O deserto de Wadi Rum, Jordânia

Localizada aproximadamente a uma hora e pouco da fronteira de Aqaba, se encontra uma região do deserto onde é possível alojar-se. É um território protegido e há uma série de regras para se construir ou se habitar.

Ali não há um grande hotel ou resort, mas acampamentos que seguem as tradições nômades. Há um centrinho de cidadezinha com guias e informações turísticas, mas tudo muito austero e rústico.

Você não pode simplesmente pegar sua barraca e ir para lá acampar. Como disse antes, é um deserto, mas tem regulamento. Inclusive, é bastante perigoso de se perder para amadores ou pessoas que não conheçam a região. É sempre aconselhável que você se movimente com guias locais.

Os beduínos habitam essa região há milhares de anos e seu estilo de vida está totalmente adaptado às condições áridas existentes. De maneira geral, nos pareceram ser gente amável e sorridente. Se movimentam de tempos em tempos com seus rebanhos de camelos, bodes e ovelhas. Administram com cuidado os escassos recursos naturais, principalmente a água. Suas tendas são feitas pelas mulheres com a lã dos bodes. Em árabe chamam essas tendas de “casas de pelo”. Segundo eles, é a solução mais apropriada ao meio ambiente. As tendas podem ser desmontadas e remontadas com freqüência, garantindo liberdade de movimento. Possuem aberturas flexíveis que se adaptam às mudanças de direção do vento e são biodegradáveis. Tem uma coloração marrom escuro e são compactas como uma lona.

Muito bem, descobrimos um acampamento, o melhor dessa zona, chamado Bait Ali. Uma amiga do trabalho do Luiz havia ficado lá e nos deu a dica. É bem cuidado, dentro das limitações existentes, e possui uma boa estrutura, capaz de proporcionar conforto, mas ao mesmo tempo, deixar que você experimente a aventura de estar no coração de um deserto.

É um complexo murado, onde você pode optar por alojar-se em cabanas ou quartos. Há banheiros comunitários para quem elege as cabanas e os quartos possuem banheiros privados. Por incrível que pareça, cheguei a cogitar optar pelas cabanas, afim de viver mais intensamente a experiência. Mas a possibilidade de ter um banheiro privativo e, pasmem, um ar condicionado disponível, foi irresistível. Principalmente, pelo fato de termos ido exatamente no verão.

Resumindo, sim, fomos a um acampamento nômade, mas não passamos nenhum sufoco, nem precisamos fazer o número 2 atrás de uma moita!

Enfim, ficamos em um quarto grande, austero na medida exata. Tinha o que precisávamos e mal parávamos ali. Não tinha televisão nem frigobar. O banheiro era simples, não há banheira nem secador de cabelos, estávamos em um camping, lembra? Mas era limpo. Não tínhamos problema de falta de água, entretanto o aquecimento era solar, de maneira que se quiséssemos tomar banho quente, havia horário para isso. Não tem tanta pressão na água e é um pouco regulada, mas a verdade é que você se sente até mal com qualquer tipo de desperdício nesse sentido. Eu só tomava uma ducha rápida no final do dia, para dormir limpa.

O maior luxo do local é uma piscina, tenho quase certeza absoluta que deve ser a única da região! Imagino que a água não seja trocada nunca! No máximo, vão completando a que se evapora. Mas tratando com cloro, está ótimo! E quebrava um galhaço entre uma programação e outra!

O restaurante é uma grande tenda, bastante agradável e aberta para o ar circular. A comida é caseira e bem gostosinha, ainda que repetitiva. Não tem muita opção de cardápio, mas a gente já esperava por isso. Para ser sincera, foi bem melhor do que havia me preparado.

Conto tudo isso no início, para desmistificar aquele negócio de passar necessidade e tal! Nós não fomos ali para nos martirizar nem pagar nenhum pecado! Mas é importante deixar claro para quem pretenda passar pela experiência que não é um resort de luxo impoluto! E agora quem vai ser repetitiva sou eu, estamos no meio de um deserto, certo? Tem areia, pó, inseto… não é um conto de fadas! Tem que estar com o espírito preparado para isso.

Talvez para uma pessoa normal, nem seja tão diferente, mas eu sou aquela fresca com TOC que não deixa ninguém andar de sapatos em casa, na minha geladeira não entra nada que não foi lavado, se for fruta ou verdura, desinfeto! Sou alérgica a pó e a fumo! Nos lençóis da minha cama não se encosta roupa da rua! E posso seguir com a lista de absurdos que estou acostumada a lidar, mas o ponto já foi dado.

Portanto, imagino que para quem conviva comigo, não entenda muito bem que raios nós fomos fazer ali? No máximo, pode achar que fui para agradar o Luiz.

Pois que fique claro que eu estava louca para ir para lá! Talvez até mais do que ele. Meu corpo e minha mente me pediam aos gritos para estar cercada por um deserto. Era esse tipo de natureza que me aconchegaria naquele momento.

Por que? Nem idéia! Mas já não brigo com meus instintos há muito tempo!

Sei que tenho a sorte de ter uma disciplina do cacete e uma chavinha na testa que ligo e desligo se quero realmente alguma coisa. Portanto, assim que cheguei, virei a tal chavinha e me dispus a tolerar o que viesse e fosse necessário para entender um outro tipo de vida. Acho que aprender é sempre o foco de qualquer experiência, é sua finalidade, e não dá para aprender perdendo tempo com queixas e resistência. Não quer fazer, não faça! Mas se fizer por sua livre escolha, não se queixe.

Eu escolhi estar ali.

Mas vamos à prática, chegamos a Wadi Rum por volta de umas 14 horas. Não estávamos preocupados em chegar na região, já que havíamos passado por sua entrada no caminho para Petra. Entretanto, no próprio website do acampamento, eles alertavam que se imprimisse uma foto do seu portão para comparar quando chegássemos. Porque às vezes, quando se pedia informação, algumas pessoas tentavam te enganar e te levar para outro lugar.

Vamos combinar que não é uma situação das mais tranqüilas do mundo, principalmente, quando você nunca foi por aquelas bandas. Assim que fui prestando uma atenção do caramba!

Não foi difícil encontrar o lugar, ou estávamos tão atentos que parecia que vivíamos ali desde criancinhas! Na porta do local, comparamos com a foto para ver se estava tudo igual e estava. Bom, tem que ser aqui!

Era ali!

Chegamos na recepção ainda na adrenalina da viagem e de querer fazer tudo que fosse possível! O recepcionista e gerente, tranquilamente, quase irritante de tão tranquilo, foi deixando claro que aquele não era o ritmo do lugar. Nos reprogramamos e tudo ficou mais fácil. Na verdade, acho que ele gostou de cara do Luiz, brimo, né?

De qualquer maneira, ali já passamos para ele tudo que queríamos fazer e ele se encarregou de nos agendar nos horários convenientes. Deixamos tudo por sua conta e acho que ele gostou da confiança.

Fomos deixar as coisas no quarto e aproveitar na piscina enquanto nos aguardava a atividade do dia, um passeio de quad, que já explico do que se trata.

Apesar de ver todos os detalhes no website, a gente não tinha certeza do que encontraria por lá. Sabe como são essas coisas, as pessoas costumam colocar as melhores fotos e quando você chega se depara com a realidade é uma tremenda roubada! Mas felizmente, não foi o caso. Eles tinham exatamente o que haviam anunciado. Sem desperdícios, mas sem privações.

Na piscina, conhecemos duas alemãs que viajavam sozinhas. Simpáticas, discretas e fariam um passeio de balão no dia seguinte conosco. Comentamos um pouco sobre os problemas na fronteira, elas também só souberam do atentado em Eilat pelos amigos preocupados que enviavam mensagens. Contamos sobre o que sabíamos, que a fronteira estava aberta, mas talvez fossem um pouco mais rigorosos. Luiz trocou telefone com elas, já que atravessariam um dia antes e poderiam nos enviar uma mensagem avisando se foi tudo bem.

O passeio de quad estava marcado às 17h30, afim de pegarmos o por do sol. Quad é como uma moto de quatro rodas. Eles chamam de Boggie Safari, mas enfim, trata-se de um veículo que anda bem tanto na areia quanto na neve, evita que você atole. Às vezes você atola assim mesmo, mas é mais fácil se locomover.

Havia andado uma vez em um desses na neve, mas fazia anos e nem me lembrava direito. Achei que fosse na garupa do Luiz só curtindo a paisagem, mas eles são individuais. Então, se é o jeito, vou ter que aprender a conduzir… Já fui mais aventureira, hoje em dia, acho que tenho um pouco de preguiça.

Mas encarei e fiquei feliz de haver feito isso, porque me diverti bastante pilotando o tal do quad pelas dunas e em volta das montanhas de pedra. Estávamos em um grupo de umas 8 pessoas e 2 guias, um ia na frente e outro atrás de todo mundo. Valeu, mas a gente ficou com vontade de fazer com menos gente e comendo menos areia. Aconselho quem faça a levar óculos escuros. No dia seguinte, fizemos uma nova excursão, só nós dois e um guia. Aí sim, foi 10! Primeiro porque o trecho foi mais longo, estava mais habituada a conduzir o veículo e mais abusada.

Acho que não passei de 50 km/h, mas a sensação de velocidade é bem maior. Você olhar em volta e não ver nada além de montanhas, pedra e areia é muito bacana! De tempos em tempos a gente dava uma paradinha para tirar uma foto ou conhecer uma gruta. Enquanto você está andando, o calor é bem suportável, porque venta, mas quando a gente para com o sol na cuca é de matar! E aquela história de miragem é verdade, tem horas que você tem certeza que está de cara para um lago que não existe.

Pode parecer besteira, mas te dá uma sensação de liberdade muito gostosa. E assistir o por do sol lá no miolo sem nada a sua volta é show!

O jantar foi cedo, Luiz puxou papo com uma inglesa meio chata da mesa ao lado, que se juntou a nós, mas tudo bem. Também se juntaram as alemãs, que eram mais legais. O sono foi batendo e no dia seguinte, madrugaríamos mais uma vez, assim que logo após a refeição, nos recolhemos.

Ficamos um pouco do lado de fora do quarto sentados olhando para o céu. Deu até vontade de dormir  por ali  mesmo, porque a temperatura essa hora é bem mais agradável.

Não me lembro de ter visto um céu tão estrelado. Se notava claramente a via láctea atravessando de uma ponta a outra e descobri que ela existia mesmo! Já havia estudado a respeito, mas na minha ignorância urbana, não pensei que pudesse ser tão visível! Luiz foi deitar, ainda fiquei um tempinho ouvindo os grilos e olhando para o céu.

Dia seguinte, às 5 da matina estávamos de pé. O gerente do hotel nos fez prometer não perder o sol nascendo de cima de uma colina atrás da piscina. E lá fomos nós escalar o morro para ver o sol nascer!

Eu nem conseguia me lembrar se já havia acordado alguma vez na vida de propósito para ver o sol nascer! Até aconteceu várias vezes de voltar da balada com o sol nascendo, mas não é exatamente a mesma coisa.

Não me arrependi, foi bacana, me fazia cada vez mais parte do contexto, não me sentia uma turista.

Na sequência, ainda bem cedo, pelas 6 e meia da manhã, chegou uma caminhonete que veio nos buscar para a aventura do dia, um passeio de balão!

Olha, não vou tirar onda, estava me borrando de medo de subir naquele treco! Ficava imaginando que tipo de controle rígido do equipamento seria obrigatório no meio do nada na Jordânia! Esse pensamento preconceituoso me fez sentir até vergonha. Quer saber, por que não? Sabe o que a Jordânia produz? O que ela exporta? O país vive de turismo e fosfato, não tem mais nada! Portanto, se passa alguma coisa com turistas, olha o tamanho da encrenca!

Resolvi que esse pensamento era mais razoável. E ainda que não fosse, veja bem, com medo ou sem medo, eu não ia deixar de passear de balão pelo deserto jordão nem morta!

Minha maior preocupação é que me desse alguma vertigem. Porque o medo é controlável, a vertigem tem vida própria, ela decide quando vai aparecer ou não. Vou adiantando que não apareceu!

Fui grudada nas barras de segurança o tempo quase inteiro. Minhas digitais devem ficar cravadas ali para sempre! Esperei o tempo inteiro aquilo balançar e sair de lado, mas isso nunca aconteceu.

O vôo é tão suave que mal sentimos o movimento. O único ruído mais impressionante é da válvula de gás, quando solta aquela labareda para esquentar o ar. O piloto era excelente! Um tchecheno muçulmano que morava em Amman e levava seus balões para passeios pelo país.

A paisagem que já era impressionante desde baixo, de cima é de cair o queixo. Parece que estamos em marte! Por alguns momentos que conseguia relaxar um pouco, a sensação era de paz. Mas na maior parte do tempo, estava era na maior adrenalina mesmo!

O pouso foi tão suave quanto a decolagem e o vôo. Enquanto se desmontava toda a parafernália, o piloto nos ofereceu um café com biscoitos, afinal, estávamos em jejum. Muito amável e generoso da parte dele, que por causa do Ramadán, continuaria em jejum até às 19:30 horas.

Voltamos para o acampamento e morgamos um pouco na piscina. A gente não sabia se teria almoço ou não. Exatamente, por causa do Ramadán, onde só se come antes do sol sair e depois do sol se por. Eu já tinha entubado que ia ficar com fome, comi uma barrinha de cereal e me dei por satisfeita. Até que descobrimos que sim, o restaurante do acampamento estava funcionando normalmente. O que? Em 30 segundos fui do satisfeita a faminta! Engraçado o que é a expectativa, né?

No meio da tarde, como contei, foi nosso segundo passeio de quad. Dessa vez, só nós e o guia. Acho curioso quando revejo as fotos e noto que até minha postura havia mudado. A cada momento encarávamos um desafio novo. Podia ser nada demais e certamente nada desagradável, mas o fato é que ao cumpri-lo me sentia bem, mais forte.

Bacana também estar experimentando essas coisas junto com Luiz. É legal quando conseguimos compartilhar uma atividade ou situação. Estamos juntos há muitos anos, mas seguimos com nossas tarefas individuais, o que não é ruim. Mas acho que esses momentos fortalecem os laços de maneira positiva e divertida. No mínimo, muda o assunto! O mais importante é a possibilidade de conseguir falar de sentimentos e sensações com quem entende, afinal, mesmo com alguma interpretação diferente, vivemos a mesma experiência.

Nossa estadia chegava ao fim e com ela, nossa última atividade programada, ir de jeep para o coração do deserto, assistir o por do sol. Todos tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo!

Outro guia nos buscou no acampamento. Simpático, falante e orgulhosíssimo de sua terra. Era até bonito de se escutar. Nativo na própria região, tinha uma fazenda de cavalos. Falava de seus animais como um verdadeiro chefe de matilha. Se embrenhava pelas montanhas e dunas com conhecimento exato de onde estava indo, ou pelo menos, essa era a imagem que passava.

Reclamava da maneira capitalista com que as pessoas andavam se comportando por aqueles dias. Mas me pareceu interessante que ele não culpava os turistas e sim os próprios moradores, gente que já não se importava tanto com a região como antes, agora o que todo mundo queria era mais e mais dinheiro. E para que? Eles não precisavam desse desenvolvimento todo, já tinham o mais rico, o deserto! Dizia que ele nunca seria capaz de viver em uma cidade e contava que sentia falta de dormir ao ar livre, como fazia com seu pai.

Se queixava do mundo árabe, que parecia muito unido e de certa forma, sim que o era em relação aos seus inimigos. Mas que entre si, de unidos não havia nada, era cada um cuidando dos seus interesses. Outra vez, no fim das contas, o que se buscava era o dinheiro.

Mas não eram só reclamações, como disse antes, estava muito orgulhoso da sua região e se sentia feliz pela nossa empolgação e respeito pelo local. Explicou o significado do termo Wadi Rum, wadi é vale e rum é gigante, alto, elevado.

Falava um bom inglês, dizia que seu pai aos 80 anos falava ainda melhor. Aprendeu sozinho, como boa parte dos outros moradores. Aliás, fiquei impressionada com a quantidade de gente que falava inglês, desde os meninos ainda pequenos aos adultos. Acontece que, considerando a importância do turismo para o país, falar inglês muitas vezes significa comer.

Contava bastante sobre Lawrence da Arábia, segundo ele, a família do seu pai o conheceu pessoalmente. Para quem não conhece, foi um oficial britânico e escritor que encontrou essa região e se encantou por ela. A visitou em diversas ocasiões entre 1916 e 1917. Em 1962, Wadi Rum serviu de cenário para o filme de David Lean sobre essa história. Fiquei até com vontade de assistir o filme agora.

Enfim, a medida que o sol se punha, a energia do nosso guia também se esgotava. Levava em jejum desde às 4 e meia da manhã e faltava alguns minutos para poder comer e se hidratar.

Assistimos sossegados ao por do sol, completando o ciclo do dia.

A volta para o acampamento foi feita na velocidade da luz! Acho que a fome e a sede devem ter apertado, coitado!

Chegamos e o restaurante do acampamento estava cheio do pessoal local, era uma celebração de Ramadán. Luiz ficou na dúvida se poderíamos nos misturar ou deveríamos esperar acabar. O problema é que minha fome foi apertando também e não via nada demais!

Então, para fazer uma horinha, subimos a colina outra vez, a mesma que vimos o sol nascer e esperamos a noite chegar.

Quando a fome apertou de verdade, Luiz foi perguntar ao gerente do hotel se já poderíamos jantar e ele foi bem simpático dizendo que claro que sim! A hora que quiséssemos!

Ficamos no nosso canto afim de não perturbar nem invadir a privacidade de ninguém. E nos surpreendeu que ao final da refeição, o grupo de locais que estava celebrando o Ramadán nos enviara um prato cheio de doces. Muito amável e gentil, mas não sabíamos como agradecer.

O gerente se juntou à nossa mesa por um momento e começou a conversar como se fôssemos amigos há anos. Perguntamos a ele o que deveríamos fazer, afinal queríamos agradecer da maneira correta. Ele simplesmente nos respondeu que deveríamos ignorá-los. Eles cumpriram com a generosidade implícita ao Ramadán, mas isso não queria dizer que deveríamos estabelecer contato. Assim estaríamos todos à vontade. Então tá, se ele disse que é assim, a gente ignora, né?

Daí, ele começou a contar que um antigo amor seu que acabou mal estava justamente ali no restaurante. Eles foram namorados, terminaram e ela se casou com outro. Ele também se casou com outra. Ambos estavam agora divorciados e ela apareceu assim sem mais nem menos ali no acampamento para tentar uma reconciliação. Mas ele ainda estava muito magoado, olha a novela!

Senti que o olhar do Luiz começava a exprimir certo desespero, ele fica nervoso quando prevê esse tipo de confissão ou aproximação, eu, pelo contrário, fico louca para saber os detalhes. Ele resmunga em português entre os dentes, e não é que as pessoas te contam a vida mesmo? Respondo, sempre amor, estou até acostumada! Enfim, antes do Luiz entrar em completo pânico, dei um jeito de encerrar a conversação e fomos para o quarto. Uma pena, porque tinha mais um milhão de perguntas para fazer e acho que o gerente parecia irredutível porque estava com dor de cotovelo, mas ainda gostava dela.

No dia seguinte, acordamos pela manhã, tomamos nosso café com calma e chegava ao fim nossa aventura em Wadi Rum.

Lógico que não me aguentei e perguntei ao gerente, que também estava doido para contar, se ele havia conversado com a ex-namorada. Disse que saíram para um passeio a pé e parece que ficaram até às 4 da manhã conversando, esclarecendo as coisas, mas ele seguia irredutível, porque dizia que a culpa não havia sido dele. Deu vontade de dizer, deixa de ser bobo, estão você e ela divorciados mesmo! Vai aproveitar! Mas fiquei na minha, nos despedimos e seguimos viagem.

Próximo à saída do acampamento, vi um círculo de embalagens de papelão, o mesmo tipo que eles usam para as velas de iluminação. E supus que deva ter sido o cenário da conversa. Será que não rolou nada mesmo, hein? Bom, mas não tenho nada com isso.

Minha cabeça logo se dispersou e tentei entender aquela sensação no peito. Hora de ir embora.

Sabia que ia gostar de lá, mas não imaginava que seria capaz de me sentir tão à vontade. Não digo que quisesse viver assim e não faço apologia da pobreza, só acho que quando cheguei ali, ao olhar toda aquela falta de tudo e um ambiente totalmente árido e inóspito, me parecia impossível que alguém pudesse viver dessa maneira! Ou melhor, não apenas sobreviver, mas ser feliz, ter momentos de prazer.

Fui embora outra pessoa, mais uma vez. Sim, eu seria capaz de viver assim. Novamente, não é minha opção e seria difícil, mas me vi capaz. E gostei de saber que seria capaz, dá uma sensação de poder, de rompimento de novos limites.

Entendi que dentro daquela vida bastante austera, havia momentos de puro prazer pelo simples fato de estar a céu aberto. O céu é grátis!

É que às vezes eu preciso ir muito longe para ver o que tenho tão perto.

2 comentários em “O deserto de Wadi Rum, Jordânia”

  1. Acho q vcs fecharam com chave de ouro! Realmente deve ter sido uma experiencia unica esse contato com o deserto. Interessante q tenho certo medo de altura, mas sou louca pra subir num balao. 🙂 Vai entender….

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