A burocracia da morte

Assunto tabu, eu sei, para mim também era, não é mais. Ninguém gosta muito de falar a respeito, é fato, mas está lá e não há como fugir. Tem que resolver e se resolve no olho do furacão mesmo.

Assim que nossos dias no Rio seguiram trabalhosos. A gente não pensa muito nisso normalmente, mas há uma grande burocracia após um falecimento. É necessário dar entrada em pensão, seguros, inventário, trocar nome de contas etc. Acho complicado, porque geralmente a família está sensível, principalmente os viúvos, muitas vezes idosos, e pensar em todos esses detalhes deixa qualquer um baratinado.

Vou logo avisando que nem adianta a hipocrisia de dizer que não é hora de se pensar em dinheiro nesse momento, porque as contas continuarão caindo do mesmo jeito, nada para no planeta porque você ainda está dolorido por sua perda. Tampouco pense que a maioria será ao menos condescendente. Principalmente os seguros, farão o melhor para dificultar seus direitos e se esforçarão para que você fique em um vai-e-vem insano. Tudo vale para prolongar o tempo de recebimento de seus benefícios. Sem falar na máfia dos cartórios. Não importa que você vá pessoalmente, com sua identidade original a algum lugar, você não é você se sua assinatura não estiver reconhecida em um cartório.

No caso da minha sogra, ainda havia uma complicação extra, dos três filhos, dois moram fora do Brasil e o que mora no Rio não quer resolver essas coisas. Assim que precisávamos botar as pilhas e já deixar tudo o mais adiantado possível.

De uma maneira torta, há uma vantagem, porque apesar de muito cansativo, faz você desviar o pensamento. Você ativa seu lado racional e automaticamente, suas emoções ficam sob controle.

Acho o tempo do luto muito importante, ele é necessário para você entender a perda e seguir bem. Mas nada impede que ele seja misturado com outras emoções ou afazeres e talvez isso também seja bom. Porque é possível que na hora mesmo que você precise encarar a realidade, esteja mais forte e tenha ampliado sua perspectiva.

Meu sogro deixou sua morte muito bem preparada. Se preocupou com detalhes que me impressionaram. Para dar um exemplo, seu velório estava pago, definida a roupa que queria usar e o que colocar sobre o caixão. Havia por escrito os passos que deveriam ser tomados, quem deveria ser procurado, telefones, endereços etc. Uma preocupação sobretudo em deixar minha sogra amparada.

Achei de uma generosidade ímpar! Porque a maioria das pessoas não quer nem pensar nisso, acha de mau tom, mau agouro. E na verdade, não falamos a respeito porque nos incomoda pensar na nossa própria morte. Só que para quem fica é um tremendo abacaxi, pelos motivos que estou enumerando e por muitos outros. E um abacaxi para ser descascado em um momento de fragilidade. Assim que foi muito lúcido e corajoso de sua parte se organizar com antecedência.

Acho que a naturalidade com que tratou sua futura morte para mim foi um exemplo. Desmistificou o evento e, o mais importante, o deixou presente em todos momentos. Seguros de estar fazendo o que foi pedido ou desejado. Ter um norte nessa hora é fundamental.

Minha parte era mais fácil, de certa maneira, não tinha a responsabilidade de fazer nada propriamente dito, mas aprendi bastante estando ali e tentando apoiar na medida do possível. Lição dura, mas impagável!

Nem tudo foi trabalho ou tristeza, procuramos estabelecer uma rotina com pequenas válvulas de escape. De dia, resolvendo os pepinos que precisassem e à noite tentávamos relaxar um pouco. Minha sogra dorme muito cedo, pelas 20h. Mas conosco em casa, ela ficava sem graça de se deitar. Então, quando chegava perto desse horário, a gente saía para dar uma volta a pé. Era bom para ela, que ficava à vontade para ir dormir e para gente que mudava um pouco de ambiente. Não era tão planejado, saíamos caminhando pelas calçadas da Urca, daí quando chegava perto do Belmonte, nos perguntávamos, bebemos o morto? Sentávamos, tomávamos uma cachacinha com ele e voltávamos. Nada em excesso, não queria me arriscar à bebida descer torta, mas o suficiente para deixar o peso mais leve.

Um pequeno grande detalhe é que em meio a tudo isso era o aniversário da minha mãe. Ela não estava com vontade de comemorar, por motivos óbvios e também porque imagino que estivesse constrangida por causa do Luiz. Pois já fui logo dizendo que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! A gente sempre acha que a vida deve ser celebrada. Contexto perfeito não existe, a gente tem que se ajustar. Luiz também não via nada demais e deu força. Então, agitei um barata voa de fazer um jantar no dia do aniversário dela, caiu numa terça-feira.

É lógico que não era um festão animado, ninguém é tão insensível assim, mas por que não um jantar mais especial com a família, certo? Para meus pais, não é sempre que estão os dois filhos juntos, apesar dos pesares, também tínhamos muito o que comemorar.

E assim foi, na terça-feira à tarde, me dividi com Luiz, ele ficou resolvendo papelada e fui para casa dos meus pais ajudar a cozinhar e preparar as coisas. À noite, Luiz se juntou a nós. Minha mãe fez um camarão no leite de côco, que é parecido a uma moqueca, preparei uma lagosta na manteiga de alho e uma bacalhoada. Adianto que ficou uma delícia, principalmente bem regado a espumante! Foi divertido, minha mãe fica engraçada depois de umas taças de prosecco, que ela adora.

Valeu e achei ótimo poder aproveitar uma coincidência triste da viagem de uma maneira positiva e alegre. Prefiro que, no futuro, a lembrança desse período siga sendo de um aniversário.

E já que estava falando em comida, minha sogra gosta muito do meu feijão, assim que aproveitei a mão e, na quarta-feira, fiz uma feijoada caprichada para gente. Sei lá, acho que tem um momento brazuca que a gente precisa do conforto que traz um arroz com feijão. Não é só o alimento, é a memória do conforto de casa. Pelo menos, comigo funcionam esses pequenos rituais, como sinais ou amuletos de que tudo está no seu lugar ou vai dar certo. Ok, sei que às vezes é um pouco viagem na maionese, mas o que importa é que o feijão ficou bom pacas! Minha sogra comeu dois pratos, o que para quem come como um passarinho, é um elogio astronômico. Minha cunhada estava conosco e foi ainda melhor compartilhar alguns minutos breves para esquecer que o mundo é louco.

Na quinta-feira, Luiz ainda conseguiu dar entrada nos últimos seguros pela manhã, eu fiquei para passear um pouco com minha sogra pelas calçadas da Urca. Minha mãe veio se despedir da gente e aproveitar para visitar minha sogra.

À tardinha fomos para o aeroporto. Saímos cedo, com medo de ficarmos parados pelos protestos contínuos que vinham acontecendo. Abro parênteses para dizer que esse capítulo das manifestações no Brasil, que começaram exatamente quando estávamos por lá, só nos encheram de orgulho. Em outro momento, falarei sobre isso.

A viagem de volta foi cansativa, turbulenta e longa. Cheguei exausta e com o corpo dolorido! Mas enfim, chegamos sãos e salvos e, no final, é só o que queremos.

4 comentários em “A burocracia da morte”

  1. Bi, que texto lindo, vc escreve super bem, cozinha melhor ainda, sua feijoada NUTRIU, a alma, os sonhos, os corpos…acho nutrir algo magico, foi delicioso, obrigada de novo, bj

  2. Pois é Bianca, passamos pelas mesmas “emoções” na mesma semana. Meu pai se foi de supetão e cá estamos nós no Brasil tentando arranjar as coisas, que no meu caso nem foram tão rápidas assim… e continuo correndo atrás de papeladas, matrículas, INSS e tudo mais… tanta burocracia, mas como você disse, nos desvia o pensamento.
    Estou lindando com a morte de uma forma estranha, nem sei direito o que sentir… uma coisa foi a perda dos meus avós, mas meu pai com apenas 67 anos, foi dureza.
    Adorei seu texto… e vamos tocar a vida!
    bjos

  3. Oi, Mirella! Pois é, foi um período estranho e de perdas para nós e para amigos. Sinto muito pelo seu pai também, e realmente, ele era muito jovem. Acho que a maneira de lidar com a morte vai mudando mesmo, pelo menos, a minha vem mudando ao longo dos anos, não sei se pelas perdas, pela idade ou por tudo junto. Quanto à parte burocrática, ainda está rolando, a parte de dar entrada nos papéis foi mais rápida, mas é só a ponta do iceberg, né? Agora ainda tem que começar inventário e blá blá blá… sabe como é… enfim, como você disse, vamos tocando a vida e se quiser trocar idéias, aqui estamos. Beijão

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