E a quantas anda?

Pois é, mais do que na hora de dar uma atualizada por aqui, não é mesmo? Muita coisa aconteceu e segue acontecendo, então vamos por etapas.

E como anda a vida no Brasil? Difícil dar uma única resposta, porque não vejo como uma coisa só, há partes que vão muito bem, outras que seguem muito difíceis.

Vou começar pelo lado melhor. Realmente, estou muito mais presente para minha família. Tenho tentado ir ao menos uma vez por mês até o Rio. Fico sempre de olho nas tarifas das passagens, assim que aparece uma promoção ou algo do gênero, compro correndo. Facilita poder ir durante a semana, quando os preços são melhores. E como vou com mais frequência, faço viagens curtas, tipo bate-volta. Assim minha casa também não fica tão sozinha, afinal, marido e gatos para cuidar seguem em Sampa.

Sempre que possível, tento receber gente em casa e é bom saber que os amigos de tanto tempo seguem amigos apesar da distância. Não rolam silêncios esquisitos. Sigo me sentindo à vontade e parte dos grupos.

Gosto do bairro onde moramos. Na verdade, foi o bairro que mais gostei de morar em São Paulo até o momento, e olha que a gente já rodou! Todo final de semana tem ruído de festa, o que para alguns poderia ser considerado uma desvantagem. Eu adoro! É o que me faz sentir que tem vida em volta, tem gente se divertindo. Depois, não me sinto culpada ou incomodando quando quero fazer uma festinha também. Acho que rola um consenso, todo mundo trabalha, tem seus compromissos, então, durante a semana é tranquilo. Mas no final de semana, as pessoas querem aproveitar, relaxar, encontrar os amigos e, vamos combinar, acho muito complicado esse negócio de você não ter liberdade de fazer um pouco de barulho uma vez ou outra na sua própria casa! Sejamos razoáveis!

E o que é melhor acaba por aí. O resto é mais complicado. Às vezes, me pego resistindo a contar, porque não gosto de ficar me lamentando. Por outro lado, talvez fosse positivo resgatar minha boa e velha terapia: escrever! Ajuda a espantar os demônios!

Difícil explicar, porque não estou mal, não estou sofrendo, não estou desconfortável, não passo nenhuma necessidade. Estou normal, minha vida aqui não é ruim, é só morna. Tenho a sensação de haver perdido o brilho. Eu sorrio, mas não ando mais sorrindo à toa para qualquer pessoa, porque sim.

Tudo ficou mais evidente quando viajei para Europa por pouco mais de um par de semanas. A passagem já estava comprada desde que mudei, foi para terminar de resolver pontas que sempre ficam para atrás. São muitos detalhes em uma mudança, imagina quando entre seus endereços há um oceano! Fui para Londres sozinha, de lá para Madri, onde encontrei Luiz. Tiramos uns 3 dias para viajar até Porto e voltamos para o Brasil juntos.

Um turbilhão de sensações estranhas! Para começar, viajava de férias para uma rota que há 11 anos significava voltar para casa. Foi impossível não pisar na Europa e me sentir absolutamente em casa! Desde o caminho conhecido pelo aeroporto, até o passaporte vermelho que me faz passar direto pelos portões da imigração, o trem que me levava à conhecida estação de metrô, da qual sabia exatamente onde ficavam os taxis. Aconchegada dentro das minhas roupas de inverno, meu casaco que me cabe como uma luva, os cheiros que estava acostumada, tudo se encaminhando de maneira tão natural, como se nunca houvesse sido diferente.

Fiquei na casa de uma amiga que gosto muito, em uma zona próxima a Notting Hill. Encontrei outros amigos super queridos, infelizmente, não todos que gostaria, porque não tinha muito tempo, apesar de até ter prolongado minha estadia na cidade. Fui ao meu lugar de música favorito, The Blues Kitchen, em Camden Town; encontrei com amigos num pub charmosinho, e como não; passeei a pé pelo centro da cidade; usei meu Oyster Card; comi ostras no Wright Brothers; fui até meu primeiro endereço em Maida Vale, fui ao banco resolver o que faltava… tudo estava lá, no mesmo lugar e ao mesmo tempo em movimento. E eu cabia, estava totalmente dentro, engajada.

Segui com saudades para Madri, minha segunda pátria. Fiquei no apart hotel de sempre, antiguinho, barato, mas limpo e bem localizado, justo ao lado da estação Tribunal de metrô, onde me sinto a mais castiza das madrilenhas: Malasaña!

Logo veio a super festa, razão por estar ali nessa época, o famoso “Feveillón”! Nosso réveillon fora de época! Uma das festas mais surrealistas e legais do mundo mundial! E mais uma vez foi o máximo!

Novamente, encontrei amigos, revisitei lugares, totalmente em casa! Relaxada, sem medo de andar sozinha, sem problema em falar com estranhos e, sem me dar conta, sabia que estava sorrindo. Tive vontade de escrever outra vez, finalmente! Nada me inspira mais do que caminhar pela rua, mas não tinha tempo a perder ali.

Ainda consegui dar uma fugida com Luiz para o Porto, um par de dias só nós dois em um hotel de cair o queixo, o Yeatman, considerado o melhor hotel vinícola do mundo. Sério, o lugar é um escândalo de legal! Por mim, se me instalassem um fogãozinho, poderia morar naquele quarto com aquela varanda para sempre! Só saí arrastada! Não tinha expectativas em relação à cidade, que me surpreendeu positivamente, adorei! E foi bom também ter um tempo sozinha com Luiz. Nossa batida nos últimos meses não tem sido mole e, por incrível que pareça, mesmo morando na mesma casa, está difícil para a gente se encontrar! Ele sai quando ainda estou dormindo, ele volta morto e quer dormir!

Voltamos para Madri já para embarcar rumo a São Paulo. Ele não tinha férias agora e não dava para ficar tanto. E afinal, minha casa real é aqui.

Essa viagem foi muito importante para mim, acho que eu precisava dessa sensação de saber que o mundo seguia lá, deu um fôlego novo, me tranquilizou. Também coloquei tudo sob uma melhor perspectiva. É impossível não olhar minhas fotos e comparar a diferença de luz no meu rosto! Acontece sem querer, mas é óbvio, eu murcho aqui e a nossa casa deveria ser onde somos mais felizes.

Acho que quando estou no Rio é bem melhor, por motivos simples, primeiro, está minha família, minha sobrinha que é quase como se fosse minha filha, sempre passo muito bem quando estou por lá. Mesmo quando dá algum pau de saúde com meu pai, me deixa mais sossegada estar próxima. Segundo, porque segue sendo rota de férias para mim, o lugar que vou matar as saudades, vou ajudar a resolver, vou me divertir, mas não moro. Então, não ficou tão diferente, só mais frequente. Além do que, lógico que me faz bem saber que faço diferença quando vou, motiva, alegra.

A vida muda e não temos porque tomar decisões tão definitivas, mas fica cada vez mais claro que minha passagem por São Paulo tem data para acabar. Não tenho nenhuma pressa e acho que estou onde devo estar agora e por algum tempo. Nada me garante que não mude de idéia, quantas vezes já mudei? Pode ser que em alguns anos não queira sair daqui por nada desse mundo! Quem sabe? Mas acho improvável, cansa muito viver com medo, incerta, sem confiança, sem esperança, morna, só nadando na parte rasa.

Sigo buscando interesses, vínculos, coisas que goste de fazer e só tenham no Brasil. Não tenho raiva do país, sempre serei brasileira e, independente de morar ou não, sempre serei uma frequentadora assídua, mas só por causa das pessoas. Desisti de construir um futuro aqui, porque não vejo ou não sei como, não acredito que vá dá certo. É complicado você basear sua vida única e exclusivamente em pessoas, porque as pessoas passam, mudam, seguem suas próprias vidas. Também eu precisarei seguir a minha em algum momento, mas ainda tenho tempo.

E é o que há por hoje, ganhar tempo, aproveitar o tempo que tenho com quem não sei quanto tempo terá, ou terei, viver um dia de cada vez.

Canto Gregoriano no Mosteiro de São Bento

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Aviso aos navegantes que se forem religiosos ou buscam algo do gênero, é melhor pararem por aqui. Simplesmente, vou contar uma história e não serei nada politicamente correta, ok?

Estava meio de preguiça na cama, Luiz passa e me diz que um casal de amigos nos chamou para ir a um brunch no domingo. Tratava-se de um passeio ao Mosteiro de São Bento, com direito a ouvir canto gregoriano. Puxa, me pareceu sensacional! Adoro brunch, curto canto gregoriano e seria interessante conhecer o Mosteiro.

Porque, lógico, o sacana do meu marido só me contou as partes que me interessavam, né?

Não gostei muito de acordar cedo no domingo, mas vá lá, um passeio diferente, cultural, depois ainda encontraríamos esse casal de amigos, legal! Chegamos no local marcado, ligamos para eles e nos responderam que estavam dentro, guardaram lugar para a gente nos bancos na frente da igreja.

Hein? Como assim nos bancos da igreja? Tenho que assistir uma missa inteirinha para poder comer? Luiz fez cara de paisagem e lá fomos nós achar nossos amigos, que realmente haviam conseguido um lugar ótimo na igreja lotada!

Muito bem, é público e notório as minhas tendências religiosas, ou melhor, a total falta delas! Não é segredo para ninguém, muito menos para esses amigos, que sou ateísta. Nunca me incomodou a crença alheia ou me ofendeu estar presente em ambientes religiosos, acho até as igrejas bonitas e tal, mas daí a encarar uma missa logo no domingo de manhã… também não vamos forçar a amizade.

Mas não tinha jeito, está na chuva… só cochichava rindo no ouvido da minha amiga: me aguarde que isso vai te sair caro!

Um sono do caramba! De vez em quando, dava aquela fingida que estava rezando para cochilar um pouco, mas era complicado porque estávamos bem na frente e é um tal de levanta, senta, fala…

O canto gregoriano é durante a missa. Não é um momento ou um lugar que eles fazem uma apresentação específica dos cânticos. É bonito, mas estavam um pouco desfalcados nesse dia e nem dá para curtir ou entrar no clima, porque são trechos curtos ao longo do sermão. Que aliás, não me lembro do que se tratava.

Muito bem, uma hora acabou e eu pensei, pronto, paguei minha penitência! Uma fome louca! Quase fui comungar só por causa da hóstia! Mas está bem, vamos respeitar as crenças.

Daí seguimos para onde nos mandaram e eu crente que seriam as mesas! Nada, era um pequeno teatro, até legal e de boa acústica. Havia uma outra atividade cultural. Foi a apresentação de um coral de Alphaville. Todo mundo já rindo, olhando para minha cara e esperando meu ataque de piti! Mas a verdade é que, fora a fome, gosto de corais.

O maestro se apresentou e nos contou o que cantariam em três fases. Pois é, a segunda fase se tratava de todos os cânticos da missa…

E eu, mas outra vez? Tinha nada mais original não? Vou escutar a missa duas vezes na mesma manhã? Só virava para meus amigos: gente, vou matar vocês! Juro, se eu chegar no brunch e for aquela coisinha austera, com meia dúzia de bolinhos de chuva feito pelas freiras, vai rolar sangue…

Minha amiga morrendo de rir, se vangloriando do dia em que ela me fez ouvir duas missas seguidas! Menos mal que o final da apresentação do coral era Vivaldi, para dar uma melhorada nos ânimos.

Finalmente, chegamos ao salão do brunch e serei justa, tudo muito bonito e bem organizado. A essa altura, já sabia todo o menú e parecia tentador. Nos sentamos, todas as mesas definidas, nome de todos nas cadeiras, tudo direitinho. Ótimo! Podemos começar?

Não.

O padre pegou um microfone que não dava para entender nada que estava sendo dito, mas todo mundo levantou e teve que rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria antes da refeição. Afinal, depois de uma missa falada e outra cantada, ninguém tinha rezado o suficiente, né?

Daí sim, liberados para a refeição. Achei tudo muito gostoso e bem feito, para o alívio dos nossos amigos. Ainda que eu seguisse como a piada na berlinda.

Em seguinda, há um passeio pelo Mosteiro, guiada pelo padre, que ia nos contando a história do edifício e alguns eventos que se passaram por ali. Gostei do passeio também. Acabamos em uma capela e eu já meio com medo, gente, não é possível, caraca, vai vir a terceira missa!

Não veio, só fazia parte do passeio.

Para finalizar, nos enviaram novamente à igreja, mas a essa altura e bem alimentada, fui bastante clara, gente, de igreja já estou bem, deu minha cota! Daqui sigo meu caminho!

Eles também não se interessaram em ficar, dei uma desculpa educada aos organizadores que tínhamos um pouco de pressa e não podíamos ficar até o final e dali nos despedimos.

Conto tudo de maneira irônica porque não sou religiosa e não tinha a menor idéia do que me aguardava. Mas não quero passar a imagem de que o passeio não é legal. É bacana, desde que você saiba o que está fazendo e não vá de gaiata igual a mim! E apesar dos pesares, foi um domingo diferente, de uma maneira torta, acabei me divertindo e comendo muito bem!

Além do que, o casal que nos levou não sabe quando… nem o que será… mas sabe que podem me aguardar que o troco chegará…

A água, o lixo e os desperdícios

Quando morava em São Paulo, antes de sair do Brasil, acredito que há cerca de uns 16 ou 17 anos, sou um pouco ruim de guardar datas, passei pelo meu primeiro rodízio de água na cidade. Naquela época, havíamos tido também um grande período de seca. Não chegamos a ficar totalmente sem água, porque as caixas dos edifícios normalmente davam vazão, mas reduzíamos o consumo de acordo com o dia e a água era fechada em determinados horários, nos quais reservávamos baldes e recipientes cheios, em caso de dúvida.

Foi a primeira vez que ouvi a discussão publicamente no Brasil que a água no mundo poderia acabar. No meu tempo de colégio, nós estudávamos que a água era um bem inesgotável! Portanto, ainda que houvesse sido um certo perrengue, achei que o tal do rodízio teve seu ponto positivo em trazer uma maior conscientização sobre os recursos naturais, em especial, a água. Juro que pensei que havia servido de lição, tanto para população procurar mudar os hábitos, como para o governo buscar alternativas. Inocente, né? Porque esquecemos muito rápido, muitos dos meus amigos paulistas nem se lembram desse rodízio no passado.

Sempre nos orgulhamos de ser um povo limpo, de tomar banhos longos, da água ser farta! Lavamos a casa, o chão, os azulejos, as janelas, as varandas, os quintais, os carros, as calçadas… lavamos tudo! Nem percebemos e isso é considerado normal! Acontece que não é normal! Passou algum tempo para me dar conta do tamanho do absurdo e ao desperdício que o conjunto dessas ações levava. Mais do que a perda em si, a atitude!

Quando fui morar nos EUA, não me dei muito conta a esse respeito, afinal, também é um país de desperdícios. Mas quando fui para a Europa, inicialmente a Espanha, o primeiro alerta me bateu! Opa, aqui vou precisar mudar alguns hábitos!

Admito com certo constrangimento que o primeiro que pensei foi que a água fosse muito cara! Então, melhor tomar banhos mais curtos ou minha conta seria altíssima. Logo percebi que o buraco era bem mais embaixo, a conta não era cara para meu bolso, a conta era cara para o país, para o planeta! Eu poderia tomar banhos longos, se eu quisesse, mas tinha a consciência que não estava fazendo direito meu papel de cidadã. E pode acreditar, a gente sente!

Para começar, nos apartamentos não há ralo, a não ser no chuveiro. Ninguém lava cozinha! Ninguém lava banheiro! Até porque, se você fizer isso, sua casa vai alagar ou vai vazar na cabeça do vizinho de baixo! E a ignorante aqui pensando, mas minha casa vai ficar suja? Pois nunca ficou. Em 10 anos de Europa, nunca ficou suja. Lógico que você limpa, simplesmente, não lava! Não joga baldes nem abre mangueiras!

A cada hóspede brasileiro gentil que se oferecia para lavar louça, para mim era um suplício! Porque as pessoas ficavam batendo papo com a torneira aberta jorrando água à toa, sem nem perceber. E eu querendo ter um filho pelas orelhas, não me aguentava e pulava na frente: Deixa que eu faço, por favor! Não, imagina, é o mínimo… Então, fecha essa bosta dessa torneira pelamordedeus!

Época do ano que chovia menos? Consumo da população começava a aumentar? Governo vai para a televisão fazer campanhas educativas, as fontes são desligadas, as piscinas públicas fechadas… Enfim, cada medida dependendo da situação. Não era unicamente pelo que isso representava em economia, novamente, era o exemplo, a atitude. E, a propósito, nunca nos faltou água nem nos sentimos ameaçados de faltar.

Índices de desperdício público como em São Paulo (e boa parte do Brasil), de aproximadamente 30% de água limpa perdida pelos canos por falta de manutenção, simplesmente derrubariam um governo! Indústrias que poderiam reutilizar a água de maneira mais inteligente e não faziam, não seriam autorizadas a funcionar (ainda que pudesse haver algum subsídio para a criação de alternativas de reaproveitamento da água).

E esse é um ponto que me incomoda muitíssimo, fomos criados e vivemos em uma cultura de desperdícios. As mesmas pessoas que exigem que os azulejos de casa sejam lavados com litros de águas, são as que governam e as que cobram dos governos.

Transportando essa situação para o momento atual paulista, a culpa da falta de água não é do meu número de descargas. É inconcebível que um governo tenha deixado chegar ao estado em que chegou, sem a divulgação, medidas e obras necessárias, contando com a sorte de chover. A culpa é do governo e ponto! Mas me dói que a cobrança por todo esse desperdício permitido criminosamente, por exemplo na Sabesp, só venha agora, quando a água bateu na bunda, ou melhor, não bateu!

E se tivesse chovido o suficiente, a maioria das pessoas não estaria dando a mínima para o desperdício, de 30 ou de 40%, desde que a água chegasse nas nossas torneiras. Seguimos torcendo o nariz para a água reaproveitada do esgoto, afinal, que nojo! Chove em São Paulo praticamente todos os dias há uns 3 meses e não há um projeto de coleta dessa água! A nuvem de chuva precisa estar exatamente sobre a represa para funcionar! Sério? É com esse plano que estamos contando?

Daqui para a frente a discussão da água vira política e não é exatamente o meu ponto hoje, então, vamos mudar o assunto para o lixo?

Está aí outra coisa que achei um saco no início! Esse negócio de separar e reciclar lixo! Enquanto era a latinha de alumínio que eu jogava fora na praia e virava fonte de renda para alguém que catava, show de bola! Mas quando precisei ter uns três recipientes diferentes para lixo em casa, ainda mais no pouco espaço das cozinhas européias, opa, essa brincadeira está ficando chata!

Mas afinal, o que vai onde mesmo? Peraí, eu tenho que lavar o lixo? E ainda por cima sou EU* que tenho que levar o lixo lá fora? (*Ok, “EU” leia-se “Luiz”, mas é menos importante para a história) Não ganho nada por isso? Inclusive há o risco de pagar uma multa se não fizer direito?

Pois é, exatamente assim. E sabe o que aconteceu? Nada demais, nenhum drama. Aprendemos e fizemos o que tínhamos que fazer. Quer saber, nem doía tanto e ainda ficava tranquila sabendo que tudo teria seu tratamento adequado. Faz bem saber que estamos contribuindo para um planeta melhor. Que, paradoxalmente, nem aquele lixo precisa ser desperdiçado! Pode ser reaproveitado, ter outra finalidade, ou no mínimo, prejudicar menos.

Nos primeiros dias aqui, estranhava todas aquelas sacolas de plástico sem restrição nos supermercados e era esquisitíssimo jogar todos os lixos em um recipiente só! Era a sensação de estar jogando no chão da rua, no lugar errado. Felizmente, no meu edifício se faz coleta reciclada. Nem todo mundo dá bola e tenho minhas dúvidas se ao final não vai tudo para o mesmo saco, mas é uma tentativa, um começo.

Sigo cuidando e valorizando a água, o que no Brasil seria interpretado como “economizar”. Na prática, quase nada é diferente do que fazia normalmente e pretendo seguir fazendo, não me custa tanto e é o meu papel. No mínimo, por solidariedade a quem já não tem. Deve ser duro para minha diarista ficar sem água no final de semana e ter que lavar minha varanda; deve ser difícil para um frentista que não tem água há dias para o banho dos filhos lavar meu carro. Separo meu lixo, mesmo sem ter certeza se ele será novamente agrupado lá embaixo. Cuido do meu umbigo, cabe a meu vizinho cuidar do dele. Eu sei que não preciso, não é um mérito nem espero recompensa. Faço porque acho que é o certo, na Europa, aqui ou em qualquer lugar do mundo.

O primeiro quarto de ano

O tempo passa depressa e se aproxima do primeiro quarto de ano que cheguei ao Brasil. E aí, o que mudou? Posso dizer que das portas para dentro, a vida melhorou; das portas para fora, é pior. E vou explicar.

Certamente, a vida segue um rumo mais nos trilhos do que quando chegamos. Estamos estabelecidos em um bom apartamento, mudança arrumada, gatos destraumatizados… Nos relocalizamos na cidade, ainda que agradeça todos os dias pelo surgimento do “Waze” nesse período que estivemos fora.

Quanto ao trabalho, começo a poder me organizar e definir melhor por que caminhos seguir. Luiz voltou a ser turista em casa, afinal, os horários de expediente são bastante diferentes dos EUA e Europa. Não é uma novidade e damos nosso jeito de administrar, acho que até bem.

Ainda me custa lembrar, a cada vez que abro meu carro, que ele é blindado, mas paradoxalmente, também aliviou bastante minha ansiedade em andar pelas ruas e me aventurar por aí. Meu horizonte de visão voltou a ser retangular e só caminho na esteira da academia. Minhas botas de trekking se sentem deslocadas pelos restaurantes e shoppings paulistas.

Ando me cuidando bem mais, saúde e estética. Tenho percorrido uma maratona de médicos e feito todos os exames possíveis. É bem mais fácil aqui no Brasil do que fora, claro, se você tiver a sorte de possuir um bom plano de saúde. Estou fazendo regime, acompanhado de endocrinologista e nutricionista, já perdi a cifra inédita de 9kg! Engraçado como pisar em solo nacional me deixou tão mais exigente em relação ao meu corpo. Acho que muito pelas possibilidades existentes e outro tanto, por uma questão cultural mesmo do que se valoriza em cada parte do mundo. As prioridades mudam automaticamente, às vezes, sem que eu perceba.

Até a forma de vestir, sinto que tende a mudar. Não só pelo país, um pouco pela idade, pelo clima, pelos objetivos, porque eu preciso ou quero mudar. Em breve, tosarei o cabelo, já me conheço.

Socialmente, os lugares que frequento são bem diferentes, restritivos, e não foi minha opção, simplesmente aconteceu. E está sendo um baque entender que o brasileiro não é um povo tão misturado e aberto como havia guardado em minha memória seletiva. O sistema faz com que aconteça assim.

Politicamente, vontade de sentar e chorar! Desesperança e insegurança total! Aquela sensação de tentar acreditar, ok, a vida vai seguir como sempre seguiu, quem sabe é um certo exagero dos meios de comunicação… e a experiência berrando, esquece! O buraco está bem mais embaixo sim! A solução por aqui, se vier, não é para minha geração. Ganhe o máximo e defenda-se como puder! Fico triste, nesse momento, me caberia muito bem algo de orgulho nacional.

Não foi difícil me reacostumar a ter uma diarista trabalhando em casa como imaginei. Minha vida é mais confortável. Tenho mais espaço, mais armários, uma geladeira impressionante e, em breve, minha tão sonhada cama com dossel! São luxos egoístas que sei viver sem, não preciso, mas também sei desfrutar sem culpa.

A proximidade da família é gigantemente mais simples! É fácil passar um final de semana no Rio, ver meu pai caminhando melhor, ir ao teatro com minha mãe, ver que minha sobrinha já mudou de expressão e tem olhos bem mais vivos agora. E sim, isso não tem preço!

Ver amigos sem precisar que seja através de redes sociais ou Skype (ainda que outros tantos sigam sendo minha alternativa para saudade). Confirmar o que já sabia, muitos deles, continuarei me relacionando à distância, porque as distâncias no Brasil podem ser enormes e o tempo cada vez mais curto! Sem ressentimento ou cobrança, quase nunca é algo unilateral.

Vislumbro a possibilidade de visitar meus antigos colégios em Brasília e rever amizades que seguiram fisicamente por lá. Viagens pelo nordeste ou América do Sul em geral, agora não me parecem um plano remoto ou complicadíssimo! Mas não nego que, da mesma maneira, também me parece distante e como é difícil encontrar o bendito tempo!

O mais difícil de tudo é confirmar o que no fundo esperava, eu caibo aqui, foi e é minha opção atual, não me arrependi, é meu lugar por enquanto e tem um monte de coisas que me fazem gostar desse momento, mas não é mais meu lugar. E é muito dolorido ter que responder a pergunta que me é feita frequentemente sobre como é “voltar” para o Brasil. Queria muito poder dar outra resposta, queria muito dar a resposta esperada. Tenho buscado mil maneiras de colocar de um lado positivo sem mentir, mas a verdade é que acho morar no Brasil bem ruim. E preciso assumir isso claramente ou vou entalar tentando convencer a mim mesma. Sinto muitíssimo, mas não me sinto mais em casa.

Não gosto de decisões definitivas, tampouco preciso tomar uma agora. Como disse e repito, há muito de bom para aproveitar aqui e, como de costume, desfrutarei até o caroço! Só uma análise de como me sinto para registro. Minha opinião agora é que posso viver bem como visita, aproveitar o máximo a estadia, amar de paixão os anfitriões, mas sem a intenção de ficar.

E sinto muito por isso.

E ela chegou!

Minha sobrinha era esperada para nascer no dia primeiro de fevereiro. Pelo tamanho da mãe e da barriga, desconfiávamos que poderia ser antes. A última previsão que havia recebido é que deveria ser pelo dia 27, uma terça-feira. Ela ainda estava esperando para tentar um parto natural, o que parecia difícil, mas acho correto.

Muito bem, me programei para passar o final de semana com Luiz e pela segunda-feira, ir para o Rio.

No meio da semana, me procura um amigo de colégio, que mora no Rio, dizendo que havia um encontro carioca do pessoal na sexta-feira. Queria saber se, por acaso, eu não estaria por lá e daria para ir.

Fiquei na dúvida, na sexta e comprando em cima da hora, os preços da ponte aérea não são muito animadores, mas quer saber, por um pouquinho, eu já estava querendo ir mesmo… Ok, eu topo!

Cheguei na casa dos meus pais umas 18h, só o tempo para deixar a mala, trocar de roupa, conversar um pouquinho e sair para encontrar o povo.

Acontece que assim que coloquei os pés no apartamento, meu pai me dá a notícia que a nenén nasceria no sábado, bem cedo! Ou seja, santo encontro que me fez estar lá na hora certa! A propósito, foi bem legal rever os amigos, noite super agradável.

O que passou é que, também por acaso, minha cunhada foi acompanhar minha mãe e a mãe dela para um “curso de avó”, alguma coisa assim. A médica dela estava no local e resolveu dar uma olhada, porque ela estava muito desconfortável, agoniada sem posição e com alguns “gases” incômodos. Resumindo a ópera, tudo indica que os gases eram contrações, a nenén estava sentada na barriga, com as pernas um pouco abertas, além de ser grande para o corpo da minha cunhada. Ou seja, parto normal não ia rolar mesmo! A médica disse que não ia fazer diferença esperar mais tempo, porque a menina não ia se encaixar na posição tão fácil, minha cunhada já não tinha mais posição, não conseguia dormir… então, por que não fazer logo de uma vez no dia seguinte? E assim foi!

Às cinco da matina, acordei para ir na maternidade com meu irmão e minha cunhada. Acho que estão fazendo tudo muito bem, mas ambos marinheiros de primeira viagem. Lógico que dá um nervoso e é sempre bom ter alguém dando um apoio moral. O parto estava marcado para umas 8h da manhã. Mais ou menos por esse horário, chegou a mãe dela, minha mãe, minha tia, minha prima… enfim, aquela mulherada!

Pelas 9h30, meu irmão começou a enviar as primeiras imagens que a filha havia nascido. Minha família não é muito silenciosa e todas na cafeteria, foi aquele alvoroço. Corremos todas para o vidro do berçario, esperar eles chegarem.

Não tardou para aparecerem meu irmão e minha sobrinha pelo vidro, acho que tirei umas novecentas fotos (sem flash)! Pouco depois, chegou minha cunhada no quarto e logo minha sobrinha atrás.

Quando foi chegando a hora do almoço, todo mundo precisava ir. Quer saber, no meio dessa história eu lá tinha fome ou sono? Se vocês querem aproveitar para ir resolver as coisas ou descansar um pouco, fico aqui com elas sem o menor problema. Que sacrifício, né? Quase não gostei!

Ficamos as três e finalmente chegou minha vez de pegá-la no colo. A mãe precisava mesmo descansar um pouco e não podia falar, porque dá gases no dia seguinte. O que aparentemente é muito dolorido. Aliás, aprendi um monte de coisas de uma vez só. Imagina minha cunhada, com a primeira filha e sem poder fazer muita coisa, eu que nem filho tive e minha sobrinha acabando de nascer! Mas quer saber, acho que demos conta do recado muito bem!

Tenho dois sobrinhos, por parte do Luiz. O mais velho, conheci com uns 9 anos; o mais novo quando ainda estava na barriga. Adoro os dois, o segundo por ter conhecido e convivido desde nenén, foi o mais próximo de filho que tive até o momento. Infelizmente, o tempo, a distância e as circunstâncias nos afastaram. Ainda assim, tenho muito carinho por eles. Acontece que já são homens! Um com uns 30 anos e o outro com uns 20! A chegada de uma menininha foi uma notícia e tanto!

É minha primeira sobrinha de sangue, também primeira e única neta dos meus pais. E isso pesa bastante. Pegá-la no colo foi amor instantâneo! Parecia que ela sempre esteve lá, que já nos conhecíamos. Quando ela abriu primeiro os olhinhos, tive o privilégio de estar junto. E como se fosse pouco para minha corujice, ainda por cima é uma linda e saudável!

Durante à tarde, voltaram meu irmão e a mãe dela. Logo depois, minha mãe trouxe meu pai para conhecer a neta.

Até aí, tudo ótimo. Acontece que meu pai chegou à maternidade bastante ofegante, segundo minha mãe, estava assim há alguns dias e ela estava bem preocupada. Havia inclusive adiantado uma das consultas com o médico que cuida do “supermarcapasso”, que sempre esqueço o nome, acho que é um ressincronizador. Minha mãe pediu que eu ligasse para esse médico, descrevesse o que estava acontecendo e perguntasse o que deveríamos fazer. Ele respondeu que deveríamos ir para a emergência do hospital que ele praticamente frequenta, que ele ligaria para o cardiologista de plantão para orientá-lo.

Final da tarde, lá fomos nós para o hospital com meu pai, diretamente da maternidade. Resultado, ele tinha um trombo na parte superior do coração. Menos mau que fomos logo, porque se esse trombo sai do lugar… poderia ser, por exemplo, um novo AVC (isola!). Da emergência ele foi internado, direto para a UTI.

Não foi tão simples, como de costume, lógico que ele deu um show na emergência que ia embora. Só podia ficar uma acompanhante de cada vez com ele, assim que eu revezava com minha mãe. Em uma das vezes que estava a minha mãe, ele começou a arrancar os eletrodos, tentar fugir da cama, falar alto… a reação da minha mãe, que já passou do limite do cansaço, foi dizer que não ia ficar ali, saiu pelo corredor nervosa e gritando: tem um louco ali naquele quarto! Ele surtou! Foi um corre-corre de médicos e ela saiu para me encontrar e contar. Estava tão nervosa que começou a contar rindo e chorando.

Dei um minutinho rápido para ele acalmar e lá fui eu tentar amansar a fera!

No leito havia dois médicos, um fazendo uma ecografia no coração e outro com os olhos arregalados, fazendo de tudo para fugir do quarto e dizendo para mim: tem que controlá-lo! Tem que controlá-lo! Juro que no meio desse caos, tinha até um pouco de vontade de rir!

Entrei e ele estava mais razoável, dizendo que o médico da ecografia havia matado a charada. Lá fui eu ver o que o médico havia descoberto. Sim, porque já sei ler radiografica, ecografia, exames etc. Doutora Google! E lá estava um trombo bem grandinho.

Logo descobri que a relativa calma do meu pai se devia a acreditar que haviam descoberto o problema, dariam algum remédio para ele tomar e seguir o tratamento em casa. Só que não. E quando ele entendeu que ia ficar internado, foi um pouco mais difícil explicar as coisas. Mas ele acabou aceitando, porque não seriam muitos dias e também viu que não tinha muito jeito.

Assim que, no mesmo dia, pela manhã bem cedo tive a alegria de ver minha sobrinha nascer. Pelo final da tarde, estava dando entrada na emergência com meu pai. Uma verdadeira montanha russa!

Já chegamos em casa, minha mãe e eu, pelas 21h30 ou um pouco mais. Para quem acordou às 5 da matina para não perder nada do nascimento e depois desse carrossel de emoções, estava mortinha da silva!

A partir daí, me dividia entre maternidade pela manhã e UTI à tarde. Acho que pela segunda-feira, minha sobrinha e os pais voltaram para casa. Alguns dias, nem conseguia visitá-la, mas logo nos organizamos.

Meu pai ficou internado por cerca de uma semana, voltou para casa numa sexta-feira e vim embora no sábado ao final da tarde.

No sábado, ainda conseguimos todos, inclusive ele, visitar minha sobrinha. Ele realmente não parava de dizer que queria ver a neta. O caminho, bem curto, entre a casa dos meus pais e a do meu irmão, foi difícil de fazer. Ele estava tendo as convulsões uma atrás da outra. Mas acho que valeu à pena o trabalho. Almoçamos por lá e eu babei ela um pouco mais antes de viajar.

Fico um pouco preocupada em sair assim, mas também preciso cuidar da minha casa, meu marido, meus gatos e meu trabalho. Pelo menos ele não estava mais no hospital e, finalmente, havia aceitado uma cuidadora para ajudar minha mãe. Vamos ver como vai funcionar essa história, mas acho que ela realmente precisa de um alívio, é uma barra muito pesada de se levar e faz muitos anos que vem nessa batida.

Minha sobrinha veio em boa hora! Não é que uma bebê vá resolver todos os problemas, muito menos curar meu pai ou descansar minha mãe. Mas é outra alegria e energia para a família. Acho que meu irmão quer ser pai desde criança! Era algo que faltava para completar seu amadurecimento e está fazendo muito bem, será um bom pai, já é. Minha cunhada também queria e, apesar de exausta e ainda achar que não está conseguindo fazer tudo de maneira perfeita, afinal, inexplicavelmente parece que toda mãe vem com algum tipo de culpa embutida, a verdade é que ela também está fazendo muito bem e já é mãe.

Um dos meus maiores medos é que meu pai não chegasse a ver a neta, por muito pouco. Ainda quero que ele fique por aí brigando um bom tempo, mas é um alívio saber que ele teve a felicidade de pegá-la no colo. Minha mãe ainda não teve a oportunidade de curtí-la como gostaria. Felizmente, é só uma questão de mais tempo e será uma super avó coruja. E eu, acho que nem preciso dizer, sou amor e felicidade puros, um pouco de saudade também. Tenho a foto dela no meu celular e a cada vez que olho, é impossível não soltar um sorriso sozinha e repetir para mim mesma: lindinha da tia!

E começou 2015, vamos dar uma atualizada?

Passamos Natal e Réveillon no Rio. Luiz foi e voltou, eu fiquei direto. Conseguimos que uma amiga viesse diariamente para checar comida e água dos gatos no período do Natal, e um amigo para fazer o mesmo no Réveillon. Dessa forma, acho que eles se estressaram menos, ainda estão um pouco traumatizados com tanta mudança em um curto espaço de tempo.

Foi bom ir para o Rio, afinal, parte da minha mudança para o Brasil foi ficar mais próxima da família. No Natal, meu pai estava mais ou menos, no Réveillon, melhorou bastante. Ele tem um tipo de convulsão do lado esquerdo do corpo, a mão começa a mover sem controle, como um espasmo e a perna perde o equilíbrio. Médico nenhum consegue descobrir que raio de problema é esse! A última possibilidade é uma hipotensão postural, que ele realmente tem, mas não vejo o remédio caréssimo ajudar especificamente nisso. Enfim, achei que eram dois problemas diferentes, a hipotensão e os espasmos e minha mãe teve a idéia de voltar com o remédio para os espasmos, dessa vez junto com o outro. Na primeira semana, funcionou maravilhosamente bem, e ele pode aproveitar melhor a noite de Ano Novo. Na semana seguinte, voltaram os espasmos, mas eu já não estava lá.

Muito bem, o Natal foi tranquilo, mais família mesmo. O Ano Novo foi show! Além da família, levamos alguns amigos nossos e achei o clima bem bacana. Minha mãe gostou do grupo, achou todo mundo simpático. Garantimos a janela principal para minha cunhada gravidérrima e meu pai verem os fogos bem de frente. Ele não aguenta descer na muvuca e estava reclamando que nunca conseguia ver bem, porque todo mundo corria para janela (lógico) e como ele é alto, ficava para trás. Só que ele nunca havia reclamado disso antes, nós nem sabíamos, e esse ano ele já precisava ficar sentado. Sem problemas, fui avisando a todos, que entenderam bem. E a verdade, é que é ótimo passar a virada na praia! Eu só não fui porque queria ficar com eles.

Assim que meu pai foi dormir, fui colocar meu biquini e acertar minhas contas com Iemanjá. Fazia tempo que não pulava as ondas de verdade e não tem comparação entrar no mar e sentir toda aquela energia boa de milhões de pessoas vestidas de branco, cada uma dentro de suas crenças ou descrenças, mas com a esperança que o ano seguinte será melhor.

Dia 2 de janeiro, pegamos o carro e voltamos para São Paulo. Baterias recarregadas! Que venha 2015!

Não tardou para finalmente resolvermos uma das nossas sagas: nossa mudança chegou! No dia 13 de janeiro, que era para dar sorte!

Fiz com a empresa Fink, brasileira. Achei que seria melhor para os trâmites nos portos, receita federal etc. Estão mais acostumados a lidar com o caos que é aqui! Não me decepcionei em nada, pelo contrário, o atendimento foi muito bom desde o início. Educados, profissionais, prestativos, tercerizaram a embalagem em Londres para uma empresa muito boa, fui mantida informada o tempo inteiro, enfim, recomendaria. Sempre quebra uma ou outra coisinha, mas dentro do tamanho da mudança, bastante razoável, nem valeria à pena acionar o seguro, muito trabalho para pouca coisa.

Prendi os gatos no quarto deles, é meio difícil prender os dois juntos, preciso de alguns artifícios, como abrir um patezinho, dar um agradinho… Mas não gosto de abusar desses recursos, porque depois eles ficam ariscos quando tenho que fazer outra vez. O problema é que é impossível fazer mudança com gatos soltos, não dá certo e é perigoso!

Pela primeira vez, tive uma empresa de mudança que me ajudou bastante a desembalar as caixas, uma mão na roda! Adiantou meu trabalho e ainda levou aquele monte de papelão que seria um perrengue para me livrar depois! Eles até se ofereceram para desembalar tudo, mas chega uma hora que você precisa dar uma arrumada antes de abrir o resto, ou vira aquele samba!

E nem sei dizer como foi bom ver minha casa tomando novamente jeito de lar! Até os gatos que saíram do quarto bem desconfiados, logo começaram a reconhecer os próprios cheiros e ficaram felizes da vida! Faltava começar a trabalhar a energia do local e a melhor coisa, na minha opinião, é receber amigos queridos. Sem falar que estava doidinha para dar uma festa!

Bom, os móveis chegaram na terça-feira, no sábado, já marquei logo uma festa de pré-inauguração! A propósito, marquei antes mesmo da mudança chegar, contando que tudo daria certo. Assim que a casa pre-ci-sa-va estar arrumada e a comida feita até sábado de qualquer jeito! Não foi daqueles festões que a gente gosta de dar, foi mais discreta sem poder convidar todos que gostaríamos, algo para checar como seria com a vizinhança e tal. Mas sabe como é, nossas festas pequenas dão uns 40 convidados…

E claro que deu tudo certo! Exceto pelo calor insano, que não conseguíamos dar vazão nem a pau, eu adorei! Essa é a parte mais legal de estar aqui, voltar a conviver com amigos que fazem parte da nossa história é muito bom!

No domingo, nossa casa era oficialmente um lar.

O plano A era fazer a super inauguração definitiva no dia 7 de fevereiro. Queria homenagear Iemanjá, queria fazer uma festa de “abre caminhos”, todos de branco e/ou azul. Mas por uma série de eventos que explicarei depois, não vou dar conta de fazer nada nessa data. Paciência, em alguma hora será.

Eu desconfiava, mas ainda não tinha certeza, que um furacão passaria no final de semana seguinte. Mas essa é uma outra história.

Feliz Natal

Queridos e queridas, lá vamos nós para a mensagem piegas de Natal, né?

Nos últimos 11 anos, passei 2 Natais no Rio de Janeiro, um no primeiro ano fora e o outro, acho que em 2010, quando ganhamos as passagens de surpresa.

Esse ano, há poucos meses, também não tínhamos a menor idéia que estaríamos aqui, assim que de certa forma, é quase uma surpresa também. Espero ainda ter muitas surpresas pela frente, sei que algumas serão melhores do que outras, mas agradeço as de agora. Agradeço à minha família, que tem nos apoiado e respeitado essa vida meio aventureira pela qual optamos e aos amigos, que às vezes quase insistem em ser nossos amigos, porque sei que não é fácil manter a afinidade em tão grandes distâncias. E ainda assim, muitos hoje fazem parte da família que pudemos escolher.

Talvez minha lição e desejo nesse momento seja a da tolerância, não de maneira cega ou sem questionamentos, mas com muito respeito a verdades que sempre possuem vários prismas.

E dentro desse espírito, como ateísta que sou, desejo a todos um Feliz Natal, que independente das crenças de cada um, traz uma oportunidade de celebrar com quem se quer bem. E, em alguns instantes, partiremos para a cidade maravilhosa, para celebrar com uma família que amamos e teve tanta tolerância em esperar algum dia que estaríamos em casa.

E agora, falamos sobre política?

Pois é, quem acompanha o blog sabe que evito ao máximo falar em política aqui, acho que não é meu foco, ainda que algumas vezes passe minha opinião.

A questão é que, atualmente desde dentro do Brasil, fica muito difícil evitar esse tema, porque altera diretamente meu dia-a-dia, esse sim assunto central do que escrevo.

E agora, José?

Porque não sou jornalista, nem tenho a menor intenção de entrar nessa discussão. Simplesmente, minha vida está afetada por algo que não posso fingir que não existe. Fatos e opiniões que concordo, outras me incomodam, algumas inclusive me agridem.

Na verdade, o problema piora porque por trás de muitas dessas opiniões há pessoas, mais ou menos próximas a mim. Sempre achei que poderíamos discutir idéias civilizadamente, concordando ou não. Mas sinto que nesse momento, o cenário brasileiro está tão dividido a ponto das pessoas não se ouvirem! Aquela coisa americana de se não está comigo, está contra mim. Há o preto e há o branco, e as diversas matizes de cinza, e onde particularmente costumo me encontrar, parecem não existir.

O centro, ou algo próximo ao equilíbrio no Brasil, se não inexistente, é considerado “em cima do muro”. Caminhamos para dois extremos radicais, de esquerda e de direita, cada um pior que o outro.

Me enoja a quantidade de escândalos escancarados, Petrolão, Mensalão e outros “lãos” que os defensores da “esquerda” se negam a crer e ver números concretos. Está aí, na cara! O país não está melhor, perdeu o bonde! E o governo nem de esquerda mesmo é, é no máximo um esquerdismo de conveniência! Por outro lado, escuto pessoas defendendo e enaltecendo um cidadão que diz com todas as letras “você não merece ser estuprada”. Não me importa para quem se diga isso nem em que contexto, a frase ofende as mulheres em geral, me ofende! Mas o lado da “direita” também busca razões onde não existe justificativa.

Vejo pessoas que considerava liberais defendendo a censura da imprensa! Outras, teoricamente sensatas defendendo a volta do regime militar! Sinceramente, me sinto um ET e fico pensando se só eu acho que ambas, ou não sabem o que estão dizendo ou estão loucas! Em que momento ficou definido que nossa única opção seria entre ditadores, de esquerda ou de direita?

Uma explicação razoável que encontro é o desespero! As pessoas estão tão fartas do que está aí que passam a acreditar que qualquer coisa pode ser melhor! Muita calma nesse momento, porque nada é tão ruim que não possa piorar. “Qualquer coisa desde que contra” costuma ser uma má opção.

Perdemos as referências! Na minha opinião, não deveríamos estar tentando optar entre esquerda e direita, e sim entre certo e errado, bem e mal. Não há um vilão e um mocinho! Infelizmente, estamos sendo levados a optar entre vilões. E enquanto brigamos entre nós, a caravana segue.

Por exemplo, eu não aprovo o governo do PT! O PT criou o bolsa-família (ok, não criou, mas foi onde a coisa ganhou proporções significativas). Logo, sou contra o bolsa-família! Ou vamos pelo outro lado, sou a favor do governo do PT, a mídia divulgou mais um caso de corrupção ou incompetência gritante do governo. Logo, nem vou ouvir ou parar para analisar, porque “toda” a mídia sempre inventa as informações. Sério?

Os apoiadores governistas parecem ter esquecido que um só partido não possui o monopólio de políticas sociais, essas devem ser cobradas de todos. A oposição, que só sabia ser governo e passou anos adormecida, começa a engatinhar agora. A corrupção, que sim sempre existiu, mas não existia dessa maneira, foi institucionalizada. Desceu aos níveis técnicos, minou a inteligência do país, deixou todos de rabo preso.

Não elevamos mais as discussões, simplesmente observamos de que lado vem e nos posicionamos contra ou a favor porque sim. Ou porque se ganha diretamente algo com isso. E pior, grande parte das vezes, as discussões mais acaloradas não passam de cortinas de fumaça, onde entramos como patos confusos.

Critico diretamente o PT pois é o partido que está no governo – aliás, há 12 anos! E ainda sim seguem batendo em pontos onde houve tempo suficiente para atuarem como se não tivessem nada a ver com isso! Mas não nos esqueçamos, por exemplo, do PMDB, que vamos combinar, está sempre metido na história e passando relativamente ileso pelos escândalos. Quem realmente manda nesse país?

Sou oposição! Sim, reconheço que houve alguns avanços sociais que devem continuar, o que não é favor, é obrigação de qualquer governo! Mas não é justificativa para fazer vista grossa a um governo criminoso, no mínimo por omissão e incompetência. O país não está melhor do que há 12 anos. Gostaria que estivesse, mas não está. Há 12 anos, acredito que o PT foi a opção correta, era o menos pior, mas não é mais, passou do tempo, passou do ponto! Perdemos em educação, perdemos em exemplo, perdemos economicamente… perdemos.

E sinto que em breve, infelizmente, também perderei alguns amigos. É o preço.

Passos para mudar do exterior para o Brasil, textinho chato, porém informativo

Pelo título, se nota que essa é uma crônica burocrática. Foi escrita muito mais como registro e informação a quem esteja se planejando para trazer a mudança de volta para o Brasil. Assim que vou logo avisando, é um saco! Já mudei para Estados Unidos, Espanha e Inglaterra e, sem sombra de dúvidas, o lugar mais complicado para levar uma mudança é o Brasil!

O maior problema são os portos aqui, que estão colapsados e corrompidos. Tudo é feito para ser complicado.

Faço um pouco o papel de advogado do diabo, é verdade que há espertinhos tentando burlar a fiscalização e entrar com mercadoria importada. Por que? Porque há uma diferença na tributação. Você precisa provar que morou no exterior mais de um ano e teve renda suficiente para adquirir os bens a declarar que irá trazer para ser isento de impostos. Caso contrário, é considerado importação e o valor pago é muito, mas muito mais alto! Portanto, há casos, por exemplo, de gente que quer trazer containers de produtos para si mesmo ou para comercializar e contrata um “laranja” que esteja voltando para o país para colocar no nome na mudança. Isso acontece, mas francamente, duvido muito que seja a maioria, principalmente as pessoas comuns, como eu, que simplesmente querem trazer seus móveis e utensílios claramente usados. Ou seja, há uma pitada do justo pagando pelo pecador sim, mas também uma conveniência em se criar dificuldades para se vender facilidades.

Enfim, nós contratamos uma boa empresa de mudanças, porque às vezes o mais barato sai bem caro. Escolhi uma brasileira que faz mudanças internacionais, porque acredito que eles possam ter melhores contatos e, em teoria, conhecem bem o processo dentro dos portos.

O primeiro passo é eles fazerem uma vistoria na sua casa para avaliar o tamanho do container. Você paga por volume cúbico. Como já estou mais do que careca em fazer mudanças, já sei quanto tem minhas coisas em m3 e é mais fácil negociar. Até aí, normal.

As diferenças começam a seguir. Primeiro, você não pode ter estado no Brasil por mais de 45 dias no último ano. Caso contrário, paga imposto!

Outra coisa importante é que, antes de sair do país estrangeiro, você precisa de um “Atestado Consular” para provar que viveu mais de 12 meses naquele país. Ou seja, você precisa se informar e ir até um consulado brasileiro pedir esse documento. No meu caso, precisei levar extratos bancários, contra-cheques etc dos últimos 12 meses corridos. Não adianta ser um documento de quando você chegou e outro do final do período. É um calhamaço de papéis mesmo que você precisa demonstrar.

Muito bem, com isso, você pode despachar a mudança e viajar para o Brasil. Tem mais um monte de documentos a serem providenciados, mas já em solo brasileiro.

Quando você despacha sua mudança, não precisa ainda ter um endereço definido, apenas a cidade para onde vai se mudar. Entretanto, para sua mudança ser liberada no Brasil você precisa, necessariamente, comprovar um endereço no seu nome.

O tempo de transporte por barco atravessando o Atlântico, por exemplo, é uma média de 30 dias. Pode ser um pouco menos, pode ser um pouco mais, mas na média é um mês. No meu caso particular, minha mudança saiu de casa em Londres no dia 6 de novembro e chegou ao porto de Santos no dia 27 de novembro, ou seja, cerca de 20 dias. É mais ou menos esse tempo que você tem para providenciar toda a documentação necessária dentro do Brasil. De preferência, antes, justamente para evitar maiores atrasos.

Qual a documentação exigida para a liberação no Brasil? O que você deve entregar à companhia de mudança para que te represente?

– 1 cópia do passaporte (todas as páginas, incluindo folhas em branco)
– 2 cópias da carteira de identidade
– 2 cópias do CPF
– 2 cópias do cartão de embarque para o Brasil
– 2 cópias do email da compra da passagem aérea para o Brasil
– 1 cópia de comprovante de residência para onde irá a mudança no Brasil
* Exceto pelo comprovante de residência, todas as cópias acima devem ser autenticadas
> Formulários com modelos fornecidos pela companhia de mudança, todos precisam ser preenchidos digitados em computador e assinados com firma reconhecida em cartório:
– 3 originais de procuração para os despachantes da empresa contratada te representarem
– 1 procuração para agenciamento
– 1 declaração que não passou mais de 45 dias no Brasil nos últimos 12 meses
– 3 originais de declaração de bagagem
– 3 originais de declaração de residência no Brasil
– 3 originais da DSI, Declaração Simplificada de Importação (lista de bens em português, com a mesma quantidade de ítens relacionados no inventário de embalagem da mudança, com valores em dólares para cada ítem)
– 1 original da declaração de residência no exterior

Com toda essa documentação entregue, a partir da chegada do navio, seguem as etapas de liberação:

– Credenciamento: registro do nome no sistema da alfândega autorizando o dono dos bens a receber um processo de importação. Essa fase do processo leva em torno de 15 dias úteis para ser concluída.

– Liberação do conhecimento de embarque marítimo, Registro do conhecimento de embarque junto a Marinha Mercante e Pedido de isenção do Sunaman: tal solicitação leva em média 02 dias úteis para ser realizada e concluída.

– Registro da lista de bens – DSI no sistema da alfândega: tal procedimento leva 01 dia útil para ser concluído.

– Apresentação dos documentos a alfândega e análise documental: essa fase do processo leva em torno de 10 a 15 dias úteis para ser concluída.

– Agendamento e realização da vistoria física dos bens e vistoria do Ministério da Agricultura: esse procedimento leva em média 10 dias úteis para ser realizado.

– Conclusão do processo e emissão do documento de carregamento – CI: após conclusão da vistoria física se apurado que o declarado na documentação esta de acordo o próximo passo no processo é a conclusão e autorização de retirada dos bens da área portuária. Esse último passo leva em média 02 dias úteis para ser realizado.

A companhia de mudanças te avisa que os prazos acima mencionados são estimados, sujeitos a alterações sem prévio aviso da parte das autoridades responsáveis. Além disso esses procedimentos são os que seguem o padrão, porém os fiscais podem a qualquer momento alterar os mesmos e, consequentemente, teremos alteração nos prazos estimados informados.

Assim que, como se nota, chegar no porto é fácil, o que pode encrencar é a liberação da mudança. Se você fizer uma conta rápida, verá que, seguindo a ordem normal, após a chegada, leva-se mais cerca de 40 dias em todo o processo.

Nesse exato momento, dia 16 de dezembro, já entreguei toda a documentação exigida e nos encontramos no segundo passo do processo de liberação. Ou seja, a mudança já chegou, nosso cadastramento foi concluído e foi dada a entrada na liberação do conhecimento de embarque marítimo.

Enfim, é complexo, e como disse, fundamental fechar o contrato com uma empresa de boa reputação no mercado. Temos passado por todas essas etapas com um atendimento bacana, com alguém nos explicando e informando em que posição estamos. E ainda assim é difícil! Imagina com uma empresa ruim?

Minha recomendação é pesquisar bem, negociar tudo por escrito, pedir referências aos amigos e se armar de muita paciência!

A delícia de alugar apartamento no Brasil!

Ok, serei justa, não é um problema apenas brasileiro, alugar apartamento é um saco em qualquer lugar do mundo! É sempre mais caro do que você queria pagar, nem tudo é do jeito que você gostaria, enfim, não é de todo simples.

Entretanto, cada lugar tem suas peculiaridades e, vamos combinar, aqui há algumas que dá vontade de arrancar os cabelos do sovaco!

Ah, Bianca, fala sério, agora que você descobriu isso?

Sim, só agora! Porque em toda minha vida adulta no Brasil, nunca aluguei um imóvel por longo prazo. Ao sair da casa dos meus pais, quando vim morar sozinha em São Paulo, ou ficava em flats ou dividi apartamento com uma amiga (e o apartamento era dela). Casada com Luiz, sempre comprávamos os imóveis em que vivíamos. Assim que tinha uma idéia das complicações sobre aluguéis, mas só de orelhada, nunca vivi na pele.

O fato é que a gente precisava de um endereço em São Paulo para enviar a mudança, caso contrário, nada é liberado. Você até consegue que a mudança saia do país estrangeiro, mas para ser liberada pela Receita Federal, é obrigatório comprovar um endereço no país.

Ainda morando em Londres, saí pesquisando na internet como uma louca no Zap Imóveis. Fazia um filtro e selecionava os melhores para Luiz visitar. Afinal, ele se instalou aqui quase dois meses antes de mim.

O plano A era conseguir o apartamento e encomendar os eletrodomésticos. De maneira que, quando chegássemos de vez com os gatos, nem iríamos para flat, já poderíamos ir direto para nosso novo endereço. Veja bem, para quem não prestou atenção, vou repetir, Luiz veio quase dois meses antes de mim! Tempo suficiente para encontrar um apartamento e comprar o básico, certo?

Errado!

Encontrar o apartamento, ele encontrou. Até iniciou o processo de assinar o contrato (sim, porque é todo um processo, né?), mas resolver que é bom… Começou a lista de mil documentos necessários, sendo um deles uma original ou cópia autenticada da nossa Certidão de Casamento e minha identidade e CPF. Luiz tentava argumentar, mas veja bem, minha esposa não tem contra-cheque, o responsável pelo pagamento do aluguel sou eu, por que não vale uma cópia simples dos documentos dela?

Porque o “jurídico” disse que não! Ah, bom, se o jurídico diz que não, porque não…

Lá vou eu enviar as coisas pelo correio, correspondência especial carésima que sempre demora anos para ser entregue do mesmo jeito pelos correios brasileiros. Para complicar, em época de eleição, quando os correios estavam comprometidos, legal e ilegalmente, em enviar propagandas políticas. Claro que cheguei ao Brasil antes da correspondência, como era de se imaginar.

Mas não era a única pendência, porque além do calhamaço de documentos para entregar, ainda havia aquela figurinha especial e tipicamente brasileira: o fiador!

Ah, mas não tem fiador em outros lugares do mundo? Não! Geralmente, tem uma fiança, que é um valor antecipado que você paga e o proprietário te reembolsa no final do aluguel.

Luiz tentou pagar um ano antecipado, para evitar o maldito fiador. O proprietário até aceitou, mas o jurídico… sabe como é… não podia ser feito porque blá, blá, blá… algo como o proprietário não poderia tirar o locador antes de um ano (lógico, por isso o aluguel era de um ano, certo? E mesmo que fizéssemos algo que justificasse uma saída, se ele entrasse na justiça, o que ele conseguiria mais rápido do que esse prazo?).

Muito bem, felizmente, Luiz conseguiu que a empresa onde trabalha fosse fiadora. Olha que maravilha? Qualquer proprietário deveria babar com uma empresa grande sendo fiadora, certo? Pois bem, aceitar, aceitaram, mas precisava assinatura do presidente da empresa, dois diretores e do departamento jurídico! Tudo isso, obviamente, reconhecido em cartório!

Novamente, Luiz argumentava inutilmente, caríssimos, essas pessoas assinam contratos de “trocentos dinheiros” todos os dias e ninguém pede firma reconhecida! Que vocês façam questão da minha, tudo bem… mas o jurídico disse que precisava…

E nisso, sem me liberarem a chave para visitar o apartamento! Porque eu nasci ontem, né? Lógico que estavam forçando uma barra para fechar tudo antes, porque vai que eu não gosto e desfaço o negócio!

Quando finalmente tinham tudo certo, marcaram as assinaturas finais do Luiz e do proprietário. Eu não pude ir, porque também estava acabando o prazo para entregar os documentos para a mudança e, como já estava tudo certo, fui ao cartório reconhecer e autenticar uma verdadeira bíblia de papéis! Claro, todos onde já constava nosso novo endereço!

Fiquei de pegar as chaves no fim da tarde para conhecer o tal do apartamento, depois deles fecharem tudo oficialmente.

A parte que eu não sabia, porque Luiz teve a sabedoria de não me contar, é que ao chegar para assinar o contrato final, recebeu da corretora uma notícia, assim displicentemente: há um detalhe, havia um erro em uma das páginas, algo pequeno entre a imobiliária e o proprietário que não muda nada no contrato, então, nós tiramos essa página e tem que substituir por essa aqui… ou seja, precisa nessa página pegar outra vez as suas assinaturas e dos fiadores…

Hein?

Deixa eu explicar para quem estava distraído, a mesma imobiliária que pentelhou nos mínimos detalhes para fechar o negócio, pegou um contrato assinado, tirou uma das folhas, rasgou e substituiu por outra! Isso legalmente significa que todo o contrato foi invalidado! Para voltar a valer alguma coisa, Luiz precisava, novamente, das assinaturas do presidente, dois diretores e convencer o departamento jurídico de validar aquela porcaria outra vez! Qual era a probabilidade de estarem todas essas pessoas juntas no escritório no mesmo dia? Fora que são todos pouco ocupados, né? Não tem mais nada para fazer… todo mundo estava disponível para resolver nosso problema, certo?

Não vi a cena, mas posso imaginá-la, porque Luiz rodou a baiana como a muito tempo não faz! Vocês estão loucos? Como é que vocês fazem uma coisa dessas sem me avisar nada? Se precisasse fazer uma correção, principalmente algo entre vocês, bastava um adendo! Esse contrato agora vale papel de limpar a bunda! Não vale nada! Agora preciso voltar a conseguir assinatura de todas essas pessoas! Quanto tempo vocês acham que o presidente da empresa tem para um problema pessoal meu? E vocês tem sorte que não é minha mulher que está aqui (que bonitinho, meu marido! Que orgulho!), porque se vocês acham que estou bravo, vocês não viram nada! Vou tentar, mas não garanto e se não conseguir, o negócio está desfeito e foda-se!

Levantou e foi embora com o pessoal da sala de olhos arregalados e sem saber onde enfiar a cara! Na verdade, ele foi bem razoável, porque acho que eu teria ameaçado processá-los por falsificação de documento e exigido que reembolsassem todos os gastos que tivemos até aquele momento em cartórios! E não teria fechado negócio!

Portanto, melhor que tenha sido ele a resolver, porque a verdade é que deu uma sorte incrível! Sua assistente é super eficiente e conseguiu todas as assinaturas enquanto ele participava de uma reunião. Pequeno detalhe, isso tudo com os responsáveis da imobiliária ligando para se desculpar pelo ocorrido e ele dizendo para pararem de atrapalhá-lo porque ele estava ocupado!

Bom, saindo dessa reunião, voltou à imobiliária, com todos ainda lá, com aquela cara de nádegas! Fecharam o negócio naquele clima delicioso e as chaves foram liberadas.

Só à noite, depois de tudo resolvido, ele me contou o ocorrido! Ignorance is bliss! Por um lado, fiquei chateada de não estar nessa briga com ele, por outro, acho que foi melhor assim. E acho que ele estava certíssimo em botar para quebrar! Tudo tem limite!

Daí fui conhecer o apartamento. E entendi porque a corretora forçou a barra para eu não vê-lo antes. Estava absolutamente imundo! O lugar para o fogão é pequeno, o espaço para geladeira era inadequado, dos três quartos, em dois havia móveis fixos que não podiam ser movidos. Sinceramente, minha primeira impressão foi bem ruim. Eu teria feito algumas exigências para alugá-lo, agora era tarde, paciência! Es lo que hay!

Para amenizar minha insatisfação, Luiz contratou uma equipe de limpeza que indicaram a ele. Sério, só uma pessoa não daria conta! Foi uma boa decisão, após a equipe limpar o apartamento, minha impressão foi bem melhor. Também é verdade, que estava me esforçando para ter um pouco de boa vontade. Não tinha jeito, precisava achar uma maneira de fazer nossas coisas funcionarem ali.

E com um pouco de tempo, quebra a cabeça daqui, quebra dali… achei uma arrumação bem razoável. O zelador indicou um marceneiro meio “faz-tudo”, que contratamos para tirar algumas coisas, de maneira que pudessem ser recolocadas no futuro, quando deixarmos o imóvel. Também não podemos fazer grandes investimentos, é uma moradia provisória.

Agora que mudamos, mesmo ainda sem os móveis, cada vez gosto mais do lugar. A gente vai arrumando, limpando, mudando os cheiros, melhorando a energia e, quando percebe, tem cara de casa. A rua é muito agradável, tem tudo perto, restaurantes, mercados, padaria, shopping etc.

Passado o perrengue, acho que vou gostar daqui.

O 40º endereço!

Meu número de mudanças atingiu sua plena maturidade! Caríssimos, quem diria, estamos no número quarenta!

Chegamos em São Paulo e fomos para o Aparthotel que Luiz já estava hospedado há quase dois meses, o The Capital, no Itaim. Na verdade, achei muito bom, para o que se propunha. Organizado, bom atendimento, bem localizado, enfim, foi bastante conveniente ter um lugar como base inicial.

Entretanto, éramos um casal, dois gatos e malas para uma mudança! Não tinha maneira de não ficarmos apertados. Por sorte, havia uma pequena varanda que virou depósito de malas. Outro porém é que não havia fogão, nem um pequenininho de duas bocas, ou seja, todas as refeições precisavam ser na rua.

Enquanto isso, ainda estávamos tentando alugar um apartamento, de preferência, próximo ao trabalho do Luiz. Afinal, o trânsito em Sampa não pode ser ignorado. Eu trabalho de casa mesmo, então, para mim tanto faz. Mas a saga do apartamento conto em outra crônica. Basta dizer que a coisa se enrolou bem mais do que havíamos previsto. E quando se resolveu, não havia condição de mudar. Porque estava imundo, não havia luz, nem gás, nem eletrodomésticos… enfim, era uma casa muito engraçada, não tinha móveis, não tinha nada…

Daí, o plano A era buscar o máximo de estrutura possível, até que os móveis chegassem e só mudar com a casa organizada e pronta. Os eletrodomésticos precisavam ser todos comprados, porque primeiro, os apartamentos que moramos no exterior incluiam essa parte. Sorte nossa, porque a voltagem também seria diferente e se houvéssemos comprado tudo lá, teríamos que deixar para trás.

Pois é, mas na semana que os eletrodomésticos foram instalados, outra novela que contarei em breve, descobrimos que nossa mudança, que acabara de chegar ao porto de Santos, ainda levaria cerca de um mês para ser liberada. Como vem por aí Natal e Ano Novo, dificilmente vão adiantar esses prazos. Ou seja, a idéia de mudar com tudo resolvido, na minha cabeça havia ido para o saco!

Quer saber de uma coisa, Luiz, vamos mudar na marra? A casa está limpa, temos o principal que é a cozinha montada, certo? Com mais uma TV, que também precisávamos comprar e um colchão para dormir, eu sou feliz! No que dependia dele, me respondeu que já moramos com menos… Então vamos nessa! Assim que houve uma mínima condição do apartamento alugado ser habitado, resolvemos encarar nosso acampamento urbano!

Mudamos oficialmente no sábado, 6 de dezembro de 2014.

Ao longo da semana anterior, fui trazendo roupas, malas, enfim, tudo que podia ser adiantado. No sábado, quando Luiz tinha mais tempo, acordamos cedo e trouxemos o que faltava. Pedi emprestado para um amigo um colchão para ver TV, assim não precisávamos comprar nada que não fôssemos usar depois. Ele não só levou na nossa porta, como ainda nos presenteou com champagne e duas taças para tomá-la! Assim que começávamos muito bem!

Com tudo organizado, fomos buscar os gatos. Claro que foi outro parto colocá-los nas caixas de transporte. Wolverine até que não deu tanto trabalho, mas para variar, Phoenix conseguiu escapar e se meteu embaixo da cama. Luiz teve que literalmente desmontar o quarto e colocar a cama em pé na parede para caçarmos a pobre da gata! Mas tudo bem, uma vez dentro da caixinha, ela relaxa e não dá nenhum trabalho. Além do mais, dessa vez a distância a ser percorrida era bem menor que um oceano! Chegaram desconfiados e estressados, como de costume, mas estão levando cada vez menos tempo a se habituarem a novos espaços. Gatos de ciganos, né? Não tem jeito, precisam se acostumar! E já começaram a curtir a varanda que fiz questão por causa deles.

Gatos casa nova

Fazer as primeiras compras de supermercado, antes mesmo da gente mudar, teve um gostinho especial. Sei que parece bobagem e talvez seja mesmo, mas eu adoro aproveitar esses pequenos detalhes da vida cotidiana. Uma geladeira para guardar as compras, um fogão para cozinhar, uma máquina para lavar a roupa… luxos que nem sempre tenho.

Falando em luxos, após 11 anos, tenho uma diarista! Confesso que fiquei até nervosa quando tomei essa decisão. É estranho ter outra pessoa arrumando minha casa novamente, mesmo que seja só uma vez por semana. Escutei mil comentários preconceituosos sobre “esse tipo de gente”, ou “essa mão-de-obra”, coisa que me irritou um pouco e ainda me choca ouvir. E vindo de pessoas legais, que eu gosto e acho que nem percebem que estão falando sobre outro ser humano. Enfim, acho que faz parte das ambiguidades que ainda terei que conviver. Mas não preciso ser assim. E, a propósito, adorei a diarista! Uma baiana trabalhadora e muito simpática, como todas as que conheci ao longo da vida.

Aliás, tenho dado bastante sorte com os serviços que tenho precisado contratar (isola!). Certamente, busco indicações entre os amigos, porque são a melhor fonte de referência. Mas suspeito que a maneira de tratar as pessoas, com o justo pagamento, gentileza e o respeito merecido, também pode ter ajudado.

E agora é esperar a mudança ser liberada, o que dá um pouco de ansiedade, mas tudo bem, um passo de cada vez e já demos muitos bastante importantes. Às vezes, tenho a sensação de estar aqui há mais tempo, por tanta coisa que já aconteceu.

O que importa é que temos um teto e, é lógico, estou doida para dar uma festa daquelas! Inaugurar a casa com vontade, chutar o balde, encher a sala de amigos e boas energias! Chega logo, 2015, estamos prontinhos para te receber!

A tal da firma reconhecida

A cada país que cheguei para morar, uma das primeiras preocupações foi ter algum documento de identidade com foto. Pode ser até seu passaporte, ainda que ninguém queira ficar andando para cima e para baixo com o passaporte no bolso.

Para você demonstrar que você é você, basta como mostrar seu documento, o interlocutor simplesmente o checa e verifica se é você mesmo na foto. Se é algo que precisa ser assinado formalmente, ele pede para que você assine na frente dele e compara as duas assinaturas. Ou seja, isso é literalmente um reconhecimento de firma! Pronto!

Pois é, caríssimos, brasileiros são diferentes! Para que você seja você, assim de verdade, não basta que um ser humano, razoavelmente inteligente e que saiba ler, reconheça você e a assinatura na sua identidade, há a necessidade de um desconhecido de um cartório fazer isso oficialmente com um carimbo! E, como não, tudo isso é cobrado, né?

Sério, no dia seguinte em que cheguei, logo pela manhã, a primeira coisa que precisei fazer foi abrir uma firma! Porque nada, mas absolutamente nada, vale se a sua firma não for reconhecida em cartório!

De quebra, também vem as malfadadas cópias autenticadas! Porque não basta ser igual e levar o original para o outro comprovar que é o mesmo documento, precisa de um maldito selinho dizendo que o igual é igual.

Agora, imagina você chegando a um país e tendo que legalizar todos seus documentos para liberar a mudança da alfândega, alugar apartamento, renovar carteira de motorista… Ninguém merece! Acho que as pessoas do cartório já começavam a achar que eu era despachante! Aliás, outra profissão tipicamente brasileira.

Estava vendo a hora que, ao reconhecer minha firma, o cidadão ainda iria escrever algumas linhas a meu respeito. Algo assim como um testemunho: sim, reconheço a firma da Bianca, aliás, reconheço ela também, está sempre por aqui… Acho que não precisavam nem mais procurar minha ficha, já deixavam separadinha ali do lado!

Enfim, parte dos perrengues da readaptação! Dou fé!

Mil e uma sensações marcadas pela ambiguidade

Não é muito simples descrever o turbilhão de emoções que foi aterrissar no Brasil. Hoje faz um mês que cheguei a São Paulo e ainda me sinto confusa. Quase tudo é ambíguo, uma relação eterna de amor e ódio, felizmente mantida em banho maria, graças a serenidade que a experiência traz. Nem seria necessário dizer, porque é óbvio, mas como registro do fato: meu olhar mudou muito. Talvez não caiba mais em mim, porque parece que não sou mais a mesma.

Faz tanto tempo e foi ontem, sou a mesma só que não, estou desconfortavelmente à vontade. Sou brasileira, mas sou gringa, meu sotaque é esquisito. Adoro, mas me dá uma raiva!

Digo e repito que não consigo falar que “voltei” ao Brasil, é mais como “vim” para o Brasil. Poderia ser outro país e não acredito que seja definitivo. Nunca sabemos por quanto tempo ficaremos em canto nenhum, mas não acredito que minha velhice será aqui. E com os caminhos políticos que vem se delineando, essa hipótese é cada vez mais improvável.

Mas por enquanto, aqui é e será minha casa, então, como faço em todos os lugares que moramos, vamos buscar o que há de melhor, certo?

Por mais que essa seja minha mentalidade e atitude, aqui sendo como qualquer outro país, no fundo, sei que não é exatamente assim. Porque há muita coisa nova, mas também há muito do que entendo, a começar pelo idioma em que fui alfabetizada. E, como nem fui eu quem disse, “a língua é minha pátria”.

Assim, sigo com a tal ambiguidade que cito desde o início do texto. Tudo, de repente, ficou claro e confuso, como se todas as portas se abrissem em pares! E a todo momento preciso eleger por qual delas entrar. Qual chapéu coloco? O de brasileira ou de estrangeira?

Não acredito que seja uma coisa ruim, se pudesse escolher, realmente preferia ter hoje essa visão global de cidadã do mundo com crachá! Só digo que é mais trabalhoso, pelo menos nesse início.

Não suporto admitir, mas tenho também presente uma sensação que odeio: o medo. Do dia para noite, minha vida se encheu de medo de um monte de coisas!

Um par de dias depois que chegamos, foi meu aniversário. Fiz questão de sair para comemorar. Sabe aqueles dias que você necessita chutar o pau da barraca? Pois é, estava nesses dias! Tomei todas e mais algumas, francamente, nem me importei, estava entre amigos. Aproveitei tudo de direito, mas sabia que quando chegasse em casa, teria um encontro marcado.

Lá estavam meus demônios, me esperando um por um para serem colocados para fora. Uma crise de ansiedade das boas! Difícil me deparar com tantos medos, mas definitivamente, precisava chamá-los por seus nomes e confrontá-los. Não estão resolvidos, talvez precise de ajuda, o tempo dirá. Mas já conheço seus rostos e estou trabalhando nisso.

A segunda comemoração do aniversário foi na semana seguinte, dessa vez, no Rio de Janeiro e em família. Na verdade, foi mais um pretexto porque queria dar uma festa. Foi bem mais tranquila, porque eu também estava mais tranquila, não por isso menos animada. Forcei um pouco a barra para ir ao Rio, com muitas coisas ainda por resolver em São Paulo, mas achei importante. Um dos pontos principais da minha “volta” ao país foi exatamente a família, então vale o esforço. E, na verdade, foi uma celebração ótima! De uma hora para outra, a casa dos meus pais voltou a ser frequentada por crianças e por gerações mais novas. Acho legal, traz nova energia! E acho que eu estava precisando desse ritual de passagem.

Voltei a dirigir! No último mês, posso assegurar que dirigi mais que nos últimos 11 anos! O lado positivo, foi sentir que ainda dirijo bem, modéstia às favas! Não sofri. Às vezes, até me surpreendo com a naturalidade que encorporei novamente o volante aos meus braços. O lado ruim, é um carro blindado, foi uma das minhas condições para viver aqui. Meu horizonte voltou a ser retangular, não me animo a caminhar pelas ruas.

Fomos a novos restaurantes e temos tentado, na medida do possível, rever alguns que costumávamos frequentar. Comer em São Paulo é uma delícia! Segue estando entre as melhores cidades do mundo nesse sentido. E comer bem é sempre algo que me faz sentir em casa.

Tenho revisto lugares e ruas, navegam em paralelo a fragmentos de memórias diversas, boas, difíceis, engraçadas… estou em constante viagem pelo tempo, tenho uma história aqui. E, o mais confortante de tudo é me ver no olhar dos meus amigos, diferente, mas enquanto me reconheçam, ainda tenho um norte de quem fui e que, pelo menos em parte, ainda sou.

Londres – Paris – São Paulo

A saída de Londres foi conturbada. Acordamos às 3 da matina, com os gatos desconfiadíssimos! Colocá-los dentro das bolsas de transporte foi um parto de mamute, com direito a Phoenix se enfiar pela chaminé tentando fugir!

Luiz conseguiu agarrar sua perna e puxava para baixo. Enfiei minha mão, por dentro do buraco da chaminé para bloquear a passagem e empurrava desde cima. Com um certo custo, conseguimos arrancar a gata lá de dentro, cheia de cinzas e assustada, coitada! E nós meio arranhados, mas menos mal. Imagina se essa gata sobe? A viagem tinha ido para o saco! Paciência, nessas horas encorporo o espírito “I’m a woman in a mission” e não paro para pensar nem para reclamar, é do jeito que dá e pronto!

Fomos com tempo para o aeroporto, até porque precisávamos despachar tudo e passar pelos controles com dois felinos. Foi melhor do que imaginávamos, eles tem uma salinha separada para tirar os gatos da bolsa e passar tudo pelo raio-X. Ok, primeira parte superada!

Nós tínhamos que fazer uma conexão em Paris. A Air France era a única companhia aérea que aceitava nossos gatos viajarem dentro da cabine conosco. Sempre tem aquela preocupação que o vôo não atrase e que a gente consiga pegar o seguinte. E claro que tivemos que passar por outro controle antes de embarcar, dessa vez, sem salinha. Quer saber, Luiz, passamos pelo raio-X com os gatos dentro da bolsa mesmo! Vale como uma radiografia!

Foi meio corrido, chegamos no avião seguinte com meio palmo de língua para fora, mas chegamos!

Daí para frente, foi mais tranquilo. Uma vez no avião para o Brasil, sabia que a gente ia chegar e os gatos poderiam até reclamar um pouco, mas daríamos nosso jeito. Cobrimos as bolsas de transporte, no escuro eles se sentem mais protegidos, e fomos com eles no nosso colo. Se comportaram muito bem! Só quando pousamos, Wolverine não aguentou mais e fez xixi na bolsa mesmo, que felizmente estava protegida com material absorvente. Ele não devia estar tão confortável, mas ninguém notou e já estávamos no final.

Fomos esperar as malas, torcendo para chegar tudo logo, afinal estávamos mortinhos e os gatos deviam estar famintos, com sede etc.

Muito bem, havíamos feito toda a documentação necessária para os felinos entrarem no Brasil sem problemas, mas seguro morreu de velho. Do Brasil para Atlanta, nós fomos declarar os gatos e ninguém deu a menor bola. De Atlanta para Madri, entrei com a bolsa no ombro olhando para o horizonte e ninguém me perguntou nada. Quer saber? Vou me fazer de morta e não vou declarar coisa nenhuma, se alguém me perguntar, mostramos os documentos.

Luiz, todo caxias e acostumado a viver no exterior, me dizia, mas a gente tem que passar em “mercadorias a declarar”! Se a gente não fizer isso, pode dar problema porque mentimos! Olho para ele com aquela cara de Garfield: se alguém reclamar, estou trazendo gatos, não mercadorias! Não vou declarar e pronto! Fui na frente empurrando um carrinho com duas malas e a bolsa do gato no ombro; ele atrás de mim, igualzinho. Na hora de passar no portão, com a postura de não tenho nada a esconder, olho bem no rosto do responsável, afinal, enquanto ele me olha nos olhos, não olha para minha bolsa, certo? Ele segue fazendo sinal para que eu siga. E Luiz atrás no meu vácuo!

Sim, estávamos totalmente legalizados, mas já imaginou se a gente entra no lugar de mercadorias a declarar e o povo inventa de revistar mala, o caramba… e os gatos ali com fome e sede! Fora que não iam encontrar nada de irregular e era capaz de começarem a buscar pelo em ovo!

Enfim, saímos rapidinho, nenhum problema! Eu me sentindo vitoriosa, te falei que ninguém ia perguntar nada! Sem dizer que foi um alívio pisar em terra firme, com tudo certo, os gatos e as malas!

Estava exausta! Mas tentando me animar, manter o bom humor e ver o lado positivo de chegar ao Brasil. Estava difícil, no colo gatos assustados, e do meu lado, Luiz emburrado, com uma inflamação super forte na garganta, precisando ir para um hospital! Sério assim de cara?

Chegamos no flat e toca a tentar acomodar malas, a gente, os gatos… enquanto Luiz pega um taxi e vai buscar o atendimento de emergência mais próximo. Não demorou tanto, voltou medicado. Gatos acomodados, malas desfeitas e empurradas para a varanda. Despenquei na cama como um tronco de árvore e acho que devo ter acordado na manhã seguinte na mesma posição!

Estou aqui! Cheguei! Preciso fazer com que isso dê certo, porque precisa dar.

Crônicas Britânicas chega ao seu fim

Queridos e queridas,

Crônicas Britânicas chegou ao fim de um ciclo. Foi breve, intenso e bom enquanto durou! Sem arrependimentos e com muitas novas saudades para minha coleção.

A vida segue e seguimos com ela, agora desde São Paulo.

Inauguro a próxima aventura, as “Crônicas Brazucas”. Uma brasileira, meio gringa, redescobrindo o que é viver no Brasil.

E aos que quiserem me acompanhar nesse novo caminho, sejam muito bem vindos!

Obrigada,
Bianca

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A saga da mudança 39!

Não poderia ser diferente, não é mesmo?

Os últimos dois meses em Londres foram uma verdadeira saga e, vamos combinar, olha que sou profissional no tema! Mas o problema maior era o seguinte, Luiz precisou ir de cara para o Brasil assumir seu posto e achar um lugar para morarmos. Fiquei sozinha, presa em casa com dois gatos, para resolver os abacaxis britânicos. Nesse meio período, nós só nos vimos uma vez, durante 4 dias, dos quais 2 passamos em Madri, 1 ele trabalhou o dia inteiro e o outro voltou para o Brasil logo cedo. Depois, só no final, literalmente para me ajudar a levar os gatos e as malas no avião! Sério, desde que nos casamos, nunca ficamos tanto tempo longe e cheios de pepinos para resolver!

Chegou uma hora em que nada se definia por si só, então defini eu mesma uma data para a mudança sair de casa e outra para viajar para o Brasil. Paciência! O resto que se adaptasse a essas datas, eu não aguentava mais!

Não é que tudo fosse ruim, por sorte, ainda consegui sair uma vez ou outra com amigos muito legais para dar uma relaxada e amenizar um pouco a história. Mas, francamente, na maioria das vezes nem tinha muita vontade de fazer nada. Chega uma hora em que você já não aproveita mais e só quer resolver!

Não vou entrar na chatice de tudo que precisava ser feito em termos de documentação, tanto nossa como dos gatos! Só digo que o Brasil é um dos países mais complicados do mundo para se entrar com uma mudança! Os portos são colapsados, corruptos e burocráticos! Resolvi optar por uma empresa brasileira para fazer essa mudança, pelo menos, em teoria sabem os caminhos que precisam seguir para liberar tudo mais rápido. Escolhi a FINK e, até o presente momento, estou gostanto bastante do atendimento, vamos aguardar até o final.

E sim, sobrou uma mudança para fazer sozinha… dureza! Escolhi os dias 30/10 para empacotar e 31/10 para levarem tudo! Exatamente, a mudança saiu no dia das bruxas!

Prendi os gatos em um quarto menor, o qual já havia esvaziado e só deixado os felinos com as malas que levaríamos para o Brasil. Assim era menos estressante para eles e para todo mundo. Os empacotadores entram como furacões na sua casa (e é assim que deve ser), não combina com gatos perdidos no meio de toda aquela história, é até bem perigoso. No dia 30, o pessoal da mudança havia deixado minha cama montada, mas preferi o saco de dormir no chão com os gatos, companhia para mim e segurança para eles. Gosto de conforto, mas felizmente, sei viver com muito pouco quando preciso e não me importa.

Para deixar um pouco mais tenso, no início da noite, Luiz me dava a desesperante notícia que se fôssemos de vôo direto pela British, os gatos precisariam viajar no porão! O que? Não é possível! Tenta a Air France! É a companhia mais amigável para quem viaja com animais de estimação! Na verdade, havia dito isso algumas vezes, mas eventualmente, ele custa a me ouvir quando cisma que alguma coisa pode ser feita de outro jeito. Só que não…

Recebi essa terrível informação no caminho do jantar para o aniversário de um amigo nosso. Aliás, bendita hora em que fomos jantar! Pelo menos tomei meu vinhozinho e acreditei que tudo ia se resolver. Não deveria, mas como era um aniversário… ainda fomos tomar a saideira no pub local. Talvez por isso, dormir no chão não tenha sido o menor sacrifício.

Mas de manhã bem cedo, já estava acordada esperando a etapa final da mudança! Resolvi nem tirar os gatos do quarto, para que? Deixa eles saírem quando a casa estiver limpa e vazia. Fiquei o tempo todo dando notícias e fotos pelo Facebook, pelo menos era uma forma de me sentir acompanhada, né? Começaram a pipocar mensagens do Luiz, conseguiu que os gatos fossem conosco na cabine! Ufa! Adivinha em que companhia aérea? Air France, é claro! Precisaríamos fazer uma conexão, a vida não é simples, mas mil vezes dessa maneira, com os gatos ao alcance da minha vista!

E assim foi, com direito a outro porém, três peças dos meus móveis precisavam sair pelo jardim do vizinho, que não estava nem um pouco feliz com a história. O proprietário era quem deveria ter negociado direito isso com ele, o que não fez. Tudo bem, dei meu jeito e quase fiquei amiga da vizinha, pena que foi quando já estava vindo embora.

Tensão até o minuto final, porque o container foi absolutamente cheio até o teto! As últimas duas caixas precisaram ser reembaladas para caber! Juro, foi cheio até a última caixa! Mas foi! E sempre acho que se dá certo, está bom! Temos 166 ítens em caixas e embalagens numeradas, descritas uma a uma, porque é uma requisição para entrar no Brasil. Tudo precisa bater exatamente igual! Assustador, né? Qual a probabilidade de em 166 ítens, passar algum erro? Mas nem quero pensar nisso agora!

Quando acabou, limpei tudo e armei o colchão inflável. Literalmente, os gatos e eu fomos acampar em casa. Eles completamente desconfiados, é lógico! Tudo bem, porque Luiz chegaria no dia seguinte logo pela manhã e isso era um alívio difícil de descrever!

No final de semana, conseguimos fazer um último encontro com os amigos de Londres, noite agradável, com notícias que nos deram muita felicidade! Por que não dizer, muita saudade também, mas faz parte.

Na segunda-feira, consulta final dos gatos no veterinário, para ter toda a papelada organizada para a viagem! Tudo certo! Outro alívio, só possível de ter nos 45 minutos do segundo tempo!

Na terça-feira, terminar de fechar as contas, limpeza, organização das malas etc. Jantamos com nosso amigo que herdou as últimas comidinhas e um aspirador que ele nem queria, coitado! Mas não tinha como deixar na casa.

E, na quarta-feira, dia 05 de novembro, acordamos às 3 da matina para tomar rumo ao Brasil. Última cereja do bolo: colocar os gatos na caixa de transporte. Imagina a facilidade, depois da mudança e de levá-los ao veterinário? Eles estavam mais ariscos que nunca! O Wolverine não deu tanto trabalho, mas a Phoenix se enviou na chaminé, com Luiz agarrando ela pela perna e eu enfiando a mão por cima da cabeça e empurrando para baixo. Juro, desesperador! Se ela se enfia com gosto na chaminé, a viagem ia para o saco! Foi para a caixa de transporte ainda cheia de cinza! Es lo que hay!

O avião saía às 7 da manhã de Londres para Paris, saltamos esbaforidos para entrar no avião seguinte (e o medo de perder a conexão!). Quando o avião levantou vôo para o Brasil, com nossos dois felinos no colo, sabia que o caminho era longo, mas estava feliz de ter conseguido! O pior havia passado!

Nossos bichanos se comportaram muito bem, devo admitir! Wolverine, só não aguentou no final, quando o avião pousou no Brasil e fez um xixizinho, que ninguém notou, porque a caixa estava protegida com material absorvente. Vamos combinar, depois de quase 24 horas desde que acordamos e saímos de casa, não foi nada!

E valeu à pena todo esse perrengue e despesa para trazer dois vira-latas? E como uma imagem vale mais que mil palavras…

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Claro que valeu!

Do taxi, liguei para os meus pais para avisar que chegamos e estava tudo bem. Ou quase bem…

Ah, vamos complicar só um pouquinho mais? Porque afinal de contas, estava tudo tão fácil… Pois é, Luiz teve uma reação alérgica forte na garganta, não é a primeira vez que tem e simplesmente precisava ir ao hospital. Em Londres, não dava ou perdíamos o avião, então também se segurou até chegarmos. Entramos no aparthotel e acomodamos os gatos. Eu fiquei com eles para se ambientarem e Luiz foi para a emergência do Einstein sozinho tomar cortisona!

Assim que Luiz voltou, os gatos estavam ainda desconfiados, claro, mas bem e carinhosos conosco. Espalhei pelo lugar alguns objetos de confortos, mantas com o cheiro deles, brinquedinhos… enfim, na medida do que era possível, estávamos todos bem. Luiz medicado, pais avisados, posso dormir! Empacotei de babar até o dia seguinte! Pela manhã, quando Luiz levantou meus olhos nem abriam! Mortinha da silva! Mas aliviada e posso dizer que feliz que, finalmente, tudo havia terminado bem!

Ainda temos muito o que resolver e meu endereço 39 é um aparthotel, com as roupas espremidas nos armários, uma mudança pelo oceano e as malas escondidas na varanda! Mas estamos juntos, os gatos estão protegidos, a família está próxima e os amigos cheios de mensagens carinhosas. Pronto! Prova superada!

Foi tudo bem…

Existe uma clássica pergunta feita sempre que a gente chega de algum lugar, seja por mudança, por férias ou por uma saída na esquina, o famoso “e, aí, como foi?”.

Às vezes, é uma mera pergunta retórica, quase por educação, ou como iniciar uma conversa, ou até por real curiosidade. Não importa a razão, mas é uma das perguntas que mais preguiça me dá em responder. Porque geralmente foi tanta coisa que nunca consigo resumir em uma resposta educada de dois minutos.

Quase tenho inveja do Luiz, que responde qualquer pergunta laconicamente com um “foi tudo bem…”, seja para descrever como foi um jantar ou uma cirurgia no cérebro! Eu já começo a conversa dizendo, se me responder simplesmente que foi tudo bem nós vamos brigar… Daí ele faz um esforço sobrehumano e consegue arrancar mais duas ou três frases de explicação. Sou o extremo oposto, sou daquelas que se me perguntam “como vai?”, eu me sinto na obrigação de explicar. E as vozes da minha cabeça ressoando: sério, Bianca? Você não podia dizer apenas que vai tudo bem?

O fato é que me peguei pensando que ao chegar ao Brasil, alguém poderia me perguntar, e aí, como foi? Pois há um par de semanas que tento responder em um diálogo imaginário como foram esses últimos onze anos. Inevitavelmente, me vem uma retrospectiva de tudo que tenho feito.

E, se por exemplo, tivesse que refazer meu currículo? Saberia exatamente como começar, como relatar os resultados concretos do que fui capaz de executar em termos de negócios, mas há uma lacuna que não consigo preencher direito com palavras. É como se me viessem vários flashes de pedaços de experiências, uma montagem relativamente absurda e um tanto desordenada com imagens de momentos mais marcantes.

Tenho me permitido embarcar nessa viagem pelo tempo e atualmente me custa fechar os olhos e não lembrar de mil sensações diferentes. Eu não caibo mais em uma história só. E confesso, meio sem graça, que isso me deixa bastante orgulhosa.

Ainda tenho forte a memória da angústia adolescente de achar que podia tudo e da irritação que me provocava a frase do meu pai “quem corre cansa, quem anda alcança”. Eu precisava começar logo a abraçar o mundo com as pernas, porque se não começasse rápido, talvez não me desse tempo de experimentar tudo que gostaria. Pelo menos, era assim que eu sentia. De certa forma, também intuía que o preço seria sempre precisar partir. E para ser franca, mesmo depois de tantos anos, ainda não aprendi a fazer isso sem dor. Talvez porque essa possibilidade nem exista.

Agradeço por ter podido registrar boa parte desses últimos anos, coisas que vi, que aprendi, que tentei. Porque cada vez mais acho que se a primeira coisa mais importante é viver uma experiência, a segunda certamente será a memória dela. É quando a gente pode revisitar lugares, opiniões, sentimentos. Tudo sem precisar sair do lugar. Mas um dia você precisou, um dia você partiu, você fez e hoje felizmente há muita coisa que posso dizer que fiz.

Talvez fosse mais fácil resumir e lembrar simplesmente que foi tudo bem, acontece que não quero uma memória resumida, quero ela inteira! E quero tanto mais…

Confesso que é provável que esse seja um dos meus muitos medos em morar novamente no Brasil. Dá um pouco a sensação de fim de férias prolongadas, o que não é o caso. Como se alguém me dissesse, pronto já viajou bastante, agora sossega o faixo aí um pouco! E eu sei que não vou sossegar, nem preciso.

É que às vezes é duro a gente tomar a consciência dos limites que a vida nos impõe. A tal da minha eterna angústia adolescente mal resolvida de achar que não vai dar tempo para tudo que ainda quero e posso fazer. Uma vontade enorme de congelar minha idade agora, ou até um pouco antes, e juro que não por uma questão de vaidade, mas por me dar tempo e saúde.

Mas enfim, e aí, como foi?

Pois dormi em hotéis, dormi em castelos, dormi no deserto, dormi no chão, andei de avião, andei de metrô, andei de balão, andei, atravessei os Pirineus andando, atravessei uma fronteira andando, atravessei um país andando, perdi o medo, perdi a vergonha, perdi a paciência, dancei muito, bebi litros, festejei com amigos, festejei com estranhos, aprendi outras línguas, aprendi muitos sabores, cheguei amanhecendo, vi por-do-sol em Telaviv, caminhei em Petra a luz de velas, queimei a pele para provar que fico morena, queimei o pavio, cheguei ao fim da terra (ou Finisterre), cantei em bares, cantei, batuquei, cortei o cabelo, deixei crescer, engravidei, perdi, chorei um rio, ri da barriga doer, senti calor, senti frio, senti fome, senti dor, senti preguiça, morri de saudades, usei véu na Jordânia, tomei café na Espanha, almocei na Itália, jantei na Alemanha, ouvi música ao vivo em Londres, ganhei asas, tatuei asas, fiz tatuagem de henna com uma indiana, nadei em Dubai, cozinhei em Paris, tomei um porre de champagne em Paris, esqueci de perguntar as profissões, apoiei, fui protegida, voltei caminhando para casa sozinha sem medo, esquiei em tempestade de neve em Val d’Isère, esquiei de bunda em Andorra, desenhei em museos, fui literalmente para lá de Marrakesh, barganhei na Turquia, naveguei entre dois continentes, assisti um concerto em uma igreja em Praga, ouvi violinos em Veneza, assisti óperas em Viena, andei de motorino em Roma, voltei de madrugada para o hotel imitando a mulher biônica em Bruxelas, andei de trem por debaixo do mar, toquei o muro de Berlin, me emocionei nos muros de Jerusalém, perdi gente na família, perdi amigos, perdi meus gatos, adotei dois gatos, falei com milhões de desconhecidos, encaixotei, desencaixotei, encaixotei outra vez, desencaixotei outra vez, carreguei um sofá na rua em Madri, pulei sete ondas no mar, pulei sete ondas imaginárias, pulei sete ondas na banheira, praguejei em espanhol, falei errado, falei pouco, falei demais, fingi que entendi, comi croquete em Amsterdam, vi Flamenco em Andaluzia, me neguei a dirigir, abri portas com sorrisos, aprendi a correr, aprendi a boxear, aprendi a cortar jamón, aprendi a pedir ajuda, consegui comer apimentado sem meus olhos nem meus lábios incharem, tomei whisky nacional na Escócia, descobri que na Inglaterra há mais definições para tons de pele do que cores de cabelo, cheguei a conclusão que passar roupa é absoluta perda de tempo, me cansei de ver ruína romana… e posso seguir enumerando mais uma penca de páginas de pequenos momentos tão comuns e igualmente tão extraordinários e reveladores, dependendo do prisma em que se olhe.

O mais importante para mim é que são memórias, minhas, reais. Todas elas tem um significado, uma história. E a minha resposta sobre como foi? Foi num piscar de olhos…e sim, foi tudo bem.

https://www.youtube.com/watch?v=5y_KJAg8bHI

Tudo junto ao mesmo tempo!

Com tanta novidade pelo ar, acabei adoecendo, coisa bastante rara de acontecer. Mas a combinação de mudança repentina, dúvidas se continuo meu trabalho virtual, despedida no trabalho do Luiz, pai entrando na cirurgia… a resistência foi baixando e uma gripe tentando se instalar no meu corpinho.

Ainda tentei segurar a onda e fingir que nada acontecia, afinal, no sábado já estava marcado o primeiro bota fora com os amigos de Londres, ou seja, festa em casa! Aos trancos e barrancos consegui preparar tudo! Gastei até o último fio de energia da minha pilha e, como sempre, sem nenhum arrependimento! Tomei minha cachacinha, me diverti e tentei desfrutar ao máximo o alto astral das pessoas. Mas confesso que quando os últimos amigos se foram, eu já não tinha voz nem condições de fazer mais nada!

Fui me arrastando para cama, na qual permaneci todo domingo e parte da segunda-feira! Luiz me comprou alguns remédios e o tempo foi fazendo seu papel de cura.

Na própria segunda-feira, 15 de setembro, Luiz embarcou para São Paulo. Em princípio, ficará fora por três semanas e eu aqui, com meus dois felinos me fazendo companhia.

Não é a situação mais ideal do planeta, mas tem seu lado positivo. Agora mesmo sinto uma necessidade enorme de ficar quieta pensando, refletindo, ponderando. Se essa mudança fosse para qualquer outro lugar do mundo, seria apenas mais uma mudança, meu endereço número 39.

Acontece que é para o Brasil e isso faz muita diferença. Preciso de verdade rever minhas prioridades e literalmente escolher a próxima direção. Ou não… O fato é que quero decidir ou não decidir com alguma lucidez.

Enquanto isso, vamos em paralelo resolvendo os pepinos usuais. Milhões de visitas ao zap para vasculhar possíveis endereços e encaminhar para Luiz visitar… entrar em contato com a companhia de mudanças… avisar ao proprietário que vamos deixar o imóvel aqui (imagina como ele ficou feliz com a notícia, né?)… verificar a documentação dos gatos… achar quem me substitua no trabalho… reforçar as aulas de boxe para aproveitar esse finalzinho… listar tudo que precisa ser cancelado… me programar para esvaziar a geladeira e os mantimentos… ainda queria fazer algumas viagens rápidas… será que consigo fazer festa de aniversário?

E o povo, naturalmente, perguntando sobre as datas definidas. Não sei se rio ou me desespero! Como se a gente conseguisse definir alguma porcaria de data! Lá vamos nós para o plano A, plano B, plano C…

Tudo bem, já sei que isso se arranja. O duro mesmo é revisitar a caixa de Pandora. Quem mesmo eu quero ser nessa próxima etapa? O que eu posso e o que eu não posso mais?

Vida louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve…

Mas como nada na nossa vida é definitivo…

La Maison Blanche começou muito bem, obrigada! Pouco a pouco, ganhando espaço e, o mais importante, desfrutando muito da nova experiência!

Em paralelo, o trabalho como “host” de treinamentos virtuais também aquecendo. Bom para entrar algum dinheiro extra e sem me prender tanto. Ainda que a empolgação inicial já não seja a mesma. À medida que o tempo vai passando, o desafio é menor e não há grandes novidades. Não reclamo, só comento. Achei que foi uma oportunidade e tanto que estou fazendo por merecer.

Enfim, trabalho bombando, Copa do mundo acontecendo no Rio e… meu pai precisa ser internado novamente. Caraca, não tinha uma horinha melhor, não? Passagens a preços estratosféricos, compromissos assumidos… o que eu faço?

Respirar fundo e tentar manter a calma, não é a primeira vez e (assim esperava) não seria a última! Achei que era um momento em que eu precisava ser um pouco egoísta, não podia me dar ao luxo de perder essas oportunidades que estava esperando e batalhando há anos! Resolvi que só iria realmente em último caso, mas esticaria a corda ao máximo.

Foi duro, uma das piores internações do meu pai, que precisou pela primeira vez entrar na hemodiálise, seus rins haviam parado de funcionar. Minha mãe no seu limite da resistência e eu contando à distância com família e amigos para ajudarem a segurar a onda.

Ele melhorou, o bichinho é duro na queda! Meu pai voltou para casa e foi se recuperando na medida do possível. Ainda assim, senti que minha mãe estava muito cansada, a um triz do seu limite. Veja bem, sejamos realistas, se minha mãe cai, ferrou tudo!

Então, assim que ganhei uma brecha entre treinamentos e entreguei os eventos no Maison Blanche que já havia me comprometido, embarquei num avião por três semanas, rumo ao Rio de Janeiro. Meu pai estava relativamente estabilizado, mas queria vê-lo e, principalmente, dar uma folguinha para minha mãe que estava me preocupando mais naquele momento.

Acho que dentro de um núcleo familiar, é normal as pessoas assumirem diferentes papéis, que nem sempre são tão rígidos, podem se alternar de acordo com as necessidades, mas costumam seguir algum padrão. No meu ponto de vista, em minha família acho que meu pai é a força, o porto seguro, minha mãe é o elo de ligação, é quem une, quem alivia, resolve e decide, meu irmão traz vida, energia, alegria e eu sou a “cavalaria”.

Preciso correr livre por fora, não me prenda que eu fujo, não me chame à toa porque sou ocupada. Mas quando o bicho pega, volto do inferno, porque sei que sou para a hora que falta fôlego, para tocar o barata vôa, para celebrar o improvável, para o deixa de mimimi e sobe mais dois degraus porque você pode. Estou para quando a força resvale, a confiança duvide e a alegria se perca. Essa é a hora da cavalaria, é a minha deixa e meu papel. E depois vou cavalgar por outros campos.

Mas voltando à viagem, por coincidência, Luiz também precisou ir a trabalho a São Paulo no mesmo período, por alguns dias e nos encontramos no final de semana, antes dele retornar a Londres.

Basicamente, chega ele no Rio e me diz que a empresa onde foi trabalhar queria contratá-lo, o que ele fazia?

Hein? Como? Quando?

Vou ser bastante sincera, meu impulso natural era dizer: nem escuta, sem chance! Não quero morar no Brasil! Eu morro de saudades das pessoas, mas da vida no país eu não tenho um pingo! Eu sei que se, naquele momento, eu tivesse dito isso, ele nem evoluiria a história.

Acontece que, na prática, dei aquela olhadinha para o “grilo falante” no meu ombro, que cruzava os braços, balançava a cabeça e me dizia: tem certeza? Olha em volta do seu umbigo e seja razoável… seus pais precisando de apoio… sua sobrinha que vai nascer… a carreira do seu marido que, como você, não está ficando mais jovem… todos são você e você é parte disso. Era impossível também não notar como Luiz estava mais feliz trabalhando aqueles dias com a tal empresa, era seu ambiente. Ele queria.

Cavalaria, se vira e comparece!

Luiz, acho que pelo menos você deveria escutar o que eles tem a dizer. Em outra ocasião, não ia querer nem saber, mas talvez agora a nossa presença aqui seja importante. Depois, nada é definitivo, temos cidadania européia, poderemos voltar. Quem sabe seja a hora de dar outra chance ao caos…

Ele abriu a porta para uma proposta, que não tardou em chegar.

Enquanto isso, na sala de justiça… aproveitei bem minha estadia no Rio. Quanto à saúde do meu pai, diria que estava pior do que eu gostaria, mas melhor do que esperava. Durante o dia, minha programação era com meus pais e à noite, quando eles não saem mesmo, marcava com os amigos pelos bares da redondeza. Na verdade, até encontrei mais gente do que imaginava e a viagem foi mais leve do que me preparei.

Na cabeça, girando a possibilidade de voltar a morar no Brasil. Os noticiários eram desanimadores! Sim, a mídia pode ser bastante tendenciosa e blá blá blá… mas convenhamos, basta colocar o narizinho na rua, o país é violento sim, há muita corrupção sim, a educação é uma vergonha sim, a saúde é lamentável sim… enfim, não vou dourar a pílula. Acho que olhe pelo lado que se olhe, a coisa está complicada! Temos uma esquerda indecente e uma direita imoral, ou vice-versa, ferrou mesmo! E aí, o que a gente faz?

A proposta profissional definitiva do Luiz chegou, junto com o dia de voltar para Londres, com minha cabeça e coração completamente divididos.

E foi nesse contexto, alguns dias depois, que dissemos sim. Ele confiante que é a melhor opção e tenso se me faria feliz com isso.

Pensei que já não precisasse mais explicar que sou feliz por vocação, não por ocasião ou contingência. Sou feliz porque sim, porque preciso ser. E é lógico que estou feliz! Pelo menos uma parte de mim, ainda que nunca sejamos uma parte só.

Tenho um pé na euforia por saber que será maravilhoso pela família, pelos encontros e reencontros, os sabores confortáveis, os sorrisos com dentes à mostra, os sons dos sotaques e tantas outras coisas que me lembram quem eu sou… e outro pé no putz, como conviver novamente com a violência, com a falta de educação, com a deselegância, com a desigualdade e tantas outras coisas que me lembram quem eu não sou mais. E nunca serei em lugar nenhum, porque não sou mais um lugar só.

Há muitos anos coleciono saudades. Sei que o preço de um encontro é outra distância e não vou mentir, dói sempre, de todos os lados. E é difícil dar essa notícia porque agora estou no momento do luto do lado de cá, da partida. Sei que quando chegar no Brasil a história será outra, porque terei a felicidade de uma nova chegada e, convenhamos, já era tempo de levar minha saudade para outro lugar.

La Maison Blanche Supper Club

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Pausa para um comercial, por favor! Divido com vocês meu novo projeto gastronômico!

Quem me conhece ou acompanha o blog, sabe que tenho uma enorme paixão pela cozinha há muitos anos. Acho que vem um pouco do histórico da minha família, onde todo mundo sabe cozinhar e ama comer bem!

Ainda assim, nunca tive vontade de abrir um restaurante, é muito diferente a obrigação mecânica e militar de cozinhar para estranhos do que o gosto de preparar tudo na sua casa, pensando literalmente em quem vai desfrutar. Ser chef de um restaurante também pode ser uma paixão, mas não é a minha. Pelo menos, por enquanto.

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Eu gosto de cozinhar em casa, para minha família e meus amigos, assim de simples. A questão era, seria possível fazer disso um negócio? Como não misturar as coisas? Ou melhor, como misturar de uma maneira positiva?

Muito bem, há algum tempo, uma amiga me deu a ótima idéia de fazer um “supper club”, que basicamente é o seguinte, você recebe as pessoas para comer na sua casa. Geralmente, um chef monta um cardápio, define um ou dois dias da semana que receberá para o almoço/jantar e anuncia através de um website aos interessados. As pessoas se candidatam e pagam adiantado por essa refeição. Oficialmente, não é uma tarifa, é uma “doação” para pagar os custos. A grande maioria não serve bebida, mas você pode levar a sua.

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Gostei bastante do conceito, mas ainda não era perfeito para mim. Por que? Primeiro, porque por contrato de aluguel, não posso ter negócio em casa. Então, montar um website com endereço seria complicado. Segundo, a possibilidade de receber completos estranhos no meu lar era um pouco assustadora. Sem falar que vai que alguém tem algum problema alérgico, não me informa e passa mal, olha o tamanho da encrenca! Aqui é um tal de não pode comer isso e não pode comer aquilo que você nunca sabe se é frescura, moda ou problema sério!

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Enfim, cheguei a conclusão que nunca haveria o modelo, local e momento perfeitos. Quer saber, isso é algo que quero fazer há um tempão e estou pronta! Então, logo que mudamos de casa e consegui um pouco mais de espaço, havia decidido que ia fazer da maneira que fosse possível e vamos corrigindo o curso no caminho.

Assim, nasceu La Maison Blanche Supper Club!

O nome vem de uma brincadeira antiga que fazemos em casa, com super jantares nababescos para poucos amigos muito íntimos, queridos e de paladar amplo. Luiz queria dar meu nome para esses eventos, o que me deixava constrangida, porque afinal, era sempre uma homenagem a alguém que não era eu! Daí o que começou como a casa da Bianca, mudou um pouquinho e disfarçou em francês. Quando queria fazer um desses jantares, dizia: vou fazer um “Maison Blanche”. Acabou que o nome pegou e resolvi mantê-lo.

Pois muito bem, a idéia é a seguinte, abri um clube exclusivo para amigos e pessoas indicadas por esses amigos. Em determinadas datas, promovo jantares, aulas ou eventos, onde pequenos grupos são bem vindos a desfrutar de uma experiência gastronômica. As experiências podem variar entre a saudade de uma boa comida caseira em um ambiente despojado e informal; ou um jantar absolutamente sofisticado, uma fusão de sabores, texturas e sensações. Não se trata de um restaurante, tudo é feito na minha casa, portanto, apenas pessoas conhecidas ou com referência de algum amigo em comum serão recebidas. Tudo é pensado em conjunto, a comida, a iluminação, a música… é todo um contexto. Para cada evento, há uma doação, paga antecipadamente, para cobrir os custos de um menu fixo. Considerando os preços cobrados nos restaurantes de Londres, francamente, as doações sugeridas são para lá de razoáveis! O valor não inclui bebida, posso oferecê-las por fora desse valor ou, se os amigos preferirem, podem trazer sua própria bebida, não cobro rolha.

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Tudo é organizado e divulgado através de uma página no Facebook https://www.facebook.com/LaMaisonBlancheSupperclub?ref_type=bookmark, não tenho website, afinal, a principal propaganda é a boca-a-boca, literalmente. Sigo recebendo amigos em casa do mesmo jeito, não misturo as estações, isso é outra coisa. Por exemplo, no caso desses jantares, fico literalmente na cozinha, ocupada e adorando. Lógico que recebo as pessoas e faço o papel de anfitriã, mas as estrelas são os convidados, é tudo feito para eles, não sento à mesa.

Está muito no início, mas a verdade é que a recepção tem sido bastante positiva e estou animadíssima! Já começaram a surgir as primeiras encomendas e estou doida para esquentar meu umbigo no fogão!

E se você vem a Londres, ou queira indicar algum amigo que venha, seja mais que bem vindo à La Maison Blanche Supper Club!

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