A água, o lixo e os desperdícios

Quando morava em São Paulo, antes de sair do Brasil, acredito que há cerca de uns 16 ou 17 anos, sou um pouco ruim de guardar datas, passei pelo meu primeiro rodízio de água na cidade. Naquela época, havíamos tido também um grande período de seca. Não chegamos a ficar totalmente sem água, porque as caixas dos edifícios normalmente davam vazão, mas reduzíamos o consumo de acordo com o dia e a água era fechada em determinados horários, nos quais reservávamos baldes e recipientes cheios, em caso de dúvida.

Foi a primeira vez que ouvi a discussão publicamente no Brasil que a água no mundo poderia acabar. No meu tempo de colégio, nós estudávamos que a água era um bem inesgotável! Portanto, ainda que houvesse sido um certo perrengue, achei que o tal do rodízio teve seu ponto positivo em trazer uma maior conscientização sobre os recursos naturais, em especial, a água. Juro que pensei que havia servido de lição, tanto para população procurar mudar os hábitos, como para o governo buscar alternativas. Inocente, né? Porque esquecemos muito rápido, muitos dos meus amigos paulistas nem se lembram desse rodízio no passado.

Sempre nos orgulhamos de ser um povo limpo, de tomar banhos longos, da água ser farta! Lavamos a casa, o chão, os azulejos, as janelas, as varandas, os quintais, os carros, as calçadas… lavamos tudo! Nem percebemos e isso é considerado normal! Acontece que não é normal! Passou algum tempo para me dar conta do tamanho do absurdo e ao desperdício que o conjunto dessas ações levava. Mais do que a perda em si, a atitude!

Quando fui morar nos EUA, não me dei muito conta a esse respeito, afinal, também é um país de desperdícios. Mas quando fui para a Europa, inicialmente a Espanha, o primeiro alerta me bateu! Opa, aqui vou precisar mudar alguns hábitos!

Admito com certo constrangimento que o primeiro que pensei foi que a água fosse muito cara! Então, melhor tomar banhos mais curtos ou minha conta seria altíssima. Logo percebi que o buraco era bem mais embaixo, a conta não era cara para meu bolso, a conta era cara para o país, para o planeta! Eu poderia tomar banhos longos, se eu quisesse, mas tinha a consciência que não estava fazendo direito meu papel de cidadã. E pode acreditar, a gente sente!

Para começar, nos apartamentos não há ralo, a não ser no chuveiro. Ninguém lava cozinha! Ninguém lava banheiro! Até porque, se você fizer isso, sua casa vai alagar ou vai vazar na cabeça do vizinho de baixo! E a ignorante aqui pensando, mas minha casa vai ficar suja? Pois nunca ficou. Em 10 anos de Europa, nunca ficou suja. Lógico que você limpa, simplesmente, não lava! Não joga baldes nem abre mangueiras!

A cada hóspede brasileiro gentil que se oferecia para lavar louça, para mim era um suplício! Porque as pessoas ficavam batendo papo com a torneira aberta jorrando água à toa, sem nem perceber. E eu querendo ter um filho pelas orelhas, não me aguentava e pulava na frente: Deixa que eu faço, por favor! Não, imagina, é o mínimo… Então, fecha essa bosta dessa torneira pelamordedeus!

Época do ano que chovia menos? Consumo da população começava a aumentar? Governo vai para a televisão fazer campanhas educativas, as fontes são desligadas, as piscinas públicas fechadas… Enfim, cada medida dependendo da situação. Não era unicamente pelo que isso representava em economia, novamente, era o exemplo, a atitude. E, a propósito, nunca nos faltou água nem nos sentimos ameaçados de faltar.

Índices de desperdício público como em São Paulo (e boa parte do Brasil), de aproximadamente 30% de água limpa perdida pelos canos por falta de manutenção, simplesmente derrubariam um governo! Indústrias que poderiam reutilizar a água de maneira mais inteligente e não faziam, não seriam autorizadas a funcionar (ainda que pudesse haver algum subsídio para a criação de alternativas de reaproveitamento da água).

E esse é um ponto que me incomoda muitíssimo, fomos criados e vivemos em uma cultura de desperdícios. As mesmas pessoas que exigem que os azulejos de casa sejam lavados com litros de águas, são as que governam e as que cobram dos governos.

Transportando essa situação para o momento atual paulista, a culpa da falta de água não é do meu número de descargas. É inconcebível que um governo tenha deixado chegar ao estado em que chegou, sem a divulgação, medidas e obras necessárias, contando com a sorte de chover. A culpa é do governo e ponto! Mas me dói que a cobrança por todo esse desperdício permitido criminosamente, por exemplo na Sabesp, só venha agora, quando a água bateu na bunda, ou melhor, não bateu!

E se tivesse chovido o suficiente, a maioria das pessoas não estaria dando a mínima para o desperdício, de 30 ou de 40%, desde que a água chegasse nas nossas torneiras. Seguimos torcendo o nariz para a água reaproveitada do esgoto, afinal, que nojo! Chove em São Paulo praticamente todos os dias há uns 3 meses e não há um projeto de coleta dessa água! A nuvem de chuva precisa estar exatamente sobre a represa para funcionar! Sério? É com esse plano que estamos contando?

Daqui para a frente a discussão da água vira política e não é exatamente o meu ponto hoje, então, vamos mudar o assunto para o lixo?

Está aí outra coisa que achei um saco no início! Esse negócio de separar e reciclar lixo! Enquanto era a latinha de alumínio que eu jogava fora na praia e virava fonte de renda para alguém que catava, show de bola! Mas quando precisei ter uns três recipientes diferentes para lixo em casa, ainda mais no pouco espaço das cozinhas européias, opa, essa brincadeira está ficando chata!

Mas afinal, o que vai onde mesmo? Peraí, eu tenho que lavar o lixo? E ainda por cima sou EU* que tenho que levar o lixo lá fora? (*Ok, “EU” leia-se “Luiz”, mas é menos importante para a história) Não ganho nada por isso? Inclusive há o risco de pagar uma multa se não fizer direito?

Pois é, exatamente assim. E sabe o que aconteceu? Nada demais, nenhum drama. Aprendemos e fizemos o que tínhamos que fazer. Quer saber, nem doía tanto e ainda ficava tranquila sabendo que tudo teria seu tratamento adequado. Faz bem saber que estamos contribuindo para um planeta melhor. Que, paradoxalmente, nem aquele lixo precisa ser desperdiçado! Pode ser reaproveitado, ter outra finalidade, ou no mínimo, prejudicar menos.

Nos primeiros dias aqui, estranhava todas aquelas sacolas de plástico sem restrição nos supermercados e era esquisitíssimo jogar todos os lixos em um recipiente só! Era a sensação de estar jogando no chão da rua, no lugar errado. Felizmente, no meu edifício se faz coleta reciclada. Nem todo mundo dá bola e tenho minhas dúvidas se ao final não vai tudo para o mesmo saco, mas é uma tentativa, um começo.

Sigo cuidando e valorizando a água, o que no Brasil seria interpretado como “economizar”. Na prática, quase nada é diferente do que fazia normalmente e pretendo seguir fazendo, não me custa tanto e é o meu papel. No mínimo, por solidariedade a quem já não tem. Deve ser duro para minha diarista ficar sem água no final de semana e ter que lavar minha varanda; deve ser difícil para um frentista que não tem água há dias para o banho dos filhos lavar meu carro. Separo meu lixo, mesmo sem ter certeza se ele será novamente agrupado lá embaixo. Cuido do meu umbigo, cabe a meu vizinho cuidar do dele. Eu sei que não preciso, não é um mérito nem espero recompensa. Faço porque acho que é o certo, na Europa, aqui ou em qualquer lugar do mundo.

2 comentários em “A água, o lixo e os desperdícios”

  1. Interessante sua reflexao sobre o tema. Como você, mudei de atitude em relaçao ao tema da água, e nao só. Penso que a gente se esquece que atras de nós vêem outras pessoas, geraçoes. Parabéns. Um abraço

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