Mil e uma sensações marcadas pela ambiguidade

Não é muito simples descrever o turbilhão de emoções que foi aterrissar no Brasil. Hoje faz um mês que cheguei a São Paulo e ainda me sinto confusa. Quase tudo é ambíguo, uma relação eterna de amor e ódio, felizmente mantida em banho maria, graças a serenidade que a experiência traz. Nem seria necessário dizer, porque é óbvio, mas como registro do fato: meu olhar mudou muito. Talvez não caiba mais em mim, porque parece que não sou mais a mesma.

Faz tanto tempo e foi ontem, sou a mesma só que não, estou desconfortavelmente à vontade. Sou brasileira, mas sou gringa, meu sotaque é esquisito. Adoro, mas me dá uma raiva!

Digo e repito que não consigo falar que “voltei” ao Brasil, é mais como “vim” para o Brasil. Poderia ser outro país e não acredito que seja definitivo. Nunca sabemos por quanto tempo ficaremos em canto nenhum, mas não acredito que minha velhice será aqui. E com os caminhos políticos que vem se delineando, essa hipótese é cada vez mais improvável.

Mas por enquanto, aqui é e será minha casa, então, como faço em todos os lugares que moramos, vamos buscar o que há de melhor, certo?

Por mais que essa seja minha mentalidade e atitude, aqui sendo como qualquer outro país, no fundo, sei que não é exatamente assim. Porque há muita coisa nova, mas também há muito do que entendo, a começar pelo idioma em que fui alfabetizada. E, como nem fui eu quem disse, “a língua é minha pátria”.

Assim, sigo com a tal ambiguidade que cito desde o início do texto. Tudo, de repente, ficou claro e confuso, como se todas as portas se abrissem em pares! E a todo momento preciso eleger por qual delas entrar. Qual chapéu coloco? O de brasileira ou de estrangeira?

Não acredito que seja uma coisa ruim, se pudesse escolher, realmente preferia ter hoje essa visão global de cidadã do mundo com crachá! Só digo que é mais trabalhoso, pelo menos nesse início.

Não suporto admitir, mas tenho também presente uma sensação que odeio: o medo. Do dia para noite, minha vida se encheu de medo de um monte de coisas!

Um par de dias depois que chegamos, foi meu aniversário. Fiz questão de sair para comemorar. Sabe aqueles dias que você necessita chutar o pau da barraca? Pois é, estava nesses dias! Tomei todas e mais algumas, francamente, nem me importei, estava entre amigos. Aproveitei tudo de direito, mas sabia que quando chegasse em casa, teria um encontro marcado.

Lá estavam meus demônios, me esperando um por um para serem colocados para fora. Uma crise de ansiedade das boas! Difícil me deparar com tantos medos, mas definitivamente, precisava chamá-los por seus nomes e confrontá-los. Não estão resolvidos, talvez precise de ajuda, o tempo dirá. Mas já conheço seus rostos e estou trabalhando nisso.

A segunda comemoração do aniversário foi na semana seguinte, dessa vez, no Rio de Janeiro e em família. Na verdade, foi mais um pretexto porque queria dar uma festa. Foi bem mais tranquila, porque eu também estava mais tranquila, não por isso menos animada. Forcei um pouco a barra para ir ao Rio, com muitas coisas ainda por resolver em São Paulo, mas achei importante. Um dos pontos principais da minha “volta” ao país foi exatamente a família, então vale o esforço. E, na verdade, foi uma celebração ótima! De uma hora para outra, a casa dos meus pais voltou a ser frequentada por crianças e por gerações mais novas. Acho legal, traz nova energia! E acho que eu estava precisando desse ritual de passagem.

Voltei a dirigir! No último mês, posso assegurar que dirigi mais que nos últimos 11 anos! O lado positivo, foi sentir que ainda dirijo bem, modéstia às favas! Não sofri. Às vezes, até me surpreendo com a naturalidade que encorporei novamente o volante aos meus braços. O lado ruim, é um carro blindado, foi uma das minhas condições para viver aqui. Meu horizonte voltou a ser retangular, não me animo a caminhar pelas ruas.

Fomos a novos restaurantes e temos tentado, na medida do possível, rever alguns que costumávamos frequentar. Comer em São Paulo é uma delícia! Segue estando entre as melhores cidades do mundo nesse sentido. E comer bem é sempre algo que me faz sentir em casa.

Tenho revisto lugares e ruas, navegam em paralelo a fragmentos de memórias diversas, boas, difíceis, engraçadas… estou em constante viagem pelo tempo, tenho uma história aqui. E, o mais confortante de tudo é me ver no olhar dos meus amigos, diferente, mas enquanto me reconheçam, ainda tenho um norte de quem fui e que, pelo menos em parte, ainda sou.

4 comentários em “Mil e uma sensações marcadas pela ambiguidade”

  1. O que me cabe é dizer que nunca saí do Brasil e me sinto um “cidadão do mundo”. A tecnologia me proporciona esta “mágica”. Sei que a mesma facada que uma senhora brasileira pode sofrer na rua, pode também, esta mesma brasileira, sofrer na Bélgica. Sei que o mendigo daqui necessita tão quanto o mendigo do leste europeu. A truculência da polícia daqui se equipara à dos E.U.A.. A fome do nordeste pouco difere da fome da África faminta. A enchente avassaladora dos estados do sul não deixam margem para as da Itália. A corrupção nojenta do planalto se assemelha à do Kremlin.
    Fica o consolo do pertencimento. Pertenço a um jovem pais que de promessas já não se sustenta e que de realidade pode deixar a desejar. Mas, pertenço também, a um povo que se difere no crucial; a coexistência pacífica. Pode esta ser permeada de abissais diferenças mas nada se compara a chegar na esquina e dizer para um compatriota: E aí, beleza?
    Querida, sinta que seu pais é onde seu coração se aquieta e bate com esperança. O mundo gira e cada volta é um intervalo de suspiro e realizações.
    Que você e o Luis tenham muitas.

  2. Entendo totalmente o que você escreveu, pois já passei por isso. Também entendo, e compartilho, da visão do Hugo, pois o susto inicial já passou. Afinal, lá se vão quatro anos.
    Essa lente de macro com que as informações sobre a violência chegam até nós é realmente assustadora. No entanto, aqui no Rio de Janeiro ainda não sofri nenhum episódio de violência fora do comum, como acontece no Metrô de Paris ou no de Estocolmo. Eventualmente, minha mochila é aberta pelo caminho e o batedor de carteira deve se decepcionar ao encontrar uma garrafinha de água mineral, um envelope de lenços de papel e um molho de chaves. Coisa de qualquer cidade grande!
    Vinte e seis países depois, após três idas e vindas quase definitivas, posso dizer que todo lugar tem seu lado bom e seu lado ruim, como tudo na vida! A política, independente dela nos agradar ou não, faz parte do cenário, obviamente, mas também depende muito da forma como valorizamos as individualidades.
    Tenho crítica suficiente para gostar de algumas coisas no meu país e não gostar de outras. A perspectiva é não pactuar mais com algumas tradições e valorizar outras. De parte a parte, há gente boa, com bons valores, boas ideias e boas práticas em todas as partes. Acredito que podemos modificar o que não gostamos se nos aliarmos com quem temos essa sintonia e melhorar o que gostamos porque sempre há uma maneira de fazer melhor.

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