O deserto de Wadi Rum, Jordânia

Localizada aproximadamente a uma hora e pouco da fronteira de Aqaba, se encontra uma região do deserto onde é possível alojar-se. É um território protegido e há uma série de regras para se construir ou se habitar.

Ali não há um grande hotel ou resort, mas acampamentos que seguem as tradições nômades. Há um centrinho de cidadezinha com guias e informações turísticas, mas tudo muito austero e rústico.

Você não pode simplesmente pegar sua barraca e ir para lá acampar. Como disse antes, é um deserto, mas tem regulamento. Inclusive, é bastante perigoso de se perder para amadores ou pessoas que não conheçam a região. É sempre aconselhável que você se movimente com guias locais.

Os beduínos habitam essa região há milhares de anos e seu estilo de vida está totalmente adaptado às condições áridas existentes. De maneira geral, nos pareceram ser gente amável e sorridente. Se movimentam de tempos em tempos com seus rebanhos de camelos, bodes e ovelhas. Administram com cuidado os escassos recursos naturais, principalmente a água. Suas tendas são feitas pelas mulheres com a lã dos bodes. Em árabe chamam essas tendas de “casas de pelo”. Segundo eles, é a solução mais apropriada ao meio ambiente. As tendas podem ser desmontadas e remontadas com freqüência, garantindo liberdade de movimento. Possuem aberturas flexíveis que se adaptam às mudanças de direção do vento e são biodegradáveis. Tem uma coloração marrom escuro e são compactas como uma lona.

Muito bem, descobrimos um acampamento, o melhor dessa zona, chamado Bait Ali. Uma amiga do trabalho do Luiz havia ficado lá e nos deu a dica. É bem cuidado, dentro das limitações existentes, e possui uma boa estrutura, capaz de proporcionar conforto, mas ao mesmo tempo, deixar que você experimente a aventura de estar no coração de um deserto.

É um complexo murado, onde você pode optar por alojar-se em cabanas ou quartos. Há banheiros comunitários para quem elege as cabanas e os quartos possuem banheiros privados. Por incrível que pareça, cheguei a cogitar optar pelas cabanas, afim de viver mais intensamente a experiência. Mas a possibilidade de ter um banheiro privativo e, pasmem, um ar condicionado disponível, foi irresistível. Principalmente, pelo fato de termos ido exatamente no verão.

Resumindo, sim, fomos a um acampamento nômade, mas não passamos nenhum sufoco, nem precisamos fazer o número 2 atrás de uma moita!

Enfim, ficamos em um quarto grande, austero na medida exata. Tinha o que precisávamos e mal parávamos ali. Não tinha televisão nem frigobar. O banheiro era simples, não há banheira nem secador de cabelos, estávamos em um camping, lembra? Mas era limpo. Não tínhamos problema de falta de água, entretanto o aquecimento era solar, de maneira que se quiséssemos tomar banho quente, havia horário para isso. Não tem tanta pressão na água e é um pouco regulada, mas a verdade é que você se sente até mal com qualquer tipo de desperdício nesse sentido. Eu só tomava uma ducha rápida no final do dia, para dormir limpa.

O maior luxo do local é uma piscina, tenho quase certeza absoluta que deve ser a única da região! Imagino que a água não seja trocada nunca! No máximo, vão completando a que se evapora. Mas tratando com cloro, está ótimo! E quebrava um galhaço entre uma programação e outra!

O restaurante é uma grande tenda, bastante agradável e aberta para o ar circular. A comida é caseira e bem gostosinha, ainda que repetitiva. Não tem muita opção de cardápio, mas a gente já esperava por isso. Para ser sincera, foi bem melhor do que havia me preparado.

Conto tudo isso no início, para desmistificar aquele negócio de passar necessidade e tal! Nós não fomos ali para nos martirizar nem pagar nenhum pecado! Mas é importante deixar claro para quem pretenda passar pela experiência que não é um resort de luxo impoluto! E agora quem vai ser repetitiva sou eu, estamos no meio de um deserto, certo? Tem areia, pó, inseto… não é um conto de fadas! Tem que estar com o espírito preparado para isso.

Talvez para uma pessoa normal, nem seja tão diferente, mas eu sou aquela fresca com TOC que não deixa ninguém andar de sapatos em casa, na minha geladeira não entra nada que não foi lavado, se for fruta ou verdura, desinfeto! Sou alérgica a pó e a fumo! Nos lençóis da minha cama não se encosta roupa da rua! E posso seguir com a lista de absurdos que estou acostumada a lidar, mas o ponto já foi dado.

Portanto, imagino que para quem conviva comigo, não entenda muito bem que raios nós fomos fazer ali? No máximo, pode achar que fui para agradar o Luiz.

Pois que fique claro que eu estava louca para ir para lá! Talvez até mais do que ele. Meu corpo e minha mente me pediam aos gritos para estar cercada por um deserto. Era esse tipo de natureza que me aconchegaria naquele momento.

Por que? Nem idéia! Mas já não brigo com meus instintos há muito tempo!

Sei que tenho a sorte de ter uma disciplina do cacete e uma chavinha na testa que ligo e desligo se quero realmente alguma coisa. Portanto, assim que cheguei, virei a tal chavinha e me dispus a tolerar o que viesse e fosse necessário para entender um outro tipo de vida. Acho que aprender é sempre o foco de qualquer experiência, é sua finalidade, e não dá para aprender perdendo tempo com queixas e resistência. Não quer fazer, não faça! Mas se fizer por sua livre escolha, não se queixe.

Eu escolhi estar ali.

Mas vamos à prática, chegamos a Wadi Rum por volta de umas 14 horas. Não estávamos preocupados em chegar na região, já que havíamos passado por sua entrada no caminho para Petra. Entretanto, no próprio website do acampamento, eles alertavam que se imprimisse uma foto do seu portão para comparar quando chegássemos. Porque às vezes, quando se pedia informação, algumas pessoas tentavam te enganar e te levar para outro lugar.

Vamos combinar que não é uma situação das mais tranqüilas do mundo, principalmente, quando você nunca foi por aquelas bandas. Assim que fui prestando uma atenção do caramba!

Não foi difícil encontrar o lugar, ou estávamos tão atentos que parecia que vivíamos ali desde criancinhas! Na porta do local, comparamos com a foto para ver se estava tudo igual e estava. Bom, tem que ser aqui!

Era ali!

Chegamos na recepção ainda na adrenalina da viagem e de querer fazer tudo que fosse possível! O recepcionista e gerente, tranquilamente, quase irritante de tão tranquilo, foi deixando claro que aquele não era o ritmo do lugar. Nos reprogramamos e tudo ficou mais fácil. Na verdade, acho que ele gostou de cara do Luiz, brimo, né?

De qualquer maneira, ali já passamos para ele tudo que queríamos fazer e ele se encarregou de nos agendar nos horários convenientes. Deixamos tudo por sua conta e acho que ele gostou da confiança.

Fomos deixar as coisas no quarto e aproveitar na piscina enquanto nos aguardava a atividade do dia, um passeio de quad, que já explico do que se trata.

Apesar de ver todos os detalhes no website, a gente não tinha certeza do que encontraria por lá. Sabe como são essas coisas, as pessoas costumam colocar as melhores fotos e quando você chega se depara com a realidade é uma tremenda roubada! Mas felizmente, não foi o caso. Eles tinham exatamente o que haviam anunciado. Sem desperdícios, mas sem privações.

Na piscina, conhecemos duas alemãs que viajavam sozinhas. Simpáticas, discretas e fariam um passeio de balão no dia seguinte conosco. Comentamos um pouco sobre os problemas na fronteira, elas também só souberam do atentado em Eilat pelos amigos preocupados que enviavam mensagens. Contamos sobre o que sabíamos, que a fronteira estava aberta, mas talvez fossem um pouco mais rigorosos. Luiz trocou telefone com elas, já que atravessariam um dia antes e poderiam nos enviar uma mensagem avisando se foi tudo bem.

O passeio de quad estava marcado às 17h30, afim de pegarmos o por do sol. Quad é como uma moto de quatro rodas. Eles chamam de Boggie Safari, mas enfim, trata-se de um veículo que anda bem tanto na areia quanto na neve, evita que você atole. Às vezes você atola assim mesmo, mas é mais fácil se locomover.

Havia andado uma vez em um desses na neve, mas fazia anos e nem me lembrava direito. Achei que fosse na garupa do Luiz só curtindo a paisagem, mas eles são individuais. Então, se é o jeito, vou ter que aprender a conduzir… Já fui mais aventureira, hoje em dia, acho que tenho um pouco de preguiça.

Mas encarei e fiquei feliz de haver feito isso, porque me diverti bastante pilotando o tal do quad pelas dunas e em volta das montanhas de pedra. Estávamos em um grupo de umas 8 pessoas e 2 guias, um ia na frente e outro atrás de todo mundo. Valeu, mas a gente ficou com vontade de fazer com menos gente e comendo menos areia. Aconselho quem faça a levar óculos escuros. No dia seguinte, fizemos uma nova excursão, só nós dois e um guia. Aí sim, foi 10! Primeiro porque o trecho foi mais longo, estava mais habituada a conduzir o veículo e mais abusada.

Acho que não passei de 50 km/h, mas a sensação de velocidade é bem maior. Você olhar em volta e não ver nada além de montanhas, pedra e areia é muito bacana! De tempos em tempos a gente dava uma paradinha para tirar uma foto ou conhecer uma gruta. Enquanto você está andando, o calor é bem suportável, porque venta, mas quando a gente para com o sol na cuca é de matar! E aquela história de miragem é verdade, tem horas que você tem certeza que está de cara para um lago que não existe.

Pode parecer besteira, mas te dá uma sensação de liberdade muito gostosa. E assistir o por do sol lá no miolo sem nada a sua volta é show!

O jantar foi cedo, Luiz puxou papo com uma inglesa meio chata da mesa ao lado, que se juntou a nós, mas tudo bem. Também se juntaram as alemãs, que eram mais legais. O sono foi batendo e no dia seguinte, madrugaríamos mais uma vez, assim que logo após a refeição, nos recolhemos.

Ficamos um pouco do lado de fora do quarto sentados olhando para o céu. Deu até vontade de dormir  por ali  mesmo, porque a temperatura essa hora é bem mais agradável.

Não me lembro de ter visto um céu tão estrelado. Se notava claramente a via láctea atravessando de uma ponta a outra e descobri que ela existia mesmo! Já havia estudado a respeito, mas na minha ignorância urbana, não pensei que pudesse ser tão visível! Luiz foi deitar, ainda fiquei um tempinho ouvindo os grilos e olhando para o céu.

Dia seguinte, às 5 da matina estávamos de pé. O gerente do hotel nos fez prometer não perder o sol nascendo de cima de uma colina atrás da piscina. E lá fomos nós escalar o morro para ver o sol nascer!

Eu nem conseguia me lembrar se já havia acordado alguma vez na vida de propósito para ver o sol nascer! Até aconteceu várias vezes de voltar da balada com o sol nascendo, mas não é exatamente a mesma coisa.

Não me arrependi, foi bacana, me fazia cada vez mais parte do contexto, não me sentia uma turista.

Na sequência, ainda bem cedo, pelas 6 e meia da manhã, chegou uma caminhonete que veio nos buscar para a aventura do dia, um passeio de balão!

Olha, não vou tirar onda, estava me borrando de medo de subir naquele treco! Ficava imaginando que tipo de controle rígido do equipamento seria obrigatório no meio do nada na Jordânia! Esse pensamento preconceituoso me fez sentir até vergonha. Quer saber, por que não? Sabe o que a Jordânia produz? O que ela exporta? O país vive de turismo e fosfato, não tem mais nada! Portanto, se passa alguma coisa com turistas, olha o tamanho da encrenca!

Resolvi que esse pensamento era mais razoável. E ainda que não fosse, veja bem, com medo ou sem medo, eu não ia deixar de passear de balão pelo deserto jordão nem morta!

Minha maior preocupação é que me desse alguma vertigem. Porque o medo é controlável, a vertigem tem vida própria, ela decide quando vai aparecer ou não. Vou adiantando que não apareceu!

Fui grudada nas barras de segurança o tempo quase inteiro. Minhas digitais devem ficar cravadas ali para sempre! Esperei o tempo inteiro aquilo balançar e sair de lado, mas isso nunca aconteceu.

O vôo é tão suave que mal sentimos o movimento. O único ruído mais impressionante é da válvula de gás, quando solta aquela labareda para esquentar o ar. O piloto era excelente! Um tchecheno muçulmano que morava em Amman e levava seus balões para passeios pelo país.

A paisagem que já era impressionante desde baixo, de cima é de cair o queixo. Parece que estamos em marte! Por alguns momentos que conseguia relaxar um pouco, a sensação era de paz. Mas na maior parte do tempo, estava era na maior adrenalina mesmo!

O pouso foi tão suave quanto a decolagem e o vôo. Enquanto se desmontava toda a parafernália, o piloto nos ofereceu um café com biscoitos, afinal, estávamos em jejum. Muito amável e generoso da parte dele, que por causa do Ramadán, continuaria em jejum até às 19:30 horas.

Voltamos para o acampamento e morgamos um pouco na piscina. A gente não sabia se teria almoço ou não. Exatamente, por causa do Ramadán, onde só se come antes do sol sair e depois do sol se por. Eu já tinha entubado que ia ficar com fome, comi uma barrinha de cereal e me dei por satisfeita. Até que descobrimos que sim, o restaurante do acampamento estava funcionando normalmente. O que? Em 30 segundos fui do satisfeita a faminta! Engraçado o que é a expectativa, né?

No meio da tarde, como contei, foi nosso segundo passeio de quad. Dessa vez, só nós e o guia. Acho curioso quando revejo as fotos e noto que até minha postura havia mudado. A cada momento encarávamos um desafio novo. Podia ser nada demais e certamente nada desagradável, mas o fato é que ao cumpri-lo me sentia bem, mais forte.

Bacana também estar experimentando essas coisas junto com Luiz. É legal quando conseguimos compartilhar uma atividade ou situação. Estamos juntos há muitos anos, mas seguimos com nossas tarefas individuais, o que não é ruim. Mas acho que esses momentos fortalecem os laços de maneira positiva e divertida. No mínimo, muda o assunto! O mais importante é a possibilidade de conseguir falar de sentimentos e sensações com quem entende, afinal, mesmo com alguma interpretação diferente, vivemos a mesma experiência.

Nossa estadia chegava ao fim e com ela, nossa última atividade programada, ir de jeep para o coração do deserto, assistir o por do sol. Todos tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo!

Outro guia nos buscou no acampamento. Simpático, falante e orgulhosíssimo de sua terra. Era até bonito de se escutar. Nativo na própria região, tinha uma fazenda de cavalos. Falava de seus animais como um verdadeiro chefe de matilha. Se embrenhava pelas montanhas e dunas com conhecimento exato de onde estava indo, ou pelo menos, essa era a imagem que passava.

Reclamava da maneira capitalista com que as pessoas andavam se comportando por aqueles dias. Mas me pareceu interessante que ele não culpava os turistas e sim os próprios moradores, gente que já não se importava tanto com a região como antes, agora o que todo mundo queria era mais e mais dinheiro. E para que? Eles não precisavam desse desenvolvimento todo, já tinham o mais rico, o deserto! Dizia que ele nunca seria capaz de viver em uma cidade e contava que sentia falta de dormir ao ar livre, como fazia com seu pai.

Se queixava do mundo árabe, que parecia muito unido e de certa forma, sim que o era em relação aos seus inimigos. Mas que entre si, de unidos não havia nada, era cada um cuidando dos seus interesses. Outra vez, no fim das contas, o que se buscava era o dinheiro.

Mas não eram só reclamações, como disse antes, estava muito orgulhoso da sua região e se sentia feliz pela nossa empolgação e respeito pelo local. Explicou o significado do termo Wadi Rum, wadi é vale e rum é gigante, alto, elevado.

Falava um bom inglês, dizia que seu pai aos 80 anos falava ainda melhor. Aprendeu sozinho, como boa parte dos outros moradores. Aliás, fiquei impressionada com a quantidade de gente que falava inglês, desde os meninos ainda pequenos aos adultos. Acontece que, considerando a importância do turismo para o país, falar inglês muitas vezes significa comer.

Contava bastante sobre Lawrence da Arábia, segundo ele, a família do seu pai o conheceu pessoalmente. Para quem não conhece, foi um oficial britânico e escritor que encontrou essa região e se encantou por ela. A visitou em diversas ocasiões entre 1916 e 1917. Em 1962, Wadi Rum serviu de cenário para o filme de David Lean sobre essa história. Fiquei até com vontade de assistir o filme agora.

Enfim, a medida que o sol se punha, a energia do nosso guia também se esgotava. Levava em jejum desde às 4 e meia da manhã e faltava alguns minutos para poder comer e se hidratar.

Assistimos sossegados ao por do sol, completando o ciclo do dia.

A volta para o acampamento foi feita na velocidade da luz! Acho que a fome e a sede devem ter apertado, coitado!

Chegamos e o restaurante do acampamento estava cheio do pessoal local, era uma celebração de Ramadán. Luiz ficou na dúvida se poderíamos nos misturar ou deveríamos esperar acabar. O problema é que minha fome foi apertando também e não via nada demais!

Então, para fazer uma horinha, subimos a colina outra vez, a mesma que vimos o sol nascer e esperamos a noite chegar.

Quando a fome apertou de verdade, Luiz foi perguntar ao gerente do hotel se já poderíamos jantar e ele foi bem simpático dizendo que claro que sim! A hora que quiséssemos!

Ficamos no nosso canto afim de não perturbar nem invadir a privacidade de ninguém. E nos surpreendeu que ao final da refeição, o grupo de locais que estava celebrando o Ramadán nos enviara um prato cheio de doces. Muito amável e gentil, mas não sabíamos como agradecer.

O gerente se juntou à nossa mesa por um momento e começou a conversar como se fôssemos amigos há anos. Perguntamos a ele o que deveríamos fazer, afinal queríamos agradecer da maneira correta. Ele simplesmente nos respondeu que deveríamos ignorá-los. Eles cumpriram com a generosidade implícita ao Ramadán, mas isso não queria dizer que deveríamos estabelecer contato. Assim estaríamos todos à vontade. Então tá, se ele disse que é assim, a gente ignora, né?

Daí, ele começou a contar que um antigo amor seu que acabou mal estava justamente ali no restaurante. Eles foram namorados, terminaram e ela se casou com outro. Ele também se casou com outra. Ambos estavam agora divorciados e ela apareceu assim sem mais nem menos ali no acampamento para tentar uma reconciliação. Mas ele ainda estava muito magoado, olha a novela!

Senti que o olhar do Luiz começava a exprimir certo desespero, ele fica nervoso quando prevê esse tipo de confissão ou aproximação, eu, pelo contrário, fico louca para saber os detalhes. Ele resmunga em português entre os dentes, e não é que as pessoas te contam a vida mesmo? Respondo, sempre amor, estou até acostumada! Enfim, antes do Luiz entrar em completo pânico, dei um jeito de encerrar a conversação e fomos para o quarto. Uma pena, porque tinha mais um milhão de perguntas para fazer e acho que o gerente parecia irredutível porque estava com dor de cotovelo, mas ainda gostava dela.

No dia seguinte, acordamos pela manhã, tomamos nosso café com calma e chegava ao fim nossa aventura em Wadi Rum.

Lógico que não me aguentei e perguntei ao gerente, que também estava doido para contar, se ele havia conversado com a ex-namorada. Disse que saíram para um passeio a pé e parece que ficaram até às 4 da manhã conversando, esclarecendo as coisas, mas ele seguia irredutível, porque dizia que a culpa não havia sido dele. Deu vontade de dizer, deixa de ser bobo, estão você e ela divorciados mesmo! Vai aproveitar! Mas fiquei na minha, nos despedimos e seguimos viagem.

Próximo à saída do acampamento, vi um círculo de embalagens de papelão, o mesmo tipo que eles usam para as velas de iluminação. E supus que deva ter sido o cenário da conversa. Será que não rolou nada mesmo, hein? Bom, mas não tenho nada com isso.

Minha cabeça logo se dispersou e tentei entender aquela sensação no peito. Hora de ir embora.

Sabia que ia gostar de lá, mas não imaginava que seria capaz de me sentir tão à vontade. Não digo que quisesse viver assim e não faço apologia da pobreza, só acho que quando cheguei ali, ao olhar toda aquela falta de tudo e um ambiente totalmente árido e inóspito, me parecia impossível que alguém pudesse viver dessa maneira! Ou melhor, não apenas sobreviver, mas ser feliz, ter momentos de prazer.

Fui embora outra pessoa, mais uma vez. Sim, eu seria capaz de viver assim. Novamente, não é minha opção e seria difícil, mas me vi capaz. E gostei de saber que seria capaz, dá uma sensação de poder, de rompimento de novos limites.

Entendi que dentro daquela vida bastante austera, havia momentos de puro prazer pelo simples fato de estar a céu aberto. O céu é grátis!

É que às vezes eu preciso ir muito longe para ver o que tenho tão perto.

Petra

Chegamos em Petra por volta das 17 horas, não lembro exatamente, mas foi nessa ordem de grandeza. A estrada estava bem sinalizada e não tivemos maiores problemas. Um pouco de atenção e um mapa foi o suficiente. Na entrada da cidade, pedimos informação na recepção de um hotel e para um policial na rua, ambos prestativos, e chegamos bem.

Nos hospedamos no hotel Movenpick, há dois hotéis dessa mesma cadeia, ficamos no que é praticamente ao lado do Parque Nacional que abriga o centro histórico de Petra. Excelente opção!

É assim, existe a cidade em si e um local de visitação que abriga o que seria a antiga Petra e seus monumentos. Essa antiga Petra fica dentro de um Parque Natural, que abre suas portas às 6 da manhã e fecha às 18 horas (no inverno às 17 horas).

Portanto, imaginamos que pelo horário de chegada, nossa visita ficaria para o dia seguinte. Acontece que logo na recepção nos perguntaram se queríamos fazer uma visita noturna. Veja bem, macaco quer banana? Claro que sim! Fiquei empolgadíssima em saber da possibilidade!

Deixamos nossas entradas compradas e deveríamos comparecer com elas no portão principal desse parque, acho que às 20 horas ou algo assim. Saímos com mais antecedência que o necessário, pois ainda não sabíamos o quão perto estávamos e, portanto, chegamos cedo ao local. Não me importei, assim já fomos entrando no clima e descobrindo onde era o que.

Petra foi reconhecida em 2007 como uma das novas 7 maravilhas do mundo. Seguramente, é o destino mais cobiçado da Jordânia. Mas acho que ficou realmente conhecida, ou pelo menos mais popular, após o filme do Indiana Jones e a Última Cruzada. Aliás, o filme foi providencial para o desenvolvimento do turismo na cidade, até hoje tem cartazes do “Indiana” na entrada e se vendem chapéus a seu estilo.

Na antiguidade, Petra foi habitada pelos edomitas, um povo semita assentado entre o golfo de Aqaba e o Mar Morto, em torno do século XIII a.C. O antigo testamento os chama de filhos de Esaú. Foram eles quem impediram que os israelenses cruzassem seu território para chegar à Terra Prometida. O que provocou uma guerra quando, ameaçados pelos povos nômades, os edomitas se expandiram em direção ao ocidente. Durante o reinado de David, os israelenses conseguiram se impor e se apoderaram do teritório de Edom. Após a morte de Salomão, aproveitaram a debilidade dos inimigos, cujo reino estava dividido e recobraram sua independência. O soberano do reino de Judá se apoderou de Sela, a capital bíblica de Edom. Sela deve ser a origem do nome de Petra, porque em grego significa pedra.

A história segue por aí e se pode pesquisar mais a seu respeito com meia dúzia de cliques pelo Google.

O fato é que traz uma enorme emoção caminhar pelas rotas das antigas caravanas de mercadores e passar por entre as frestas de pedra impressionantemente altas até dar de cara com o Khaznah. Em seguida, o caminho se abre a centenas de tumbas, templos, aquedutos, teatro, locais de culto, enfim, uma infinidade de construções incrustradas nas pedras e te faz viajar no tempo e no espaço.

Mas vamos por partes.

Chegamos cedo ao local da visita, se não fomos os primeiros, estávamos entre eles. De maneira que nos posicionamos bem no início do trajeto. Aos poucos as pessoas e os grupos foram chegando, muitos italianos. Acredito que haveria por volta de uma centena de pessoas.

Um guia de turbante xadrez vermelho, típico da região da Jordânia (cada cor e amarração de turbante define sua procedência dentro do mundo árabe) tomou a liderança quase que em silêncio e o seguimos de bem perto. Como éramos os primeiros da fila, foi bacana poder ter o impacto de ver o caminho se abrindo, sem aquela quantidade de gente na frente.

O trajeto noturno não é completo, é de aproximadamente uns 3 km até o Khaznah, feito com a exclusiva iluminação de velas, dentro de sacos de papel pardo. Dava um ar de procissão, mas sem estar atrelado a uma religião. Até porque, nesse caso, o “sacerdote” ia na frente de turbante xadrez e um cigarro na mão. Fiz o possível para ignorar o fedor do cigarro, porque não queria perder a pole position!

Agora, imagina entrar em Petra a pé, tendo como trilha sonora apenas as passadas de uma centena de pessoas pisando na areia, praticamente em silêncio e aninhada entre a luz das velas. Era praticamente um ritual mágico. Quando você começa a se emaranhar por entre pedras gigantescas intercaladas por frestas verticais parece estar saindo de um útero gigante! É tudo fora de proporções humanas, mas ao mesmo tempo é aconchegante. A temperatura já é fresca, mas em determinados pontos ainda se sente o calor emanando da pedra, energia viva. É uma emoção que nem tenho com o que comparar, porque não me lembro de sentir outra força da natureza tão brutal, dá vontade de chorar!  Sério, acho que nunca visitei um lugar onde minha mandíbula inferior  estivesse tão frouxa! Porque me peguei diversas vezes literalmente com a boca aberta admirada e era absolutamente espontâneo!

Até que se deparando com uma ranhura enorme, você percebe que chegou ao Khaznah. Como se fosse um espaço secreto bem mais amplo acabando de revelar-se.

Al-Khaznah é o monumento mais famoso de Petra, muita gente inclusive pensa que é o único, mas é só o mais conhecido. E concordo, que o mais impressionante. Mas enfim, em frente a ele também iluminaram com centenas de velas e nos puseram sentados em tapetes no próprio solo de areia. Estávamos entre os primeiros a chegar, portanto, sentamos logo na primeira fila e aguardamos a que todo grupo chegasse à sua velocidade. Nos foi pedido para manter silêncio, o que traz um ar ainda mais mágico. Enquanto você espera, um rapazinho vem com uma incomensurável bandeja e serve chá a todos.

Sim, tomei sem um pingo de frescura. Imagina, com tamanha cortesia nunca iria negar! Sabe quanto a água é importante em um lugar assim? E estava ótimo, a propósito. Vale dizer que não tivemos nenhum problema com alimentação nem bebida.

Quando todos estão sentados e acomodados, o guia do turbante xadrez, que até então é um cidadão magrelo, sem graça, que você não dá nada e acha que nem deve saber falar direito, pois muito bem, esse nativo se posiciona frente ao monumento, entre as velas, e começa a disparar um discurso com a eloqüência de um presidente de multinacional! E em inglês perfeito!

Ele agradeceu a todos, falou um pouco do lugar e apresentou as duas seguintes atrações musicais, uma flauta e um instrumento que não consegui enxergar direito pela falta de luz, mas o som me lembrava uma gaita de foles misturada com cordas, era algo exótico. Segundo o guia, o instrumento mais antigo do mundo, mas acho que isso ele falou só para impressionar.

De qualquer maneira, a música ali naquele momento foi muito bem vinda. Chegou junto a um gato filhote que se roçava entre nós e outros visitantes, na esperança de ganhar comida e algo de carinho.

O concerto acabou e fomos liberados para voltar em nossa velocidade, era só seguir a rota das velas.

Nossa volta foi bem menos mágica que a ida. Estávamos famintos e tínhamos a esperança de encontrar o restaurante do hotel aberto! Voltamos voando baixo, ainda bem que a experiência com caminhadas ajuda bastante. Mesmo assim, foi bacana, só um pouco corrido.

Chegamos no restaurante nos minutos finais, suando e com aquela cara de desespero e o maître foi gentil conosco. Afinal, com meu habib marido, ele não ia se negar a servir um conterrâneo, né? Também facilitamos e escolhemos rápido, a gente já sabia o que queria, churrasco árabe! Uma mistura de espetinhos de frango, cordeiro e kafta, que seguiu uma entrada cheia de pratinhos (hummus, tajine, charuto de folha de uva, tabule…). Uma delícia!

A noite acabou por aí! Balada não é exatamente o forte dessa região. O que se aproveita é o dia. Acordamos sempre muito cedo, no esquema 6 da matina, mesmo! Nem era difícil, porque essa hora o sol já está a pino! E por incrível que pareça, acordava mais fácil que o Luiz! Acho que em 18 anos que a gente se conhece, esse é um fato sem precedentes! Definitivamente, essa viagem me quebrou paradigmas como um todo! Acho que sou uma nova mulher!

Portanto, no dia seguinte, mal saiu o sol e já estávamos a postos! O dia, aliás, como todos os outros, prometia ser longo.

Tomamos um bom café da manhã e seguimos para o parque histórico.

Logo na entrada, você deve tomar uma decisão: caminhar ou montar em um animal. É possível ver tudo caminhando, na minha opinião, é a melhor maneira, porque você não perde nenhum detalhe, vai para onde bem entende e na sua velocidade. Entretanto, não vou dourar a pílula, é pauleira! Meu preparo físico é bom, meus sapatos eram adequados e foi dureza! Não me arrependi e vale considerar que quisemos ver tudo em um só dia, poderia ser mais ameno se dividido em dois dias. Enfim, resumindo, é possível, mas é bom saber onde está se metendo.

Tem gente que não aguenta e para essas pessoas há algumas opções. A mais completa é o burro, porque chega em todos os lugares e há uma série de subidas. O cavalo vai bem, mas não tenho certeza se chega ao topo do local alto de sacrifício (a subida mais alta do passeio). E tem a charrete que só vai até o Khaznah. Lá dentro, também se pode passear um pouco de camelo, mas em trechos menores.

Portanto, para quem está com criança pequena ou tem alguma dificuldade de locomoção, acho selvagem! Idosos eu nem digo, porque depois do Caminho de Santiago, já vi que tem coroas que dão de mil a zero na garotada em termos de resistência. Mas tem que ter preparo.

Dito isso, seguimos em frente. Eu disposta a caminhar e Luiz buzinando no meu ouvido que queria uma carona equina! Sinto muito, mas não vou nem morta! Meu negócio é pé no chão!

Muito bem, era difícil competir com o impacto que o lugar nos causou na noite anterior e sabíamos disso. Ainda assim, foi impactante. Porque é certo que durante o dia não há todo aquele tom de mistério, acontece que por outro lado, se revelam  milhões de detalhes, a grandeza e novamente a força da natureza local.

É engraçado porque o principal momento da visita é quando você chega ao Khaznah, ou pelo menos, é o que está no imaginário de boa parte das pessoas. Acontece que estamos acostumados a ter um “grand finale” e, nesse caso, o auge em teoria, está praticamente no começo do trajeto. Então, melhor guardar energia, porque ainda tem coisa pacas para ver!

O problema é que a gente esquece de tudo isso quando vê aquela fenda se abrindo e um monumento cravado em pedra cor de rosa começa a aparecer como em um sonho!

Al-Khaznah, ou tesouro do faraó, deve seu nome a uma antiga lenda de que um faraó havia ocultado ouro na parte superior do “tholos”. Até hoje há marcas de disparos feitos pelos beduínos, que acreditando no conto, tentaram  se apoderar do tesouro. A coloração da pedra pode alterar de cor de acordo com a iluminação do sol, mas é predominantemente rosa.

Aliás, essa é uma característica a ser observada em todo o trajeto, as cores das pedras são bastante interessantes. Há infinitas tonalidades de rosa, vermelho, azul, verde… muito bacana!

Depois de ficar algum tempo meio embasbacados olhando e fotografando esse monumento, a gente segue o caminho e descobre que o lugar é enorme!

A quantidade de tumbas esculpidas é gigantesca. No começo, você aponta uma a uma como se tivesse descoberto algo que ninguém notou, fotografa e tal. Na segunda centena, você só pensa: outro buraco? Vai ter defunto assim lá longe!

Bom, não são todos tumbas e, até hoje, mora gente em alguns desses buracos. Não digo dentro da rota turística, mas aquilo é muito grande. Por exemplo, houve um momento que vimos um cachorro dar uma corrida em um par de turistas que saíram um pouco da rota e foram fazer não sei o que perto de uma dessas grutas. Assim que os turistas voltaram para o caminho, o cachorro parou de os perseguir. Ou seja, era absolutamente territorial, ele morava ali com certeza. E outras vezes me dava a sensação de estar sendo observada. Com o tempo você vai habituando seu olhar e distinguindo o mimetismo de coisas que parecem uma só: pedra.

Mas voltamos aos principais pontos do trajeto, acho que depois do Khaznah, o ponto (literalmente) mais elevado do trajeto é o local alto de sacrifício. Não se iluda, a subida para Al-Madhbah, nas indicações High Place, não é só uma maneira de dizer, é alto para cassilda mesmo! Está muito bem conservado e a vista lá de cima é impressionante!

Sempre tem alguém lá embaixo te oferecendo para subir de burro. É uma opção, mas não para mim.

Os degraus estão razoavelmente bem conservados, a maioria do percurso é bem viável, apesar de bastante cansativo. Entretanto, há alguns trechos que você sobe quase de quatro e se pergunta porque se meter nessas encrencas mesmo, hein? E em algumas das quinas agradeci ferozmente estar sobre meus próprios pés, porque se estivesse sobre um burro, minha vertigem me atacaria. Mas eu tenho vertigem com frequência, para quem não tem, não deixa de ser uma ajuda bem-vinda.

Na verdade, uma ou outra vez achei que a tal vertigem pudesse me empacar, mas pensava logo, agora não, afastava a possibilidade da cabeça e seguia. Foi bem melhor do que de costume.

Pequeno detalhe, não sei se já falei que devia estar uns 40 graus na nossa cuca!

Até que chegamos ao topo! É de tirar o fôlego, ou foi a subida que o tirou?

Havia um vendedor nômade justo nesse ponto mais alto. Você os encontra o tempo inteiro. Começamos a olhar em volta a paisagem e ele foi espontaneamente contando toda a história para a gente e mostrando em volta o que era cada coisa, como um guia.

Luiz me falou entre os dentes, agora acho que a gente vai ter que comprar alguma coisa, né? Nem que seja por educação! Ele não nos forçou a nada, mostrou o que estava vendendo, mas sem assédio, o que nos deu mais vontade de colaborar. Luiz comprou umas moedas romanas antiquíssimas e, com certeza, falsas. Tudo bem, valeu pela explicação de onde estávamos.

Levei um guia por escrito, para ter uma idéia do que estávamos fazendo, mas uma orientação local é sempre bem recebida.

Resolvemos explorar um pouco a área e aproveitar para respirar, afinal ainda faltava coisa para ver. Sentei em uma beirada e Luiz foi se aventurar pelas pedras.

Logo que Luiz se misturou com a paisagem, surgiu uma nômade tocando uma flauta. Fiquei com vontade de fotografá-la, mas não queria invadir a privacidade de ninguém, assim que fui disfarçadamente fotografando tudo em volta e, por acaso, ela estava no contexto.

Acontece que assim que me avistou veio em minha direção e começou a puxar o maior papo. Queria usar a câmera fotográfica, me fotografar, pediu para tirar foto dela, me deu uma pedra, falou que viu Luiz, perguntou se era meu marido, se ele era um bom marido, enfim, até que me fez companhia.

Daí Luiz chegou e assim que isso aconteceu, o discurso assumiu tom choroso e ela começou a contar que o marido morreu, que tinha filhos, se ele não podia dar 1 dinar para ela, essas coisas. Luiz falou que não tinha, com educação, e ela também não insistiu nem foi grosseira. Tentou, mas se não rolou… Pediu se pelo menos ele tirava uma foto minha com ela e ele tirou.

Ela saiu e foi conversar com o primeiro vendedor nômade, nós ficamos um pouquinho por ali, mas decidimos seguir viagem! Passamos pelos dois, que nos informaram por onde se descia da montanha, pelo outro lado, afim de fazer a rota completa.

No caminho, sentamos para tomar um pouco de água e sombra. Porque dali para frente, se notava que seguiríamos um bom pedaço só embaixo de sol. A manhã estava no fim e o dia havia esquentado um bocado!

Felizmente, eu tinha na pele camadas e camadas de protetor fator 50, além de um bonezinho que lembrava uma caçadora de borboletas, mas bastante eficiente para proteger rosto e pescoço. Fiquei com vontade de usar aqueles lenços enrolados na cabeça, pareciam bastante eficientes, além de bonitos. Mas isso ficaria para depois.

Sentados na barraca, escutamos dois talvez americanos grandões conversando, algo como: não quero saber, não subo mais nem um metro! Chega! Nos metemos na conversa para avisar que eles já tinham chegado, era andar mais uns 50 metros não íngrimes e era o local alto de sacrifício! Eles se alegraram agradeceram, e nós seguimos nosso caminho, dessa vez para baixo.

O fato de ser para baixo amenizou, mas não deixou nada fácil. Andamos pacas e ainda havia umas placas no caminho dizendo que se você saísse do trajeto oficial estaria por sua conta e risco. Considerando que nem sempre tínhamos certeza se estávamos na rota certa, bastante tranquilizador, não?

Imagino que quando há uma quantidade grande de turistas, não seja um problema achar o caminho certo. Mas estávamos em pleno verão e época de Ramadán, é temporada baixa, tinha pouca gente. Bom que não disputávamos espaço com ninguém, mas também não tínhamos quem seguir.

O cansaço foi minando as energias e me deixando mais irritada, até que finalmente, chegamos na base da subida ao Templo Grande. Ali se encontra um bom restaurante, banheiros, enfim, um oásis!

Os banheiros estavam surpreendentemente limpos, ótimas condições. Acho que os céus me recompensaram por não me aliviar em alguma tumba mais discreta pelo caminho. O restaurante era grande e com boa aparência. Sem ser um luxo, mas considerando onde estávamos, bem melhor do que imaginava! Resolvemos então, parar e almoçar direito.

O ar condicionado foi mudando o estado de espírito e descansando o corpo. Achei que estava recuperada e pronta para seguir com toda corda.

Mas quando você sai e aquele calor te bate na cara novamente, dá um minuto de desespero!

Luiz queria subir ao Templo Grande, eu já tinha visto pedra e gruta para os próximos 50 anos! Acho que já estava delirando! Enfim, estou aqui, então vamos. Chegamos na beiradinha da subida, com 10 pessoas em volta oferecendo burros, Luiz querendo pegar um burro. Eu já disse que não vou no burro! Vai você de burro e eu fico aqui embaixo no restaurante esperando! Não tem problema nenhum, eu espero, demora o que você quiser! Mas sozinho ele também não queria ir nem a pau! Então, vamos a pé outra vez!

Acontece que na entrada há uma placa recomendando fortemente que você vá com um guia ou há o risco de se perder! Pronto, aviso divino, chega! Parecia os dois americanos lá de cima, não subo mais um metro!

Desistimos e resolvemos seguir pela cidade baixa mesmo. Ainda tinha um monte de construções para ver. E não me arrependi!

Realmente, ainda havia bastante coisa para ver. A gente passou por uma avenida com grandes colunas e logo voltamos a base da subida para o alto do sacrifício, pelo outro lado. Ali há o antigo teatro e outras milhões de tumbas, grutas e monumentos.

Aos poucos, fomos reconhecendo o caminho de volta e não vou negar que foi um alívio rever o Khaznah e me imaginar em breve na piscina do hotel!

Não estou reclamando do lugar, que fique bem claro! Achei o máximo e acho que deu para perceber, né? Simplesmente, a gente estava caminhando há mais de 7 horas embaixo de um sol escaldante! Tem um momento que o corpo pede arrego!

Logo na saída do parque, tem umas tendas que vendem uma série de produtos locais. Assim que a gente passou por uma delas, Luiz disse que já estava pronto para comprar um lenço da Jordânia. Estava louca por um também, mas não sabia como amarrá-lo direito.

Problema nenhum para o vendedor, que sabia dar todos os nós do mundo com lenços femininos ou masculinos! E, louco para vender, teve a maior boa vontade em me explicar diante do espelho. Já saímos de lá fantasiados! Espírito nômade totalmente incorporado!

Claro que, ao chegar no hotel, todo mundo voltou a falar em árabe com Luiz! Que por sua vez, ficou de má vontade em usar o turbante, resolveu que só ia usar no pescoço.

_ Melhor mesmo, porque se você andar com essa cabeça amarrada como eles por aí, eu vou te perder! Tudo igual!

Aproveitamos o finalzinho da tarde na piscina e Luiz começou a receber recados de amigos perguntando se estávamos bem, porque havia acontecido algum tipo de atentado. Para ser sincera, a gente nem deu muita bola no início, pensamos que alguma granada deveria ter explodido na Faixa de Gaza e neguinho acha que é aqui do lado, deixa para lá!

Mas logo os recados começaram a se multiplicar e a gente achou melhor se informar. No quarto, um pouco mais tarde, deixamos a TV ligada na CNN e vimos do que se tratara. Na fronteira de Eilat com o o Egito, justo no dia seguinte que passamos, haviam atacado um ônibus de turistas.

_ Ops! Foi perto mesmo, que bom que a gente já passou, né?

Luiz e seu lado cavaleiro do apocalipse já começou a dramatizar, dizendo que iam fechar as fronteiras e blá blá blá…

Falei para ele não viajar na maionese antes do tempo, quer saber, liga para o nosso amigo israelense, que a essa altura se tornou nosso oráculo da viagem, e pergunta para ele. Melhor do que ficar se descabelando à toa.

Nosso amigo foi se informar e nos disse que a fronteira entre Jordânia e Israel, via Eilat, estava aberta. Poderiam estar mais rigorosos em relação à segurança, mas não tínhamos nada a esconder. Além do mais, o tal ônibus de turistas não era exatamente só de turistas, parece que na sua maioria eram militares israelenses a paisano, segundo a versão oficial, de férias.

Eu me fixei na informação: a fronteira segue aberta e acabou! Uma coisa de cada vez e ainda faltavam alguns dias para a gente atravessar de volta.

Nesse dia, jantamos com calma e comemos bem, como de costume. Sem exageros, comida saudável, mas admito que começava a se tornar um pouco repetitiva.

Dia seguinte, acordamos sem pressa e fizemos um pouco de hora para tomar o café da manhã mais tarde e reforçado. Sairíamos pouco antes da hora do almoço, sem saber quando e como seria a próxima refeição.

A essa altura, tinha incorporado totalmente o deserto nas veias, já saí coberta pela minha pashmina enrolada na cabeça, como se fosse assim desde criancinha! Além de útil, fala sério, não é um charme? Principalmente, porque a Jordânia é razoavelmente liberal, a rainha, por exemplo, não usa o véu. Portanto, nem estava usando porque era obrigada, foi porque gostei mesmo. Muito mais elegante que meu boné de caçar borboletas!

Luiz não quis enrolar seu turbante, deixou pelo pescoço mesmo, o que não impediu que o recepcionista se despedisse dele em árabe, lógico!

Muito bem, próximo destino: Wadi Rum! Só faltava a gente lembrar como saia da cidade…

O que era um pouquinho mais enrolado do que parece. Abrimos a janela para pedir informação a um taxi, cujo o motorista mais do que prontamente falou, me segue! Ligou o motor e nem se preocupou com a nossa resposta.

Bom, segue ele, ué! No final ele deve te cobrar a corrida, afinal, a gente está meio escaldado a esperar que sempre queiram nos arrancar dinheiro de alguma forma, mas fazer o que, pelo menos a gente não se perdia.

Ele se embrenhou por aqui, por ali e a gente atrás. Daí ele parou o carro, saltou e disse que era só a gente seguir reto.

Luiz agradeceu e perguntou quanto lhe devia pelo trajeto. No que ele riu, gesticulando, nada, imagina! Eu moro aqui em frente e já vinha para casa mesmo…

Pagamos apenas com nossas línguas, ele fez na maior boa vontade!

Perguntamos onde poderíamos abastecer no caminho e ele recomendou que, nesse caso, melhor voltar e abastecer em Petra mesmo, porque o próximo posto estaria meio distante. Nos disse mais ou menos como fazer e lá fomos nós.

A gente se enrolou um pouquinho, achávamos que estávamos certos, mas meio inseguros. Quando a gente vê, o taxi atrás da gente outra vez, ué, vocês se perderam? A gente riu e disse que um pouco. Ele confirmou que estávamos certos dessa vez e era por ali mesmo, logo após a mesquita, à direita.

Beleza, agradecemos outra vez e seguimos. Passamos em frente a uma mesquita bem na hora da oração, você escuta do lado de fora. O que provocou um certo engarrafamento na sua frente, cheio de gente estacionado em fila dupla, mas enfim, passamos.

Chegamos no posto e estava fechado, deserto, parecendo esses postos de filme americano no meio do nada!

Bom, se o taxista mandou a gente para cá, o posto deve estar funcionando. A pessoa deve ter saído. Pela proximidade da mesquita, deduzimos que estaria rezando. O jeito era esperar a reza acabar e ver se aparecia alguém.

Nisso para uma caminhonete e faz sinal para a gente perguntando se estava fechado, o que a gente confirmou. Ele gesticula e chama Luiz para avisar que mais a frente há outro posto maior que talvez estivesse aberto. E fez igual ao motorista de taxi, me segue!

Não conversamos, subimos rápido no carro e seguimos o segundo estranho do dia! Luiz se perguntando porque acreditava nessas pessoas assim do nada e eu dizendo que a experiência anterior havia sido positiva. Isso deve ser normal por aqui, né?

O segundo posto também estava fechado, mas pelo menos era maior e havia sombra para a gente esperar. O rapazinho da caminhonete que seguimos saltou e explicou que realmente era hora de alguma oração. Olhei para o seu rosto e reconheci: você trabalha no hotel! A gente estava lá, mas seguimos agora para Wadi Rum.

Ele sorriu parecendo satisfeito em ser reconhecido: isso, eu fritei os ovos hoje de manhã para vocês! Também se lembrava de nós, perguntou de onde éramos. Quando falamos que éramos brasileiros, ele disse que éramos bem-vindos e que ele precisava ir, voltaria em outro momento. Mas podem esperar tranqüilos aqui porque virá alguém.

Sem outra alternativa, ficamos esperando por ali. Um pouco surreal você estar em um posto de gasolina na estrada, esperando uma oração acabar. E roubo não deve ser um problema por aquelas bandas, porque o celular, provavelmente do atendente, ficou ali sobre o parapeito de uma janela, tocando inutilmente.

Chegou mais um carro, o motorista puxou papo comigo perguntando sobre o posto. Eu disse que acreditava que era hora da oração e estávamos esperando. Ele fez aquela cara de, ah é, esqueci! Falei que deveria ser mais uns cinco minutos, ele olhou seu relógio, fez cara de quem estava calculando e me respondeu que faltava uns vinte.

Perto do tempo que ele profetizou, começaram a chegar outros carros e movimentar o lugar. Chegaram junto com o atendente do posto, que rapidamente fez a fila andar.

Ufa! Finalmente, pudemos seguir para Wadi Rum, com tanque de gasolina cheio e garrafas de água, por via das dúvidas.

Na fronteira entre Israel e Jordânia, de Tel Aviv a Petra

Turista é um saco! Vamos combinar, a gente está muito menos preocupado com os problemas político ideológicos de cada lugar, a prioridade é a logística! Feio de dizer, mas é a verdade.

De maneiras que nosso interesse principal ao começar a preparar nossa viagem era Israel, sem deixar de ir a Jerusalém. Daí a gente começou a olhar o mapa e me dei conta que estávamos muito perto de Petra, outro local que era louca para conhecer.

_ Ah, Luiz, eu quero porque quero ir a Petra também!

No meu carácter prático feminino: a gente pega um carro em Israel, vai dirigindo até a Jordânia e no caminho para Petra ainda dá uma paradinha no Mar Morto!

Ele me olha com aquele jeito de ai-meu-santo, Bi, tem estradas por ali que a gente não pode andar e ainda por cima com um carro emplacado em Israel!

_ E se a gente for de avião?

_ Não existe vôo conectando Israel com países árabes! A maioria nem o reconhece como Estado, lembra?

Ops! Foi quando me toquei de onde estava me metendo, juro que havia esquecido completamente de todos os conflitos dessa região!

Bom, não é possível! Deve ter um monte de turistas tentando aproveitar a viagem e esticando até Petra. Pergunta ao nosso amigo israelense, ele deve saber!

E lá foi Luiz perguntar para o amigo dele, que nos informou que naquele momento (sim, essas coisas mudam a qualquer momento) o relacionamento entre Israel e Jordânia estava bom. Não deveríamos ter problemas se cruzássemos a fronteira entre Eilat, do lado israelense e Aqaba, do lado jordão.

E isso não seria perigoso? Veja bem, viver é meio perigoso! Mas aparentemente, não deveríamos encontrar maiores riscos.

No início, me preocupou um pouco, depois entubei que nada ia nos acontecer e acreditar que está protegido é o melhor amuleto que alguém pode levar.

Então, o trajeto era o seguinte: avião de Tel Aviv até Eilat; pegar um taxi até a fronteira; atravessar a fronteira a pé; pegar um carro alugado do lado de Aqaba e dirigir até Petra. Só isso! Simples, né?

Alguém parou para pensar na quantidade de encrencas que poderíamos nos meter? Luiz sim, eu não! E vou adiantando que deu tudo absolutamente certo, redondinho! Mas quem quiser saber os detalhes, sigo contando.

Nosso vôo em Tel Aviv saía pelas 11 da manhã em um aeroporto relativamente próximo ao hotel, como se fosse um Santos Dumont ou Congonhas, inclusive bem menor. Tivemos tempo de tomar café da manhã com calma e arrumar as malas. Uma maleta de mão para cada um, viajamos bem leves.

No aeroporto, todo aquele esquema de segurança outra vez! Tudo bem. Esperando pelo vôo, pela quantidade de gente, percebi que seria avião pequeno. Putz, balança pacas!

No ônibus que levava ao avião, reparei em um soldado viajando fardado com rosto de quem tinha uns 14 anos! Legalmente, ele não podia ter isso, mas parecia um menino que me lembrava mais um escoteiro.

Muito bem, já falei que todo mundo ali tem uma penca de filhos, né? De maneira que mais da metade do vôo era de crianças, sério! O pessoal ainda sentando e aquela algazarra infantil.

O avião decola naquele esquema albatroz balançante e as mães e pais, para distrair as crianças, batem palmas, dão gritinhos de eh-uh-ah, como se estivessem em uma montanha russa! Para Luiz foi o inferno, achei engraçado, distraiu as crianças e Bianquinha também!

Pelo menos é rápido, menos de uma hora depois já estávamos pousando. Na saída, o soldadinho de chumbo nem agüentou chegar ao banheiro e colocou a alma para fora na pista de pouso mesmo! Acho que sua carreira militar não vai durar muito… Fiquei feliz que não fui eu, geralmente eu enjôo nessas balançadas, mas acho que a bagunça da criançada realmente me distraiu.

Nosso plano era almoçar ainda em Eilat, talvez no próprio aeroporto, porque ao cruzar a fronteira havia o risco de não encontrarmos local para comer tão cedo, afinal eles estavam em Ramadán. O aerporto era minúsculo, não tinha nada, então melhor comer na cidade, que por sinal, era muito bonitinha. Parecia destino de férias.

Da pista de pouso a gente viu uma churrascaria e a idéia de comer carne de boi foi muito bem vinda! Afinal, a gente não tinha idéia de como seriam as refeições dos próximos dias. Adianto que não tivemos problemas com isso, mas nesse momento, a gente ainda não sabia.

Comemos no El Gaúcho, sem muita pressa, mas sem muita calma, porque nos esperava a “misteriosa” estrada até Petra.

Bom, pegamos um taxi e fomos até a fronteira dos dois países. No caminho, compramos água e barras de cereais, por via das dúvidas. Rolava uma certa adrenalina, não vou negar. Dúvidas se deveríamos mostrar os dois passaportes, se mostrávamos um na saída e outro na entrada, se poderia ter o passaporte carimbado em Israel, se deveríamos perguntar isso, enfim, fora os controles de sempre.

É burocrático e tenso, acho que a gente mostrou os passaportes uma oito vezes! Mas não foi tão demorado. Você paga uma taxa na saída de cada país. E sim, você deve mostrar o passaporte que entrou em Israel, e a Jordânia aceita você entrar no país com esse carimbo. Pelo menos, ali nessa fronteira. No lado Israelense, inclusive mostramos os dois passaportes, eles estão acostumados com gente de dupla nacionalidade. Não queria nenhuma ponta solta, se tem um lugar para você não bancar o espertinho é ali! Conselho: verdade, sem floreios nem longas explicações.

Há um momento em que você sai de Israel e atravessa um corredor grande, como uma rua, todo cercado e a céu aberto, bem antes de entrar na Jordânia. É onde você se sente literalmente em terra de ninguém. E com aquele sol na sua cuca, essa sensação é bem mais intensa! Sorte que nossas malas eram pequenas.  Resumindo, saímos de um país a outro a pé!

Entrando do lado da Jordânia, a diferença é radical! Os controles tem a mesma rigidez, mas a estrutura é bem inferior. Dá um pouco aquela sensação de faroeste. Você olha a paisagem e percebe que em 500 metros todo o ambiente mudou e você já está no deserto. É a hora que você pensa, o que estou fazendo aqui mesmo, hein?

Calma, vai melhorar!

Alugamos um carro da Avis, pela internet é claro. No website, entendemos que havia uma escritório da empresa em plena fronteira, o que inclusive nos fez optar por eles. Olhamos em volta e nada de escritório nenhum! Vimos uma placa de informações turísticas, subordinados ao Ministério de Turismo. Perfeito, vamos lá perguntar!

Entramos em um escritório de repartição pública de mil novecentos e antigamente. Dois oficiais fardados atrás da mesa e outro no sofá. Todos assistindo uma novela na TV! Mal olharam para nossa cara. Luiz começou perguntando sobre a Avis e só balançaram a cabeça que não, o escritório era no centro de Aqaba. E vocês tem um mapa? O cidadão olhou para Luiz como se ele viesse de outro planeta! Mapa? Que mapa? Ok, ok, muito obrigada!

Ainda escutamos ele falar já para nossas costas que o taxi até a cidade custava 6 Dinars.

Sem outra alternativa, lá fomos nós buscar nossa próxima condução. Não tem um ponto, fica um cidadão ao lado de um burro perguntando se você quer um taxi. Te dá um pouco de medo de responder que sim e ele te apontar o burro, mas é um carro de verdade que ele chama.

Em alguns minutos chegou um cidadão que não devia tomar banho há alguns dias. Me chamou a atenção ele levar uma garrafa de água e tomá-la. Ué, ele não está no Ramadán? Cobrou o dobro para nos levar à cidade, 12 Dinars. Luiz olha para minha cara perguntando se aceitamos. Amor, olha a sua volta, a gente está no meio do nada! O motorista foi todo o trajeto tentando nos convencer a desistir do carro alugado e pagar para ele nos levar até Petra, naquele automóvel cheirosinho. Luiz teve a genial idéia de dizer que, infelizmente, o carro já estava pago, mas muito obrigada pela oferta, bom saber para uma próxima vez… tipo assim, nunca!

Chegamos meio tontos no escritório da Avis. Nos enrolamos um pouco com o inglês do atendente, dizíamos que no website o escritório era na fronteira. Ele dizia que a gente chegou mais cedo. A gente entendia que o carro ainda não estava pronto… Até que finalmente entendemos que o que ele realmente queria dizer é que, de acordo com a hora que você diz que chega, ele envia alguém com o carro até a fronteira e te espera. Como a gente chegou mais cedo, não havia ninguém ainda! Ah, bom!

Até que ele era simpático, é que já estávamos irritados com a fronteira, o taxista e o calor. Melhor baixar aquela adrenalina e mudar de estação.

Ainda pedi para dar uma passadinha no banheiro, já que não sabia como seria a estrada até Petra. Um cidadão pegou uma chave e me acompanhou pelo lado de fora, já fui pensando, putz, roubada! Óbvio que o banheiro era daquele buraco no chão. Respira fundo, Bianca, mas não tão fundo!

Aceitei que dali para frente deveria ser assim mesmo e incrivelmente consegui usar o tal banheiro.

Vale dizer que dali para frente não foi assim mesmo e esse foi o único banheiro que encontrei dessa maneira. Mas também não sabia disso nesse momento.

E sim, eles tinham um mapa! Só precisávamos abastecer e seguir viagem!

Claro que o carro não tinha GPS! Mas quer saber, a gente já cansou de viajar antes desse invento dos céus e sempre chegamos em qualquer lugar! Verdade que brigávamos o caminho inteiro, mas chegávamos!

Então, Luiz foi dirigindo e assumi a navegação. Até que a gente nem brigou tanto, acho que tínhamos mais com que nos preocupar. Não estávamos nem um pouco afim de errar o trajeto.

E, a propósito, Aqaba é muito sem graça! Tem aspecto muito mais pobre que Eilat.

Deixamos o Mar Vermelho para trás e logo ao sair da cidade, passamos pelo primeiro posto de controle. Um oficial fez sinal para Luiz parar. Já fui logo pegando todos os documentos, mas foi só Luiz baixar a janela e o agente olhar para o seu rosto que o mandou passar imediatamente! Pequeno detalhe, a gente entendeu que era para seguir pelo gestual, porque ele falou em árabe!

_ Viu? Foi olhar para sua cara… e vê lá se vou parar esse saudita! Passa! Passa!

Agora era Luiz quem estava em casa!

A estrada é boa, sem grandes estruturas para paradas, mas também não é tão longa. É asfaltada normalmente, tudo direitinho. Mas é engraçado você ver algumas tendas nômades e camelos durante o caminho. Além da certeza que estamos no deserto! Árido, árido, árido!

Acredito que mais ou menos uma hora depois de estrada, vimos a entrada para Wadi Rum, onde pararíamos na volta, e já ficamos mais tranqüilos em ver que não era difícil encontrá-la.

Seguimos até Petra, acho que foi algo como 3 horas de carro desde Aqaba, talvez um pouco mais, não deu para cansar. Seguimos as indicações do mapa e não foi complicado. Só na entrada mesmo da cidade ficamos um pouco na dúvida, mas perguntamos pelo caminho e nos indicaram, em inglês, sem maiores problemas. Foram inclusive bem simpáticos.

E assim chegamos em Petra, sãos e salvos! Mas isso conto na próxima história.

Jerusalém

Fervorosos religiosos que, pelo título, vieram parar nesse post, aviso que talvez não seja a leitura mais adequada, sou politicamente incorreta pacas, então melhor buscar outras referências e todos seremos felizes, ok? Mas se quiser seguir sem julgamentos, seja bem vindo!

Então já vou começar com uma piadinha que diz mais ou menos assim, o Papa resolveu dirigir na estrada e trocou de lugar com seu motorista. Saiu a toda velocidade e acabou sendo pego por um radar. O carro da polícia sai correndo atrás deles e manda encostar. Salta um policial para pedir os documentos e quando a janela do motorista abre, aparece nada mais nada menos que o Papa! O policial meio sem jeito, diz que ele pode seguir a viagem e volta para o carro. O outro policial pergunta:

_ E aí, multou?

_ Eu não, não quero encrenca para o meu lado…

_ Mas quem estava no carro?

_ Olha, não olhei, mas o motorista é o Papa!

E quando o motorista é o Papa…

Por que contei isso? Veja bem, fomos visitar a cidade acompanhados por um guia que nos buscou no hotel bem cedo e ficou conosco até o fim da tarde. Acho que valeu muito à pena e recomendo uma visita monitorada, pelo menos da primeira vez, ou corre-se o risco de perder uma série de detalhes importantes. Bom, ele era um senhor judeu, nativo em Tel Aviv e ferido na guerra do Yom Kippur. Ou seja, definitivamente não era católico e, assim mesmo, algumas vezes tirava a bíblia para nos dar referências geográficas de onde estávamos. Exatamente, ele não estava pregando com a bíblia e sim utilizando-a como roteiro.

Isso mesmo, galera, o guia oficial por escrito de Jerusalém é nada mais nada menos que a Bíblia!

E quando o roteiro da cidade visitada é a bíblia…

Vamos combinar que o assunto fica mais sério! Acho que foi quando minha ficha caiu do peso (no mínimo) histórico que estávamos prestes a experimentar. Impressiona!

Jerusalém fica há cerca de uma hora de carro de Tel Aviv. Esperava que a estrada fosse árida e seca, mas havia muito mais verde do que imaginava. A estrada é boa e segura hoje em dia, mas nosso guia ia nos contando de como era no passado e da quantidade de emboscadas feitas durante esse mesmo trajeto. Achei interessante o tom de informação sem mágoa, vinda de uma pessoa que sentiu na carne os ferimentos de combate. Não tenho como saber seus sentimentos reais, mas juro que não notei ressentimento, e sim esperança em uma eventual e futura conciliação. Porque é muito fácil para a gente que está de fora falar em paz e união, mas para quem está na mira da bala, não é tão simples assim. Para ele, por mais que déssemos voltas em ideologias e crenças, no fim das contas, o ponto decisivo sempre acabava sendo dinheiro. De qualquer maneira, para mim que havia praticamente perdido as esperanças de uma pacificação nessa zona, pude notar que apesar dos enormes pesares, muita coisa evoluiu para o bem e não deixou de ser uma mensagem de otimismo e respeito.

Nesse clima, chegamos à cidade. Achávamos que havíamos escolhido bem o dia, porque pensei que o mais cheio fosse no domingo, por causa das missas. Ledo engano! Acontece que estávamos em Israel, lembra? Segunda é dia de bar mitzvah e a cidade estava bombando! Achar uma vaga não foi mole, mas demos sorte.

Esperava que Jerusalém fosse pequena, mas é bem grande. O que se visita, digamos assim, dentro dos muros da antiga cidade, deve ser algo por volta de 1 km2.  Mas até você chegar nesse centro histórico, é uma cidade grande como outra qualquer.

Pelo caminho, uma quantidade de judeus ortodoxos pela rua, com chapéus que nunca tinha visto antes! Alguns de pele, inclusive. Era um pouco bizarro olhar os pontos de ônibus repletos desses homens de chapéus engraçados, mulheres com roupas de festa um pouco cafonas, algumas muito cobertas, outras de mini saia!

E quando entramos no centro histórico, a mistura é ainda maior, porque juntam com os turistas de mil línguas, peregrinos, religiosos, curiosos, uma babel que me parecia organizada, apesar de tudo. Era vivo e talvez um pouco confuso, mas não era caótico.

O primeiro lugar que fomos foi o Monte das Oliveiras, de onde se pode ver de um lado Israel e do outro a Jordânia. A diferença de paisagem é absolutamente radical! O lado Israelense tem vegetação e o lado Jordão é um deserto.

Lado Israelense
Jordânia, vista do Monte das Oliveiras

Dali você tem uma vista panorâmica de Jerusalém e das suas fronteiras. Destaca-se a cúpula da Roca (a cúpula dourada de uma enorme mesquita). Os muçulmanos acreditam que esse foi o lugar de partida da Al Miraaj, viagem aos céus do profeta Maomé. Considerando que os judeus são proibidos de caminhar por esse trecho devido a tal motivo, parece conveniente escolher esse lugar para Maomé viajar para os céus, não? Mas enfim, nessa briga esotérica político religiosa não vou me meter!

Bom, o Monte das Oliveiras recebe esse nome por motivos óbvios, ali existe um bom número dessas árvores com troncos larguíssimos que descrevem sua antiguidade. É onde se encontra a Igreja da Agonia, não sei se seria essa a tradução. Mas pelo que me lembro dos estudos no colégio, foi onde Cristo se isolou por 40 dias e 40 noites (ou seriam 7 dias e 7 noites? 40 era Noé?). Enfim, ali ficou sabendo do seu futuro flagelo. É quando ele pede ao pai que afaste dele esse cálice, mas logo se entrega e confia em sua vontade.

Também nessa região fica o Horto de Getsemaní, onde acredita-se que Jesus foi traído por Judas.

Ainda nessa zona, há a Igreja da Assunção e a tumba de Maria. Não é comprovado que é a tumba de Maria, mas acredita-se que pode ser aí, e se isso é verdade, a tumba de José seria uma outra que está à sua direita.

Muito bem, daí seguimos para o centro histórico propriamente dito. A cidade velha está rodeada por oito portas de acesso, a principal porta de entrada, por onde Jesus teria entrado pela cidade, foi literalmente fechada pelos muçulmanos. É que os judeus acreditam que quando o verdadeiro messias chegar à terra, entrará por esse portão, daí os muçulmanos fecharam, porque fica no seu lado da cidade. Mas tudo bem, porque os judeus acreditam que  não é um simples muro que vai impedir o messias de passar, afinal, tipo assim, ele é deus, né? Pode passar por cima. Enfim, esse assunto vai ficando muito surreal  para Bianquinha!

Para entender melhor esse rolo, é bom saber que a cidade é dividida em quatro bairros: judeu, cristão, muçulmano e armênio. Quando passamos de um bairro a outro, parece que literalmente mudamos de país! Ainda que seja a mesma cidade, as diferenças são nítidas.

Olhar para esse quadrado de terra e imaginar como pode esse pedacinho de chão em território árido ser o coração de tantos conflitos pelos quatro cantos do mundo é algo muito forte. Estamos falando simplesmente do berço de três religiões, nada menos que o judaísmo, cristianismo e islamismo! Uma cidade, que independente de sua fé ou crença, gerou um fato que mudou o calendário do planeta. E ainda assim, quase que paradoxalmente, nunca foi um lugar de paz.

Até hoje a convivência de toda essa mistura é complicada. Para os muçulmanos, a Cúpula da Roca (Rocha) é o local onde Maomé ascendeu aos céus. Apesar do seu formato, não funciona como mesquita, seu principal objetivo é guardar a “santa rocha”; para os judeus, essa mesma rocha foi o local do sacrifício frustrado de Isaac e onde Salomão ergueu o primeiro templo judio, em 960 A.C. Os judeus seguem rezando no Muro das Lamentações (parte da parede desse templo de Salomão, do lado judeu). E os cristãos seguem peregrinando até o Santo Sepúlcro, por uma Via Crucis que já mudou de lugar algumas vezes e passa pelo lado muçulmano. Sim, tudo isso está junto no mesmo espaço, mas não tem nada a ver com paz ou integração.

Desde a época de Jesus, a cidade já foi conquistada 11 vezes e totalmente destruída por 5 delas. A Jerusalém bíblica, segundo especialistas, se encontraria a cerca de 20m abaixo da terra de hoje, ou seja, não é o mesmo lugar de 2000 anos atrás.

Mesmo sabendo de tudo isso, é emocionante estar ali? Putz, para caramba! Só estou avisando que está muito longe de ser um paraíso de serenidade.

Bom, os cristão costumam estar bastante curiosos por realizar a peregrinação que Jesus fez até a crucificação. A Via Dolorosa, ou Via Crucis, está em sua maior parte no lado muçulmano e pode ser visitada normalmente. Na prática, se encontra em meio a um comércio e, como já disse, não há provas “científicas” que Jesus passou por aí mesmo, mas os cristãos percorrem esse trecho com bastante fervor e acredito que se não era, virou verdade. As cinco últimas, das 14 estações, ficam no bairro cristão e terminam na igreja do Santo Sepulcro, onde acredita-se que Cristo foi sepultado. Mas já vou chegar lá!

Não sei dizer se conheci tudo ou se fui aos pontos mais importantes, mas vou contar dos lugares que fomos os que mais me marcaram. Portanto, mais do que uma referência de viagem, o que posso oferecer é uma experiência pessoal.

Quem acompanha o blog sabe que sou ateísta, não escondo isso de ninguém, como também não escondo o respeito que tenho pela crença das pessoas. Talvez sabendo disso, na viagem a Jerusalém, tinha uma série de amigos e pessoas da família que me pediam para serem lembradas de alguma maneira, outras era eu mesma que achava que gostariam de ser lembradas. Aceitei o encargo com boa vontade, mas me preocupava um pouco a consciência sobre minha falta de fé. Tem coisas que não dá para se fazer de mentirinha ou só um pouquinho. E eu queria a experiência inteira.

Busquei vivências pessoais passadas no que tivesse mais parecido a fé ou tentei me lembrar de momentos em que ainda acreditava, enfim, de certa maneira, a vontade que as pessoas queridas melhorassem ou se curassem de verdade me motivaram a buscar o que não tinha e talvez esse tenha sido um pequeno milagre, dependendo da interpretação de cada um. Simplesmente decidi que nesse dia em especial eu seria uma pessoa de fé e acabou. Sem cobranças e sem explicações.

Dentro desse contexto, minha perspectiva se ampliou e a quantidade de sensações e emoções que vieram no pacote são indescritíveis. Fico feliz de ter vivido um dia assim.

Mas vamos lá, minha igreja favorita foi a “Sleeping Mary”, onde segundo a bíblia, Maria faleceu. É um espaço de energia totalmente feminina, limpo e sem aquele turbilhão turístico que sempre me incomoda um pouco. No andar inferior se encontra uma imagem de Maria como uma bela adormecida sendo guardada por imagens de santas mulheres sobre ela. O que vou dizer deve ser considerado uma heresia, mas me lembrou um grupo de bruxas alegres e unidas como em uma irmandade secreta. Ali deixei alguns nomes em um livro de pedido de graças e orações. Foi onde me senti melhor.

No chão, são símbolos do zoodíaco!

Seguimos caminhando pela cidade e às vezes entrávamos em alguma igreja ou templo, nem sempre sei a diferença. Era um pouco confuso, mas também intrigante ver no mesmo espaço símbolos judeus, altares católicos, aviso de que lado estava a direção de Meca, uma missa celebrada por indus, uma sinagoga com judeus etíopes… Outras vezes, passávamos em meio a algum tipo de celebração, por entre pessoas quase que em transe religioso e era como se estivéssemos assistindo a um filme de tão surreal! As pessoas simplesmente ignoram quem está ao lado ou passando, não em um sentido ruim, mas porque estão dentro de sua própria viagem. Eu também seguia minha própria viagem.

Possível local da Santa Ceia

E em todos esses lugares íamos pensando em quem acreditávamos que precisava de ajuda, em quem queríamos que estivesse melhor, enfim, o pensamento era sempre para um bem maior.

Fomos também a um museu arqueológico e a placa na entrada intimidava: algo como ao descer 3 metros de altura, voltávamos 2 mil anos de história.

Até que finalmente chegamos ao Muro das Lamentações. Não é difícil conseguir informações históricas do que se trata, mas para mim, foi o momento mais emocionante de todo o dia. Nem sei explicar exatamente porque, afinal, não sou judia, mas era o lugar que tinha maior vontade de estar dentro de Jerusalém. Talvez seja pelo fato de sua história não estar aliada a um poder sobrenatural, toda a energia que emana foi trazida pelas pessoas ao longo dos anos. E não há dúvidas que foi ali mesmo.

Muito bem, o costume é escrever papeizinhos com seus pedidos e colocar entre as ranhuras do tal muro. Há uma divisão, no lado direito ficam só as mulheres e o lado esquerdo só os homens. Não é escondido ou secreto, você vê claramente os dois lados, simplesmente vão mulheres para um lado e homens para outro.

Na noite anterior, escrevi um monte de papeizinhos para cada pessoa da minha família e alguns amigos, com o pensamento super concentrado e voltado para eles. Levei na bolsa e pedi que Luiz colocasse para mim. No lado masculino há mais espaço para isso, acho que os homens pedem mais. Mas falando sério, achei que assim também fecharíamos um ciclo de energia e iria um pouco de cada um.

Comigo foi apenas o meu papel e entrei sozinha. Foi o único momento do dia que pedi só para mim. E foi como se não existisse mais ninguém no mundo, só eu e a parede, agora o papo é entre nós!

O que pedi não é um segredo, quero ser mãe. Pela primeira vez não me importou que fosse menino ou menina, nem que fosse meu sangue. Acho que entendi quando as mães dizem que tanto faz, que só importa que tenham saúde. É muito mais que um jargão maternal.

Chorei igual criança, um vexame! Mas ninguém ligou ou eu não percebi. Saiu como um desabafo, uma válvula de pressão. Foi intenso e rápido. Não demorei a me recompor e aparentar meu habitual controle para encontrar Luiz e o guia. Mas estava mexida e emocionada, ainda bem que levei meus óculos escuros!

Dali fomos comer no bairro muçulmano. Uma birosca simples, mas segundo o guia, de comida barata e confiável, ainda que ele não nos recomendasse a carne, por não garantir a procedência. Comemos hummus, falafel, salada de tomates com pepino e pão pita. Estava fresco e resolveu o assunto! Para os atendentes deveria ser um sacrifício nos servir, afinal, estavam em pleno Ramadan.

O contraste ao entrar no bairro muçulmano é gigantesco. Passamos um portão e parece que entramos em um túnel do tempo ou algo assim. Até as roupas das pessoas era diferente! O comércio de rua lembrava bastante os mercados de Istambul.

Daí, no meio desse comércio, você descobre que já está na Via Dolorosa, ou Via Crucis. Ok, já disse que não há uma prova propriamente dita que Jesus passou exatamente por ali e blá blá blá, mas há uma probabilidade de ser por essas redondezas, simplesmente algumas camadas mais embaixo. O fato é que já faz um tempo que os cristãos realizam o ritual de passar por essa rota com toda sua carga de fé e é difícil passar por um lugar assim indiferente.

De qualquer forma, me pareceu algo bizarro haver nesse mesmo trajeto, fiéis, cruzes, lojas, restaurantes, gente morando. Fiquei imaginando os diálogos:

_ E aí, Yoseff, passa lá em casa para tomar um café!

_ Onde você mora?

_ Na Via Dolorosa, mais ou menos pela estação em que Verônica enxugou o rosto de Cristo, em frente ao açougue do Said…

_ Onde tem a padaria?

_ Não, a padaria é depois, já é onde Jesus encostou a mão na parede!

Sei lá, para quem mora por ali, essa conversa deve parecer normal, né?

Enfim, para ser sincera, a Via Crucis mesmo não me trouxe grandes emoções. Achei o aspecto histórico e os contrastes interessantíssimos, mas nada muito além disso.

E assim chegamos ao ponto final do dia, a visita ao Santo Sepúlcro! Esse é o local onde Cristo haveria sido crucificado, envolto no sudário e sepultado. Naquela época, o local ficava fora das muralhas da cidade, onde aconteciam as execuções. Hoje em dia não é a céu aberto, construíram uma enorme basílica nesse local. Na verdade, nem sei dizer se é uma igreja só, é uma mescla de capelas interligadas e com estilos de épocas diferentes.

Outra vez, não há uma comprovação definitiva, mas há indícios fortes que o local foi esse. É considerado o lugar mais sagrado de Jerusalém.

Dentro do Santo Sepúlcro, há três lugares que chamam mais a atenção. O primeiro é a capela construída sobre a rocha de Gólgota, possivelmente, onde foi erguida a cruz de Cristo. Há uma outra capela minúscula onde se guarda a pedra que os anjos apartaram do seu sepulcro. E finalmente, uma pedra maior retangular, onde se acredita que o corpo de Jesus foi repousado após a crucificação.

Esses três lugares passam obviamente por peregrinação intensa. Para as duas capelas, havia filas gigantescas! Para a pedra onde Cristo foi repousado, e a que me interessava, era mais tranqüilo.

A confusão da fila para tocar na rocha de Gólgota me fez sentir tentando entrar em alguma atração da Disney. Sensação essa que me fez desistir na hora e sentar com o guia para esperar Luiz. Ele também desistiu e veio logo em seguida.

Fomos até a segunda capela, a da pedra do sepulcro, e também havia uma fila irracional. Disse, deixa para lá, vamos para a terceira pedra e depois, se aqui estiver mais vazio a gente vê o que faz.

A terceira pedra, que na verdade fica logo na entrada da basílica, seria onde Jesus foi deitado após sua morte. Há um ritual de abençoar crucifixos nesse local. Não é feito por padres ou nenhum religioso. Simplesmente você coloca a cruz entre a pedra e sua mão e é você mesmo quem abençoa o objeto. Era aí onde éramos encarregados de ser os porta-vozes da família e dos amigos. E também por nós mesmos.

Geralmente as pessoas se ajoelham, algumas também beijam a pedra, enfim, não consigo me ajoelhar, tenho dois joelhos operados. Então, só sentei ao lado do Luiz e reuni tudo que conseguisse de fé, afinal, já havia praticado um pouquinho durante o dia. Procurei pensar em cada pessoa, uma de cada vez, e lembrar o que precisavam de verdade. Nem percebi, mas acho que entrei em algum tipo de transe e não tenho muita noção de quanto tempo fiquei ali. Só pensei nisso depois, quando me dei conta que Luiz já havia acabado, levantado, tirado fotos, inclusive minhas… assim que devo ter demorado.

Ele quis subir para tirar algumas outras fotos e fiquei com o guia conversando um pouco e voltando ao mundo dos vivos. Ele me contou que a pedra era cheirosa, provavelmente devido à quantidade de incenso sempre pairando sobre ela. Esfregou a mão e me mostrou. Achei legal, esfreguei minha mão também e fiquei com aquele aroma gostoso de incenso comigo. Intuitivamente, levei a mão à barriga, quem sabe me dá uma forcinha!

Luiz voltou e resolvemos voltar à segunda capela, para ver se a fila estava menor. Incrivelmente estava! Chegamos entre um grupo e outro e conseguimos tocar no tal fragmento de lápide. É muito rápido, na dúvida, pedi saúde.

Ainda visitamos um pouco as redondezas da basílica, uma mistureba de estilos e colunas às vezes sobrepostas.

Saímos do Santo Sepúlcro e nos dirigimos ao carro, aí acabava nosso intenso dia. Estava moída, uma sensação de que iria desmoronar, como se toda minha energia tivesse saído do corpo.

Aconteceu um evento meio esquisito, que não tenho vontade de compartilhar, talvez em algum momento, porque é bastante pessoal e não tenho o menor interesse em motivar especulações. Melhor me hidratar. Compramos água no caminho para o carro e fui me recuperando.

O trajeto de volta foi bem mais calado que o da ida. Estávamos todos exaustos e tinha muita informação na cabeça para absorver, muitas sensações para entender e o mais importante, a certeza que havia passado por uma experiência única.

Shalom!

Começando por Tel Aviv

A primeira vez que Luiz foi a trabalho a Tel Aviv, fiquei meio preocupada. Tinha na cabeça a mesma imagem de perigo que boa parte das pessoas que conheço tem.

Verdade que no aeroporto ele era revistado até as orelha, porque tem uma cara de brimo danada! Ainda por cima, tinha no passaporte vários carimbos de países árabes, os quais também ia a trabalho, e para complicar um pouquinho, ainda tinha que pedir que não carimbassem o passaporte em Israel, porque teria sua entrada vetada em alguns países que não o reconhecem como estado. Ou seja, apesar de não estar fazendo absolutamente nada errado, era um prato cheio para o pessoal do controle de fronteiras.

Ainda assim, ele sempre voltou com uma boa impressão de lá, os momentos de tensão se resumiam à saída da Espanha e entrada em Israel. Lá dentro, esse clima de medo e suspeita se dissipava. Considerava Tel Aviv como uma cidade de praia das mais normais do mundo!

Meu lado brasileira entendeu isso perfeitamente desde o início. Ainda que não seja algo do qual me orgulhe, a gente foi acostumado, por exemplo, a saber que um seqüestro de ônibus foi notícia internacional escabrosa em diversos países e para a gente, foi mais uma notícia do jornal das oito. A gente se habitua e a vida segue. Não é o todo, é uma parte.

Assim que tinha uma baita curiosidade para conhecer Israel algum dia e finalmente, esse dia chegou.

Fui preparada psicologicamente para passar por controles mais rigorosos nos aeroportos, até porque estava com meu marido com cara de saudita. Mas na prática foi bem razoável, se ele tem pinta de habib, eu bem que tinha de Sarah. Na saída, passamos pelos controles normais, o que deixou Luiz quase decepcionado, uma saudade daquele agente que o conheceu tão intimamente e agora não manda um e-mail, um telegrama… e claro que ele vai querer me matar pela piadinha, mas tudo bem.

Pousamos em Tel Aviv e lá fomos nós passar pela imigração. Agora nós temos dois passaportes e ficamos na dúvida até o último minuto com qual dos dois entraríamos em Israel, de maneira que ele pudesse ser carimbado, sem prejudicar próximas visitas a países árabes. No último minuto, Luiz resolveu entrar com o passaporte brasileiro. Acontece que nosso vôo vinha da Espanha e não tínhamos um vôo do Brasil no trajeto. Resultado: para a salinha ao lado por favor!

Pronto, estava muito fácil! Chegamos em uma sala com umas 20 pessoas e pensei, putz, isso vai demorar pacas! E até então, não sabíamos exatamente porque havíamos sido parados. Quer dizer, eu tinha certeza que só havia sido parada porque estava com Luiz!

Surpreendentemente, cinco minutos depois um agente nos chamou de lado e começou, bastante educado, com as perguntas de sempre: o que veio fazer no país, conhece alguém, é a primeira vez… blá blá blá… até que chegou na pergunta onde estava a conexão do nosso vôo do Brasil. Quando dissemos que tínhamos dupla nacionalidade e que morávamos na Espanha, o agente fez ar de quem finalmente entendeu a história e fomos liberados sem maiores problemas. Por isso, cheguei a conclusão que dessa vez não fomos parados só pelo Luiz e sim por parecer haver uma ponta solta na nossa procedência. Até aí, normal.

Ficamos em um hotel bem na frente da praia, o Renaissance. Pelo caminho fui reparando na arquitetura da cidade e os contrastes entre o novo e o antigo. Muitos edifícios com cara de velhos, com a fiação toda por fora, ao lado de construções mais modernas. Lembrava cidade brasileira, para ser sincera, poderia ser centro de São Paulo. Mesmo na orla da praia, você encontra construções caquéticas ao lado de edifícios recén construídos.

Na porta do hotel, você passa por controle de entrada. Aliás, coisa bastante comum em entradas de restaurantes, discotecas, bares etc. Se tem público, vão revistar sua bolsa e passar por detector de metais. E quer saber, acho bom. Há um histórico de atentados, melhor prevenir. Mas tudo é feito com certa naturalidade, porque é parte do dia a dia deles. Relaxei e não me senti invadida, proteção é de bom tamanho.

Do quarto do hotel tínhamos vista para o mar, que parecia bastante convidativo. Mal pousamos as malas e despencamos para praia, na tentativa de já curtir o primeiro dia.

Na areia em frente ao mar, se esquece completamente de qualquer tipo de tensão ou conflito. O ambiente é agradável, as pessoas simpáticas, as roupas de banho normais e o povo com cara de saudável. O tipo de areia e o contexto te lembram muito as praias cariocas, mas muito mesmo!

Também tem um calçadão onde o pessoal passeia, aparelhos de ginástica públicos disponíveis e quiosques pela areia. É possível alugar espreguiçadeiras, cadeiras e barraquinhas. E o melhor, também tem vendedores ambulantes de picolés com seus isopores e afins, além de gente dos quiosques que vem até sua espreguiçadeira e te servem na beirinha da água.

Ainda é permitido se jogar frescobol (que ali tem outro nome que não lembro) e o ruído das bolas nas raquetes de madeira nos faz lembrar das praias cariocas e da região dos lagos de há algum tempo atrás. Chega a ser nostálgico! Para completar, sentamos em um quiosque para beliscar alguma coisa e quando nos demos conta, a música era… brasileira! Estou em casa!

E nem ficou só nisso, no finalzinho da tarde, em pleno calçadão da praia, uma roda de capoeira! Vem cá, em que país estou mesmo?

Muita família! Os casais se casam cedo e não me lembro de ter visto nenhum com menos de três filhos! É daí para cima!

Elegemos um quiosque em frente ao hotel como nosso favorito, o LaLa Land. Boa comida, atendimento simpático, mesinhas literalmente na areia da praia e à noite ofereciam música ao vivo (inclusive, bossa nova, é claro!).

Tanto no hotel como na rua, as pessoas foram muito amáveis e simpáticas. Não sei se a Espanha deixa a gente meio acostumado com grosseria, sei lá, mesmo quando educados, os espanhóis tem esse jeitão meio agressivo. A gente mesmo acaba atuando igual, por costume. Então, quando somos tratados com gentileza é música aos nossos ouvidos.

E da mesma maneira que todo mundo chega para falar com Luiz em árabe nos países respectivos, em Tel Aviv, todo mundo começava a falar comigo em hebraico! Era uma a mais! Bom, não há um único tipo físico no país, todos os esteriótipos encontrados nos filmes americanos referentes a judeus estão lá, os narizes, os óculos grandes, o cabelo crespo… mas há muito mais do que isso. Tem sua cultura muito própria, mas também há uma série de referências dos muitos países pelos quais estão espalhados. Portanto, não é difícil encontrarmos algo que nos lembre algum lugar e no caso do Brasil, que também é essa mistureba, a afinidade é imediata.

Os ortodoxos, com suas roupas pretas e chapéus engraçados não chamam grandes  atenções e não é difícil encontrá-los passeando também pelo calçadão da praia com uma esposa bem coberta e uma penca de filhos! Na mesma calçada em que passa o esportista malhado correndo, a mocinha linda de pareô, a outra de véu, a coroa gordinha sem noção de biquini com elástico largo, o rapazinho de patinete motorizado, a bicicleta estacionando, os namorados, os amigos, os que estão tentando paquerar alguém… tudo junto!

Não tivemos problemas com o idioma. Claro que não falo hebraico, ainda que tenha ficado curiosa e aprendido meia dúzia de palavras, mas todo mundo com quem nos relacionávamos falava inglês, da recepcionista do hotel à garçonete e o motorista do taxi. Com mais ou menos sotaque, nos comunicávamos sem o menor problema.

Quanto à comida, foi difícil encontrar uma culinária tipicamente judaica. Não sei nem dizer se existe! Porque novamente, há uma mistura de influências de países diferentes. Mas se posso ressaltar alguma coisa, diria que há alguns ingredientes constantes: pepino, yogurt, pão pita, tomates, queijos, azeite de oliva… enfim, os mesmos encontrados na culinária árabe. Acontece que passeando pela rua, tem de todo tipo de restaurante internacional e o Mc Donald’s é Kosher. Ou seja, se você não for viciado em comer carne de porco, não terá nenhum problema para comer bem em Tel Aviv. Honestamente, até a tal carne de porco encontramos no cardápio de um dos lugares que fomos, mas não quis pedir. Pequeno detalhe, tanto em Israel quanto na Jordânia, fujam do suco de laranja! Exceto se vocês vejam a laranja sendo espremida ali na sua frente, porque o suco artificial é um horror! Uma mistura de redoxon com fanta sem gás!

Uma coisa que já sabia, mas acho curioso para quem não conhece é que, olhando para o mar, na ponta esquerda da orla, se encontra Old Jaffa, a parte árabe da cidade. Sim, no meio de Tel Aviv há um bairro árabe. Porque de fora, a gente tem a impressão que são inimigos mortais, mas de dentro, ainda que com ressalvas, convivem pacificamente.

Ao fundo, à direita está Old Jaffa

Old Jaffa também é a parte mais antiga da cidade e sua arquitetura com construções de pedra refletem isso. Ouvi dizer que foi um bairro marginalizado, mas hoje está renovado e abriga comércios, restaurantes e galerias de arte. Jantamos ali na primeira noite, em um lugar chamado Aladin. Despojado, informal e com vista para a praia.

Temos um casal de amigos de Tel Aviv, Luiz conheceu o marido através do trabalho, são da mesma empresa. Era para ele que perguntávamos nossas dúvidas e pegávamos referências de lugares para ir. Saímos para jantar com eles duas noites e foi show! Temos essa sorte e privilégio de sempre encontrar amigos legais em partes diferentes do mundo. No primeiro jantar, nos levaram ao restaurante do hotel Montefiore. Excelente comida e atendimento, achei o melhor que fomos em Tel Aviv!  Seguia uma gastronomia de base francesa com toques orientais. Pela intimidade com que cumprimentavam o pessoal da casa, se notava que nossos amigos eram clientes freqüentes de lá. No segundo jantar com eles, na nossa última noite na cidade, fomos a um restaurante que ficava no porto, em Old Jaffa, esse mais despojado e original, chamado The Container.

Nas outras refeições que fizemos na cidade sozinhos, optamos por beliscar pela praia mesmo, no LaLa Land. A parte mais divertida era quando chegava a conta e não sabíamos nem se estava de cabeça para baixo!

Em dois dos dias que estivemos por ali, resolvemos conhecer os arredores, em um deles fomos a Jerusalém, outro a Cesarea e Nazareth.

Cesarea é conhecida por suas ruínas romanas. Veja bem, não quero decepcionar ninguém e isso depende muito da expectativa de cada um. Para os brasileiros em geral deve ser um passeio bem bacana! Acontece que moro na Europa e viajo pacas, ou seja, estou de ruínas romanas até o pescoço! Já não é algo que me chame a atenção, mas enfim, recomendo a quem se interesse pelo tema.

Já Nazareth é sem gracérrima! Francamente, não tem nada demais. Mas ficava na passagem para chegarmos a Tiberias, no mar da Galiléia, nosso objetivo do dia. Infelizmente, tive digamos, problemas femininos em Nazareth e por motivos de força maior, voltamos para o hotel. Tudo bem, o resto do dia foi aproveitado na praia.

Bom, agora, Jerusalém é outra coisa! Na verdade, era minha maior curiosidade em Israel. Mas essa história, vai ficar para o próximo post!

A viagem a Israel e Jordânia

É difícil saber por onde começar, tudo muito diferente e às vezes muito igual. Então, começo pelo resumo, foi tudo ótimo! Quero escrever sobre cada lugar com calma, mas ainda há algumas informações que preciso absorver melhor.

O que gostei mais: as pessoas. Em ambos os países fomos tratados com muito maior amabilidade e simpatia do que esperávamos e em nenhum momento me senti um peixe fora d’água.

O que gostei menos: a tensão nos aeroportos e fronteiras. Em Israel, o controle é bastante rigoroso, ainda que educado e profissional. E sim, é necessário, os riscos são  reais. Vinha sempre na minha cabeça a frase, divirta-se, mas não se distraia! Na Jordânia, parecem ser menos rigorosos, mas não é menos tenso. Entretanto, uma vez dentro de cada país, a tensão se dissipava.

O que mais me marcou: os contrastes. Em todos os sentidos, da paisagem à cultura. Entre eles e entre nós.

O mais surpreendente: experimentar o deserto sem sofrer. Fui capaz de passar por uma série de restrições sem sentir que perdia nada, aprendi um pouco sobre resignação, algo bem longe da minha natureza, e descobri que aceitando sem relutar também podia estar feliz e aproveitar o que havia de melhor.

O mais inusitado: consegui ter fé por um dia. Na visita a Jerusalém, meu interesse era muito mais histórico que espiritual, mas ao mesmo tempo, achei que a experiência não seria completa. Além do mais, tinha uma série de “pedidos encomendados” que me jogava uma certa responsabilidade nas costas. Então, lembrei do réveillon, único dia do ano em que tenho fé, e achei que se era capaz de fazer isso  na noite de 31 de dezembro, por que não tentar? Abri minha mente e resolvi não pensar a respeito, just do it! Funcionou, pelo menos por um dia. E tudo bem, porque era o único dia em que isso me importava mesmo.

O mais bonito: o sol. Acho que nunca vi tanto nascer e por do sol na vida! Os dias começavam cedo e eram longos e intensos. Uma semana e meia e parece que estou fora há uma década!

E porque imagens valem por mil palavras, seguem algumas imagens e assim que der, prometo tentar traduzir em palavras.

Praia em Tel Aviv
Praia em Tel Aviv
Por do sol em Tel Aviv
Muro das lamentações, Jerusalém
Via Crucis, Jerusalém, onde Jesus se apoia na parede
Igreja do Santo Sepúlcro, no Monte Sinai. A pedra onde Jesus foi colocado após a crucificação. É onde se abençoam os crucifixos.
Petra, Al-Khaznah em visita noturna
Al-Khaznah durante o dia, Petra, Jordânia
Petra, no local alto do sacrifício (é alto pacas!)
Minha amiga beduína
Wadi Rum, deserto da Jordânia, passeando de quad no por do sol
Assistindo o sol nascer do acampamento em Wadi Rum
Esperando para subir no balão
Vista de dentro do balão, deserto em Wadi Rum
Born to be wild... 😀
Pedra cogumelo, deserto de Wadi Rum
No caminho para assistir o por do sol
A cor mais linda!
Ele e eu
Por do sol, Wadi Rum, Jordânia

Fazendo as malas

Quem mora pela Europa, principalmente pela Espanha, sabe que em agosto o povo todo tira férias.

Pessoalmente, não gosto dessa coisa concentrada em um único mês, mas fazer o que? Ainda que não sigamos agenda escolar, Luiz é praticamente obrigado a tirar ao menos uma parte das férias em agosto, ou fica mal visto pela empresa.

Enfim, se é o jeito…

Em princípio, ficaríamos em Madri mesmo, mas quando vi que teríamos duas semanas com Luiz em casa, achei um desperdício.

_ Sou uma pessoa legal, vou te dar três alternativas: Israel, Grécia ou Croácia? Eu prefiro Israel! Sou louca para conhecer Jerusalém (acho que sou a ateísta que mais vai a lugares santos!).

_ Hein?

_ Duas semanas é muito tempo para ficar em casa, a gente pode viajar só uma delas. A gente nem sabe se vai continuar morando na Europa… já pensou se a gente muda para o Brasil? Vai ser muito mais difícil…

_ Também prefiro Israel, mas não sei… vou pensar…

_ Pensou?

_ Pensei, vamos para Israel…

E mais ou menos assim começou a história! No princípio ele não estava lá muito animado, mas logo se empolgou, foi ler mais a respeito, pegar indicações e acabamos esticando a viagem até à Jordânia.

Muito bem, só tem um probleminha, apesar de serem países vizinhos, não são exatamente amigos. A gente não pode, por exemplo, alugar um carro em Israel e dirigir com ele pela Jordânia. Enfim, algumas questões logísticas que vamos tentar resolver indo de avião até a fronteira e alugando um carro por ali.

_ Luiz, e a gente vai sair dirigindo pelo deserto da Jordânia? Isso é seguro? Você entendeu que não é em todo lugar que minha habilidade para fazer amigos funciona, né?

Israel não me preocupa, ele já esteve por lá a trabalho e, fora no aeroporto, onde o revistam em lugares que nem eu conheço, o resto é tranqüilo. Ele andou perguntando para um amigo israelense e para uma amiga espanhola que já fez algo do gênero e parece que não é complicado. É na Jordânia que não sei muito bem o que esperar. Luiz tem pinta de “brimo”, vamos ver no que dá! De qualquer maneira, já estou meio passadinha para alguém querer me trocar por camelos, acho que tudo bem.

Sei que a Jordânia é relativamente liberal, o que quer dizer que podemos nos dar relativamente bem ou relativamente mal, mas faz parte. Não vou mais me encucar com isso, quero porque quero conhecer Petra e dormir no deserto em um acampamento nômade, então pronto.

Em Israel, o que me deixa mais curiosa é Jerusalém. Acredito no Jesus histórico e quem sabe ali, ao vivo e a cores, o tal do Espírito Santo me dá uma forcinha, né? Se o outro nasceu até sem os pais fazerem sexo! Não custava nada nos conceder um óvulozinho atrasado e um espermatozóide mais atrevido… não precisa ser santo… melhor até se não for…

Enfim, é isso, no próximo sábado aterrizaremos em Tel Aviv . Na volta, conto tudo!

Decisões importantes

Ando pensando bastante e tomando algumas decisões. Lógico que prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo, mas às vezes é preciso tomar decisões e marcar algumas rotas ou nos perdemos pelo caminho.

Decidi ser mãe. Eu sei que já decidi que não, depois decidi que sim, depois não sabia, depois que não outra vez, depois… ai, cassilda, nem eu aguento mais essa conversa!

O fato é que esse assunto há uns quatro anos é bem mal resolvido na minha vida! Durante esse período não tomei anticoncepcionais. Talvez contasse com o acidente, o acaso, o destino… já nem me importa mais a verdadeira razão, porque ela mudou ao longo do tempo. Por outro lado, admito que nunca me empenhei realmente em ser pró-ativa nesse sentido, nas coisas mais básicas, como por exemplo, buscar meu período fértil. Francamente, até me sabotei uma porção de vezes!

O que mudou? Duas coisas, pela primeira vez senti Luiz aceitando a possibilidade da paternidade, porque uma coisa é dizer sim, a outra sou eu acreditar, porque as atitudes sempre nos entregam e sou escorpiana. Acredito muito mais no que o corpo diz do que a boca fala. A segunda coisa que mudou fui eu mesma. Só agora acho que entubei nas entranhas o fato de poder ser mãe, acima do que simplesmente ser capaz de ter um filho. Tarde, né? Pois é, mas foi só agora, paciência.

Existe uma consideração fundamental que talvez não tenha ficado clara, decidi que posso ser mãe, independente de que sangue tenha essa criança.

Muito bem, vamos a aspectos práticos, faço 42 anos em novembro. Estou no limite do limite e nem sei mais se sou fértil ainda! Mas resolvi dar um último fôlego, para não me arrepender de não haver tentado direito.

Parei de beber álcool, abstêmia total! Pelo menos nos próximos meses de tentativa. Achei que fosse ser difícil, considerando as selvagens noites madrileñas e a oferta de vinhos disponíveis, mas com toda franqueza, não está me custando nada. Tenho a vantagem da força de vontade, o que me falta em juízo, me sobra em disciplina.

Comecei a tomar ácido fólico, afinal, mal não faz. E, seguindo recomendação de uma amiga, também estou tomando um tal de Utrogestan, que é um suplemento de progesterona.

Comprei um teste de ovulação e hoje já é o terceiro dia que faço e dá negativo. É bem frustrante, achei que fosse lidar melhor com a situação, mas acho que faz parte.

Não tenho a menor intenção de fazer algum tratamento como inseminação artificial. Se já fico frustrada com um teste negativo de ovulação caseiro, imagina em um tratamento desses! Sem chance, uma pessoa precisa conhecer seus limites.

Em princípio, tento essa estratégia até o fim desse ano.

E se não der certo?

Como disse antes, talvez de maneira não tão clara, não preciso parir para ser mãe. A adoção é uma alternativa que cada vez me parece mais próxima. E sim, estou pensando seriamente a respeito e Luiz topou.

Mesmo não tendo desistido ainda de engravidar, comecei a me informar a respeito de adoções. Olha, não é mole! Primeiro que já é difícil decidir em que país começaria esse processo. Hoje moro em Madri, mas é um ano em que tudo pode mudar! De qualquer maneira, se quiser adotar uma criança espanhola, o tempo de espera está entre 8 e 10 anos! Acho inviável. Mas se topar entrar no processo de uma criança estrangeira (o que é meu caso), o tempo cai por volta dos 2 anos. No Brasil, eu não tenho informações. Mas se alguém tiver, eu quero.

Fiquei na dúvida se deveria ou não abrir essa informação, porque é algo bastante íntimo. Pressão é tudo que não precisamos nesse momento. Mas cheguei a conclusão que, depois de 17 anos de casada e sem filhos, todo tipo de cobrança e pressão que já ouvi… estou mais do que calejada! E vai que alguém pode me ajudar? Eu acredito na melhor intenção das pessoas, um pouco de torcida e canja de galinha não fazem mal a ninguém!

E é isso, sigo esperando para que lado o destino nos levará, mas dessa vez, pelo menos a gente está dando uma força para ele!

Paralelo Cero, um restaurante que já nasceu entre nossos favoritos

Nós temos alguns restaurantes preferidos na cidade, quem acompanha o blog sabe que de vez em quando posto por aqui. Pois muito bem, em um desses restaurantes, trabalhava o Mike e era ele quem sempre decidia que vinho iríamos tomar. Nos últimos 5 anos, ele nunca errou!

Pois é, o Mike ficou nosso amigo e sempre nos pareceu ter suas próprias ambições. Bom, mais do que isso, porque de boas intenções o inferno está cheio, ele correu atrás do seu sonho e, além da experiência profissional na área, foi se aperfeiçoar e se formou como sumiller.

Há dois anos, começou a planejar seu próprio restaurante, junto com um amigo, engenheiro comercial e seu sócio. Pensaram com muito cuidado em todos os detalhes até que finalmente lançaram no início de agosto o Paralelo Cero (em  português, paralelo zero).

Trata-se de um restaurante de alta gastronomia equatoriana, adaptada ao paladar espanhol. Na verdade, na minha opinião, os restaurantes de gastronomia mais refinada estão acima de nacionalidades, porque ainda que sigam uma linha, desenvolvem sua própria personalidade. E é o caso do Paralelo Cero.

Conto toda essa história porque, como amiga, foi bacana poder acompanhar esse trajeto e estar presente no sucesso que foi sua inauguração. No chapéu de cliente, adoro saber que há mais um excelente lugar para se frequentar e que o universo gastronômico madrileño vem se ampliando, saindo do lugar comum das tabernas de toda la vida. Ambiente bem decorado, limpo, moderno. Cozinha envidraçada, não há o que esconder. Pessoal simpático e treinado para atender bem.

Mas vamos ao que interessa, e a comida?

Ainda não tivemos a chance de cobrir todo o cardápio, mas chegaremos lá! Recomendo começar com as “croquetas de gallo de corral”. As croquetas são um clássico espanhol, que os brasileiros costumam achar sem graça devido a falta de recheios generosos, como estamos acostumados. Entretanto, essas são realmente especiais, vale experimentá-las, o sabor do frango de granja é bem pronunciado, delicado ao mesmo tempo e conta com a surpresa de uma crosta crocantinha com côco ralado.

Seguimos com “langostínos com almidón de yuca”. Langostino é parecido a um camarão, com a textura mais firme, que lembra a de uma lagosta. É bastante saboroso, foi servido à milanesa de mandioca e estava no ponto perfeito.

Outro prato recomendado pela casa são os “Yapingachos”. Tortinhas de batata, com molho de maní picante (tolerável aos paladares mais delicados), lingüiça, ovo e trufas.

Agora, tanto na minha opinião, quanto na do Luiz, o campeão foi o prato principal, um “seco de gallina pintada”. É um tipo de embutido de galinha da angola, com molho do próprio assado, arroz negro e aspargos verdes. É de ajoelhar, imperdível!

Algumas outras recomendações são o “ceviche de corvina y pulpo” (ceviche de peixe branco do atlântico e polvo) e “prensa de carrilleras” (uma carne cozida prensada, macia e saborosa, servida com um purê divino!).

Acho que a melhor alternativa de bebida para acompanhar é um bom vinho. O que o Mike te sugerir, pode aceitar de olhos fechados! No último jantar, tomamos um Chablis na temperatura ideal, que além de casar com a refeição, foi excelente pedida para uma noite de verão.

Feriado com a agenda concorrida

Semana passada foi feriado aqui em Madri. Nem adianta me perguntar  do que, não tenho a mínima idéia. É difícil a gente viajar nos feriados e até prefiro ir na contramão do fluxo turístico. Portanto, nunca me preocupo em saber quando é o que. Só sabia que segunda-feira passada era feriado, porque a amiga que nos chamou para o show da Cyndi Lauper no domingo me avisou!

 

Muito bem, no sábado, tínhamos só um almoço, um jantar com uma amiga que morou em Madri e estava de passagem e, na sequência, um aniversário! Na verdade, ainda tínhamos um convite para uma piscina, mas já tinha avisado que não iria dar conta!

 

Felizmente, na sexta, os amigos do almoço perguntaram se podia ser adiado para o domingo. Tudo bem, tínhamos o show, mas era mais tarde. Maravilha, assim dividimos melhor os compromissos!

 

Demos conta de fazer tudo e foi ótimo!

 

Acontece que no jantar da sexta-feira, foi o seguinte, essa amiga que morou aqui em Madri e voltou para o Rio, hoje vive com o namorado e está grávida de uma menina. Casar oficialmente não foi exatamente uma prioridade para eles, as coisas aconteceram mais naturalmente. Entretanto, ela comentou durante esse jantar que gostaria de em algum momento fazer uma festa, um evento, enfim, alguma coisa que marcasse esse ritual de passagem com a família e os amigos.

 

Uma outra amiga mexicana e eu ouvimos, nos olhamos meio cúmplices e, assim que deu, combinamos: e se a gente fizesse um casamento para ela aqui? Não seria o definitivo, mas seria simpático e carinhoso. Por que não? Enfim, combinamos entre a gente e chegamos à conclusão que deveríamos fazer meio que de surpresa, sem levantar expectativas nem formalidades. Simplesmente dizer que era um jantar entre nós e quando eles chegassem, descobrissem que era uma celebração da união dos dois.

 

Beleza, marcamos para terça-feira, até porque na segunda era feriado e não daria para comprar os ingredientes para o jantar. Na quarta eles já iam embora, ou seja, não havia outra data!

 

Acontece que não queria fazer qualquer jantar, né? Afinal, era um casamento, tudo bem que não era oficial, mas havia esse intuito. Precisava ser especial, puxa! Melhor que já houve um casamento em nossa casa e assim tinha alguma experiência anterior.

 

Por sorte, conseguimos comprar no feriado mesmo alguns ingredientes no Mercado de San Miguel. Adiantei algumas coisas na segunda-feira à noite, fiquei até umas três da matina cozinhando. O resto foi uma correria na terça, mas deu tudo certo!

 

Éramos oito pessoas, todas vestidas de branco. Trouxeram flores brancas e um bouquet de noiva também branco. Comprei no bazar aqui de baixo uma tiara de princesa, um véu e uma gravata de paetês. Tudo de fantasia, é lógico, mas era informal e ficou divertido.

 

Servimos queijos de autor, ovos de codorna trufados, crostillant de queijo, mini hambúrgueres com molho de pistache, bolinho de bacalhoada, bolinho de arroz com amendoim, verrine de salada de camarões com guacamole, quiche de tapioca e abobrinha, e couscous de cordeiro. Luiz fez um cardápio com nomes divertidos, afinal, ele é o homem de marketing aqui de casa, e assim eles também poderiam levar alguma recordação. O bolo de casamento, compramos pronto, não dava tempo de fazer e não faz parte dos meus talentos!

Claro que rolou uma cerimônia improvisada, com Luiz vestido de padre. Tinha uma fantasia aqui de algum halloween, inclusive, foi usada no primeiro casamento que fizemos aqui em casa também.

 

Resultado, foi bacana, até emocionante em alguns momentos. Valeu a correria e eles merecem!

 

Uma coisa legal, uma das convidadas, que antes conhecia mais de vista e agora ficamos em contato, adorou a história do jantar. Depois fiquei sabendo que Luiz já tinha feito propaganda para ela de que quero trabalhar com isso. Enfim, ela está envolvida com redes sociais e tomou a iniciativa de me divulgar, por exemplo, aqui. Assim que de maneira natural, pouco a pouco vou me inserindo nesse mundo profissionalmente da melhor maneira possível, entre amigos.

 

Na quarta, foi ensaio do coral. Aproveitamos para comemorar dois aniversários de integrantes e mais comidinhas rolaram… seguindo nesse ritmo, quem vai rolar daqui a pouco sou eu!

 

Na quinta, fomos à inauguração do restaurante de um amigo que conhecemos aqui quando ainda era barman. Bom, nunca foi um simples barman, tinha muita iniciativa e se notava que era alguém com suas ambições e grande potencial. Sempre torcemos bastante por ele e conhecer seu restaurante foi uma emoção e uma alegria enorme. Estava tudo delicioso e o lugar é lindo, dos que você tem a impressão que foi planejado com cuidado e executado da maneira correta. Ontem, por ser a inauguração, foi só uma amostra, assim que for jantar por ali, postarei um texto com maiores detalhes.

 

Na sequência, Luiz ficou em casa, porque tem que acordar muito cedo, e fui encontrar amigos na Sala Barco. É bem perto de onde moramos e toda quinta tem outros amigos tocando forró por lá. Acho chato ir sem Luiz, fico meio desanimada, mas papear um pouco também é legal e assim durmo melhor quando chego. No verão, parece um desperdício chegar cedo, fico com a impressão de estar perdendo tempo.

 

E para quem anda morrendo de preguiça, até que a agenda não vai mal…

Preguiça de verão

Mas ando numa preguiça…

 

É normal nessa época do ano por aqui, o verão espanhol é conhecido por sua dureza, faz um calor desértico, seco e árido. A temperatura esse ano não está das piores, mas mesmo assim a gente sente as conseqüências, principalmente as mulheres. A gente retém líquidos, incha que é uma maravilha! Até meus olhos acordam inchados e olha que a gente dorme em ar condicionado.

 

Tem seus pontos positivos também, a iluminação é fenomenal! Muda o astral das pessoas, muda a cor dos prédios, muda a cor da roupa, muda a cor da pele. Bom, minha pele não muda muito, porque sigo branquela e usando protetores de fator estratosférico. Mas as pessoas normais ficam mais morenas e mais bonitas.

 

Entretanto, esse ano algo aconteceu com o meio ambiente, porque está estranho para muita gente. Por exemplo, amigas (morenas) com alergia a sol; o pessoal, eu inclusive, acordando com os olhos inchados ou embaçados, como se fosse uma conjuntivite; alergias que são mais normais na primavera… Enfim, algo diferente no ar tem!

 

E eu com uma preguiça anormal! Em junho estava com a hiperatividade a mil, mal conseguia dormir. Agora, pareço meu gato, onde me esbarro quero me largar e tirar uma soneca!

 

Decidi bravamente não parar com o pilates, porque é uma maneira de me forçar à alguma atividade física. Vou às terças e quintas e quero morrer quando me levanto e lembro que é um desses dias! Mas é verdade que depois da ginástica, saio me sentindo muito melhor. No mínimo, menos inchada!

 

Agora, pergunta se a fome passou? Claro que não, né? Murphy é infalível! No calor a gente não costuma sentir menos fome? Para mim sempre foi assim, mas não sei que raio que me deu que ando esfomeada! Combinação excelente para quem diminuiu o ritmo de atividades!

 

Caraca, mas que preguiça… acho que vou fazer uma “siesta”…

Cyndi Lauper em Madri

Há cerca de um mês li em algum lugar que a Cyndi Lauper viria a Madri. Confesso que nunca fui uma fã ardorosa, mas achava ela divertida e achei legal a possibilidade de reviver um pouco dos 80 e da minha adolescência.

Chamei Luiz que não se empolgou tanto a princípio, mas também não chegou a negar. Mais próximo ao evento, uma amiga que já havia comprado seu ingresso acabou me reanimando a assisti-lo.

Felizmente fomos! Porque foi definitivamente um dos melhores shows que já compareci! Ela arrebenta em vários sentidos!

Vamos começar pelo começo, a imagem. Artistas muito estilosos quando jovens, às vezes não sabem envelhecer e fica aquela caricatura de alguém que não cabe mais na roupa que usa. Bom, obviamente, a Cyndi está longe de ser uma velhinha, mas já é uma senhora, digamos assim, e fiquei na dúvida de como ela conseguiria ser fiel à sua porra-louquice, sem ficar ridícula. Pois ela conseguiu! Continuou usando aquele cabelo colorido meio rasta e roupa original, mas que lhe cabiam perfeitamente na maior naturalidade. Seguiu parecendo a mesma pessoa, só que evoluída e não envelhecida.

Uma presença de palco totalmente consciente, madura, de quem sabe o que está fazendo. Liderança dos músicos, sem ofuscá-los em nenhum momento, muito pelo contrário, puxando o que cada um tinha de melhor. E uma energia que não é para qualquer um!

E o principal, uma voz do caramba! Afinadérrima, potente e exótica sem ser cansativa. Repertório de arrepiar literalmente, blues rasgado! Já chegou mostrando a que veio, levantou a galera e não deixou a peteca cair até o final! Impecável!

A louca ainda saiu duas vezes do palco e se misturou com o público embasbacado que não acreditava na sua ousadia. Tem que saber muito e ser muito segura para fazer isso uma vez só, imagina duas!

E sim, ela passou do meu ladinho, juro, cara a cara! Minha amiga e eu abrimos passagem e ainda esbarrou no Luiz!

Admito gente, fiquei tiete! Uma inspiração, quero ser assim quando crescer! Antes eu tinha um modelo para quando chegasse a uns sessenta e poucos anos, que era daquelas francesas que usam os cabelos bem curtinhos grisalhos, acho elegantérrimo! Mas pensando bem, não tem tanto a ver comigo. Agora quero ser uma coroa ruiva, rasta e divertida!

Foto de Angela Farias

Campanha: Vamos acabar com a filmagem merda de shows?

Pois é, ficou feio o título não é mesmo? Também acho. Mas sabe o que é mais feio? Você ir assistir a um show ao vivo, aturar aquele apertamento todo e justo na hora de assistir seus ídolos… dar de cara com um celular alheio no seu nariz! Pior, é aquele mar de celulares fechando a visão!

 

E tudo para que? Para conseguir uma foto merda ou um filme merda! A foto merda, tudo bem, porque pelo menos é rápido, ainda que você fique com aquele borrão de imagem que só você sabe quem era o artista que foi ver. Mas a filmagem merda fica aquele festival de sovacos suspensos irritantemente por horas! Ou seja, além de atrapalhar visualmente, pode acreditar que no verão europeu também contribui para a poluição do ar!

 

Fala sério, a pessoa nem aproveita o show! Você está ali, com tudo que a banda poderia te oferecer de melhor e fica assistindo por um retangulozinho ridículo?

 

Admito, eu já fiz isso! Pouco, mas fiz, pequei! Mas de agora em diante, me prometo tentar não fazê-lo mais, porque é muito, mas muito chato! E nem adianta dizer que é para guardar de lembrança, porque ninguém fica assistindo aquela porcaria depois. Você está prorrogando um momento falso, porque não estava aproveitando, cantando ou dançando, simplesmente estava preocupado com o melhor ângulo para sua câmera! Aproveitem a porcaria do show! Está ali, na sua frente e é agora!

 

E o pessoal que fica batendo papo no telefone, hein? Idéia brilhante: a outra pessoa ouvir aquele som completamente distorcido, que não dá para entender nada do outro lado, e fazer de conta que foi uma maneira de estar presente. Fala sério, deixa de ser mão de vaca e paga a porcaria do ingresso ou compra o CD, a banda também tem que comer! E você, que sim pagou seu ingresso, tem que ficar aturando aquele zum zum zum que não te interessa, ao invés de ouvir a música que você adora!

 

Ok, estou um pouco ranzinza, mas essas coisas me deixam de mau humor. Acho que já era hora de se estabelecer um código de ética para se assistir a shows. Não precisa ser tão militar, mas algo de educação seria mais do que bem vindo.

 

Acho que essa é uma das piores conseqüências geradas pela popularização da tecnologia. No caso das câmeras e celulares, na esperança de prorrogar um momento determinado, você paradoxalmente passa o tempo que deveria estar aproveitando esse exato momento registrando-o. As pessoas se habituaram a assistir o mundo através da tela de um computador, de um ipad ou de um telefone. Na hora que tem bem na sua frente o seu objeto real de desejo, não se importam em colocar um intermediário tecnológico filtrando essa cena.

 

Será que as pessoas se desacostumaram a ver gente de verdade? Será que virtual e real se misturaram de vez?

Massa de bacalhoada – 3 em 1

Trata-se de uma receita básica que pode ser aproveitada de três (ou mais) maneiras diferentes: bacalhoada, bolinho de bacalhoada e escondidinho de bacalhoada.

 

Na verdade, se aproxima bastante da tradicional bacalhoada portuguesa, que é a base do prato. O bolinho e o escondidinho são evoluções da mesma receita.

 

Ingredientes para a bacalhoada:

 

– 1 posta de bacalhau fresco ou lombos de bacalhau que cubram o tabuleiro (se não tiver fresco, dessalgar bem)

– 1 Kg de batata cozida

– 1 cebola grande

– 1 pimentão

– 2 tomates pequenos

– 6 dentes de alho

– azeite

– salsa/cebolinha ou coentro (para quem gosta)

– sal

– (pode incluir azeitonas, eu pessoalmente não gosto, mas sei que é um desvio de personalidade que estou tentando corrigir!)

 

Ingredientes adicionais para o bolinho:

 

– 3 a 5 ovos

– 3 colheres de sopa de farinha de trigo

– 1 colher de sopa de fermento em pó

 

Ingredientes adicionais para o escondidinho:

 

– queijo cremoso para cobertura (aproximadamente 250g, pode ser catupiry, requeijão… na Espanha, utilizo o queijo para untar sabor camembert)

– queijo ralado para gratinar (aproximadamente 100g, parmesão, gruyère…)

 

1 – Bacalhoada

 

Untar um tabuleiro com azeite, forrar com a batata cozida em rodelas e fazer camadas com o pimentão, cebola, tomate e alho bem picadinhos. Colocar sal a gosto (cuidado se utilizar bacalhau já salgado) e regar generosamente com azeite. Importante que seja um azeite de excelente qualidade. Misturar.

Temperar o bacalhau com sal (se for fresco) e pimenta branca moída. Colocar o bacalhau por cima de tudo e regar novamente com azeite.

Levar ao forno médio para alto, por cerca de 40 minutos. Mexer na metade do tempo só a parte de baixo, o bacalhau sempre por cima.

 

Servir no próprio tabuleiro que assou.

OBS: Se for parar nessa primeira etapa, a bacalhoada, melhor que a quantidade de bacalhau seja maior. Para o bolinho e o escondidinho, não é necessário.

 

Massa da bacalhoada para o bolinho e o escondidinho

 

Separar as postas de cima da bacalhoada, desfiar (de maneira que dê para sentir os pedaços do bacalhau), tirar as espinhas e reservar.

Todo o restante do tabuleiro (batatas, tomates, cebola, alho, salsinha) é amassado como um purê. Não escorra o azeite, ele vai junto e dá bastante sabor.

Adicionar o bacalhau desfiado à essa massa. Se a massa estiver com pouca liga, pode incluir até umas 3 colheres de farinha de trigo e 1 colher de fermento em pó. Bater 3 a 5 ovos e adicionar.

Lembro que as receitas não são ciências exatas, é importante observar o ponto da massa. As batatas variam de país para país. Precisando de uma consistência mais firme quando pronto, adicionar mais ovos. Fiz essa receita no Brasil com uns 3 ovos, na Espanha, sempre uso uns 5. Mas é importante não exagerar na farinha para não ficar massudo demais.

 

2 – Bolinho

 

Untar com azeite as forminhas, uso normalmente os moldes de silicone. As formas precisam estar bem untadas ou vai agarrar na hora de sair.

Preencher as forminhas com a massa da bacalhoada e levar ao forno médio por uns 20 minutos e alto por mais outros 20 minutos.

 

Desenformar e servir.

Pode ser congelado, mas melhor que sejam esquentados em forno a gás. No microondas vai funcionar também, mas não fica tão crocante.

 

Por que criei essa receita? Acho que a maior vantagem sobre a tradicional receita de bolinho de bacalhau é o fato de não ser frito. Eu pelo menos, muitas vezes desisti de fazer o bolinho de bacalhau pela quantidade de óleo ou azeite utilizada. Além do cheiro de fritura que deixa pela cozinha, ficava com a consciência pesada de jogar fora todo aquele azeite depois. Enfim, melhor para nossa saúde e para a do planeta.

 

Além do mais, é uma maneira de se comer bacalhoada como aperitivo. Faz o maior sucesso nos coquetéis. E como disse anteriormente, pode ser preparado com antecedência e congelado, facilita quando você quer oferecer uma recepção.

3 – Escondidinho de Bacalhoada

 

Untar um tabuleiro grande com azeite, esparramar a massa da bacalhoada cobrindo totalmente o fundo. Cobrir tudo com queijo cremoso (vai cobrindo aos poucos, caso contrário o queijo afunda e você não consegue esparramar), cobrir novamente com o queijo para gratinar e levar ao forno por aproximadamente 30 minutos.

Servir no próprio tabuleiro.

 

Uma alternativa para quem não gosta de queijo é cobrir com ovos batidos. Dá um aspecto de souflê.

 

Também pode ser congelado, mas aconselho a congelar sem o queijo (ou sem os ovos batidos). Deixar para cobrir e gratinar na hora de servir. Assim fica com mais jeito de fresquinho.

Bolinho de tapioca com queijo

Da última vez que estive no Brasil, provei um manjar dos deuses que é o tal do bolinho de tapioca com queijo coalho. Bom, sou até meio suspeita para opinar, porque amo comida de boteco!

Quando cheguei em Madri, adaptei um pouco o que achei pela internet com o que podia encontrar por essas bandas e deu na receita abaixo, que modéstia às favas, não decepcionou nem um pouco.

Não temos queijo coalho por aqui. Substituí pelo queijo manchego curado. A tapioca a gente só encontra em caixa, mas funciona direitinho para a receita. O único cuidado é deixá-la de molho com antecedência para hidratá-la.

Uma vantagem dessa receita é que não é frita, é assada. Enfim, acho que fica mais leve e sempre que posso assar ao invés de fritar, prefiro. É mais saudável.

– 500g de tapioca granulada

– 500g de queijo manchego (ou algum outro queijo curado) ralado

– 1 xícara de leite quente

– 50g de manteiga

– 3 ovos

– 1 pitada de pimenta do reino branca

– 1 envelope de fermento em pó

– salsinha/cebolinha

– sal a gosto (cuidado porque o queijo já é salgado)

Deixar a tapioca de molho por, no mínimo, 1 hora (espere ela inchar). Eu já deixo ela inchando em uma peneira, dentro de uma vasilha maior cheia de água, porque é mais fácil de escorrer o excesso de líquido depois.

Após a tapioca inchar, escorra e misture todos os ingredientes em um multiprocessador, deixando o sal por último (se você colocar o sal antes, o
fermento não atua bem). Facilita também se diluir a manteiga e o sal no leite quente, nesse caso, toda essa xícara é o que entra por último na mistura.

Untar com manteiga as forminhas (ou uma grande forma, se preferir) e levar ao forno até dourar (aproximadamente, forno em 180º, uns 30 minutos). Nas forminhas dá um pouco mais de trabalho, mas ficam os bolinhos em formato mais adequado ao aperitivo. Em uma forma maior, é mais prático, mas a consistência é bem macia e não fica tão bonito ao servir no prato. Quando fizer em uma forma maior, também pode ser decorado com queijo ralado por cima.

Esos días de verano…

Bom, não demorou muito e voltamos ao nosso dia a dia madrileño. Na verdade, não demorou nada. Cheguei em uma quarta-feira e na sexta já havia um jantar na casa de um casal de amigos marcado. Até bom, porque a gente sempre chega com a casa meio careca, né?

Tinha chegado com a esperança de segurar um pouco a onda, afinal, de férias a gente chuta alguns baldes. Mas já desisti desse plano idiota, as oportunidades vão aparecendo, melhor aproveitar. O jantar foi ótimo, entramos pela madrugada e já voltei logo ao ritmo da cidade.

Depois vem todo aquele glamour da volta de viagem, que inclui roupa para lavar, casa para limpar, compras para fazer… enfim, pacote completo. Até que dessa vez, o apartamento estava limpinho, me deu menos trabalho chegar.

Jack, nosso felino, estava aquele docinho e todo grudento. Animais amam rotina! Por mais que ele seja acostumado com mudanças, se sente seguro e feliz em sentir que sua vida e seus horários voltaram ao “normal”. Mas estava bem, tem se comportado direitinho com sua cuidadora oficial, acho que está mais acostumado com ela também.

Aqui está um calor do cão! Ainda que alguns dias até que estão agradáveis, principalmente, para quem tem ar condicionado. Mas não reclamo, mesmo com calor, o astral do verão é outro. A cidade fica mais feliz e a iluminação enche a gente de energia.

Enjoei de fazer dieta, me bateu os cinco minutos do cansei, chega! Tirando os fins de semana, até tento não exagerar, mas voltei desesperada para esquentar meu umbigo no fogão, testar receitas novas… cozinhar!

Há umas duas semanas, teve uma festa junina, ou melhor, julhina, na Casa do Brasil. Por ali, estava conversando com uma amiga e um amigo e resolvemos fazer um almoço a seis mãos. Tudo bem que havia uma certa empolgação etílica, mas juntou a fome com a vontade de comer e marcamos no calor do momento mesmo.

Ficou para esse último sábado. O problema era o seguinte, o prato principal decidido foi gnocchi caseiro, sim, aquele feito literalmente um a um!  Então, sinto muito, mas precisa ser para petit comitê ou não vai funcionar. Depois, andava de saco cheio de comer em prato de plástico! Quando vem muita gente, não há alternativa, precisamos de acessórios descartáveis. Quebram um galhão, mas entre nós, simplesmente odeio plástico!

Beleza, pessoal, então quem estava por ali no dia foi convidado. Uma amiga estava fazendo aniversário e aproveitamos o excelente pretexto para dar uma caprichada maior. Não nego que sofri a tentação de chamar mais gente… a aniversariante estava agoniada de ser cobrada por não chamar outros amigos queridos… quer saber, paciência! Encerrei a lista na marra mesmo e relaxei.

Tirei do armário minha porcelana limoges, os talheres de prata, copos de cristal e guardanapos de tecido! Ai, como gosto disso! Que saudade de um almoço como adultos!

Acabei de vez com o ranço que tenho de cozinhar com outras pessoas. Descobri que definitivamente, meu problema é só com quem não tem uma função na cozinha e tenta conversar para ser legal. Gente, na cozinha cabe quem está trabalhando, quem não está sobra! Atrapalha. Mas houve um momento em que éramos quatro pessoas (nós três cozinheiros e uma convidada que teve passe para ajudar) e tudo bem, porque cada um sabia o que fazer. O resto que papagaiava pelo recinto, era delicadamente (ou nem tanto) convidado a se retirar! Eu já nem disfarço mais, todos amigos mesmo, quando me perguntam se preciso de alguma coisa, respondo logo: sim, espaço!

Mas nem demorou muito ao pessoal entender que estávamos bem na nossa função culinária, melhor cada um relaxar e se divertir à sua maneira. Eu me divirto na cozinha, movida com uma boa taça (riedel) de vinho!

Também não ficamos o tempo todo cozinhando, foi mais enquanto um dos amigos fazia a salada, minha amiga e eu cortávamos e fazíamos o gnocchi. Ficou parecido a uma cozinha industrial, profissional mesmo. O resto estava encaminhado, era só finalizar na hora de servir.

O menu foi o seguinte, como aperitivos, ovos de codorna com maionese caseira de açafrão, antepasto de berinjela assada, bolinho de tapioca com queijo, frutos secos, queijos (manchego e de arzúa) e pães. Como entrada, uma salada verde divina com vinagrete de maracujá, escondidinho de bacalhoada e cuscus de frango. Prato principal, o gnocchi servido com dois molhos, o bolognesa clássico e de trufas brancas. Como segundo prato, as carnes, um Beef Wellington e um folhado de calabresa. Sobremesa, tarte tatin e bolo de chocolate (de aniversário). Toda uma orgia gastronômica que durou dàs 15h até uma da matina!

Agora me falta o mesmo ânimo para fazer ginástica e queimar tudo isso, viu? Ao pilates, já voltei. Vou com preguiça, mas vou. Mas a malhação enfurecida que estava antes de ir ao Brasil… putz, está difícil de voltar…

E no fundo, no fundo, como foi?

Muito bem, contei como foram as férias quanto aos acontecimentos, beleza. Mas e por dentro, digamos, psicologicamente falando, como foi? Ainda não tenho certeza, mas foi muito diferente das outras vezes.

Considerando que nossa papelada foi toda acertada por aqui, o Brasil, como qualquer país europeu, voltou para o ranking das possibilidades de novas mudanças. Na verdade, qualquer país do mundo, desde que eu possa trabalhar, mas no Brasil e na Europa estão as cidades mais viáveis.

Veja bem, que não se entenda que estamos de malas prontas, porque não estamos. Madri continua sendo nossa casa até segunda ordem. Tudo muito bem, tudo muito bom, só digo que já não precisamos mais obrigatoriamente estar aqui. Caso apareça oportunidade melhor, temos liberdade de escolha. Caso não apareça, seguimos e obrigada.

Mas o fato é que fui ao Brasil com o olhar de quem poderia voltar em breve e isso quer dizer que fui bem mais crítica e atenta. Foi confuso e ambíguo, como já esperava. Algumas coisas me davam vontade de voltar correndo e outras me provocavam rechaço. E porque não dizer, tive saudade de uma série de aspectos que vivemos por Madri e que acabamos por não valorizar tanto, afinal está logo ali.

Para mim, uma coisa ficou absolutamente clara, o que mais pesaria na decisão de ir (porque nunca se volta) para o Brasil é minha família, mais especificamente, meus pais e meu irmão. Não digo que não pesasse o restante da família e os amigos, também tem um peso considerável, mas não é o definitivo. Porque das outras pessoas sinto saudades, mas sei que minha presença física não é necessária, não afetaria significativamente a vida delas.

Principalmente as amizades, por mais profundas que sejam e exatamente as pessoas mais queridas, continuam amigas independente de onde a gente more. Nos encontrando com frequência ou não, sempre damos um jeito de manter o contato. Quando nos vemos ou nos falamos, é aquela sensação de que parece que foi ontem. E felizmente, temos grandes amigos onde quer que a gente more.

Em termos de qualidade de vida é difícil julgar. Tenho consciência que minhas exigências em relação a isso são muito diferentes do que as pessoas normais costumam esperar de uma vida tranquila. E Luiz é igual. A gente dá nosso jeito de ser feliz em quase qualquer lugar do mundo.

E o que mais pesa para ficar aqui? A segurança, a liberdade de caminhar pela rua sem armaduras de carros blindados. Viver sem o medo encarnado. Reclamo do lado provinciano madrileño, mas é bom sair pela noite sabendo que sempre encontrarei um rosto conhecido e se não encontrar, posso
simplesmente puxar papo com quem estiver ao lado.

Além do mais, chega a me impressionar o quanto mudou minha relação com o país depois que a nossa cidadania saiu. Como tudo do dia para noite passou a me aborrecer menos, me incomodar menos. E como foi boa a sensação de entrar na Espanha como cidadã européia. É uma fila de diferença, deveria ser só essa a diferença não? Mas não é, me senti parte de onde vivo e essa sensação é muito boa.

Continuo com certo espírito aventureiro, mas menos do que antes e menos do que Luiz. Quero a experiência, mas já não mais a qualquer custo. Entendi que não temos mais tanto tempo para apostar tudo e recomeçar, precisamos nos alavancar sobre o que já temos porque não vai demorar a chegar na curva descendente. O máximo que podemos fazer é adiar um pouco esse processo, mas ela vai chegar, chega para todos. Não quero uma velhice onde não possa escolher meus médicos, se é que alguém me entende. E sim, já comecei a pensar nisso, sem paranóias e sem pressa, já sei que ainda somos relativamente jovens e blá blá blá, mas é um fato. Temos mais uns quinze anos, no máximo, para garantir uma aposentadoria tranquila. Podemos trabalhar depois disso, mas o principal se alcançará nesse período.

Portanto, sendo curta e grossa, o que vai decidir nossos próximos passos de onde morar é o dinheiro. Simples assim. Calculista, né? Sinto muito por quem esperava algo mais poético e filosófico, mas é isso mesmo. Precisamos ter a cabeça fria e pesar os fatores com calma, mas financeiramente, precisa compensar e ponto final.

São Paulo – Rio de Janeiro – Madri

Pois muito bem, cheguei, vamos começar a por ordem no barraco, né?

 

Saí de Madri no dia 09 de junho, pousei antes das 5 da matina do dia 10, sexta-feira, em São Paulo e um casal de amigos foi me buscar no aeroporto. Pequeno detalhe, o trânsito já estava engarrafado nesse horário!

 

Não durmo absolutamente nada em avião, nunca! Independente do quão confortável seja a viagem, passo o tempo inteiro a postos. Mas sabendo do pouco tempo que teria na cidade, também não queria perder um minuto, portanto, mal tomei um banho e parti para a programação intensiva.

 

Almocei com a família paulista e passei a tarde com eles, emendei na minha cabeleireira favorita (afinal não corto cabelo aqui nem morta!) e à noite estava marcado de encontrar amigos no Kiaora. Um desses encontrões no atacado, porque no varejo não dou conta de encontrar quase ninguém! Foi divertido, apesar do lugar estar absolutamente lotado! Resultado, além de estar virada e com fuso de 5 horas de diferença, ainda saímos de lá pelas 3 ou 4 da manhã. Ainda bem que sou treinada nas selvagens noites madrileñas!

 

O dia seguinte não foi muito diferente, não acordamos tão tarde, almocei com a amiga onde estava hospedada e na saída do restaurante, encontrei uma outra amiga que não via há séculos, muito legal! Seguimos a tarde com uma passada no mercado para fazer umas comprinhas de última hora para a festa junina à noite, só para Diretoria. Foi nessa mesma casa onde estava hospedada que falei.

 

O encontro entrou pela madrugada novamente e nem sei como, mas não estava tão cansada como imaginei. Ou então, já tinha até passado de qualquer limite de cansaço, sei lá! A verdade é que queria aproveitar o tempo inteiro! Foi uma passagem relâmpago pela cidade, mas era assim ou nada e tenho muito carinho pelos amigos de lá.

 

No domingo, pela manhã, meu vôo saiu às 11 horas, direção Rio de Janeiro, cidade maravilhosa!  O que quer dizer que, novamente, não dormi muito. Meu irmão e minha mãe foram me buscar no aeroporto. Duas malonas para caber jamón, fuet, whisky, azeite… enfim, as encomendas de sempre!

 

Para quem está pensando que finalmente fui descansar, esquece! Passamos a tarde inteira de papo, uma prima foi lá para casa. E à noite, quando achei que tinha encerrado meu expediente, meu irmão me arrastou para a rua. Convite irrecusável: Academia da Cachaça! Tudo bem, mas vamos voltar cedo, né? Afinal amanhã é segunda-feira. Claro, claro…

 

Até tentamos encerrar cedo, mas indo embora, bem na saída, vejo alguém me chamando e vindo na minha direção! Não acredito! Um amigão com sua namorada e outro amigo dele, que por coincidência, conhecia meu irmão também. Bom, então vamos começar tudo outra vez!

 

Lá pela terceira saideira, meu irmão disse que precisava ir. Ok, por mim, tudo bem, vamos! Dentro do carro, já no caminho de casa, ele me pergunta: quer conhecer o Londra? Veja bem, macaco quer banana? Olha só, por mim, cansada, cansada e meia, eu não tenho que trabalhar amanhã. Então, só uma passadinha…

 

Sim, emendamos no Londra para uma dose cavalar de whisky, que me lembrou Madri. Ao lado, um chef de bar que puxou papo conosco em função do nome de um single malt. Nem sabia que existia essa profissão, chef de bar, mas achei legal. Tudo bem, mas agora a gente realmente precisa voltar para casa!

 

E como estavam as coisas em casa?

 

Meu pai está mais ou menos, assim, por um lado não está com nenhuma urgência, mas de uns meses para cá começou a ter um tipo de convulsão leve, mas que se não tiver apoio ou ajuda, cai no chão. E um tombo de um homem com 1,90m e 115Kg, não é mole! Como elas se tornaram muito freqüentes, praticamente todas as vezes em que ele se levantava, precisou de medicação. Daí, começou a tomar um remédio forte que aliviou essas convulsões, mas o deixou muito aéreo, distante e sem interesse por quase nada. Bom, entre ele ficar meio paradão ou ter convulsões, a primeira opção é menos pior, mas espero que a gente encontre alguma alternativa. Quero acreditar que é uma questão de ajuste e, realmente, seria muito bom que ele pudesse diminuir essa dosagem sem piores consequências.

 

De uma forma ou de outra, a vida segue e minha principal missão, digamos assim, dessa viagem era que minha mãe relaxasse um pouco e se alegrasse. Portanto, já cheguei colocando pilha para a gente comemorar seu aniversário com uma festa. Coisa que ela não estava nem um pouco afim, ou achou que não estivesse.

 

Comecei sugerindo que a gente fizesse então uma coisinha só para a família e fui perguntando aos primos e tias que estavam pelo Rio se eles topavam. Todo mundo gostou da idéia, mas nada da minha mãe se animar. E eu também não podia fazer uma festa à força na casa dela, né? Muito bem, se ela não quer…

 

Até que os mesmos primos e tias começaram a ligar lá para casa deles dizendo que dariam uma passadinha para dar um abraço nela no sábado. E vamos combinar, que ela não ia dizer para as pessoas não passarem, certo? Pois é, mãe, então, se eles vão dar uma passadinha, melhor ter algum lanche para oferecer, certo? Eu faço tudo, pode deixar!

 

Ela não disse exatamente que sim, mas também não disse que não. Assumi que era um sim de geminiana. Mas vamos abrir parênteses, porque ainda estávamos no começo da semana e a festa só seria no sábado.

 

Pois bem, na segunda e na terça-feira, aproveitei para ir a médico, resolver coisas e ficar com meus pais. Uma amiga que morou em Madri passou para me visitar e tivemos uma tarde de lulus tranqüila, boa para colocar os papos em dia. Na quarta, comecei a abrir agenda para encontrar os amigos e à noite escolhia algum bar por perto, publicava no facebook onde iria e quem pudesse aparecer era bem vindo.

 

Na quarta fomos ao Sindicato do Chopp e na quinta ao Joaquina. O mais interessante é que havia alguns amigos de São Paulo trabalhando pelo Rio e acabaram sendo os que mais encontrei pelas noites cariocas! Tinha o pessoal do Rio também e uma amiga que conheci na França e agora está pelas bandas brazucas. Enfim, foi bastante divertido, uma pena não conseguir escrever no mesmo dia que os encontros iam acontecendo, a gente perde um pouco o momento, mas tudo bem.

 

Na sexta-feira, minha mãe quis ir ao Clube do Leme para assistir uma banda que tocava por lá e, na cabeça dela, seria a comemoração do seu aniversário. Ela achou que com isso ia fugir da raia e eu esqueceria da festa do sábado. Imagina!

 

Na verdade, passei a sexta à tarde toda cozinhando. Fiz sanduíche de pernil desfiado, salpicão de frutos do mar, quibe e bolinho de bacalhoada. Obviamente, sob protestos que estava fazendo coisa demais! Afinal de contas, não vinha quase ninguém! Ahã… tá bom, como se não conhecesse…
minha mãe acabou achando melhor contratar um garçon, só para não ter que arrumar a cozinha depois e achei bom.

 

Ela ainda estava com uma empregada, um baixo astral daqueles que apelidei logo de a mulher-uruca! A uruca até ajudou um pouco a preparar as coisas, mas me restringi a deixá-la apenas cortar ingredientes e tocar o mínimo possível na comida e ainda assim, sob supervisão. Aliás, a mulher-uruca foi despedida na segunda-feira seguinte, para o alívio de todos!

 

Mas voltando a festinha que rolou no clube na sexta-feira à noite, a banda que tocou era mais para a coroada (como se eu não fosse), mas é o único lugar que meu pai ainda aguenta ir e onde vão boa parte dos seus amigos. Portanto, para mim estava valendo. Meu irmão e uma prima também foram e ainda convidei mais dois amigos de São Paulo que estavam perdidos pelo Rio e resolveram ficar para o fim de semana. Não é que eles também apareceram? No final das contas, apesar da banda, até que ficou animado. Nada que algumas garrafas de prosecco não resolvessem. Quando meu pai cansou, meu irmão e eu o levamos para casa, para dar uma folguinha para mamy e voltamos para a festa. Ela acabou animando a dançar, pulou, riu, a banda cantou os parabéns… enfim, foi bem divertido e achei que ela ficou feliz.

 

Pequeno intervalo para contar que o Luiz não se agüentou e acabou resolvendo ir ao Rio também, meio que de surpresa. Sua chegada seria no sábado, pelas 5 da matina.

 

Mas continuando, não me lembro exatamente que horas era, mas devia ser pela hora da Cinderela quando deixamos minha mãe em casa e meu irmão nos convidou para seguir pela noite no Londra. Fomos nós, minha prima e os dois amigos de São Paulo, que também são amigos do Luiz. Daí a gente decidiu que tentaria virar até o dia seguinte e aparecer de surpresa no aeroporto para buscar Luiz. Não sei porque, mas com a cabeça cheia de champagne, essa nos parecia ser uma idéia e tanto…

 

… que obviamente, não funcionou! Era mais de 3 da manhã quando a gente desistiu desse plano ridículo de ir para o aeroporto bêbados e fomos para casa.

 

O que quer dizer que fui dormir quase pelas 4 e às 5 em ponto Luiz me ligou avisando que pousou. Eu não sabia nem de que lado era o mundo! Mas fiquei empolgada com sua chegada e o esperei acordada em casa. Pelas 6:30h ele chegou, todos ainda estavam dormindo, e resolveu dar uma descansadinha. Em trinta segundos ele já havia conseguido ferrar no sono e eu seguia acordada!

 

Perto da hora do almoço (e na casa dos meus pais isso quer dizer pontualmente ao meio dia), meu pai nos acordou para comer uma feijoada. Achei que não daria conta, mas dei.

 

Entrou à tarde e a festa da minha mãe estava marcada para às 17 horas. Sim, é cedo, mas para eles e os amigos é um ótimo horário.

 

Portanto, fomos deixar a casa em ordem. Pedi ajuda ao Luiz para colocar o gelo e as bebidas no isopor e ele olha aquela meia dúzia de latinhas no fundo e pergunta para minha mãe quantas pessoas viriam. Ele fez as contas e seríamos, no máximo, umas 10 pessoas. Informação que não convenceu nem a ele, nem a mim. Ela disse que poderia pedir por telefone mais tarde se faltasse alguma bebida, mesmo assim recomendamos, por garantia, que era melhor comprar um pouco mais de cerveja e pelo menos umas 3 garrafas de prosecco, se sobrar a gente toma depois, não tem problema.

 

A reunião começou cedo, afinal era só um lanchinho para a família. O que ela não parecia se lembrar é que na noite anterior, no clube, foi encontrando um e outro amigo e falando que se quisessem passar lá em casa haveria um “cafezinho” a partir das 17 horas.

 

Resumindo, vieram bem umas 40 pessoas, a comida foi toda! Minha mãe lembrou que sabia fazer festa e acionou o plano B, ingredientes de armário (salsicha, azeitona, salgadinhos, pipoca, pão de queijo). Por sorte o garçon também era super safo e ainda fez uns cachorros-quentes. Lógico que a bebida evaporou e um pouco antes de acabar, avisei minha mãe para pedir mais por telefone. Ainda tinha o bolo e uns docinhos portugueses muito bons. Enfim, nada sobrou, mas também não faltou, acabou sendo uma festa bem divertida! Como se nota, algo levo no DNA.

 

Meu pai estava ótimo, dentro do possível! Ficou na poltrona dele, mas conversando, participando e esperou até o último convidado ir embora. Meus sogros também apareceram e acho que ficaram felizes de ver Luiz, já que sua ida não estava prevista.

 

Achei que o astral da casa deu uma aliviada, estava um pouco triste quando cheguei, não sei, tive essa sensação. Não é que os problemas estivessem resolvidos em um passe de mágica, mas gente de boa energia circulando em casa traz bons ares também. Temos uma família presente e amigos muito bons, pessoas com que se pode contar e isso faz muita diferença, principalmente para mim, que fico longe uma parte considerável do tempo. É um alívio saber que quando o bicho pega, há gente próxima enquanto não chego.

 

Resumindo, teve festa de aniversário e foi um sucesso! Missão cumprida! O resto era lucro.

 

Na semana que se aproximava, ainda deveria ir a oculista, dentista e outros “istas”, mas quer saber, o papo em casa e na casa dos meus sogros era tanto sobre médicos, então resolvi relaxar e deixar isso para lá. Vou aproveitar a família e os amigos e o resto a gente se vira depois. O único médico que não pude deixar de ir foi ao mastologista, afinal já tirei só oito quistos, portanto, não posso facilitar. Nem acreditei quando ele me liberou dessa vez e não precisei tirar nenhum! Boas notícias!

 

Muito bem, no domingo, acordei com desejo de ir almoçar no Botequim, da Visconde Caravelas. Luiz e eu comíamos ali quando éramos ainda namorados. Continua com uma comidinha super caseira e ótima! Fomos com dois amigos de São Paulo (olha os paulistas aí!) e meu irmão. E à noite, saímos com outro casal de amigos na Cobal de Botafogo para bater papo. Confesso que foi o único dia em que me neguei a colocar uma gota de álcool na boca! Com tantos encontros, sempre em bares, festas ou restaurantes, não ficava nem um diazinho sem beber e meu fígado já estava pedindo água, literalmente!

 

Pois é, essa semana que começou no dia 21, havia meio que me programado para dar uma fugida a Belo Horizonte, para matar a saudade da família do lado de lá e conhecer a nova priminha que nasceu. Logo que cheguei, até convenci minha mãe a ir comigo, combinamos com uma prima de dormir um dia lá em casa para meu pai não ficar sozinho e tal. Mas com a ida do Luiz, também não queria deixá-lo só no Rio, minha mãe amarelou de viajar comigo e acabei desistindo. Uma pena, mas não dá para fazer tudo, né?

 

Bom, vou poupá-los de contar novamente dia por dia, até porque nem me lembro direito. Só sei que fomos a duas churrascarias nos acabar de comer carne com gosto de carne, encontramos amigos, fomos a um aniversário, fomos a um jantar na casa de um dos poucos amigos que consigo cozinhar a quatro mãos e, como não podia deixar de ser, fomos à Academia da Cachaça.

 

Acho que a Academia é meu bar favorito no Rio. Gosto de outros também, mas tenho uma relação afetiva com esse bar. Inclusive, foi o primeiro lugar que Luiz me levou e onde começamos nossa história há pouco mais de 18 anos atrás.

 

Aliás, só vou falar de mais um bar, que também estava super nostálgica para ir outra vez, o Villarino. Conheci Luiz quando trabalhávamos juntos e obviamente era proibido nosso namoro. Mas enfim, justo em frente havia esse bar e restaurante que a gente ia de vez em quando em happy hours, tomar whisky com nossos cúmplices. Anos depois, conhecemos um amigo que é freqüentador assíduo do local e meu irmão que também começou a dar suas passadas por lá. Deu uma vontade danada de voltar e ver se o mundo ainda estava no mesmo lugar. E estava!

 

Uma história divertida é que esse amigo frequentador do Villarino, que também nos encontrou nesse dia, trilhou comigo uma boa parte do Caminho de Santiago e escreveu um livro sobre isso, do qual me tornei uma das personagens. Pois bem, ele é tão assíduo no bar, que ali se vende seus livros, acredito que até bem mais do que em qualquer livraria! Portanto, fui “reconhecida” por algumas pessoas nesse dia como a “Bianca do livro” e tive meus dois minutos de fama por tabela! Fui apresentada ao fundador, um senhor espanhol que segue indo ao bar em sua cadeira de rodas e se senta com a enfermeira, já é idoso, mas bastante lúcido e simpático, conversamos um pouquinho em castelhano. Saí de lá com as bochechas roxas do whisky, mas bem que valeu!

 

No sábado, Luiz teve que voltar para casa, porque trabalhava na segunda-feira em Madri. Fui com meu irmão e minha mãe ao aeroporto levá-lo. Achei muito ruim me despedir dele e ficar, mas tudo bem, era por pouco tempo.

 

Meu irmão já foi logo me avisando que íamos jantar em um japonês e de lá iríamos ao Circo Voador, na Festa Ploc! Aliás, acho que essa foi a vez que mais saí com meu irmão, desde que mudei do Brasil, foi legal. Muito bem, jantarzinho tranqüilo em um japonês ótimo no Leblon que agora me esqueci o nome. Foram mais dois casais de amigos dele, um dos meninos, amigo desde o tempo de colégio.

 

Beleza, lá pelas 23 horas, fomos para o Circo Voador. E confesso que ver os arcos da Lapa iluminados fez meu coração bater mais forte. Meu irmão conhece o pessoal por lá, nossa entrada foi bem fácil e com acesso a área VIP, quem diria. Ali havia mais dois casais de amigos dele e ficamos em um grupo de umas oito pessoas.

 

Para quem, como eu, não sabia do que se tratava a Festa Ploc, são uma série de shows com artistas ou bandas que fizeram sucesso nos anos 80. Imagina isso para quem chegou aos quarenta? Foi o céu! Tocou Silvinho (do Ursinho Blau Blau), Perdidos na Selva, Sempre Livre e… ela, a deusa, Rosana! O único que achei chato foi o Sérgio Malandro, mas tudo bem, já foi no finalzinho e não chegou a atrapalhar o programa. Quando era criança, até gostava do Sérgio Malandro, achava ele engraçado. Mas já estou Bauzaca e ele continua contando as mesmas bobagens! Mas enfim, claro que conhecia o repertório inteiro dos shows e me acabei de dançar! Ainda consegui uma espada dos poderes de Grayskull, que trouxe até para Madri!

 

Acho que não fui muito clara quando disse que me acabei de dançar, deixa eu ser mais precisa. Quem me conhece, pode ser que se lembre que tenho um tipo de labirintite, que na verdade é uma vertigem posicional blá, blá, blá… que são uns cristais que se acumulam ou saem do lugar pelo labrinto… alguma coisa assim. Pois é, esse negócio me dá umas tonteiras e estava com um pouco quando fui para o Brasil. Muito bem, eu pulei tanto nessa festa que no dia seguinte estava boa! Ou seja, os cristais saltaram para o lugar que tinham que voltar! Sei lá, mas deu certo!

 

No domingo, acordei quase sem voz! Fomos almoçar em família no Clube do Leme. Foi o único dia em que meu pai não parecia muito bem, passou mal e não comeu direito. Quando meu pai não come direito, a gente sabe que algo está errado. A última coisa que ele perde é o apetite! Bom, não parecia nada grave, mas melhor ele ficar sossegado em casa.

 

Durante à tarde, fomos na casa da minha prima, que nunca tive tempo de conhecer antes. Dessa vez, marcamos de lanchar lá. Foi minha mãe, minha tia, meu irmão, só família mesmo. Pois é, fofocando com minha prima, descobri que ela tinha feito o tal do preenchimento do bigode chinês (nem sabia que tinha esse nome, mas estava doida para fazer também). Bom, eu andava louca por alguma recomendação de alguém de confiança que
tivesse feito e ela me passou o telefone do médico dela. Acontece que eu só tinha o dia seguinte, segunda-feira, para fazer. Porque na terça eu já voltava para Madri.

 

Caramba, como fui descobrir isso justo quando estou indo embora! Mas quer saber, não custa tentar. Na segunda-feira, assim que acordei, liguei para o consultório e contei minha história do menino perdido. Não é que consegui horário para o mesmo dia!

 

Deixei um marreco para o jantar encaminhado. Sim, era o último jantar antes de viajar de volta e meu pai ainda não estava comendo direito, assim que queria dar uma caprichada. Colocamos o prosecco da minha mãe para gelar e lá fui minha mãe e eu para o médico!

 

Resumindo, fiz o tal preenchimento com ácido hialurônico e a-do-rei! Fica bem natural, não some o tal do bigode, até porque a gente ficaria com a cara do fofão, mas dá uma suavizada na expressão. Dizem que dura uns 8 meses, já veremos, mas fiquei freguesa! Perguntei o que existia para se fazer no meu rosto, só para saber mesmo, porque o resto não me incomoda ainda. O importante é que agora tenho uma referência de médico e conhecimento de possibilidades.

 

Voltamos para o jantar e modéstia às favas, o marreco ficou show! Só sobraram os ossos para contar história! E lembra da inapetência do meu pai? Pois é, passou num instante! Minha mãe e eu ainda derrubamos o prosecco, e meu irmão conseguiu chegar para o finalzinho da garrafa. Ficamos ali, batendo papo e fazendo hora na mesa, meio que nossa despedida da viagem.

 

Na terça, só deu tempo de almoçar com eles e satisfazer o último desejo gastronômico: camarão ao catupiry do Shirley. Eles entregaram em casa e estava bem gostoso.

 

Pouco depois, saímos para o aeroporto. Fomos só minha mãe e eu de taxi. Ela tem os motoristas conhecidos que já ficam esperando por ela para voltar. É sempre dura a partida, fico dividida, um pouco de pena, saudade, dúvida se estou fazendo a coisa certa morando por aqui. Enfim, os dilemas de sempre. Depois a vida segue e a gente vai se ajeitando.

 

Fiz escala em São Paulo, mas não saí do aeroporto. A viagem de volta foi bem tranqüila. Tempo bom e por incrível que pareça, não houve uma só turbulência em todo o vôo! Coisa difícil de acontecer, mas agradeço.

 

Foi a primeira vez que entrei no país com passaporte espanhol, fila da comunidade européia. Estava curiosa e ansiosa, quase como se estivesse fazendo alguma coisa errada ou proibida. Engraçado como às vezes leva um tempo para entendermos nossos próprios direitos.

 

Luiz deu um jeito de ir me buscar, porque era dia de semana e para ele é complicado. Por sorte, cheguei na hora do almoço e deu para ele dar uma fugidinha e me ajudar a subir com as duas malas pela escadaria de casa. Os ingredientes da sua feijoada estavam em uma delas e passou tudinho, felizmente!

 

Meu gato estava todo carinhoso, eu sentia falta do meu bicho. Sou muito acostumada a tê-lo pelos meus pés todos os dias e já eram três semanas longe dele.

 

E é isso, cá estou novamente! De volta ao calorzinho madrileño e na expectativa do que os ventos de verão irão nos trazer!

Tudo junto!

Viagem para o Brasil chegando e não consigo segurar a cabeça para atualizar as crônicas. Então, vai tudo junto em um texto só!

 

No dia 28 de maio (para ver como ando enrolando para escrever), foi show de uma amiga na Bogui Jazz. A sala andou fechada um bom tempo, reabriu há pouco e se tornou rapidamente uma das minhas favoritas em Madri. E a cantora também é fera, fez um show com o repertório de trilhas sonoras, bem bacana, tanto a idéia quanto a execução. Pois bem, por que estou contando isso? Porque fui chamada para dar uma palhinha em uma das músicas, Las Muchachas de Copacabana, da Ópera do Malandro.

 

Pois é, lá fui eu dar uma de “chica de la vida”, imagina isso? Além da cantora, fomos em três muchachas: melodia, voz mais grave e fiz a voz mais aguda. Eu queria me matar de vergonha antes de começar e sempre fico me perguntando porque topo entrar nessas encrencas. Mas logo que subo no palco, parece que baixa alguma coisa e curto bastante. Quando acaba quero até mais! E entre nós, dizer que cantei na Bogui Jazz é a maior onda!

Nossa participação foi na penúltima música, ou seja, passei o show quase todo me segurando para não beber, não falar, não ficar com vergonha, não ter vontade de ir ao banheiro… não, não, não… até que veio nossa vez e finalmente relaxei. Depois rolou uma festinha de aniversário (da cantora) e deu para aproveitar bem a noite.

 

Luiz ficou de fotógrafo. Está se tornando o fotógrafo oficial dos eventos da galera. O chato é que ele acaba não saindo em foto nenhuma ou quase nenhuma, mas está se aperfeiçoando e tem tirado umas fotos legais.

 

Nessa última quarta-feira, dia primeiro, teve uma caravana de música pernambucana na cidade. Duas bandas vieram de lá e a terceira é daqui mesmo, a Maracatu FM. Na verdade, seriam quatro bandas, mas uma teve algum problema e não tocou. Foi lá na Sala Caracol, é um espaço bem grande e difícil de encher durante a semana. Considerando esse ponto, até que teve um público razoável, se fosse sexta ou sábado, acho que lotaria.

 

É difícil para Luiz ir a show durante a semana, porque acorda cedíssimo, mas nesse ele foi porque tínhamos amigos tocando e o ano fiscal dele acabou no dia anterior, valia uma comemoraçãozinha. Pela hora da Cinderela, ele foi embora à francesa e fiquei com os amigos representando a família. Lógico que me acabei de dançar! Gostei muito do show como um todo, bandas com estilos bem diferentes entre si. Achei legal esse passeio musical e interessante a iniciativa de trazer essas bandas para Europa. Eles saíram em turnê daqui para mais uma meia dúzia de países.

 

Não exagerei no álcool, até porque anda me dando aquelas vertigens esquisitas outra vez. Por sorte, nenhuma crise, mas estou me cuidando.

 

De lá, ficamos naquela dúvida cruel de seguir ou não seguir e, claro, acabamos por seguir a noite. Fomos até o Maloka, tomar a “saideira”. Não conhecia o lugar ainda, gostei, bonitinho e mínimo! Algumas saideiras depois, tomamos o rumo de casa. Dividi o taxi com um casal de amigos e ainda paramos para comer uma pizza em Tribunal. Bom que tive companhia até quase a porta de casa.

 

E esse povo não trabalha não? Trabalham e bastante, mas muitos são músicos, bailarinos, artistas, profissionais liberais, enfim, sem um compromisso de acordar pela manhã muito cedo.

 

Na sexta-feira, programinha light, reunião na casa de amigos para comer pastel. Tinha até cachaça, mas como disse, ando segurando minha onda, fiquei no vinhozinho mesmo.

 

Sábado, concerto beneficente de outros amigos que participam de uma ONG. Trabalham em grande parte com africanos ilegais e bons pacas na percussão. Tocaram três bandas, não estava muito cheio, mas foi animado. Uma pena terem divulgado meio em cima da hora, certamente poderíamos ter levado mais gente. Tudo bem, fica para uma próxima vez.

 

De lá, seguimos com um casal de amigos que moram perto de nós. A típica noite madrileña, que você vai parando de bar em bar até cansar.

 

Domingo foi bem tranqüilo, nem tiramos o nariz para a rua! Comecei a separar as coisas para levar para o Brasil.

 

Viajo na quinta, dia 9 de junho, chego em São Paulo na sexta-feira bem cedo. Faço uma parada relâmpago para tentar ver o máximo possível de amigos. Daí, no domingo, pela manhã, vou para o Rio e fico até o dia 28 de junho. Vou aproveitar para comemorar o aniversário da minha mãe lá com eles. Queria ver uma priminha que nasceu em Belo Horizonte, vamos ver se consigo dar uma fugida de um ou dois dias até lá. E tem outro priminho nascendo no Rio também. Enfim, acho que será animado!

 

As encomendas já estão compradas, jamón ibérico de bellota para meu pai (ou não passo da porta de casa!), fuet para minha mãe, perfume para meu irmão, whisky para os médicos dos meus pais (tem que garantir a boa vontade, né?), Ipad… eu devo estar esquecendo alguma coisa!

 

Ah, e será minha estréia com passaporte espanhol! Estou numa curiosidade…

 

Passeando em Coimbra

Há algumas semanas atrás, durante um churrasco, um casal de amigos disse que iria assistir um show da Ivete Sangalo em Coimbra e perguntou se nos animávamos a ir também. Veja bem, não sou tão fã assim para ir a outro país só por causa disso, mas acho ela bem simpática e adoro uma bagunça diferente, então vamos!

Fomos em três casais, de carro, nesse último fim de semana, o show foi no dia 21 de maio. Nossos amigos decidiram ir no próprio sábado. Tinha conversado com Luiz que, se fosse possível, eu realmente preferia ir na sexta-feira, afinal, são quase 600 km de distância e chegar num dia e voltar no outro, a gente aproveitaria muito pouco. Ele conseguiu se liberar mais cedo do trabalho e às 17h do dia 20, pegamos a estrada. Dessa vez, deixamos o Jack sossegado em casa com uma amiga.

Talvez tenha sido uma das viagens mais agradáveis de carro que fizemos. Sempre é um pouco cansativo, mas não foi sofrido. Levei o Ipad e fomos cantando e papeando até entrar em Portugal, daí passou a ser mais divertido colocar o rádio e imitar o sotaque português.

O problema é o seguinte, depois que você mora fora, é como se tivesse uma tecla na sua cabeça para idioma nativo (português do Brasil) e idioma estrangeiro, que varia de acordo ao país que estamos. Quando a gente escuta o português de portugal, é inevitável, acionamos a tecla idioma estrangeiro e fazemos uma confusão danada. Ou seja, a cada vez que tentava imitar o sotaque português, saía uma tremenda mistureba com espanhol. Melhor falar o portugês brasileiro mesmo que eles entendem muito bem. Aliás, aproveito para dizer que achei o sotaque em Coimbra muito mais fácil de entender do que em Lisboa. Ainda assim, um dos nossos amigos que foi conosco, brasileiro, não conseguia falar em português nem a pau! Cada vez que abria a boca saía espanhol! Era engraçado.

Mas voltando à viagem, chegamos em Coimbra na sexta, por volta das 22h de Madri. Achamos que inclusive seria difícil encontrar um lugar pra jantar, nem tinha grandes expectativas. Na recepção do hotel, nos demos conta que em Portugal é uma hora menos que a Espanha, ou seja, ganhamos uma hora e deu tempo perfeitamente para irmos a um restaurante e comermos bem.

Largamos as malas no quarto e fomos ao Giuseppe e Joaquim, indicação do hotel, um restaurante que como o nome indica, servia comida italiana e portuguesa.

Fomos para o restaurante a pé, aliás, o hotel era central e fizemos sempre tudo caminhando. Pois foi pisar nas calçadas de pedra portuguesa que me senti em pleno centro do Rio de Janeiro, mais especificamente, me senti no Catete. É curioso como a gente quando sai do ambiente por um tempo, percebe as coisas de maneira diferente. Até então, ainda não tinha me dado conta no quanto havíamos sido influenciados arquitetônica e culturalmente. E olha que não é a primeira vez que vou a Portugal!

Passando em frente às padarias era quando mais tinha a sensação afetiva de casa. As padarias em Madri cheiram diferente, não é ruim, mas é diferente porque só vendem basicamente pão e feito de outra maneira, muito seco ao meu paladar. As padarias brasilerias foram totalmente influenciadas pelos portugueses, tem aquele cheiro de pão doce e lugar para comer dentro delas. Eu nem gosto de pão doce, mas sentir aquele aroma invadindo as narinas foi uma delícia!

Seguimos até o restaurante, de atendimento simpático, onde uma das garçonete era brasileira e conversou um pouco conosco. Luiz foi no bacalhau e eu não resisti à picanha. É que, ainda que a comida na Espanha seja ótima, a carne de boi deixa muito a desejar, você se acostuma, mas não é o mesmo prazer. A de portugal é bem melhor e fizeram bem da maneira brasileira, macia e suculenta. Para outros turistas brasileiros, talvez não seja tão interessante, mas para mim, que fico tantos meses fora do Brasil, era o paraíso! Só me decepcionou não terem de sobremesa os doces tradicionais portugueses, mas tudo bem, tomamos dois cálices de Porto, um tinto e um branco e foi de bom tamanho.

De lá voltamos direto para o hotel e não esticamos muito a história, preferíamos acordar mais cedo no dia seguinte e aproveitar melhor a viagem. É uma cidade universitária, provavelmente os programas noturnos fossem invadidos por gente muito jovem. E vamos combinar, a noite de Madri é muito difícil de superar. Então, sempre preferimos ao invés de ficar reclamando, aproveitar o que há de melhor em cada lugar.

Dia seguinte, acordamos com calma e pedimos café no quarto. Eu amo de paixão café na cama! Já disse algumas vezes e repito, para mim, os dois maiores luxos do mundo são café da manhã na cama e banho de banheira! Pois aproveitei os dois e me senti uma rainha!

Muito bem, o dia estava nublado, mas com temperatura agradável. Saímos para dar um passeio a pé enquanto nossos amigos não chegavam. Eles saíram no mesmo carro de Madri bem cedo, pelas 6 da matina,  e tinham previsto chegar pela hora do almoço.

A cidade não é exatamente bonita, pelo menos, eu não achei. Está mais velha que antiga, decadente, não sei se me explico. Mas ao mesmo tempo, possui um ambiente bastante acolhedor, parte pela semelhança que sentimos com o Brasil, mas também porque as pessoas parecem mais acessíveis e abertas. Provavelmente, influência da universidade que acolhe um bom número de estrangeiros e de portugueses mesmo, mas que não são de Coimbra. De maneira que em um primeiro momento, a cidade me pareceu meio sem graça, mas à medida que ia caminhando e conhecendo melhor, gostava mais e me sentia bastante à vontade.

Nossos amigos chegaram e fomos encontrá-los em seu hotel, bem perto do nosso, mas era outro. Como fizemos antes, mal largaram as malas nos quartos e fomos todos para a rua. Verdade que eles pareciam mais mortos que vivos, também acordaram de madrugada! Mesmo assim, não desanimaram. E eu fiquei feliz com a decisão de ter vindo no dia anterior.

Primeiro fomos descobrir o lugar do show, acho que chamava Palácio das Canções ou algo assim, fica logo após atravessar a Ponte de Santa Clara. Era bastante fácil de chegar, uns 10 minutinhos caminhando tranquilamente desde o hotel.

De lá, fomos conhecer a famosa Universidade de Coimbra, que fica bem no alto de um morro. Você se embrenha por uma série de escadarias e ladeiras até lá. Se nossos amigos já estavam cansados da viagem, imagina durante a subida! Francamente, agora vou me exibir, não fiquei nem cansadinha! Sinal que o sofrimento na malhação deve estar dando algum resultado!

Essa subida lembra muito as ladeiras de Ouro Preto, novamente não havia como não relacionar com a influência direta no Brasil. Ainda que possa ser um pouco cansativo para os mortais, reconheço, acho que vale muito à pena. E também é possível subir de carro, para os que tenham dificuldades de locomoção. Eu prefiro a pé.

No caminho, paramos para almoçar em uma tasca com mesas exteriores. O local era bem agradável, mas a comida não agradou a maioria e com toda a razão. Bom, eu me dei muito bem, pedi umas sardinhas assadas, nesses botecos não tem muito erro. Minha amiga pediu um bacalhau, que segundo ela não estava o melhor do mundo, mas normal. E as outras quatro pessoas cairam no conto da picanha, que não era picanha nem aqui nem na china e estava duríssima! Uma pena, porque em geral, se come muito bem em Portugal. Decidimos comer depois as sobremesas em outro lugar (sábia decisão!).

Seguimos até o alto do morro, onde fica a Universidade. Além da arquitetura ser bastante interessante, a vista lá de cima compensa bastante o esforço da subida.

Pessoalmente, meu lugar favorito foi o Museo Nacional Machado de Castro, um contraste do novo, antigo restaurado e a igreja por detrás. Além da vista ser muito bonita.

Outra coisa que achei legal nesse caminho são os grafites, uma maneira interessante de expressão e bastante bem humorada!

Agora, vamos combinar, as campeãs são as placas e os avisos! Sensacionais!

Muito bem, ladeiras devidamente conhecidas, baixamos atrás de doces portugueses. Estava com um desejo incontrolável de comer ovos moles! E me atraquei com uma porção deles, além de uma queijada! Minha cota de doces está batida por meses, mas valeu! Detalhe para o tamanho do suspirinho de Itú!

Mais uma passeada pela cidade e voltamos para o hotel.

Muito bem, lembra que a história de ir a Coimbra começou porque tinha um show da Ivete Sangalo? Pois é, à noite foi o show. Começava às 22h. Marcamos na porta do hotel dos nossos amigos pelas 20:30h. Daí estávamos naquela preguiça no quarto para nos arrumar, pensando se deveríamos comer alguma coisa antes do show, afinal não sabíamos como seria a estrutura por lá e tal. Claro que me veio outro desejo irresistível de comer em uma padaria. Queria porque queria um pão com bife no pão de sal! Será que tinha?

Tinha. Chama prego no pão e estava divino! Carne macia, temperadinha com pimenta do reino, no pãozinho igual ao nosso. Juro que comi como se fosse uma iguaria de outro planeta! O que fez Luiz se lembrar de sua terrível picanha do almoço e ficar com raiva! O bifinho da padaria estava milhões de vezes melhor!

Ora pois, de lá encontramos nossos amigos e fomos para o show. No local também havia uma boa estrutura, vendiam sanduíches diversos bem honestos, refrigerante quente e cerveja. Levei minha garrafinha de cachaça na bolsa e ninguém me encheu o saco, vantagens de ter essa cara de boa moça! Na verdade, até acho que sou uma boa moça mesmo, mas adoro uma cachacinha!

E como foi o show? Foi legal, estava bem cheio, no início parecia que seria vazio, mas logo o povo foi chegando e acho que o espaço lotou. A Ivete nos pareceu um pouco rouca, também, era o terceiro dia seguido que ela cantava e pulava sem parar, né? Mas tudo bem feito, bem produzido, figurino bacana e ela é bem carismática. O público também foi participativo e educado sem ser frio, civilizado com animação. Gostei. Tirei várias fotos com meu celular, todas tremidas ou escuras, sinto muito!

Fiz uma força danada para não fazer amizades, porque acho que todo mundo, incluindo o Luiz estava bem cansado. Só no finalzinho conhecemos uns universitários e me informei onde seria um lugar bom para seguirmos pela noite. Não adiantou muito porque estavam todos realmente mortos. Quebrei o galho do Luiz e voltamos diretamente para o hotel. Nossos amigos ainda saíram para comer alguma coisa, tarefa que pelo horário não foi nada simples.

Domingo, acordamos naturalmente pelas 9 e alguma coisa, tomamos nosso café com calma, arrumamos as malas e saímos por volta das 11h de Coimbra, em direção a Madri. Da estrada, contatamos nossos amigos e nos encontramos para almoçar no caminho. Não estava afim de sanduíche, preferia sentar e fazer uma refeição. Comemos uma bisteca de porco, pure de batatas e uma salada verde fresquinha, para nós, muito gostoso e por um preço excelente. Engraçado que, nessa viagem, acho que comi muito bem, mas só coisas simples e caseiras. 

Chegamos em casa por volta dàs 19h, eu acho, até porque paramos no caminho para comer e a volta pareceu mais comprida. Mas também não demoramos muito em casa, estava louca para ir para a Puerta del Sol ver como estava a manifestação. Mas essa história, fica para a próxima crônica.

E de agora em diante, se ficar morrendo de saudades do Brasil e não der para a gente ir, vou para Coimbra comer nas padarias!

Ah, e uma última coisinha, se alguém tem alguma dúvida é só ir ao consultório de explicações!