Minhas gordas

Sou uma mulher normal, com as mesmas neuras em relação ao próprio peso que outras muitas mulheres normais. Mas entre nós, no fundo gosto da palavra “gorda” ou “gordo”, é gostoso de dizer, principalmente em tom carinhoso. A gente enche a boca para falar e ainda faz biquinho.

Enfim, conto isso pelo costume que ganhei quando entraram dois felinos na nossa vida, o Jack Daniel’s e a Buchannan. Ele gordinho desde filhote e ela magrela que era pelo e osso. Não fazia diferença, chamava os dois de gordos. Assim que meus gatos tinham nome e apelido, e pasmem, atendiam aos dois!

JackBuck2

Muito bem, nessa época, eu trabalhava como artista plástica e um belo dia, minha vizinha tocou na minha porta para conversar. Dizia que tinha uma filha com uns 9 anos, que estava com alguns problemas sérios de timidez. A mãe acabara de mudá-la de escola, pois na anterior sofria “bullying” constantemente. Também havia mudado de casa e ficou, de uma hora para outra, completamente sem amigas. Ela perguntou o que eu achava de dar aulas de arte para a filha, achou que podia ajudar.

Como não? Fiz um preço camarada e topei.

Chegou na minha casa uma menina que mal abria a boca de vergonha, toda sem graça! Fiz de conta que não notei e fui tocando a aula de uma maneira mais livre, sem cobranças. Até que duas figurinhas resolveram aparecer na sala para checar quem era a nova visitante.

Quando minha aluna percebeu a presença dos dois felinos, parece até que esqueceu da tal timidez. Ficou completamente encantada e doida para brincar com eles!

Pensei, agora ferrou de vez! A pobre já está toda triste e se sentindo rejeitada, vai querer fazer amizade logo com os gatos! Sim, conosco eles eram muito carinhosos, mas fora a gente, só com raríssimas exceções e assim mesmo levava um tempo para ganhar confiança. E com criança então, putz, eles fugiam e se escondiam igual diabo foge da cruz!

Meu gordo, como diz um amigo meu, não estava nem aí para a paçoca! Não deu grandes bolas, mas verdade que também não atrapalhou, ficava sempre de longe observando.

Já com Buchanan, aconteceu algo incrível, que talvez só quem tenha bicho possa entender. Ela parece que percebeu que a menina precisava dela e simplesmente a adotou de cara! Foi completamente receptiva, carinhosa e dócil. Se deixava carregar para cima e para baixo, das maneiras mais esdrúxulas, com toda a paciência. E isso porque era uma gata que detestava ficar presa em colo! Era realmente bonito ver os laços que as duas criaram, ao ponto da minha jovem aluna dizer que minha gorda era sua melhor amiga! E veja bem, nessa idade, “a melhor amiga” era importantíssima!

Poderia contar mil histórias bonitinhas a respeito, mas hoje queria mesmo dizer que a menina achava muito curioso eu chamar uma gata tão magrinha de gorda. Expliquei que era uma maneira carinhosa de falar, não me importava o peso ou a aparência, o gato era meu “gordo gorducho” e a gata minha “gorda magrela”. Ela entendeu muito rápido e passou a adotar a mesma terminologia, geralmente, se divertindo bastante em chamar “gooooorrdaaa” e a gata responder toda manhosa.

Resumindo a ópera, algum tempo depois, me mudei desse apartamento. Minha aluna entrava na adolescência completamente diferente da primeira vez que entrou na minha casa. Acho que foi um conjunto de providências tomadas por uma mãe atenta, também por seus próprios méritos, nunca é uma coisa só. Mas tenho certeza absoluta que minha felina teve um papel fundamental na recuperação da confiança e da auto estima da menina. Entendi o poder que tinha o amor e a amizade de um bicho.

Faz uns nove anos que minha gorda sensível se foi, às vezes, me visita em sonhos. E faz um ano que se foi meu gordo bonachão, sinto sua falta, ainda que já não seja mais sofrido.

Andamos pensando em adotar outro gato ou gata. Mas ainda não surgiu a ocasião certa, acho que essas coisas a gente sente.

Reparei que pelas redondezas da minha casa, passeava uma felina malhada muito sociável e simpática. Bom, assumi que era fêmea por causa de uma barriguinha flácida, parecida a de gata parida, mas certeza mesmo, não tenho, acho que não importa tanto seu sexo. E por não saber se levava um nome, e pela barriguinha peluda que balança quando ela anda, também a chamo de gorda.

Luiz já a viu dentro de um apartamento, que é onde desconfio que ela more. Acontece que é bastante livre, acostumada a passear pelos jardins do condomínio e pelos parapeitos do edifício. Assim que, também não tenho certeza absoluta que ela tem dono, mas quase certeza. Afinal, está bem de peso, parece saudável e com certa idade.

Muito bem, agora em julho, Luiz viajou, fiquei sozinha em casa por uma semana. Não costumo ter problemas com isso, tenho minhas coisas para fazer e geralmente não sou audiência para solidão. Mas confesso que nesses dias, senti falta do meu felino gordo e da companhia que ele me fazia em casa.

DSC00122

Não me queixo de Londres, aos poucos venho conhecendo gente bem bacana. Mas leva um tempo até poder ter a mesma facilidade que tinha em Madri, de sair sozinha sem me importar, porque tinha certeza que no bar, no concerto ou na esquina, encontraria um rosto conhecido. Sinto falta de me locomover sem dificuldade pela cidade, saber onde é tudo e poder sempre voltar caminhando.

Sinto falta da casa cheia, de cozinhar para os amigos, de receber visita. Não tenho certeza, porque não sou íntima do conceito, mas talvez estivesse me sentindo um pouco só.

Daí, dentro desse clima, estou eu no computador, olho para o lado e quem me aparece?

A gorda malhada, dona do condomínio, veio checar se tudo estava nos conformes. Me fitou com aqueles arregalados olhos felinos, que parecem sempre estar te perguntando alguma coisa: e aí, me chamou?

i

Fiquei sem saber muito o que fazer, abri um pouco a janela e comecei a brincar com ela desde dentro. Nesse dia, ela só botou a cabeça e pediu um pouco de carinho. Tentou entrar, se embolou com a corda da persiana, se assustou um pouco e foi embora.

Dia seguinte, ela voltou. Admito que estava esperando, o que parece meio maluco, considerando que era uma gata! Mas ela não decepcionou. Dessa vez, tirei as cordas da persiana da frente e já providenciei um copo de água.

Aos poucos, fomos criando nossos códigos e surgiu nossa amizade. Há semanas, ela me visita diariamente. Como quem recebe uma amiga, já deixo separado e a mão água, um pouco de comida e a deixo passear por alguns ambientes da casa.

Suas visitas são rápidas e rotineiras, ela chega, pede para entrar, pede carinho, aceita comidinha, bebe água, pede mais carinho, passeia pela casa, confere se está tudo bem, pede mais carinho, fica um pouco ao lado fazendo companhia e olhando da janela, depois vai embora, do mesmo jeito que chegou. Não parece querer uma dona, não parece precisar de nada, simplesmente vem me visitar. E é o suficiente para equilibrar a energia da casa e animar meu dia.

q

n

E só para concluir uma história que ficou incompleta lá atrás, sobre que fim levou minha aluna. Ainda mantivemos contato por algum tempo, até me mudar do Brasil. Eu a tinha como amiga no falecido Orkut, onde procurava não passar muito nem deixar recados, afinal, ela já estava uma mocinha e não ia fazer ela pagar esse mico! Pois até onde sei, era uma adolescente normal, bonita, feliz e com várias amigas. Fiquei curiosa de ver suas fotos e me parecia sociável e confiante, nem de longe a menina tímida e insegura que conheci. Me perguntei se ela ainda lembraria da Buchanan, o que não era importante, afinal a gata já tinha cumprido com louvor sua função. Até que vi uma foto de um grupo de meninas muito queridas, pareciam grandes amigas abraçadas, com o interessante e familiar título de “minhas gordas”.

Hakkasan

Alan Yau, é o nome que está por trás de grande parte dos restaurantes asiáticos de Londres, voltados para públicos e preços diferentes. Um desses restaurantes em especial, o Hakkasan, nos chamou a atenção.

O nome parece de palavra mágica, mas é um restaurante chinês. E, veja bem, não um simples restaurante chinês, mas o primeiro a receber uma estrela Michelin.

Então, lá fomos nós conferir se era isso tudo mesmo!

Logo na recepção, fui surpreendida. O local era bastante moderno, com música nada oriental e diria que até um ponto mais alta do que imaginaria. Troquei rapidamente meu chip e aproveitamos uma taça de champagne no bar, enquanto aguardávamos nossa mesa.

photo

photo1

Em seguida, fomos encaminhados ao andar de baixo, um salão bastante amplo, mas com algumas divisórias que davam um ar mais aconchegante a cada ambiente. Parece um pouco escuro em princípio, mas a iluminação das mesas e dos pratos é bem equilibrada. A música também passa a uma altura adequada. Serviço, educado e simpático.

Enfim, tudo indo bem, mas o que importa no final das contas é a comida, certo?

Comecei com um softshell crab, nosso siri-mole, que estava bom, mas um pouco fritura demais para meu paladar. Até aí, normal, foi o que escolhi, estava correto, apresentação bonita, mas nenhuma grande emoção.

photo2

Na sequência, os pratos principais, Luiz pediu um camarão ligeiramente picante, como um curry e pedi, o que modéstia às favas, foi a grande estrela da noite: um pato trufado de ajoelhar e rezar!

photo3

photo4

Sério, foi provavelmente o melhor pato que comi na vida! Até Luiz que nem liga para a dita ave se encantou! Recomendadíssimo! É verdade que estou para achar alguma coisa que não combine com trufas, mas confesso que não havia pensado em adicioná-las a um pato. Funcionou.

photo5

A sobremesa nos foi oferecida como cortesia da casa, imagino que porque o horário da mesa seguinte havia chegado. Achei estranho a rotatividade em um Michelin, mas enfim, tivemos um bom tempo para a aproveitar o jantar e foram bastante delicados. Assim que ao final, meu parecer é positivo. Vale conferir!

photo6

photo7

O primeiro barraco a gente nunca esquece!

Pois é, minha vista de águia já foi para o saco após os 40 anos, mas sigo tendo um sono leve e uma audição canina! Eu acordo em casa se faltar luz, porque o som da casa muda. Nesse nível.

Enfim, estava eu dormindo tranquilamente, quando algum som diferente me desperta. Algo que parecia discussão, briga, sei lá, na hora que a gente acorda é difícil ter certeza se não estava sonhando. Olhei o relógio, 3 da manhã… hum… horário muito suspeito! E já explicarei o porquê.

Levantei e fui buscar de onde vinha o som, comecei a ouvir novamente uma discussão. Na verdade, um belíssimo quebra pau de marido e mulher! Eu fico logo nervosa! Porque tenho um lado que me diz para respeitar a privacidade do casal e outro que me diz, atenta porque se ele for violento você pode precisar chamar a polícia. Nada impede que ela também seja violenta, mas não costuma ser o normal.

Muito bem, lá fui eu prestar atenção na conversa. Aparentemente, a cidadã saiu para balada, deixou o marido em casa, voltou às três da matina, mas não atendia o celular desde às 21h. Devo confessar que acho que o marido tinha uma certa razão de estar aborrecido. Ele berrava “fuck off”… você desrespeita nosso casamento… vai embora de uma vez… está tudo acabado… e apenas ouvia ela responder que só estava “having a good time”…

Por algum motivo, ele abria e batia a porta de casa, enquanto berrava essas frases. Por isso, sei que são meus vizinhos da frente. Apesar da agressão verbal bastante intensa, não acredito que a coisa tenha ficado física. Assim que também não chamei a polícia.

Até que em algum momento eles apagaram as luzes e não ouvi mais nada. Acho que ela dormiu no sofá.

Voltei para cama e ouvi passos do vizinho de cima. Esse vizinho fala pelos cotovelos! Acho que moram pelo menos uns três homens no andar de cima e parecem falar um idioma búlgaro, albanês, algo desse lado ao leste que me dá um pouco de medo.

Já fiz logo a intriga, será que o albanês mafioso de cima chegou junto com a vizinha vagabunda da frente? Será que estão tendo um caso sórdido?

Não sei, mas ficou uma informação lá atrás que gostaria de fazer uma reflexão, o fato do quebra pau ter acontecido às 3 da manhã e porque acho esse horário suspeito.

Houve um apartamento em Madri que tivemos que mudar por não aguentar mais as brigas do casal ao lado. Eles brigavam religiosamente todos os dias às 3 da manhã. Juro que às vezes tinha vontade de bater na porta deles pelas 19h e perguntar, escuta vocês não querem começar a brigar logo agora? A gente já sabe que vocês vão brigar mesmo, então, pelo menos comecem mais cedo e deixem todo mundo dormir, né? Na verdade, não sei se era pior quando eles brigavam ou quando faziam as pazes! Porque a gente também escutava o tigrão e a alucinada na trepada de reconciliação e garanto que era bem mais assustador que as discussões!

Enfim, acabei desenvolvendo uma teoria que esse é um horário cabalístico para discussões de casal: às 3 da manhã! Acho que até às duas, quem está esperando tem na cabeça como o horário limite de tolerância. Algo que deve vir no inconsciente desde o período adolescente, quando tínhamos uma hora para chegar em casa. A partir daí, a imaginação ganha proporções incontroláveis. Até às três, deu tempo de pensar um monte de bobagens! Mas quando vai chegando perto de quatro, ou as bobagens viraram real preocupação ou muito sono. Daí, quando a pessoa chega, já não há energia para discutir, deixa-se para o dia seguinte, quando a poeira estará mais baixa.

Portanto, se algum dia você resolver fazer merda, chegue até às duas ou chegue depois de quatro, mas nunca, nunquinha, às três da manhã!

Ou faça muito mais fácil, desfrute saindo junto do seu parceiro ou parceira; ou aceite que um queira sair e outro não; ou confie em quem fique ou quem vai, porque não há nenhuma razão para se fazer nada escondido. Casamento não é uma prisão, ninguém precisa fugir para se libertar, nem sofrer por abandono. A vida a dois pode ser muito mais simples se você apenas perguntar o que quer saber ou dizer o precisa.

Nada não, foi lutando boxe…

Parte do meu treinamento na ginástica é lutando boxe. Acho que basta me conhecer por 5 minutos para saber que para mim é a melhor parte da aula! Fico amarradona!

Veja bem, o fato de gostar não significa que o faça direito, pelo menos, não por enquanto. Inclusive, acho que deva ser mais divertido para quem me assiste. Porque, digamos, a coordenação não é exatamente meu forte. Eu brigo como mulherzinha mesmo, afinal, vamos combinar, quando garota, nunca precisei sair no braço com os amigos no recreio.

Mas acontece que eu gosto e daí eu quero fazer melhor. Não me importo muito com o mico, porque vejo que vou evoluindo. Já faço umas sequências de “jabs”, “cross hooks” e “uppercuts” que nunca havia sonhado possíveis!

E por que estou contando isso? É que em uma das minhas últimas aulas, acabei com um hematoma na mão, bem no lugar de dar o soco. Se eu fosse uma mocinha normal, desconfio que não deveria ter gostado muito disso, mas entre nós, eu adorei! Fiquei completamente orgulhosa do meu “hematoma de briga”!

Ok, briga é um baita exagero, porque a gente não chega nem propriamente a lutar, é um treino onde eu soco a mão do professor, eu com as luvas e ele com a proteção. Fora que é tudo combinado, né? Acontece que basta eu colocar aquelas luvonas que já me sinto toda poderosa!

Enfim, tentei exibir displicentemente meu hematoma para todo mundo que encontrava, doida para tirar onda! Torcendo para alguém me perguntar o que foi aquilo. Daí eu diria distraída: ah, isso? Nada não, foi lutando boxe…

A burocracia da morte

Assunto tabu, eu sei, para mim também era, não é mais. Ninguém gosta muito de falar a respeito, é fato, mas está lá e não há como fugir. Tem que resolver e se resolve no olho do furacão mesmo.

Assim que nossos dias no Rio seguiram trabalhosos. A gente não pensa muito nisso normalmente, mas há uma grande burocracia após um falecimento. É necessário dar entrada em pensão, seguros, inventário, trocar nome de contas etc. Acho complicado, porque geralmente a família está sensível, principalmente os viúvos, muitas vezes idosos, e pensar em todos esses detalhes deixa qualquer um baratinado.

Vou logo avisando que nem adianta a hipocrisia de dizer que não é hora de se pensar em dinheiro nesse momento, porque as contas continuarão caindo do mesmo jeito, nada para no planeta porque você ainda está dolorido por sua perda. Tampouco pense que a maioria será ao menos condescendente. Principalmente os seguros, farão o melhor para dificultar seus direitos e se esforçarão para que você fique em um vai-e-vem insano. Tudo vale para prolongar o tempo de recebimento de seus benefícios. Sem falar na máfia dos cartórios. Não importa que você vá pessoalmente, com sua identidade original a algum lugar, você não é você se sua assinatura não estiver reconhecida em um cartório.

No caso da minha sogra, ainda havia uma complicação extra, dos três filhos, dois moram fora do Brasil e o que mora no Rio não quer resolver essas coisas. Assim que precisávamos botar as pilhas e já deixar tudo o mais adiantado possível.

De uma maneira torta, há uma vantagem, porque apesar de muito cansativo, faz você desviar o pensamento. Você ativa seu lado racional e automaticamente, suas emoções ficam sob controle.

Acho o tempo do luto muito importante, ele é necessário para você entender a perda e seguir bem. Mas nada impede que ele seja misturado com outras emoções ou afazeres e talvez isso também seja bom. Porque é possível que na hora mesmo que você precise encarar a realidade, esteja mais forte e tenha ampliado sua perspectiva.

Meu sogro deixou sua morte muito bem preparada. Se preocupou com detalhes que me impressionaram. Para dar um exemplo, seu velório estava pago, definida a roupa que queria usar e o que colocar sobre o caixão. Havia por escrito os passos que deveriam ser tomados, quem deveria ser procurado, telefones, endereços etc. Uma preocupação sobretudo em deixar minha sogra amparada.

Achei de uma generosidade ímpar! Porque a maioria das pessoas não quer nem pensar nisso, acha de mau tom, mau agouro. E na verdade, não falamos a respeito porque nos incomoda pensar na nossa própria morte. Só que para quem fica é um tremendo abacaxi, pelos motivos que estou enumerando e por muitos outros. E um abacaxi para ser descascado em um momento de fragilidade. Assim que foi muito lúcido e corajoso de sua parte se organizar com antecedência.

Acho que a naturalidade com que tratou sua futura morte para mim foi um exemplo. Desmistificou o evento e, o mais importante, o deixou presente em todos momentos. Seguros de estar fazendo o que foi pedido ou desejado. Ter um norte nessa hora é fundamental.

Minha parte era mais fácil, de certa maneira, não tinha a responsabilidade de fazer nada propriamente dito, mas aprendi bastante estando ali e tentando apoiar na medida do possível. Lição dura, mas impagável!

Nem tudo foi trabalho ou tristeza, procuramos estabelecer uma rotina com pequenas válvulas de escape. De dia, resolvendo os pepinos que precisassem e à noite tentávamos relaxar um pouco. Minha sogra dorme muito cedo, pelas 20h. Mas conosco em casa, ela ficava sem graça de se deitar. Então, quando chegava perto desse horário, a gente saía para dar uma volta a pé. Era bom para ela, que ficava à vontade para ir dormir e para gente que mudava um pouco de ambiente. Não era tão planejado, saíamos caminhando pelas calçadas da Urca, daí quando chegava perto do Belmonte, nos perguntávamos, bebemos o morto? Sentávamos, tomávamos uma cachacinha com ele e voltávamos. Nada em excesso, não queria me arriscar à bebida descer torta, mas o suficiente para deixar o peso mais leve.

Um pequeno grande detalhe é que em meio a tudo isso era o aniversário da minha mãe. Ela não estava com vontade de comemorar, por motivos óbvios e também porque imagino que estivesse constrangida por causa do Luiz. Pois já fui logo dizendo que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! A gente sempre acha que a vida deve ser celebrada. Contexto perfeito não existe, a gente tem que se ajustar. Luiz também não via nada demais e deu força. Então, agitei um barata voa de fazer um jantar no dia do aniversário dela, caiu numa terça-feira.

É lógico que não era um festão animado, ninguém é tão insensível assim, mas por que não um jantar mais especial com a família, certo? Para meus pais, não é sempre que estão os dois filhos juntos, apesar dos pesares, também tínhamos muito o que comemorar.

E assim foi, na terça-feira à tarde, me dividi com Luiz, ele ficou resolvendo papelada e fui para casa dos meus pais ajudar a cozinhar e preparar as coisas. À noite, Luiz se juntou a nós. Minha mãe fez um camarão no leite de côco, que é parecido a uma moqueca, preparei uma lagosta na manteiga de alho e uma bacalhoada. Adianto que ficou uma delícia, principalmente bem regado a espumante! Foi divertido, minha mãe fica engraçada depois de umas taças de prosecco, que ela adora.

Valeu e achei ótimo poder aproveitar uma coincidência triste da viagem de uma maneira positiva e alegre. Prefiro que, no futuro, a lembrança desse período siga sendo de um aniversário.

E já que estava falando em comida, minha sogra gosta muito do meu feijão, assim que aproveitei a mão e, na quarta-feira, fiz uma feijoada caprichada para gente. Sei lá, acho que tem um momento brazuca que a gente precisa do conforto que traz um arroz com feijão. Não é só o alimento, é a memória do conforto de casa. Pelo menos, comigo funcionam esses pequenos rituais, como sinais ou amuletos de que tudo está no seu lugar ou vai dar certo. Ok, sei que às vezes é um pouco viagem na maionese, mas o que importa é que o feijão ficou bom pacas! Minha sogra comeu dois pratos, o que para quem come como um passarinho, é um elogio astronômico. Minha cunhada estava conosco e foi ainda melhor compartilhar alguns minutos breves para esquecer que o mundo é louco.

Na quinta-feira, Luiz ainda conseguiu dar entrada nos últimos seguros pela manhã, eu fiquei para passear um pouco com minha sogra pelas calçadas da Urca. Minha mãe veio se despedir da gente e aproveitar para visitar minha sogra.

À tardinha fomos para o aeroporto. Saímos cedo, com medo de ficarmos parados pelos protestos contínuos que vinham acontecendo. Abro parênteses para dizer que esse capítulo das manifestações no Brasil, que começaram exatamente quando estávamos por lá, só nos encheram de orgulho. Em outro momento, falarei sobre isso.

A viagem de volta foi cansativa, turbulenta e longa. Cheguei exausta e com o corpo dolorido! Mas enfim, chegamos sãos e salvos e, no final, é só o que queremos.

Decifra-te ou devoram-te

Há um texto sobre um chapéu violeta que rola há algum tempo pela internet – atribuído a Mario Quintana, digo atribuído porque hoje em dia tenho dificuldade em saber o que é de verdade e também já li que não é dele – enfim, um texto simples, quase bobinho, e que acabou virando piada interna entre minha mãe e eu. Acredito que entre ela e as amigas também. Para quem tem curiosidade, o texto é o seguinte:

“3 anos: ela olha pra si mesma e vê uma rainha.
Aos 8 anos: ela olha pra si e vê cinderela.
Aos 15 anos: ela olha e vê uma freira horrorosa.
Aos 20 anos: ela olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, decide sair mas… Vai sofrendo…
Aos 30 : ela olha pra si mesma e vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, mas decide que agora não tem tempo pra consertar então vai sair assim mesmo…
Aos 40 : ela se olha…. Vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, mas diz: pelo menos eu sou uma boa pessoa… E sai mesmo assim…
Aos 50 anos: ela olha pra si mesma e se vê como é…sai e vai pra onde ela bem entender…
Aos 60 anos: ela se olha e lembra de todas as pessoas que não podem mais se olhar no espelho…sai de casa e conquista o mundo…
Aos 70 anos: ela olha pra si e vê sabedoria, risos, habilidades, sai para o mundo e aproveita a vida…
Aos 80 anos: ela não se incomoda mais em se olhar… Põe simplesmente um chapéu violeta e vai se divertir com o mundo…
Talvez devêssemos por aquele chapéu violeta mais cedo…”

Vejo o “chapéu violeta” como uma versão delicada e talvez mais madura do “botão do foda-se”. Assim que quando queremos dizer uma para outra que não se importe muito com o que vão pensar ou falar, perguntamos, e aí, já colocou o chapéu violeta?

Pois é, aviso que segui o conselho antes mesmo de ler o texto e coloquei meu chapéu bem mais cedo. Na verdade, o enterrei até as orelhas! E conto isso porque a história do tal chapéu permeou, de uma forma ou de outra, minhas últimas semanas.

Também aviso que o levo enterrado até as orelhas agora mesmo, assim que para os mais sensíveis, melhor parar a leitura por aqui, porque de agora em diante, posso ser bastante politicamente incorreta. Portanto, ou ponha também seu chapéu, ou tire as crianças da sala.

Há algumas semanas, meu sogro foi internado, mais uma vez, sua última vez. Ele faleceu na madrugada do dia 14 de junho, após passar pouco mais de um mês na UTI.

Por isso, há pouco mais de um mês, quando ainda não sabíamos quanto tudo duraria, Luiz foi às pressas ao Rio e passou por lá uma semana. Voltou porque não tinha férias e não havia nenhuma previsão de quanto tempo essa situação poderia levar.

Eu não fui. Luiz me parecia equilibrado e eu sabia que não havia nada que eu pudesse fazer para realmente ajudar ou mudar alguma coisa. Exerci minha praticidade, ou dependendo do ângulo de quem olhe, meu egoísmo, e me preservei. O custo emocional e, porque não dizer financeiro, de ir ao Brasil é alto. Também tenho dois pais que podem ter problemas a qualquer momento, aliás é o que a experiência tem me mostrado. Além do que, meu irmão pensa em se casar esse ano e, podendo escolher, prefiro ir ao Rio por um motivo feliz que por um triste, assim de simples.

Minha família teve um pouco de dificuldade em entender como eu não estava com meu marido em um momento assim, mas na nossa cabeça, estávamos juntos e ninguém tem data certa para morrer. Tanto não havia, que isso não aconteceu e Luiz precisou retornar a Londres.

Daí para frente, foram algumas semanas de angústia, porque meu sogro seguia internado e eu não tinha a menor esperança que ele fosse melhorar. Acho que nem Luiz, mas só posso falar por mim.

É uma situação complicada, porque você escuta a família e os amigos tentando manter a esperança, o que é normal. Assim que me sentia um pouco estranha porque enquanto muitos torciam ou rezavam, de acordo com suas crenças, para que ele se recuperasse, no fundo eu só conseguia pedir que ele se fosse logo e que parasse de sofrer. Na minha maneira de pensar, a morte e a vida são lados da mesma moeda, posso entender e suportar com dignidade ambos os lados. Mas tenho imensa dificuldade em aceitar o sofrimento.

O problema é que quando você não tem mais esperança, não tem mais briga, tudo se torna uma mórbida espera que a morte chegue. Já perdi outras pessoas ao longo da minha vida, mas foi a primeira vez que tive a experiência de esperar uma morte acontecer, de não querer brigar mais.

E é maluco porque o tempo não para e as coisas seguem acontecendo. É triste, mas tem horas que não, tem horas que você não pensa nisso, tem horas que você está feliz por outras coisas. E às vezes me perguntava se não deveria me sentir culpada por estar desfrutando em um momento onde outros não estavam. E ao mesmo tempo, vinha a pergunta retórica na cabeça, e não é sempre assim?

Talvez seja, mas ainda estou absorvendo e entendendo melhor essa experiência.

Até que recebemos uma ligação da médica, explicando que a coisa havia se complicado de verdade, que já não havia mais o que fazer, ele estava sedado e deveria ter um par de dias. Luiz sentiu que dessa vez estava realmente próximo e resolveu ir ao Rio.

Diferente da vez anterior, nessa achei que deveria ir junto. Luiz estava bem, mas tinha a impressão que dependendo do que encontrasse por lá, poderia resvalar. Eu mesma não ficaria tranquila sem saber exatamente o que estava acontecendo. Queria observar minha sogra de perto, meu pai também não anda muito bem, minha mãe muito mexida com tudo isso, enfim, tenho o maldito dom de sentir a proximidade da morte no olhar alheio e queria saber se ela seguia rondando o ambiente. Não seguia, não sei quando chegará, mas ainda não.

No aeroporto, Luiz me falou que ele mesmo entenderia se eu não quisesse ir, mas que achava que a cobrança social sobre mim seria grande se eu não fosse.

Achei curioso, porque talvez ele tivesse razão, mas a verdade é que o comentário me surpreendeu por completo, porque nem remotamente me havia passado pela cabeça que alguém pudesse me julgar mal por não ir. E mesmo ao pensar nisso, não me preocupava em absolutamente nada! Tudo que não queria era que Luiz estivesse sozinho, só isso. Depois ainda pensei que era um bom momento para estar com minha família e nada, mas absolutamente nada além disso.

Fiquei pensando a respeito durante a viagem, em quanto esforço na minha vida já fiz para estar segura de minhas decisões e bem com elas, quanto tempo para não me guiar pela opinião dos outros, até que finalmente não só coloquei meu chapéu violeta, como achei que combinava perfeitamente com minha pele. Quantas vezes ouvimos sobre a importância disso tudo e logo que alcançamos esse patamar, nos jogam contraditoriamente a culpa por sermos exatamente assim. Mas enfim, não tenho ideia se me julgariam ou não, porque, nesse caso, tampouco me importaria. Francamente, acho que meus amigos e minha família são melhores pessoas e por isso também me sinto protegida.

Entretanto, de alguma forma liguei meu alerta, talvez a mim não afetasse, mas à minha sogra sim, ao meu marido sim. E queria que eles tivessem a certeza que não estaria julgando a forma de suas reações ou emoções, não me cabe esse papel e não é minha natureza. Aprendi cedo que o mórbido as pessoas entendem com muita facilidade, o diferente não. Desse mal estou vacinada, mas não sabia o quanto eles estavam e o quanto a situação os haveria deixado vulneráveis.

A viagem não foi das mais tranquilas, fui pelos motivos que já expliquei, mas não estava com um pingo de vontade de ir. Adoraria ter uma desculpa razoável para mim mesma e fugir, essa é a verdade. No coração, um mantra ateísta com ares de oração, afasta de mim esse cálice… afasta de mim esse cálice…

Chegamos no Rio por volta dàs 22h, no mesmo dia em que meu sogro havia falecido na madrugada. Recebemos a notícia pouco antes de sair para o aeroporto. Meus pais foram nos buscar, sabiam que estaria mais na outra casa e seria uma oportunidade para a gente se ver um pouco. Gostei muito, porque estaria preocupada no dia seguinte se não conseguisse um tempo para vê-los, minha prioridade era atender minha sogra e meu marido, mas seguia tendo pai e mãe e isso é um pouco difícil de dividir, assim me sentia mais tranquila.

Não vou negar que tive o pensamento egoísta e inapropriado de que bom ainda não era meu próprio pai. E desejei que eles nunca precisassem ficar internados ou com dor, que o dia que se forem seja o mais rápido e indolor possível. Outra vez, pedi que me afastassem o cálice.

Finalmente, encontramos minha sogra e o que vou dizer pode parecer muito estranho, assim que tomarei um tempo em seguida para explicar. Achei que ela estava arrasada e feliz.

Há muitos anos, nem conhecia Luiz (antes que perguntem), terminei um noivado. O dia que tomei essa decisão foi o mais difícil da minha vida até então, tinha apenas 19 anos e por mais que acreditasse na época que estava pronta para comer o mundo, era uma garota. Literalmente, fugi para a biblioteca da faculdade e me escondi por lá enquanto pensava como contaria isso para minha família, e o pior, como falaria isso para ele. Eu me sentia completamente arrasada, destruída, perdida, assustada, culpada e mais 25 adjetivos nessa linha. Chegou um amigo que me conhecia razoavelmente bem, olhou para mim e perguntou sorrindo: nossa, você está feliz? Está radiante!

Levei um tempo para entender que a leitura da minha expressão pelo meu amigo, que me soava como um completo absurdo, era verdade. Não era a única verdade, mas era verdade também. Estava devastadoramente triste com a situação, mas feliz porque estava livre.

Foi exatamente essa expressão a primeira coisa que reconheci na minha sogra e agradeci por isso, foi um momento, mas me deu esperança. Duvido muito que ela tenha consciência disso e talvez seja até doloroso para ela ter essa consciência. Foi só minha leitura, não foi o que ela disse, é só minha opinião. Assim como é apenas minha opinião o que narro agora.

Minha sogra é uma lady, agradável, correta e mil qualidades que posso enumerar sem nenhuma demagogia. Mas às vezes, me passava essa sensação dela ser mais o que esperavam que ela fosse, do que o que ela mesma queria ser. Até o ponto que isso se confundia de tal maneira, que tenho sinceras dúvidas se ela sabe mesmo o que ela quer de verdade, lá no fundo da alma. Acho que ela foi controlada por toda a vida e agora se sente perdida, mas livre.

Não sabemos exatamente como ela reagirá daqui para frente. Pessoalmente, acho que ela tem dois caminhos extremos, em um ela se entrega em outro ela se salva. Meus sogros viviam um para outro, o que tem um lado muito bonito, mas que deixa confuso quem era quem, pareciam uma pessoa só. Não sei quem são as amigas da minha sogra, que lugares ela gostaria de ir, que viagens ela gostaria de fazer… não sei as motivações que ela tem para seguir vivendo. Mas sei que agora ela tem a chance de ser quem ela quiser. E a pergunta é se ela terá coragem, conseguirá se reconstruir?

Para mim, nesse momento, ela é um enigma, a vejo como uma esfinge antropofágica com um ultimato, decifro-me ou devoro-me. Sou otimista, dentro de sua aparente vulnerabilidade, vejo uma força que não sei se ela mesma tem consciência que possui.

Mas seguindo, no domingo foi o velório, meu sogro elegeu ser cremado. Essa também é minha opção e do Luiz.

Essa parte foi mais leve do que me preparei. Acho que nesse momento o corpo é só um corpo, não significa nada. O mais importante é a possibilidade de encontrar gente querida, alguns que não se veem há anos. Um ritual de passagem para as pessoas se despedirem, prestarem uma homenagem, demonstrarem apoio e principalmente, valorizarem as próprias vidas. Portanto, velórios não me assustam.

Cada pessoa reage às situações à sua maneira, a minha defesa é quase sempre o humor. É praticamente a última coisa que perco, mesmo nos momentos mais duros. Pois é, eu sou das loucas que fica doida para fazer piada em velório.

Luiz e eu fomos os primeiros a chegar, para receber o corpo e esperar as pessoas. O velório foi de 12h às 18h e achamos que era muito tempo para minha sogra ficar. Assim que ela só foi por volta dàs 14h.

Aliás, ela aguentou firme até o final, com mais energia do que imaginávamos. Muito aérea, como se estivesse sonhando, como se não estivesse ali. Ela já não consegue chorar. E se preocupa muito com isso. Acho que ela pensa que os outros vão pensar que ela não está sentindo tristeza o suficiente pela falta de lágrimas, a velha história dos julgamentos alheios. Tentamos deixá-la tranquila em relação a isso, como acabei de dizer, as pessoas reagem de forma diferente à dor e ninguém que fosse besta de julgá-la mal. Mas acho que isso não aconteceu.

Enfim, enquanto esperávamos sozinhos, já em frente ao corpo, fizemos nossos juramentos e pedidos pessoais. Não queremos caixão aberto, não queremos ninguém olhando para gente e sofrendo. Eu mesma evito ao máximo olhar alguém querido morto. Não por me impressionar, mas porque a última memória que temos é sempre a mais presente, e não quero me lembrar das pessoas mortas, quero me lembrar delas bem, sorrindo, felizes.

Aviso logo que quero uma festa no meu velório! Sabe aqueles velórios americanos cheios de comida? Eu quero assim, um velório gastronômico! Luiz disse que quer o dele num bar, para beberem o morto. Pois já prometi que beberei seu peso em cachaça!

Nisso entrou na sala uma freira doidinha! Era simpática e falava sem parar! Buscava consolo em palavras religiosas que nem para mim nem para Luiz faziam o menor sentido, mas concordávamos porque era mais fácil. O que gostei é que ela era alto astral. Mesmo dentro daquele ambiente, ela puxava (e emendava) os assuntos mais diversos. Ela voltaria no final da tarde para fazer uma prece, algo que aliviasse as pessoas presentes. Independente das nossas crenças, achamos que pelo menos para a velha-guarda seria importante.

Quando ela saiu, virei para Luiz, você sabe que essa é a maluquinha do cemitério, né? Ela fugiu do manicômio, se veste assim de freira e fica passeando pelos velórios… você acreditou que ela vai voltar aqui para essa prece?

Adianto que mais tarde, a freira maluquinha voltaria e faria a tal prece ecumênica, que apesar do meu ateísmo, gostei muito. Achei que foi um alívio para a família, uma oportunidade de amigos se pronunciarem, enfim, uma homenagem bacana que fez o encerramento necessário. Afinal, quem sabe o que dizer nessas horas? Mas isso foi só no final do dia.

Durante as seis horas que ficamos ali, houve momentos tristes, divertidos, bizarros… acho que deve ser sempre assim. Para mim, era difícil ver meu sobrinho chorar, os filhos sofrerem, cada um à sua maneira, e minha sogra parecendo uma zumbi, ainda que altiva em sua desorientação.

Aprendi todo um glossário de doenças! Por que gente mais velha quer te contar todas as dores e doenças que tem nos mínimos detalhes? Eu sei pormenores da próstata de totais desconhecidos! Intimidades que me faziam perguntar se eu estava ouvindo aquilo mesmo!

Fora o pessoal que, para consolar, resolve te contar desgraças impensáveis, acho que para parecer que sua dor é menor, sei lá! Eu realmente acredito que essas pessoas pensem que estão ajudando, só que não. Quando falavam comigo, tudo bem, fazia parte das minhas atribuições deixar o povo desabafar, mas contavam aqueles absurdos para minha sogra!

Pessoalmente, desenvolvi a capacidade de fazer aquele sorriso de padre, dizendo sim com a cabeça, como quem diz, claro, concordo, entendo… e pensava, Bianca, aprende rápido o que não fazer quando você ficar velha, pelamordedeus!

Ao mesmo tempo, foi bacana irem amigos nossos apoiar Luiz, acho que fez diferença e deu força a ele. Mesmo os não presentes, ou por mensagens, ou por telefone, ou pela forma que fosse, de alguma maneira enviaram suas boas energias e seguramente isso ajudou a passar por esse momento.

Não era meu sangue, não era meu pai, mas há anos isso já não me faz diferença. O que toca os meus, toca a mim. E tentei, dentro das minhas possibilidades também ser útil naquela situação. Ver no que eu poderia apoiar.

O que me ocorreu foi ajudar a receber as pessoas, afinal, modéstia às favas, isso eu sei fazer. Porque chega todo mundo meio perdido ou sem saber o que falar. E não há muito mesmo o que dizer, é uma merda, sejamos francos! A gente sabe que é duro, mas a gente também sabe que um dia vai doer menos.

Então, quando chegava gente e a família estava ocupada ou cansada, eu ia, me apresentava: eu sou a nora!

Abro um parênteses para contar que em meu casamento, apareço no vídeo explicando para a falecida avó do Luiz, a essas alturas já um pouco maluquinha: eu sou a noiva! E me lembrava disso a cada vez que repetia, eu sou a nora!

Entre nós, vinha em meu pensamento, Bianca, não vai se confundir e dizer: eu sou a noiva! E daí, logo mil piadinhas povoaram minha cabeça, como perguntar: você veio para o casamento?

Mas segurei minha onda, não sei se iriam entender. Fiz uma ou outra brincadeira com Luiz ou com amigos muito próximos. Ainda que tenha certeza absoluta que meu sogro entenderia, ou faria parecido, provavelmente bem melhor, afinal teria os anos que lhe davam a autoridade legítima para tal.

Meu sogro tinha um humor ácido inteligente do qual eu gostava muito. Sempre conto uma história de quando comecei a namorar o Luiz. Fomos uma vez para Teresópolis, com meus sogros, e logo pela manhã ele veio me perguntar: minha filha, onde almoçamos hoje? E eu, começando o namoro, ainda meio sem graça, respondo toda educada, que onde eles quisessem… Ele me diz sério, não, minha filha, veja bem, vou te explicar, minha mulher manda em mim… meu filho manda na minha mulher… e você manda no meu filho… assim que resolvi encurtar todo esse processo e vim direto na fonte, então, onde nós vamos almoçar?

E é assim que lembro dele, debochado, irônico e inteligente. Se podia notar pelo concorrido funeral que era querido e respeitado, correto. E acho que é disso que se tratava esse ritual, lembrar à família que o final é duro, mas é só um pedaço de toda uma vida cuidadosamente construída e bem vivida. Entre acertos e erros, afinal somos humanos, minha conclusão pelos olhos de quem vi, é que ele foi um homem bom. E isso é muita coisa!

Quanto à minha sogra, não sei que caminho tomará. E sinceramente digo que só quero que ela seja feliz. Não sei se será capaz de se reconstruir, de chorar, de assumir o que quer, de buscar novos sonhos ou de fazer planos, e vamos combinar que depois dos 80 anos isso não é de todo simples. Da minha parte, digo que tem meu total apoio, que mais do que sua lucidez ou de sua irrepreensível educação, tudo que desejo a ela é que, finalmente, ponha seu chapéu violeta.

Será que a primavera finalmente achou o caminho?

Não é que o último par de dias estejam bonitos, é que estão irreclamáveis! Sol, céu claro, sem chuva e brisa fresca! Dá até medo de elogiar!

Ontem, consegui voltar a malhar, sem sentir dor no tornozelo, o que é um alívio! Endorfina na veia é mais que bem vinda. E para completar, Luiz ainda conseguiu chegar cedo e se animou a caminhar pelas redondezas. Convite que, inclusive, partiu dele! Eu, por mim, caminharia todos os dias quando ele chegasse do trabalho, mas nem sempre isso é tão simples, ele chega cansado e tal. Pois ontem, acho que ele estava afim de uma rua, então, bora para rua, ?

Aliás, isso é interessante, por não serem tão comuns, os dias bonitos aqui são celebrados a peso de ouro. O parque vizinho à nossa casa e, provavelmente os outros espalhados pela cidade, ficam abarrotados de gente espalhada pela grama, tomando sol, praticando algum esporte, brincando, batendo papo… é realmente algo que afeta o astral geral das pessoas.

Depois de passear pelo parque, lembrei que há algum tempo havia visto um pub que achei bonitinho e meio escondido, próximo a Little Venice, The Warwick Castle. Fomos conhecê-lo. O local tem seu charme, não nego, mas achamos o serviço médio. Valeu pelo passeio à pé até lá e por ter mais uma opção, mas seguimos fiéis ao nosso “local pub”, o bom e velho Warrington.

Resultado, ótima noite de sono! Acho que sou igual a cachorro ativo, preciso ir para rua gastar energia ou destruo a casa!

De qualquer maneira, melhor não abusar do tornozelo, está muito melhor, mas ainda me manda alguns sinais no estilo, estou aqui, hein? Vacila não que eu volto a doer… Então, vamos pouco a pouco.

Hoje, Luiz ia tentar sair mais cedo outra vez, espero que dê certo e ele pegue o gosto.

Enquanto isso, na sala de justiça, estou algo viciada na história real inglesa. Acabo de devorar a série “The Tudors”, que ok, é um pouco romanceada, mas até que ensina algumas coisas. Estou lendo sobre a vida da Rainha Elizabeth I, de quem fiquei fã. Sem falar que vira e mexe, me pego na internet, pela wikipedia da vida, tentando entender quem é filho de quem, quem matou quem, quem estava em guerra com quem… é uma zorra! Qualquer hora faço uma planilha! Devo haver estudado isso em algum momento na escola, mas francamente, não lembro. E estar no local onde as coisas aconteceram é muito mais estimulante.

E falando nisso, enquanto Luiz não chega, deixa eu voltar para meu livro e “cotillar” um pouco mais a vida da Elizabeth!

Burger & Lobster

Restaurante explicado no próprio nome, o Burger & Lobster serve hambúrguer e lagosta, assim de simples e assim de delicioso.

No momento, são quatro restaurantes em Londres (Mayfair, Soho, Farringdon e City) e não costumam aceitar reservas. Alguns deles aceitam para mesas com mais de 6 ou 8 pessoas.

Assim que, no final de semana, se você for aos mais badalados, como Mayfair e Soho, pode haver espera de duas horas na fila, coisa que não tenho paciência. Entretanto, nós fomos no da City, que no sábado à noite estava agradável.

Os hambúrgueres pareciam bastante apetitosos, mas não saberia opinar, porque toda nossa mesa optou pela lagosta. Comi uma belíssima lagosta grelhada, salada verde e uma batata frita fininha e crocante. Tudo por $20, o preço é fixo. Você pode eleger os molhos (eu escolhi manteiga e limão) e se a lagosta é cozida, grelhada ou em um sanduíche.

burger-and-lobster-farringdon-L-IcuevF

tumblr_mcv6uc6s0Z1r3pwino1_500

6803063951_7f0b65c197

O atendimento é simpático. O lugar é charmoso e despojado, com um grande balcão, além das mesas. E o principal, a comida é boa por um preço para lá de razoável, pelo menos aos padrões britânicos.

Voltaremos, com certeza!

Faz de conta que não viu e pula para a próxima

Ando de mal com minha terapia favorita. Algumas vezes, ensaiei escrever, mas no fundo, não gostava do que ia contar. Então, voltava ao silêncio escrito até esse ciclo passar. Essa é daquelas histórias que torço para ninguém ler.

Nenhum fato específico, nenhum problema com a cidade, simplesmente, uma fase meio depressiva. Dessas ondas negativas que nos atravessam e não há o que fazer a não ser esperar a maré baixar.

Difícil dizer como começou, mas desconfio que é porque a cada mudança fica inevitável pensar se voltaria a morar no Brasil. Nem tanto por mim, mas por ser uma pergunta comum que temos que responder quase diariamente à família, aos amigos e às vezes a desconhecidos: vocês ficam até quando? Vocês tem planos de voltar ao Brasil?

Não tenho a menor ideia! Primeiro porque acho que não “voltaríamos”, talvez “fôssemos” para o Brasil, mas não vou discutir o verbo nem o conceito agora mesmo. Porque o que me importa é que me perguntei muito intimamente: e eu quero morar no Brasil?

Não, a menor sombra de vontade. E fico até com um pouco de vergonha em assumir isso para mim mesma.

Queria que minha família morasse mais próximo e poder ir mais vezes encontrar os amigos, mas não tenho a menor vontade de viver no Brasil na situação atual. E não vejo uma perspectiva de melhora. Acho bacana ler na imprensa sobre esse país que está “bombando”, mas francamente, não reconheço o que eles falam.

Vejo amigos discutindo o óbvio de forma absurda, muitas vezes de maneira agressiva; ou a total indiferença e falta de consciência da seriedade dos fatos. Ou talvez o que considere pior, a impunidade absoluta, o que, na minha opinião, é o que mina o ânimo e qualquer possibilidade de mudança positiva. Essa sensação generalizada de que nada adianta e a desculpa fácil do sempre-foi-assim. O sempre-foi-assim é cruel! Ele encerra discussões que poderiam ser proveitosas, ele pisoteia qualquer esperança, ele é covarde.

Não, nem tudo sempre foi assim e, entre o tudo e o nada, há infinitas matizes.

E, de repente, tenho aquela sensação de alívio de não precisar estar ali, de ter opção. Aqui não é perfeito, mas é melhor, minha qualidade de vida é melhor, dentro do que pode ser. Eu já não sou de lugar nenhum mesmo, nem sei porque essa tecla me bate de tempos em tempos. Mania de camelo, não consigo digerir essa porcaria de uma vez! Vou repensar minha identidade até quantos anos?

Daí, uma pergunta gera outra. E lá volto eu a pensar na questão da maternidade. Andei sondando os processos adotivos por essas bandas. Não parecem tão complicados como no Brasil. Não sei para a gente, por sermos estrangeiros, mas a ideia começou a me animar. O problema é que o ânimo é só meu, a vontade é só minha e tem uma hora que isso realmente cansa.

De qualquer jeito, por algum motivo maluco, acho que o fato de começar a revirar esse universo na minha cabeça, afetou o corpo e tive a sensação de estar ovulando. Depois do tratamento, eu noto alguns detalhes que não percebia antes. Eu já deveria ter aprendido a lidar com isso, a aceitar que já foi, mas às vezes a gente não controla os instintos mais básicos.

Cheguei em casa empolgada com a ideia, ainda não tinha comentado com Luiz, nem tenho certeza porque. Acho que é um assunto que está virando tabu entre nós, ou talvez sempre tenha sido. Antes disso, recebi um presente.

Uma amiga está compondo músicas personalizadas para você presentear alguém. Há algum tempo, comecei a escrever letras de músicas para quem quisesse musicar, Luiz combinou com ela secretamente dela musicar uma de minhas letras. E a eleita foi exatamente uma letra de desabafo, que escrevi quando perdi a gravidez. Por algum motivo que desconheço, eu deveria ficar feliz em receber uma canção sobre meu aborto. Um dia perfeito para recebê-la.

Cansei. Meta alcançada. Da minha parte não sairá nenhuma iniciativa mais sobre esse tema. Assunto encerrado.

Mas acho que foi pouco, então vamos complicar. Fui para academia com toda essa energia deliciosa para queimar. Corri mais rápido e mais forte do que estava preparada. Não sei se pisei errado, se torci o pé sem sentir, se a musculatura era fraca para tanto… resultado, lesão no tornozelo. Uma bobagem, que achei que estaria boa no dia seguinte. Insisti em treinar, mas a coisa estava ficando preta para meu lado, melhor parar de resistir.

Fiquei completamente de molho por duas semanas, sem sair de casa e com o tempo cinza. Depressão na certa! Comecei a trocar o dia pela noite e meu sono voltou a ser uma bosta!

É pouco ainda? Vamos complicar mais um pouquinho, meu sogro internou no Rio em uma situação muito delicada. Luiz teve que ir às pressas ao Brasil, achei que não daria tempo dele chegar, ficou o que pôde, mas o quadro é difícil e sem nenhuma previsão que o pai saia do hospital. Ele está internado há umas três ou quatro semanas e a situação segue sendo bastante crítica, apesar de algumas melhoras.

Por dura que seja essa situação, de certa forma, fez que nossas energias se concentrassem nisso e sempre é uma maneira de colocar os problemas em perspectiva. A saúde é o principal, o resto se resolve. A vida pode passar muito rápido, preciso fazer alguma coisa de bom com ela.

Meu pé vai melhorando, já comecei a fazer alguns exercícios leves e o principal, voltei a ir para a rua. Esse negócio de virar ostra não ajuda em nada. Meu sono ainda vai bem desregulado, acho que só vai equilibrar quando voltar a malhar mais pesado.

Ainda não sei o que vou fazer da vida por essas bandas. Estava animando a fazer um curso de gastronomia. O que estava interessada começava justo quando machuquei o tornozelo, sei lá, às vezes parece o universo conspirando! A verdade é que estou sem grandes vontades de nada. Aquela sensação de que o bonde partiu, não peguei, me ferrei! E a cada vez que alguém me pergunta no que estou trabalhando por aqui, me dá uma preguiça enorme em responder. Como contar o que quero fazer, se no fundo já nem sei o que quero mesmo. E pior, quando respondo, vem logo um monte de sugestões super interessantes, que a pessoa que sugere jamais faria, esquema, pimenta nos olhos dos outros. Tem sempre alguém que fez não sei o que e foi um sucesso… Tudo na melhor das intenções, mas que preguiça! Preciso pensar em alguma resposta padrão que não queira dizer absolutamente nada, mas que não pareça mal educada.

Enfim, aos poucos, a nuvenzinha negra vai se dispersando. A última semana foi bastante boa. Coincidiu de vários amigos de diferentes procedências darem o ar da graça por terras britânicas. Assim que entre jantares, encontros e hóspede, foram dias divertidos e agradáveis. Meu tornozelo se comportou e até consegui dançar um pouco.

Hoje amanheceu uma segunda-feira de sol e resolvi fazer as pazes com a escrita. Quem sabe agora os problemas sejam das letras na tela e me baixe novas ideias e novo ânimo.

Como comprar ingressos para shows em Londres?

Pergunta bastante razoável quando você mora ou vem a passeio a uma das principais cidades do mundo, incluída com certeza nas turnês de grandes bandas. Goste ou não goste de Londres, aqui é uma meca cultural inegável!

Tenho uma amiga super gente boa, que conheci quando ainda morava em Madri e mudou-se para Londres antes de nós. Ela tem um blog que adoro e acompanho há um bom tempo, o Segredos de Londres. Como nós duas agora moramos e escrevemos sobre a mesma cidade e, às vezes, estamos presentes nos mesmos eventos, resolvemos fazer uma parceria blogueira e, de vez em quando, dou um pitaco por lá e ela por aqui. Essa semana, a Deborah escreveu um post exatamente com esse título e assunto: Como comprar ingressos para shows em Londres.

Pois bem, eu poderia estar roubando… eu poderia estar matando… eu poderia estar reinventando a roda… mas simplesmente inauguro por aqui nossa parceria e recomendo seu texto que conta tudo e começa assim:

“Muita gente me pergunta como se faz para comprar ingressos de shows aqui. Assistir um show do seu ídolo em Londres é um sonho realizável; o complicado é que os ingressos em geral acabam rapidamente, logo que a venda começa. E quando você finalmente confirma as datas da viagem e vai checar a turnê da sua banda preferida, percebe que o show já esta esgotado meses antes do show…”

Quer saber mais? Dá uma passadinha aqui. Aproveita, diz que mandei um beijo 😉

Onde tomar um autêntico chá inglês em Londres

Em muito pouco tempo morando por essas bandas, adquiri o excelente vício de tomar chá. No início era uma mistura de curiosidade com facilidade e diferentes ofertas, mas não demorou nada a entrar na minha rotina.

Porém, ainda não havia tido tempo de sair para tomar um chá da tarde que se preze, daqueles autênticos, com pequenos sanduíches, doces e sendo servido em jogos de porcelana fina.

Gosto desses chás da tarde desde pequena. Minha mãe, de vez em quando, marcava com suas amigas e era o típico “programa de gente mais velha” que nunca me importei em fazer. Na verdade, ficava doida para participar!

Enfim, agora morando em Londres, como poderia perder essa oportunidade?

Por completo acaso, acabei conhecendo uma leitora do blog que estava de passagem pela cidade. Ela se interessou em tomar o tal chá e pensei: perfeito, ainda terei companhia! Aliás, ótima companhia!

Marquei no Salão de Chá da Fortnun & Mason. Fica no quarto andar dessa tradicional loja de departamentos e é um espaço bastante elegante. Antes era ocupado pelo restaurante St. James, foi totalmente reformado e inaugurado, em 2012, pela própria rainha, como The Diamond Jubilee Tea Salon. É recomendável fazer reserva, principalmente, se for próximo às 17h.

article-2108587-11FC8AFE000005DC-214_964x624

Muito bem, você chega a uma recepção ampla, de madeira clara, com um belíssimo piano de cauda ao fundo, que a propósito, é tocado por toda à tarde. Ali guardam seus casacos, se for necessário, e te encaminham à sua mesa.

cha3

A decoração do salão é relaxante, em tom de azul turquesa suave, que é a cor da loja. Talheres de prata e flores naturais. Contando pode parecer meio pedante, mas a verdade é que tudo flui naturalmente, com certa classe, mas sem grandes afetações.

photo

DSCN7659

Sugiro uma taça de champagne ou espumante da casa para iniciar os trabalhos, e enquanto isso, você pode se decidir entre os três menus de chás disponíveis.

cha2

Escolhi o que me pareceu mais tradicional, o Fortnum’s Afternoon Tea, que consiste em sanduichinhos de pepino com menta, frango, cordeiro, ovos com mostarda e salmão defumado; seguido pelos “scones” com manteiga ou geleia; docinhos variados; tortas diversas e, o principal: o chá, que possui cardápio à parte. O custo desse menu completo gira em torno de £40. Não acho barato, mas considerando o que oferece, o serviço, o local e a cidade, não há milagre.

cha1

Tudo muito gostoso, garçons e garçonetes educados, bem arrumados e discretos, assim que, fora a culpa por relaxar na dieta, nada a reclamar! Admito que um bom papo também ajuda muito. O fato é que voltei para casa feliz, finalmente, desde que habito em terras britânicas, tomei um autêntico chá inglês com tudo de direito!

Lovely!

Fim de semana de pedras, sol e bom choro

Admito que a semana não foi a mais tranquila de todas. Meu sogro internou outra vez e isso, por motivos óbvios, não deixa o clima da casa dos mais alegres. Hoje em dia, lidamos melhor com esse tipo de situação, o que não sei se é bom ou mau, mas quando não há alternativa, o jeito é se acostumar.

Mais para o final da semana, as coisas pareceram clarear um pouco. Ao menos, foram essas notícias que tive da minha família, porque do Luiz, tenho que arrancar as informações a fórceps!

Tinha o plano malévolo de viajar para algum lugar próximo nessa sexta-feira, mas com o decorrer dos fatos, a gente desistiu da ideia. Além do mais, o dia de trabalho do Luiz da sexta foi razoavelmente tenso e longo. Muito bem, sem problemas, ficamos em casa e faço alguma coisa para relaxar.

Chamamos um amigo que acabou dormindo por aqui e ficamos tomando vinho e comendo bobagens até às tantas! Essas sextas são engraçadas, porque a gente enche a lata, planeja mil viagens, sempre começando por ir a Bruxelas em um restaurante português, e no dia seguinte a gente pensa melhor e conclui que não é um plano tão bom assim.

Após cinco garrafas de vinho, resolvemos que o melhor lugar para ir no sábado seria Stonehenge, com esse nosso amigo que dormiu em casa e dirige.

Acordamos meio tortos, mas fazia sol. Em muito pouco tempo morando em Londres, aprendi que quando faz sol você vai para rua, não importa em que condições esteja! Está em coma? Acorda! Se vira! Dias bonitos são artigo de luxo, principalmente após um longo inverno!

Ok, levantamos razoavelmente cedo e, salvo as devidas proporções, até muito bem. Verdade que só consegui tomar um suco de laranja e não podia ouvir a palavra “vinho” sem fazer careta. Mas beleza, fazia sol, lembra? Então: rua!

Pegamos um trânsito do caramba, mas nem reclamo, porque aproveitei para ir conhecendo melhor a cidade, ainda há muito de novidade e como não era eu quem dirigia, não me incomodou.

Pouco antes de chegar a Stonehenge, me bateu ataque de fome, afinal, estava praticamente em jejum, desejando algo gorduroso e bastante água. Avisei aos meninos que precisava comer e Luiz, que sabe o risco de vida que implica em me deixar com fome, apressou nosso amigo a fazer uma parada estratégica.

Encontramos um pub-restaurante bem bonitinho e caseiro, Popular Farm. Comemos bem, me hidratei e seguimos viagem, com uma preguiça daquelas!

Chegamos a Stonehenge e era um pouco diferente da minha expectativa. Porque não fica em um campo isolado de tudo, ou melhor, até fica, mas passa uma estrada bem ao seu lado. Também cercaram em volta e os turistas já não podem circular por entre as pedras. O que tem seu lado positivo, nas fotos você ainda consegue bons ângulos sem ninguém estranho no meio da sua composição.

Stonehenge3

Stonehenge4

Stonehenge

Luiz tinha uma ligação de trabalho bem na hora que chegamos. Ficou no carro trabalhando enquanto fui com nosso amigo visitar o local.

Estava cheio, mas não tumultuado. Tinha uma maluquinha com jeito de bruxa, descalça e cantando para as pedras. Até que tinha uma voz bonita, mas não puxei conversa para não atrapalhar seu transe. Depois vi que estava com uma amiga ao lado, também descalça, de olhos fechados, mas essa não cantava, só se balançava para um lado e para outro ao som da primeira!

Meu amigo reclamava que elas nem ofereceram o que tomaram para a gente! Mas devia ser muito bom…

Também havia um homem com uma fantasia que não sei se era de bruxo, peregrino, antepassado ou sei lá o que! Mas acho que ficava ali para tirar fotos com os turistas. Esse estava doido por um papo, porém não me arrisquei porque não sabia se ia me cobrar por isso.

Quando terminamos o passeio e retornamos ao carro, Luiz conseguiu se liberar do trabalho e voltamos, agora mais rápido, para ele também visitar e tirar aquela foto clássica do “estive aqui”.

Stonehenge2

Já devia ser umas 17h e tínhamos que estar em um concerto de chorinho às 18h30. Nem passamos em casa, fomos direto. Sabe como é, em Londres, às 23h quase todos viram abóbora! Assim que não iria até tão tarde, mas pelo menos começava cedo.

Sou meio desligada e só me toquei que esse concerto era em uma igreja quase chegando lá. Eu gosto de ouvir música em igrejas, a acústica costuma ser excelente, mas até então, só havia escutado música clássica, fiquei na dúvida se uma roda de choro combinaria com o local ou ficaria muito formal. Além do mais, acho que seria interessante comer e beber alguma coisa durante o show e não sabia se poderiam vender nada na igreja.

Pois adianto que foi muito legal! Fizeram literalmente uma roda de choro, com a informalidade e democracia necessárias! Aproveitaram a data, aniversário do Pixinguinha, para homenageá-lo. Músicos de primeira! Acabei reconhecendo um deles, que outro amigo músico de Madri havia me apresentado virtualmente. Sim, o mundo segue pequeno!

choro

choro2

Estavam vendendo comida, coxinha, mandioca frita, feijoada tradicional e feijoada vegetariana. Inclusive, o chef de cozinha, dava sua palhinha de vez em quando na roda. Também serviram bebidas, refrigerantes, vinho, cerveja, pena que não tinha caipirinha, porque deu vontade. Não vi ninguém exagerando, mas achei bom haver essa liberdade, considerando que estávamos em uma igreja.

A verdade é que me senti bastante à vontade. Estávamos com um grupo de amigos legais, conheci outras pessoas por lá, boa música rolando, até deu para sambar um pouquinho.

Esse grupo, Clube do Choro UK, se reúne com frequência e fiquei freguesa! O próximo encontro será dia 25 de maio, em St. Mary’s Church. Vou levar meu caxixi e quem sabe tomo coragem para entrar na roda.

De lá, voltamos para casa e na hora da Cinderela eu já estava apagada!

Bom que no domingo não acordamos tarde e, advinha? Sol outra vez! Ou seja, rua de qualquer jeito!

Uma amiga ficou de ligar para ir a um picnic, mas não tínhamos certeza, achei que não ia rolar. Então, decidimos passear por Little Venice. Colocar as manguinhas de fora e queimar o musgo!

Fomos só Luiz e eu e também estou gostando muito de descobrir os lugares com ele. Sou um animal social, mas curto alguns momentos de privacidade. Caminhamos pelo canal e almoçamos com calma no The Waterway. Voltamos para casa quando o sol se foi e a temperatura caiu bem rápido. Nada desesperador, mas estávamos muito frescos.

Segunda-feira, baterias carregadas e pronta para encarar a semana!

Little Venice, um pedacinho de Veneza em Londres

Perto da minha casa há uma região de canais chamada de Little Venice, em português, pequena Veneza. Na verdade, me parece muito mais aos canais de Amsterdam, mas não vamos discutir por causa disso. O fato é que é uma zona bastante charmosa e acessível.

14

No inverno, fica meio sem graça, mas agora que a primavera parece haver se decidido, acho um programa muito agradável. O lugar é razoavelmente conhecido, em dias de sol é movimentado. Entretanto nunca vi abarrotado de gente, imagino que por não ser tão central nem próximo às atrações turísticas mais famosas. Enfim, às vezes, passeio por lá e tenho essa sensação que é mais frequentado pelo pessoal local que por turistas.

A estação de metrô mais próxima é a “Warwick Avenue”. Inclusive, na saída dessa estação, você pode alugar bicicletas públicas. Eu prefiro caminhar.

Ao largo de todo o canal, se encontram barcos compridos e finos, não tão grandes e alguns bastante curiosos. Há pessoas morando nesses barcos, me lembra muito um acampamento de trailers, só que na água.

LittleVenice3

Além dos barcos que funcionam como residências, também é possível tomar um café ou assistir a um show de fantoches.

O café-barco é bem bonitinho, mas entre nós, fiquei meio encanada em relação à higiene. Não que tenha visto nada de errado, mas fico pensando de onde viria a água para lavar a louça e cozinhar. Sei lá, nunca ouvi sobre nenhum problema a respeito, mas não me arrisquei, quem sabe algum dia desses eu reveja essa posição.

7

Até porque, há algumas opções de restaurantes, bares e cafés pelas margens do canal bastante interessantes. Ainda não experimentei todas, mas dou as dicas das que me pareceram melhores.

O primeiro que conheci foi o Café Laville. Do lado de fora ele não chama muita atenção, salvo por sua localização. Mas por dentro é uma graça e recomendo para tomar um café ou chá, principalmente se o dia estiver agradável e puder se sentar do lado de fora. Muita gente vai tomar brunch por lá nos fins de semana. O atendimento é educado, mas para meu gosto, a comida não impressiona. Vale pelo local e ambiente.

LittleVenice1

Uma outra opção, para lá de charmosa é o restaurante The Summerhouse. Fica exatamente no nível da água, com grandes janelas, de onde você tem a sensação de estar dentro de barco. A decoração me sugere um lugar de praia, é informal com seu toque de elegância. O atendimento é muito bom; a comida honesta e bem cuidada, foi o próprio chef quem veio saber nossos pedidos. A cozinha é aberta para o salão e às vezes pode passar um pouco cheiro de fritura. Ainda assim, acho muito recomendável e o ‘best ever’ popcorn shrimp merece ser provado.

1

Próximo a ele, há outro bar e restaurante que achei bem bacana, The Waterway. Esse tem um bom espaço para mesas na varanda, que ficam disputadíssimas em fins de semana de sol. Dentro possui um bar lounge e restaurante. Nas quintas-feiras, a partir dàs 20h, oferecem música ao vivo. Pois bem, de passagem por ele, nos pareceu bastante badalado, com mais jeito de bar que restaurante. Resolvemos almoçar ainda assim, sem grandes expectativas em relação à comida. Fomos positivamente surpreendidos com a cozinha. Comi um ótimo crayfish coquetel com guacamole e molho de Blood Mary, seguido por um atum fresco, na minha opinião, no ponto perfeito, quase um sashimi quentinho. Atendimento simpático e correto. Deu vontade de voltar.

18

Retornando ao canal, caminhando para o lado de Paddington, a paisagem fica cada vez mais moderna, com edifícios comerciais, enfim, uma zona de negócios. Não tem o mesmo charme, mas há outras opções de restaurantes que não parecem nada maus.

6

Pouco antes dessa zona mais industrial, há um pequeno parque, onde as pessoas se espalham pela grama para pegar um pouco de sol. Aliás, isso é muito europeu, fez sol e tem grama, o pessoal se joga mesmo! Sabe lá quando haverá outra oportunidade, né? Apareceu uma nesga de luz o povo corre para rua para fazer fotossíntese!

17

E se quiser passear pelo canal de barco, pode usar o “Waterbus”. As estações são em Little Venice, Camden Lock e London Zoo. Os dias de funcionamento variam de acordo com a época do ano, assim que melhor sempre checar. No que eles chamam de inverno, que vai de novembro ao final de março, só funciona nos fins de semana; em outubro, funciona entre quinta e domingo; e no verão, entre abril e final de setembro, há passeios diários, mais ou menos de hora em hora, entre 10 e 17h. Atualmente, o preço do passeio para um adulto é de $8, só ida, ou $11,30, ida e volta. Cada viagem demora em torno de uma hora.

10

E a primavera deu as caras, finalmente!

Após um longo inverno, a primavera comparece e que seja bem vinda!

Depois de um tempo morando na Europa, tenho sempre um dia no ano que é um marco. O dia em que consigo caminhar pela rua de camiseta, sentir o ar fresco nos braços e na nuca. É uma coisa quase boba que nunca parei para prestar atenção enquanto morava no Brasil, afinal, a gente toma esse bom clima por garantido, não é nada raro e não nos acostumamos a valorizar.

Pois é, mas acontece que depois de passar meses saindo com o peso dos casacos nos ombros, sentir apenas o tecido fino de uma camiseta é um luxo! E, nesse último domingo, dia 14, foi o primeiro do ano que botei minhas mangas de fora!

E hoje, abri as janelas para arejar a casa, sem a preocupação de fechar correndo para não perder a calefação, que a propósito, está desligada.

A árvore do quintal de trás pipocou em flores, o parque da esquina está cheio de gente pelos bancos, cachorros pela grama e crianças pelos brinquedos. Em breve, começará o cio das gatas, as mesas da calçada serão mais disputadas que as próximas à lareira, os dias se esticarão e caberá mais luz.

arvore

E eu fico meio piegas, tentando não pensar no funeral da Thatcher, na explosão de Boston, na maioridade penal brasileira, na corrupção política, no fanatismo religioso, na intolerância de quem tem mania de mandar na vida dos outros… por favor, um tempo, sai da minha cabeça uruca! Sai que esse corpo não te pertence!

Faz sol em Londres, a primavera achou seu caminho e quero acreditar que o mundo pode melhorar!

Bubbledogs, cachorro quente com champagne

Bizarra combinação, estamos todos de acordo. Alguma vez passou pela sua cabeça comer cachorro quente tomando champagne? Porque na minha, nunca! Mas se para o chef James Knappett pareceu uma boa idéia, quem sou eu para discordar sem antes conhecer e provar.

E se existe alguma cidade onde um lugar assim funcionaria, só poderia ser Londres!

Pois muito bem, me informei a respeito e uma das primeiras coisas que você descobre é que não fazem reserva. A segunda é que sempre há filas enormes na porta e, se quiser arriscar, pode ir se armando de paciência!

Ontem marcamos de jantar por lá com mais um casal de amigos. Chegamos pouco antes dàs 20h, naquela esperança do povo já ter se enchido da história das filas e a espera estar algo razoável.

A previsão era de, no mínimo, 45 minutos de espera, sem garantias! Veja bem, Bianquita não espera isso para comer um cachorro quente nem morta!

bd8

O casal de amigos também estava sem saco de esperar e buscamos alguma opção pelos arredores. Sentamos no Zizzi, que não sabia, mas trata-se de uma cadeia de restaurantes italianos. Atendimento muito simpático, comida corretinha, mas um ruído ensurdecedor!

Muito bem, decidimos tomar um café ou alguma bebida em outro lugar e escutar nossos pensamentos. Acontece que os pubs ao redor estavam bem cheios.

Alguém sugeriu que voltássemos ao Bubbledogs e, se estivesse mais tranquilo, poderíamos ao menos tomar uma champagne. Bem que me animei com a idéia e voltamos.

Já passava dàs 21h, as pessoas em Londres comem cedo e imaginei que a fila já estaria no fim. O que foi mais ou menos verdade. Realmente, a fila estava radicalmente menor e resolvemos tentar. Esperamos cerca de meia hora.

Meia hora segue sendo muito tempo, mas pensei que não voltaria uma terceira vez para tentar, era fato! Ou esperava aquela vez ou não conheceria o tal Bubbledogs! A conversa estava boa, resolvemos ficar e pagar para ver.

Finalmente, entramos! Primeiro de tudo, o serviço é muito atencioso e educadíssimo! Acho que isso ajuda significativamente a você não ficar com uma cara amarrada pela chateação da espera. Olhando o tamanho da casa e considerando que se vende cachorro quente, se eles fizessem reserva, nunca teriam escala para algo de lucro. E, vamos combinar, ninguém é obrigado a esperar, fica quem quer.

bd5

O ambiente é bonito, bem decorado, com paredes de tijolos aparentes e luminárias redondas que sugerem bolhas. Um pouco apertado, todo espaço é aproveitado, inclusive a lateral da escada, como balcão.

bd6

bd9

A carta de champagnes é muito boa e são servidas na temperatura ideal! Realmente é um ponto forte.

O cachorro quente é bom, nada de outro planeta, mas dentro do que se pode esperar de um cachorro quente, não me decepcionou. Não há milagre, você enfeita, mas no fundo estamos falando de pão com salsicha. Sim, a salsicha é de boa qualidade, o pão vem quentinho e os recheios são originais. Comi o Caesar, que é minha recomendação, vem com molho caesar, alface, queijo parmesão e crispy de pele frango.

bd3

Acho que valeu à pena conhecer? Sim, não saí com vontade de criticar. Considerando minha falta de paciência com qualquer fila, pode acreditar que isso é um ponto muito positivo para o local, principalmente para o serviço.

Se tenho vontade de voltar? Não sei, acho difícil. Talvez se for em um horário alternativo e não tiver que esperar mais que 10 minutos!

E afinal, cachorro quente combina com champagne? Pois melhor do que imaginava. Veja bem, para início de conversa é complicado achar algo que champagne não combine, praticamente, só não combina com comida ruim! De certa forma, não deixa de ser um programa relativamente barato, cada cachorro quente está por volta de $8 e te alimenta como uma refeição. Para Londres, esse é um valor muito razoável! E a champagne é o preço que se pagaria em qualquer outro restaurante, assim que o custo benefício compensa.

bd2

Acontece que o Bubbledogs tem um espaço a mais. No fundo do salão, você vê uma cortina de veludo fechada. Atrás dessas cortinas há a “Kitchen Table” (mesa da cozinha). Apesar de tudo funcionar no mesmo local e ser uma concepção do mesmo time de profissionais, o conceito é outro. Eles conseguiram gerar inclusive uma sensação de algo clandestino, misterioso.

A entrada é absolutamente a mesma, você passa por dentro do salão onde o pessoal come os cachorros quentes, atravessa as cortinas e vai para outro espaço totalmente diferente. Esse sim, restrito a quem faz reserva e com menu mais elaborado. São apenas 19 lugares e você se senta ao redor da equipe e do chef que cozinha exclusivamente para esse grupo.

Bd

Infelizmente, ainda não tive a oportunidade de conhecer a tal “Kitchen Table”, mas fiquei com uma vontade…

Local Pub, a versão inglesa do boteco da esquina

Pouco depois de mudar para Londres, você descobre a importância de ter seu “local pub”.

A cidade oferece uma infinita possibilidade de locais para sair e isso, muitas vezes, torna difícil a opção de voltar a algum lugar, porque você quer sempre conhecer algo novo. E sempre há algo novo para se conhecer.

Talvez seja justamente esse excesso de opções que contribua para a existência do hábito, que considero até cultural, de se eleger o tal do “local pub”. Todo morador que se preze tem um, aquele pub onde você se sente confortável em frequentar, em voltar, em conhecer quem te atende, em passar na volta do trabalho, em tomar um café quando sai para passear com o cachorro.

Engraçado porque vejo como uma necessidade bastante provinciana em uma cidade que é cosmopolita até os ossos! Parece incoerente, mas acredito que seja exatamente a impessoalidade cosmopolita que gere essa necessidade de um canto aconchegante, confortável.

No meu caso, antes de pensar sobre tudo isso e de sequer saber que eu “deveria” ter um pub local, comecei a frequentar um. Por um motivo muito simples, acabara de me mudar. Não tinha conexão de internet em casa e não tinha como cozinhar. Pelo menos, até a mudança chegar e os serviços básicos estivessem instalados, basicamente, a única coisa que havia para fazer no meu apartamento era dormir.

Bem perto da minha casa, havia um pub com uma cara ótima, The Elgin. Oferecia wi-fi gratuito, o serviço era simpático, a comida era boa e ninguém me enchia o saco! Passei a frequentá-lo diariamente na hora do jantar.

Era confortante entrar e nem precisar pedir a senha do wi-fi, meu ipad já reconhecia automaticamente, me dava uma sensação de estar em um lugar que eu fazia parte, mesmo em uma cidade razoavelmente desconhecida.

Descobri pouco depois que o pub havia acabado de inaugurar, havia propaganda pelo metrô e algumas críticas bastante positivas sendo divulgadas. Fiquei satisfeita, dei sorte!

The Elgin é o que se chama hoje de gastro pub, ou seja, oferece uma atenção a mais em relação à comida. Você pode simplesmente tomar um bom café ou chá com bolo, tomar um vinho ou fazer uma refeição. O cardápio é curto e bem cuidado, com toques da gastronomia espanhola. O ambiente é moderno, com um pé direito alto e decoração ao mesmo tempo despojada e informal, mas com certa elegância rústica. Além das mesas, é possível se acomodar em alguns sofás. Enfim, para almoçar ou jantar, melhor as mesas, mas para um bate papo e alguns drinks, os sofás são bem confortáveis. Recomendo provar os croquetes de carne e o chorizo com batatas e ovo pochet. Ainda que praticamente todos os pratos sejam bons, o único que não me agradou foi o “Sunday Roast”, o famoso assado de domingo que os pubs fazem. O café é de excelente qualidade e a oferta de bebidas é bastante honesta.

elgin-home

O problema é que me surgiu um dilema. O fato do The Elgin ter um cardápio pequeno tem a vantagem de oferecer tudo fresco e bem feito, entretanto depois de um tempo, se torna repetitivo para se frequentar semanalmente.

Por isso, acabamos encontrando um segundo pub, que virou nosso outro favorito, o Warrington. O lugar é lindo! Segue um estilo tradicional, elegante, com madeira escura toda trabalhada e uma escadaria imponente em seu salão. Quando você fecha os olhos e imagina em como deveria ser um pub inglês, a imagem do Warrington se encaixa à perfeição. Valeria simplesmente pelo fato de ir até lá e bater fotos! Mas vai bem além da aparência. O atendimento é simpático e torna o ambiente mais leve e informal. Inclusive, acabamos descobrindo por acaso que um dos garçons é brasileiro e nos atende muito bem, já já acho que ficaremos amigos! Sempre peço a ele indicação do que está mais fresco e sigo suas recomendações. O cardápio é amplo, sem ser gigantesco, com as tradicionais comidas de pub. Nunca me decepcionou, é honesto. Gosto de tomar as sopas do dia e acho as sobremesas bastante boas.

IMG_8924

website6

Assim que por falta de um, temos dois pubs locais, The Elgin, quando queremos um local mais moderno para tomar um vinho e beliscar e The Warrington, quando queremos algo mais tradicional, comer algo caseiro e quentinho.

E já que estou falando de pubs, é bom saber como se comportar neles. Em um pub não há ninguém que te acompanhe à sua mesa. Você chega e senta onde estiver livre ou acha algum lugar pelo balcão. O garçon também não vem à mesa te perguntar o que você quer consumir, é você quem deve se dirigir ao balcão e pedir. Quando é só bebida, ele já te serve diretamente; quando inclui comida, levam na sua mesa. Geralmente, o que você pede é pago na hora, de maneira que quando você acabar, pode simplesmente se levantar e ir embora. Mas se você pretende ficar mais um pouco, jantar, tomar uma garrafa de vinho, enfim, você deve perguntar ao barman se pode deixar seu cartão de crédito com ele. E sim, deixar seu cartão de crédito no balcão é uma coisa normal. Ele costuma te dar um número para sua mesa e você no final vai lá, acerta sua conta e pega seu cartão de volta.

Não há uma gorjeta definida, até porque você não é servido como em um restaurante, é você mesmo quem se serve. Se você é turista, nem se preocupe, não estão esperando por isso. Mas por incrível que pareça, se é um pub que você frequenta, a gorjeta pode ser mal vista. Segundo nosso amigo que mora aqui há 15 anos, ele faz o seguinte, pela terceira cerveja, convida o barman a uma bebida. Ele pode tomar a bebida com você na hora, mas geralmente responde algo como, agora não posso, mas guardo para tomar mais tarde. E mais tarde ele decide se quer beber ou ficar com esse valor em dinheiro. É como uma gorjeta disfarçada.

Enfim, para quem vem a Londres a passeio, acho mais interessante variar e conhecer as diversas opções que a cidade oferece. Mas para quem mora, fica a dica, é conveniente eleger logo seu local pub. Tem para todos os gostos, o importante é que você se sinta à vontade e queira voltar.

Maratona de hóspedes

Lá vamos nós com as estatísticas. Veja bem, mudamos para Londres em janeiro, nossos móveis chegaram em fevereiro e três dias depois, recebemos o primeiro casal de hóspedes. Sim, escrevi certo, não quis dizer três semanas.

Aliás, pensando melhor, antes mesmo dos móveis chegarem, já tivemos um amigo dormindo aqui pela casa.

Agora, no início de abril, resolvi fazer contas de quantas pessoas já pousaram em nossa residência. E, em dois meses de casa arrumada, amanhã chega o 10º hóspede! E isso porque o amigo que já dormiu aqui umas quatro vezes, contei como uma pessoa só.

Se alguém pensa que estou reclamando é porque não me conhece ainda. Eu bem que gosto dessa bagunça, dá uma animada na casa. E sei que não será assim para sempre, o primeiro ano de Madri foi parecido. Depois as visitas foram se espaçando.

Mas hoje vou contar dos últimos dois finais de semana, especialmente animados, a ponto de nem me dar tempo de sentar para escrever.

Na Páscoa, tivemos um casal e a filhinha de um ano aqui em casa. Para quem leu a crônica passada, é a amiga letra “T”. Estava empolgada com a visita e, ao mesmo tempo, preocupada em receber uma garotinha de um ano. Gosto de receber bem e minha completa falta de experiência no assunto era um limitador. Será que tinha espaço suficiente para malas e carrinho? Quem dorme onde? Será que ela vai estranhar a gente? Vai estranhar o apartamento? O que criança nessa idade come? Enfim, tinha dúvidas até no básico do básico.

A amiga é de casa, então enviei umas fotos do quarto onde eles iam ficar para ela mesma ver se comportava tudo. Perguntei o que a neném comia, para deixar encaminhado e a gente se virava pela rua. Foi até mais fácil que imaginava, porque pelo sim e pelo não, ela me passou a marca do leite que a filha toma para ver se havia aqui ou se precisava trazer do Brasil. Tinha aqui e assim ficava garantido que fome ela não passaria! Demos um ou outro palpite na programação, mas deixamos as decisões por conta deles.

E não é que deu tudo certo? O primeiro dia foi um pouco enrolado até a gente conseguir sair, porque a estrutura de sair com uma criança é totalmente diferente do que só com adultos, mas ao longo da estadia, tudo foi entrando em um tipo de rotina que facilitava.

A neném é uma fofíssima e, lógico que era agarrada com a mãe, mas ficava muito bem comigo e pude curtir bastante esses momentos e brincar um pouco de casinha. E a verdade é que, quando foram embora, senti falta de acordar com voz de criança pela casa.

Muito bem, eles chegaram em uma quinta e foram embora na terça.

Na sexta-feira seguinte, nova rodada de hóspedes!

Um casal de amigos super queridos de Madri, onde ficamos hospedados da última vez que visitamos a cidade. E outra amigona que conhecemos em Madri também, mas agora mora em Miami. Essa de Miami estava de passagem por Madri e acabou se animando a esticar a viagem com um pulinho em Londres. Imagina isso?

Foi assim, tínhamos combinado já com o casal de amigos que vinham. A outra amiga, eu também já tinha convidado para ficar lá em casa, mas não tinha certeza se ela viria mesmo nem em que dia. Assim que ela confirmou, vi que as datas coincidiam. Olha, todos nos conhecemos, nenhum estranho entre nós, o casal está confirmado para o quarto de hóspedes, mas se você não se sentir desconfortável em um colchão de solteiro, dou um jeito de caber no outro quarto! E como ela pareceu não se incomodar nem um pouco, afinal é animadíssima, já avisei logo que voo o casal pegava para ela tentar vir junto com eles, quem sabe, até poderiam dividir o mesmo taxi.

Não só conseguiram pegar o mesmo voo, como sentaram todos juntos! Acho que a farra deles já deve ter começado pelo aeroporto!

Chegaram na sexta-feira, às 23 horas da noite. Se fosse em Madri, as pessoas estariam pensando em se arrumar para sair, mas aqui em Londres, a grande maioria dos bares já estava fechada. Tem um pub aqui perto, The Elgin, que exerce a façanha de abrir até meia noite. Eles simplesmente largaram as malas e fomos correndo para lá iniciar os trabalhos.

Na volta para casa, esticamos a noite até umas três da matina, tomando vinho e comendo jamón contrabandeado por eles. Digamos, um certo controle de qualidade. Porque, no dia seguinte, tinha festa aqui em casa!

É assim, quando tiramos nossa nacionalidade espanhola, tivemos que também tirar uma nova certidão de nascimento. Ou seja, passamos a ter dois aniversários, um brasileiro e um espanhol. Nosso aniversário espanhol é no dia 6 de abril e é um perfeito pretexto para se fazer uma festa!

E aproveitando o tema, resolvi fazer uma festa com comidinhas espanholas. Deixei tudo organizado antes dos hóspedes chegarem, afinal, queria passear com eles pelo sábado durante o dia.

Fizemos aquele esquema Londres-em-5-minutos, para tentar mostrar o máximo de coisas possível dentro do tempo limitado. Primeiro, passeamos a pé pelos arredores, fomos até Abbey Road (aquela rua onde os Beatles aparecem atravessando em uma capa de disco) e Little Venice (a pequena Veneza que lembra mais os canais de Amsterdam) . Pegamos o metrô e fomos almoçar no Borough Market. De lá, fomos caminhando até London Tower, de onde eles seguiram o tour com Luiz e eu voltei para casa para os últimos preparativos.

Pontualmente, como não poderia deixar de ser, nossos convidados para a festa de aniversário começaram a chegar. Dessa vez, me atrevi a aumentar um pouco o grupo e fomos umas vinte e poucas pessoas. Sigo conhecendo amigos de amigos e encontrando pessoalmente amigos que eram virtuais. Todo mundo muito legal! Profissões e interesses diferentes, mas que se integram muito bem. Afinal, gente boa é gente boa em qualquer lugar do mundo!

De comidinhas, servi os “embutidos” espanhóis (jamón, lomo, chorizo, e salcichón), queijos, sobrasada, milho torradinho etc. Parte dessa oferta, foram os hóspedes que trouxeram. Fiz chalotas assadas, salpicón de mariscos, patatas panaderas, alioli, tortilla e inventei um bolinho de paella aperitivo (mais fácil que fazer uma paella na hora). E para premiar quem ficou até mais tarde, a famosa hora da diretoria, saí da inspiração espanhola e servi abará de carne moída e creme de batatas com mascarpone trufado e camarão, o golpe de misericórdia!

Cantamos parabéns, pelos nossos 3 aninhos de vida como espanhóis, e aproveitamos para celebrar também o aniversário (de verdade) de uma das nossas hóspedes. Com bolo e tudo!

Tivemos ajuda o tempo todo! O amigo hóspede, acostumado às nossas festas madrileñas, já conhecia todo o esquema e botou a mão na massa! Outro amigo, também todo independente, tomou a frente em administrar as bebidas. Os convidados não fizeram cerimônia! E o caos, como sempre, se encarrega em fazer tudo dar certo.

Os vinhos da noite, como não poderiam deixar de ser, foram espanhóis! E olha que o pessoal bebe direitinho, viu? Muito bom me sentir acompanhada! Mas não chutei tanto o pau da barraca, afinal, era anfitriã e no dia seguinte teria mais!

E, a propósito, além dos nossos três hóspedes, acabou dormindo mais um amigo pelo sofá!

Muito bem, dia seguinte, o amigo do sofá saiu cedinho, nem despedi, mas ele já é da categoria família, sem problemas. O restante da casa, acordou por volta dàs dez da manhã. O casal de amigos iria embora nesse dia, domingo, e a outra amiga ficaria até terça-feira.

A esposa desse casal de amigos, simplesmente, não conseguia mais andar direito, uma baita tendinite! Ela já tem tendência e com a pauleira do dia anterior, já viu, né? Assim que Luiz e o marido saíram para aproveitar um pouco mais a cidade e as mulheres preferiram ficar em casa.

Alguém acha que a mulherada ficou aborrecida por causa disso? Imagina três amigas, sem homem escutando e entre quatro paredes para fofocar à vontade! Ainda fomos para o skype bater papo com outra! Enfim, faz muito tempo que não rio tanto da barriga doer!

Bom, no fim da tarde, o casal voltou para Madri e a amiga que ficou recebeu um upgrade de hospedagem! Mudou de quarto e dormiu no colchão de casal. Melhor para mim, que não saiu todo mundo ao mesmo tempo, não dá aquela sensação de vazio de uma só vez!

Mas antes da hora de dormir, o dia ainda estava bonito, aliás, fez um fim de semana de tempo ótimo! Ainda que estivesse friozinho, nada desesperador. Céu azul e pouco vento. Melhor que a encomenda!

Saimos minha amiga e eu para passear por Little Venice. Acabamos por caminhar em um outro pedaço novo para mim. Toda essa região vale um post só para ela, que quero escrever quando a primavera estiver mais engrenada e puder tirar umas fotos bacanas. Descobrimos um restaurante que é uma graça, The Summerhouse. Jantamos por lá.

Na segunda-feira, aproveitamos para bater perna. O bom é que para mim muita coisa ainda é novidade e é ótimo ter companhia para descobrir os lugares. Fomos para Oxford Street e saímos em direção a Picadilly, entramos na Liberty, uma loja de departamentos super transada, passeamos pela Carnaby Street, com suas vitrines modernésimas e fomos almoçar em Chinatown. Um cafezinho na Fortnum Mason e tomamos o rumo de casa.

IMG_8971

IMG_8973

IMG_8983

IMG_8984

IMG_8995

IMG_9002

chinatown

Chinatown1

blog

Na própria segunda-feira, minha cunhada e o marido estavam de passagem por Londres e combinamos de jantar com eles. Minha amiga aproveitou esse momento família e foi encontrar com outra amiga nossa em comum.

Enfim, fomos convidados a jantar no Koffmann’s, um excelente restaurante francês do hotel Berkeley. Comida divina, vinho corretíssimo e companhia melhor ainda!

Na terça-feira, o dia amanheceu chuvoso e bem feinho. Minha amiga tinha que sair de casa pelas 14h. Quer saber, resolvi fazer um almoço caprichado para a gente, uma feijoadinha básica com carne moída e quiabo. Ficamos de preguiça pela casa mesmo, até a hora que o taxi chegou.

Não posso reclamar de nada, é um prazer e um privilégio ter amigos tão legais, encontrar tanta gente boa em um intervalo pequeno de tempo e ainda ter a oportunidade de conviver alguns dias de perto com pessoas queridas. Assim que só agradeço!

E nem deu tempo de esvaziar o colchão inflável, porque o próximo hóspede chega daqui a pouquinho…

Borough Market

Sou daquele grupo de pessoas que adora cozinhar e comer. Por consequência, também adoro um mercado. Por recomendação de um amigo, cheguei ao Borough Market e foi amor à primeira vista.

A estação de metrô mais próxima é a “London Bridge”, já na estação, pegar a saída na direção “borough” (um pouco óbvio, mas não custa dizer). Aliás, também não custa lembrar que metrô aqui se diz “tube”. Se você perguntar onde é o “metro”, ninguém sabe do que você está falando!

Borough

Trata-se de um mercado que abre nas quintas, sextas e sábados. Aviso que para quem não gosta de estar em um ambiente muito cheio de gente, melhor evitar o sábado.

IMG_8837

IMG_8839

É um mercado de rua, com aquele jeitão de feira e várias barraquinhas onde se compra comida para levar ou desfrutar ali mesmo.

IMG_8838

Acho uma delícia passear pelos seus corredores e sentir uma mescla de aromas de especiarias e comidas invadindo minhas narinas. É uma orgia de queijos franceses fedidos, trufas, pães, sanduíche de carne seca, bacon, salsichas, burratas, paella… tudo-junto-ao-mesmo-tempo! Dá uma fome louca!

Também existe a opção de passear pelo mercado, fazer suas compras, mas almoçar nos restaurantes ao redor. Gosto muito do Wright Brothers, especializado em ostras. Além das tradicionais e suculentas ostras cruas e fresquíssimas, há a opção das gratinadas e de mais fácil degustação para os que não são muito fãs de crus. Recomendo pedir um Chablis para acompanhar e correr para o abraço! Importante observar que é praticamente impossível conseguir uma mesa no sábado sem reservar.

Para quem gosta de carne, recomendo o Black and Blue. Além dos steaks, meus favoritos, também fazem hambúrgueres bem honestos. O atendimento é correto e, por acaso, já fui atendida por duas garçonetes brasileiras muito simpáticas.

IMG_8842

IMG_8841

Aproveitando que está por essa região, vale uma volta pelas redondezas até o Pub “The George Inn”. Abro um parênteses para contar que historicamente, os Pubs nasceram como hospedarias, onde o bar ficava no primeiro andar e os quartos nos andares de cima. Até hoje é possível encontrar esse modelo, mas a maioria se restringe a parte do bar. Enfim, esse pub, especificamente, foi fundado pelo final do século 16, ainda que o edifício date de 1677. Vale a visita e, porque não, tomar uma cerveja onde Shakespeare e Dickens já se hospedaram.

George3

George2

George1

Se ainda tiver energia, aproveite para gastar as calorias ganhas no almoço e faça uma caminhada pela “The Queen’s Walk”. É um passeio pelas margens do Tâmisa, que vai desde “Lambeth Bridge” até “Tower Brige”. Mas sobre esse passeio, contarei em outro post.

IMG_8866

Hein?

Sabe aquela teoria de que no mundo não há mais de 6 pessoas entre você e qualquer estranho que caminhe pela rua? Pois é, acredito matematicamente nela, mas desconfio que no nosso caso, devem ser no máximo uns 3 níveis de separação!

Então, vou tentar explicar, mas a equação não é nada simples!

Luiz estudou com P no colégio no Rio de Janeiro. O tempo passou e, morando em São Paulo, eu já casada com ele, conhecemos por completo acaso uma amiga de P e ele soube que ela morava em Barcelona.

P, T, A e R se conheceram quando faziam um mestrado juntas no Rio de Janeiro.

Logo que mudamos para Madri, Luiz foi a trabalho para Barcelona e fui com ele. Já que estávamos por lá, porque não procurar a P? Jantamos e assim conheci P.

P foi a trabalho para Madri e nos chamou para jantar. Mas Luiz estava viajando. Bom, ele não estava, mas eu já conhecia a P, então, fui jantar com ela.

Acabou virando um jantar de luluzinhas e P chamou mais duas amigas. Assim conheci T.

T morava em Madri e ficou uma amigona nossa!

T fazia um doutorado em Madri e, onde estudava, conheceu a D. T me apresentou D e também ficamos amigas. T se mudou para o Rio, D se mudou para Londres, mas seguimos todas em contato.

Antes de nos conhecermos em Madri, T trabalhou com C, que por sua vez, também trabalhou com R, em outro momento.

A mãe de D, durante uma viagem de avião entre Inglaterra e Brasil, conheceu R. Porque R viajava com uma filha pequena que não parava de chorar e no desespero, a mãe de D se propôs a ajudá-la. R ficou muito agradecida e durante a conversa, descobriu que a filha D morava na mesma cidade que ela. Até por cortesia, R procurou D e acabaram ficando amigas.

Por que estou contando toda essa história? Porque agora, por caminhos bem diferentes, exceto por P, nos encontramos todas em Londres!

P, quando descobriu que mudaríamos para cá, me apresentou por e-mail a A e R, que seguiam amigas. Eu, que já conhecia D, acabei descobrindo, por coincidência, que ela também conhecia R.

Conversando com elas, descobrimos que R e A também conheciam a T. T se lembrou que C morava por essas bandas e, assim fui apresentada a C.

T, que mora atualmente no Rio, não se aguentou em ver essa mulherada toda fofocando em Londres e veio nos visitar nesse feriado! Assim que, de maneira surreal, nos encontramos com T, R, A e D. Só não encontramos com C, porque estava viajando, mas mora aqui. A única que faltava era P, que agora mora em Nova York.

É mole? Mundinho pequeno esse! E para os maridos entenderem quem conhece quem da onde?

19 aninhos de casada!

O que tinha a dizer para ele já foi dito, Luiz é meu amor e o planeta sabe disso! Portanto, prometo nem ser piegas e só contar sobre as comemorações e do nosso “só uma coisinha” que virou uma verdadeira maratona, como sempre!

No último 18 de março, fizemos 19 anos de casados. Em todos esses anos, a gente fez uma festa em casa para celebrar. Mas justo nesse, pensei que seria meio complicado. Havia recebido gente há pouco tempo… quero fazer outra festinha no início de abril… tinha hóspedes chegando na semana seguinte e também deve rolar alguma coisa…

Enfim, Luiz, quer saber, esse ano vamos deixar a festa e comemoramos só nós dois, o que você acha? Ele achou ótimo, foi pesquisar e reservou para a gente no próprio dia 18, uma segunda-feira, num restaurante show!

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas não vamos nos adiantar.

Nós tínhamos uma perna de passagem para Madri sobrando aqui em casa. É que, quando nos mudamos para Londres, era mais barato comprarmos ida e volta do que só ida. Portanto, tínhamos realmente sobrando uma ida para Espanha no dia 15 de março, uma sexta-feira.

Pronto! Então, vamos para Madri no fim de semana, aproveitamos matamos a saudade dos amigos.

Não vou negar que lá no fundo, bem no fundinho, fiquei com aquela vontade frustrada de fazer uma festa. Mas puxa, como é que podia reclamar, né? Íamos viajar juntos, ver um monte de amigos que adoramos e ainda teríamos nossa própria comemoração romântica particular! Perfeito, deixa para lá a festa e vamos aproveitar o que a gente tem que é melhor do que mereço!

Combinamos de ficar hospedados na casa de um casal de amigos muito queridos e que, a propósito, também acabaram de fazer aniversário de casamento. O marido foi nos buscar no aeroporto. A mulher ficou em casa, porque outra amiga ia para lá e tomaríamos uma cachaça maravilhosa que ela tinha acabado de trazer do Brasil.

O avião pousou tarde pacas! Chegamos quase meia noite, mas havíamos avisado que era assim. Quando compramos a passagem, não sabíamos se Luiz poderia tirar a sexta-feira livre e, de fato, ele trabalhou o dia todo.

No carro, nosso amigo avisou que mais duas pessoas estariam esperando a gente em casa. Legal!

Resumindo a ópera, quando chegamos na casa deles, não havia apenas mais duas pessoas, havia uma baita de uma festa surpresa com uma galera super querida! Acho que foi a minha primeira festa surpresa na vida! Até porque, muita gente sabe que eu detesto surpresas! Mas dou meu braço a torcer, porque dessa vez eu a-do-rei! Fiquei emocionada e muito feliz de verdade.

Assim que, mesmo sem a gente planejar ou saber, acabamos tendo uma festa! Não será por esse ano que fugiremos à regra e tudo graças aos nossos amigos!

Ficamos até às seis da matina nessa bagunça! E é claro, regados a álcool. Vou nem contar que uma certa amiga dividiu conosco nada mais, nada menos que uma Anísio Santiago, também conhecida como Havana, considerada a melhor cachaça do mundo!

É pouco? Quer mais?

Sábado, tentamos acordar o mais cedo possível, que foi algo em torno dàs 14h. Considerando a hora que fomos dormir e do nosso estado, bastante cedo.

Tomamos nosso café com calma, nos arrumamos e partimos para a próxima etapa. Direto para festa de um amigo, que começou ao meio dia e ia até à meia noite. É lógico que me acabei! E ainda encontramos outros amigos que não havíamos visto na sexta-feira.

Mas saímos um pouco antes do final, fomos jantar, no La Tape, às 21h com dois casais que também faziam aniversário de casamento, um deles onde estávamos hospedados e mais uma amiga.

Bom, jantar é maneira de dizer, porque eu estava só o pó! Resolvi tomar água mineral e belisquei algumas coisinhas, mesmo assim, só porque estava uma delícia, mas já não aguentava nada! Chegou uma hora que eu queria ar fresco!

Por volta dàs 23h, saímos a pé para o El Junco, minha casa noturna favorita de Madri. Cheguei lá, comecei a melhorar outra vez e até ameacei um whiskão para equilibrar o PH.

É duro admitir, mas estava mortinha! Aguentaria até de manhã, por amor à arte e para manter minha reputação, mas cada vez que olhava para Luiz e os nossos amigos hospedadores, dava até pena!

Assim que ficamos mais ou menos até acabar o concerto ao vivo. Apesar do cansaço, também foi muito legal e ainda encontramos mais gente bacana. Por volta de uma e pouco da manhã, resolvi tomar uma atitude adulta e disse que a gente poderia ir embora se eles quisessem. Preciso dizer que todo mundo aceitou sem insistência? Porque vai que por educação alguém diz, não, se quiser a gente fica mais… e eu fico!

Cansou? A gente também, mas ainda tinha o domingo e fomos curar a ressaca grupal, que a propósito nem tinha, com um belo de um acarajé! A bebida mais radical que me propus a tomar foi um pouco de guaraná! Que para quem não bebe refrigerante, foi bem ousado. O casal e mais duas amigas foram conosco ao restaurante baiano. Não dava para convidar mais gente, porque não cabia na mesa, infelizmente.

De lá, já fomos direto para o aeroporto, tomar o rumo de volta. As olheiras pelo joelho, mas valeu cada minuto e cada abraço!

Foi estranho ir a Madri. Sei que não faz tanto tempo, mas perdi a referência de ser a minha casa. Francamente, às vezes até me assusta a rapidez com que troco de canal. Nem sei se isso é mau ou bom, mas acho que vem no mesmo pacote da capacidade de adaptação.

Ao mesmo tempo, entre nossos amigos, me sinto bastante aconchegada e é como se nunca tivesse ido. E me emociona muito saber que a gente deixou alguma marca positiva em gente tão especial.

Não sei se agradeci o suficiente, mas há vezes que é difícil dizer o quanto estou feliz em reencontrar alguém, porque não quero que se torne um momento dramático, prefiro ter a sensação de que foi na semana passada e pode ser na semana que vem. E quem sabe, pode ser mesmo.

Chegamos em casa sãos e salvos e sim, me sinto em casa aqui. Não é perfeita, não é para sempre, mas agora é meu lar.

E, na segunda-feira, dia oficial do aniversário, lá fomos nós ao nosso jantar especial no L’Atelier de Joël Robuchon. Trata-se de um restaurante com duas estrelinhas Michelin básicas, escolhido pelo meu querido maridinho que se esmerou! A base da culinária é francesa, mas faz algumas fusões interessantes.

Se quem está na chuva é para se molhar, imagina em Londres! Pedi o menu degustação que consistiu em, amuse bouche; alcachofra com trufas e foie gras (bem interessante); vieira com uma lulinha (normal, tudo no ponto perfeito, mas sem surpresas); pochet em vinho tinto, cogumelos selvagens e bacon (um escândalo de bom!); salmão crocante com espuma de wasabi (de ajoelhar!); foie gras envolvido em uma folha de couve, em caldo de carne (não entendi o que a couve fazia ali); prato principal, codorna recheada de foie, com trufas e purê de batatas (o melhor purê do universo! Parecido a esse, só provei no Michel Guérard); pré-sobremesa, creme de mascarpone com raspberry (primeira vez que comi uma “pré-sobremesa”); sobremesa, cheesecake de lima e frutinhas; café (descafeinado, no meu caso). Não dei conta dos queijos, antes das sobremesas, mas havia essa opção. Todo esse menu é combinado com vinhos europeus de diversas procedências e acertaram em todos, como não poderia deixar de ser.

O atendimento foi muito simpático! Informal e educado. A garçonete mais legal, com quem cheguei a puxar um pouco de conversa, era uma francesa e, no começo, achou que eu fosse francesa também (assim que começo a acreditar que realmente devo ter algo de francês!). Enfim, ela nos perguntou se celebrávamos alguma coisa e contamos que sim. Pois ao final do jantar, na hora do café, chegou para a gente dois pedacinhos de bolo, com duas velinhas e nos desejando feliz aniversário de casamento por 19 anos! Eu simplesmente amo esses detalhes!

Ela nos levou até a porta para se despedir e nos deixou com o porteiro, um brasileiro, que por sua vez nos encaminhou a um carro que nos trouxe em casa. O motorista cobrou os olhos da cara, mas tudo bem, foi chiquérrimo e me senti a própria Cinderela, então, está valendo!

Para quem achou que faria uma comemoração simples esse ano… uma viagem, festa surpresa, reencontro com super amigos e jantar mega-romântico-gastronômico… pas mal du tout! Vida dura, mas fazer o que? Alguém tem que se expor ao sacrifício, né?