E a família aumentou!

Muita calma nesse momento! Estou falando de dois vira-latinhas felinos que acabam de nos dar a honra de sua presença!

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Para quem chegou agora e não acompanha a história, já tivemos um par de gatinhos irmãos, a Buchannan, que viveu por 5 anos e o Jack Daniel’s que viveu 13. Chegaram em nossa casa, em São Paulo, quando ainda tinham 40 dias de vida. Aprenderam a ser nômades como nós e se adaptavam às mudanças com muita elegância. Buchannan se foi em Atlanta e Jack em Madri, pelo meio de 2012.O persa creme que aparece na foto de entrada do blog é o Jack e já foi personagem de várias crônicas por aqui.

Precisamos de um tempo para a poeira baixar e o luto acalmar. E o bendito tempo, como sempre, se encarrega de nos aliviar e dar outra perspectiva para tudo que passamos.

Quando começamos a pensar em um novo animalzinho, tinha claro que seria adotado, mas também sabia que precisava ser no momendo adequado. Logo veio a possibilidade de mudança para Londres e resolvemos aguardar.

No antigo endereço, comecei a receber visitas felinas, uma gata preto e branca muito carinhosa (e com dono). Passou a me visitar diariamente, como que me preparando ou me dando sinais que o momento estava chegando. Escrevi sobre ela aqui.

Assim que, ao mudar para a casa nova, tínhamos decidido que já era hora. Luiz entrou em contato com o centro de adoção, optamos pelo RSPCA, e eles marcaram a visita de uma inspetora. Achei muito responsável da parte deles, não é uma visita invasiva, mas para saber que condições tem a casa, se tem crianças, se tem quintal etc. Ou seja, garantir que é o ambiente adequado e que o perfil do animal e do dono sejam compatíveis. O fato é que temos o perfil ideal para adotar um gato, já tivemos outros e muito bem educados, trabalho em casa, temos espaço, não temos outros animais, não há crianças (há gatos que se adaptam a uma casa com crianças pequenas ou outros animais, mas nem todos). Enfim, nenhum empecilho.

Não tinha certeza se queria um ou dois bichanos, ambas as escolhas oferecem vantagens e desvantagens. Comprei um kit básico para receber quem viesse e o destino se encarregasse do resto.

Começar a comprar cama, caixa de areia, potes de comida etc teve um efeito ambíguo. Por um lado foi gostoso, já foi me dando vontade de mimar um ser que eu nem conhecia; mas por outro remexeu algumas saudades e me perguntava se queria mesmo passar por tudo isso novamente. Não vou negar que é bom ter minha liberdade completa, nada nem ninguém dependendo de mim. Não sei tomar meias decisões e acho que, nesse caso, é a maneira correta, se você opta por ter um bichinho, que pode ser um gato, cachorro, peixe, tartaruga, o que for, você é responsável por ele o resto da vida, ponto.

Prevaleceu a lembrança de todo o carinho e companhia que me fizeram Buchannan e Jack, por países, casas e humores diferentes. A delícia que é ouvir um ronronado alegre só porque te viu. A dignidade de um ser que independente da situação, segue sendo dono do seu rabo, seu fucinho e dos seus termos.

Fui meio emocionada ao centro de adoção, ainda bem que Luiz estava junto, não queria essa responsabilidade sozinha. Achei que seria sofrido, porque no fundo, a gente sabe que estará deixando “alguém” para trás. É um pouco escolha de Sofia.

Mas a verdade é que não foi nada duro! Primeiro porque o centro era um lugar bastante razoável. As jaulas dos animais não são tão mínimas, na verdade, parecem pequenos quartos com uma parte mais protegida e uma parte externa com grade. Você consegue inclusive andar dentro delas. Não é o espaço ideal, é lógico, mas os bichos não estavam confinados ou mau tratados. Alguns mantidos sozinhos e vários mantidos em duplas ou grupos, no caso de virem de uma mesma casa.

Então, deixamos o acaso seguir seu curso. Passeamos por cada uma das celas, observando o compartamento dos animais. Passei na ida e na volta por um bichano apagado sobre um desses arranhadores grandes. Quando estava um pouco adiante, Luiz me chama para conhecer um gato, exatamente o tal que estava dormindo quando passei. Chego lá e ele está todo ronronante para Luiz, como também ficou para mim, pedindo carinho e esfregando o rosto na nossa mão. Dali a pouco, sai de dentro do quartinho uma outra gata, tímida que só ela, mas se esfregando nesse primeiro e também ronronante para a gente, se deixando ser tocada. Mas logo que a cuidadora chegou, voltou correndo para o quarto. Ali, nossa decisão que ele viria já estava tomada.

Entretanto, lembra que ainda tínhamos dúvidas se queríamos um ou dois gatos? Estava bastante inclinada a ter dois. Porque o trabalho é bem parecido e um faz muita companhia ao outro, te libera mais. A pior desvantagem é que você não consegue prever que ambos tenham o mesmo número de anos de vida, e quando um deles se vai antes é um trauma! Portanto, se viessem dois gatos, preferia que tivessem idades iguais ou bem parecidas.

Muito bem, a responsável do centro, quando nos viu interessada nesse gato, e sem saber se levaríamos só um, fez um ar de preocupada. Explicou que a outra era extremamente tímida e, por isso, era uma das gatas que estava há mais tempo no abrigo. Quando o gato chegou, também tímido, fizeram a experiência de colocá-los juntos e foi muito positivo para ambos. Ela começou a se comunicar através dele, brincarem e desenvolverem um laço especial. Assim que não era obrigatório adotar os dois, mas separá-los seria muito ruim, principalmente para ela que já estava ali há 6 meses. De tão tímida, cada vez que alguém chegava para visitar, ela se entocava!

Acontece, que ela havia saído da toca para a gente, muito provavelmente por causa dele. E ouvindo sua história, imagino o esforço que foi para ela, foi uma grande coisa! Então, levamos os dois, pronto!

Assim, chegaram em nossa casa dois felinos assustados, ele batizado de Wolverine (2 anos), Wolvie para os íntimos e ela nossa Fênix (4 anos). Gatos super poderosos, que precisam de espaço, tempo e paciência para entenderem seus talentos. Wolverine é mais corajoso, não se deixa pegar, mas se entrega a carinhos quantas vezes você se aproximar. Fênix é uma ostra de tímida, mas bem docinha, esperamos que em breve possa renascer mais confiante. E, definitivamente, a relação entre os dois é muito especial! Separá-los haveria sido uma maldade, ela é completamente louca por ele e ele busca por ela o tempo todo.

Pois muito bem, começamos novo capítulo na nossa história, reunindo um casal de gatos apaixonados, que provavelmente vão virar nossa casa de cabeça para baixo em algumas semanas, mas que daremos nosso jeito, encontraremos os próprios espaços e viveremos felizes para sempre (ou quase).

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PS: Wolverine é o mais preto da direita, Fênix tem as patas brancas.

E corre para arrumar a casa!

Meu prazo médio para arrumar toda a casa após uma mudança é de três dias. Não é que fique tudo impecável, mas nesse período tenho praticamente todas as caixas abertas e a casa funcionando.

Faço compras normalmente pela internet e já havia agendado compras básicas programadas para chegar em casa na quarta-feira, 16, dia seguinte à mudança. Assim que não houve nem respiro, já acordei botando para quebrar!

Dessa vez, como temos algo de espaço em um tipo de depósito no final do jardim, não nos desfizemos das caixas. Desmontei tudo, envolvi em plásticos para proteger e Luiz guardou lá atrás. Não parece nada, mas as caixas são um custo razoável na hora da mudança e a torcida do flamengo inteira já imagina que esse não será nosso último endereço, então, melhor guardá-las.

Na sexta-feira, era feriado. Nosso amigo que sempre dorme por aqui e tem carro, nos deu uma carona para buscar a escultura no apartamento antigo. Luiz deixou as chaves dele por lá e fiquei eu encarregada de voltar para entregar o apartamento depois. Ele também foi conosco ao Ikea, que é uma mão na roda para comprar as coisas para casa.

Precisávamos de armários, o espaço é bom, mas tinha pouco lugar para armazenamento e isso atrapalha bastante a arrumação. Compramos uns provisórios baratinhos e fáceis de montar. Aproveitamos e compramos também alguns móveis para o jardim, nada muito complicado ou caro, mas queremos aproveitar a área externa. Luiz é ótimo churrasqueiro!

A gente deveria aproveitar o resto do fim de semana para terminar de montar e arrumar tudo, mas depois de tanto trabalho, resolvemos relaxar e fomos tomar vinho com nosso amigo no jardim.

Ao longo da semana, corri tudo o que pude para deixar a casa pronta, porque meu irmão e minha cunhada estavam pela Europa e queria encontrá-los. Na verdade, havia combinado de ir na sexta-feira 25 para Berlin encontrar meu irmão, mas minha cunhada não estaria mais. Assim que tinha o plano malévolo de resolver tudo e ir antes para a Bélgica fazer uma surpresa.

Mas não deu certo e nem foi pela arrumação da casa, o problema é que precisava renovar meu passaporte brasileiro e minha data para entregá-lo ao consulado era exatamente no meio da semana, na quarta-feira 23. Dia em que descobri que meu agendamento havia sido feito errado, e perdi tempo indo ao consulado! Caraca, mil coisas para resolver e fui para o centro à toa!

Não foi de todo perdido, me informaram que poderia voltar no dia seguinte, para tirar minhas digitais e enviar a documentação pelo correio. Achei engraçado aquele negócio de ir até lá e ao invés de entregar os documentos, enviar pelo correio para o mesmo lugar que estava! Eu devo ter entendido isso errado! Não tem problema, vou assim mesmo e tento entregar os documentos pessoalmente.

Na saída, ameacei me aborrecer, afinal perdi o maior tempo à toa e ainda estava preocupada se conseguiria resolver no dia seguinte mesmo. Esse negócio de documentação é um perrengue para quem mora fora do seu país de origem. Ainda tentei aproveitar e ir para o trabalho do Luiz almoçar com ele, mas justo naquele dia, ele estava em um evento. Putz! Não é meu dia… Mas quer saber de uma coisa, dane-se! Vai se resolver e já que estou no centro, vou aproveitar! Sentei em um restaurante que adoro, especializado em ostras, tomei um vinhozinho ótimo e ainda usei o wi-fi para atualizar minhas mensagens. Afinal, levamos 3 semanas para ter internet em casa após a mudança, mas essa é outra história. Dessa maneira, apesar de não haver resolvido ainda, pelo menos meu humor estava melhor.

Dia seguinte, acordo eu bem cedo e toca para o consulado brazuca outra vez! Fui atendida, nem demorou muito e achei o atendente até bem simpático e com paciência para explicar tudo. Realmente, naquele dia só poderia tirar minhas digitais, os documentos (passaporte antigo, identidade, certidão de casamento, atestado que estava quite com a justiça eleitoral, foto, formulário do consulado e comprovante de pagamento da taxa) precisavam ser enviados pelo correio. Mas como assim, eu tenho que enviar para cá? Mas eu estou aqui! Eu trouxe um envelope, não posso colocar tudo bonitinho no envelope e entregar na recepção, igualzinho ao correio?

Não podia. É meio maluco, mas enfim, expliquei para ele a situação, que poderia precisar viajar ao Brasil a qualquer momento e blá, blá, blá… Ele me disse que era rápido, levava no máximo 5 dias úteis depois que os documentos chegavam. Como não havia outro jeito, pedi que ele checasse se eu tinha tudo certinho, ele checou tudo para mim e me entregou exatamente como eu deveria por no correio. Tirei minhas digitais e saí dali diretamente para uma agência, para não perder mais tempo.

Volto para casa, pensando em arrumar as malas para o dia seguinte. Felizmente, para Berlin não havia problema viajar, porque iria com meu passaporte espanhol.

Muito bem, chega à noite, minha sogra é internada e o estado parecia grave. E agora, o que a gente faz?

Caminhamos para onze anos fora do Brasil, a quantidade de vezes que já escutamos que alguém da família não estava bem e logo se reverteu é incontável! Mas sabe como é, essas coisas você nunca tem certeza. E ainda por cima, havia acabado de enviar meu passaporte brasileiro! Em princípio, não tinha nem como viajar para o Brasil! Há alguns procedimentos de emergência, mas como acabei de dizer, a gente nunca tem certeza se é realmente uma emergência até que realmente aconteça.

Bom, queria encontrar meu irmão, também temos poucas oportunidades assim. As passagens pagas, o hotel pago, inclusive por ele que queria nossa companhia. Quer saber Luiz, para ficarmos preocupados aqui, fico lá!

Assim que resolvemos manter o plano de ir na sexta-feira de manhã, mas Luiz estava agoniado e, por via das dúvidas, foi com uma mala maior e com os dois passaportes, caso precisasse ir direto para o Rio.

Não deu em outra! Chegamos em Berlin ainda cedo no Brasil, pelo fuso horário, e tivemos tempo de dar uma volta pela cidade, junto com meu irmão. Mas logo que o dia amanheceu pelo outro lado do oceano, as mensagens começaram a pipocar no seu celular e ele resolveu não arriscar. Não conseguiu comprar passagem para o mesmo dia, mas achou um vôo no sábado pela manhã. Fiquei com meu irmão até domingo, acompanhando por telefone o que estava acontecendo.

Domingo à noite, cheguei em casa, em Londres, na dúvida do que fazer. O momento era complicado, sem passaporte, acabávamos de mudar e tínhamos ainda algumas pendências para resolver, encomendas para receber, internet para instalar, chave de apartamento para devolver, eu tinha trabalho para entregar… mas ao mesmo tempo, preocupada com Luiz no Rio.

Honestamente, achei que tudo fosse durar mais tempo. Sabia que Luiz não poderia ficar direto por lá e pensei que o melhor era terminar de resolver as coisas por Londres, afinal tinham pendências que alguém precisava fazer e, se fosse necessário, ao invés de estarmos nós dois no Rio, me revezaria com Luiz na semana seguinte.

Não deu tempo. A situação foi se agravando progressivamente e a mãe dele faleceu no dia 29 de abril. Eu deveria estar preparada, não posso dizer que foi uma surpresa, mas francamente, não esperava que fosse tão rápido. Não havia perdido a esperança que ela melhorasse, ainda que soubesse que boa ela não ficaria.

Foi duro e mais dolorido por não estar ao lado do Luiz, mesmo sabendo que juntos estávamos.

Até hoje não estou totalmente bem, é uma mistura de sentimentos muito grande, por ela, por Luiz, pelos meus… De algum modo diferente mexeu comigo, abriu alguns canais, dúvidas, sei lá. Quase fui de toda maneira agora em maio, para ajudar Luiz a resolver qualquer pendência e, francamente, talvez fosse mais por minha causa mesmo, bateu saudade.

Acontece que não há muito o que fazer agora. Logo vem a malfadada Copa e tudo fica absurdo, além de nada se resolver. E, finalmente, meu pai deve fazer uma cirurgia em julho, então, o mais razoável é esperar.

Por outro lado, também não estou totalmente mal, me recuso a ficar. A gente segue tocando a vida. Semana passada tinha trabalho vazando pelas orelhas, nem sempre o mais agradável, mas é importante para mim voltar a ser “produtiva”, ou melhor, ganhar algum dinheiro pelo que produzo, né?

A casa nova é uma graça! Tem vários defeitos que nem ligo, em pouco tempo estou aprendendo a não vê-los. Com o passar dos dias, vem ganhando outra energia, cores, aromas… vida! Já recebemos os primeiros visitantes, fizemos churrasco, plantei ervas, colhi flores e começo a reconhecer uma meia dúzia de gatos que se alternam em turnos passeando sem a menor cerimônia pelo meu quintal temporário, sem me dar a menor bola, mas me arrancando sorrisos e alimentando a vontade de acolher o meu novo felino, arrumar nossa própria casa, algum dia, em algum lugar.

O trigésimo oitavo endereço!

Foi estressante e trabalhoso, mas deu tudo certo! O que, felizmente, tem sido a manchete da nossa vida ao longo dos anos.

Nos mudamos para meu 38o endereço no dia 15 de abril de 2014. Sim, com esse número quase que intimidador, era de se esperar que tivesse (e tenho!) uma baita experiência no assunto. Ainda assim, tenho essa sensação de que algumas mudanças são mais complicadas que outras e essa foi uma das complicadas.

Por que? Porque não tinha grandes referências de nenhuma empresa transportadora por essas bandas, tinha um nome que uma amiga havia passado, mas não havia utilizado. Portanto, precisei ir tateando um pouco no escuro e torcer para que fossem honestos. E, verdade seja dita, foram corretos em tudo que se proporam. Usei a Simply Removals.

Eles são considerados de um custo mais baixo que a média, mas sem muito mi-mi-mi. O que é uma desvantagem para quem não sabe o que fazer, entretanto no nosso caso, foi ótimo! Veja bem, eu nem preencho aquelas listas de móveis etc para fazer orçamento, já negocio direto com as empresas por número de caixas e metragem cúbica. Não preciso de visitas prévias. Apesar do que, essa foi a primeira empresa que, efetivamente, contou com o que eu disse e não fez nenhuma visita prévia, se eu tivesse dado alguma informação errada, problema meu, iria pagar o que precisasse a mais! Confesso que com toda a onda que tiro, entre nós, me deu um medinho. Será que disse tudo certo mesmo? E se não entenderam meu inglês direito?

Muito bem, havia a opção de fazer tudo em um dia só, ou embalar em um dia e transportar no outro. Sempre faço tudo no mesmo dia, mas era o mesmo preço, minha primeira vez com eles, havia empacotado um monte de coisas por minha conta… quer saber, vamos tentar em dois dias que tenho mais segurança.

Tinha praticamente certeza que os funcionários seriam do leste europeu, ou seja, o pessoal que eu tenho medo (sim, eu sei que é preconceito e tal, mas já expliquei por aqui que meu problema é que não consigo entender a cultura e me sinto insegura. É pura ignorância assumida!).

E não deu outra, segunda-feira, chegam dois indivíduos, um educado, normal, apenas preocupado onde estacionar seu carro. Bom, a gente havia reservado vaga para o dia da mudança e pagamos uma nota por isso, mas para o carro do empacotador, não tinha nada reservado, sinto muito. De toda maneira, me propus a ajudá-lo a tomar conta se alguém aparecesse para multar e tal. O outro empacotador mal abria a boca e tinha a maior cara de mau! Mas enfim, não mexe com quem está quieto, né?

Havia deixado tudo encaminhado em casa, deixo tudo muito organizado antes deles chegarem, porque uma vez que eles entram, é como um furacão, quando você vê… já foi! Pois bem, nas cláusulas que recebi por e-mail em relação à mudança dizia que não transportavam bebidas nem comida. Na verdade, a maior parte das transportadoras dizem isso, ainda que até hoje, sempre consegui contornar a situação e levar as bebidas de alguma maneira. Nós somos colecionadores (e bebedores) de cachaça, temos aproximadamente umas 40 garrafas em casa, fora os vinhos, whiskies etc. Assim que já havia me preparado para levarmos nós mesmos essas garrafas, no carro de amigos, após a mudança. Daí, deixei tudo encaixotado, mas com as caixas abertas, separado embaixo de uma mesa, meio sem saber como abordaria o tema do seu transporte no dia seguinte.

O empacotador com cara de mau, foi o que ficou nesse área da casa e eu na outra ponta do apartamento com medo dele, mas de vez em quando ia lá dar uma olhadinha, bem rápido, no que estava acontecendo. Em uma dessas vezes, quando chego na cozinha, está ele embalando as bebidas que havia separado e achado que eles não levariam; na verdade, havia embalado boa parte delas! Eu devo ter feito uma cara de surpresa quando cheguei e o vi empacotando novamente as bebidas, no que ele me responde sério: essas bebidas não estavam bem embaladas, estou colocando de um jeito mais seguro. Ou seja, com essa frase, queria dizer que ele não estava nem aí se era proibido ou não, se estavam empacotando, eles levariam! Eu nem titubeei, respondi assertiva: você tem toda razão, o seu jeito está muito melhor! E saí comemorando sozinha pelo corredor e já achando o cidadão com cara de mau gente boa pacas!

Em mais ou menos três horas eles terminaram o serviço, foi rápido! Até porque, modéstia às favas, estava fácil de resolver. Achei bom dividir em dois dias, é menos cansativo e me deu mais confiança que no dia seguinte eles realmente apareceriam para o transporte. Porque veja bem, recebi tudo por e-mail, paguei e não tinha um só papelzinho assinado comprovando nossa negociação!

Encurtando o suspense, pontualmente na terça-feira, dia 15, a segunda dupla apareceu, com o caminhão direitinho do tamanho que havia negociado. Ambos novamente do leste europeu, lituanos, e para eu pagar com a minha língua, um deles era a maior simpatia! Um ótimo astral, brincalhão e bastante educado. O outro era mais sério, mas depois descobrimos que simplesmente quase não falava inglês, sempre que precisava se comunicar, o mais simpático traduzia.

Foi um pouco mais demorado do que imaginava, mas é que o caminhão veio cheio até as bordas e é um quebra-cabeças fazer caber as coisas. E o principal, levaram praticamente tudo, inclusive o que imaginava que não fosse possível. O que para nós foi fantástico, porque quase não sobrou o que levar depois, a não ser um aspirador de pó, que deixei de propósito e uma escultura grande e muito frágil que precisava ir no meu colo.

Nós não temos carro aqui, então, uma amiga ficou de ajudar no fim de semana se precisasse, outro amigo estava meio enrolado no trabalho, mas tentando dar um jeito de sair… nisso, durante a mudança uma outra amiga diferente liga oferecendo o carro se quiséssemos levar algo naquele dia. Maravilha! Fechei com ela, na verdade, um casal, fiquei de ligar quando acabássemos.

Quando estávamos quase terminando, como íamos de metrô, Luiz resolveu ir para casa nova na frente e não correr o risco do caminhão chegar primeiro. Além do mais, ainda nem tínhamos a chave da casa ainda, imagina isso! Fiquei eu no apartamento antigo para finalizar o processo.

Daí a jóia rara do meu digníssimo marido, me pergunta em inglês alto e claro na frente do carregador: você não podia ir com eles de carona? Eu queria matá-lo, juro! Veja bem, qual o marido que oferece a sua mulher para ir de carona sozinha com dois lituanos desconhecidos de caminhão? Só o meu, né?

Fui rapido e literalmente tirando o meu da reta, que eu precisava limpar algumas coisas antes de sair e não ia atrasá-los. E o próprio lituano simpático, também já estava se desculpando, mas disse que não podiam levar mais ninguém no caminhão por uma cláususa do seguro ou algo assim. Claro, claro, entendo perfeitamente, não se preocupe…

Pois muito bem, a medida que iam terminando os ambientes, eu ia atrás passando o aspirador para adiantar meu serviço e saí alguns minutos depois deles do apartamento para pegar o metrô. Por via das dúvidas, esperei o caminhão sair para justificar minha estadia. Luiz já havia chegado na casa nova.

Deixar o apartamento vazio foi estranho, costuma ser. Porque de uma hora para outra, não é mais minha casa, a energia muda. Caminhei até a estação do metrô viajando sozinha, lembrando de quando cheguei, também sozinha e com um apartamento vazio. Mas ainda tinha muita coisa para fazer e não dava tempo de ficar melancólica!

Cheguei na casa nova pouco antes do caminhão, Luiz já havia pego as chaves e conversado com o proprietário.

É que como nada nosso é simples, ainda tinha outro porém, a entrada da casa fica em um corredor um pouco apertado para os móveis entrarem, alguns simplesmente não poderiam fazer a curva e passar pela porta da frente. A solução era passar pelo corredor lateral do vizinho e entrar por uma passagem removível na cerca de madeira entre as duas propriedades. Porque a porta que dá para o jardim é bem acessível. Contando assim é mais complicado do que foi na prática, mas sabe como é, tudo depois que se sabe é mais fácil.

O vizinho estava viajando, mas nosso proprietário tem (ou tinha) a chave do seu portão lateral. Isso facilitou bastante, pois não precisamos incomodar ninguém. Quero ver no dia que a gente precisar sair, mas aí é outra história!

Resumindo a ópera, foi trabalhoso, mas nada anormal para uma mudança. Havia feito maquetes improvisadas dos ambientes e sabia praticamente onde iria tudo, isso também facilitou. Modéstia às favas, experiência… sabe como é…

Final da tarde, tudo dentro de casa, finalmente assinamos algum papel, que a essa altura nem me fazia diferença, já estava tudo pago mesmo! Demos uma boa gorjeta para os lituanos, afinal trabalharam bem, sem reclamar e, novamente para eu pagar a língua, nenhuma cara feia! Pelo contrário! Ficaram felizes com a gorjeta, acho que nem esperavam, acho que ninguém espera gorjeta aqui.

Nós estávamos mortinhos da silva, mas ainda faltava voltar para o apartamento, terminar de limpar e pegar as coisas que ficaram por lá. Ligamos para o casal que ía nos dar essa carona de volta. Eles ainda demorariam a se liberar, o que achamos até bom, resolvemos sentar para comer alguma coisa, afinal, nem almoçar a gente havia conseguido!

Com as olheiras arrastando pelos joelhos, paramos em um restaurante de carnes da nossa vizinhança, o Lomito. Luiz me faz a proposta indecorosa de deixar a limpeza do apartamento para outro dia e relaxarmos um pouco. Levei mais ou menos 14 segundos para aceitar! Pedimos uma caipirinha (sim, havia caipirinha!) e comemos uma carne divina!

De qualquer maneira, havíamos marcado com o casal no apartamento e, logo depois do jantar, nos dirigimos para lá. Na verdade, até passei um aspirador rápido onde faltava, e faltava pouco, porque já havia adiantado bastante coisa, mas já não fiz mais do que isso. A escultura não coube no carro deles, mas foi a única coisa que ficou para trás e a buscaríamos no fim de semana.

Eles nos deixaram em casa, mas nenhum de nós aguentava mais tomar ou comer nada, todo mundo cansado! Então, eles só visitaram a casa nova rapidamente para conhecer e se foram.

Lá fui eu dar uma aspirada rápida no andar de cima, onde ficam os quartos, afinal já deve ter dado para perceber que sou neurótica com limpeza, e Luiz ia atrás passando um pano para o acabamento. Limpei o banheiro e o resto podia ficar para depois.

Deixo aqui uma dica para quem se muda, separar uma mala com roupa de cama e de banho, além da roupa que vai precisar no dia seguinte. Dessa maneira, você pode fazer o que fizemos no final de um dia duro de mudança: tomar um banho quente, desses de lavar a alma, deitar na sua cama com roupa de cama limpinha e apagar até o sol despontar!

Uma história de amor

Levantei tarde. Decidi que hoje só sairia da cama quando o corpo doesse! É o primeiro dia, depois da mudança de casa, que não tenho um compromisso pela manhã. Aliado à notícia triste de ontem e, por consequência, uma baixa de resistência, uma gripe ou alergia me derrubou. Nada grave ou que uma manhã tranquila e um chá com gengibre não cure.

Ontem faleceu minha sogra e fiquei triste. Achei que aceitaria com mais facilidade, afinal a idade e a experiência têm me adestrado a isso. Mas me custou e ainda nem sei porque me abalou mais do que meu sogro, porque acho que amava os dois igualmente. Talvez porque meu sogro estivesse tão pronto, tão preparado, como simplesmente fosse dar o próximo passo. Então, foi mais natural para mim. Acho que ele teria inclusive dado esse passo antes, se não fosse pela preocupação em deixar minha sogra.

E hoje falo dela, ou pelo menos como interpreto a parte que conheci. Acho que era uma mulher à frente do seu tempo, uma cabeça técnica e científica em um período que esse era um privilégio para os homens. Pois coloquem essa cabeça “masculina” em um corpo ensinado que o certo era casar, ter filhos e viver só para eles. O resultado evidente seria uma pessoa amarga e frustrada, mas não aconteceu assim. Ela era doce, gentil, discreta e carinhosa a seu jeito. E, eu pelo menos, pouquíssimas vezes a escutei reclamar.

Não acho que era o tipo de se queixar e sim de tomar a iniciativa, mesmo que fosse através do meu sogro. Ele tomava à liderança, mas no fundo, fazia o que ela queria. E bom que fosse assim, pois eram mais e melhores dessa maneira.

Se não era adequado para uma mulher ter uma carreira ou se era impossível acompanhar o marido em suas mudanças se tivesse um emprego, novamente deu seu jeito. Virou professora particular de matemática, e ainda que não tenha sido sua aluna, não tenho a menor dúvida que sua inteligência amparada pela sua generosidade a fizeram uma professora genial! Não será à toa que ao Luiz lhe encanta ensinar e nem por acaso que tenha se formado em Matemática (Informática, no seu tempo, era atrelada à Faculdade de Matemática). Afinal, teve desde cedo o exemplo da melhor professora do mundo! Quando me casei com Luiz, ela ainda dava aulas, e mesmo décadas depois, não era incomum encontrar adultos, ex-alunos, pela rua lhe agradecendo com carinho. Coisa que a deixava sempre muito feliz.

O tempo passou rapidamente e talvez também seja por essa consciência que tenha me abalado tanto a notícia. Tenho mil histórias para contar, mas só vou contar mais uma. Com os dois já bastante idosos e meu sogro precisando dos cuidados de enfermeiras por 24h, minha sogra surtou. A carga foi demasiada e precisou ser literalmente internada. Sua saúde era de ferro, mas a cabeça não aceitava e começou a dar sinais visíveis de demência senil. Meu sogro, por sua vez, com a saúde extremamente debilidatada, mas as idéias mais lúcidas que nunca. Fomos ao Brasil para retirá-la da tal clínica e entender o quanto ela estava pronta para voltar para casa, sem significar um risco para ela nem para o meu sogro. Ela estava pronta. Precisava ser medicada, precisava de enfermeiras também, mas começava a aceitar que a realidade era outra, havia se convertido em outra.

Após a sua chegada, discretamente emotiva e pouco conversada entre os dois, afinal, acho que nem sempre a gente precisa de palavras quando se conhece tão bem, sentaram-se à mesa, comeram alguma coisa e foram se deitar, juntinhos e abraçados. Um suspiro de alívio e a respiração sincronizada de siameses.

A imagem dos dois deitados abraçados está entre as mais bonitas na minha memória. Um reencontro repetido sistematicamente por 60 anos. Um contraste entre a falta de privacidade em precisar fazer isso em meio às enfermeiras e nós mesmos, com a bolha de cumplicidade em um mundo paralelo só deles.

Quando meu sogro faleceu, minha sogra murchou. Ela tentou e confesso que, por muitas vezes, a sentia reagindo, melhor, tentando se animar mesmo sem vontade. Mas chegou ao seu limite.

Podemos buscar explicações, motivos ou enumerar os problemas de saúde que foram aparecendo ao longo do último ano. Podemos aceitar que se foi por velhice, por doença, por saudade… por tudo isso junto. Todos são motivos razoáveis e às vezes é uma questão de optar em qual versão preferimos acreditar.

Na minha versão da história e a que vou me lembrar, fico com a que acho mais bonita, prefiro pensar que ela simplesmente morreu de amor.

Tudo certo, nada resolvido!

Basicamente, a história da minha vida. A gente vai tocando o barco por não haver outra alternativa, mas raramente a gente tem a maioria das variáveis razoavelmente controladas, nem digo todas porque nem tenho esperança dessa possibilidade.

Começou com esse mora-não-mora-onde, daí quando se decide que é em Londres mesmo que ficamos, está pensando que está tudo resolvido? Claro que não! Vai buscar outro endereço… encaixar a saída de um endereço com a entrada no outro… esperar o proprietário da casa alugada assinar o contrato depois que a mudança já precisa estar contratada… começar a embalar a mudança sem saber se conseguirá a vaga para o caminhão na frente de casa… e por aí vai! Tudo certo, mas nada resolvido até os 43 minutos do segundo tempo!

Como sempre, todo mundo partindo do princípio que o processo é óbvio e que você tem a obrigação de saber todos os detalhes do trabalho alheio, né?

E isso sem falar que a vida pessoal segue, Luiz não está trabalhando menos e ainda pipocando problemas de saúde com sua mãe no Brasil. Treinamentos sendo marcados no mês que aviso desde o começo do ano que não tenho internet para dar suporte. Meu irmão chegando pelas bandas européias no final do mês e eu me virando para achar um jeito de viajar para encontrá-lo…

Sério, estou estressada! Tem horas que me invoco e distribuo um “par de hostias”, porque modéstia às favas, sou muito legal e flexível, mas às vezes o povo abusa, em qualquer lugar do mundo. Verdade que esse critério tem funcionado bem.

Mas enfim, se todo mundo fizer o que disse que ia fazer (e a gente não teve outra alternativa a não ser acreditar), essa novela se encerra em breve. Hoje é sexta-feira, tenho a maioria das coisas frágeis já embaladas por mim mesma; na segunda-feira vem dois homens aqui em casa embalar o restante e transportam na terça-feira, dia 15 de abril. Uma vez a mudança dentro da próxima casa, fica só o trabalho de arrumar, mas isso não me preocupa, é só trabalho e depende basicamente de mim. O que me enlouquece é depender da resposta dos outros. E, às vezes, para complicar um pouquinho, dependo da resposta alheia por telefone com cada sotaque mais difícil de entender que o outro! Ainda bem que Luiz me ajuda!

Pronto! E agora que desabafei, ficou um pouco melhor! Vou tentar dar uma última corridinha na minha querida academia do parque. Pode ser que uns 10km me acalmem!

Ajudamos a Mariana?

Recebi o pedido abaixo aqui no blog e achei bonitinho.

“Oii, tudo bem? Eu estou procurando pessoas que possam me ajudar a fazer uma homenagem para o meu namorado, quero dizer a ele que o mundo todo sabe que eu amo ele, pois mês que vem fazemos 7 anos de namoro. E então estou pedindo para pessoas que moram fora me ajudarem, tirando uma foto na cidade que estão com um papel escrito: “Rafael, aqui (em tal lugar) todos sabem que a Mari ama você”. É dificil pois não tenho muitos amigos no exterior, então tenho que parecer uma louca e pedir para estranhos, mas espero encontrar pessoas legais e a favor do amor que possam me ajudar! Caso queira ajudar: marib_log@hotmail.com

Não conheço a Mariana pessoalmente, mas trocamos várias mensagens e não custa dar uma força ao amor, né? Assim que, amigos leitores pelo mundo, quem quiser colaborar com ela e sua homenagem romântica para o Rafael, fiquem à vontade!

PS1: Favor, enviar as fotos até dia 13 de abril de 2014!

PS2: Essa é a Mariana, dando o exemplo e divulgando publicamente seu amor!

DSCF3724

PS3: Quem ficar com vergonha ou não quiser aparecer, pode enviar assim:

Mariana
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English version!

Dear friends around the world, let’s help Mariana (Mari) with her love tribute? You just have to write in a paper “Rafael, here at (your city’s name) everyone knows that Mari loves you!”, take a picture in your city and send to her at marib_log@hotmail.com. Good luck to Mari and Rafael!

Original translated message:

“Hi, guys! Next month, my boyfriend and I will complete 7 years together and I am looking for people who can help me to make a tribute for him. I want to tell that everyone around the world knows that I love him. So, I’m asking for people who live outside to help me, taking a picture in the city that they live with this message writen in a poster:

“Rafael, here at (city’s name) everyone knows that Mari loves you!”

It’s hard to reach it because I don’t have many friends abroad, so I look like a crazy person asking that for strangers. Anyway, I hope to meet nice people who believe in love and could help me! If you want to help, please send your picture to marib_log@hotmail.com”

Until April 13th!

Carnaval 2014 em Londres

O carnaval britânico é simplesmente o máximo! A cidade se transforma por uma semana! Ruas decoradas, desfile de blocos, escolas de samba… Portela campeã… até que você acorda e descobre que algo semelhante a isso só nos seus sonhos mesmo!

Queridos e queridas, não há como dourar a pílula nem descrever de uma maneira mais elegante: o carnaval de Londres é uma merda!

Veja bem, no ano passado a gente mal havia chegado ao país, mas nos colamos a um grupo e fomos passar o sábado de carnaval no Guanabara. Que eu saiba, é o maior e mais conhecido bar brasileiro por essas bandas. Para ser sincera, aproveitei bastante, principalmente pela companhia. Meu irmão e minha cunhada também estavam de visita, enfim, foi legal e mantemos até hoje bons amigos que conhecemos nesse dia. Naquela noite, me lembro de pensar que no ano seguinte, teria que dar um jeito de estar em algum grupo de “batuqueiros” e me enturmar melhor para curtir essa época com meu tamborim em punhos.

Pois é, mas a gente ia para Miami, lembra? Então, deixei o plano para lá. Quando descobrimos que não íamos mais, já não dava muito tempo para organizar nada decente! Aliás, nem indecente daria! Afinal, tudo aqui é combinado com meses de antecedência (e sigo sem me adaptar a esse quesito).

Daí pensei em ir ao Guanabara mesmo, como no ano anterior. Comentei com alguns amigos que se animaram, mas nem tanto. Era mais pela completa falta de outra opção.

Muito bem, deixa eu abrir um parênteses, eu simplesmente amo carnaval! Luiz, não dá a menor bola para o evento, assim que desde que nos casamos, essa época é sempre meio nebulosa com alguém fazendo alguma concessão. O que, nesse caso específico, geralmente sou eu, pode acreditar. Raramente, a gente passa um carnaval que se preze!

Em Madri, não era de todo mal, pelo contrário. A gente só tinha um dia de carnaval, o sábado. Mas como já morávamos a algum tempo e tínhamos muitos amigos animados, sempre agitávamos alguma coisa e praticamente todos os carnavais saíamos com os intrumentos batucando pela rua. Eu nem faço mais questão do carnaval inteiro, um sabadozinho me satisfaz, melhor que nada!

Muito bem, na sexta-feira, havia um jantar aqui em casa com o pessoal do trabalho do Luiz. O big boss e o super big boss estavam de visita por Londres. Digamos que era um evento político, mas nem por isso menos agradável. Caprichei no jantar e gostei muito de conhecê-los.

Nem tinha expectativa de fazer nada mais essa noite, mas assim que acabou o jantar e, modéstia às favas, foi um sucesso, lembrei que no Brasil o carnaval estaria bombando e me bateu os cinco minutos que eu precisava, porque eu precisava, ir para um baile de carnaval a-go-ra!

Ainda liguei para um casal de amigos animados para ver se eles também topavam, mas eles já estavam no fim de noite. Lembrem-se que Londres é uma cidade que dorme cedo.

_ Luiz, então, vamos nós dois para o Guanabara! Pelo menos a gente vê se vale à pena voltar lá amanhã ou aborta esse plano de vez!

Pegamos um taxi, com Luiz dizendo que a gente não ia conseguir entrar e blá, blá, blá… claro que vamos conseguir entrar… ligamos para mais um amigo tentando convencê-lo a ir, mas esse sabíamos que era só farra, porque ele detesta o lugar!

Muito bem, entramos e ficamos mais ou menos doze minutos no bar!

Sério! Ok que já era tarde e tal, mas não havia no recinto nada, absolutamente nada que lembrasse remotamente um baile de carnaval! Nem decoração, nem música, nada! Nada de nada! Não vou nem dizer que estava ruim, mas estava igual a qualquer outro club da cidade, o que nesse dia, vamos combinar, não tem nada a ver, né? Principalmente, em um bar brasileiro!

Ainda bem que os amigos não toparam ir para lá conosco! Eles iam querer me matar! Voltei para casa bastante desiludida e me prometendo que no dia seguinte não voltaria nem a pau!

Felizmente, no próprio sábado, uma amiga estava fazendo uma festa de inauguração da sua casa nova e, por ser brasileira, acabou se animando a fazer um tema de carnaval. Foi o que salvou! Não era exatamente um baile, mas juro que estava muito mais divertido do que o tal do Guanabara!

Pois agora, que eu tenha registrado, que se quiser um carnaval razoável daqui para frente, vou ter que tomar a iniciativa e correr atrás com antecedência. Acho que tem muita gente que gosta, topa e colabora, mas falta quem acenda o pavio. Não me incomodo em ter o trabalho de organizar, portanto que nos aguardem no próximo ano. Não sei que raio a gente vai arrumar, mas prometo (ou ameaço) que igual a esse carnaval não será!

Quem sai na chuva…

Já dizia Vicente Matheus, quem sai na chuva é para se queimar, certo?

Então, vamos lá. Logo que mudamos para Londres, optamos por morar em um lugar muito legal e central. Optamos por Maida Vale, em uma zona que eles chamam de “very posh area”. O que seria perfeito… se não fosse estupidamente caro! E, para ser franca, apesar de achar nosso apartamento um charme, nem temos tanto espaço assim.

O plano A era morar aqui por um ano, enquanto conhecíamos Londres melhor e depois disso fazer como os ingleses, sair do centro, ir para zonas periféricas onde você tem muito mais espaço e paga um preço mais razoável. A questão é saber por qual dessas áreas optar. Quais bairros são seguros? Quais são as melhores linhas de metrô para você? Enfim, perguntas difíceis para você responder logo que chega a uma cidade tão grande como Londres.

Logo, achamos que nos mudaríamos para Miami e paramos de pensar nisso.

Quando a mudança deu para trás e a proposta em Londres parecia bem melhor, ou seja, achamos (porque nunca temos certeza) que ficaremos aqui por mais algum tempo, pensamos que talvez fosse um bom momento de voltar ao plano original e buscar novo endereço.

Além do mais, depois de ver tantas casas em Miami, já tinha na minha cabeça essa vontade implantada. Estava muito afim de morar em casa ou, pelo menos, um apartamento que tivesse saída para um jardim, o que aqui é relativamente normal.

Outro fator importante é que você faz um contrato por determinado período, normalmente um ou dois anos. Se sair antes desse tempo, a multa é tão alta que não compensa. Como a gente já havia cumprido mais de um ano no atual endereço e já havia avisado mesmo que iria sair, era a hora certa!

Ok, até aí, tudo bem, mas vai procurar lugar para morar em Londres assim do dia para a noite para você ver o que é bom para tosse! Lá foi Bianquinha pedir referências para deus e o mundo sobre bairros para morar e Luiz também pegou algumas referências com seus amigos no trabalho. Além do que, fiquei vesga de tanto ver imóveis pela internet! Verdade que foi mais fácil agora do que há um ano, pelo menos tínhamos alguma noção de por onde começar. Outra coisa que fizemos em fins de semana era pegar o metrô para algum bairro potencial e andar em volta, ver se gostávamos da área, visitamos imobiliárias, enfim, serviço completo!

Até que conseguimos decidir por determinada zona e focamos esforços, facilita bastante. Nossas preferências eram Harrow-on-the-hill, Northwood e Stanmore. Temos uma amiga que mora em Stanmore que me ajudava a dar dicas se o lugar era bom ou não.

Resumindo a ópera, vimos uma casa em Northwood que me interessou bastante. É longe do centro, zona 6 (para dar uma idéia de distância, o centro é zona 1, hoje moramos na zona 2). Acontece que tem metrô bem próximo e é exatamente a linha que Luiz usa para o trabalho, faz toda a diferença do mundo! Achei o bairro elegante, é considerado muito seguro e de um nível legal. Ali poderemos economizar brincando uns 30% no valor do aluguel e ainda por cima morar em uma casa bem maior.

Na rotina diária, não muda minha vida nem a do Luiz. Nos fins de semana, se quisermos sair à noite no centro de Londres, pode complicar. Acontece que foi aprovado liberarem a circulação do metrô durante toda a madrugada no final de semana, é uma questão de pouco tempo para entrar em vigor. Ou seja, a princípio, parece perfeito!

Fizemos proposta nessa casa e agora esperamos a papelada ser aprovada. Dedos cruzados! Se não for essa, será outra, mas adoraria resolver logo isso, porque o tempo está passando e nosso prazo ficando cada vez mais curto para organizar a mudança. Lembra que ninguém faz nada nessa terra de improviso, né? Tudo é agendado com uma irritante antecedência!

Enfim, mais uma vez, vamos dar uma chance ao caos! É uma dor de cabeça e só de pensar me dá preguiça! Vamos combinar que caminho para meu 38º endereço! Sério, ninguém merece! Por outro lado, é uma casa tão legal, com mais espaço, jardim lindo, um bairro super charmoso…

Como diz uma amiga minha, universo faça sua parte! A nossa, às vezes reclamando um pouquinho, estamos caprichando.

Lembra que íamos para Miami?

Tudo isso passando e, em paralelo, começamos a nos organizar para a mudança de país. Lembra que a gente ia para Miami, né?

Pois é, procura casa pela internet daqui… cota com companhia de mudança dali… escolhe o bairro que vai morar… avisa ao proprietário do apartamento que vamos sair… começa a fazer o treinamento para o trabalho novo (virtual), sem saber em que país vai começar a trabalhar… recebe as últimas hóspedes em janeiro, porque a partir de fevereiro a gente já não sabe mais quando muda… programa o cancelamento da academia de ginástica… dá entrada nos papéis de visto… aquela correria de mudança de sempre! Sem tentar me justificar, boa parte do motivo de quase não conseguir sentar para escrever, era exatamente ter tantas pontas soltas para fechar. Mal conseguia me programar!

Muito bem, queria viajar a Madri para me despedir dos super amigos que temos por lá. É lógico que pretendia voltar em algum momento, mas convenhamos que desde Miami é muito mais difícil que de Londres.

Em Fevereiro, fazíamos regularmente uma grande festa por Madri, o famoso “Feveillon”! Achamos que seria uma ótima oportunidade de rever a todos a fazer uma despedida que não ficasse um clima triste, pelo contrário.

Para quem não acompanha o Buraco da Fechadura, “Feveillon” é um “Réveillon” fora de época, comemorado sempre em fevereiro.

Resumindo uma longa história, tudo começou há mais ou menos uns 7 anos, quando fizemos uma festa de Ano Novo histórica! Foi muito boa mesmo! No ano seguinte, infelizmente, passamos por um período difícil com problemas de saúde na família e cheguei em dezembro muito decepcionada, desanimada, enfim, sem vontade de comemorar. Viajamos sozinhos, Luiz e eu. O fato é que, sem a gente se dar conta, havia um monte de amigos esperando nossa festa de fim de ano que não aconteceu! Bom, eu achava normal convidar as pessoas quando fazia uma festa, mas nunca imaginei que precisava avisar que não faria uma!

Muito bem, começou o ano e seguia complicado. Entretanto, olhei em volta do meu umbigo e percebi que não era complicado só para a gente, todo mundo tinha problemas! Porque a vida é assim, somos nós que temos que nos adaptar! Ainda havia amigos viajando, o povo meio borocochô, parecia que a virada de ano estava incompleta. E como assim, a melhor festa do ano inteirinho ser tão sem graça? Ah, não!

Esperamos terminar janeiro, os amigos mais próximos espalhados voltaram para Madri e organizamos uma festa em fevereiro para iniciar os trabalhos do ano. Assim surgiu a idéia de fazer um novo Réveillon! Todo mundo de branco, estourando champagne à meia noite, pulando 7 ondas (improvisadas), comendo as uvas… enfim, todas as supertições de direito! E, como sempre, os amigos são nota 10 e embarcaram na viagem! E foi de uma das amigas a idéia de juntar: fevereiro + réveillon = Feveillon!

Virou tradição e todo ano a gente fazia!

Enfim, voltando a esse ano, fevereiro seria um mês perfeito para a gente ir a Madri se despedir dos amigos, então, por que não fazer o Feveillon? A única coisa é que como já não moramos mais por lá, organizar um evento ficava meio complicado. Acontece que temos duas amigas dessa mesma turma que começaram a trabalhar com isso, organização de eventos pelas noites madrileñas, então, juntamos a fome com a vontade de comer! Elas organizaram tudo e eu ajudava a colocar pilha e convidar as pessoas virtualmente. Fizemos uma vaquinha para contratar os músicos e pagar as despesas.

E assim rolou um Feveillon le-gen-dá-ri-o! Mas já conto melhor.

A festa foi no dia 15 de fevereiro, um sábado. Luiz precisou viajar na semana anterior ao Brasil, a trabalho. Eu fui antes, na quinta, para Madri e Luiz já me encontraria lá, no próprio dia do evento.

Pois bem, eu de malas prontas para embarcar, Luiz me telefona: precisamos conversar…

Fiquei logo preocupada, achando que fosse algum problema de saúde com a mãe dele! Mas não era. Ele começa a me dizer que tinha acabado de jantar com um dos sócio da empresa onde trabalha. Teoricamente, para acertar os detalhes da ida para Miami.

_ …pois é, Bi, nós não vamos mais mudar para Miami. Ficaremos em Londres!

_ Hein? Como assim? Vamos adiar?

Não, não íamos adiar, a gente não vai mudar mais mesmo! Descobri assim… pelo telefone… embarcando para Madri para uma festa de… despedida?

Sério, fiquei em estado de choque! Não vou negar que, como cidade e país, gosto muito mais de morar aqui. Mas havia me acostumado com a idéia de ir para Miami e havia uma série de vantagens interessantes. Honestamente, a única coisa que me vinha à cabeça era a expectativa que já havíamos gerado na nossa família, principalmente em meus pais, e em um casal de amigos muito queridos que moram em Miami também. Caraca, e agora? Como é que eu conto isso?

Cheguei em Madri meio atordoada, por muitas razões! Primeiro, porque havia cerca de um ano que não ía para lá, foi a primeira vez que fui com outro olhar, de quem já não mora. Escutar o espanhol, reparar pequenas mudanças no comércio e nas ruas, saber que encontraria os amigos tão próximos, que sigo sentindo próximos, mas já não abraçava há alguns meses, tudo tão familiar e igualmente tão estranho. Meu espírito preparado para uma despedida que não seria mais e, ao mesmo tempo, no fundo não era mais minha casa, então essa despedida já havia acontecido. Muito confuso!

E, ainda por cima, eu com aquela bomba recém estourada no meu colo! Não sabia nem se já podia contar para as pessoas! Queria ao menos conversar direito com o Luiz, pessoalmente, para entender melhor que novidade era aquela.Também não queria sair divulgando porque vai que alguém comenta alguma coisa pelas redes sociais? E vamos combinar, comentar o que? Se nem eu mesma havia entendido bem!

Enfim, Luiz chegou e me dei conta de que era aquilo mesmo, não mudaríamos mais de Londres. Na verdade, era até boa notícia, ele acabou recebendo um tipo de promoção por aqui e estava muito motivado. Era final de semana e não tínhamos muito o que fazer a respeito, então, resolvi relaxar, aproveitar e quando chegasse de volta à casa, mudava o chip e sairia amarrando as pontas do que precisasse resolver.

Acontece que os amigos perguntam, é natural. Decidimos divulgar a notícia, mas pedimos que não fosse comentado ainda, porque queríamos falar com algumas pessoas primeiro. Todo mundo colaborou!

Lógico que chutamos o pau da barraca ao celebrar o Feveillon-não-despedida! Entre as melhores festas que já participei! Músicos de primeiro nível, que oficialmente nem teríamos cacife para pagar, a sorte é que eram todos amigos! Todo mundo vestido de branco, um alto astral generalizado! E a promessa de que no ano que vem tem mais!

Voltamos de Madri exaustos! As olheiras pelo joelho, mas muito felizes.

No próprio domingo, ao chegar em casa, liguei para os meus pais para conversar. Para complicar, o computador pifou, queria conversar direito pelo Skype, mas paciência, foi por telefone, não queria mais adiar. Dei a notícia também para o casal de Miami. Acho que ficaram decepcionados, mas entenderam que no final das contas, foi para o bem.

Daí, no sábado seguinte, era a festa de despedida para os amigos aqui em Londres. Pensei, quer saber, não vou avisar a ninguém antes, a festa já está marcada, deixa rolar e contamos a eles pessoalmente!

Assim foi, pela segunda vez, uma festa de despedida que virou ao contrário! E também foi bem bacana. Acho que eles ficaram felizes e é gostoso quando a gente se sente bem vindo.

Até aí, tudo muito bom, tudo muito bem… mas operacionalmente, fez-se o caos!

Lembra que já havia contratado companhia de mudança, pedido para sair do apartamento etc? Precisávamos reverter tudo! Mas espera aí, interrompemos tudo ou aproveitamos que começamos esse processo e mudamos para outro lado aqui em Londres mesmo?

Quem conhece a gente há mais de dois minutos, adivinha? Mas essa história fica para a próxima crônica!

Resumão geral!

Queridos leitores do blog, já nem tenho mais desculpa para estar tão desatualizada por aqui. Mas juro que tudo aconteceu nesses últimos dois ou três meses e ficou impossível de contar no detalhe, ao vivo e a cores, do jeito que gosto. Então, resolvi fazer um resumão geral e seguimos em frente! Paciência!

Preciso ao menos fechar o ano de 2013, para mim é como um ritual de passagem, enquanto não deixo registrado, parece que ficou mal resolvido e a verdade é que foi todo o contrário. Ficou bem resolvidíssimo!

O Natal, comemoramos em nosso apartamento. Sempre abrimos nossa casa nessa época para os perdidos pela cidade e não fugimos à regra dessa vez. Quem mora fora do seu país de origem, aprende a fazer família onde chega, assim que passamos com nossa atual família britânica. E foi ótimo! Jantamos, brindamos, brincamos de amigo ladrão… tudo de direito!

Obviamente, fomos algumas vezes para o skype e, através da santa câmera, nos fizemos presente no jantar da minha família de sangue. Ouvir só a voz pelo telefone é prático, mas parece que faz aumentar a saudade. Uma imagem é diferente, é como se estivéssemos realmente lá ou vice-versa. Nos mantém próximos, na medida do possível.

Enquanto isso, na sala de justiça… seguia eu, firme e forte, correndo, malhando, segurando a boca… fazendo de tudo para voltar ao meu peso até o fim do ano. Veja bem, não era uma simples questão de peso e nem sei se ainda tenho saco de entrar nesse tema, mas é importante para mim fechar esse ciclo, então vamos lá.

Há cerca de dois anos, fiz um tratamento para engravidar. Engravidei, perdi, me entupi de hormônios, deprimi, recuperei… enfim, acho que como tinha que ser mesmo. O ponto é que depois de tudo isso, ainda havia um ponto pendente, o peso que ganhei de maneira nem um pouco natural (e na minha interpretação, bastante injusta!) durante esse período.

É difícil explicar que não era uma simples questão estética, que talvez nem fosse notada por outras pessoas. Era um problema meu, era um símbolo de fracasso, era algo que me fazia reviver a cada vez que me olhava no espelho e não queria me reconhecer.

Assim que, em algum momento de 2013, quando realmente me caiu a ficha dessa questão, me dei um prazo de ter esse tema resolvido até o final do ano. Queria iniciar o ano seguinte, física e emocionalmente, zerada.

Muito bem, malhar e principalmente correr era uma forma de ajudar a alcançar esse objetivo. Consegui chegar a correr 10km, o que para mim era praticamente um milagre! Não fiz sozinha, como de costume, o apoio dos amigos e nesse caso, mais ainda das amigas, ajudou bastante.

Ao longo do ano, não fiz regime, simplesmente mantive uma dieta saudável e bastante exercício físico. Quando chegou no fim de novembro, fiz as contas e vi que faltava tão pouco que me valia o sacrifício, assim que fechei a boca em dezembro e admito que pela primeira vez na minha vida (e espero que última) tomei um redutor de apetite. Foi o suficiente.

No dia 30 de dezembro, voltei da corrida e me pesei. Estava novamente com o peso que comecei todo esse processo hormonal, pessoal, transcendental etc. Dois anos depois, pude finalmente dizer que essa história havia acabado! Voltava ao corpo que me pertencia!

Não sei se daqui para frente vou engordar, emagrecer e não importa! É outro problema! Se eu engordar será porque mereci! Será porque aproveitei, então que se dane! Não há mais desculpas! Não há mais uma memória triste quando me olhar no espelho. Na pior das hipóteses, vou lembrar que na semana anterior chutei o pau da barraca em alguma farra gastronômica!

E uma coisa bastante curiosa e que me marcou foi um tal vídeo do Facebook, com a retrospectiva dos últimos anos. Os posts escolhidos, não por mim, começavam comigo anunciando a primeira vez que havia ouvido um coração na minha barriga, ainda não tinha nem idéia do que viria depois. Acabou exatamente com a foto do tal dia 30 de dezembro, chegando da corrida suada, com o rosto cor de rosa e feliz da vida que esse ciclo havia se encerrado. Não poderia ser mais simbólico, principalmente pela coincidência de fatos.

Enfim, o réveillon, a melhor festa do ano na minha opinião, passamos na casa de amigos que gostamos muito. Uma experiência diferente, já que normalmente é um evento que fazemos na nossa própria casa. Mas a verdade é que curti também variar um pouco. O grupo era divertido e o apartamento deles fica de frente para Canary Wharf, de onde vimos os fogos de artifício. Mais tarde, no horário do Brasil, novamente conseguimos falar com meus pais pelo Skype e pude acompanhar toda a queima de fotos da praia de Copacabana em tempo real! Dupla comemoração de Ano Novo!

A gente havia pensado em dormir por lá, já que o metrô acaba cedo e taxi nesse dia é um inferno! Mas ali descobrimos que na noite de Ano Novo, o metrô roda direto pela madrugada, então transporte não seria um problema. Mesmo assim, ficamos até o final, adoro a hora da Diretoria, quando sobram os donos da casa e poucos amigos para lá de Marraquech, tudo é mais engraçado e sempre fica uma história para contar.

Já não me lembro que horas, mas bem tarde, pegamos o metrô e, para ser sincera, estava divertidíssimo! O pessoal meio bêbado, claro, mas de uma maneira positiva, muita gente conversando, animado mesmo! E antes que me perguntem, não, não vim fazendo amizades pelo caminho. Bem que tive vontade, mas Luiz ficaria tenso e já havia aproveitado bastante.

E assim acabou nosso ano, alma lavada, corpo saudável, novos amigos “de infância”… tudo de direito! Pronta para 2014!

A saga do vestido de noiva

Pois é, sei que tenho uma meia dúzia de crônicas atrasadas, já entramos em fevereiro e nem consegui terminar de contar 2013 ainda! Coisas que tenho na cabeça, algumas mais sérias que outras, algumas que você empurra com a barriga porque não sabe se quer realmente se expor; outras mais leves, mas que queria registrar. Enfim, não importa a cronologia, hoje eu relaxei e vou escrever só para dividir o momento. Afinal, é domingo e quero fofocar com a mulherada, acho até que vou pegar uma tacinha de Chablis para entrar no clima!

Meninos, podem ouvir a conversa se quiserem, mas francamente, acho que interessará a poucos! É papo de mulher mesmo, mas alguns curiosos às vezes gostam.

E, a propósito, ao invés do vinho, peguei um chá de gengibre com limão. Mais propício ao momento que já vou contar.

É o seguinte, no próximo dia 18 de março faço 20 anos de casada. Pelo início do ano passado, tive o plano malévolo de fazer um festão de bodas de porcelana usando meu antigo vestido de noiva. Sim, ainda tenho guardado meu original vestido de noiva!

Havia apenas um pequeno detalhe: estava com quase 10kg a mais do que quando me casei! Era magrela pacas! Putz, menor chance! Até achei que poderia ser motivação para emagrecer… mas 10kg? Acho que nem queria emagrecer tudo isso! Impossível! Ainda mais que o vestido é tubinho, acho que ficaria entalado no pescoço! Muito humilhante para valer sequer uma tentativa. Deixa para lá!

O ano passou, muita água rolou e quase esqueci dessa história. Primeiro, porque acabei emagrecendo por outros caminhos e motivos, qualquer hora escrevo sobre isso, está entre aquelas crônicas que ando enrolando. Depois, porque surgiu a possibilidade de mudarmos de país exatamente nesse período. Assim que nem festa mais a gente tinha certeza se conseguiria fazer.

No Natal, tive hóspede em casa e falamos sobre vestidos de casamento. Fiquei até de mostrar o meu, mas acabei esquecendo. O fato é que lembrei do plano anterior de vesti-lo.

E, a partir de aí, de vez em quando eu olhava para aquela maleta cinza guardada na parte de cima do armário… será que você ainda cabe em mim? Ou melhor, será que algum dia ainda caberei dentro de você?

Ao longo do ano passado, perdi uns 6Kg e algo. Não os 10kg a menos de quando casei, mas já não parecia tão longe ou tão impossível. Uma coisa é que ele ficasse ridiculamente justo, outra é que não houvesse nem esperança de entrar! Pronto, minhoca plantada na cabeça!

Nisso, pedem mais alguns documentos para o nosso processo de visto para os EUA. Fizemos as contas e achamos que mudar em março estava muito em cima. Atualizamos nossa previsão para o fim de abril.

Opa! Se vamos em abril… festa de casamento em março volta a ser viável! Certamente, nada complicado, porque não dá para investir muito nisso agora, temos outras prioridades. Mas com criatividade e animação dos amigos, sempre se pode marcar o momento. E se sem motivo para festa a gente arruma, imagina com razão! Vamos combinar que 20 aninhos de matrimônio merece ser celebrado, certo? Não tenho ideia ainda do que vai rolar, mas já veremos.

Daí Luiz precisou viajar a trabalho ao Brasil, aproveitou para dar uma assistência à nossa família. Acontece que me deixou sozinha em casa um fim de semana, olha o perigo! Eu, sem muito ânimo para sair, mas satisfeita com as últimas notícias de casa, só podia pensar bobagem, né?

Quer saber, vou aproveitar que ninguém está olhando e vou provar o raio do vestido!

Abro a famosa maleta cinza, que dentro tem uma caixa de papelão, ainda com a fita adesiva da companhia de mudança entre São Paulo e Atlanta. O que quer dizer que há muitos anos não era aberta. Primeira surpresa, na minha memória havia somente o vestido de noiva dentro de um plástico. Mas havia três embalagens, uma do sapato que usei na cerimônia, outra com o vestido de primeira comunhão (Sério! Por que mesmo eu o guardei?) e outra com o… tchan, tchan, tchan, tchan… vestido de noiva!

Primeiro pensamento feminino: caraca, não deveria nem ter tomado café da manhã para perder mais algum milímetro de medida! Encolhe a barriga… não respira… coragem!

Admito que apertando aqui e ali… suspense de entalar ou o vestido esgarçar, afinal são 20 anos… opa, entrei! EN-TREI!

Bom, isso visto de frente, né? Quando olho de costas, lógico que o vestido estava aberto! Tudo bem, melhor do que eu pensava! Agora é ver até onde consigo fechar a bosta do zíper! Não deu para fechar tudo, mas como ele é bem decotado atrás, sabe que não ficou mal? Talvez se colocasse algum arranjo ao fim do decote para disfarçar…

Fui procurar um arranjo de tecido parecido. Quando me dei conta que andava como uma foca, mal conseguindo separar as pernas! Lembra que o vestido era tubinho? Ok, foca não, uma sereia, pronto! Uma gueisha, quem sabe… Enfim, andando bem engraçado!

Acontece que a ideia do arranjo não foi de todo má e quando me olhei no espelho grande da sala de jantar, já com as imensas luvas e o cabelo preso em coque, admito que adorei! Sem os óculos não via detalhes e foi muito bom viajar no tempo, me achar parecida, me lembrar. E ainda me emociona e alegra recordar esse dia. Vale dizer que me emociona sem lágrimas, não chorei no meu casamento, estava só feliz.

Agora, a grande dúvida que gostaria de compartilhar: devo passar fome até o dia da festa para caber no vestido ou coloco um arranjo em cima da bunda para disfarçar o decote aberto? Porque aí também não sento nem caminho muito durante toda a noite, né? Ou, de repente, coloco o vestido só para fazer algumas fotos em posições estratégicas e logo troco para uma roupa mais confortável, como acontece em alguns casamentos. Assim, como se fosse esse o plano original mesmo, naturalmente.

Muito bem, ainda não decidi que roupa usarei nas bodas, na verdade, nem certeza da festa tenho ainda. Paciência! A melhor parte foi pensar que tanta coisa mudou, mas sobrando um pouco daqui e apertando um pouco dali, ainda caibo na minha pele, me reconheço. E caminho em direção ao mesmo par de olhos.

Sempre teremos Paris…

Seguimos de Bruxelas para Paris de trem. Uma viagem curta e agradável.

Chegamos no hotel Etats-Unis Opéra, onde costumo ficar. Um amigo trabalhou ali no passado e ficava mais fácil para encontrá-lo. Acabei acostumando, acho um hotel honesto e de bom custo vs. benefício. A localização é ótima, o quarto é limpo e o preço é relativamente bom para a cidade.

Luiz precisava trabalhar um pouco. Então, o deixei no quarto e fui direto para a rua bater perna. Sempre melhor sair com ele que sozinha, mas nesse dia, especificamente, senti que precisava conversar intimamente com a cidade, só nós duas.

Tenho uma relação muito especial com Paris e como não tê-la? Alguns ciclos importantes na minha vida foram encerrados ou iniciados ali. E acho uma delícia caminhar pelas suas ruas me sentindo completamente confortável, reconhecendo cantos, esquinas, bares, prédios, cheiros… lembrando histórias.

Dessa vez, havia um tom de nostalgia que nem sei dizer se era mesmo triste, mas algo como saudades antecipadas. Sair da Europa me afastará. Não é que não possa voltar, não é que fosse para lá com tanta frequência assim, mas saber que estava tão perto era confortador. Ainda que eu não fosse, sempre teria Paris.

Saí da pequena Rue d’Antin pensando em quantas vezes cheguei por ali rolando uma maleta; entrei na Avenue de l’Opéra mentalizando o mapa do centro parisiense e o que estaria em cada direção; optei por entrar pelo Boulevard des capucines, onde ainda há o café que, quando ainda morava no Brasil, fui tomar meu cappuccino tranquila e fugir dos preços abusivos do hotel que fiquei na época, alguns anos depois, já morando na Espanha, sentaria novamente no mesmo lugar com a intenção de fazer minha reflexão do ano que havia passado, sem nem ter ideia de quantas vezes eu mesma ainda passaria por ali; passei pela Lavinia e lembrei de acompanhar meu amigo que comprava uma Dom Pérignon para celebrar a formatura do filho; cheguei à Place de la Madeleine, lembrei da Ladurée, onde finalmente comi o primeiro macaron que achei delicioso; passei na porta do Alain Senderens, meu objeto de desejo; entrei na Rue Royale, não me aguentei e passei na Bernardaud para comprar umas pequenas luminárias de porcelana pelas quais sou enlouquecida; passei pela Place de la Concorde, avistei o Louvre de longe e lembrei da exposição de uma amiga e das vezes que sentei pelo chão do museu para treinar o olhar desenhando esculturas; entrei na Champs-Élysées, bem no comecinho, onde havia uma feira de fim de ano com diversas barraquinhas de comidas e lembranças, uma avalanche de turistas e eu seguindo com meu passo de local, as barraquinhas não me interessavam, passei pelo Lenôtre e lembrei da minha primeira aula de culinária; ainda na Champs-Élysees, mas agora na parte mais comercial, lembrei da minha mãe, da primeira vez que fomos juntas e ali sentamos para almoçar, da primeira vez que foi meu irmão e subimos no Arco do Triunfo, e do fim de uma das melhores noites de Ano Novo da minha vida, em que nem vi o tempo passar e chegando ali perto, lembrei preocupada ao Luiz para ele evitar dirigir pela região porque devia estar cheio de gente, no que ele me olha rindo, Bianca, são seis da matina, não tem ninguém mais na rua!

Voltei para o hotel viajando pelo tempo e espaço e avisando à minha velha amiga que talvez me demore um pouco a aparecer e caminhar por suas ruas, mas que ela não se preocupasse porque não era um adeus e ambas estaríamos bem.

Com meu ritual completo, encontrei Luiz e saímos para jantar com um amigo francês no seu restaurante de carnes favorito, o (esqueci o nome, mas já me lembrarei). Muito bom! A carne realmente era um ponto forte, mas meu prato favorito foi a entrada, um ovo pochet com um tipo de creme de foie gras. Marcamos de jantar juntos no dia seguinte também.

Na segunda-feira, me deu vontade de caminhar até Montparnasse, onde morei na Impasse Robiquet. Fiz toda caminhada com Luiz, nos perdemos um pouco na ida, mas até foi bom para conhecer novas ruas. Voltamos pelo caminho conhecido, seguia meio nostálgica, mas menos que no dia anterior. Demos uma paradinha na Galeries Lafayette, nem compramos nada, só sentamos para tomar uma taça de champagne e fazer hora.

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Jantamos com o mesmo amigo francês, o filho de uma amiga brasileira que apresentamos a ele, um meio que adotou o outro, e uma amiga brasileira que está morando por lá. Fomos a um restaurante na Île-de-France, honesto, nada demais, recomendado mais pela localização e companhia. De lá, caminhamos até o Le Fumoir para um drink de fim de noite e aproveitarmos um pouco mais a conversa.

Nos despedimos rápido, no limite de tempo para pegar o metrô, e com a promessa de tentar fugir mais um fim de semana para lá antes de nos mudarmos. No fundo, sei que será difícil.

Na terça-feira, pela manhã, saímos direto para a estação, hora de ir para casa. Viagem agradável, matei minha curiosidade de fazê-la em trem, gostei da experiência. Passei quase todo o trajeto memorizando a paisagem, lembrando de histórias e tentando não pensar em quanto tempo levarei para voltar, não importa. Gosto de seguir acreditando que sempre teremos Paris.

Como assim Bruxelas é monótona?

Já devo ter contado em algum momento que temos um amigo que costuma dormir aqui em casa alguns fins de semana, um que conhece Luiz desde os tempos de faculdade.

Tradicionalmente, sempre depois de tomarmos todas e mais algumas, fazemos planos de pegar o carro no dia seguinte e ir até Bruxelas jantar em um restaurante português, que esse nosso amigo é fã. Sabe aquela conversa de bêbado recorrente? Pois é, mas a gente levava a sério, simplesmente, não conseguíamos acordar razoavelmente cedo no dia seguinte para pegar a estrada.

Com a possibilidade de mudar de Londres beirando a esquina, resolvi correr atrás de coisas e viagens que faltam fazer por essas bandas, mas que antes não havia pressa. E encabeçava a lista duas pendências: a tal viagem à Bruxelas e uma viagem de trem Londres-Paris. Luiz tinha uns dias sobrando de férias e não tive dúvidas em tentar encaixar ambas as viagens!

Bruxelas tinha que ser com nosso amigo, afinal, já havia virado até lenda! E gostamos de viajar com ele, não é todo amigo que você gosta que combina bem em viagem, mas com esse, sempre costuma dar certo.

Daí, combinamos o seguinte, sair com ele de carro no sábado, em direção a Bruxelas e dormir por lá. No domingo, ele voltava para Londres, porque tinha que trabalhar na segunda-feira, e Luiz e eu seguíamos de trem para Paris. De Paris, também voltávamos de trem para Londres. E pronto! Duas pendências resolvidas! Melhor que a encomenda!

Conto agora a primeira parte da viagem, de Londres a Bruxelas. Muito bem, no sábado pela manhã, fomos para a casa desse amigo que tem carro e partimos para a estrada.

Sempre ouvi falar que a Bélgica era super monótona, que Bruxelas não tinha nada demais e tal. Estive na Bélgica antes, em Bruges, que achei uma graça! Mas ficou faltando a capital. Nosso amigo havia estado em Bruxelas diversas vezes, por conta de trabalho e contava sobre alguns lugares que gostava bastante de lá. Então, achei que valia muito à pena conhecer sua Bruxelas, certamente, mais divertida que a tradicional. Eu nem queria saber para onde estaria nos levando, fui no espírito de relaxar e curtir o que tivesse.

Já comecei me divertindo no caminho. Porque, para quem conhece um pouco de geografia, Inglaterra é uma ilha, certo? Em algum momento você precisa passar pela água! Ou seja, que você faz essa travessia de barco ou via túnel. Sim, um túnel abaixo do mar. Nós fizemos pelo túnel.

É assim, você nem salta do carro, entra dirigindo e tudo dentro de um trem. Ok, sei que é uma bobagem, mas estava achando isso o máximo! O trem é totalmente aberto por dentro. Daí, depois que os carros estão acomodados, eles fecham os vagões com um portão, onde em cada vagão cabem aproximadamente quatro carros. E o trem sai. Você pode saltar do carro, tem banheiros disponíveis, mas a maioria fica pelo carro mesmo. A viagem dura aproximadamente meia hora, passa rápido. Quando você chega e o trem para, eles abrem novamente as portas entre os vagões e os carros saem sendo conduzidos para fora do trem. Muito organizado!

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Chegamos a Bruxelas no comecinho da noite. Tínhamos uma reserva no tal restaurante português tão falado nas nossas noites britânicas e estávamos meio que em cima da hora. Foi só o tempo de largar as coisas no hotel, botar um perfumezinho para disfarçar e correr para o restaurante. Ficamos no NH-Atlanta, central e bem localizado, de onde podíamos fazer tudo caminhando.

Muito bem, o restaurante se chama “O Bifanas”, também conhecido como “Chez Sebastiao”. O Sebastião é um português saído de uma história em quadrinhos, sensacional! Recebe você na porta, com aqueles bigodes enormes enrolados e engomados, todo um personagem! E reconheceu nosso amigo, frequentador da casa, ainda que não morador da cidade.

O salão não é muito grande, com um aquário ao fundo, há outro andar na parte de cima, mas esse no térreo é o mais animado. Não são tantas mesas e parece um pouco apertado. Mas depois de um vinhozinho, fica bem aconchegante.

A gente com o estômago colando nas costas! Lá vem o Sebastião tomar nota do nosso pedido, uns bolinhos de bacalhau que já valiam a visita e em seguida, os meninos pediram bacalhau na brasa e eu um cordeiro. Fiquei na dúvida até se queria o peixe, mas qualquer coisa, poderia provar do Luiz.

Pois bem, na hora que chegam os pratos principais, recebemos três pratos de bacalhau! O Sebastião com aquela cara meio sem graça, dizendo que se enganou e pediu errado na cozinha! Ora pois! Veja bem, com a fome que estava, com a gentileza do portuga e com a aparência divina que estava o bacalhau, alguém acha que eu ia reclamar? Sem problemas, me atraquei com o bacalhau mesmo, com batatas ao murro, alho crocante e regado ao bom azeite!

Ao final da noite, quando a grande maioria dos outros clientes já haviam ido, e nós seguíamos firmes e fortes pela nossa terceira ou quarta garrafa de vinho, Sebastião veio conversar conosco e perguntar como estava a comida. Agradeci dizendo que foi o melhor cordeiro que comi na minha vida! Ele achou engraçado e ficou nossa piada até irmos embora, com a casa já fechando.

Veja bem, o restaurante estava fechando, mas nossa noite, apenas começando.

Dalí subimos a rua e fomos tomar um aperitivo no “La mort subite”. Achei o nome divertido. O local tem aquele jeitão de cervejaria tradicional antiga, com o pé direito muito alto e colunas elegantes. Não nos demoramos tanto, mas gostei de conhecer.

Nosso próximo passo era um bar cubano em uma pequena travessa da Grand-Place. Nós já chegamos meio calibrados, devo admitir. O bar tinha algum movimento e não demorou nada para a gente se sentir totalmente em casa! Três músicos ótimos tocando! O curioso é que o dono do bar era italiano, a garçonete argentina e um dos músicos que puxamos papo, uruguaio… Assim que talvez fosse um cubano meio falsificado, mas não nos atrapalhou em nada.

Em algum momento, acabou nosso dinheiro em euros e eles não aceitavam cartão de crédito! Luiz e nosso amigo tentaram achar algum caixa eletrônico e nada! Até que Luiz conseguiu convencer ao dono italiano fazer câmbio em libras, provavelmente, o pior negócio do mundo, mas pelo menos podíamos seguir a noite.

Preciso nem dizer que a gente se acabou de dançar, cantar e é lógico, que também fechamos o bar. Saímos com o resto das nossas bebidas em copos de plástico e com o portão já meio fechado.

Pensando que acabou? Nada! Estou dizendo que Bruxelas é divertidíssima!

Veja bem, admito que após o cubano eu estava meio somebodyelse, mas posso garantir que era a melhorzinha entre nós três! Luiz vinha em seguida, ainda sendo capaz de argumentar com algo de lógica e nosso amigo já estava bem para lá de Marrakech!

Nosso amigo disse que queria seguir bebendo e ele e Luiz ameaçaram entrar em um bar. Veja bem, meninos, observem em volta, só tem homem aí dentro e não parecem ameaçadores a mim! Desconfio que era um bar gay, o que não me preocupava exatamente. Óbvio que os dois machos podiam estar bêbados, mas nem tanto! Desistiram do bar.

Em frente, havia uma loja de bebidas abertas. Luiz sugeriu então que entrassem e comprassem alguma coisa para beber no quarto. Eu esperei do lado de fora, porque já nem podia pensar em beber mais nada!

Lá fomos nós caminhando para o hotel, Luiz carregando a garrafa e eu carregando nosso amigo pelo braço. Acho que provavelmente ventava muito essa noite, porque ele não conseguia andar em uma linha razoavelmente reta!

Nisso, a gente resolve cortar caminho por uma ruela super movimentada. No momento em que passamos em frente a uma discoteca ou algo assim, o segurança para o Luiz e resolve encrencar que ele não podia passar com aquela garrafa ali na frente. Dizendo que ele levou a garrafa de dentro do recinto! Veja bem, a garrafa estava fechada, dentro de uma sacola plástica com a nota! Mas enfim…

O problema é que enquanto o segurança começou a discutir com Luiz, larguei nosso amigo para ajudá-lo e quando virei outra vez, cadê ele? Perdi o amigo!

A essa altura Luiz discutia com suas mãos enormes com o segurança, dizendo para ele chamar a polícia! Coisa que deixou o tal segurança sem saber muito como reagir, chega o gerente para saber o que está acontecendo! Isso tudo na rua!

Pensei, bom, Luiz está discutindo, então ele está bem. Falei, fica aí argumentando que vou procurar o nosso amigo!

Dou aquela caminhada e vejo uma pessoa andando sem rumo e com o olhar distante, é ele! Mergulho no meio do povo, cato nosso amigo pelo braço e digo, vem comigo agora!

Ele colaborou e veio apoiado em um braço. Daí passo com nosso amigo no meio da discussão do Luiz, entre ele, o segurança e o gerente, cato Luiz com o outro braço e digo, ignora o que falarem e vem junto! E assim saímos daquela confusão sem ninguém que viesse atrás!

Alguns metros adiante, com aquele frio no rosto, estávamos os três melhores. A adrenalina também fez Luiz ficar bonzinho na hora. Ou pelo menos, esse era meu julgamento bastante suspeito.

De repente, no caminho, uma praça com uma enorme escultura interativa. Parecia um túnel vazado em arcos iluminados. Cada vez que passávamos embaixo de um desses arcos, ele mudava de cor e emitia um som. Gente, isso para três amigos bêbados é praticamente uma Disneylândia! Nem me perguntem por que, mas incorporei a mulher biônica e ia cantando a musiquinha da série, correndo em câmera lenta e pulando a cada arco que mudava de cor! Naquele momento, fazia todo sentido, juro! Logo, nosso amigo se juntou na corrida em câmera lenta, ajudando inclusive na sonoplastia (tã nã nã nããã nã nã nã nã nã nã nã nã… tu tu tu tu tu tu… o “nã nã nã” era meu e o “tu tu tu” era dele). E o sacana do meu marido, filmando tudo!

Pois é… sim… fomos pagando esse mico pela rua até o hotel!

Chegando no hotel, fomos deixar nosso amigo no quarto, que por sorte, sabíamos onde era, porque ele não! Paramos na frente do quarto dele e cadê que ele achava sua chave! A gente às gargalhadas com a cena surreal, sem saber como ele entraria, quando passa atrás o gerente do hotel! Eu acho que ele viu o estado que chegamos e deve ter subido em seguida para saber se estava tudo bem. Afinal de contas, porque o gerente estaria passeando pelo corredor do nosso andar no meio da madrugada por coincidência, né? Enfim, ele perguntou se havia algum problema, explicamos que fomos deixar nosso amigo, mas ele não achava sua chave. O gerente foi tranquilo, apenas perguntou se tínhamos certeza que o quarto era aquele e nos abriu a porta com sua chave-mestra.

Do jeito que nosso amigo entrou, desmaiou na cama de sapato e tudo. Luiz e eu nos olhamos, pronto, já está seguro! Fechamos sua porta e fomos para nosso quarto.

No dia seguinte, não dava para acordar tão tarde, porque nosso amigo precisava liberar o quarto dele até meio dia e nós ainda queríamos aproveitar um pouco a cidade.

Veja bem, se na madrugada anterior eu achava que era a melhor dos três, garanto que no domingo não havia nenhuma dúvida de que eu era a pior! Uma ressaca avassaladora! E vamos combinar, merecida!

Saímos para almoçar. Eu do lado avesso, mas sem querer dar o braço a torcer. Até que chegou uma hora, quando estávamos passeando em uma praça cheia de comidas e aromas, que pedi arrego! Preciso ir ao hotel agora bater um papo sério com o Raul!

Fui eu para o hotel e eles para um restaurante. Verdade que assim que coloquei para fora o que me incomodava, melhorei instantaneamente. Mas achei que almoçar seria demais. Fiquei esperando eles terminarem para descer e seguir o passeio.

Acontece que Luiz estava preocupado com a hora do nosso amigo voltar para Londres e já se despediram do almoço. Ele mesmo também queria dar mais uma descansada da noitada anterior. O que não achei nada mal.

Acordamos no finalzinho da tarde, com calma e saímos para passear um pouco e jantar. Nosso amigo enviou uma mensagem que havia chegado bem a Londres, então ficamos tranquilos.

Não tinha a mesma energia para outra noite selvagem, mas sem nenhum arrependimento. Na verdade, ainda me dá vontade de rir cada vez que me lembro das histórias.

A noite de domingo foi agradável, comemos bem e infelizmente não me lembro o nome do restaurante, mas era pequeno, em esquina entre uma rua e uma galeria, bem charmoso. Conseguimos a última mesa com bastante sorte, pois quase todas haviam sido reservadas.

De lá, voltamos para o hotel, passando novamente pela escultura interativa, que continuava interessante sem o teor alcoólico.

No dia seguinte, o plano era acordar sem pressa e ir direto para a estação de trem, rumo a Paris.

Acontece que não dormimos tão tarde, não estávamos de ressaca e não havíamos conhecido a principal atração da cidade: a estátua do Manequinho (Manneken Pis)! Sim, aquele menininho fazendo xixi, que sei lá por que cargas d’água atrai tanta gente!

Olhei no mapa, não ficava longe, tentamos? Tentamos!

Deixamos as malas já prontas na recepção, e saímos em caminhada rápida para o local indicado. Veja bem, é bastante decepcionante, vou logo avisando! É uma esquina de nada, nem é uma praça, com uma estatuazinha também de nada que faz xixi. Mas enfim, se era passagem obrigatória pela cidade… checked!

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Aproveitamos para comprar chocolate, afinal, as chocolaterias belgas são motivo de orgulho nacional e encerramos nossa visita.

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E de agora em diante, se alguém se atrever a dizer que Bruxelas é monótona, só posso responder que talvez monótona não seja a cidade… A que a gente visitou é ótima e divertidíssima!

De volta a Londres

Muito bem, depois de toda comemoração, morta de sono e cansaço, embarcamos de volta para casa. Adoraria ser capaz de dormir no avião, mas nunca, absolutamente nunca, é meu caso. Diferente do Luiz, que dá até raiva! O avião nem decolou ainda e ele já está ressonando! Na verdade, acho ótimo, porque ele encara umas viagens bem longas tendo que trabalhar no dia seguinte, só queria ter metade dessa habilidade.

Aterrissamos no Reino Unido com a história da possível mudança a pleno vapor! Eu vou ser muito sincera, depois de mais de nove anos, me custa um bocado deixar a Europa. O estilo de vida europeu me cai como uma luva e estava bastante satisfeita morando em Londres. Vamos combinar que agora em janeiro fez só um ano que chegamos por essas bandas e temos amigos ótimos aqui! Mas chega uma hora que a gente precisa colocar outras coisas na balança.

No início de 2005, quando saímos dos EUA, praguejei que não colocaria mais meus pés naquele país! Nem como turista! Após um ano, com a poeira mais baixa e com a distância suficiente para por as coisas em perspectiva, fiz as pazes com o passado e cheguei à conclusão que também não era assim. A raiva passou e ficou a saudade dos amigos legais que conhecemos por ali. De certa maneira, aprendi com a experiência, saberia o que esperar e poderia ser feliz se fosse necessário viver ali uma próxima vez.

Apesar de ter essa questão resolvida na cabeça, não foi simples cair a ficha de que essa possibilidade ficava cada vez mais certa. O reflexo condicionado da rejeição a querer voltar ainda ecoa de vez em quando. Mas cada vez menos, até porque a condição é tão diferente e eu sou tão diferente também que fica difícil comparar.

Da primeira vez que moramos nos EUA, poderíamos eleger Atlanta ou Miami. Eu e meu preconceito achávamos que Miami era meio cafona e teríamos uma experiência muito mais latina que americana. Fomos para Atlanta. Um ano mais tarde, quando precisamos tramitar a papelada de vistos para Espanha, o consulado mais próximo era em Miami, para onde viajamos um par de vezes com esse propósito. Mudei minha opinião em relação à cidade, achei mais viva, mais animada, até pela mistura de nacionalidades. Mas enfim, já estávamos de partida.

Mal sabia eu que, pouco mais de nove anos depois, Miami estaria novamente em nosso caminho. Porque é exatamente para lá que Luiz está sendo convidado. Na realidade, terá que viajar bastante pela América Latina e ali é logisticamente interessante.

Minha família recebeu a notícia de maneira muito positiva. Eles gostam mais dos EUA, o acesso é mais fácil e muito mais barato do que daqui. Além do que, o clima é ameno e, na hipótese mesmo remota de nossos pais resolverem nos visitar algum dia, para eles isso faz muita diferença. Saber disso também pesou para mim. Caso a gente precise dar um apoio maior, como tem acontecido, facilita bastante. Acho que dá mais segurança para eles, o que por tabela me deixa mais tranquila.

Temos amigos queridos que se mudaram a pouco tempo para Miami também, o que dá outra motivação. Não tenho muita dificuldade em refazer um círculo de amizades, mas já chegar conhecendo gente legal, praticamente família, ajuda muito!

Outro ponto que pesa pacas e não vou negar, é o financeiro. A Europa é show culturalmente para se morar, mas o dinheiro por aqui não sobra. Muito menos em Londres! E vamos combinar, nem Luiz nem eu somos mais garotos, a água passou do joelho faz um tempinho e já começa a bater nas nádegas! Precisamos ser razoáveis e pensar no futuro.

Diante de todos esses pontos, a decisão pelo nosso lado não deixava muita margem a dúvidas. Então, topamos e vamos ver no que dá.

Estava esperando ter certeza absoluta para contar, mas a verdade é que nunca temos certeza absoluta de nada mesmo. Assim que prefiro o risco a contar o que talvez não aconteça, mas pelo menos com a torcida e o palpite dos amigos.

Agora tem a parte burocrática. Dessa vez, iremos com visto de transferência, o que costuma ser bem mais simples que o nosso visto anterior. Além do que, com esse visto eu também posso trabalhar normalmente. Mas só podemos dar entrada na semana que vem, quando Luiz faz oficialmente um ano de empresa. Daí veremos quanto tempo levará de verdade, nos disseram que leva de 4 a 6 semanas para resolver, o que me pareceu um prazo fenomenal, não estou nem acreditando muito. Meu palpite é que, se tudo der certo, a gente muda pelo fim de março ou começo de abril.

Enquanto isso, na sala de justiça… resolvi não pensar tanto a respeito e aproveitar tudo que tiver direito por aqui! Quando a gente tiver uma data mesmo para se mudar, aí sim eu viro a chavinha na cabeça para gostar de lá! Modéstia às favas, tenho prática nesse assunto e sei que ainda tem muita água para rolar!

E como chega tudo junto, consegui um trabalho! É tão meu número que dá até medo de comentar! A empresa é de amigos nossos, que me fizeram uma proposta bastante interessante para ambos os lados. É basicamente para dar suporte a treinamentos virtuais. Os cursos duram 3 dias, não tem toda semana e posso trabalhar remoto. Parece fácil de encaixar alguém no perfil, mas acaba não sendo tão simples, porque apesar de ser uma tarefa básica, não dá para ser apenas alguém técnico, tem que ter um certo nível, ser capaz de entender e aplicar o conteúdo do treinamento e funcionar de intermediário entre os participantes e instrutores. Geralmente, quem tem esse perfil não está tão satisfeito em executar uma tarefa básica. Além do que, para a empresa, não interessa ter alguém contratado por tempo integral para uma atividade que não acontece toda semana; mas é complicado ter alguém confiável e conhecido que não precise ter esse compromisso. Veja bem, tudo que poderia ser desvantagem para outra pessoa, para mim é correr para o abraço! Estou pouco me lixando se é uma tarefa básica ou não! Acho até melhor não ter a pressão de ser responsável pelo conteúdo, pelo menos, por enquanto. Não me interessa um contrato fixo, muito menos trabalhar todos os dias, porque tenho outras atividades em outras áreas que quero seguir. Para completar, ainda posso entregar em três dos quatro idiomas que eles treinam, e em qualquer lugar do mundo, porque não me importa o fuso horário local (faço de casa mesmo, só três dias não mata ninguém!). Semana que vem participo do primeiro, em inglês. Estou curiosa e não vou negar que dá um pouco de nervoso voltar a namorar com o mercado, mesmo que seja só pela tangente e com algo simples. Mas uma “dinheirrinha” para Bianquinha não virá nada mal…

Pois é, até aí, tudo ótimo! A questão é que há uns dois treinamentos desses marcados em épocas que a gente “poderia” estar mudando. Friso o “poderia”, porque sabe como é, a gente nunca sabe se vai mesmo, que dia vai e como vai até os 45 minutos do segundo tempo! Bem vindos ao nosso mundo! E mesmo podendo estar em qualquer país, o que é uma vantagem imensa, preciso de uma base para conectar direito, um computador e uma mesa de trabalho. Agora, onde raios estará essa mesa é o que a gente vai ver! Mas você ia perder uma oportunidade assim por causa de uma mudancinha transoceânica?

Enfim, mais uma vez, vamos dar uma chance ao caos!

Ainda preciso descobrir como chamar as próximas crônicas… Miamicas? Sugestões?

E depois de uma longa pausa…

Saudade de escrever!

Sim, andei sumida! Viajei, voltei, fiquei sem computador, sem tempo, festas de fim de ano etc. Agora o difícil é lembrar de tudo que aconteceu nesse período. Então, vamos pouco a pouco.

Na semana seguinte ao meu aniversário, viajamos para o Rio, para o casamento do meu irmão. Nem me lembro quantas vezes precisamos ir ao Brasil em 2013, mas finalmente, era por uma boa razão e acho que a única viagem planejada do ano. Não perderia por nada!

Um pouco antes do dia da viagem, Luiz me chama para irmos ao nosso Pub local e pelo caminho me solta um: precisamos conversar… Ops! O que mesmo eu fiz de errado que nem lembro? Ferrou! Mas não era discussão da relação, era sobre seu trabalho. Contou que havia recebido um convite da sua empresa para sairmos de Londres, assim, na lata!

Fiquei até tonta! Por essa, realmente não esperava. Tudo ainda muito no ar, mas uma proposta para voltar aos EUA. Viajamos com isso na cabeça, no meio da negociação, digamos assim. E talvez tenha sido um bom momento para viajar ao Rio, pois ajudava a colocar as coisas em perspectiva, além de poder contar pessoalmente aos nossos pais e família muito próxima. Afinal de contas, ainda não dava para comentar com mais ninguém.

O bom de correr é que tudo vira motivação! A corrida é tipo Bombril, tem mil e uma utilidades, principalmente no quesito desabafo! Então, se não podia falar nada, lá ia Bianquinha para academia correr e soltar a franga! E talvez por essa adrenalina adicional, acabei chegando antes aos 10km, minha meta para o fim de 2013. Nem acreditei! Cheguei mortinha da silva, mas evoluindo e, como consequência indireta, entretanto muito bem vinda, continuei emagrecendo. Malhei pesado até o dia da viagem, endorfina na veia e, porque não, a satisfação de ficar bem no vestido.

Chegando ao Rio, a prioridade absoluta era o casório do meu irmão, o que também foi bom para ter outras coisas para pensar. Fomos uma semana antes da data e voltamos no dia posterior ao evento. Era o que dava para Luiz tirar de férias.

Para falar a verdade, essa semana anterior à boda foi uma neura total! Uma série de últimos detalhes para resolver, meu irmão nervoso, todo mundo meio histérico! Para complicar, meu pai passou mal de uma maneira bem complicada, que até hoje não consigo falar direito no assunto. Não me lembro de ter me sentido tão covarde antes. Minha sogra descobriu um quisto maligno no seio, estava razoavelmente tranquila, mas todos sabemos que nunca é tão tranquilo assim. E a gente não queria falar muito a respeito disso na casa dos meus pais para não tirar o foco do casamento. Eu também tinha consulta com mastologista e, dentro desse quadro, não posso dizer que não estivesse meio grilada. E se ainda por cima desse pau para o meu lado também? E justo agora!

Caraca, mas essa não era a viagem legal? Aquela que a gente ia relaxar e aproveitar um festão? Respira fundo, a vida é assim mesmo, depois de tocar o fundo do poço, só dá para ir para cima.

Fiz minha consulta médica e para meu alívio, tudo certo! Nada de novo, meus quistos em tamanhos controláveis, nem precisei tirar nada! O que para mim, veio como um ar fresco. Sigo com saúde, então o resto a gente corre atrás. Aliás, ultimamente, corro literalmente atrás! Daí para frente, acho que as coisas começaram a melhorar.

Quase todos os dias, consegui aproveitar para caminhar na praia com minha mãe e sentir um pouco desse bom astral de cidade litorânea. Teve feriado não-sei-de-que e o Rio estava lotado de gente! Até que divertido! Foi bom também para queimar o musgo da pele e ter uma aparência mais saudável para festa, afinal, queria caprichar!

Conseguimos encontrar com alguns amigos, meio corrido, mas sempre que há uma brecha a gente tenta se administrar.

Muito bem, finalmente, chegou o dia, 23 de novembro! A agitação começou pouco depois do almoço, minha tia chegou de viagem com meus primos e a mulherada já se encontrou no salão de beleza do bairro para começar a se arrumar! Foi uma luta para conseguir encaixar horário para todo mundo, mas deu tudo certo e adoro essa confusão feminina de família se arrumando e dando palpite.

Eu faria minha maquiagem no salão mesmo, mas para ter agenda para elas, resolvi abrir mão do meu horário e fazer só o cabelo. Aliás, diga-se de passagem que para manter os cachos até a hora de sair, voltei para casa com o cabelo todo enrolado em grampos de plástico coloridos, ridícula! Naquele esquema, por favor que absolutamente ninguém conhecido passe pela rua nesse momento e me veja! Se viram, não sei, eu olhei para o chão e caminhei na velocidade da luz!

Bom, fiz alguns testes de maquiagem durante a semana e tinha tudo mais ou menos sob controle… desde que não errasse nada! Assim que confesso que rolou um momento meio tenso quando comecei a me arrumar em casa para sair. Concentração total e absoluta! Nem falem comigo! Principalmente, quanto estiver pintando os olhos!

Mas não vou fazer suspense nem fingir modéstia, foi um daqueles poucos dias que você se olha no espelho e pensa, acertei tudo! Hoje estou podendo! Enfim, estava me sentindo poderosa! Pronto, falei! Ou talvez, apenas estivesse feliz.

Não quer dizer que estivéssemos todos tranquilos, porque estou contando minha parte, mas o resto da casa também estava se arrumando. Minha mãe não estava muito segura com a cor do seu vestido e com medo do sapato machucar. Eu, francamente, achei que ela estava lindíssima! Daí foi ajudar meu pai a se vestir… o smoking estava curto! Putz, agora já era, faz de conta que não notou. A gravata também estava meio pequena, mas ele tinha outras em casa, ufa! Nisso liga meu irmão estressado porque a sua gravata estava grande, se não tinha alguma de elástico lá em casa para trocarem com ele. Respondi que sim, pode deixar que a gente leva e se encontra no carro! Verdade que não tinha nem ideia se tinha mesmo a tal gravata de elástico, falei só para ele ficar tranquilo enquanto procurava alguma em casa! A do Luiz era de elástico, então, troca com meu irmão e pega a do meu pai! Enfim, rolou aquele escravos-de-Jó dos três homens com suas gravatas! E o tempo passando…

Entram todos no carro que meu irmão deixou contratado para a gente e já todo mundo nervoso com a hora, ele lembra que ainda tinha que passar no caixa eletrônico no caminho! Eu tive vontade de me enfiar no banco porque estava vendo a hora do meu pai dar um chilique! Para no caixa eletrônico, pelo menos foi rápido e voa para a casa de festas! Chovendo, trânsito, mas chegamos! Felizmente, antes da noiva, mas já havia vários convidados no local. Eu doida para falar com o pessoal, mas éramos padrinhos e mandaram a gente subir direto e aguardar nossa vez de entrar.Tudo bem, nada grave, chegamos todos lindos e inteiros! A partir de agora, só alegria!

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E assim foi! O casamento foi na Casa Julieta de Serpa e o lugar é realmente um charme. Sei que minha opinião é muito suspeita, mas achei tudo perfeito! Eles optaram por uma cerimônia budista, pois minha cunhada é seguidora. Foi a primeira vez que fui a uma cerimônia assim e gostei muito, acho que tem uma energia bacana.

Eu simplesmente amo casamentos! Amo mesmo, eu vibro e fico feliz da vida! Acho o máximo aquele momento em que noivo e noiva se olham no início da cerimônia, enquanto ela caminha até ele! É um olhar único, cúmplice! Noiva deslumbrante e mais bonita ainda depois do olhar do meu irmão. Ambos estavam realmente felizes e iluminados.

Para mim, depois do meu próprio casamento, esse foi o próximo em importância. Tínhamos a mesma família presente, que a gente acaba só conseguindo juntar inteira ou quase inteira nesses eventos. Sendo que dessa vez, me cabia somente aproveitar, sem a responsabilidade da festa. Meu irmão fez um discurso bonito no final da cerimônia, me surpreendeu pela facilidade e intensidade do que disse. Sempre será meu irmão pequeno, que só eu tenho o direito a criticar, mas ai de quem concorde. Pois ali se mostrou um homem adulto de verdade, em paz e muito bem acompanhado.

Passadas as formalidades, toca aproveitar a festa! E que festão! Nem preciso dizer que me acabei! Só queria conseguir me dividir em várias e aproveitar mais as pessoas que nem sempre consigo encontrar, fofocar mais com as primas e primos, dançar ainda mais, abraçar ainda mais, pagar aqueles micos de fim de festa em que se ama todo mundo! E tentar não pensar em quão improvável será ter essas mesmas pessoas queridas novamente no mesmo espaço, ao mesmo tempo, ao alcance da minha vista. Mas naquele dia eu tive.

Fomos os últimos a deixar a festa, os noivos, Luiz, eu, minha mãe, um primo e um amigo de infância do meu irmão que caiu na besteira de me acompanhar no whisky e mal conseguia se levantar.

Fui a última a me deitar. Tentando proteger a casa com o novo mantra budista aprendido. Não tenho fé para rezar, mas posso expandir minha energia. Pelo menos, naquele dia que estava podendo tanto, por que não? Mal não iria fazer.

Não acordamos tão tarde. Nós voltaríamos à noite para Londres, mas ainda queria fazer um esforço e almoçar com quem estivesse da família. Marcamos com minha prima no restaurante da Casa Daros, mas sem muita certeza de quem conseguiria ir. Meu pai estava no clube, achamos que ele não fosse… os noivos viajariam à noite para a lua-de-mel, não sabíamos se iam aparecer… não tinha certeza do horário do voo da minha tia… Pois vamos ver no que dá! E saiu melhor que a encomenda!

Minha mãe é filha única e meu pai tem só uma irmã. Assim que, de primeiro grau, tenho uma única tia e três primos. Só uma das primas mora no Rio há pouco tempo, os outros todos moram em Minas. Enquanto éramos crianças, a gente sempre se encontrava em férias na casa dos meus avós paternos em Cabo Frio. Meus avós maternos também moravam ali, assim que reunir essa parte da família era algo normal na nossa infância. Até hoje, mesmo quando levamos anos para nos encontrar, não rola aquele silêncio esquisito, porque a intimidade já foi há muito conquistada. Mas paciência, com o tempo, cada um foi fazendo sua vida, as avós e avô faleceram, filhos nasceram, fui morar fora do país, enfim, já não é simples que a gente se encontre. Há alguns anos meu pai não aguenta mais viajar e agora minha tia também terá dificuldade para sair da sua cidade, assim que apesar de não ser impossível, juntar esse grupo, todos ao mesmo tempo, será bastante complicado.

Não nego que bateu um pouco de nostalgia, mas isso também não fez que o astral do almoço baixasse. Pelo contrário, foi mais e mais gente se juntando até quase não caber na mesa, aperta daqui, levanta dali, sai um, volta outro, chega prima do lado da minha mãe, os noivos, a mãe da noiva, meu pai pega um taxi sozinho e aparece no restaurante… E quando nos demos conta, um almoço de família como vários que já foram antes em uma mesa grande armada na garagem da casa da minha avó.

Talvez tenha sido como naqueles filmes de casamento em que tudo acontece, parece que o caos vai se apoderar, todo mundo reclama, todo mundo fala ao mesmo tempo, de repente tudo parece que se resolve e, pelo menos dentro de um momento, somos todos felizes para sempre.

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44 aninhos e a primeira batucada britânica!

E os 44 chegaram! Com a vantagem adicional do dia do aniversário cair exatamente em um sábado. Ou seja, se ainda precisasse de algum pretexto para uma festa, o dia era perfeito!

Andava sentindo falta de casa cheia e, por que não admitir, falta também de um pouco de barulho. Madri havia me deixado mal (ou bem) acostumada a reuniões embaladas por música ao vivo e a energia diferente que os tambores deixam no ar.

Mas, honestamente, já tinha me desencanado dessa questão musical, queria mesmo era celebrar com os amigos. Entre os convidados, até havia músicos, mas não acreditava na possibilidade de rolar nada nesse sentido, chamei pela farra mesmo.

Chegou sábado e sabe esses dias em que você acorda feliz? Pois foi assim, estava de ótimo astral! Agitada igual a criança, doida para começar logo a comemoração!

Normalmente, não usamos sapatos em casa, mesmo quando recebemos visitas. Aqui em Londres inclusive é bem mais comum do que na Espanha e ninguém estranha muito. Acontece que nesse dia havia convidado bastante gente e achei que podia ficar muito tumultuado aquele monte de sapatos na entrada. E depois, cá entre nós, eu queria passar o aniversário em cima do salto! Então, que se dane, no dia seguinte eu limpava a casa e pronto!

Sim, no dia seguinte dava vontade de lavar o chão com ácido! A diferença na limpeza é impressionante! Mas paciência, não me arrependi e uma vez ou outra não mata ninguém.

Voltando à festa, fiz várias comidinhas, todas fáceis de servir e que podiam estar dispostas na mesa logo no início. Assim, podia desfrutar melhor a companhia dos convidados. Pedi que trouxessem bebida, mas sempre temos algumas ofertas da casa, por garantia.

Eu tinha tomado uma decisão, beberia cachaça! Mas não qualquer uma, meu plano malévolo era abrir uma garrafa de Havana, que para quem não conhece, é considerada entre as melhores do mundo e, definitivamente, acredito que seja a mais cara. Um pouco de mito, é óbvio, não acho o valor justo, mas enfim, nós tínhamos uma dessas garrafas há uns 10 anos em casa! Sempre naquela história de aguardar uma data especial, o que me parece impressionante, porque nós nunca colecionamos nada! O que há em casa é para consumo e deleite! Mas por algum motivo, a tal garrafa viajou o mundo conosco por todos esses anos, sempre na nossa mala a cada mudança. E sempre com uma ligeira preocupação se iria ou não quebrar e a gente nem teria aproveitado. Estava virando lenda! Esse ano, já tinha avisado ao Luiz, dessa casa essa garrafa não sai impune! Vou abrir no seu aniversário ou no meu. O dele foi complicado e estávamos no Brasil, logo, ficou para o meu. Tomei até a última gota, compartilhando com amigos que curtem uma boa cachaça.

Aliás, o pessoal bebe direitinho por essas bandas! O que acho legal, porque fica todo mundo na mesma onda, ou assim enxergo. Verdade que algum tempo depois, metade da festa me confessou que não tinha noção de como havia conseguido chegar em casa!

Mas muito bem, e a batucada?

Pois é, chega um amigo meu que conheci através do Facebook, por termos vários amigos em comum. Músico que, só para dar uma ideia, toca na bateria da Mangueira. Enfim, ele já sabia que eu gostava de tocar percussão e que em Madri rolava música em casa e tal, mas que em Londres eu ficava meio grilada com os vizinhos e não tinha quem puxasse ou me fizesse companhia. Entretanto, sério que não achei que ele fosse tocar aqui, foi coisa que a gente conversou em chat, porque estava interessada em ter aula com ele. Acontece que ele já chegou animado, junto com um amigo espanhol, e pouco depois de se ambientar, beber e conversar um pouco, me pergunta algo como, e aí, vamos fazer um barulho?

Está perguntando para mim? Em trinta e dois segundos eu saí desenterrando os instrumentos, afinal, já era hora de checar a tolerância dos vizinhos!

Resulta que o amigo dele espanhol também tocava bem, o que não é comum, às vezes é complicado para um estrangeiro entender os contratempos da percussão brasileira. Óbvio que fui na cola, Luiz também tocou e os convidados se atreveram a seguir. Mais tarde, chegou outro percussionista inglês, que também toca pacas e entrou na roda. E assim, rolou finalmente a primeira batucada em casa nas terras britânicas! E, na minha opinião, show de bola!

Nenhum vizinho reclamou, ou se reclamou, a gente não ouviu! O que ocorre é que as festas aqui começam e acabam cedo. Porque as pessoas dependem de transporte público. Então, acho que há uma certa tolerância ao ruído no caso de uma celebração, porque todo mundo sabe que tem hora para terminar. Ainda assim, sempre temos alguns corajosos amigos que resistem bravamente madrugada adentro, hora da “diretoria”. Na minha opinião, a melhor parte de toda festa.

Fui dormir realizada! Não podia esperar aniversário melhor! Amigos de mais ou menos tempo já bastante queridos e som de tambores alegrando a casa, marcando território para a uruca não passar! Deixando claro que, não importa onde pouse nosso lar, dessa porta para dentro, “todo mundo é bamba, todo mundo bebe e todo mundo samba”!

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Es lo que hay

Acho que de todas as expressões espanholas, “es lo que hay” é a minha favorita. Em sua tradução literal: é o que há!

Mais que da simples tradução, gosto da maneira como ela é empregada, es lo que hay é definitivo! Não deixa dúvidas, não deixa margem para discussão. Não é a melhor nem a pior opção, goste ou não goste, é a única que existe. Ela embute um “aceite”, um “é o melhor possível”, com uma pitada de “se vira negão” é “pegar ou largar”. Até me atrevo a reconhecer certo toque otimista, afinal de contas, em um país com a tradição de que o bom é o “de toda la vida”, o que já existe não pode ser de todo ruim.

Enfim, o fato é que há alguns anos, frequentemente, es lo que hay, me cai como uma luva!

Estou em pleno inferno astral, falta menos de um mês para o próximo aniversário. Faço em breve 44 anos. Não gosto do número 4, por representar a morte, mas dobrado por outro 4, soma 8, símbolo do infinito. Portanto, dentro da minha loucura numero(pato)lógica, parece promissor. Tenho nítida a sensação de que tanto escutei falar, que o tempo voa.

No último ano, envelhecer tem sido um tema recorrente em meu pensamento. Talvez seja uma preocupação que vá numa direção crescente daqui por diante, não sei. E não vou negar, a experiência não tem sido exatamente uma delícia.

Acho que houve um conjunto de fatores que contribuíram para me sentir um pouco velha, sem querer usar essa palavra de maneira pejorativa. Uso porque não há outra, es lo que hay. A não possibilidade de gerar um filho pela decisão tardia; a convivência com problemas de saúde, tanto na nossa família, quanto nas famílias de amigos da nossa geração; mortes de gente próxima; reclamações de amigos com dores e doenças que antes eram coisas das minhas avós; enxergamos cada vez pior; as menopáusicas já não são as amigas da minha mãe, são minhas amigas, em breve serei eu, poderia ser eu. O círculo está se fechando e tudo isso está cada vez mais próximo e frequente, o futuro chegou.

Várias vezes, me pego pensando: Caraca, envelheci! Estou velha! Admito que o pensamento que segue é: que merda! Era isso que eu tinha que achar bom? Essa é a parte bonita da vida? Jura?

Filosofia é poesia, já dizia minha avó, limitações são um saco! E não há como dourar a pílula, envelhecer traz uma pancada de limitações! Algumas bastante duras! E, sim, já entendi que, no meu caso e na minha idade, isso ainda não é nada, vai piorar!

Daí vem aquela conversinha de que a gente não envelhece se o espírito continuar jovem e blá, blá, blá… Fala sério! Como, por exemplo, eu faria para meu espírito deixar de se concentrar nos meus quadris? E para ele se recuperar da ressaca mais rápido? E para parar de nascer esses humilhantes (taquêopariu) fios de barba? E para a orelha não crescer?

Ah, mas essa é a parte física, estética e tal. O importante é que você esteja bem por dentro, em sua essência. Ok, meu fígado segue lindo! Beleza! E juro que a essa altura, nem irônica estou sendo, porque minha saúde passou a ocupar uma prioridade absurda! Sabe como é, coisa de quem está ficando velha!

Então, vim aqui só para reclamar? Não há esperança?

Veja bem, esperança que eu vá rejuvenescer, nenhuma! Não vou tocar violino, não serei bailarina nem ginasta olímpica. Acontece que eu nunca fui mesmo. Es lo que hay. E é aí que essa história dá uma guinada.

Há um bom tempo, não tinha mais vontade de sair em fotografias nem de comprar roupas. Diversas vezes, olhava minha imagem no espelho ou em fotos atuais e, sinceramente, não me reconhecia. Achava que estava fora do peso, o ângulo da foto não favorecia, ficava insatisfeita. Não me reconhecia mesmo! Parecia ver outra pessoa.

Custei a entender que o tal problema era que meu cérebro ainda me imaginava mais jovem, por isso havia esse estranhamento. Não percebia ou não queria ver o que me tornei. Acho que ainda estava esperando “voltar” a ser como era. Isso quer dizer que não aceitava envelhecer? Não, só quer dizer que não entendia que já havia envelhecido. A ficha não havia caído!

Um belo dia, me arrumando para sair, não encontrava uma santa roupa que me agradasse. Tipicamente feminino! Uma me engordava, a calça marcava, o rímel não estava simétrico… acho que não quero sair…

Até que, diante do espelho, tive uma revelação bíblica! Não, Bianca, a roupa não te engorda, você engordou! Seu corpo mudou! A calça não te marca o que não existe! O rosto humano não é simétrico e sua pálpebra direita está meio caída mesmo! Você é assim.

Caramba, eu sou assim!

Não vou dizer que fiquei radiante, seguia havendo vários pontos que gostaria de melhorar, mas o que iria fazer, me esconder para sempre? Curiosamente e contra todas as minhas próprias expectativas, a única frase que me veio à cabeça foi um retumbante: es lo que hay!

Não pensei mais, resolvido!

E foi uma das melhores sensações de alívio da minha vida! Um foda-se gutural. Saí com a roupa que me engordava, a calça que me marcava e com a maquiagem imperfeita. Francamente, sabe quantas pessoas acho que notaram todos esses enormes problemas? Ninguém! Eu mesma esqueci depois que passei da porta!

O ponto é que, certamente, há algum tempo, se essa mesma situação acontecesse, é bem provável que ao invés de aliviada, me sentisse insegura. Levei quase meio século para me olhar no espelho, ver que tenho pontos que gostaria de mudar, aceitá-los como são e decidir que, sinceramente, tenho coisas mais importantes para me preocupar. Es lo que hay!

E isso, não tem jeito, você só entende de verdade, nas suas entranhas, envelhecendo. Acredite se quiser, não é que tem uma parte muito boa? Sua perspectiva do que é importante muda.

Por exemplo, não quero mais fazer uma dieta radical, não porque não possa ou não consiga. Eu simplesmente não quero perder um momento de prazer porque sei que eles são raros e podem acabar amanhã. Já não é mais uma possibilidade remota, eu sei e sinto que realmente podem acabar amanhã!

Vamos combinar, Luiz está comigo há 20 anos! Não é possível que ainda exista algum “defeito” em mim que ele não tenha notado ou visto em 32 ângulos diferentes! Se isso não foi um problema sério até o momento, por que mesmo deveria ser agora? Sem nenhuma demagogia, valerá mais uns centímetros nos quadris ou passar uma noite ótima, gastronômica, divertida?

Talvez, minha visão ter piorado não seja de todo ruim. Deixei de ver uma série de defeitos nos outros e em mim mesma. Nem estou sendo filosófica, é que não enxergo! É difícil achar uma pessoa da minha idade em diante realmente feia. A gente fica cada vez mais parecido, padronizado, vamos ficando todos com caras de irmãos! Ou talvez, a gente passe a prestar atenção em coisas que sejam mais importantes.

A primeira vez que aceitei óculos emprestados em um restaurante para ler o cardápio, me pareceu quase constrangedor, surrealista. Hoje em dia, depois de repetir a experiência algumas vezes, inclusive emprestando meus próprios óculos, acho solidário e divertido, chego a me sentir compreendida. Assim é a vida, es lo que hay!

Não defendo o relaxamento, não gosto de gente que parece que se entregou, deixou para lá, desistiu. Acredito que a gente deva fazer o melhor possível para se cuidar. Só conto que, com toda honestidade, finalmente me olho no espelho tranquila, independente de estar ou não na melhor forma. Esse dia chegou! E é um alívio.

Curiosamente, a partir daí comecei a emagrecer um pouco. Meu preparo físico melhorou muito. Pelo menos, nos padrões que considero importantes hoje. Consegui começar a correr de verdade, quatro a cinco vezes na semana, chego quase aos 7 km e sigo aumentando, o que considero um verdadeiro milagre. O que mudou? Parei de pensar que corria para emagrecer, coloquei metas baseadas no aumento da minha própria capacidade e não comparativas. Não sei como será daqui para frente, mas é um bom começo.

E começar qualquer coisa a essa altura do campeonato é um privilégio que aprendi a valorizar. Preciso de fôlego, de maior capacidade cardiovascular, de ossos fortes, de postura correta e de tantas outras coisas que farão minha vida melhor e com menos dor. Se no pacote vierem belas panturrilhas e uma bunda mais dura, maravilha, mas sei bem o que me fará mais falta nos próximos anos e, portanto, estão claras minhas prioridades.

Gostaria de haver me sentido antes assim, de ter me aceitado melhor mais cedo, mas fazer o que? Precisei desse tempo e foi mérito da idade. Acho engraçado ver fotos antigas e lembrar de tudo que eu não gostava, quando francamente e modéstia às favas, estava ótima! Por que havia sempre alguma coisa que eu não estava satisfeita? Qual era o grande problema mesmo no meu cabelo, nas minhas pernas ou nas minhas orelhas? Se eu tiver sorte, no futuro, olharei minhas fotos recentes, aquelas que hoje nem gosto tanto, e desejarei ter a mesma energia, a mesma pele e o mesmo pique.

O mais provável é que no fundo deseje ter as mesmas pessoas queridas em volta, saudáveis, vivas, e quem sabe, ainda me emprestando os óculos quando eu esquecer. Preciso gastar menos tempo para escolher a roupa, não por falta de vaidade, mas porque cada vez teremos menos tempo e ponto, então, melhor contar que prestarão mais atenção no meu sorriso. E esse, não me custa oferecer e que não me custe nunca!

Às vezes, a vida pode ser bastante dura, mas nem sempre. Também pode ser divertida ou, pelo menos, justa. Ela é o que é, tão óbvio assim. E se aceitamos o que nos cabe e tentamos melhorar o que for possível, aproveitamos o que há de melhor. Afinal, es lo que hay!

E, es lo que hay, é libertador.

Home, Sweet Home

Voltar à rotina não foi difícil e foi rápido! Do jeito que prefiro.

Chegamos na terça-feira, pela manhã, e no mesmo dia, já recebemos um hóspede. Só deu tempo de dar uma cochilada e parti para o faxinão! Achei até bom, porque se dependesse apenas do Luiz e de mim, acho que teria dormido o dia todo e deixado para depois. Aliás, ele também não teve folga, só deixou as malas em casa, tomou um banho e partiu para o trabalho.

À noitinha, a casa já se encontrava em perfeita ordem, nem parecia que estava há um mês e meio fora. O jantar, nos convidou nosso hóspede e fomos ao pub da esquina, ver se o planeta seguia no mesmo lugar.

Quarta-feira, dia para terminar de por a casa nos trinques, fazer compras, lavar roupa… enfim, aquele “glamour” que é a volta de viagem, principalmente quando se mora na Europa. Aproveitei também para dormir um pouco melhor e me ajustar à programação do que estaria rolando pela cidade.

Na quinta-feira, voltei a treinar na academia. Não quis nem esperar a semana seguinte, marquei logo uma aula adiantada (normalmente faço nas terças) e tratei de suar a camisa. Não tem milagre, tenho que recomeçar e buscar o condicionamento físico todo outra vez! Mas tudo bem. Quando cheguei em casa, tomei finalmente coragem de me pesar, coisa que não fazia por todo esse tempo que estive fora. Para minha feliz surpresa, meu peso continuava igual, não engordei rosca! Considerando que não fiz dieta, que no Brasil acabo comendo mais, bebendo durante a semana com os amigos etc, foi uma notícia e tanto!

Ainda na quinta, descobri que uma amiga que me desencontrei no Brasil estava em Londres para comemorar seu aniversário. Teoricamente, eu chegaria na cidade no domingo e, por ter adiantado nossa volta, deu certo da gente se encontrar aqui. Fomos em quatro casais jantar em um restaurante indiano, Khan’s of Kensington. O que por si só já teria valido a noite, mas adicionalmente foi divertidíssimo! A conversa animou e fazia tempo que não ria tanto de gargalhar! Terapêutico.

Quando voltamos, ao chegar na nossa rua, vimos uma luz acesa na casa da gata que me visitava todos os dias, antes de viajar. Luiz perguntou se queria ir até lá e eu já estava careca de decidir que é lógico! Mal nos aproximamos e quem aparece? Minha super amiga, a gata! Toda feliz e adorando receber mimos e carinhos. Entrou conosco em casa e não queria ir embora de jeito nenhum! Eu estava amarradona, mas ao mesmo tempo, morta de sono, Luiz precisando dormir, enfim, tive que praticamente enganá-la para ela sair e eu conseguir fechar a janela. Afinal, ela não podia ficar aqui durante a noite, ela tem dono! Depois desse dia, a vi algumas vezes pelas redondezas, mas ela já não tem mais o hábito de me visitar, acho que fiquei muito tempo fora ou talvez ela entenda que sua missão principal foi cumprida, sei lá, gatos são muito espertos e sensitivos. De toda maneira, fiquei tranquila em confirmar que ela está bem, saudável e tem quem a cuide. Acho que já é hora de que a gente busque nosso próximo e próprio felino.

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Na sexta, despedida de outra amiga querida que se mudava para São Paulo. Novamente, conseguimos participar por termos voltado antes para casa. Fomos a um club bacaninha em Shoreditch, The Book Club. Outra vez, super divertido! Com o bônus extra de ter uma mesa de futebol totó, que eu amo e modéstia às favas, jogo bem. Claro que enchemos a lata, fazer o que?

Um amigo, o mesmo que Luiz conhece desde os tempos de faculdade, voltou conosco para casa e acabou ficando para dormir. Chegamos da noitada famintos e resolvi cozinhar no meio da madrugada, até para manter o costume, né? O dia seguinte sempre agradece.

No sábado, acordamos tarde e fomos almoçar, os três, no Borough Market. Estava com saudade das ostras do Wright Brothers e ne-ces-si-ta-va comprar burrata e azeite de trufas brancas.

Nosso amigo se animou e comprou boa parte do estoque de queijos de uma tenda francesa quase fechando. Com uma sacola cheia de queijos na mão, fedidíssimos, do jeito que adoro, se deu conta que era muita coisa só para ele e nos perguntou se queríamos ir para sua casa ajudar no consumo. Macaco quer banana? Dessa vez, lá fomos nós dormir por lá, assim ele podia beber tranquilo sem ter que dirigir depois. Banquete de queijos e vinhos!

Domingo, pela hora do almoço, ele nos deixou de carro e seguiu seu caminho. Para ser sincera, eu estava mortinha! Admito! Só queria saber de dormir e fazer algo leve para comer em casa mesmo.

E assim foi nossa chegada! Não sei dizer se estou há muito ou pouco tempo por essas bandas, são 9 meses, um pouco interrompidos, mas toda uma gestação. Sinto saudades de muita gente e muitas coisas, mas isso sempre fará parte da minha vida, então já não conta. O fato é que me sinto em casa e adoro saber ter essa sensação de lar em diferentes países e realidades. Talvez um dia, sinta saudades daqui também, quem sabe, mas agora não.

Aberta a caixa de Pandora

Já tive fases diferentes em relação à escrita, às vezes, escrevo compulsivamente, outras preciso dar um tempo, que nunca é tão longo. Afinal, como sempre costumo dizer, escrever tem sido minha terapia mais eficiente nos últimos anos. Mas agora estou numa fase que não sei exatamente o que há, porque não me falta inspiração ou histórias, na verdade, não me faltam nem mesmo problemas, mas falta vontade de sentar e contar o que sinto.

Chato, porque ando mesmo é de saco cheio de um monte de coisas e desabafar com o “papel” não seria nada mau. O difícil é saber por onde começar, porque não sei se quero abrir essa caixa de pandora. Mas sei que ela está lá e é preciso digeri-la.

Tudo começou com uma enorme insatisfação em relação ao meu país de origem, sim, o Brasil. E o que isso tem a ver com as calças? Pois tudo, e só agora a ficha está começando a me cair.

Tenho costume de dizer que posso morar em qualquer lugar, é uma questão de haver uma oportunidade. Levo mais de 10 anos fora do Brasil e é comum a mesma pergunta me ser repetida: e você não quer voltar? Acho que a gente nunca realmente volta, porque tudo muda, mas me concentro no fato de ir morar novamente no Brasil.

Pois muito bem, até o ano passado, era uma possibilidade como as outras, havendo boa oportunidade, por que não? Houve um momento, há uns três ou quatro anos, que cheguei a sentir vontade de ir. Foi mais ou menos quando se iniciou a “pacificação” das favelas do Rio e a cidade estava desbundantemente linda! Ou talvez, fossem meus olhos, mas juro que fiquei tentada. Acho que porque foi a única vez que, pelo menos o Rio, parecia haver melhorado um pouquinho. Só parecia, mas enfim, naquele momento, cheguei a acreditar.

Os amigos chamando, a imprensa dizendo que o país estava “bombando”, tudo parecia ir a favor. Fiquei contente e com uma ponta de esperança, mas entre nós, meu pé estava bem atrás. Não via essa situação tão positiva, na verdade, o cenário não me parecia nada bom.

Posso entrar em mil questões políticas, o que francamente, estou sem a menor paciência agora, mas havia um ponto que sempre bati e sigo batendo como um dos principais: a corrupção do país foi institucionalizada!

Sentia dizer isso num vazio e nas vezes que ainda tive um mínimo de vontade de entrar nessa discussão, vinha sempre o irritante argumento que hoje em dia é quase capaz de me fazer perder uma amizade: mas não foi sempre assim?

Não, eu acho que não.

Corrupção sempre existiu e sempre existirá, mas nunca percebi viver em um país onde ela fosse INSTITUCIONALIZADA. Parecida ao modelo russo, que acho que é para onde o Brasil caminha. Terra de ninguém.

Essa coisa “malufista” do rouba, mas faz, que o PT condenou tanto no discurso e agora dissemina aos sete ventos.

É o único partido corrompido? Também acho que não, mas foi o primeiro que vivenciei cravar a máxima de que os fins justificam os meios. E nos últimos 10 anos, é o que está no poder e com a maioria na câmara e senado em alianças, portanto, sujeito a maior parte das críticas.

Eu não acho que qualquer fim justifique qualquer meio. E o favorecimento dos seus é gritantemente visível. Além do que, não vejo nenhum avanço significativo para o país. Algum benefício social, é verdade, mas a um custo estúpido e não sustentável.

E se olharmos para o lado, se não for quem está no poder agora, quem seria? E já nem vou mais para o discurso de direita e esquerda, coisa que não vejo clara no Brasil há anos! É uma única massa misturada, beneficiando seu pequeno grupo. Conheço gente, teoricamente bem informada, que nem se importa se houve ou não corrupção, só importa de que lado foi! Se foi do lado “oposto” é um absurdo, se foi do “seu” lado, só pode ser intriga da mídia! Fala sério! Bandido é bandido de qualquer lado! Às vezes, a discussão beira as raias do ridículo quando você aponta um roubo e ao invés de concordar que é absurdo, o cidadão te responde algo como: ah, mas beltrano roubou muito mais! Alguém se dá conta que isso não está certo? O fato de alguém estar “mais errado” não justifica ninguém! Estão todos errados! E estão contra nós, as pessoas de bem! As pessoas que trabalham, honestas, que pagam seus impostos, que respeitam os direitos alheios e que se não concordam com alguma falcatrua, se transformam em elite burguesa ou socialista de botequim, dependendo de quem se queixe. Sei, sei…

Existe gente reacionária? Claro que sim! Existe gente mais preocupada em meter o bedelho na vida alheia do que cuidar da sua? Óbvio! O ponto é que essas pessoas continuam sendo vistas como erradas, ainda não se “institucionalizou” como um fim que justifica os meios. O que, infelizmente, pode mudar em breve. A bandalha geral costuma trazer à tona a repressão moral. E já se nota essa reação, principalmente, com a força que ganhou a bancada evangélica. Nada contra nenhuma religião, nada mesmo! Mas tudo contra a religião ditando política!

E assim, la nave va…

Já era! Não vejo nada próximo a uma melhoria na minha geração. Não digo nem solução, mas alguma melhoria significativa. Desesperança total!

Meu blog nunca foi político. Tenho minhas opiniões, só não costumo manifestá-las aqui, não é meu foco. Por isso, não vou entrar em maiores discussões políticas nesse momento. Mas precisava dar essa introdução para chegar onde preciso.

E o que quero dizer é que, pela primeira vez desde que saí do Brasil, não quero voltar de jeito nenhum! E o impacto desse sentimento tem sido uma das sensações mais difíceis desde então.

Estou com isso martelando na cabeça desde o início do ano, querendo e não querendo falar ou pensar a respeito, porque me remete mais uma vez à questão da identidade, que já me deu bastante pano para a manga nos últimos anos.

Há alguns meses, quando vi uma multidão ir para as ruas protestar e dizer “chega” (e tive o privilégio de estar no Rio nesse momento), me reascendeu um fiozinho de esperança. Sim, é possível que não estivesse claro para todos sobre o que estavam protestando, mas era mais do que óbvio que existia uma sensação de insatisfação generalizada, algo como: não, a gente não acha que está tudo bem! E não, não era por vinte centavos!

Da mesma forma que tive o prazer de estar presente no momento acima, tive o desprazer de também estar em 7 de setembro, quando outra grande mobilização estava marcada. Vi por toda a semana anterior a mídia mostrando cenas dos “vândalos” perigosíssimos, que todos nós sabemos que foram infiltrados para assustar o pessoal do bem. Controle pelo medo, já vi esse filme.

Sim, eu sei que há muito mais envolvido, uma pena, mas também não tenho vontade de discutir a respeito, porque não preciso convencer ninguém. Novamente, estou simplesmente pintando o cenário que foi se moldando ao meu redor.

Para mim, foi como uma pá de cal em qualquer esperança que o país tivesse algum caminho melhor. Francamente, espero estar errada, mas não acredito mais. Não acredito de jeito nenhum. Eu não tenho vergonha de ser brasileira (ou o que me sobrou disso), mas tenho muita vergonha do que andam fazendo com meu país de origem.

E como sou de extremos, de sim ou não, de certo ou errado, de quero ou não quero, cheguei à conclusão que precisava me posicionar. Não sou capaz de mudar nada no Brasil, não tenho voz nem vontade, portanto, por que me importar tanto com isso? Se nada vai mudar, mudo eu, mudei eu.

E me dói muito assumir que não quero mais morar ali, independente da proposta que houvesse, não faço mais a menor questão de ser brasileira e não me identifico. O país que lá está não é mais o meu país. Fico triste em saber que entristecerei gente muito querida ao dizer isso, principalmente minha família, mas muito mais triste ficaria eu se fosse obrigada a voltar. A única razão pela qual vou de visita, e irei quantas vezes forem necessárias, são as pessoas, minha família e meus amigos. Meus pais seguem envelhecendo, a mãe do Luiz anda precisando de maiores cuidados e não tenho resposta sobre como vamos lidar com essas questões no futuro. Só posso tentar fazer o melhor possível.

Assumir isso para mim mesma é bastante duro, mas precisava escrever para realizar. Entubar!

Não acho que seja uma decisão definitiva, porque nunca sabemos que necessidades teremos e o que seremos obrigados a aceitar. Mas é como penso hoje.

Estive no Brasil por seis semanas. Bastante tempo, entre Rio e São Paulo. Luiz foi a trabalho e fui atrás. Acho que as coisas acontecem quando devem e talvez eu precisasse estar lá por esse período para entender como isso vinha me martirizando nos últimos meses.

Houve um lado muito bacana que foi poder estar mais de duas semanas direto na casa dos meus pais. E pouco mais de três semanas em São Paulo, onde havia morado por dez anos, antes de sair pelo mundo.

Foi impagável poder dar mais atenção à minha mãe e aproveitar sua companhia em atividades rotineiras, conviver com meu pai e suas rabugices, saber sobre o casamento do meu irmão e vê-lo feliz, ver minha sogra melhor e reagindo, rever primos, encontrar amigos e filhos de amigos, enjoar de comer pão de queijo, lembrar o sabor de carne boa, encher a lata nos botecos cariocas, jantar nos divinos restaurantes paulistas, encontrar amigos do colégio, lembrar que sei dirigir e me sentir poderosa por estacionar de baliza na primeira tentativa, escutar amigos músicos, encontrar a “Diretoria”, receber visitas, visitar, tomar sol na piscina, caminhar no calçadão, ter amigos que saem de casa ou de outras cidades para te encontrar, ter vontade de ir para outras cidades rever amigos, relembrar antigos caminhos e descobrir novos, me sentir mais alta que a média das pessoas em volta, achar que nem preciso emagrecer, cortar o cabelo e fazer escova na minha cabeleireira favorita, andar de camiseta na rua sentindo a brisa da praia, saber os nomes dos garçons, ter sempre uma casa oferecida para dormir, rever amigos que conheci em países diferentes e me sentir em um universo paralelo como se fosse ontem, cantar música ruim sem me importar e ainda decorar a coreografia, bater perna no Rio Sul, comer feijoada olhando para o mar ouvindo música boa, tomar água de côco geladinha, beber sucos naturais realmente naturais… e tantas coisas que me fazem guardar um vínculo e não querer sair correndo sem olhar para trás.

Na última noite, depois de jantar com amigos, voltei para casa chorando. A bebida me caiu mal, não devo beber quando estou triste, mas não sabia que estava. É que pelo caminho me bateu a consciência de que estou condenada a viver com saudade sempre, de carregá-la nas veias. Não há mais lugar no mundo onde eu possa viver sem ela. Eu sei que é o preço, mas naquela noite me pareceu tão injusto. Contraditoriamente, também me deu raiva de sentir tanta saudade, de ainda gostar tanto de um lugar que não é mais meu e nunca será, porque eu já não sou.

E agora que está dito e assumido, não posso dizer que estou feliz, mas aliviada. De certa forma, ainda me resta o privilégio da escolha. Talvez agora pare de tossir com esse sapo entalado na garganta. Tentar ressurgir das cinzas uma vez mais e esperar que possa renascer melhor.

Uma rapidinha!

Caminhando por Piccadilly, passamos em frente a “Royal Academy of Arts”.

Até aí, normal, pois bem, justo em frente, há uma placa anunciando o restaurante do local. Alguém que não deve ter muito o que fazer, teve a brilhante idéia de desenhar um minúsculo “f” em frente da palavra “arts”, ou seja, virou “farts”.

Dessa maneira, a Real Academia de Artes passou a ser a Real Academia de… Peidos!

E aí, quem se atreve a visitar o restaurante? Será que são especializados em repolho?

farts