O primeiro quarto de ano

O tempo passa depressa e se aproxima do primeiro quarto de ano que cheguei ao Brasil. E aí, o que mudou? Posso dizer que das portas para dentro, a vida melhorou; das portas para fora, é pior. E vou explicar.

Certamente, a vida segue um rumo mais nos trilhos do que quando chegamos. Estamos estabelecidos em um bom apartamento, mudança arrumada, gatos destraumatizados… Nos relocalizamos na cidade, ainda que agradeça todos os dias pelo surgimento do “Waze” nesse período que estivemos fora.

Quanto ao trabalho, começo a poder me organizar e definir melhor por que caminhos seguir. Luiz voltou a ser turista em casa, afinal, os horários de expediente são bastante diferentes dos EUA e Europa. Não é uma novidade e damos nosso jeito de administrar, acho que até bem.

Ainda me custa lembrar, a cada vez que abro meu carro, que ele é blindado, mas paradoxalmente, também aliviou bastante minha ansiedade em andar pelas ruas e me aventurar por aí. Meu horizonte de visão voltou a ser retangular e só caminho na esteira da academia. Minhas botas de trekking se sentem deslocadas pelos restaurantes e shoppings paulistas.

Ando me cuidando bem mais, saúde e estética. Tenho percorrido uma maratona de médicos e feito todos os exames possíveis. É bem mais fácil aqui no Brasil do que fora, claro, se você tiver a sorte de possuir um bom plano de saúde. Estou fazendo regime, acompanhado de endocrinologista e nutricionista, já perdi a cifra inédita de 9kg! Engraçado como pisar em solo nacional me deixou tão mais exigente em relação ao meu corpo. Acho que muito pelas possibilidades existentes e outro tanto, por uma questão cultural mesmo do que se valoriza em cada parte do mundo. As prioridades mudam automaticamente, às vezes, sem que eu perceba.

Até a forma de vestir, sinto que tende a mudar. Não só pelo país, um pouco pela idade, pelo clima, pelos objetivos, porque eu preciso ou quero mudar. Em breve, tosarei o cabelo, já me conheço.

Socialmente, os lugares que frequento são bem diferentes, restritivos, e não foi minha opção, simplesmente aconteceu. E está sendo um baque entender que o brasileiro não é um povo tão misturado e aberto como havia guardado em minha memória seletiva. O sistema faz com que aconteça assim.

Politicamente, vontade de sentar e chorar! Desesperança e insegurança total! Aquela sensação de tentar acreditar, ok, a vida vai seguir como sempre seguiu, quem sabe é um certo exagero dos meios de comunicação… e a experiência berrando, esquece! O buraco está bem mais embaixo sim! A solução por aqui, se vier, não é para minha geração. Ganhe o máximo e defenda-se como puder! Fico triste, nesse momento, me caberia muito bem algo de orgulho nacional.

Não foi difícil me reacostumar a ter uma diarista trabalhando em casa como imaginei. Minha vida é mais confortável. Tenho mais espaço, mais armários, uma geladeira impressionante e, em breve, minha tão sonhada cama com dossel! São luxos egoístas que sei viver sem, não preciso, mas também sei desfrutar sem culpa.

A proximidade da família é gigantemente mais simples! É fácil passar um final de semana no Rio, ver meu pai caminhando melhor, ir ao teatro com minha mãe, ver que minha sobrinha já mudou de expressão e tem olhos bem mais vivos agora. E sim, isso não tem preço!

Ver amigos sem precisar que seja através de redes sociais ou Skype (ainda que outros tantos sigam sendo minha alternativa para saudade). Confirmar o que já sabia, muitos deles, continuarei me relacionando à distância, porque as distâncias no Brasil podem ser enormes e o tempo cada vez mais curto! Sem ressentimento ou cobrança, quase nunca é algo unilateral.

Vislumbro a possibilidade de visitar meus antigos colégios em Brasília e rever amizades que seguiram fisicamente por lá. Viagens pelo nordeste ou América do Sul em geral, agora não me parecem um plano remoto ou complicadíssimo! Mas não nego que, da mesma maneira, também me parece distante e como é difícil encontrar o bendito tempo!

O mais difícil de tudo é confirmar o que no fundo esperava, eu caibo aqui, foi e é minha opção atual, não me arrependi, é meu lugar por enquanto e tem um monte de coisas que me fazem gostar desse momento, mas não é mais meu lugar. E é muito dolorido ter que responder a pergunta que me é feita frequentemente sobre como é “voltar” para o Brasil. Queria muito poder dar outra resposta, queria muito dar a resposta esperada. Tenho buscado mil maneiras de colocar de um lado positivo sem mentir, mas a verdade é que acho morar no Brasil bem ruim. E preciso assumir isso claramente ou vou entalar tentando convencer a mim mesma. Sinto muitíssimo, mas não me sinto mais em casa.

Não gosto de decisões definitivas, tampouco preciso tomar uma agora. Como disse e repito, há muito de bom para aproveitar aqui e, como de costume, desfrutarei até o caroço! Só uma análise de como me sinto para registro. Minha opinião agora é que posso viver bem como visita, aproveitar o máximo a estadia, amar de paixão os anfitriões, mas sem a intenção de ficar.

E sinto muito por isso.

4 comentários em “O primeiro quarto de ano”

  1. Fico feliz que você soa bem otimista em relação a vários aspectos! O mesmo nao aconteceu comigo… Bem, novos ares em breve para a família… A gente parece O Feitiço de Aquila!

  2. heheheheh… Feitiço de Aquila é ótimo! 🙂 Pois é, Selma, tento ser otimista, porque o que vou fazer, né? É o jeito! A outra opção seria me fechar e ficar achando tudo horrível, o que às vezes, preciso resistir à tentação. Enfim, como disse, tentarei aproveitar o que há de melhor, da mesma maneira que fiz pelos outros lugares onde vivi. Mas vontade de ficar que é bom… na-na-ni-na-não! E quem sabe na nossa próxima mudança a gente se esbarra em algum lugar pelo mundo… hahahahaha…

  3. Mas o mais importante e’ que sempre teremos a opcao de cair fora, mesmo que nao precise, o plano B estara la pra sempre, afinal ele ja foi plano A um dia neh ! Boa sorte !

  4. Bianca, li seu post e lamento muito que o retorno não esteja sendo perfeito para vcs, estou sempre na esperança de ver amigos retornando ao Brasil e muito felizes pela decisão, mas lamentavelmente o que observamos é o contrário, e um grande fluxo de gente querendo ir embora. Mas tenho também certeza que no caso de vcs é temporário, e que logo estarão de malas prontas para novo destino, por isso, é como vc escreveu, aproveite o melhor que nossa terra tem a proporcionar. Boa sorte e esperamos revê-los em breve. Beijo gnde no casal e nos gatinhos!

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