Petra

Chegamos em Petra por volta das 17 horas, não lembro exatamente, mas foi nessa ordem de grandeza. A estrada estava bem sinalizada e não tivemos maiores problemas. Um pouco de atenção e um mapa foi o suficiente. Na entrada da cidade, pedimos informação na recepção de um hotel e para um policial na rua, ambos prestativos, e chegamos bem.

Nos hospedamos no hotel Movenpick, há dois hotéis dessa mesma cadeia, ficamos no que é praticamente ao lado do Parque Nacional que abriga o centro histórico de Petra. Excelente opção!

É assim, existe a cidade em si e um local de visitação que abriga o que seria a antiga Petra e seus monumentos. Essa antiga Petra fica dentro de um Parque Natural, que abre suas portas às 6 da manhã e fecha às 18 horas (no inverno às 17 horas).

Portanto, imaginamos que pelo horário de chegada, nossa visita ficaria para o dia seguinte. Acontece que logo na recepção nos perguntaram se queríamos fazer uma visita noturna. Veja bem, macaco quer banana? Claro que sim! Fiquei empolgadíssima em saber da possibilidade!

Deixamos nossas entradas compradas e deveríamos comparecer com elas no portão principal desse parque, acho que às 20 horas ou algo assim. Saímos com mais antecedência que o necessário, pois ainda não sabíamos o quão perto estávamos e, portanto, chegamos cedo ao local. Não me importei, assim já fomos entrando no clima e descobrindo onde era o que.

Petra foi reconhecida em 2007 como uma das novas 7 maravilhas do mundo. Seguramente, é o destino mais cobiçado da Jordânia. Mas acho que ficou realmente conhecida, ou pelo menos mais popular, após o filme do Indiana Jones e a Última Cruzada. Aliás, o filme foi providencial para o desenvolvimento do turismo na cidade, até hoje tem cartazes do “Indiana” na entrada e se vendem chapéus a seu estilo.

Na antiguidade, Petra foi habitada pelos edomitas, um povo semita assentado entre o golfo de Aqaba e o Mar Morto, em torno do século XIII a.C. O antigo testamento os chama de filhos de Esaú. Foram eles quem impediram que os israelenses cruzassem seu território para chegar à Terra Prometida. O que provocou uma guerra quando, ameaçados pelos povos nômades, os edomitas se expandiram em direção ao ocidente. Durante o reinado de David, os israelenses conseguiram se impor e se apoderaram do teritório de Edom. Após a morte de Salomão, aproveitaram a debilidade dos inimigos, cujo reino estava dividido e recobraram sua independência. O soberano do reino de Judá se apoderou de Sela, a capital bíblica de Edom. Sela deve ser a origem do nome de Petra, porque em grego significa pedra.

A história segue por aí e se pode pesquisar mais a seu respeito com meia dúzia de cliques pelo Google.

O fato é que traz uma enorme emoção caminhar pelas rotas das antigas caravanas de mercadores e passar por entre as frestas de pedra impressionantemente altas até dar de cara com o Khaznah. Em seguida, o caminho se abre a centenas de tumbas, templos, aquedutos, teatro, locais de culto, enfim, uma infinidade de construções incrustradas nas pedras e te faz viajar no tempo e no espaço.

Mas vamos por partes.

Chegamos cedo ao local da visita, se não fomos os primeiros, estávamos entre eles. De maneira que nos posicionamos bem no início do trajeto. Aos poucos as pessoas e os grupos foram chegando, muitos italianos. Acredito que haveria por volta de uma centena de pessoas.

Um guia de turbante xadrez vermelho, típico da região da Jordânia (cada cor e amarração de turbante define sua procedência dentro do mundo árabe) tomou a liderança quase que em silêncio e o seguimos de bem perto. Como éramos os primeiros da fila, foi bacana poder ter o impacto de ver o caminho se abrindo, sem aquela quantidade de gente na frente.

O trajeto noturno não é completo, é de aproximadamente uns 3 km até o Khaznah, feito com a exclusiva iluminação de velas, dentro de sacos de papel pardo. Dava um ar de procissão, mas sem estar atrelado a uma religião. Até porque, nesse caso, o “sacerdote” ia na frente de turbante xadrez e um cigarro na mão. Fiz o possível para ignorar o fedor do cigarro, porque não queria perder a pole position!

Agora, imagina entrar em Petra a pé, tendo como trilha sonora apenas as passadas de uma centena de pessoas pisando na areia, praticamente em silêncio e aninhada entre a luz das velas. Era praticamente um ritual mágico. Quando você começa a se emaranhar por entre pedras gigantescas intercaladas por frestas verticais parece estar saindo de um útero gigante! É tudo fora de proporções humanas, mas ao mesmo tempo é aconchegante. A temperatura já é fresca, mas em determinados pontos ainda se sente o calor emanando da pedra, energia viva. É uma emoção que nem tenho com o que comparar, porque não me lembro de sentir outra força da natureza tão brutal, dá vontade de chorar!  Sério, acho que nunca visitei um lugar onde minha mandíbula inferior  estivesse tão frouxa! Porque me peguei diversas vezes literalmente com a boca aberta admirada e era absolutamente espontâneo!

Até que se deparando com uma ranhura enorme, você percebe que chegou ao Khaznah. Como se fosse um espaço secreto bem mais amplo acabando de revelar-se.

Al-Khaznah é o monumento mais famoso de Petra, muita gente inclusive pensa que é o único, mas é só o mais conhecido. E concordo, que o mais impressionante. Mas enfim, em frente a ele também iluminaram com centenas de velas e nos puseram sentados em tapetes no próprio solo de areia. Estávamos entre os primeiros a chegar, portanto, sentamos logo na primeira fila e aguardamos a que todo grupo chegasse à sua velocidade. Nos foi pedido para manter silêncio, o que traz um ar ainda mais mágico. Enquanto você espera, um rapazinho vem com uma incomensurável bandeja e serve chá a todos.

Sim, tomei sem um pingo de frescura. Imagina, com tamanha cortesia nunca iria negar! Sabe quanto a água é importante em um lugar assim? E estava ótimo, a propósito. Vale dizer que não tivemos nenhum problema com alimentação nem bebida.

Quando todos estão sentados e acomodados, o guia do turbante xadrez, que até então é um cidadão magrelo, sem graça, que você não dá nada e acha que nem deve saber falar direito, pois muito bem, esse nativo se posiciona frente ao monumento, entre as velas, e começa a disparar um discurso com a eloqüência de um presidente de multinacional! E em inglês perfeito!

Ele agradeceu a todos, falou um pouco do lugar e apresentou as duas seguintes atrações musicais, uma flauta e um instrumento que não consegui enxergar direito pela falta de luz, mas o som me lembrava uma gaita de foles misturada com cordas, era algo exótico. Segundo o guia, o instrumento mais antigo do mundo, mas acho que isso ele falou só para impressionar.

De qualquer maneira, a música ali naquele momento foi muito bem vinda. Chegou junto a um gato filhote que se roçava entre nós e outros visitantes, na esperança de ganhar comida e algo de carinho.

O concerto acabou e fomos liberados para voltar em nossa velocidade, era só seguir a rota das velas.

Nossa volta foi bem menos mágica que a ida. Estávamos famintos e tínhamos a esperança de encontrar o restaurante do hotel aberto! Voltamos voando baixo, ainda bem que a experiência com caminhadas ajuda bastante. Mesmo assim, foi bacana, só um pouco corrido.

Chegamos no restaurante nos minutos finais, suando e com aquela cara de desespero e o maître foi gentil conosco. Afinal, com meu habib marido, ele não ia se negar a servir um conterrâneo, né? Também facilitamos e escolhemos rápido, a gente já sabia o que queria, churrasco árabe! Uma mistura de espetinhos de frango, cordeiro e kafta, que seguiu uma entrada cheia de pratinhos (hummus, tajine, charuto de folha de uva, tabule…). Uma delícia!

A noite acabou por aí! Balada não é exatamente o forte dessa região. O que se aproveita é o dia. Acordamos sempre muito cedo, no esquema 6 da matina, mesmo! Nem era difícil, porque essa hora o sol já está a pino! E por incrível que pareça, acordava mais fácil que o Luiz! Acho que em 18 anos que a gente se conhece, esse é um fato sem precedentes! Definitivamente, essa viagem me quebrou paradigmas como um todo! Acho que sou uma nova mulher!

Portanto, no dia seguinte, mal saiu o sol e já estávamos a postos! O dia, aliás, como todos os outros, prometia ser longo.

Tomamos um bom café da manhã e seguimos para o parque histórico.

Logo na entrada, você deve tomar uma decisão: caminhar ou montar em um animal. É possível ver tudo caminhando, na minha opinião, é a melhor maneira, porque você não perde nenhum detalhe, vai para onde bem entende e na sua velocidade. Entretanto, não vou dourar a pílula, é pauleira! Meu preparo físico é bom, meus sapatos eram adequados e foi dureza! Não me arrependi e vale considerar que quisemos ver tudo em um só dia, poderia ser mais ameno se dividido em dois dias. Enfim, resumindo, é possível, mas é bom saber onde está se metendo.

Tem gente que não aguenta e para essas pessoas há algumas opções. A mais completa é o burro, porque chega em todos os lugares e há uma série de subidas. O cavalo vai bem, mas não tenho certeza se chega ao topo do local alto de sacrifício (a subida mais alta do passeio). E tem a charrete que só vai até o Khaznah. Lá dentro, também se pode passear um pouco de camelo, mas em trechos menores.

Portanto, para quem está com criança pequena ou tem alguma dificuldade de locomoção, acho selvagem! Idosos eu nem digo, porque depois do Caminho de Santiago, já vi que tem coroas que dão de mil a zero na garotada em termos de resistência. Mas tem que ter preparo.

Dito isso, seguimos em frente. Eu disposta a caminhar e Luiz buzinando no meu ouvido que queria uma carona equina! Sinto muito, mas não vou nem morta! Meu negócio é pé no chão!

Muito bem, era difícil competir com o impacto que o lugar nos causou na noite anterior e sabíamos disso. Ainda assim, foi impactante. Porque é certo que durante o dia não há todo aquele tom de mistério, acontece que por outro lado, se revelam  milhões de detalhes, a grandeza e novamente a força da natureza local.

É engraçado porque o principal momento da visita é quando você chega ao Khaznah, ou pelo menos, é o que está no imaginário de boa parte das pessoas. Acontece que estamos acostumados a ter um “grand finale” e, nesse caso, o auge em teoria, está praticamente no começo do trajeto. Então, melhor guardar energia, porque ainda tem coisa pacas para ver!

O problema é que a gente esquece de tudo isso quando vê aquela fenda se abrindo e um monumento cravado em pedra cor de rosa começa a aparecer como em um sonho!

Al-Khaznah, ou tesouro do faraó, deve seu nome a uma antiga lenda de que um faraó havia ocultado ouro na parte superior do “tholos”. Até hoje há marcas de disparos feitos pelos beduínos, que acreditando no conto, tentaram  se apoderar do tesouro. A coloração da pedra pode alterar de cor de acordo com a iluminação do sol, mas é predominantemente rosa.

Aliás, essa é uma característica a ser observada em todo o trajeto, as cores das pedras são bastante interessantes. Há infinitas tonalidades de rosa, vermelho, azul, verde… muito bacana!

Depois de ficar algum tempo meio embasbacados olhando e fotografando esse monumento, a gente segue o caminho e descobre que o lugar é enorme!

A quantidade de tumbas esculpidas é gigantesca. No começo, você aponta uma a uma como se tivesse descoberto algo que ninguém notou, fotografa e tal. Na segunda centena, você só pensa: outro buraco? Vai ter defunto assim lá longe!

Bom, não são todos tumbas e, até hoje, mora gente em alguns desses buracos. Não digo dentro da rota turística, mas aquilo é muito grande. Por exemplo, houve um momento que vimos um cachorro dar uma corrida em um par de turistas que saíram um pouco da rota e foram fazer não sei o que perto de uma dessas grutas. Assim que os turistas voltaram para o caminho, o cachorro parou de os perseguir. Ou seja, era absolutamente territorial, ele morava ali com certeza. E outras vezes me dava a sensação de estar sendo observada. Com o tempo você vai habituando seu olhar e distinguindo o mimetismo de coisas que parecem uma só: pedra.

Mas voltamos aos principais pontos do trajeto, acho que depois do Khaznah, o ponto (literalmente) mais elevado do trajeto é o local alto de sacrifício. Não se iluda, a subida para Al-Madhbah, nas indicações High Place, não é só uma maneira de dizer, é alto para cassilda mesmo! Está muito bem conservado e a vista lá de cima é impressionante!

Sempre tem alguém lá embaixo te oferecendo para subir de burro. É uma opção, mas não para mim.

Os degraus estão razoavelmente bem conservados, a maioria do percurso é bem viável, apesar de bastante cansativo. Entretanto, há alguns trechos que você sobe quase de quatro e se pergunta porque se meter nessas encrencas mesmo, hein? E em algumas das quinas agradeci ferozmente estar sobre meus próprios pés, porque se estivesse sobre um burro, minha vertigem me atacaria. Mas eu tenho vertigem com frequência, para quem não tem, não deixa de ser uma ajuda bem-vinda.

Na verdade, uma ou outra vez achei que a tal vertigem pudesse me empacar, mas pensava logo, agora não, afastava a possibilidade da cabeça e seguia. Foi bem melhor do que de costume.

Pequeno detalhe, não sei se já falei que devia estar uns 40 graus na nossa cuca!

Até que chegamos ao topo! É de tirar o fôlego, ou foi a subida que o tirou?

Havia um vendedor nômade justo nesse ponto mais alto. Você os encontra o tempo inteiro. Começamos a olhar em volta a paisagem e ele foi espontaneamente contando toda a história para a gente e mostrando em volta o que era cada coisa, como um guia.

Luiz me falou entre os dentes, agora acho que a gente vai ter que comprar alguma coisa, né? Nem que seja por educação! Ele não nos forçou a nada, mostrou o que estava vendendo, mas sem assédio, o que nos deu mais vontade de colaborar. Luiz comprou umas moedas romanas antiquíssimas e, com certeza, falsas. Tudo bem, valeu pela explicação de onde estávamos.

Levei um guia por escrito, para ter uma idéia do que estávamos fazendo, mas uma orientação local é sempre bem recebida.

Resolvemos explorar um pouco a área e aproveitar para respirar, afinal ainda faltava coisa para ver. Sentei em uma beirada e Luiz foi se aventurar pelas pedras.

Logo que Luiz se misturou com a paisagem, surgiu uma nômade tocando uma flauta. Fiquei com vontade de fotografá-la, mas não queria invadir a privacidade de ninguém, assim que fui disfarçadamente fotografando tudo em volta e, por acaso, ela estava no contexto.

Acontece que assim que me avistou veio em minha direção e começou a puxar o maior papo. Queria usar a câmera fotográfica, me fotografar, pediu para tirar foto dela, me deu uma pedra, falou que viu Luiz, perguntou se era meu marido, se ele era um bom marido, enfim, até que me fez companhia.

Daí Luiz chegou e assim que isso aconteceu, o discurso assumiu tom choroso e ela começou a contar que o marido morreu, que tinha filhos, se ele não podia dar 1 dinar para ela, essas coisas. Luiz falou que não tinha, com educação, e ela também não insistiu nem foi grosseira. Tentou, mas se não rolou… Pediu se pelo menos ele tirava uma foto minha com ela e ele tirou.

Ela saiu e foi conversar com o primeiro vendedor nômade, nós ficamos um pouquinho por ali, mas decidimos seguir viagem! Passamos pelos dois, que nos informaram por onde se descia da montanha, pelo outro lado, afim de fazer a rota completa.

No caminho, sentamos para tomar um pouco de água e sombra. Porque dali para frente, se notava que seguiríamos um bom pedaço só embaixo de sol. A manhã estava no fim e o dia havia esquentado um bocado!

Felizmente, eu tinha na pele camadas e camadas de protetor fator 50, além de um bonezinho que lembrava uma caçadora de borboletas, mas bastante eficiente para proteger rosto e pescoço. Fiquei com vontade de usar aqueles lenços enrolados na cabeça, pareciam bastante eficientes, além de bonitos. Mas isso ficaria para depois.

Sentados na barraca, escutamos dois talvez americanos grandões conversando, algo como: não quero saber, não subo mais nem um metro! Chega! Nos metemos na conversa para avisar que eles já tinham chegado, era andar mais uns 50 metros não íngrimes e era o local alto de sacrifício! Eles se alegraram agradeceram, e nós seguimos nosso caminho, dessa vez para baixo.

O fato de ser para baixo amenizou, mas não deixou nada fácil. Andamos pacas e ainda havia umas placas no caminho dizendo que se você saísse do trajeto oficial estaria por sua conta e risco. Considerando que nem sempre tínhamos certeza se estávamos na rota certa, bastante tranquilizador, não?

Imagino que quando há uma quantidade grande de turistas, não seja um problema achar o caminho certo. Mas estávamos em pleno verão e época de Ramadán, é temporada baixa, tinha pouca gente. Bom que não disputávamos espaço com ninguém, mas também não tínhamos quem seguir.

O cansaço foi minando as energias e me deixando mais irritada, até que finalmente, chegamos na base da subida ao Templo Grande. Ali se encontra um bom restaurante, banheiros, enfim, um oásis!

Os banheiros estavam surpreendentemente limpos, ótimas condições. Acho que os céus me recompensaram por não me aliviar em alguma tumba mais discreta pelo caminho. O restaurante era grande e com boa aparência. Sem ser um luxo, mas considerando onde estávamos, bem melhor do que imaginava! Resolvemos então, parar e almoçar direito.

O ar condicionado foi mudando o estado de espírito e descansando o corpo. Achei que estava recuperada e pronta para seguir com toda corda.

Mas quando você sai e aquele calor te bate na cara novamente, dá um minuto de desespero!

Luiz queria subir ao Templo Grande, eu já tinha visto pedra e gruta para os próximos 50 anos! Acho que já estava delirando! Enfim, estou aqui, então vamos. Chegamos na beiradinha da subida, com 10 pessoas em volta oferecendo burros, Luiz querendo pegar um burro. Eu já disse que não vou no burro! Vai você de burro e eu fico aqui embaixo no restaurante esperando! Não tem problema nenhum, eu espero, demora o que você quiser! Mas sozinho ele também não queria ir nem a pau! Então, vamos a pé outra vez!

Acontece que na entrada há uma placa recomendando fortemente que você vá com um guia ou há o risco de se perder! Pronto, aviso divino, chega! Parecia os dois americanos lá de cima, não subo mais um metro!

Desistimos e resolvemos seguir pela cidade baixa mesmo. Ainda tinha um monte de construções para ver. E não me arrependi!

Realmente, ainda havia bastante coisa para ver. A gente passou por uma avenida com grandes colunas e logo voltamos a base da subida para o alto do sacrifício, pelo outro lado. Ali há o antigo teatro e outras milhões de tumbas, grutas e monumentos.

Aos poucos, fomos reconhecendo o caminho de volta e não vou negar que foi um alívio rever o Khaznah e me imaginar em breve na piscina do hotel!

Não estou reclamando do lugar, que fique bem claro! Achei o máximo e acho que deu para perceber, né? Simplesmente, a gente estava caminhando há mais de 7 horas embaixo de um sol escaldante! Tem um momento que o corpo pede arrego!

Logo na saída do parque, tem umas tendas que vendem uma série de produtos locais. Assim que a gente passou por uma delas, Luiz disse que já estava pronto para comprar um lenço da Jordânia. Estava louca por um também, mas não sabia como amarrá-lo direito.

Problema nenhum para o vendedor, que sabia dar todos os nós do mundo com lenços femininos ou masculinos! E, louco para vender, teve a maior boa vontade em me explicar diante do espelho. Já saímos de lá fantasiados! Espírito nômade totalmente incorporado!

Claro que, ao chegar no hotel, todo mundo voltou a falar em árabe com Luiz! Que por sua vez, ficou de má vontade em usar o turbante, resolveu que só ia usar no pescoço.

_ Melhor mesmo, porque se você andar com essa cabeça amarrada como eles por aí, eu vou te perder! Tudo igual!

Aproveitamos o finalzinho da tarde na piscina e Luiz começou a receber recados de amigos perguntando se estávamos bem, porque havia acontecido algum tipo de atentado. Para ser sincera, a gente nem deu muita bola no início, pensamos que alguma granada deveria ter explodido na Faixa de Gaza e neguinho acha que é aqui do lado, deixa para lá!

Mas logo os recados começaram a se multiplicar e a gente achou melhor se informar. No quarto, um pouco mais tarde, deixamos a TV ligada na CNN e vimos do que se tratara. Na fronteira de Eilat com o o Egito, justo no dia seguinte que passamos, haviam atacado um ônibus de turistas.

_ Ops! Foi perto mesmo, que bom que a gente já passou, né?

Luiz e seu lado cavaleiro do apocalipse já começou a dramatizar, dizendo que iam fechar as fronteiras e blá blá blá…

Falei para ele não viajar na maionese antes do tempo, quer saber, liga para o nosso amigo israelense, que a essa altura se tornou nosso oráculo da viagem, e pergunta para ele. Melhor do que ficar se descabelando à toa.

Nosso amigo foi se informar e nos disse que a fronteira entre Jordânia e Israel, via Eilat, estava aberta. Poderiam estar mais rigorosos em relação à segurança, mas não tínhamos nada a esconder. Além do mais, o tal ônibus de turistas não era exatamente só de turistas, parece que na sua maioria eram militares israelenses a paisano, segundo a versão oficial, de férias.

Eu me fixei na informação: a fronteira segue aberta e acabou! Uma coisa de cada vez e ainda faltavam alguns dias para a gente atravessar de volta.

Nesse dia, jantamos com calma e comemos bem, como de costume. Sem exageros, comida saudável, mas admito que começava a se tornar um pouco repetitiva.

Dia seguinte, acordamos sem pressa e fizemos um pouco de hora para tomar o café da manhã mais tarde e reforçado. Sairíamos pouco antes da hora do almoço, sem saber quando e como seria a próxima refeição.

A essa altura, tinha incorporado totalmente o deserto nas veias, já saí coberta pela minha pashmina enrolada na cabeça, como se fosse assim desde criancinha! Além de útil, fala sério, não é um charme? Principalmente, porque a Jordânia é razoavelmente liberal, a rainha, por exemplo, não usa o véu. Portanto, nem estava usando porque era obrigada, foi porque gostei mesmo. Muito mais elegante que meu boné de caçar borboletas!

Luiz não quis enrolar seu turbante, deixou pelo pescoço mesmo, o que não impediu que o recepcionista se despedisse dele em árabe, lógico!

Muito bem, próximo destino: Wadi Rum! Só faltava a gente lembrar como saia da cidade…

O que era um pouquinho mais enrolado do que parece. Abrimos a janela para pedir informação a um taxi, cujo o motorista mais do que prontamente falou, me segue! Ligou o motor e nem se preocupou com a nossa resposta.

Bom, segue ele, ué! No final ele deve te cobrar a corrida, afinal, a gente está meio escaldado a esperar que sempre queiram nos arrancar dinheiro de alguma forma, mas fazer o que, pelo menos a gente não se perdia.

Ele se embrenhou por aqui, por ali e a gente atrás. Daí ele parou o carro, saltou e disse que era só a gente seguir reto.

Luiz agradeceu e perguntou quanto lhe devia pelo trajeto. No que ele riu, gesticulando, nada, imagina! Eu moro aqui em frente e já vinha para casa mesmo…

Pagamos apenas com nossas línguas, ele fez na maior boa vontade!

Perguntamos onde poderíamos abastecer no caminho e ele recomendou que, nesse caso, melhor voltar e abastecer em Petra mesmo, porque o próximo posto estaria meio distante. Nos disse mais ou menos como fazer e lá fomos nós.

A gente se enrolou um pouquinho, achávamos que estávamos certos, mas meio inseguros. Quando a gente vê, o taxi atrás da gente outra vez, ué, vocês se perderam? A gente riu e disse que um pouco. Ele confirmou que estávamos certos dessa vez e era por ali mesmo, logo após a mesquita, à direita.

Beleza, agradecemos outra vez e seguimos. Passamos em frente a uma mesquita bem na hora da oração, você escuta do lado de fora. O que provocou um certo engarrafamento na sua frente, cheio de gente estacionado em fila dupla, mas enfim, passamos.

Chegamos no posto e estava fechado, deserto, parecendo esses postos de filme americano no meio do nada!

Bom, se o taxista mandou a gente para cá, o posto deve estar funcionando. A pessoa deve ter saído. Pela proximidade da mesquita, deduzimos que estaria rezando. O jeito era esperar a reza acabar e ver se aparecia alguém.

Nisso para uma caminhonete e faz sinal para a gente perguntando se estava fechado, o que a gente confirmou. Ele gesticula e chama Luiz para avisar que mais a frente há outro posto maior que talvez estivesse aberto. E fez igual ao motorista de taxi, me segue!

Não conversamos, subimos rápido no carro e seguimos o segundo estranho do dia! Luiz se perguntando porque acreditava nessas pessoas assim do nada e eu dizendo que a experiência anterior havia sido positiva. Isso deve ser normal por aqui, né?

O segundo posto também estava fechado, mas pelo menos era maior e havia sombra para a gente esperar. O rapazinho da caminhonete que seguimos saltou e explicou que realmente era hora de alguma oração. Olhei para o seu rosto e reconheci: você trabalha no hotel! A gente estava lá, mas seguimos agora para Wadi Rum.

Ele sorriu parecendo satisfeito em ser reconhecido: isso, eu fritei os ovos hoje de manhã para vocês! Também se lembrava de nós, perguntou de onde éramos. Quando falamos que éramos brasileiros, ele disse que éramos bem-vindos e que ele precisava ir, voltaria em outro momento. Mas podem esperar tranqüilos aqui porque virá alguém.

Sem outra alternativa, ficamos esperando por ali. Um pouco surreal você estar em um posto de gasolina na estrada, esperando uma oração acabar. E roubo não deve ser um problema por aquelas bandas, porque o celular, provavelmente do atendente, ficou ali sobre o parapeito de uma janela, tocando inutilmente.

Chegou mais um carro, o motorista puxou papo comigo perguntando sobre o posto. Eu disse que acreditava que era hora da oração e estávamos esperando. Ele fez aquela cara de, ah é, esqueci! Falei que deveria ser mais uns cinco minutos, ele olhou seu relógio, fez cara de quem estava calculando e me respondeu que faltava uns vinte.

Perto do tempo que ele profetizou, começaram a chegar outros carros e movimentar o lugar. Chegaram junto com o atendente do posto, que rapidamente fez a fila andar.

Ufa! Finalmente, pudemos seguir para Wadi Rum, com tanque de gasolina cheio e garrafas de água, por via das dúvidas.

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