Começando por Tel Aviv

A primeira vez que Luiz foi a trabalho a Tel Aviv, fiquei meio preocupada. Tinha na cabeça a mesma imagem de perigo que boa parte das pessoas que conheço tem.

Verdade que no aeroporto ele era revistado até as orelha, porque tem uma cara de brimo danada! Ainda por cima, tinha no passaporte vários carimbos de países árabes, os quais também ia a trabalho, e para complicar um pouquinho, ainda tinha que pedir que não carimbassem o passaporte em Israel, porque teria sua entrada vetada em alguns países que não o reconhecem como estado. Ou seja, apesar de não estar fazendo absolutamente nada errado, era um prato cheio para o pessoal do controle de fronteiras.

Ainda assim, ele sempre voltou com uma boa impressão de lá, os momentos de tensão se resumiam à saída da Espanha e entrada em Israel. Lá dentro, esse clima de medo e suspeita se dissipava. Considerava Tel Aviv como uma cidade de praia das mais normais do mundo!

Meu lado brasileira entendeu isso perfeitamente desde o início. Ainda que não seja algo do qual me orgulhe, a gente foi acostumado, por exemplo, a saber que um seqüestro de ônibus foi notícia internacional escabrosa em diversos países e para a gente, foi mais uma notícia do jornal das oito. A gente se habitua e a vida segue. Não é o todo, é uma parte.

Assim que tinha uma baita curiosidade para conhecer Israel algum dia e finalmente, esse dia chegou.

Fui preparada psicologicamente para passar por controles mais rigorosos nos aeroportos, até porque estava com meu marido com cara de saudita. Mas na prática foi bem razoável, se ele tem pinta de habib, eu bem que tinha de Sarah. Na saída, passamos pelos controles normais, o que deixou Luiz quase decepcionado, uma saudade daquele agente que o conheceu tão intimamente e agora não manda um e-mail, um telegrama… e claro que ele vai querer me matar pela piadinha, mas tudo bem.

Pousamos em Tel Aviv e lá fomos nós passar pela imigração. Agora nós temos dois passaportes e ficamos na dúvida até o último minuto com qual dos dois entraríamos em Israel, de maneira que ele pudesse ser carimbado, sem prejudicar próximas visitas a países árabes. No último minuto, Luiz resolveu entrar com o passaporte brasileiro. Acontece que nosso vôo vinha da Espanha e não tínhamos um vôo do Brasil no trajeto. Resultado: para a salinha ao lado por favor!

Pronto, estava muito fácil! Chegamos em uma sala com umas 20 pessoas e pensei, putz, isso vai demorar pacas! E até então, não sabíamos exatamente porque havíamos sido parados. Quer dizer, eu tinha certeza que só havia sido parada porque estava com Luiz!

Surpreendentemente, cinco minutos depois um agente nos chamou de lado e começou, bastante educado, com as perguntas de sempre: o que veio fazer no país, conhece alguém, é a primeira vez… blá blá blá… até que chegou na pergunta onde estava a conexão do nosso vôo do Brasil. Quando dissemos que tínhamos dupla nacionalidade e que morávamos na Espanha, o agente fez ar de quem finalmente entendeu a história e fomos liberados sem maiores problemas. Por isso, cheguei a conclusão que dessa vez não fomos parados só pelo Luiz e sim por parecer haver uma ponta solta na nossa procedência. Até aí, normal.

Ficamos em um hotel bem na frente da praia, o Renaissance. Pelo caminho fui reparando na arquitetura da cidade e os contrastes entre o novo e o antigo. Muitos edifícios com cara de velhos, com a fiação toda por fora, ao lado de construções mais modernas. Lembrava cidade brasileira, para ser sincera, poderia ser centro de São Paulo. Mesmo na orla da praia, você encontra construções caquéticas ao lado de edifícios recén construídos.

Na porta do hotel, você passa por controle de entrada. Aliás, coisa bastante comum em entradas de restaurantes, discotecas, bares etc. Se tem público, vão revistar sua bolsa e passar por detector de metais. E quer saber, acho bom. Há um histórico de atentados, melhor prevenir. Mas tudo é feito com certa naturalidade, porque é parte do dia a dia deles. Relaxei e não me senti invadida, proteção é de bom tamanho.

Do quarto do hotel tínhamos vista para o mar, que parecia bastante convidativo. Mal pousamos as malas e despencamos para praia, na tentativa de já curtir o primeiro dia.

Na areia em frente ao mar, se esquece completamente de qualquer tipo de tensão ou conflito. O ambiente é agradável, as pessoas simpáticas, as roupas de banho normais e o povo com cara de saudável. O tipo de areia e o contexto te lembram muito as praias cariocas, mas muito mesmo!

Também tem um calçadão onde o pessoal passeia, aparelhos de ginástica públicos disponíveis e quiosques pela areia. É possível alugar espreguiçadeiras, cadeiras e barraquinhas. E o melhor, também tem vendedores ambulantes de picolés com seus isopores e afins, além de gente dos quiosques que vem até sua espreguiçadeira e te servem na beirinha da água.

Ainda é permitido se jogar frescobol (que ali tem outro nome que não lembro) e o ruído das bolas nas raquetes de madeira nos faz lembrar das praias cariocas e da região dos lagos de há algum tempo atrás. Chega a ser nostálgico! Para completar, sentamos em um quiosque para beliscar alguma coisa e quando nos demos conta, a música era… brasileira! Estou em casa!

E nem ficou só nisso, no finalzinho da tarde, em pleno calçadão da praia, uma roda de capoeira! Vem cá, em que país estou mesmo?

Muita família! Os casais se casam cedo e não me lembro de ter visto nenhum com menos de três filhos! É daí para cima!

Elegemos um quiosque em frente ao hotel como nosso favorito, o LaLa Land. Boa comida, atendimento simpático, mesinhas literalmente na areia da praia e à noite ofereciam música ao vivo (inclusive, bossa nova, é claro!).

Tanto no hotel como na rua, as pessoas foram muito amáveis e simpáticas. Não sei se a Espanha deixa a gente meio acostumado com grosseria, sei lá, mesmo quando educados, os espanhóis tem esse jeitão meio agressivo. A gente mesmo acaba atuando igual, por costume. Então, quando somos tratados com gentileza é música aos nossos ouvidos.

E da mesma maneira que todo mundo chega para falar com Luiz em árabe nos países respectivos, em Tel Aviv, todo mundo começava a falar comigo em hebraico! Era uma a mais! Bom, não há um único tipo físico no país, todos os esteriótipos encontrados nos filmes americanos referentes a judeus estão lá, os narizes, os óculos grandes, o cabelo crespo… mas há muito mais do que isso. Tem sua cultura muito própria, mas também há uma série de referências dos muitos países pelos quais estão espalhados. Portanto, não é difícil encontrarmos algo que nos lembre algum lugar e no caso do Brasil, que também é essa mistureba, a afinidade é imediata.

Os ortodoxos, com suas roupas pretas e chapéus engraçados não chamam grandes  atenções e não é difícil encontrá-los passeando também pelo calçadão da praia com uma esposa bem coberta e uma penca de filhos! Na mesma calçada em que passa o esportista malhado correndo, a mocinha linda de pareô, a outra de véu, a coroa gordinha sem noção de biquini com elástico largo, o rapazinho de patinete motorizado, a bicicleta estacionando, os namorados, os amigos, os que estão tentando paquerar alguém… tudo junto!

Não tivemos problemas com o idioma. Claro que não falo hebraico, ainda que tenha ficado curiosa e aprendido meia dúzia de palavras, mas todo mundo com quem nos relacionávamos falava inglês, da recepcionista do hotel à garçonete e o motorista do taxi. Com mais ou menos sotaque, nos comunicávamos sem o menor problema.

Quanto à comida, foi difícil encontrar uma culinária tipicamente judaica. Não sei nem dizer se existe! Porque novamente, há uma mistura de influências de países diferentes. Mas se posso ressaltar alguma coisa, diria que há alguns ingredientes constantes: pepino, yogurt, pão pita, tomates, queijos, azeite de oliva… enfim, os mesmos encontrados na culinária árabe. Acontece que passeando pela rua, tem de todo tipo de restaurante internacional e o Mc Donald’s é Kosher. Ou seja, se você não for viciado em comer carne de porco, não terá nenhum problema para comer bem em Tel Aviv. Honestamente, até a tal carne de porco encontramos no cardápio de um dos lugares que fomos, mas não quis pedir. Pequeno detalhe, tanto em Israel quanto na Jordânia, fujam do suco de laranja! Exceto se vocês vejam a laranja sendo espremida ali na sua frente, porque o suco artificial é um horror! Uma mistura de redoxon com fanta sem gás!

Uma coisa que já sabia, mas acho curioso para quem não conhece é que, olhando para o mar, na ponta esquerda da orla, se encontra Old Jaffa, a parte árabe da cidade. Sim, no meio de Tel Aviv há um bairro árabe. Porque de fora, a gente tem a impressão que são inimigos mortais, mas de dentro, ainda que com ressalvas, convivem pacificamente.

Ao fundo, à direita está Old Jaffa

Old Jaffa também é a parte mais antiga da cidade e sua arquitetura com construções de pedra refletem isso. Ouvi dizer que foi um bairro marginalizado, mas hoje está renovado e abriga comércios, restaurantes e galerias de arte. Jantamos ali na primeira noite, em um lugar chamado Aladin. Despojado, informal e com vista para a praia.

Temos um casal de amigos de Tel Aviv, Luiz conheceu o marido através do trabalho, são da mesma empresa. Era para ele que perguntávamos nossas dúvidas e pegávamos referências de lugares para ir. Saímos para jantar com eles duas noites e foi show! Temos essa sorte e privilégio de sempre encontrar amigos legais em partes diferentes do mundo. No primeiro jantar, nos levaram ao restaurante do hotel Montefiore. Excelente comida e atendimento, achei o melhor que fomos em Tel Aviv!  Seguia uma gastronomia de base francesa com toques orientais. Pela intimidade com que cumprimentavam o pessoal da casa, se notava que nossos amigos eram clientes freqüentes de lá. No segundo jantar com eles, na nossa última noite na cidade, fomos a um restaurante que ficava no porto, em Old Jaffa, esse mais despojado e original, chamado The Container.

Nas outras refeições que fizemos na cidade sozinhos, optamos por beliscar pela praia mesmo, no LaLa Land. A parte mais divertida era quando chegava a conta e não sabíamos nem se estava de cabeça para baixo!

Em dois dos dias que estivemos por ali, resolvemos conhecer os arredores, em um deles fomos a Jerusalém, outro a Cesarea e Nazareth.

Cesarea é conhecida por suas ruínas romanas. Veja bem, não quero decepcionar ninguém e isso depende muito da expectativa de cada um. Para os brasileiros em geral deve ser um passeio bem bacana! Acontece que moro na Europa e viajo pacas, ou seja, estou de ruínas romanas até o pescoço! Já não é algo que me chame a atenção, mas enfim, recomendo a quem se interesse pelo tema.

Já Nazareth é sem gracérrima! Francamente, não tem nada demais. Mas ficava na passagem para chegarmos a Tiberias, no mar da Galiléia, nosso objetivo do dia. Infelizmente, tive digamos, problemas femininos em Nazareth e por motivos de força maior, voltamos para o hotel. Tudo bem, o resto do dia foi aproveitado na praia.

Bom, agora, Jerusalém é outra coisa! Na verdade, era minha maior curiosidade em Israel. Mas essa história, vai ficar para o próximo post!

4 comentários em “Começando por Tel Aviv”

  1. Mulher israelense com biquini sem noção? Conheci uma aqui em Seul! Mêda…
    Tô adorando os posts! E aguardando o de Jerusalém!
    Besitos!

  2. Oi! Estou escrevendo sobre Jerusalém agorinha 🙂 Acho que consigo postar hoje ainda ou no máximo amanhã! Vou lá! Besitos

  3. Tenho um amigo brasileiro que ta morando em Israel ha uns anos.
    Ele tem 6, SEIS filhos, rsssss…..parece que é normal isso.

    Bacana!!!Vou pro proximo..
    Bjs,

  4. VC me deixou afim de conhecer Tel Aviv!!!:)Pra mim sempre q se falava em Israel só pensava em Jerusalem, mas a partir de agora vou colocar na minha lista de lugares que quero visitar. Vou para o proximo capitulo… bj

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