Minhas gordas

Sou uma mulher normal, com as mesmas neuras em relação ao próprio peso que outras muitas mulheres normais. Mas entre nós, no fundo gosto da palavra “gorda” ou “gordo”, é gostoso de dizer, principalmente em tom carinhoso. A gente enche a boca para falar e ainda faz biquinho.

Enfim, conto isso pelo costume que ganhei quando entraram dois felinos na nossa vida, o Jack Daniel’s e a Buchannan. Ele gordinho desde filhote e ela magrela que era pelo e osso. Não fazia diferença, chamava os dois de gordos. Assim que meus gatos tinham nome e apelido, e pasmem, atendiam aos dois!

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Muito bem, nessa época, eu trabalhava como artista plástica e um belo dia, minha vizinha tocou na minha porta para conversar. Dizia que tinha uma filha com uns 9 anos, que estava com alguns problemas sérios de timidez. A mãe acabara de mudá-la de escola, pois na anterior sofria “bullying” constantemente. Também havia mudado de casa e ficou, de uma hora para outra, completamente sem amigas. Ela perguntou o que eu achava de dar aulas de arte para a filha, achou que podia ajudar.

Como não? Fiz um preço camarada e topei.

Chegou na minha casa uma menina que mal abria a boca de vergonha, toda sem graça! Fiz de conta que não notei e fui tocando a aula de uma maneira mais livre, sem cobranças. Até que duas figurinhas resolveram aparecer na sala para checar quem era a nova visitante.

Quando minha aluna percebeu a presença dos dois felinos, parece até que esqueceu da tal timidez. Ficou completamente encantada e doida para brincar com eles!

Pensei, agora ferrou de vez! A pobre já está toda triste e se sentindo rejeitada, vai querer fazer amizade logo com os gatos! Sim, conosco eles eram muito carinhosos, mas fora a gente, só com raríssimas exceções e assim mesmo levava um tempo para ganhar confiança. E com criança então, putz, eles fugiam e se escondiam igual diabo foge da cruz!

Meu gordo, como diz um amigo meu, não estava nem aí para a paçoca! Não deu grandes bolas, mas verdade que também não atrapalhou, ficava sempre de longe observando.

Já com Buchanan, aconteceu algo incrível, que talvez só quem tenha bicho possa entender. Ela parece que percebeu que a menina precisava dela e simplesmente a adotou de cara! Foi completamente receptiva, carinhosa e dócil. Se deixava carregar para cima e para baixo, das maneiras mais esdrúxulas, com toda a paciência. E isso porque era uma gata que detestava ficar presa em colo! Era realmente bonito ver os laços que as duas criaram, ao ponto da minha jovem aluna dizer que minha gorda era sua melhor amiga! E veja bem, nessa idade, “a melhor amiga” era importantíssima!

Poderia contar mil histórias bonitinhas a respeito, mas hoje queria mesmo dizer que a menina achava muito curioso eu chamar uma gata tão magrinha de gorda. Expliquei que era uma maneira carinhosa de falar, não me importava o peso ou a aparência, o gato era meu “gordo gorducho” e a gata minha “gorda magrela”. Ela entendeu muito rápido e passou a adotar a mesma terminologia, geralmente, se divertindo bastante em chamar “gooooorrdaaa” e a gata responder toda manhosa.

Resumindo a ópera, algum tempo depois, me mudei desse apartamento. Minha aluna entrava na adolescência completamente diferente da primeira vez que entrou na minha casa. Acho que foi um conjunto de providências tomadas por uma mãe atenta, também por seus próprios méritos, nunca é uma coisa só. Mas tenho certeza absoluta que minha felina teve um papel fundamental na recuperação da confiança e da auto estima da menina. Entendi o poder que tinha o amor e a amizade de um bicho.

Faz uns nove anos que minha gorda sensível se foi, às vezes, me visita em sonhos. E faz um ano que se foi meu gordo bonachão, sinto sua falta, ainda que já não seja mais sofrido.

Andamos pensando em adotar outro gato ou gata. Mas ainda não surgiu a ocasião certa, acho que essas coisas a gente sente.

Reparei que pelas redondezas da minha casa, passeava uma felina malhada muito sociável e simpática. Bom, assumi que era fêmea por causa de uma barriguinha flácida, parecida a de gata parida, mas certeza mesmo, não tenho, acho que não importa tanto seu sexo. E por não saber se levava um nome, e pela barriguinha peluda que balança quando ela anda, também a chamo de gorda.

Luiz já a viu dentro de um apartamento, que é onde desconfio que ela more. Acontece que é bastante livre, acostumada a passear pelos jardins do condomínio e pelos parapeitos do edifício. Assim que, também não tenho certeza absoluta que ela tem dono, mas quase certeza. Afinal, está bem de peso, parece saudável e com certa idade.

Muito bem, agora em julho, Luiz viajou, fiquei sozinha em casa por uma semana. Não costumo ter problemas com isso, tenho minhas coisas para fazer e geralmente não sou audiência para solidão. Mas confesso que nesses dias, senti falta do meu felino gordo e da companhia que ele me fazia em casa.

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Não me queixo de Londres, aos poucos venho conhecendo gente bem bacana. Mas leva um tempo até poder ter a mesma facilidade que tinha em Madri, de sair sozinha sem me importar, porque tinha certeza que no bar, no concerto ou na esquina, encontraria um rosto conhecido. Sinto falta de me locomover sem dificuldade pela cidade, saber onde é tudo e poder sempre voltar caminhando.

Sinto falta da casa cheia, de cozinhar para os amigos, de receber visita. Não tenho certeza, porque não sou íntima do conceito, mas talvez estivesse me sentindo um pouco só.

Daí, dentro desse clima, estou eu no computador, olho para o lado e quem me aparece?

A gorda malhada, dona do condomínio, veio checar se tudo estava nos conformes. Me fitou com aqueles arregalados olhos felinos, que parecem sempre estar te perguntando alguma coisa: e aí, me chamou?

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Fiquei sem saber muito o que fazer, abri um pouco a janela e comecei a brincar com ela desde dentro. Nesse dia, ela só botou a cabeça e pediu um pouco de carinho. Tentou entrar, se embolou com a corda da persiana, se assustou um pouco e foi embora.

Dia seguinte, ela voltou. Admito que estava esperando, o que parece meio maluco, considerando que era uma gata! Mas ela não decepcionou. Dessa vez, tirei as cordas da persiana da frente e já providenciei um copo de água.

Aos poucos, fomos criando nossos códigos e surgiu nossa amizade. Há semanas, ela me visita diariamente. Como quem recebe uma amiga, já deixo separado e a mão água, um pouco de comida e a deixo passear por alguns ambientes da casa.

Suas visitas são rápidas e rotineiras, ela chega, pede para entrar, pede carinho, aceita comidinha, bebe água, pede mais carinho, passeia pela casa, confere se está tudo bem, pede mais carinho, fica um pouco ao lado fazendo companhia e olhando da janela, depois vai embora, do mesmo jeito que chegou. Não parece querer uma dona, não parece precisar de nada, simplesmente vem me visitar. E é o suficiente para equilibrar a energia da casa e animar meu dia.

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E só para concluir uma história que ficou incompleta lá atrás, sobre que fim levou minha aluna. Ainda mantivemos contato por algum tempo, até me mudar do Brasil. Eu a tinha como amiga no falecido Orkut, onde procurava não passar muito nem deixar recados, afinal, ela já estava uma mocinha e não ia fazer ela pagar esse mico! Pois até onde sei, era uma adolescente normal, bonita, feliz e com várias amigas. Fiquei curiosa de ver suas fotos e me parecia sociável e confiante, nem de longe a menina tímida e insegura que conheci. Me perguntei se ela ainda lembraria da Buchanan, o que não era importante, afinal a gata já tinha cumprido com louvor sua função. Até que vi uma foto de um grupo de meninas muito queridas, pareciam grandes amigas abraçadas, com o interessante e familiar título de “minhas gordas”.

7 comentários em “Minhas gordas”

  1. Bi querida,
    sabe que vocês introduziram em mim o gosto pelo universo felino?!
    Realmente foi uma das melhores coisas que me aconteceu aqui… Até chegar a Kristal em minha vida…
    Hoje posso chamar-la de gorda mesmo, porque anda gordinha… e cada dia mais sem vergonha… antes que era toda vergonhosa e assustada, acho que é a convivencia comigo e Carlos, porque está discarada e já por duas ocasioes tivemos que entrar na casa de duas vizinhas para buscar-la… imagine!!!!

    Sempre vigiando ela para que nao me escape… é uma companhia adoravel mesmo…

    O gorduchinho do Jack no proximo mes vai fazer um ano da sua morte… e quanta coisa já mudou na vida de vocês né??!!
    Olha que bacana, uma gatinha vem te buscar ai na sua janela?!?!!
    Tem coisas na vida que só entendemos ao passo do tempo…

    A historia é linda… adorei… beijos grandes com muitas saudades de vocês!!!!

  2. Oi, Patrícia! Kristal é uma fofíssima! Quer dizer que agora vai visitar a vizinhança? rsrsrsrsrs… Jack era medroso de sair, pelo menos isso facilitava 🙂 Beijão

  3. Acho, mas às vezes não dá… rsrsrsrs… vou tentar em setembro para o níver da Mary 😉 Beijo

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