A Decisão Que Mudou Minha Vida

Em 2020, em plena pandemia de Covid, o isolamento me fez pensar no futuro que queria para Luiz e eu.

Casei em 1994, literalmente no século passado. Mais da metade da minha vida é como uma mulher casada, e bem casada, posso dizer com certo orgulho. Portanto, era e ainda é natural para mim pensar sempre em conjunto. O que queremos… onde vamos morar… o que vamos comprar… o que vamos comer…

Sem perceber, os pronomes possessivos foram se tornando limitados, quase já não havia os meus ou as minhas, havia os nossos.

E talvez pareça estranho, mas não falo isso com rancor ou por queixa, a vida caminhou assim e eu gosto de ter a “nossa” vida. Porém, em um momento de reflexão, onde estávamos todos isolados, além da oportunidade de olhar mais para ele e para nossa convivência, também tive a chance de olhar para mim, de verdade, sem máscaras, sem desculpas.

Não tenho certeza o quanto foi consciente ou apenas instintivo, sei que, de tempos em tempos, preciso me lembrar quem sou, finalizar meus ciclos. Sim, MEUS ciclos.

Entendo que nada ou quase nada é possível de ser realizado sozinha ou sozinho, todo mundo precisa de alguém em algum momento. E me considero uma pessoa privilegiada e grata por sempre ter com quem contar, com quem compartilhar. Sendo muito justa, Luiz faz seu melhor em me valorizar e demonstrar sua gratidão também. E não é sobre isso que estou falando aqui, quero chegar em uma camada mais profunda.

Quero chegar a um machismo estrutural em que estamos tão entranhados que, por mais ativistas que sejamos, é difícil perceber certas entrelinhas. Acontece que o diabo está nos detalhes.

Meninos e homens falam dos seus brinquedos, dos seus carros, dos seus empregos, dos seus méritos… sempre na primeira pessoa. Não há, necessariamente, nenhum mal nisso. O problema acontece quando uma mulher, principalmente casada, por mais independente que seja, fala das suas coisas com os mesmos pronomes. E, de repente, esses mesmos pronomes soam mais possessivos. Por que?

Para as mulheres, o nosso inclui o meu; para os homens, o meu inclui o nosso. É sutil, mas está lá, na língua, nas brincadeiras, na maneira de falar que conduz o pensamento. Ainda que todos precisem de alguém e esse é um fato que esteja implícito, fico sempre com a impressão que é preciso ser deixado mais claro quando é uma mulher que fala ou age.

O “meu” da mulher é interpretado como mais atrevido e excludente, o que é bastante absurdo, porque não quero excluir ninguém, o pronome é absolutamente o mesmo. Simplesmente, não vou aceitar ser apagada, total ou parcialmente. E essa é uma responsabilidade minha. Mulheres, essa é uma responsabilidade nossa! Não podemos mais nos sentir culpadas em falar na primeira pessoa, ou será impossível sermos protagonistas da nossa própria história.

E mesmo que eu não precise, senti a necessidade de dar toda essa explicação para dizer que ao longo de nossa vida de casados, Luiz e eu sempre mantivemos nossas individualidades em paralelo à nossa vida em comum. Havia os planos dele, os meus e os nossos. E tudo bem, porque o principal sempre esteve presente: o respeito e as livres escolhas.

Mas houve um momento, e é difícil me lembrar quando, que os planos meus foram se convertendo em todos nossos. Não sei se isso aconteceu também com ele e não me cabe falar sobre suas escolhas, as pessoas tem necessidades diferentes. Aqui conto a minha versão da história.

Estava confortável com essa situação. Digo novamente, não venho para me queixar ou me arrepender, muito menos para culpar ninguém. Só venho contar que um dia isso ficou pouco para mim, que eu precisava mais, que eu precisava tomar novamente as rédeas do meu próprio destino. Essa responsabilidade era minha e somente minha. Não há nada de excludente nisso e não diminui em nada nossa relação, muito pelo contrário.

Está tudo muito bom… está tudo muito bem… mas aos 50 anos de idade, em 2020, eu não tinha mais tempo para dúvidas existenciais. Eu já sabia e sei muito bem quem sou, a pergunta agora era: quem eu queria ser nos próximos anos?

Eu queria ter um propósito. Eu queria usar o que aprendi. Eu queria deixar um legado positivo.

Eu. Meu.

E essa decisão mudou a minha vida. Apenas precisava descobrir como fazer, mas vou contando com calma, porque essa é uma outra história…

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