres no ano seguinte.

De maneira que eles já tinham a passagem comprada antes mesmo de termos um endereço fixo na cidade! Ele ficava agoniado me ligando toda semana, perguntando se ia atrapalhar, se a mudança ia chegar a tempo, se daria para arrumar a casa… enfim, todas as perguntas que eu não tinha a menor ideia! Só dizia para ele relaxar e aparecer que a gente daria um jeito.

Três dias antes deles aterrissarem, havia quase uma centena (literalmente) de caixas de papelão entulhadas pela casa.

No sábado, pela manhã, dia de sua chegada, juro que o apartamento estava bem decente. Ainda faltavam, e faltam, detalhes de arrumação, mas estava totalmente operacional e já parecia um lar.

Eles iriam embora na quinta-feira pela manhã, assim que tínhamos menos de uma semana para conseguir montar uma programação razoável pela cidade.

O sábado que eles chegaram era o de carnaval. E por mais que meu irmão deteste essa época do ano, afinal, não é à toa que fugiu do Rio de Janeiro para cá, sinto muito, eu gosto e tinha uma aliada, porque minha cunhada também gosta. Assim que lá fomos nós para um baile de carnaval no Guanabara.

Voltando um pouco no tempo, logo que cheguei em Londres e comecei a fazer contatos entre velhos e novos amigos, perguntei se havia alguma festa de carnaval por essas bandas. Todo mundo indicava um lugar brasileiro chamado Guanabara. Conversa daqui, conversa dali, uma amiga se propôs a fazer a reserva do que começou como uma tímida mesa de meia dúzia de amigos e acabou com umas 15 pessoas animadíssimas.

O local é bem maior do que imaginava e a festa estava bastante organizada. Não fui com uma expectativa muito alta e confesso que me surpreendeu positivamente. O principal era estar em boa companhia e isso estava garantido. Encurtando a história, foi ótimo! Me diverti pacas e conheci gente super legal! Amigos de amigos, leitora do blog, gente que puxamos papo por lá… me acabei!

Mas não ficamos até tão tarde, porque além de nossos hóspedes terem chegado naquele dia do Brasil, também não queríamos perder a manhã do dia seguinte de ressaca. Imagina, ressaca em libras!

Acordamos bem no domingo e fomos para Picadilly, caminhar pela região. Honestamente, o dia estava horroroso! Um frio, chovendo, ventando… mas o que a gente pode fazer? Ficar em casa não dava, né?

Nessa área, acho uma parada imperdível a loja Fortnun & Mason. É tudo uma fortuna, mas uma tentação ao paladar e aos olhos.

Enfim, rodamos por ali, almoçamos no Toku, um japonês bem honesto, daqueles onde a frequência de clientes japoneses é alta. Sou tarada por um prato que eles fazem com unagui e arroz! O Missoshiro também foge do lugar comum, pode acreditar.

De lá, eles queriam ir na London Eye, aquela roda gigante, aliás gigantesca, de onde se tem uma vista geral de Londres. Eu e minha vertigem a-do-ra-mos esse programa, né? Mas se não fosse, eles não iam, então, resolvi acompanhar até o local, de onde disse que dali eles seguiam e eu voltaria para casa.

Para que?

Começou um se eu não for, Luiz não vai, se Luiz não vai, eu não vou… caraca, que saco! Por que não vão logo e me deixam em paz? Cada um faz o que tem vontade, certo? Ainda por cima um vento e uma chuva do caramba! Eu entendo que eles queriam aproveitar, mas eu já estava precisando vir para casa! E principalmente Luiz, que já tinha me torrado a paciência que queria ir lá, mas não queria ir sozinho, por que não aproveitava de uma vez a oportunidade de ir com eles?

Resultado, para agradar a gregos e troianos, porque as cafeterias da região eram ruins e porque não tenho o menor saco para esse blá blá blá, lá tive eu que entrar naquela bosta! Imagino que para pessoas normais seja um excelente programa, mas para mim, um completo desperdício! Porque tive que passar 2/3 do etinerário olhando para o chão ou algum ponto fixo para não enjoar, uma delícia. No início, ainda tentaram fazer alguma gracinha, tirar foto, fazer carinha de peninha… ninguém merece! Já sou obrigada a fazer o que não quero e ainda por cima tenho que fingir que estou adorando? Quer que eu vomite? Me deixa quieta e mantenha uma distância segura!

Muito bem, uma hora acabou aquela tortura. Pessoal, sinto muito, mas daqui vou embora mesmo! Está frio, chovendo, ventando e eu moro aqui! Passei um mapa para minha cunhada, expliquei minha parada de metrô e eles já sabiam como ir do metrô ao meu apartamento. Beleza!

Luiz também veio comigo e eles ainda seguiram, acho que para Tower Bridge. O que estava certíssimo, acho mais que eles tinham que aproveitar todos os minutos!

Com meu banho quentinho tomado, meu bom humor recuperou-se totalmente!

Eles chegaram e fomos ao Warrington, um pub clássico, próximo aqui de casa. Nos domingos, há uma tradição dos pubs servirem o Sunday Roast(o assado de domingo) e aproveitamos para mostrar a eles e desfrutar de um bom assado.

Segunda-feira, Luiz foi trabalhar e saí com eles para passear pelas redondezas do nosso bairro. Fomos a “Little Venice”, um canal bem charmoso que não costuma estar na rota turística. Verdade, que essa época do ano não tem o charme habitual, mas vale o passeio. Qualquer dia escrevo mais sobre lá.

Também fomos a “Abbey Road”, aquela rua que saiu na capa de um disco dos Beatles, com eles atravessando uma faixa de segurança. Trata-se de uma esquina normal e corrente, que fica cheia de turistas pentelhando o trânsito para tirar uma foto atravessando a rua. Se você não estiver dirigindo, pode ser até divertido.

Dali demos uma volta por St. John’s Wood, que é uma graça e fomos almoçar na Clifton Road, outra rua charmosinha pelos arredores. Costumo ir ali para comprar flores. Comemos no Café Rouge, uma cadeia de restaurantes franceses que acho boa e de preço razoável.

Eles seguiram passeando, foram ao Madame Tussauds e voltei para casa. A companhia deles é bem agradável, mas melhor deixar os dois sozinhos um pouco, né? Acho que quem viaja também quer algo de privacidade em algum momento.

Fomos jantar no Nobu, que pessoalmente considero, se não o melhor, um dos melhores restaurantes japoneses que conheci. O ambiente é elegante, talvez um pouco barulhento, mas não chegou a me incomodar. E o principal, a comida é divina! O tartar de toro com caviar é um absoluto escândalo! De ajoelhar e rezar! Melhor preparar o bolso, porque o padrão é alto, mas francamente, acho que merece! Aviso que é muito difícil conseguir mesa sem reservar com antecedência.

Na terça-feira, eu tinha uma entrevista com o governo. Assim que não acompanhei os dois. O local dessa entrevista é próximo ao trabalho do Luiz, por isso, acordei cedo e fui junto com ele. É o seguinte, com a cidadania europeia, posso entrar e trabalhar no país, mas preciso de um número de identificação, chamado NINo (National Insurance Number). É como se fosse uma identidade/CIC, o número de conta para pagar contribuições e impostos, funciona como referência para todo o sistema de seguridade social.

Luiz já tinha tirado o dele, afinal, sem isso ele não receberia o salário. Ele usou o endereço de um amigo, porque tinha pressa. Mas no meu caso, deu para esperar ter um endereço fixo de residência.

Em teoria, seria uma entrevista tranquila, a do Luiz foi. Mas sou tão escaldada com esse negócio de burocracia para documentação, que sempre fico com meu pé atrás. A Espanha me traumatizou um pouco com essa história.

Chegando lá, percebi que a maioria das pessoas ao meu redor eram estrangeiras. Isso, de certa forma, me tranquilizou, não me senti a única (esse documento é o mesmo para ingleses e estrangeiros).

A entrevista é séria, havia um pouco de tensão da minha parte, mas nada exagerado. Acho que é como deve ser mesmo. Ela pergunta o que deve perguntar, nacionalidade(s), porque veio, se está trabalhando, se pretende trabalhar, se é casada etc. Você apresenta alguns documentos, mas também nada exagerado, levei meus passaportes (ela quis ver os dois), contrato de aluguel, certidão de nascimento e casamento e identidade espanhola. Ela olhou tudo, tirou cópias lá mesmo dos passaportes e do documento espanhol. As certidões de nascimento e casamento ela nem quis saber. Nada daquele negócio de ter que levar trocentas cópias autenticadas, originais de não sei o que, tradução juramentada, fotos e tal. O processo é simples, se restringe ao fundamental.

Ela me deu um protocolo e avisou que a resposta costumava levar entre uma e duas semanas. Se levasse mais de quatro semanas, que eu ligasse para o número tal.

Vou acelerar o filme para contar que hoje, exatos sete dias corridos após minha entrevista, dia 20 de fevereiro, chegou à minha porta o envelope com meu NINo. Sim, tudo aprovado e certinho!

Posso trabalhar.

Não sei se vou, não sei em que, mas saber que posso e pelos meus próprios pés é uma sensação que nem sei explicar. Ainda estou digerindo.

Mas vamos seguir a história anterior, ainda na terça-feira, fomos jantar no Gilgamesh, um restaurante asiático, recomendação do meu irmão, que havia estado ali anteriormente. O lugar é bem interessante, exótico e boa comida. Os pratos são condimentados, coisa que é bastante apreciada por aqui, e por nós também. Principalmente no inverno, não custa dar uma força para a endorfina, o humor agradece. Nesse dia, uma amiga se juntou a nós quatro. Ótimo jantar, ótima companhia!

Na quarta-feira, último dia que eles tinham disponível para passear, fomos a Greenwich. Como o próprio nome indica, é exatamente por onde passa o Meridiano de Greenwich. Há um museu no local e você pode tirar fotos, literalmente, com um pé no oriente e outro no ocidente.

Como todos sabem, é esse o meridiano que serve como referência para se calcular distâncias em longitudes e os fusos horários.

Pois é, minha cunhada é muito engraçada e espontânea, ela se atrapalha direto para sair de casa e reclamava que vivia atrasada. Queria mudar essa característica e ficava de onda dizendo que finalmente, agora que ela havia passado por Greenwich, seria uma nova mulher, extremamente pontual!

Brincadeiras à parte, acho que vale o passeio e tem uma vista bacana desde o observatório. Fora a gaiatice de tirar fotos na linha do meridiano, é lógico!

Greenwich

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Almoçamos no Goddards, um restaurante datado de 1890. Não espere nada elegante, o local é muito simples, com jeito de bandejão de faculdade (de fato, muitos estudantes comem por ali). Servem a tradicional combinação “Pie&Mash” (uma tortinha parecida a um empadão e purê de batata, os molhos costumam ser o “gravy” ou “eels”). Frequentemente, há fila até o lado de fora. Acredito que o sucesso da casa se deva, além da tradição, ao fato de servirem uma comida honesta a um preço para lá de razoável. Você pode comer tranquilamente por 5 libras, se for estudante, ainda tem desconto, ou seja, uma verdadeira barganha!

Há outras boas opções nas redondezas de Greenwich e nos fins de semana, fazem um tipo de feirinha que fica lotada. Como fomos em uma quarta-feira, havia apenas algumas barraquinhas abertas.

Em uma delas, que funciona durante a semana, parei para comprar um chapéu, desses impermeáveis. Acho que aqui me será muito útil. Pois bem, o curioso dessa história é que aprendi o melhor eufemismo que já escutei na vida! A vendedora me ajudou a encontrar o que buscava e insistia em me mostrar a marca do chapéu, um Burberrys… por 15 libras! Respondi, é para um Burberrys o preço me parece muito bom (quase irônica). Ela me responde: it was loved before! Achei o máximo! Aqui as coisas não são usadas ou de segunda mão, elas foram “amadas anteriormente”!

Perfeito, saí eu com meu chapéu amado anteriormente e que seguirá sendo amado futuramente!

De lá, ao invés de pegar o metrô, pegamos um barco até London Bridge. Também é um bom passeio, mesmo no inverno, pois você tem toda a vista das margens do Tâmisa e fica protegido do frio pelas janelas. Acho o ponto alto passar sob a Tower Bridge. Digamos, um outro ângulo de visão.

Da estação de London Bridge, se o tempo estivesse melhor, daria para caminhar até a Tate Modern, nossa próxima parada, mas com a combinação frio, vento e chuva, pedi arrego e pegamos o metrô. Visitamos o museu, meu favorito em Londres.

Dali, voltei para a casa e eles foram para umas últimas comprinhas em Picadilly. Acho que se deixasse, meu irmão morava em Picadilly!

Jantamos no Raoul’s da Clifton Road, é uma cadeia de restaurantes italianos. Nada extraordinário, mas um italiano correto que eu gosto. A comida é honesta e o serviço simpático.

Na volta para casa, quisemos fazer uma parada no The Elgin, um dos nossos pubs favoritos da região. O local é modernoso, o cardápio é curto, mas original, com toques espanhóis. Já não conseguíamos mais comer, mas pelo menos tomamos uma tacinha de vinho para despedir.

Na quinta-feira, logo cedo, eles foram para o aeroporto, embarcar para o Rio.

Foi rápido, porém intenso. Acho chato que a casa ficou vazia, deixou o gostinho de quero mais. Achei legal ver os dois juntos, parecem felizes o que me alegra muito. Deu uma animada no ambiente. Um lar precisa de energia de gente, de movimento!

Enfim, acho que eles gostaram da viagem também e já fizeram planos para voltar em abril. Não sei se virão mesmo, porque sempre depende de algumas variáveis, mas fico na torcida.

E agora, toca a fechar a boca e fazer regime, porque com tantos passeios gastronômicos daqui a pouco não passo pela porta! Mas foi tão bom…

Bota as pilhas e liga o turbo!

Acordei na quarta-feira, 6 de fevereiro, fui tomar um café da manhã, na medida do possível e me deparei com o seguinte cenário…

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Pois é, me diz se não dava vontade de sair correndo?

Acontece que meu irmão e minha cunhada chegariam no sábado de carnaval e ficariam hospedados aqui em casa. Ou seja, tinha 3 dias para deixar o apartamento em condições decentes.

Além disso, a irmã do Luiz estava de passagem a trabalho por Londres e jantaríamos nessa mesma noite. A gente queria que ela passasse antes para conhecer a casa nova, e de lá comeríamos na rua. No dia seguinte, ela já iria embora cedo e não dormiria conosco. É claro que não esperava organizar tudo até o fim do dia, mas queria pelo menos ter algum ambiente da casa apresentável para ela ter uma ideia melhor do apartamento.

Arrumar uma mudança em pouco tempo não é uma novidade para mim, entretanto, é mais fácil quando você muda para um lugar maior e com armários de sobra. Nós nos mudávamos para um apartamento com dois quartos a menos, um único armário bom no nosso quarto, um armário meia boca de duas portinhas no escritório, os armários da cozinha… e só! Por sorte e pelo nosso histórico de mudanças, temos algumas estantes mil e uma utilidades com rodinhas, caixas organizadoras e uma habilidade ímpar em resolver quebra-cabeças!

Tenho um método de trabalho. E sim, o negócio é profissional! Lembra que é meu 37º endereço? Pois é, modéstia às favas, tenho experiência para dar um curso no assunto!

O quarto de casal já dormiu arrumado desde a primeira noite. É fundamental você ter reservado e separado com antecedência um jogo de lençóis e outro de toalhas de banho. Porque quando a equipe de mudança sai da sua casa, você quer tomar um banho e dormir na sua caminha, faz toda a diferença do mundo!

Depois disso, o primeiro ambiente que arrumo é sempre a cozinha. Ela é o coração da casa. Demora um pouco mais, porque tenho que lavar toda a louça antes de ir para os armários, mas vale à pena. Com um quarto arrumado e a cozinha operativa, a casa já funciona independente da zona de caixas que siga pelos outros espaços.

De maneira que, quando minha cunhada chegou, já havia uma cozinha razoavelmente apresentável e umas vinte e poucas caixas prontas para serem levadas ao lixo.

Essa é uma dica que parece óbvia, mas é importante. Assim que for abrindo as caixas, elas já devem ser desmontadas e empilhadas. O plástico bolha deve ser enrolado imediatamente após cada caixa. Caso contrário, você ficará com um volume papelão e plástico impensáveis ao seu redor, não dá para se locomover nem abrir as demais caixas.

Aqui em casa, a gente se organiza assim, durante o dia abro as embalagens, organizo o conteúdo e preparo grupos de caixas desmontadas e sacos de plástico bolha enrolados. Quando Luiz chega, ele leva esse material todo ao lixo reciclável.

Enfim, final da quarta-feira, cozinha praticamente arrumada e jantar com a irmã do Luiz para dar uma relaxada.

Quer dizer, teoricamente, o jantar seria relaxante. E até começou dessa maneira animada. No meio da refeição, toca o telefone, era minha sogra, meu sogro precisaria ser operado. Ai, Cassilda! Bom, mas parecia não ser nada grave, uma hérnia que precisava ser retirada há algum tempo, mas vinha sendo adiado até que agora havia se tornado necessário.

Não tínhamos muito que fazer a não ser torcer pelo melhor e conversar com eles para tentar acalmar. Além disso, por coincidência, minha cunhada já estava com passagem marcada para estar na semana seguinte no Rio e isso nos deixava mais tranquilos. Resumindo a ópera, ele foi operado no dia seguinte, correu tudo bem e no sábado ele já voltou para casa. Ufa!

Na quinta-feira, segui alucinada com a arrumação da casa! Terminei a cozinha e parti enfurecida para atacar a sala! Ficou faltando uma ou outra caixa que iriam para o escritório. Na verdade, só não consegui acabar a sala, porque cismei que iria cozinhar. Estava com saudades das minhas panelas e havia achado dois sacos de feijão brasileiro que vieram escondidos em uma das caixas de mudança. Bom, isso sem falar de umas 40 garrafas de bebidas que também vieram enroladas entre lençóis e toalhas.

Enfim, fui para cozinha e fiz uma feijoada! Não chegou a ser uma feijoada completa, mas um belo feijão incrementado. Cheguei a chamar uma amiga que mora aqui perto para jantar, mas ela não viu a mensagem a tempo.

Na sexta-feira, perdi a manhã porque precisava ir ao centro da cidade buscar meu cartão do banco. Sim, já tenho conta em banco! Luiz foi comigo e, como era perto do seu trabalho, almoçamos juntos no Chamberlain’s. Fica em um mercado relativamente pequeno e bem charmoso pela zona de Aldgate. A especialidade da casa são os frutos do mar, comi um peixe fresquíssimo, delicioso e de apresentação impecável!

Voltei para a casa e mergulhei nas caixas que faltavam. Luiz tentou não chegar tão tarde e me ajudou também. Resultado, o único ambiente do apartamento onde ainda havia uma meia dúzia de caixas era o escritório, são mais complicadas, porque não há mais armários para armazenar o conteúdo. Já veremos como fazer. Mas pelo menos, todo o resto estava bem arrumadinho e pronto para receber nossos hóspedes!

Só mais um pequeno grande detalhe para dar suspense. Voltando um pouco no tempo, na quarta-feira, quando voltamos do jantar com a irmã do Luiz, notamos que o apartamento estava mais frio. Abrimos a água quente e nada. Caraca, deu pau no aquecedor a gás!

Por acaso, fiquei com o telefone do “contractor”, um tipo de mestre de obras que faz um pouco de tudo e era o responsável pela reforma do apartamento onde moro. Um irlandês simpático, casado com uma brasileira e acho que gostou de saber que éramos brasileiros também. Já tinha conversado com ele umas duas vezes, uma quando vim visitar o apartamento antes de mudar e outra quando ele veio arrumar um pequeno vazamento que havia ficado para trás. Pois é, só que era quase meia noite, não é hora de ligar para casa de ninguém, muito menos aqui em Londres.

Mas o que a gente ia fazer? Ficar sem aquecimento e sem água quente nessa temperatura é impensável! Luiz se armou de coragem e ligou para o cidadão. Que até foi bem compreensivo e disse que enviaria alguém no dia seguinte pela manhã.

Por sorte, havia encontrado um aquecedor/radiador elétrico, trazido de Madri, por via das dúvidas. Com ele dormimos sem passar frio no quarto, mas água quente para o banho do Luiz de manhã… necas!

O consertador do aquecedor de gás chegou na quinta-feira cedo, e em mais ou menos 15 minutos conseguiu solucionar o problema, ou melhor, achou que solucionou.

Respiramos aliviados e quentinhos até sexta-feira à noite, quando o tal aquecedor parou de funcionar outra vez! Taquiupariu três vezes e amanhã temos hóspedes!

Luiz ligou para o “contractor” e para o dono do apartamento. O aquecedor é novo e está na garantia, de maneira que o dono do apartamento queria usar a assistência autorizada. O que até entendo, mas eles só tinham agenda para a terça-feira seguinte!

Como é que a gente ia ficar entre 3 e 4 dias sem aquecimento, sem água quente e com hóspedes?

O “contractor” se sensibilizou e veio no sábado de manhã aqui em casa. Veio até com a esposa, uma brasileira bióloga e muito simpática. Ela ficou conversando comigo, enquanto o marido tentava fazer algum “gato” para quebrar nosso galho até o pessoal da assistência técnica aparecer. Mas não era sua especialidade e ele estava preocupado em mexer muito.

Deu certo, não sei que raio ele arrumou, mas funcionou e fiquei mais do que agradecida. Eles deixaram conosco um outro radiador elétrico emprestado, no caso da gente precisar, o que achei extremamente gentil e atencioso.

Mais ou menos uma hora depois deles saírem aqui de casa, chegou meu irmão com a noiva. E a gente se borrando de medo do aquecedor pifar com eles hospedados. Muitas emoções!

As aventuras com nossos hóspedes, conto em alguma próxima crônica, mas só para não deixar a bola no ar, aviso que o aquecedor e o “gato” resistiram bravamente até terça-feira, quando apareceu o técnico oficial e consertou oficialmente o aparelho. Parece que havia um problema de pressão alta, ou seja, nosso aparelho novinho já é hipertenso coitado! Mas foi medicado e realmente espero que não nos dê mais problemas.

A bendita mudança chegou!

Aproximadamente, 3 semanas depois que a mudança saiu de Madri, chegou a Londres. Na verdade, de estrada mesmo foram dois dias, o restante do tempo de espera foi por conta da documentação que a empresa transportadora deveria ter e não tinha. Mas tudo bem, importa que chegou tudo direitinho.

Acontece que é lógico que para a gente não poderia ter sido pelo caminho normal.

Porque como contei anteriormente, descobrimos alguns dias antes que a empresa não havia solicitado local para estacionar o caminhão em frente ao nosso endereço. Sabendo disso, tínhamos algum plano B na manga, que consistia basicamente em parar de maneira irregular, após o horário de fiscalização. É assim, se houvesse alguma denúncia, ferrou! Mas se ninguém se queixasse, ficava por isso mesmo. Não tínhamos outra alternativa além da de contar com a sorte.

De maneira que por volta dàs 19h30, aparece um caminhão enorme na frente da minha casa, com dois indivíduos que levavam dirigindo desde às 6 da matina, simplesmente para entender onde era o local e combinar de voltar no dia seguinte cedo.

Olha só, meus amigos, entendemos perfeitamente vosso cansaço, acontece que sua empresa não reservou estacionamento. E se vocês voltarem amanhã pela manhã, não vão conseguir estacionar. Se quiserem, ajudamos vocês agora. É fogo, mas é a melhor alternativa. Amanhã, no horário que vocês viriam para cá, vocês descansam à vontade, façam o que quiserem!

Um deles achava essa alternativa melhor, mas o responsável estava meio reticente com essa história. Com toda razão, morto de cansado e aborrecido. Aborrecidos também estávamos nós, afinal, além de todo esse rolo, saiu do nosso bolso uma quantia bastante razoável justamente para a gente não se preocupar. No final das contas, Luiz conseguiu convencê-lo que era a melhor solução.

Estacionaram como deu (e vamos combinar que não era um caminhãozinho muito pequeno) e começaram a desembarcar as coisas. Mas lembra que eram só dois homens, né? A velocidade ficava meio comprometida. Por isso, Luiz e eu tratamos de por a mão na massa, porque era assim ou não era. Honestamente, eu nunca carrego nada pesado, até porque não dou conta mesmo, mas ajudo bastante na organização das caixas e móveis, afinal já tinha tudo programado, e também carrego coisas que sejam mais leves (cadeiras, mesinhas…). Luiz ajudou inclusive fisicamente, para apressar no que fosse possível. A gente não queria que passasse das 23h, hora do silêncio aqui, para não correr o risco de ninguém reclamar.

Claro que fazia um frio do caramba, choveu, um dos carregadores escorregou na escada da portaria, mas felizmente não se machucou. Passaram uns três carros de polícia pela nossa rua, e todas as vezes Luiz tinha um filho pela orelha, certo que era por nossa causa! Mas não era, eles mal olhavam para o caminhão, acho que tinham coisa mais importante para fazer.

Até um vizinho maluco resolveu bater boca com Luiz na entrada, eu achando que era por causa da mudança, mas não, era por uma besteira de correspondência. Parece que o cidadão é louco de tacar pedra mesmo. Mas imagina, a gente sabendo que estava completamente errado (por causa da mudança e não pela correspondência), é sempre um perrengue a mais. Acabou que ele não fez denúncia nenhuma e não perturbou mais do que meia dúzia de bobagens que falou enquanto atirava umas cartas no Luiz. Coisa de filme pastelão surreal! Naquele dia, Luiz não queria criar caso, afinal, estávamos no meio dessa confusão que estou contando. Mas já tenho minha estratégia se o maluco vier para o meu lado no futuro, vou dar uma de louca também e começar a berrar com ele em português!

Às 22h30, a última caixa entrou em casa! Nem acreditei! Parecia tudo nos conformes, coisa que constatei nos dias seguintes.

Agradecemos aos dois, demos uma gorjeta que eles nem esperavam, mas vamos combinar que mereceram. E eles também pareciam agradecidos porque não esperavam que fôssemos realmente ajudar tanto na bendita operação descarregamento! Tudo bem, quando acaba bem.

Luiz, será que conseguimos comer alguma coisa essa hora? Ele disse que nem estava com fome. Também não estava, mas sabia que era só pela adrenalina, em poucos minutos meu estômago daria voltas! Voamos para o restaurante tailandês da esquina, o único que tem comida até às 23h, e ainda conseguimos algo comestível e honesto para essa noite.

Fui dormir exausta, com cara de acabada e meio desesperada pensando como conseguiria arrumar aquilo tudo dentro de casa! Era até difícil acreditar que estava feliz, e juro que estava. Saber que nossas coisas estavam sob nosso teto e dormiríamos na nossa cama era tudo de melhor!

E fim dessa novela mexicana!

Os lados bom e mau da mudança

Passados os primeiros micos, vamos tentando entrar em alguma rotina. Ainda é complicado, porque seguimos em um apartamento sem móveis e com mil pequenos detalhes para resolver.

Mudar de país, ou melhor, mudar até só de cidade, implica em recomeçar absolutamente tudo! Emprego e casa para morar é só o básico e mais urgente, digamos assim. Tem que abrir conta em banco, se registrar no governo para ter direito a atendimento médico, pedir telefone, internet, televisão, mudar todas as contas de nome… e encerrar todos os ítens acima no anterior endereço.

Boa parte dessas atividades é Luiz quem faz. Tento ajudar em alguma coisa, mas é complicado quando você dispõe apenas de um celular pré-pago e conexão de internet em um ipad no café da esquina. Além do que, o contrato de trabalho está no nome dele. Apesar que, quanto a isso, aqui parece ser mais simples. O fato de chegar com uma cidadania européia nos abriu muitas portas, mais para mim do que para ele, que de certa forma, não tinha seus direitos tão limitados.

Cabe a mim fazer a casa começar a funcionar com o que dispomos. Porque também é importante descobrir como é o comércio local, o que comprar onde, opções de lazer pelas redondezas, iniciar uma vida social… tudo isso conta também e dá mais trabalho do que parece.

E se esse conjunto de atividades pode ser bastante complicado quando você muda de vizinhança, imagina quando muda de país? Porque você tem que descobrir como funciona coisas que todos em volta tomam por certo que você já sabe!

Pois eu não sei. A maioria delas não sei nem por onde começar! Depois, tudo parece óbvio, mas esse primeiro momento de como-é-que-faço-isso me suga energias! Vivo no paradoxo de achar que deveria me envolver mais e ajudar mais e na vontade de sair correndo e só voltar com tudo resolvido! Francamente, por mais que me encante ser um espírito independente, quando Luiz chega e diz que resolveu qualquer um desses pepinos sozinho, amo de paixão e agradeço do fundo da alma!

Assim que não estou me queixando em mudar. Quem me conhece um pouquinho entende que não saberia viver de outra forma, simplesmente, estou colocando as coisas sob uma perspectiva realista. Uma mudança não é feita em um só passo, são várias etapas. E aviso que esse comecinho é um pé no saco! Esquece o glamour! Quem te faz parecer que é tudo uma delícia, ou se esqueceu dessa chatice inicial, ou é muito rico e tem quem faça, ou é pura historinha.

Mas depois sim, pode e costuma ser bacana. Sabendo disso, procuro pensar que esse caos inicial vai se assentar e a vida vai melhorar. Sigo acreditando que o bom humor pode ajudar muito. E, tanto Luiz como eu, tentamos intercalar esses momentos de chatice com atividades mais agradáveis. Porque não adianta esperar tudo ficar perfeito para começar a sair e se divertir, esse momento não existe. Se há alguma brecha entre um furacão e outro para tomar nosso vinho, dar uma volta ou encontrar com amigos, a gente aproveita.

Fim de semana passado, tínhamos programação para todos os dias entre sexta e domingo. Fiquei toda animada. Acabou que Luiz não passou muito bem, teve que entrar no antibiótico e cancelamos a ida a uma festa baiana na sexta e sair com um casal de ingleses no sábado. Nada grave, mas vai entrando nessa lista de pepinos do dia para solucinar.

Juro que chegou o momento que comecei a acordar pensando: caraca, qual será a encrenca de hoje? Desanimei. Mas foi amenizando e, paralelamente, as coisas realmente pareceram melhorar, comecei a ver alguma luz no fim do túnel.

Tirei um dia na semana para sair e aproveitar a cidade. Não quis nem saber se tinha ou não tinha alguma coisa para resolver, porque sempre tem. Um amigo nosso brasileiro que mora aqui, o mesmo que tem nos ajudado nesse comecinho de mudança, namora uma argentino-paraguaia que vive nos EUA. Para quem acha que uma pontezinha aérea é complicada, aviso que eles fazem a ponte transatlântica! Ela veio encontrá-lo em Londres, mas durante o dia ele trabalha. Pensei, ela vai ficar entediada esperando ele em casa ou vai sair sozinha, vou chamar ela para sair comigo e assim nos fazemos companhia.

Ando me especializando em “blind dates”! É engraçado você combinar qualquer coisa com alguém que nunca viu na vida, mas faço isso direto! Normalmente, tenho algum contato pela internet, mas nesse caso, nem isso! Só sabia que era a namorada do meu amigo. E quer saber, foi ótimo! Achei ela bem legal e passeamos o dia todo. Fomos a Piccadilly Circus bater perna e de lá fomos a Tate Modern.

Final do dia, estava de humor bem melhor.

Luiz foi melhorando, que era o mais importante, afinal sem saúde a gente não é nada! Seguia no antibiótico, sem beber, mas animava de sair durante o dia para algo mais tranquilo. No sábado, fomos ao Borough Market e, inclusive, acabamos encontrando o casal transatlântico por lá. Qualquer dia, escreverei um post inteirinho só sobre o Borough Market, como indica o nome, um mercado. Tem mil comidinhas para comprar e levar ou comer ali mesmo. Nós optamos por sentar em um bar de ostras muito bom, o Wright Brothers, que inclusive quero voltar com mais calma. Também compramos queijinhos, azeite trufado, salames e outras delícias.

Domingo, com Luiz já melhor, jantamos na casa de um casal de novos amigos. Ela é brasileira e ele neo-zelandês. Foi mais um casal, uma brasileira (que conhecíamos desde Madri) e ele italiano, Luiz e eu. Estávamos em uma mesa bem internacional! O chef responsável foi o amigo neo-zelandês, que preparou um belíssimo cordeiro suculento e cozido à perfeição, com vinhos de sua origem. Papo ótimo e bom para fechar a noite com melhor astral.

Essa semana promete, nossa mudança deve chegar hoje (isola!). Voltando um pouco no tempo e dentro da linha dos pepinos, na quinta-feira passada nós descobrimos que nossa mudança chegaria na terça-feira seguinte, hoje, o que achamos uma maravilha. Mas como tudo tem sempre uma encrenca, descobrimos também que a mocinha que nos atendeu não fez nenhuma reserva para estacionar o caminhão em frente a nossa casa.

Porque na Europa, pelo menos em Madri e sabemos agora que igualmente em Londres, você pode reservar as vagas para o caminhão diante da sua casa no dia da mudança. Entretanto, isso costuma ser pago e é necessário reservar com antecedência. Em Madri, essa permissão pode sair em um dia ou em um mês, dependendo da região. No centro, onde precisa se parar a rua, pode levar um mês.

No dia que descobrimos que a indivídua não fez a reserva para a gente, Luiz achou um website, onde se explicava esse procedimento, dizendo que aqui na zona onde moramos a autorização leva 10 dias para sair. Ou seja, já não dava mais tempo!

E por que ela não fez a bendita reserva? Porque não fala inglês. Dizem que fazem mudanças na Europa, me cobraram o preço de um olho, e não tem ninguém no escritório que fale a bosta do inglês! Assim que ela se fez de desentendida e enviou a mudança sem pedir autorização nenhuma, contando que a gente se viraria. Legal, né?

Enfim, “tô paganu” e não quero nem saber, eles que se virem! E se tiver multa, problema deles também! Não me custa tentar ajudar, afinal, tenho todo interesse do mundo que meus móveis cheguem sãos e salvos, e tenho um plano B de onde imagino que eles possam estacionar. Também avisamos que hora a fiscalização vai embora, se quiserem evitar uma multa. Já descobriremos o rolo que vai dar!

A irmã do Luiz passa por Londres entre hoje e amanhã. E meu irmão chega com a noiva nesse sábado para passar uns 10 dias conosco. Ou seja, que apesar de meio histérica com a mudança chegando, estou empolgada com nossos visitantes.

No sábado, temos reserva para um baile de carnaval no Guanabara. Nossa mesa foi crescendo e, como independente de onde seja, me divirto com a companhia de gente boa, estou animada com isso também. Aliás, na linha dos “blind dates”, vou encontrar uma amiga-leitora do blog e o marido por lá. Família, amigos antigos, novos amigos, amigos virtuais… a noite promete!

Enfim, deixa eu tomar um cházinho, meu novo costume local, e esperar a bendita mudança chegar, coisa que não tenho idéia de que horas será, mas imagino que seja no fim da tarde.

Saúde para todos nós e o resto a gente dá um jeito!

Mudança, micos e afins

A última semana em Madri, arrumando a mudança foi razoavelmente tranquila. As sensações eram ambíguas, vontade de ir, vontade de ficar, euforia e cansaço. Fiquei um pouco ilhada em casa, mas havia muito o que fazer. Mais para o fim da semana tive companhia para sair e no sábado chegou Luiz dos Estados Unidos para ajudar na mudança, que sairía na segunda-feira.

A verdade é que ele chegou absolutamente insuportável! Chato, ranzinza, mal humorado… e juro que tive vontade de mandá-lo logo para Londres e que me deixasse fazer a mudança sossegada! Mas tudo bem, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença… nos dias melhores e nos piores, fazer o que? Eu também não devia estar exatamente uma lady.

Sorte termos uma festa para ir o próprio sábado, o aniversário de uma amiga e temos vários amigos em comum. Acabou nos funcionando indiretamente como uma despedida e deu uma aliviada no peso de ir embora.

Na segunda-feira, cedinho, chegou o pessoal da equipe de mudança. Já conhecia todos pelo nome! O bom foi que, devido a confiança, já tinha umas vinte caixas fechadas, obviamente com nossas cachaças misturadas às roupas e lençóis, umas 40 garrafas! Não é ilegal transportar bebida, mas podem encher o saco, porque teoricamente seria necessário tributar a um custo absurdo. E vamos combinar, não sou comerciante, no nosso caso, elas realmente são para consumo próprio e dos amigos, é claro! O responsável pela mudança deu aquela olhada por cima das caixas e disse, estão bem embaladas, não precisamos refazer, só passou a fita em volta e levou como estavam.

Enfim, não foi uma mudança complicada, estava tudo mais ou menos adiantado e preparado para partir, afinal, ali só havia profissional no assunto, né? Assim que por volta das 13h, o caminhão partiu.

Infelizmente, não partiu diretamente para Londres. Faltavam ainda algumas autorizações, o que acabou atrasando essa saída umas duas semanas. Os móveis foram para o guarda-móveis da empresa aguardar a documentação. Mas nós pudemos liberar e entregar o apartamento de Madri, no dia 21 de janeiro.

Nossa passagem estava marcada para às 21h do mesmo dia. Tentamos adiantar o vôo para não chegarmos tão tarde, mas o custo dessa alteração seria astronômico. Daí decidimos relaxar, fomos almoçar no nosso restaurante favorito, o El Fogón de Trifón e, na sequência, fomos fazer hora na casa de uma amiga que mora pelo centro da cidade.

De lá fomos para o aeroporto, devolvemos o carro alugado e o avião saiu pontual. Admito que ia meio surumbática, não foi muito simples deixar Madri, é uma confusão de sentimentos, queria ir, mas um lado meu queria ficar também. Talvez fosse mais fácil se estivesse indo ao Brasil, não sei. Sei que sempre quero mais, queria todas as vidas ao mesmo tempo, universos paralelos.

Pelas 22h, uma hora menos em Londres, aterrizamos. Um motorista indiano foi nos buscar. Aparentemente, a assistente do Luiz fez uma reserva para que o carro buscasse duas pessoas com bagagem de mão. Nós tínhamos, além das duas bagagens de mão, mais quatro malas! Não sei na cabeça de quem alguém se muda com bagagem de mão, mas enfim, o indiano reclamava que o preço estava errado. Levamos um tempo para entender, me desculpei, expliquei a história e pela terceira vez que ele disse que o preço estava errado, perguntei: perfeitamente, e qual é o preço certo? Porque não ia entrar em um carro de um sujeito que não conheço, para no final da corrida ele me meter a faca, figurada ou literalmente.

Daí ele recuou e disse que não ia mudar o preço, que já estava certo. Pensei, então por que você está me pentelhando? Mas a partir disso ele não reclamou mais. Na hora de pagar, Luiz havia decidido dar uma arredondada para cima, foi quando descobrimos que a corrida já estava paga e ele foi honesto a ponto de não nos cobrar uma segunda vez. Ou seja, ele não estava querendo nos enganar, foi um mal entendido mesmo. E aprendemos que, ao fazer a reserva de um mini cab, é importante definir o número de malas levadas!

Muito bem, como chegamos tarde, a imobiliária onde estava a chave do nosso apartamento estava fechada. Além do mais, o apartamento estava vazio e não pensávamos em dormir no chão. Reservamos um quarto o mais barato possível, simplesmente para dormirmos enquanto resolvíamos essa questão.

Por isso, fomos a um Easy Hotel (é da Easy Jet). Eles tem um conceito interessante de hotéis simples, baratos e bem localizados. O quarto é mínimo, cabe só a cama e pouco mais e tem um banheiro pequeno. Custa entre $25 e $40 por noite, o que para Londres é uma barganha! É limpo e só para dormir quebra bem o galho.

Pois é, mas lembra que tínhamos 4 malas razoáveis, 1 mala de mão e uma mochila! Imagina como ficamos no quarto? Entulhados!

Pensei, beleza, porque amanhã pela manhã pego a chave do nosso apartamento e quando Luiz chegar do trabalho, levamos essas malas para lá. Podemos só vir aqui para dormir, até comprarmos o sofá cama que entregam no mesmo dia.

Tudo controlado, né?

Só se fôssemos outras pessoas, porque desde quando a gente consegue seguir o plano A até o final?

Na manhã seguinte, estava terminando de me arrumar para buscar a chave do apartamento, toca meu telefone, era Luiz, tenho que ir para Alemanha agora, vou dar uma passada aí no hotel só para pegar uma roupa.

O que vou dizer? Não, você não vai! Se ele tem que ir, tem que ir, ué!

Esperei com aquela cara de nádegas, caraca o que faço eu agora com 5 malas? Nem que eu queira tenho braço para subir a escadaria (claro que não tinha elevador) com tudo sozinha. Nessas horas, odeio ser o sexo “frágil”!

Bom, vamos uma coisa de cada vez. O pior que pode passar é ter que dormir sozinha aqui nesse hotel entulhada outra noite. Fazer o que?

Encontrei com ele que entrou esbaforido no micro quarto, colocou uma camisa e um pijama na mochila e saiu do mesmo jeito.

Saí em seguinda, em direção à imobiliária. Porque até esse momento, tudo parecia ir bem, mas não tinha em mãos nem a chave do apartamento, nem o contrato assinado pelo proprietário. E se não estivesse tudo certo? A simples possibilidade me gelava a espinha.

Encurtando o suspense, estava tudo certo. Peguei a chave, o contrato e fui para minha casa nova. Meu humor voltou a melhorar, gosto do nosso novo apartamento, nada é perfeito, mas acho que podemos ser felizes aqui. Bom, podemos ser felizes em qualquer lugar, mas em uns mais do que em outros.

A questão é que depois de pegar a chave, me parecia ridículo dormir em um quartículo de hotelzinho, quando tinha a minha disposição e já pago todo um apartamento. E melhor, o apartamento estava mais limpo do que esperava!

Quer saber, meu mal é fome! Tudo isso havia acontecido e eu estava ainda em jejum. Porque só ficaria tranquila com a chave na mão.

Fui para um café simpático da vizinhança, o Café Roma, que mais tarde se tornaria meu quartel general de internet, comi com calma, conectei no wi-fi gratuito para clientes e comecei a raciocinar melhor. Aproveitei, escrevi para um amigo português, perguntando se ele não teria um colchão para me emprestar.

Com as idéias mais claras, saí de lá decidida, vou mudar hoje nem que a vaca tussa!

Voltei ao hotel, minha mala eu aguentava. A mala que tinha roupa de cama, toalha e um edredon era a mais pesada, porque trazia outras coisas também. Então, esvaziei uma mala menor do Luiz, tudo por cima da cama, é lógico, e usei a mala dele para guardar o essencial. Com essas duas malas, eu podia. Peguei um taxi e trouxe para o apartamento.

Montei o edredon no chão, como se fosse um colchão, além do carpete novo que era fofinho. O forro do edredon virou minha coberta. Achei que se me colocasse bem perto da calefação, podia funcionar. Beleza, é aqui mesmo que fico!

Mas no hotel ainda estavam uma máquina fotográfica e jóias. Não me pareceu razoável deixar isso por lá. Voltei com a mala do Luiz vazia, dessa vez de metrô. No quarto, voltei a arrumar a mala dele outra vez. Peguei minha mala de mão, coloquei a máquina fotográfica, as jóias e o vinho mais caro que veio na bagagem, um Vega Sicilia. E novamente, pela terceira vez no dia, vim para o apartamento.

Dizem que faz frio em Londres, mas para ser sincera, com esse para lá e para cá, eu já suava em bicas! De frio, nada!

Fui no comércio local comprar o essencial para sobrevivência, papel higiênico, água, suco de laranja para o café da manhã, pão e requeijão. Vale comentar que, se em Madri o pequeno comércio é controlado pelos chineses, “chinos” como dizemos ali, aqui em Londres me parece que são os árabes ou indianos. Perto da minha casa tem umas quatro lojinhas, todas de árabes. Desconfio que são família, qualquer dia escrevo sobre isso.

Enfim, deixei tudo em casa, tomei meu primeiro banho quentinho e marquei meu território!

Foi engraçado quando fui beber água e não conseguia abrir a garrafa. Sempre peço esse tipo de coisa ao Luiz ou uso um tipo de abridor de potes que temos em casa. Fiquei rindo sozinha, isso Bianca, tão independente, se virando em outro país, fazendo na marra uma mudança improvisada… e incapaz de abrir uma bosta de uma garrafa de água! Ao final, consegui, era uma questão de orgulho, né? (e também de prestar atenção que havia um lacre nada difícil de ser aberto)

Nisso já era noite, não sei exatamente que horas porque aqui escurece bem cedo.

Pensei, já que vou encarar esse chão, melhor me preparar psicológicamente. Fui para o pub da esquina, The Elgin, onde teria wi-fi e álcool!

Apesar de ter passado por altos e baixos no dia, e ainda sem saber que essa oscilação seguiria pela semana, só de pensar que dormiria na minha casinha, me sentia melhor e até bem animada.

Pedi meu vinho, alguns aperitivos e abri meu ipad para ver como andava o mundo.

Nisso, liga meu amigo português que vive por essas bandas, o mesmo que escrevi de manhã, perguntando se tinha um colchão para emprestar. Ele tinha! A única coisa é que estava saindo para a Ópera naquela hora. Sem problemas, para hoje estou tranquila. Mas para o dia seguinte seria ótimo, porque Luiz não ia querer dormir no chão e estava sem vontade de voltar para nosso mini quarto de hotel (verdade que agora menos apertado de malas). Combinamos de almoçar na terça e ele traria o colchão para mim. Fantástico!

Outro amigo ligou, perguntando se precisava de alguma coisa, mas estava com tudo encaminhado. Combinamos de ir ao Ikea na quinta-feira, já com Luiz na cidade. É que ele tem carro e tem nos quebrado o maior galho nesse comecinho de mudança.

Falei com Luiz também, na Alemanha, parecia de melhor humor, talvez porque soubesse que as coisas estavam caminhando tanto aqui, quanto em seu trabalho. Ele jantaria com clientes e me ligaria no fim da noite.

Depois fiquei papagaiando pelas redes sociais e é engraçado como levei algum tempo para cair a ficha que era uma mulher sozinha em um pub, em um novo país. Porque me sentia acompanhada e absolutamente à vontade tomando meu vinho.

Pela terceira ou quarta taça, achei que estava de bom tamanho. Não sei se pelo vinho ou pelo cansaço do dia, me entrava um pouco de sono. Aliás, essa é uma coisa que notei aqui, provavelmente pela luz ou ausência dela, tenho mais sono. Para algumas pessoas, isso pode ser um problema, mas para mim que durmo mal, é bastante bem vindo. Principalmente, naquela noite.

Voltei para casa, encarei o chão, mas honestamente, não era tão ruim. Nem custei muito a cochilar. Pelas tantas, já passava da meia noite, ligou Luiz, tinha acabado seu jantar. Devia estar mortinho, coitado! Mas estava satisfeito com o clima de camaradagem e a empatia que rolou com os novos clientes. Beleza!

Fiquei naquela preguiça até o sono voltar outra vez e pensei: essa noite está bem melhor para o que me preparei!

Para que? Lei de Murphy total! Pelas duas ou três da matina, acordo com um tipo de apito! Hein? Que isso? É aqui dentro? É lá fora?

Se ouvia um apito, parava uns dois minutos e outra vez… apitava, parava uns dois minutos… outra vez! Taquiupariu, eu mereço!

Levantei e saí pela casa procurando, comecei pela cozinha e não achava nada. Quando passo pelo corredor, a porcaria apita sobre minha cabeça! Era o alarme de incêndio, um tipo de detector de fumaça que havia enlouquecido! Não soava tão alto nem continuamente, parecia estar com a bateria fraca, sei lá! Só sei que era torturante e ficou impossível dormir.

Por que não tentei desarmá-lo? Porque o infeliz ficava sobre um pé direito altíssimo e lembra que não tinha nenhum móvel em casa? Pois é… Depois de pensar um pouco até lembrei que poderia usar um pedaço de um cabideiro solto no armário embutido. A questão é que não tinha certeza que se apertasse um tal botão vermelho aquela porcaria se desarmaria ou desataria a apitar mais forte. Daí não só eu não dormiria, como sacanearia toda a vizinhança! Ou seja, bela maneira de fazer amizades no novo edifício, né?

Optei por entubar e escutei aquela bosta a noite inteira. Liguei o ipad com música no meu ouvido. Amenizava o ruído, mas também não me deixava dormir.

Quando deu um horário razoável, levantei para me arrumar e esperar meu amigo português.

Juro por qualquer coisa, na hora que resolvi levantar e passei no corredor para entender como devia funcionar a merda do alarme, acredita que ele parou de soar?

Eu devo ter tacado pedra na cruz!

Liga meu amigo português, avisando que não sabia, mas o marido havia emprestado o colchão para a irmã. Ui, e agora? Nada, sem problemas, ele podia buscar mais tarde, assim que a irmã voltasse do trabalho. Almoçamos assim mesmo? Claro!

Assim, recebi minha primeira visita! Mal ele entrou, a porta tocou novamente. Era o zelador do edifício. Simpático e doido para conversar. Feliz da vida que a obra no meu apartamento havia acabado, afinal, significava menos sujeira para ele limpar no corredor. Me mostrou o contador de luz, para que eu não precisasse pagar uma energia que não havia consumido e me avisou que, se eu quisesse, era só deixar o lixo pela manhã até as 10h, ao lado da porta, que ele recolhia. Nem acreditei! Achei que tivesse entendido errado! Sorte meu amigo estar comigo e confirmar, não foi isso mesmo, pode deixar o lixo fora que ele leva! Notícia que me fez cair de amores por estar morando aqui!

Quando comecei a mostrar o apartamento, adivinha o que começou a apitar? Ah, danado, mas agora é dia e estou acompanhada! Peguei o pedaço de pau do armário e escalei uma janela que ficava em frente, afinal, agora podia me apoiar no amigo visitante. Mas não parou. Acho que não apertei com vontade, mas quer saber, que se dane esse alarme, vamos para a rua e o caos que se encarregue! Agora já sei que se apertar o tal do botão vermelho, não dispara o bicho!

Fomos tomar um lanche e colocar o papo em ordem, era seu dia de folga, assim que estava tranquilo. Devidamente alimentados, me perguntou, quer tomar um vinho? Ele estava fazendo hora para voltar para casa e buscar o tal colchão na casa da cunhada (são vizinhos) que chegaria pelas 18h. Pensei, não vou fazer ele voltar aqui carregando um colchão para mim, também é abuso, né?

Peraí, vamos nos organizar! A única coisa que preciso fazer hoje é deixar minha chave no hotel onde dormimos a primeira noite. Porque a idéia era Luiz passar lá na volta do aeroporto e aproveitar o taxi para trazer o restante das malas para nossa casa. Havia perguntado a ele se queria que estivesse junto, mas ele disse que não precisava, porque chegaria tarde e não tinha certeza da hora.

Então, fazemos assim, passamos no hotel, que era perto, deixo a chave e pego uma das garrafas de vinho que trouxemos. Assim, garanto que tomaremos um vinho excelente e ainda diminuo o peso que Luiz carregará!

Fomos para casa do meu amigo português e ficamos conversando e tomando vinho bom, enquanto a cunhada não chegava. Na hora marcada, fomos até lá, buscamos o colchão inflável, que sim, era um pouco pesado para eu carregar sozinha muito tempo. Daí, como ele tinha que sair e viria na minha direção, pegamos a sacola e o metrô juntos. Mas ele saltava uma estação antes e eu não faria ele vir aqui outra vez. Deixa comigo, me viro, você já me ajudou bastante! O metrô é perto de casa, não terei que andar tanto. Se você diz… mas me manda uma mensagem quando chegar, para eu ficar tranquilo.

Subi a escadaria do metrô parecendo uma sacoleira e a bolsa parecia ficar mais pesada. Quer saber, a elegância que se dane! Mico, mico e meio! Apoiei o sacolão no ombro, no melhor estilo estivadora, e fui equilibrando entre o braço e a cabeça até a portaria. Que glamour é a vida européia!

Montei o colchão, mais confortável do que esperava, porque era alto e ficava como uma cama. Comparado ao edredon fino que havia dormido a noite passada, todo um luxo! Escrevi para meu amigo: sã, salva e com cama para dormir!

O alarme voltou a dar sinal de vida! Dessa vez, apertei o botão vermelho com vontade, acho que o próximo passo seria dar uma cacetada naquela porcaria e jogar longe! Fez um barulho mais forte e, ou adivinhando que seria eliminado ou porque finalmente fiz direito, parou de perturbar.

Luiz acabou chegando mais cedo do que pensava. Fiquei de olho na janela para ajudá-lo a saltar do taxi com o restante das malas. Dessa vez, estava bonzinho e carinhoso, sem as rabujices da semana anterior. Que alívio!

Lá fomos nós para o pub, comer alguma coisa, tomar um vinhozinho e conectar na internet.

Dia seguinte, quinta-feira, havíamos marcado de ir com um amigo ao Ikea, lembra? A única coisa é que havia decidido não comprar o sofá cama e sim um colchão inflável mesmo. Ainda precisaríamos de uma mesinha para computador, duas cadeiras baratas dobráveis e alguns cabides para quebrar um galho antes da mudança chegar. Mas isso seria só no fim da tarde.

Fui para o Café conectar e vi fotos de um evento gastronômico em Madri. Aconteceu exatamente na semana que me mudei para cá e, se não houvesse sido assim, teria a chance de participar. Indiquei gente que participou. Fiquei feliz por eles, mas triste por haver perdido a oportunidade. Essa sensação que conheço bem de morrer na praia, de quando começo a me estruturar para algo, simplesmente me vou. Meu humor não estava dos melhores.

Durante o dia, fiquei resolvendo coisas de casa, limpeza, compras básicas… Tento abrir as janelas, nada! Tento abrir a porta dos fundos, nada! Tudo grudado! Até que resolvi lavar a roupa, aqui temos máquina de lavar e secar. Geralmente, não gosto tanto de máquina de secar, mas em Londres, muito húmido, é bastante útil.

Ligo a máquina de lavar e cadê que sai água? Achei uma válvula que parecia a entrada de água, mas não consegui virar a chave para confirmar.

Caraca, mas vai ser assim todos os dias? Fico esperando qual vai ser a encrenca de hoje? Que saco! O que estou fazendo aqui? Tudo outra vez… foi apenas um momento, mas me senti só, cansada e um pouco triste.

Liga Luiz que está chegando e nosso amigo chegando também. Terminei de me arrumar e sentei na bancada da janela, afinal não tínhamos cadeira, para esperar.

Luiz entra em casa com um novo colchão inflável, começa a trocar de roupa rápido. Avisei que o problema do dia era a máquina de lavar roupa que não tem água. Ele não dá muita atenção e pergunta se é só isso. Não, não é só isso, as janelas não abrem, a porta dos fundos não abre, o radiador vaza quando fecha, a máquina de lavar não lava, a mudança não dá sinal de vida… quer a lista?

Ele respondeu que são coisas normais que iam acontecer. Voltei a sentar na bancada da janela calada e apenas pensei, normal para você que passa o dia na rua e chega à noite achando que os pepinos se resolvem sozinhos. Por acaso quando você chega preocupado eu digo que não há motivo porque seu trabalho é besteira?

Veio ele me perguntar, mas você já está puta com o apartamento? Acho que não era intencional, mas o tom era de cobrança e eu já havia chegado ao meu limite de paciência! O que ele esperava, que ficasse pulando de alegria feito uma maluca em volta dele? Casou com a Pollyana? Estourei e já com vontade de chorar. O que você quer que eu faça? Onde você quer que eu sente? Onde você quer que eu espere? Não tem uma merda de um móvel nessa casa, só posso ficar aqui! Não me enche! Me deixa em paz!

Ele me olhou com expressão arregalada de interrogação masculina, aquela do “Ih, apertei o botão errado!”. Me abraçou, pediu desculpas e disse que não queria brigar. Sábia decisão de homem casado. Também não estava afim de brigar, só queria um pouco de sossego.

Chegou nosso amigo, da carona ao Ikea. Amenizou um pouco o clima e começamos a mostrar o apartamento. Chegamos onde ficam as máquinas de lavar e mostrei ao Luiz onde achei que era a válvula que não consegui abrir. Claro que ele conseguiu! Já fiquei mais feliz e, consequentemente, ele também.

Bem em frente, fica à porta dos fundos que não abria. Na verdade, não é uma porta de saída, mas dá para uma pequena bancada externa, onde posso guardar algumas tranqueiras que não me caibam.

Os dois machos se interessaram pelo tema, principalmente Luiz, que só faltou quebrar o ombro, mas finalmente, conseguiu arrombar a tal porta, grudada pela tinta e sabe-se lá mais o que! A sensação que tive era que ele seria capaz de se rasgar todo mas ia abrir a tal da porta, em plano herói da mocinha em perigo!

Quer saber, achei lindo! As feministas que me perdoem, mas amo ter homem em casa! Principalmente, um que tem força para abrir coisas e se alegra em me exibir seus dotes!

Com o humor bastante melhor, saímos todos em direção ao Ikea. Compramos o que precisava, deixamos em casa e fomos ao pub jantar juntos.

Nosso amigo estava um pouco na dúvida, porque não queria jantar sem beber, nem beber e dirigir depois. Olha, Luiz acabou de trazer um outro colchão inflável para casa, só não temos roupa de cama. Ele pareceu pouco se importar, na verdade, pareceu nem se importar de dormir no chão mesmo, desde que estivesse liberado para aproveitar o jantar tranquilo.

Pelas 23h, voltamos para casa. Para mim, parecia ser no meio da madrugada!

Lá fomos nós encher o segundo colchão inflável. Pequeno detalhe, descobrimos que a bomba enchedora levava 24h para carregar! Ups! Mas… poderia ser inflado desde o isqueiro de um automóvel. Hein? Mas isso não faz o menor sentido! Pensamos nosso amigo e eu.

Bom, mas Luiz insistiu que era o que estava escrito. Então, se não há outra alternativa, vamos ao próximo mico!

Fomos para o meio da rua, com o colchão na cabeça, porque claro que não queria que ele tocasse no chão, e ligamos o tal motorzinho no carro do nosso amigo. Não é que funcionou? Fora o vexame de inflar e carregar um colchão pela rua à noite, deu tudo certo! Tiramos até foto!

E nessa noite, sem móveis na casa, além de dois colchões infláveis, um deles emprestado, tivemos nosso primeiro hóspede!

No sábado, menos de uma semana que morávamos na cidade, mais uma estreia. Um casal de amigos de Madri visitava a cidade e combinamos de nos encontrar. Foi legal e um pouco surrealista, como um deslocamento de tempo e espaço. E bom também para me lembrar que o mundo segue pequeno e as distâncias podem ser menores se nos empenhamos.

E nessa noite, tivemos nossa primeira visita internacional!

Faltou contar mais um detalhe das encrencas de começar na casa nova. Havia no apartamento algumas tranqueiras velhas, panelas, multiprocessador, cafeteira… muito sujos e tenho tudo dobrado, além de poucos armários e falta de espaço. Ou seja, já havia pedido duas vezes que fosse retirado. Na segunda vez, a corretora me indicou que guardasse em uma caixa de plástico no balcão de fora da cozinha. Ou seja, guardar lixo em casa em um espaço útil para mim. Hã-ham… pode deixar comigo!

Já havia separado tudo para jogar fora, quando recebemos um inventário detalhadíssimo sobre o que constava no imóvel, e incluía as velharias. Sendo que afirmava que não haviam sido testadas. Ah, é? Esse é o sistema? Então, jogamos com o sistema.

Passei ítem por ítem do inventário, fazendo observações tão detalhadas quanto. Mesmo o que estava disposta a conviver, deixei bastante claro que existia e que estava fazendo uma concessão.

Em respeito às janelas que não abriam, escrevi que me preocupava por não ser seguro nem saudável. O que em outras palavras é o mesmo de dizer que se houver algum acidente (isola), eles seriam responsabilizados. Americanos e ingleses tem um medo que se pelam disso!

No caso das velharias, não disse mais que não queria, disse que não estavam adequadas ao uso e se quisessem, poderiam checar, levar eles mesmos ou poderia gentilmente jogar no lixo. Como constava em inventário, se disse que não estava adequado ao uso, eles teriam que repor por iguais objetos em boas condições e claro que não estavam afim de comprar e investir em algo que eu nem precisava. Portanto, dessa vez não houve nenhum problema que eu me disfizesse do assunto.

Se foi pela metodologia utilizada ou por simples boa vontade do proprietário, nunca vou saber, mas sei que resolveu.

E vamos ao próximo mico, que é o último que contarei nessa tacada!

Acordo pela manhã, estou tomando meu café e toca o interfone. O interfone aqui faz um esporro impossível de ser ignorado!

Se identificou um rapazinho para medir o gás e luz. Abri a portaria, achando que seria do lado de fora, mas ele tocou na minha porta.

Vou eu atender, mas lembra que tinha acabado de acordar, né? Pois é, estava ainda meio descabelada e com pijama de vaquinha! E assim abri, tentando inutilmente me esconder um pouco atrás da porta.

Ele me diz que o medidor de luz era do lado de fora, mas que não estava achando o medidor de gás. Não seria na minha cozinha?

E eu, olha, acabei de mudar, não tenho idéia, mas espera que vou dar uma olhada. Fui na cozinha e não achei nada!

Voltei com o tal inventário que tinha uma foto do aparelho de gás. Falei para o indivíduo que não havia encontrado o medidor, mas tinha aquela foto. Ele olhou o valor, perguntou se eu usava muito o gás, quanto tempo havia mudado… acho que estava tentando calcular mais ou menos quanto poderia ser.

Mas ao mesmo tempo, como boa brazuca, poderia estar meio desconfiada de um estranho batendo à minha porta, dizendo que era leitor de energia e fazendo perguntas sobre nossos hábitos. Ele estava uniformizado, tinha um aparelho leitor na mão… enfim, parecia sério.

Pedi desculpas, disse que ia me informar, mas não poderia fazer muito mais. Ele foi educado e disse que tudo bem e iria verificar o contador de luz, do qual tinha a chave.

No que entro e com a imagem da foto que mostrei na memória, lembrei de uma caixa no banheiro que poderia ser, fui verificar e era!

Saio eu, com meu modelito bovino quitapasiones, atrás do indíviduo: achei! Bom, não dava mais para me esconder na porta, porque ele precisava entrar em casa.

Ele marcou o que constava no leitor de gás e se retirou rápido.

Pensei, beleza, se era um funcionário oficial, sua meta está cumprida. Se era algum ladrão, deve ter saído com a seguinte informação: cara, vamos assaltar outra casa, essa é esquisitíssima! Não tem móveis e a dona é uma louca que não sabe onde é nada e, ainda por cima, se veste de vaca!

O primeiro fim de semana foi inacreditavelmente de sol! Não um solaço, um solzinho tímido, mas suficiente para alegrar um pouco o espírito. Assim que começo a semana mais otimista e animada.

Um pepino aqui, um mico ali, mas vamos levando. Começos são complicados, mas também há sempre um lado instigante. E é inegável que há coisas bacanas.

O que tenho gostado mais é da diversidade de gente e sotaques pela rua. Quando a diferença é o padrão, com um mínimo de boa vontade, todos podem fazer parte. Não me sinto estrangeira quando falo, pelo menos por enquanto. Não me incomoda não falar perfeitamente, desde que me comunique. Não há nada em minha aparência capaz de chamar atenção, a não ser que eu mesma provoque. E toda essa mistura me faz sentir bem e com a confiança de que uma hora, o que quer que seja, vai dar certo.

A primeira semana em Londres

De turismo, não teve nada! Fomos com uma missão: arrumar um apartamento com urgência para morar no primeiro ano.

Não é simples achar um bom apartamento no centro de Londres, nem digo que por um bom preço, mas por algum preço possível de se pagar. E não basta só achar, você tem um tempo de negociação da proposta, uma parte burocrática até assinar o contrato… enfim, não é algo que se consiga fazer do dia para a noite.

Para complicar, nosso tempo era limitado. Chegávamos no dia 2 de janeiro, à noite e saíamos no dia 13, um domingo. Eu voltava para Madrid e Luiz seguia a trabalho para os EUA. Ou seja, nem adiantava eu ficar em Londres sozinha para agilizar nada, porque dependia do Luiz para assinar o contrato, apresentar comprovante de renda etc. Assim que tínhamos, no máximo, uma semana para fazer todo o processo.

O que fiz para ganhar tempo foi buscar uma série de opções por internet, além de pedir informação para os amigos. Os amigos ajudaram com dicas, mas às vezes ficavam sem graça de me dizer que determinado bairro era ruim ou desaconselhável, o que acho besteira. Nesse caso, realmente, preferia a sinceridade pura e dura para direcionar melhor os esforços.

Enfim, o bairro que achei que ia morar não nos agradou muito, mas havia um apartamento muito bom, que nos empolgou. Chegamos a fazer uma proposta, mas o proprietário relutava em baixar um pouco o preço. Acho que com mais tempo poderíamos haver conseguido, mas os corretores não são bestas e sacaram que tínhamos pressa.

Mas sei lá, houve um momento que empaquei e disse, não subo nem um centavo! Se tiver que perder, a gente perde. Ficou um clima meio chato entre a gente, acho que no fundo Luiz concordava comigo, mas estava preocupado em resolver logo. Quer saber, tinha alguma coisa que não estava agradando, nem a mim nem a ele, e acho que muito relacionado às redondezas do imóvel. Tem vezes que não é para ser e não era.

Ainda assim, a gente tentava à noite ir a algum bar e tomar um vinhozinho para relaxar. No dia que perdemos esse apartamento que contei, fomos a um pub onde o dono e a clientela eram quase todos russos (ou alguma nacionalidade parecida, como não falo o idioma, todos se parecem). O lugar é agradável e perto de onde estávamos hospedados, em Kilburn, chama-se Queens Arms. Era uma sexta-feira, tinha música ao vivo e estava bem cheio. A música era ótima! Até teria aproveitado mais, caso não estivesse com a cara embutida no meu ipad, buscando apartamentos como uma louca para visitar no sábado pela manhã. Depois vou querer voltar lá com mais calma.

Selecionei um monte de imóveis e Luiz ligava para tentar marcar visita. Entre esses, marcamos em uma imobiliária, em Maida Vale, para ver dois apartamentos. Vimos três, mas achamos pequenos. Conversando com a corretora, contamos do primeiro apartamento que quase fechamos negócio em Kilburn, mas estava um pouco acima do que queríamos pagar e tal.

Ela disse que, por aquele preço, havia um apartamento que acabara de entrar, mas estava terminando uma reforma e não haviam tirado fotos e anunciado ainda. Querem ver?

Macaco quer banana? Lógico!

Resumindo a ópera, foi justo esse apartamento que alugamos.

Mas não foi tão rápido, levamos toda semana para passar a documentação requisitada e assinar o contrato.

É assim, a primeira coisa que costumam te pedir é um valor, no nosso caso, referente a duas semanas de aluguel, para reservar o apartamento. Isso quer dizer que outros corretores da mesma imobiliária já não podem mais mostrar esse apartamento. Se o proprietário não concordar em assinar o contrato, te devolvem esse dinheiro. Se o negócio for fechado, entra como parte da fiança.

Quando você paga essa reserva, também preenche uma ficha para se candidatar ao apartamento. As perguntas são basicamente sobre sua documentação, fonte de renda e referências de antigos proprietários. Depois de preencher essa ficha, você deve enviar alguns documentos que comprovem o que disse.

Logo, há taxas de administração, como por exemplo para checarem se seus dados são verdadeiros (emprego e salário), se você tem algum problema de crédito e tal. Não é caríssimo, mas também não é barato, algo na ordem de grandeza de 200 libras e, acredite se quiser, pagos pelo potencial inquilino.

Se o proprietário te aprova, te enviam um contrato. Geralmente, é um contrato padrão e pode ter algumas cláusulas absurdas, como cuidar de um jardim que você nem tem, enfim, nesse caso, você simplesmente ignora porque não aplica.

Apenas no sábado seguinte, ou seja, uma semana após o dia que fizemos a proposta, conseguimos assinar o contrato. Entretanto, só nós assinamos, o proprietário ficou de assinar quase uma semana depois (que será amanhã). Mas entendemos que isso já está certo (espero!).

Daí, tivemos que pagar 3 meses como fiança e o valor do primeiro aluguel. Felizmente, não pedem que ninguém te assine como fiador.

Ainda bem que isso deu certo, porque caso contrário, estaríamos meio ferrados, pois no dia seguinte, embarquei eu para Madri e Luiz para Atlanta.

Vale dizer que Luiz começou a trabalhar já no dia 7 de janeiro. E não tínhamos o dia inteiro para resolver pepinos. Ele ainda precisou tirar o número da seguridade social, ou não teria salário, providenciar conta em banco, essas coisas. No meu caso, é possível esperar até estar morando de vez.

Durante todo esse processo, conseguimos encontrar um único amigo, na casa de quem inclusive ficamos hospedados nos últimos dias. Só no sábado, após fechar o contrato de aluguel, conseguimos uma pequena brecha para almoçar com mais duas amigas. Fomos a um pub simpático, chamado Eagle, em Clifton Road. Aliás, essa rua é bem legal, havia outras opções de restaurantes, talvez até melhores, mas estavam lotados. É perto do meu novo endereço e tem uma loja de flores show, que já fiquei de olho.

Cheguei a me comunicar virtualmente com antigos e novos amigos, aproveitei os dias que ficamos hospedados fora do centro e eu não tinha muito mais o que fazer do que esperar o contrato ser assinado. Mas um encontro mesmo, só na próxima ida a Londres.

Já temos um jantar, no início de fevereiro, marcado com uma das meninas que almoçaram conosco no sábado. A conheci pessoalmente naquele dia mesmo. Gosto de gente assim, que mal te conhece e chama para ir em casa, me identifiquei no ato!

Aos poucos, começo a pensar na minha vida na cidade. Normalmente, levo uns 15 minutos para me adaptar a um novo endereço, mas para isso, preciso de um ponto fixo, uma casa para visualizar. Daí tudo fica mais fácil.

Já comecei a imaginar um vaso enorme de flores brancas na mesa de centro, os primeiros hóspedes chegando, uma moqueca na nova cozinha, a festa de inauguração com Luiz agoniado porque convidei vários desconhecidos, a escova com a polonesa do salão de cabeleireiro perto do metrô, uma caminhada no parque próximo ainda que vá estar meio nublado, um capuccino descafeinado na esquina de onde poderei atualizar meu blog enquanto não tiver internet (e talvez depois que tiver também), o brunch com ovos beneditinos no italiano da rua de trás…

A festa de Ano Novo e despedida de Madri

Como andei dizendo em textos passados, bem no olho do furacão da mudança, decidi fazer uma festa.

 

Primeiro porque amo Ano Novo, é minha celebração favorita. Depois, porque acho que devíamos aos amigos um fechamento de ciclo recíproco e à altura. Nunca pretendi dizer adeus a ninguém, mas certamente a nossa vida muda e a deles também. Precisava desse ritual de passagem.

 

Assim que, apesar do momento ser um pouco estranho, acreditei que ia dar certo e planejei a festa como qualquer outra. O único detalhe é que nossa passagem para Londres estava marcada no dia 2 de janeiro. Por isso, teríamos apenas o dia primeiro para curar a ressaca, arrumar o apartamento e as malas. Um pouco cansativo, mas acho que valeu à pena.

 

Foi legal, a casa não estava lotada, muita gente viajou e Las Rozas não é o lugar mais fácil do mundo para transporte. Havia uma ordem de grandeza de pouco menos de 40 pessoas queridas, o que garantiu a animação.

 

Achei que podia rolar uma certa choradeira ou algum mico da minha parte, mas isso não aconteceu (ou não lembro!). Bebi, falei minhas besteiras, mas não exagerei nem fiquei deprimida. Aproveitei, curti e admito que bateu algo de nostalgia. No fundo, sabia que minha ficha ainda levaria um tempo para cair.

 

Celebramos, comemos, bebemos, cantamos, tocamos, soltamos fogos de artifício, brincamos… e quando me dei conta, já era quase de manhã. Acabei cansada e feliz.

 

A única perda foi que no fim da festa percebi que um dos meus brincos havia caído. Ainda que não seja muito apegada às coisas, adoro esses brincos. São feitos com peças de leques antigos de madrepérola, no passado os pais presenteavam as filhas quando se casavam. Uma prima do Luiz, que é designer de joias, comprou um lote desses leques e desenvolveu peças exclusivas. Ele quem me deu de presente. Mas enfim, um deles caiu e fiquei meio triste, com alguma esperança de encontrá-lo no dia seguinte.

 

Conto essa história porque é meio bobinha, mas com um fim inacreditável. Na manhã seguinte, Luiz quebrou meu galho e foi limpar a casa. Nisso, achou metade desse brinco, ou seja, ele se rompeu. Guardei apenas por uma questão afetiva, porque a probabilidade de achar a segunda metade era mínima. Ainda assim, busquei pela casa toda e nada.

 

Muito bem, viajamos para Londres e já contarei esse pedaço em outro momento. O que importa é que umas duas semanas depois estava de volta em casa, arrumando a mudança.

 

O tempo em Madri anda horroroso, ventando bastante. Por isso, um regador de plástico que tenho saiu passeando pelo corredor da varanda. Fiquei com preguiça de ir fora buscá-lo e ignorei o barulho chato que fazia às vezes.

 

Estava tratando de deixar o apartamento direito antes de entregá-lo. Tem coisas que não são minha obrigação, mas se posso colaborar, não me custa. Então, comecei a tapar todos os buracos de pregos que havia deixado pela casa, para o próximo inquilino encontrar tudo lisinho e ajeitar a seu gosto.

 

Em função disso, precisei buscar umas tintas que guardei do lado de fora, na varanda. E já que precisava sair mesmo, resolvi buscar o tal regador passeante, que inclusive já tinha rolado para mais longe.

 

Quando abaixo para pegar o regador, bem ao lado, no meio de umas pedrinhas, o que encontro?

 

Sim, a outra metade do meu brinco! Não acreditei! Provavelmente, caiu quando fomos ver os fogos de artifício que Luiz soltou no réveillon. Porque e como metade estava do lado de dentro e o resto do lado de fora, não tenho ideia!

 

Gostei de pensar que gentileza gera gentileza, mesmo quando a gente não imagine de onde venha. Se não tivesse me preocupado em deixar o apartamento melhor para o próximo morador, não teria buscado as tintas na varanda, não teria esperado o regador rolar até exatamente esse lugar, nem ido buscá-lo no justo momento que se encontrava ao lado do que procurei tanto.

 

Por causa dessa bobagem, me senti novamente protegida e tomei como um sinal de como devo me comportar esse ano. Quero ser mais gentil e acreditar nas pessoas. Por piegas que pareça.

 

Há alguns meses atrás, disse a mim mesma e aos meus amigos que a temporada de festas em casa havia se encerrado. Foi quando fui roubada embaixo do meu próprio teto por gente conhecida. Isso dói, porque faz você perder a crença nas pessoas e me deixou como mensageira da desconfiança alheia, o que é bastante feio.

 

Com o tempo, a poeira baixou e cheguei a conclusão que a culpa não era minha por confiar e sim de quem  não soube merecer essa confiança. E além do mais, seria muito injusto fazer gente querida e bacana se sentir mal por causa de um único idiota, seja quem for.

 

Quando surgiu o convite para mudar de Madri, refleti e voltei atrás na decisão de não receber as pessoas em casa. Não seria justo com ninguém. Sou o que sou, gosto de gente. E não me arrependi em abrir as portas novamente, porque assim é como deve ser, aqui ou em qualquer lugar.

 

Alguns dias depois, jantando e conversando com Luiz em Londres, ele me falava que ainda estava entendendo como funciona o preconceito no país. No sentido de se proteger ou de saber navegar nesse próximo mundo. Parei mais ou menos três segundos para pensar a respeito e simplesmente desisti. Quer saber, não me interessa! Ignorance is bliss (a ignorância é uma alegria).

 

Honestamente, não quero saber se terão ou não preconceito em relação a mim. Esse problema, por contraditório que pareça, não é meu, é de quem o levar. Continuarei tentando seguir meus princípios, me esforçando para ser gentil e dando um voto de confiança aos demais. Exatamente, o mesmo que quero que me concedam.

 

Posso estar mais atenta? Posso. Devo. Até por não querer ofender nem incomodar ninguém. Mas não quero me proteger de gente nem da vida.

 

Por tudo isso, assim comecei 2013, novo ano de portas e coração abertos.

 

Em algum momento, é bem provável que vá me machucar, tudo tem seu preço. Também posso machucar alguém, porque erro. Não sou santa e não tenho o privilégio de estar imune, mas realmente acredito que a couraça da gentileza e o acaso me protegerão. E que assim seja!

 

Começando pelo começo: procurar casa para morar em Londres!

Quem mais resolve mudar de país na época das festas de fim de ano? Fala sério, como diriam meus conterrâneos cariocas: tá de sacanagem comigo, aê!

Comecei a escrever essa história no dia 28 de dezembro, sem casa para morar em 2013. As imobiliárias todas de férias e com viagem marcada para Londres no dia 2 de janeiro. Menos mal que teremos até o fim de janeiro para tirar os móveis e liberar o apartamento de Madri. Mas dia 1º de fevereiro, tudo isso precisa estar resolvido e a mudança dentro do novo apartamento britânico!

Quem mais resolve mudar de país na época das festas de fim de ano? Fala sério, como diriam meus conterrâneos cariocas: tá de sacanagem comigo, aê!

Comecei a escrever essa história no dia 28 de dezembro, sem casa para morar em 2013. As imobiliárias todas de férias e com viagem marcada para Londres no dia 2 de janeiro. Menos mal que teremos até o fim de janeiro para tirar os móveis e liberar o apartamento de Madri. Mas dia 1º de fevereiro, tudo isso precisa estar resolvido e a mudança dentro do novo apartamento britânico!

Tudo bem, porque os ingleses são super flexíveis, né?

É assim, na nossa vida a gente não pode respeitar os prazos normais que as atividades necessitam. É ao contrário, a gente tem um cronograma com datas limite e eu que me vire para fazer caber!

Então, enquanto isso, o que poderíamos fazer? Uma festa, lógico!

Sim, no meio desse caos e com a casa meio de cabeça para baixo, resolvi fazer um Réveillon-despedida. Não tem problema, os amigos são todos de casa e a gente se vira. É um ritual de passagem. São oito anos em Madri, é importante encerrar um ciclo. Além do mais, a festa de Ano Novo para mim é a melhor de todas! É fundamental iniciar uma etapa com energia renovada e, dessa vez especificamente, uma vida literalmente nova.

Mas sobre a festa, conto depois, era só para descrever o contexto.

Vamos a questões práticas, como procurar apartamento em Londres?

Fui para internet, achei vários websites. O meu favorito foi o http://www.zoopla.co.uk/to-rent/property/london/ . O que achei legal foi a possibilidade de eleger não só a região em geral, como especificar suas delimitações, através do “map view”. Há outros que também andei olhando http://www.primelocation.com/to-rent/property/london/  e http://www.rightmove.co.uk/property-to-rent/London.html .Uma vantagem de todos esses é o fato de haver fotos e detalhes dos imóveis.

Fiquei vesga de tanto apartamento que vi fotografia! Acho que posso passear por Londres agora e saberei descrever quase todas as plantas de apartamento de dois dormitórios pela cidade.

O preço é ultrajantemente caro! Quem pensa em morar pela cidade, pode ir se preparando! O custo de aluguel é o dobro que Madri, para um apartamento com a metade do tamanho.

Assim que Bianquinha mal chegou em um apartamento com área útil parecida ao que tinha no Brasil e lá vamos nós nos desfazer de um monte de coisas outra-vez-de-novo! Exercício de desapego, lembra? Exercita… exercita…

A última vez que fiz algo parecido tem uns 10 anos, quando fomos de São Paulo para Atlanta. Confesso que agora, aos 43 anos, está me custando um pouco mais abrir mão do conforto.

Mas voltando a parte prática, como fizemos para caçar uma casa?

Alugamos um apartamento mobiliado, um studio, por uma semana para chegar e nos localizar. Casa de amigos é sempre uma possibilidade, mas geralmente, em Londres o pessoal mora em locais pequenos e com pouca estrutura para receber (lembra que os preços são abusivos, né?). Depois, a gente estaria em uma rotina meio pauleira para achar um apartamento a jato e não estávamos com muito tempo para vida social, infelizmente.

Usei uma empresa chamada “shortlet” (aluguéis curtos, eles trocaram de website). Alugam pequenos apartamentos mobiliados pela cidade a um preço bastante acessível. Acho que compensa para quem vai de férias também e não quer gastar muito com hotel. Foram honestos e as fotos do apartamento correspondiam à realidade. Não é nada de luxo, até bastante simples, mas limpo e bem aquecido. Eles também oferecem serviço de “mini cab” ou “transfer”. É o seguinte, taxi em Londres, daqueles que saem nas fotos turísticas, grandes e tradicionais, é bastante caro. Mas existe essa opção de carros que parecem mais aos nossos taxis normais que fazem esse trabalho a um preço melhor, mas tem que reservar. Enfim, esse pessoal faz o pacote completo, se você quiser. Buscam e levam ao aeroporto e alugam os apartamentos.

Bom, admito que me deu um pouco de medo no início, é que nos buscou um russo. Não sei nem explicar muito o porquê, mas tenho um medo que me pelo de máfia russa! Tento não ser preconceituosa pela origem, meu problema é que tenho muita dificuldade em entender os valores e comportamento do leste europeu em geral, por absoluta ignorância da minha parte. Não conheço os códigos.

Mas voltando ao meu medo sem sentido, nos buscou um russo, até relativamente simpático e nos levou para o imóvel alugado. Só que a entrada do edifício era em um tipo de beco meio escuro e esquisito. De dia, nem era tão ruim, quando você conhece, tudo bem, mas para a gente que estava acabando de chegar, sem saber direito sobre aquela zona e tarde da noite, foi um pouco assustador.

Ainda por cima, o que só entendi no dia seguinte, eles estavam reformando uma série de pequenos apartamentos nesse tal edifício. Assim que havia material de construção pelo caminho e dava uma impressão inicial ruim.

Felizmente, estava com o Luiz, porque se estivesse sozinha ia me borrar toda achando que estavam me vendendo como escrava branca! E o pior, por preço baixo, afinal já sou meio usadinha, né?

Mas isso foi fantasia da minha cabeça, nada de mau aconteceu e no final da semana até me sentia bastante segura. Russos alugavam os apartamentos e árabes faziam as obras, ou seja, desde que pagássemos direitinho nossa parte, o que fizemos logo ao chegar, nenhuma chance da gente ser assaltado no recinto!

Resumindo a ópera, os primeiros dias de busca de um apartamento definitivo foram bastante estressantes. Nem tanto pelo ato em si, mas pelo pouco tempo que tínhamos disponível. Basicamente, uma semana para resolver tudo.

Finalmente, encontramos um imóvel que nos interessou muito e fizemos nossa proposta. Levou alguns dias para sermos aprovados. Examinaram nosso crédito… se Luiz estava trabalhando mesmo onde disse que estava… confirmaram o salário citado… pediram referências de antigos proprietários de quem alugamos etc. Não pedem fiador, mas pedem entre 2 e 3 meses de fiança.

Uma coisa importante de saber é que, em Londres, é bastante normal darem o preço do aluguel por semana e não por mês. Há também um imposto anual que paga o inquilino (e não o proprietário), correspondente a mais ou menos 1/3 do valor de um aluguel mensal.

Assinamos o contrato em um sábado, pela hora do almoço. Sendo que no dia seguinte eu embarcaria para Madri de volta, afim de organizar a mudança. Ou seja, nos 45 minutos do segundo tempo! Mas o importante é que funcionou.

Os últimos dias, quando já tínhamos o apartamento definido e só aguardávamos a parte burocrática, ficamos hospedados na casa de um amigo do Luiz do tempo que eram adolescentes ainda (e isso faz tempo pacas!). Foi bom porque tinha mais jeito de casa, fiquei mais à vontade e pude cozinhar um pouco. A única coisa é que ele morava longe do centro, pelo que entendi, o que a grande maioria  do pessoal faz. Mas como já não estávamos mais na caça ao apartamento, não atrapalhou em nada, pelo contrário. Foi com ele que saímos a maior parte dos dias, para jantar, fazer compras ou ir ao Ikea (e sim, o Ikea de Londres também lota!). Ajudou bastante.

No sábado, logo após assinar o contrato de aluguel, na hora do almoço, fomos com esse amigo e mais duas amigas comemorar em um pub. Uma delas, nós conhecemos quando ela morou em Madri há alguns anos, a outra era amiga de amiga, só havíamos nos falado por internet e, por coincidência e porque o mundo é minúsculo, as duas se conheciam! Foi bem legal, estava mais relaxada por ter conseguido onde morar e deu para me distrair e me sentir chegando na cidade com algumas dicas importantes.

E, vamos combinar, chegar em outro país conhecendo alguém faz toda a diferença do mundo. E conhecendo gente boa, muito mais!

Aliás, esse negócio de amigo de amigo está até divertido. O bom é que já temos alguns amigos que gostamos morando na cidade, mas além desses, houve algumas pessoas que, ao descobrir que nos mudávamos, perguntavam se queriam que apresentasse alguém que eles conheciam e também morava por aquelas bandas. Lógico que eu disse que sim para todo mundo e saí me apresentando virtualmente para metade de Londres! Bom, tudo bem, estou exagerando um pouco, mas não muito…

Resultado, comecei a fazer um monte de amigos e, de momento, achando o pessoal bem bacana. Vamos ver quando conseguiremos nos conhecer pessoalmente. Também estou doida para encontrar os que já conhecemos. Enfim, louca para fazer uma festinha de inauguração!

Infelizmente, acho que precisarei me policiar um pouco e não chutar o pau da barraca. Londres parece bem mais rígida e tranquila que Madri. As pessoas não estão acostumadas a ruído e horários tardios. No meu contrato de aluguel, por exemplo, proíbe cantar e tocar instrumentos musicais em casa, é mole? Bom, vamos pouco a pouco, também não quero chegar e arrumar logo confusão.

Hoje é domingo, 13 de janeiro e acabei de desembarcar em Madri. De volta à terrinha para organizar a mudança. O plano A é sair no dia 21, de mala e cuia. Depende um pouco de conseguir as autorizações para a mudança e não sei como é esse esquema pelas terras britânicas, aqui é relativamente fácil, desde que você não more bem no centro da cidade.

Vim sozinha, Luiz vai trabalhar nos EUA essa semana e vem para Espanha no sábado, para me ajudar com a saída dos móveis de casa.

Realmente, torço para que nosso cronograma dê certo, porque é bem ajustado. Mas pelo menos, por enquanto, conseguimos cumprir os prazos.

Um casal de amigos me buscou no aeroporto. Ainda bem, porque, além de já não ter mais carro, cheguei meio destemperada. Nem a chave de casa conseguia encontrar! Duvidei de que botão de elevador deveria tocar. Estou meio lá e meio cá. Com vontade de chegar na minha casa que não é mais minha, de ir para a outra casa que ainda não é minha e sabendo que minha mesmo não é nenhuma das duas. Ou talvez, só esteja com sono.

Não reclamo, tenho muita sorte, recebo ajuda sempre que preciso e por isso agradeço. Só estou um pouco cansada mesmo e meio dividida. Agora a ficha está realmente caindo que vou, minha vida vai mudar, meu endereço, minha língua e meus caminhos.

O jogo já começou e só quero chegar ao fim da próxima partida com fôlego, inteira e maior. Apenas peço saúde para todos nós. O resto, a gente vai planejando ou improvisando o melhor possível.

De caracol a camaleão

Há alguns anos atrás, escrevi uma crônica sobre como me sentia em ser uma “cidadã do mundo”. Basicamente, o que antes soava como internacional e cosmopolita, naquele momento me fazia questionar sobre minha identidade. Achava que um cidadão do mundo era um cidadão de canto nenhum.

 

Muita água rolou nesse período, era o primeiro de oito anos que vivi em Madri, e nem era minha primeira grande mudança. Sigo tendo meus problemas e questionamentos, mas sei muito bem quem sou. E mesmo que mude, o que é bastante provável, já não dói.

 

Tenho, literalmente, uma nacionalidade a mais, sou brasileira e espanhola. Falo, melhor ou pior, cinco idiomas. Caminho para meu endereço número 37, entre cinco países e oito cidades. Dou as estatísticas apenas como referência e para manter a memória registrada, porque já começa a me falhar.

 

Há anos meu país é minha casa, meu lar é minha cama, meus amigos são minha família, minha família de sangue é meu porto seguro e Luiz é meu norte (às vezes sul, leste, oeste…).

 

Descobri que não basta carregar a casa nas costas, o que sigo fazendo, mas a gente também precisa se adaptar à paisagem. Na verdade, precisar, não precisa, mas torna a experiência mais intensa e enriquecedora.

 

Pratico o desapego regularmente, por necessidade ou por disciplina, ou talvez porque seja minha natureza. Nunca passei grandes privações e nem sempre por mérito meu, tenho sorte, mas também nunca sofri muito tempo pelo que não podia ter. Minha linha de decisão é bastante primária e simples: quero ou não quero, posso ou não posso. O resto é circunstancial.

 

Não defendo que essa seja a melhor ou mais certa maneira de ser, há infinitas! Mas para quem pensa em optar por uma vida nômade, é melhor saber onde está se metendo, porque nem tudo são flores e aventuras. Ser razoavelmente livre dá o maior trabalho!

 

Em janeiro de 2013, desembarcaremos em Londres, nossa próxima estação. Como de costume, só temos data de chegada.

 

E quem quiser compartilhar essa próxima viagem, que seja bem vindo!