Na fronteira entre Israel e Jordânia, de Tel Aviv a Petra

Turista é um saco! Vamos combinar, a gente está muito menos preocupado com os problemas político ideológicos de cada lugar, a prioridade é a logística! Feio de dizer, mas é a verdade.

De maneiras que nosso interesse principal ao começar a preparar nossa viagem era Israel, sem deixar de ir a Jerusalém. Daí a gente começou a olhar o mapa e me dei conta que estávamos muito perto de Petra, outro local que era louca para conhecer.

_ Ah, Luiz, eu quero porque quero ir a Petra também!

No meu carácter prático feminino: a gente pega um carro em Israel, vai dirigindo até a Jordânia e no caminho para Petra ainda dá uma paradinha no Mar Morto!

Ele me olha com aquele jeito de ai-meu-santo, Bi, tem estradas por ali que a gente não pode andar e ainda por cima com um carro emplacado em Israel!

_ E se a gente for de avião?

_ Não existe vôo conectando Israel com países árabes! A maioria nem o reconhece como Estado, lembra?

Ops! Foi quando me toquei de onde estava me metendo, juro que havia esquecido completamente de todos os conflitos dessa região!

Bom, não é possível! Deve ter um monte de turistas tentando aproveitar a viagem e esticando até Petra. Pergunta ao nosso amigo israelense, ele deve saber!

E lá foi Luiz perguntar para o amigo dele, que nos informou que naquele momento (sim, essas coisas mudam a qualquer momento) o relacionamento entre Israel e Jordânia estava bom. Não deveríamos ter problemas se cruzássemos a fronteira entre Eilat, do lado israelense e Aqaba, do lado jordão.

E isso não seria perigoso? Veja bem, viver é meio perigoso! Mas aparentemente, não deveríamos encontrar maiores riscos.

No início, me preocupou um pouco, depois entubei que nada ia nos acontecer e acreditar que está protegido é o melhor amuleto que alguém pode levar.

Então, o trajeto era o seguinte: avião de Tel Aviv até Eilat; pegar um taxi até a fronteira; atravessar a fronteira a pé; pegar um carro alugado do lado de Aqaba e dirigir até Petra. Só isso! Simples, né?

Alguém parou para pensar na quantidade de encrencas que poderíamos nos meter? Luiz sim, eu não! E vou adiantando que deu tudo absolutamente certo, redondinho! Mas quem quiser saber os detalhes, sigo contando.

Nosso vôo em Tel Aviv saía pelas 11 da manhã em um aeroporto relativamente próximo ao hotel, como se fosse um Santos Dumont ou Congonhas, inclusive bem menor. Tivemos tempo de tomar café da manhã com calma e arrumar as malas. Uma maleta de mão para cada um, viajamos bem leves.

No aeroporto, todo aquele esquema de segurança outra vez! Tudo bem. Esperando pelo vôo, pela quantidade de gente, percebi que seria avião pequeno. Putz, balança pacas!

No ônibus que levava ao avião, reparei em um soldado viajando fardado com rosto de quem tinha uns 14 anos! Legalmente, ele não podia ter isso, mas parecia um menino que me lembrava mais um escoteiro.

Muito bem, já falei que todo mundo ali tem uma penca de filhos, né? De maneira que mais da metade do vôo era de crianças, sério! O pessoal ainda sentando e aquela algazarra infantil.

O avião decola naquele esquema albatroz balançante e as mães e pais, para distrair as crianças, batem palmas, dão gritinhos de eh-uh-ah, como se estivessem em uma montanha russa! Para Luiz foi o inferno, achei engraçado, distraiu as crianças e Bianquinha também!

Pelo menos é rápido, menos de uma hora depois já estávamos pousando. Na saída, o soldadinho de chumbo nem agüentou chegar ao banheiro e colocou a alma para fora na pista de pouso mesmo! Acho que sua carreira militar não vai durar muito… Fiquei feliz que não fui eu, geralmente eu enjôo nessas balançadas, mas acho que a bagunça da criançada realmente me distraiu.

Nosso plano era almoçar ainda em Eilat, talvez no próprio aeroporto, porque ao cruzar a fronteira havia o risco de não encontrarmos local para comer tão cedo, afinal eles estavam em Ramadán. O aerporto era minúsculo, não tinha nada, então melhor comer na cidade, que por sinal, era muito bonitinha. Parecia destino de férias.

Da pista de pouso a gente viu uma churrascaria e a idéia de comer carne de boi foi muito bem vinda! Afinal, a gente não tinha idéia de como seriam as refeições dos próximos dias. Adianto que não tivemos problemas com isso, mas nesse momento, a gente ainda não sabia.

Comemos no El Gaúcho, sem muita pressa, mas sem muita calma, porque nos esperava a “misteriosa” estrada até Petra.

Bom, pegamos um taxi e fomos até a fronteira dos dois países. No caminho, compramos água e barras de cereais, por via das dúvidas. Rolava uma certa adrenalina, não vou negar. Dúvidas se deveríamos mostrar os dois passaportes, se mostrávamos um na saída e outro na entrada, se poderia ter o passaporte carimbado em Israel, se deveríamos perguntar isso, enfim, fora os controles de sempre.

É burocrático e tenso, acho que a gente mostrou os passaportes uma oito vezes! Mas não foi tão demorado. Você paga uma taxa na saída de cada país. E sim, você deve mostrar o passaporte que entrou em Israel, e a Jordânia aceita você entrar no país com esse carimbo. Pelo menos, ali nessa fronteira. No lado Israelense, inclusive mostramos os dois passaportes, eles estão acostumados com gente de dupla nacionalidade. Não queria nenhuma ponta solta, se tem um lugar para você não bancar o espertinho é ali! Conselho: verdade, sem floreios nem longas explicações.

Há um momento em que você sai de Israel e atravessa um corredor grande, como uma rua, todo cercado e a céu aberto, bem antes de entrar na Jordânia. É onde você se sente literalmente em terra de ninguém. E com aquele sol na sua cuca, essa sensação é bem mais intensa! Sorte que nossas malas eram pequenas.  Resumindo, saímos de um país a outro a pé!

Entrando do lado da Jordânia, a diferença é radical! Os controles tem a mesma rigidez, mas a estrutura é bem inferior. Dá um pouco aquela sensação de faroeste. Você olha a paisagem e percebe que em 500 metros todo o ambiente mudou e você já está no deserto. É a hora que você pensa, o que estou fazendo aqui mesmo, hein?

Calma, vai melhorar!

Alugamos um carro da Avis, pela internet é claro. No website, entendemos que havia uma escritório da empresa em plena fronteira, o que inclusive nos fez optar por eles. Olhamos em volta e nada de escritório nenhum! Vimos uma placa de informações turísticas, subordinados ao Ministério de Turismo. Perfeito, vamos lá perguntar!

Entramos em um escritório de repartição pública de mil novecentos e antigamente. Dois oficiais fardados atrás da mesa e outro no sofá. Todos assistindo uma novela na TV! Mal olharam para nossa cara. Luiz começou perguntando sobre a Avis e só balançaram a cabeça que não, o escritório era no centro de Aqaba. E vocês tem um mapa? O cidadão olhou para Luiz como se ele viesse de outro planeta! Mapa? Que mapa? Ok, ok, muito obrigada!

Ainda escutamos ele falar já para nossas costas que o taxi até a cidade custava 6 Dinars.

Sem outra alternativa, lá fomos nós buscar nossa próxima condução. Não tem um ponto, fica um cidadão ao lado de um burro perguntando se você quer um taxi. Te dá um pouco de medo de responder que sim e ele te apontar o burro, mas é um carro de verdade que ele chama.

Em alguns minutos chegou um cidadão que não devia tomar banho há alguns dias. Me chamou a atenção ele levar uma garrafa de água e tomá-la. Ué, ele não está no Ramadán? Cobrou o dobro para nos levar à cidade, 12 Dinars. Luiz olha para minha cara perguntando se aceitamos. Amor, olha a sua volta, a gente está no meio do nada! O motorista foi todo o trajeto tentando nos convencer a desistir do carro alugado e pagar para ele nos levar até Petra, naquele automóvel cheirosinho. Luiz teve a genial idéia de dizer que, infelizmente, o carro já estava pago, mas muito obrigada pela oferta, bom saber para uma próxima vez… tipo assim, nunca!

Chegamos meio tontos no escritório da Avis. Nos enrolamos um pouco com o inglês do atendente, dizíamos que no website o escritório era na fronteira. Ele dizia que a gente chegou mais cedo. A gente entendia que o carro ainda não estava pronto… Até que finalmente entendemos que o que ele realmente queria dizer é que, de acordo com a hora que você diz que chega, ele envia alguém com o carro até a fronteira e te espera. Como a gente chegou mais cedo, não havia ninguém ainda! Ah, bom!

Até que ele era simpático, é que já estávamos irritados com a fronteira, o taxista e o calor. Melhor baixar aquela adrenalina e mudar de estação.

Ainda pedi para dar uma passadinha no banheiro, já que não sabia como seria a estrada até Petra. Um cidadão pegou uma chave e me acompanhou pelo lado de fora, já fui pensando, putz, roubada! Óbvio que o banheiro era daquele buraco no chão. Respira fundo, Bianca, mas não tão fundo!

Aceitei que dali para frente deveria ser assim mesmo e incrivelmente consegui usar o tal banheiro.

Vale dizer que dali para frente não foi assim mesmo e esse foi o único banheiro que encontrei dessa maneira. Mas também não sabia disso nesse momento.

E sim, eles tinham um mapa! Só precisávamos abastecer e seguir viagem!

Claro que o carro não tinha GPS! Mas quer saber, a gente já cansou de viajar antes desse invento dos céus e sempre chegamos em qualquer lugar! Verdade que brigávamos o caminho inteiro, mas chegávamos!

Então, Luiz foi dirigindo e assumi a navegação. Até que a gente nem brigou tanto, acho que tínhamos mais com que nos preocupar. Não estávamos nem um pouco afim de errar o trajeto.

E, a propósito, Aqaba é muito sem graça! Tem aspecto muito mais pobre que Eilat.

Deixamos o Mar Vermelho para trás e logo ao sair da cidade, passamos pelo primeiro posto de controle. Um oficial fez sinal para Luiz parar. Já fui logo pegando todos os documentos, mas foi só Luiz baixar a janela e o agente olhar para o seu rosto que o mandou passar imediatamente! Pequeno detalhe, a gente entendeu que era para seguir pelo gestual, porque ele falou em árabe!

_ Viu? Foi olhar para sua cara… e vê lá se vou parar esse saudita! Passa! Passa!

Agora era Luiz quem estava em casa!

A estrada é boa, sem grandes estruturas para paradas, mas também não é tão longa. É asfaltada normalmente, tudo direitinho. Mas é engraçado você ver algumas tendas nômades e camelos durante o caminho. Além da certeza que estamos no deserto! Árido, árido, árido!

Acredito que mais ou menos uma hora depois de estrada, vimos a entrada para Wadi Rum, onde pararíamos na volta, e já ficamos mais tranqüilos em ver que não era difícil encontrá-la.

Seguimos até Petra, acho que foi algo como 3 horas de carro desde Aqaba, talvez um pouco mais, não deu para cansar. Seguimos as indicações do mapa e não foi complicado. Só na entrada mesmo da cidade ficamos um pouco na dúvida, mas perguntamos pelo caminho e nos indicaram, em inglês, sem maiores problemas. Foram inclusive bem simpáticos.

E assim chegamos em Petra, sãos e salvos! Mas isso conto na próxima história.

14 comentários em “Na fronteira entre Israel e Jordânia, de Tel Aviv a Petra”

  1. Bianca, sou amiga do Luiz, fizemos um trabalho juntos na Unimed Londrina !! Adorei ler sua história !!! Viajei junto!! E já estou esperando os próximos cápitulos!! Grande aventura !! Boa viagem aos dois!! Bj

  2. Todo mundo me chama de louca, mas eu ADORO os banheiros com buraco no chão! São mais higiênicos porque a gente não tem que fazer malabarismo para encostar em nada. Exige alguns minutos em apnéia, claro: nem tudo são flores perfumadas… 😦

  3. Selma, eu odeio do fundo do meu ser esses banheiros de buraco… rs. E eles costumam estar mais sujos e com o chão mais molhadinho, digamos assim, que os banheiros tradicionais. Eca! 😛 Normalmente, até se estou apertada não consigo usá-los, motivo pelo qual me surpreendi nesse caso. Mas enfim, nem foi a única coisa que nunca faço e acabei fazendo nessa viagem! 🙂 Besitos

  4. Eu acho que você trata o povo da região como pessoas extremamente “inferior”, posso estar enganado!
    Sinto que todos tem seus costumes e tradições e, acredito que os árabes não trocariam seus camelos, barracas ou casas simples, mulheres e filhos pelas “porcarias” que o ocidente oferece…
    “Drogas”.
    O ocidente está consumido pelas drogas e, acredito que muitas mães, que perderam seus filhos no mundo das drogas, trocariam seu conforto em casas com telha colonial, piscinas e um belo jardim por uma vida que os beduínos e povos árabes vivem em uma casa simples ou barracas, mas com vendo seus filhos crescerem em paz, seguindo tradições milenares.
    As grandes metrópoles só tem concreto, trânsito tumultuado, muita violência e tristezas, muitas tristezas…
    Estou indo conhecer o lado oriental e maravilhar com milhares de coisas que deve existir nessas regiões e após isto eu contarei a minha “historinha”, aceitando, é claro, as críticas.
    Aceito orientações quanto ao trajeto entre Israel até o Egito.
    Tenha um bom dia!

  5. Oi, Paulo! Você está redondamente enganado, não trato ninguém como inferior, até porque seria uma ignorância enorme. Escrevo e compartilho exatamente o que vi e como interpretei, se você se sentiu ofendido, sinto muito, mas nunca foi a intenção. No próprio blog, se você continuar lendo os textos que seguem, há outras dicas de trajetos e locais. Não fui de Israel ao Egito, assim que não posso te ajudar nesse sentido (conto o trajeto Israel à Jordânia). Boa viagem para você!

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