Xô, deprê de inverno! Tô muito ocupada para você!

Ainda é outono, mas o frio chegou. Em uma semana a temperatura mudou drasticamente. Nem vou reclamar, porque esse ano até que o verão se esticou o que pôde. Mas acho curioso pensar que na semana passada estava de camisetinha sem manga pela rua e agora a calefação de casa está ligada.

 

A depressão de inverno é uma velha conhecida dos que moram por essa latitude, já falei disso algumas vezes. Ela começa a dar sinais de vida exatamente nesta época. Sabe-se lá porque, parece afetar mais às mulheres, mas ninguém está livre. Diferente do que pensava no início, o problema real não é tanto o frio, mas a luz. Para as friorentas, e por isso imagino que aconteça mais com as mulheres, o frio não ajuda em nada, mas o ponto crítico é a diminuição da intensidade e do tempo de luz durante o dia.

 

Sim, a Espanha tem uma grande sorte por ser bem iluminada. Mesmo no inverno, há dias lindos de sol. Entretanto, saímos de um verão que escurece quase às onze da noite, para um outono que não clareia antes das 8:00hs e anoitece por volta das 18:00hs. Um pouco antes, um pouco depois, dá no mesmo, na prática, perdemos pelo menos umas 5 ou 6 horas de luz.

 

Parece bobagem, né? Mas não é. Sol tem vitamina D, alimenta, nutre. A luz interfere na sua produção de melatonina, aquele hormônio que te cutuca para acordar ou dormir. Se você não tiver a consciência que o funcionamento do seu corpo muda nesse período, pode ter problemas de humor, simples ou dramáticos.

 

Não se desespere! Vitaminas C e D! Comidas picantes! Exercício físico! Endorfina na veia! Caminhar na rua, casaco está aí para isso, ou melhor ainda, sair para dançar. Cobertor de orelha e convivência com gente positiva. Não tem depressão de inverno que sobreviva! E se vier, relaxa, vai passar.

 

No ano passado, nessa mesma época tinha tanta coisa difícil acontecendo que nem consigo me lembrar se senti frio, depressão ou sei lá o que. Muxei e sequei igual as plantas no outono. Então, esse ano já decidi que não terei tempo para baixo astral, só se não tiver jeito mesmo. As folhas secas fazem parte do ciclo, uma hora a gente entende que no outono as plantas não morrem, só se preparam para renovar.

 

Para ser bem honesta, só me toquei sobre a deprê porque no passeio de costume pelos blogs das amigas, os sinais começaram a aparecer. Foi quando me lembrei, ah é, tem a deprê do inverno! Sentindo ou não os sinais, não custa me cuidar, já diz o ditado que é melhor prevenir.

 

Esperto é meu gato e sua eterna busca pelas frestas de sol.

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Meu novo vício

Pois é, quando era criança, não brincava com bonecas ou de casinha. Com bonecas, porque era chato mesmo, mas de casinha, nunca tinha companhia. Meus vizinhos, por coincidência, eram sempre meninos. Não tenho queixas, gostava das brincadeiras de rua também.

 

Mas estou chegando a conclusão que devo ter trazido essa fase mal resolvida e o porquê beira as raias do ridículo. Estou completamente viciada em um joguinho do facebook, o FarmVille. Para quem não conhece, é algo tão simples como plantar, colher e reinvestir na própria fazenda. E é nesse investir que mora o gancho do jogo, porque quanto mais estrategicamente você atua, mais rico você fica e mais rápido. Daí tem o seguinte, você pode só plantar e ganhar dinheiro, mas sua fazenda fica meio feinha e sem graça. Então, te dão opções de comprar casas, decorações, animais… ou seja, é quase brincar de casinha. Você descobre também que essas coisas te dão experiências, e a experiência conta ponto no jogo. Além do mais, é importante que você tenha vizinhos, porque ao visitá-los e ajudá-los te dá dinheiro e, outra vez, experiência. Você pode enviar presentes a eles e vice-versa, e dessa maneira, seu objetivo não é vencer seu vizinho, quanto mais nos ajudamos, mais crescemos mutualmente. Aos mais competitivos, nenhum problema, você pode ser melhor que os outros, mas isso não prejudica ninguém. Achei o jogo uma grande sacada e fora os elementos que já descrevi, adoro a idéia de ter terras, casas e animais, mesmo que seja de maneira virtual. De quebra, ainda me divirto e interajo com os amigos-vizinhos. Até gente nova (de verdade) cheguei a conhecer!

 

Isso tem me feito pensar. O que me fez gostar tanto do jogo? Sempre há um conjunto de coisas, mas estou convencida que há dois motivos principais.

 

O primeiro, porque me possibilita construir minha casa. Não sou de todo maluca, sei que não é real, mas o mundo virtual hoje faz parte da minha vida, portanto, me realiza uma parte do sonho, me dá ao menos o gostinho.

 

O segundo é que trabalho. Não há como negar, tenho a cabeça para estratégia, até quando brinco. Estou fora de consultoria há quase dez anos e não há uma vez que não termine uma refeição em algum restaurante, sem antes calcular se é ou não um bom negócio. É complicado quando alguma amiga chega empolgadíssima me contando uma grande idéia de um negócio infalível, e levo 37 segundos para ter certeza absoluta que não se paga. Até para ser artista plástica tive a pachorra de fazer um business case! Claro que deu errado, mas porque nesse caso me faltava um detalhe importantíssimo, a experiência, o conhecimento.

 

E aí a coisa se complica um pouco mais, como medimos essa experiência, esse conhecimento? Não estamos em um joguinho onde a cada etapa cumprida, te aparece um número determinado. Não é objetivo. Mas todos concordamos que está lá, é real, tem um nome e um conceito: experiência.

 

Algumas coisas que aprendo, sei exatamente de onde vem, outras são absolutamente subjetivas, a única dica que tenho é que vieram de uma experiência. Até que ponto isso é gravado na nossa memória, ou vai mais longe, ficou cravado no DNA?

 

Tenho uma angústia atual que é perceber uma onda de oportunidades e não ter uma ferramenta de atuação, por exemplo em mídias sociais. Um monte de gente percebe isso, nenhuma novidade, mas tenho a sensação de ter um diferencial, simplesmente por uma questão de experiência. Acontece que não sei como medí-lo, muito menos como vendê-lo. Estou chegando a conclusão que é por usar um sistema antigo de mensuração, que não mais se aplica aos novos modelos econômicos e sociais.

 

Bom, digo isso porque realmente acho que o mundo mudou. Não estou falando de uma coisa pequena como a crise, mas da mudança na economia global. Apesar disso, continuamos atuando e nos medindo como no modelo antigo. Há uma transição, ok, sorte de quem perceber e se adaptar primeiro. E não acho que estejamos falando apenas de negócios, não vejo mais como separar as vidas em pessoal e trabalho, acredito que hoje seja tudo junto. No momento que transitamos para uma economia do conhecimento, já não há mais barreiras concretas entre sua vida pessoal e profissional. Você é o que experimentou, o que conhece, vai muito além dos cargos que ocupou.

 

Para quem se interessa pelo tema, repasso um blog de negócios que leio e me deixou encafifada por esses dias. No blog da Table Partners, há três posts em sequência sobre o livro “Innovation Happens Elsewhere”, de Ron Goldman e Richard P. Gabriel. Trata das mudanças que estão ocorrendo na economia global, por estarmos transitando de uma economia industrial para uma economia do conhecimento.

 

Enfim, não sei se disfrutarei dessa nova sociedade, ou se apenas triscarei na sua periferia, mas gosto da idéia de poder testemunhar de maneira consciente algo de novo.

 

Enquanto isso, deixa eu ir lá no FarmVille, que está na hora da minha colheita! No máximo amanhã, terei experiência e “dinheiros” para a próxima aquisição: a casa principal da fazenda! Yes!

Por esses dias

A vida anda agitada, para o bem. Quanto ao temido inferno astral, ou veio antecipado, ou os astros quebraram meu galho. Tenho até medo de dizer, mas a verdade é que me sinto ótima! Esperava a bomba nuclear e veio ataque de Polianna, vai entender.

 

Os problemas continuaram aparecendo e continuaram sendo resolvidos, porque é assim mesmo. Meu pai continua em tratamento e, de vez em quando, a gente leva um susto. Bate a ansiedade e tal, mas me ocorreu que é muito melhor ter essa preocupação, isso é sinal que ele ainda está lá e que tem guerra. Por isso, agradeço.

 

Meu irmão vem para o meu aniversário, chega no começo de novembro. Vamos juntos para Marrocos. É possível que também Londres e/ou Barcelona, mas isso só vou saber na hora.

 

Os preparativos para a festa também começaram. O dia real é 9 de novembro, quando estarei com Luiz e meu irmão em Marrocos. Ou seja, passarei os esperadíssimos 40 literalmente para lá de Marrakesh!

 

Com os amigos, celebrarei na sexta-feira 13, assim mostramos logo para as bruxas que não temos medo delas! Aproveitando o dia, o tema é magia e será uma festa à fantasia. Cada um que se transforme no que quiser. Eu quero ser uma loba! Afinal de contas, estou na idade dela, quero virar a Loba Má! Vamos ver se dou conta de produzir o disfarce.

 

Até a temperatura colabora, em pleno outubro, os dias de sol estão lindos, ontem saí de camisetinha sem manga e não passei um pingo de frio.

 

E por que saí de camisetinha sem manga? Eis a questão! Parte pelo tempo e parte por um plano malévolo.

 

Pois é, havia me proposto a fazer uma tattoo comemorativa, mas não tinha muita certeza do que, queria que significasse algo, como de costume. Liga uma amiga dizendo que ia fazer a sua, me ofereci para acompanhar e conhecer o estúdio, ver orçamento, essas coisas. Ela topou e fui junto.

 

Bom, já tinha uma rosa nas costas, mas andava bem enjoada dela, além de ter mais de 10 anos e precisar de uma retocada. Estava na dúvida se tatuava uma asa de anjo ou um símbolo de proteção. Falei isso com a amiga e com o tatuador.

 

Enquanto esperava pela tatuagem dela, uma borboleta estilosa, fui amadurecendo a idéia. Conversa vai, conversa vem, desenho nas costas das possibilidades, sugestão daqui e dali… e tcham, tcham, tcham, tcham… a idéia definitiva! Cobrir a rosa com uma asa, e adicionar o ideograma japonês de proteção ao lado. Perfeito! Não tive mais dúvidas e ontem mesmo cheguei em casa com um novo desenho no corpo.

 

Pois preparada e protegida para os próximos passos! Não tenho colírio, mas uso óculos escuros!

4 noites, 5 dias e muitos planos

No início da noite de quarta-feira, aterrizamos em Paris. Na última hora, Luiz resolveu alugar um carro e já fomos com ele do aeroporto.

 

Nem preciso dizer que sou louca-tarada-de-pedra por Paris! Assim que nem o tráfico infernal da sem gracérrima e interminável périphérique atrapalhou meu humor. Porque, por outro lado, também se via a torre Eiffel iluminada, piscando como o globo de uma boite.

 

Mal pousamos as malas no quarto e partimos para o jantar. No caminho, conheci um casal de amigos e sua filhinha, espanhóis, ele trabalha com Luiz e foram fazer o mesmo treinamento. Durante o dia, cada um seguia seus próprios interesses, mas jantamos juntos na quinta e no sábado, além de nos esbarrarmos toda hora pelas redondezas. Sabe como é, cidade pequena… Enfim, compartilhamos sem nenhuma culpa o pecado da gula e certa perversão para vinhos, bom começo de amizade. Nesse dia, ainda nos encontramos por acaso após o jantar e subimos para o bar panorâmico do hotel para tomar um último drink. Diga-se de passagem, o drink mais caro de Paris! Mas valeu pela companhia e pela vista.

 

Muito bem, voltando um pouco o filme, faz algum tempo que ando de olho em cursos de gastronomia pela internet, alguns eram em Paris. Quando Luiz disse que precisava ir a trabalho, me empolguei toda e achei que poderia aproveitar a viagem além do simples passeio. Nosso amigo francês me ajudou e emprestou um livro com uma lista de locais que poderiam interessar, se chama “Cuisiner comme un chef à Paris”.

 

Armada com esse livro, um guia de ruas, um mapa da cidade e minhas botas companheiras de guerra, tracei meus planos para quinta-feira.

 

A primeira escola que me interessou se chamava “Diet Cafe”. Estava hospedada próximo ao Arco do Triunfo, a escola era perto da Place des Voges, calculei por alto uns 9km do hotel e segui a pé.

 

Sim, podia ir de metrô, era mais fácil e rápido, mas quem queria brincar de tatu?

 

Pois é, achei o endereço direitinho, entretanto, estava tudo fechado. Putz! Não acredito! Será que era o horário? Resolvi almoçar por lá mesmo em um bar à vins charmosinho que notei na esquina. Ainda passei novamente na escola depois do almoço, por via das dúvidas, mas nada. Paciência.

 

Estava relativamente perto do Pompidou, meu museu favorito, e não tive dúvidas de qual seria meu plano B. Havia uma exposição só de mulheres, Elles. Olha, vou dizer uma coisa, eu detesto temática sexista! Aqui na Espanha, vira e mexe, fazem seleções só para “mulheres artistas” e acho um horror! Não sou mulher artista, sou artista. Acho que precisamos ser coerentes. Acontece que essa exposição especificamente estava muito boa. Digo na minha opinião, é claro. Achei que não fizeram muitas concessões e não era uma exposição necessariamente feminista. Reuniram tremendas artistas, com trabalhos muito interessantes, alguns perturbadores. Saí de lá com uma vontade danada de trabalhar! É verdade que na saída também passei por uma peça do Duchamps e cheguei a conclusão que enjoei dele, para mim o rei está nu e o costureiro pilantra deu sorte.

 

Segui caminhando para o hotel e acredito que nesse dia devo ter andado uns 20km. Caraca, me senti novamente no Caminho de Santiago! Encontrei com Luiz, demos aquele descanso de bife mal passado, volta e volta, e fomos encontrar com o casal de amigos espanhóis da filhinha e outro português.

 

Jantar bastante agradável, sempre como muito bem na cidade. O garçon se enrolou um pouco com os pedidos. Certamente a confusão que o grupo fazia com os idiomas não ajudou muito, mas por incrível que pareça, não tivemos problema com a conta. O restaurante, Le Sud, era bem próximo ao hotel e de comida provençal, comi um cordeiro bárbaro! E vinho, é claro!

Tudo que se pode fazer caminhando ou de metrô é melhor, porque taxista parisiense é um nojo! Taxista romano te rouba, mas pelo menos são simpáticos! Taxista parisiense é caro, ruim, mal educado e difícil de encontrar. Quando você encontra um normalzinho, é pura sorte! Melhor se forem africanos ou orientais, até os portugueses ficam insuportáveis quando ganham uma licença de taxi em Paris. Em Madri, praticamente não temos problemas com taxista, mesmo os do aeroporto costumam ser honestos.

 

Muito bem, na sexta-feira acordei cedo e com os joelhos podres da caminhada do dia anterior. Ignorei. Encontrei o endereço de outra escola de culinária, Lenôtre, que ficava relativamente próximo ao hotel. E lá fui eu tentar o que parecia impossível, um curso para o mesmo dia, sem nenhuma reserva.

 

No caminho, entrei em uma farmácia e comprei uma pomada anti inflamatória para os joelhos. Ali mesmo pedi licença, tirei a cara-de-pau da bolsa, levantei a barra da calça e me emplastei da medicação. O recomendável seria voltar para o hotel e fazer um pouco de repouso, mas veja bem, como ando sempre muito rápido, interpretei que se caminhasse um pouco mais devagar, seria praticamente igual a um repouso, certo? Assim foi. Que mané voltar para o hotel!

 

O Lenôtre foi aberto em 1995, por um chef em pâtisserie de igual nome. Ele faleceu há pouco tempo, mas o restaurante e escola se mantiveram com outros chefs. O lugar tem um certo reconhecimento e algumas filiais espalhadas pela cidade. O endereço que tinha era na avenue Victor-Hugo, ali chequei e perguntei sobre o curso.

 

O gerente, muito educado, me respondeu que a escola funcionava em outro endereço e que era necessário fazer reserva pelo telefone. Agradeci, peguei o endereço da escola e me despedi pensando, qual o problema de não ter reserva, também não falo francês!

 

Não é que não fale nada de francês, falo macarronicamente, me viro. Estudei um pouco no passado e como boa brasileira, acredito que nasci poliglota. Brasileiro é assim, pelo menos meus conterrâneos cariocas, acreditamos que ao mudar o final das palavras e adicionar alguma entonação, podemos falar qualquer idioma. O importante é a atitude! Depois, já tinha chegado até ali e todo mundo havia me entendido, inclusive, como uma típica francesa, dei informação de endereço no caminho. Felizmente, me perguntaram um lugar que conhecia. Resolvi pensar que era um bom presságio.

 

Despenquei para o comecinho da Champs-Élysées, onde funciona o restaurante principal, um pavilhão envidraçado na altura do Petit Palais. Perguntei sobre o curso e uma mocinha engatou a primeira e saiu conversando, em francês obviamente. Entendi metade, mas ao mesmo tempo também me deu uma apostila com todo o calendário e os preços dos cursos. E claro, o telefone para a reserva. Minha deixa para perguntar, mas não seria possível hoje? Um sinal de interrogação na sua face, hoje? Bom, posso perguntar se há vaga. Pois, por favor.

 

Tinha vaga! Yes! Ela me diz, o curso de hoje é sobre Hns%&hs de Brrrrick *&higross lêlê-lêlê… Respondo com ar de quem entendeu tudo, perfeito, exatamente o que queria! Começa às 14:00hs – era um pouco cedo – gostaria de aproveitar e almoçar enquanto isso? Boa idéia!

 

Sentei no restaurante feliz da vida porque havia conseguido me matricular para a aula e, ao mesmo tempo, doida para rir sozinha por acabar de me inscrever em um curso que não tinha certeza sobre o que se tratava, em um idioma que não falava! Mas tudo bem, realmente agradeço pelo dia em que percebi não ter mais um pingo de medo em fazer o ridículo! Bom, estava quase segura que tinha escutado a palavra “brick”, aquela massa para folhados ou trouxinhas, e isso me interessava bastante. Quer saber, quem está na chuvê é para se molhê!

 

Já sei, aproveito para ler o programa dos cursos, até achar o que farei hoje. Enquanto isso, peço uma taça de champagne, que aumenta minha capacidade linguística, ou pelo menos, me faz acreditar que isso aconteceu. Achei o curso na apostila e sim, eram pratos feitos com pasta brick. Dois salgados, Croustillant de langoustines aux champignons e Croquant de crevettes et ris de veau; e a sobremesa, Aumônière de pommes et raisins sauce carramel au beurre demi-sel.  (Tradução aproximada: Crosta de lagostin com cogumelos; crocante de camarões e ris – uma glândula, cujo sabor é melhor que a descrição – de vitela; trouxinha de maçãs e passas ao caramelo)

 

Começou a aula. O chef era bem simpático e didático. No início já me apresentei explicando que não falava muito bem francês. Ele se desculpou por não falar inglês, eu disse que não tinha problema, era brasileira e entendia melhor que falava. Todos sorriram e respiraram aliviados porque não era americana nem inglesa. Éramos um grupo de cinco pessoas, o chef, três mulheres e um homem. Eu era a caçula.

 

A partir daí, tudo fluiu mais fácil. É verdade que eu parecia a coruja da piada, não falava, mas prestava uma atenção… Enfim, foi ótimo, deu tudo certo e aprendi coisas interessantes. A aula acabou às 18:00hs e, ao final, levamos os pratos que elaboramos para casa. Para mim, era um problema, porque estava em hotel, onde obviamente não tinha um forno! Mas tudo bem, porque nesse dia combinamos de jantar na casa de um amigo e resolvi levar os pratos para ele.

 

Voltei subindo a Champs-elysées amarradona! Nem meu joelho estava incomodando mais, ainda que de vez em quando ele me lembrava para andar mais devagar. Cheguei a conclusão que estava falando francês bem pacas! Fui trazida à realidade logo à frente, quando mais alguém falou comigo na rua, poderia ser um endereço, uma cantada ou uma ofensa. Bom, poderiam ser as três coisas juntas também, não tenho a menor idéia do que o cidadão falou. Pensando bem, está na hora de aprender francês!

 

Cheguei no hotel, encontrei Luiz e lá fomos nós jantar na casa do nosso amigo. Ele nos prometeu um foie gras há bem uns dois anos! Mas sempre acontecia alguma coisa e nos desencontrávamos. Dessa vez, finalmente, tudo deu certo! E como deu certo!

 

É verdade que foi um pouco constrangedor chegar para o jantar com uma bolsa cheia de comida, mas expliquei rapidamente que foi em função do curso que havia feito aquele dia e que ele podia comer (ou não) quando quisesse.

 

Agora, preciso admitir que valeu a espera, porque se não foi o melhor, foi um dos melhores foie gras que já comi na vida! Algumas dicas simples e importantes, primeiro, cortar o foie com uma faca aquecida, isso evita que ele se quebre ou cole na faca, já que tem uma consistência pastosa e, vamos combinar, é gordura pura. Segundo, nem uma gota de manteiga ou óleo na frigideira, não precisa nada. Terceiro, temperar simplesmente com sal, pimenta e enfarinhar ligeiramente – mas muito ligeiramente – para dar certa crocância. Depois é só aguardar que a frigideira esteja bem quente, 5 segundos de cada lado, e voilà!

 

Aguardamos a entrada com champagne. Logo, o foie foi servido com abacate, figos caramelizados, agrião (sem nenhum tempero ácido) e cebola roxa com redução de porto. Acompanhado por uma taça de porto também. Show! Seguimos com um peixe assado e um bourgogne branco cheio de personalidade (sim, vinhos brancos podem ter personalidade!). Degustação de queijos enquanto terminávamos o vinho e, de sobremesa, uma torta de frutas.

 

Estávamos em cinco pessoas, Luiz e eu, o dono da casa com seu filho e uma amiga. Meu amigo é francês, mas morou no Brasil muitos anos, seu filho é brasileiro, mas mora hoje em Londres e sua amiga é francesa. A conversa fluiu fácil, mesmo misturando-se um pouco os idiomas. No fim da noite, tomamos todos um café no bar da esquina. Ai, ai… como a vida é difícil!

 

Um parênteses, um dos assuntos dessa noite foi meu interesse em ir para Paris por um mês. Seria uma oportunidade para fazer um intensivo no idioma na metade do dia e na outra metade, me empenhar em algum curso de culinária. Luiz poderia me encontrar nos fins de semana, é um vôo de uma hora e meia desde Madri. Muito bem, esse amigo é cheio de iniciativa e bons contatos, se ofereceu a me ajudar a encontrar um estágio em um restaurante. Dessa forma, não teria gasto com um curso em gastronomia, além de ganhar muito mais experiência. Putz! Por mim, fechadíssimo! Não está tudo certo, mas estou correndo atrás disso agora. O ideal seria conseguir que fosse no início do ano que vem. Vamos tentar.

 

No sábado, resolvemos aproveitar o carro e conhecer os arredores. Fomos visitar o Château de Vincennes  e almoçamos olhando para o próprio. Adoro comer olhando um castelo! Putz, mal penso em morar um nadinha em Paris e já começo a ficar insuportável!

 

Depois resolvemos voltar para o hotel por dentro da cidade. A périphérique é prática, mas muito monótona e feia. Passamos na casa do nosso amigo, que mora por Bastille, e fomos juntos tomar um café preguiçoso na Place des Vosges. Incrivelmente, Luiz conseguiu uma vaga bem na praça! Como se já fosse pouco, esse amigo me disse também que era bem possível que ele encontrasse alguém que me alugasse o próprio apartamento a um preço camarada. Caramba, tudo caminha para que essa história funcione! Estou com frio na barriga!

 

De lá, Luiz ainda teve a paciência de dirigir por Montparnaisse e passamos em frente a Alliance Française, que fica no Boulevard Raspail. Coloquei meu olho bem grande ali e combinei com os edifícios de voltar em breve.

 

No sábado, combinamos de jantar com o casal de espanhóis. O início da noite foi um pouco tenso, como já previa. Não por eles, mas porque precisaríamos de um taxi para chegar ao restaurante eleito. Começa que os hijos de mala madre dos taxistas já não gostam de pegar mais de três pessoas. Os poucos que aceitam, cobram uma taxa extra por isso. Éramos quatro adultos e uma criança de carrinho.

 

O que não esperava é que a confusão começasse no próprio hotel, o Concorde La Fayette. Logo na saída, perguntamos ao porteiro se ele poderia chamar um taxi para nosso número de pessoas, no que ele respondeu que não era possível e que nós deveríamos seguir a fila para os taxis logo em frente e negociar diretamente com os taxistas. Ok. Esperamos tranquilamente nosso lugar, enquanto uma fila enorme de um grupo se formou atrás da gente. Quando chega nossa vez, vemos o tal porteiro chegando com um taxi grande e encaminhando ao grupo, que chegou depois de nós! Ou seja, além dele ter ido buscar o taxi, coisa que havia nos dito que não podia, ainda estava furando a fila na nossa frente! Sei, sei, mas não mesmo! No fucking chance! Montamos uma confusão e entramos no taxi na marra. Que por sua vez, já deveria ter combinado com o porteiro tanto a propina, quanto o local. Ou seja, normalmente não são simpáticos, imagina nessa situação! Pois eu nem aí, com grosseria já estou mais que acostumada a lidar, veja bem, moro na Espanha há cinco anos! Gostando ou não gostando, o babaca nos levou ao restaurante e acabou.

 

Ali chegando, tudo mudou. O lugar se chama Pasco, o qual recomendo. Ótima comida e excelente atendimento! Muito gentis. Comi uma Homard, um tipo de lagosta, de entrada e um porco com endívias de prato principal. Claro, óbvio, evidente que acompanhado de vinho. Começamos com um bourgogne-haute e seguimos com um saint-émilion. Companhia perfeita, até a nenénzinha era legal e colaborou.

 

A hora da sobremesa foi divertida, porque cada um fez seu pedido e Luiz pediu um sorvete. Eu achei sem graça, mas não ia falar nada, estou acostumada, ele gosta de sorvete. Veio o garçon que estava nos atendendo antes, mas não foi o que anotou o pedido da sobremesa e nos perguntou: o que vocês pediram? Nós dissemos. Quando Luiz falou o seu, ele respondeu educado e bem humorado, sorvete o senhor pode pedir no MC Donalds, não quer uma sobremesa de verdade? E assim, nos ofereceu o sorvete como cortesia da casa e escolheu ele uma sobremesa de verdade, algo divino com chocolate e côco. Comi a minha e boa parte da do Luiz! A propósito, minha sobremesa era uma torta ao caramelo, com sorvete de queijo.

 

O taxi da volta para casa foi mais fácil, o próprio restaurante se encarregou. O primeiro taxi que chamaram nunca apareceu e o segundo, que nos levou, foi um africano tranquilo. Como disse, em Paris, sempre que possível, prefira um taxista africano ou oriental, costumam ser melhores e mais honestos.

 

Chegou domingo e já era hora de ir. Acordamos um pouco mais tarde e perdemos o café. Depois fizemos umas comprinhas, claro que de comida e de vinhos. Almoçamos no Chez Clément, uma cadeia talvez um pouco comercial, mas que tenho simpatia. E de lá fomos direto para o aeroporto.

 

Antes de embarcar, ainda compramos mais duas garrafas de vinho e alguns queijos bem fedidos que, nesse momento, estão empestiando alegremente a geladeira. Diz a lenda que os queijos devem ser mantidos fora da refrigeração. Bom, primeiro a temperatura deve permití-lo e, segundo, sachet de chulé ninguém merece, né? Os meus ficam na geladeira mesmo, tiro um pouco antes de atacá-los para que cheguem a temperatura correta.

 

Enfim, chegamos em casa com um gato manhoso e bem tratado nos aguardando.

 

Fui dormir pensando como alguns dias ou horas podem mudar sua vida. Nada como estar no lugar certo na hora certa. Mas como estar nesse lugar se não sairmos de casa? Como ter algum retorno sem se arriscar? As pessoas só podem te ajudar se você contar que precisa.

 

Nesse momento, não vejo a idade como um limitador. Posso entrar em uma escola de idiomas e aprender uma nova língua, como uma adolescente. Posso fazer um estágio em algum restaurante com o mesmo entusiasmo de quem inicia sua primeira carreira. No Pompidou, interagi com um trabalho da Louise de Bourgeois, que já era uma senhora quando reconhecida e após quase um século, segue contemporânea até os ossos! É mais fácil permanecer jovem quando aceitamos o muito que aprender.

 

Estava um pouco agoniada porque sentia que sabia um monte de coisas e que precisava colocar isso em prática. Parecia uma perda de tempo em não usar a experiência adquirida. Talvez fosse, mas talvez a perda de tempo seja em não buscar outras experiências. Caramba, ainda falta muito!

Paris e eu

Paris e eu temos um assunto eternamente pendente. Toda vez que vou é como se a cidade dissesse que continua me aguardando, sabe que sou dela, mas preciso aprender outros lugares. Hoje não estou afim de contar, mas tenho alguns ciclos selados em Paris e não tenho certeza se foi por acaso ou o inconsciente me levou. Nem importa. Sei que ela começa a me chamar.

 

Na quarta-feira à noite vou para lá e já estou feliz em saber que está perto. Nem me faz diferença se os dias estiverem cinzas ou os parisienses de mau humor, ali sou protegida.

 

Uma vez, não me lembro porque, Luiz me chamou para ir com ele e não sei que raios me deu que comecei a pensar se dava ou não, se devia ir mesmo. Ele olhou para minha cara assustado, você está na dúvida se quer ir a Paris? Começou a me sacudir dizendo, sai desse corpo que não te pertence espírito malígno, deixe a minha mulher em paz! Ufa! Ainda bem que ele tomou uma providência, acordei daquele transe malévolo, e claro que fui!

 

Dessa vez, ele não precisou me tirar de nenhum transe absurdo. Quando disse que tinha um treinamento de dois dias por aquelas bandas, levei quase meio segundo para dizer que ia junto. Ainda mais sendo quinta e sexta, ou seja, poderemos aproveitar a noite de quarta e o fim de semana.

 

Na sexta, vamos jantar na casa do amigo francês que nos prometeu um super mega foie gras plus. Ele está me ajudando a encontrar um curso de gastronomia para eu aproveitar melhor o tempo. Talvez a gente consiga encontrar outros amigos também, espero que sim.

 

Queria voltar ao restaurante de Montparnasse, onde celebramos nosso aniversário de uma década de casados. Isso foi há pouco menos de seis anos e me sinto como se houvesse sido em outra vida de tanta coisa que aconteceu nesse período. Como será jantar lá agora?

 

Quero passear pelo Pompidou com meu bloquinho de desenho, depois me perder um pouco até chegar na Place des Vosges e comer por ali.

 

E está bom de planos. Acho que só quero mesmo é estar lá com o Luiz.

Sobre a diferença entre meninas e mulheres

Meninas aprendem desde cedo a fazer as pazes. Eu não fazia as pazes, no máximo, aceitava por conveniência, mas a iniciativa nunca era minha. Para mim, o jeito masculino parecia mais simples, você demarca seu território, eu demarco o meu. Acontece que não era um menino, só havia começado a praticar minha autosuficiência nata.

 

Dizem que é do signo, talvez seja, mas de maneira geral tenho duas alternativas, gosto ou não gosto. Meu comportamento no segundo caso é ignorar, nem é difícil, sai naturalmente. E não me lembro de alguma vez na vida tomar uma atitude contra alguém sem ter sido antes provocada. Também não me lembro de ter sido provocada, ou assim entendê-lo, e não ter tomado nenhuma atitude.

 

Acho que minha primeira adversária, quando tinha algum poder de decisão e não era puro instinto, devia ter por volta de uns nove anos. Um acordo mal feito entre figurinhas e papel de carta me rendeu um ódio mortal. Naquele ano, primeiro dela no colégio, fiz a vida dessa mini cidadã bem complicada. O ano se passou e no seguinte fomos da mesma turma outra vez. Os ânimos já haviam baixado, não tinha mais raiva, tampouco tinha interesse às discretas e indiretas tentativas de aproximação. Ela não me incomodava mais, simplesmente não tinha interesse.

 

Um dia precisávamos fazer um trabalho sobre folclore e não achava material nem a pau! Fui conversar com a professora sobre isso e ela ouviu. Poderia ser sua chance de me ver penar um pouco, mas diferente do óbvio, veio conversar comigo, me disse que tinha muito material e que poderíamos fazer juntas.

 

Ainda me lembro daquele ar de suspense que rolou em nossa volta e sabia que todas as meninas esperavam que dissesse não. Eu disse sim. Rapidamente, uma onda de fofoquinhas infantis se disseminou, porque eu só poderia ter aceitado para me aproveitar da situação e ela só poderia ter me oferecido porque estava armando alguma coisa. Eu aceitei porque achei que ela tinha cojones e, nesse momento, passou a me interessar, conquistou meu respeito. Ela ofereceu porque foi o caminho que encontrou para se aproximar. Nós realmente ficamos amigas, o que fez qualquer rumor morrer de velho. Nunca fizemos as pazes, era secundário e não fazia mais diferença de quem foi a culpa.

 

Eu poderia ter aprendido aí a lição do perdão, cheguei a pensar que sim, mas hoje acho que era muito jovem e fui quem o recebeu. Portanto, quem aprendeu mais foi ela, sorte a dela. Aprendi que impressões não são definitivas e que minha indiferença era tão brutal quanto qualquer atitude.

 

Melhor que tomasse rápido a consciência que era feroz e cruel. Isso dependia de mim, não de quem cruzasse meu caminho.

 

A primeira vez que perdoei, tinha 19 anos. Não era mais tão cruel, ou havia aprendido a controlar, mas ainda era bem feroz. Perdoei profundamente e a consequência foi descobrir que isso permitia que me perdoasse também. Foi libertador, um marco na minha vida, a transição para a fase adulta. Meninas fazem as pazes, mulheres perdoam.

 

Sou menos feroz hoje, mas só porque tenho menos fome. Continuo com os dois cães e minha vontade é sempre alimentar o errado, ele nunca morrerá de inanição, mas posso evitar que mate o outro.

 

Acabo de encerrar mais um ciclo e entender o que precisava desse. Os quarenta já podem chegar, estou pronta para eles. Não me sinto mais sozinha.

 

Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura – e a elegância – jamás.

As idas e vindas, melhor cantar

Setembro tem sido um mês de mudanças, ou pelo menos de vontade ou planejamento delas. Não parece ser só comigo.

 

Em parte, acho que é porque o ano aqui começa em setembro. Por isso, às vezes, a gente adia os planos e empurra um pouco com a barriga até o verão terminar. Mas penso que é mais do que isso. Tenho a sensação que é uma daquelas nuvens universais que você olha em volta e está todo mundo muito parecido.

 

Primeiro sintoma, a mulherada sai tosando ou pintando o cabelo. Se não há possibilidade de uma transformação mais radical, no mínimo, ajeitam ou prendem de uma maneira diferente. Mas definitivamente, algo na região da cabeça começa a incomodar e se altera visivelmente. Homens, vou logo avisando, mulher quando muda a aparência, é porque quer mudar (ou já mudou) por dentro. Nem sempre é mau sinal, é apenas um ritual de passagem.

 

Não estou muito segura se isso também acontece com a ala masculina, não que eles não mudem, mas o processo é diferente.

 

Outro sintoma feminino, tendência ao isolamento temporário. Isolamento é exagero, é mais como uma reserva, dá menos vontade de encarar uma multidão. Você quer estar com menos gente, quieta, caseira. Estou falando de mim, mas sei que estou falando de outras pessoas também. É como um momento que você quer olhar mais para dentro, reforçar seus relacionamentos, entender seus limites. Tudo te deixa mais sensível, parece uma TPM a médio prazo. Enfim, remexer a caixa de Pandora nos deixa mais vulneráveis, então melhor nos preservarmos um pouco.

 

Sei que estou mais séria. Olhar para dentro nos traz a tona nossa real natureza, às vezes eu gosto e outras não. É minha decisão eleger o que manter e o que voltar para a caixa. Antes, meu critério consistia em me perguntar se fazia minha vida melhor; agora me pergunto se faz minha vida mais fácil. A lógica me diz que deveria ser ao contrário, segundo o amadurecimento, mas não foi assim para mim. Talvez seja uma questão semântica ou talvez seja minha natureza cética e prática falando mais alto. De uma maneira ou de outra, quero mais é facilitar minha vida. Só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder…

 

Nessa única semana, tive notícia de três amigas que se vão de Madri. Não me entristeço mais, nem cobro, a vida é assim, as pessoas vão e vem.  Eu venho e vou. Tive vontade de ir também e nem sei para onde. Você não é dono dos seus amigos, nem de ninguém.

 

Nosso último hóspede holandês me disse que você só toma mesmo a decisão de qual seu lugar quando constrói sua casa do chão. Engraçado ele falar isso, porque ele não sabe que penso igual e tenho na cabeça a casa dos meus sonhos, que não sei onde poderia plantar. Mas sei que não é aqui, nem agora. Infelizmente, porque estou pronta para ela e para as mil metáforas que ela traz.

 

Uma dessas amigas fez uma festa de despedida no Kabocla, nessa quarta-feira. Ela vai para o Panamá pela ONU. Luiz estava viajando, fui representando a família.  A conhecemos no coral e alguns participantes estavam por lá. Como não poderia deixar de ser, demos uma palhinha de três músicas que, considerando nossas férias e nenhum ensaio, não foi de todo mal. Foi gostoso cantar outra vez, mesmo meio desorganizado.

 

E falando no coral, no dia seguinte, fizemos uma reunião com os integrantes para decidir nossos rumos para esse próximo ano. Como disse antes, o ano letivo espanhol começa agora em setembro. Achei legal, o grupo vem amadurecendo e foi muito mais simples conversar agora que da última vez. Vamos combinar, com tantas mulheres participando, de vez em quando precisamos parar e discutir a relação. Agora chamamos “Dumbaiê”, eliminamos o cantoria. Uma maneira de nos rebatizar, sem perder o nome e a identidade. Há a possibilidade também de se abrir outra turma só para percussão, o que iria adorar. Soltar a voz e o braço me faz muito bem.

 

Hoje é sexta-feira, comecei o dia animada, depois me decepcionei e doeu, mas pelo menos entendi. Não tenho porque me esconder, eu sempre mostro a minha cara e é a única que tenho. Decidi não aceitar o peso do mico nas costas, não é meu. Tomada essa decisão, fiquei em paz.

 

Mais tarde vamos sair para jantar com um casal de amigos espanhóis. Gosto muito deles e temos um tipo de acordo gastronômico, intercalamos quem vai decidir onde será o próximo restaurante que conheceremos. O de hoje é um nipo-tailandês. Ótimo, estou com a boca para comida oriental!

Pão caseiro

Resolvi fazer meu pão de cada dia.

 

Acho que na vida há prazeres que não precisamos abrir mão. Acho o máximo comprar um pão quentinho na padaria, melhor ainda, variedades de pães de cores e sabores diferentes.

 

Acontece que em Madri, de maneira geral, o pão é um pouco seco para meu paladar. Não é uma questão de fazerem certo ou errado, é que eles gostam assim e as padarias atendem ao gosto do freguês. Tem a questão da higiene, que nem vou começar a falar, que até melhorou bastante, mas ainda deixa muito a desejar.

 

Não é só isso, vou ser sincera, tenho um pouco de preguiça de sair pela manhã para comprar pão também.

 

E para completar, todo mundo vive dizendo que pão engorda. Resumindo, fui aos poucos eliminando o pão de casa.

 

Mas de uns tempos para cá, foi me dando vontade de fazer pão caseiro. Acho que foi depois de um programa gastronômico francês que assisti na televisão. Além de quebrar uma série de mitos do malévolo e engordativo pão, mostrava uns pães preparados com sementes, cereais e um monte de coisas gostosas.

 

Daí consegui uma receita de pão caseiro e testei. Gostei. Não fica como o tradicional pãozinho de sal, mas por outro lado não tem bromato, me parece mais saudável e satisfaz com pedaços menores.

 

Nesse fim de semana estive na Alemanha e como resistir aos deliciosos pãezinhos? Foi quanto tomei a decisão de fazer meu pão.

 

Logo abaixo, coloco a receita básica que a Pathy me passou. Pessoalmente, o que gosto é adicionar gergelim, linhaça, semente de abóbora… o que der vontade. Também funciona se rechearmos com queijo ou geléia. Enfim, cada um com sua criatividade e gosto pessoal.

 

Ingredientes:

 

–          600g de farinha de trigo (aqui compro uma especial para pão, em espanhol, harina para repostería)

–          2 ½ envelopes de fermento ou 2 tabletes (levedura de pan)

–          2 colheres de sopa de açucar

–          1 colher de sopa de sal

–          200ml de leite morno

–          2 ovos (batidos no garfo)

–          2 colheres de manteiga (não gosto de margarina, mas cada um com seu cada um)

 

Modo de fazer:

 

–          Misturar os ingredientes. Costumo juntar tudo o que é em pó e misturar. Depois faço como se fosse um vulcãozinho e despejo dentro os líquidos (leite, ovos batidos). Se o fermento for em tablete, dissolvo no leite morno.

–          Amassar com vontade até ficar homogêneo.

–          Deixar a massa descansando, coberta com um pano úmedo por, no mínimo, duas horas. A massa vai crescer.

–          Assar por uns 20 minutos a 130 graus e mais 10 minutos a 170.

 

Caso queira inventar moda, alguns exemplos:

 

–          Misture as sementes já nos ingredientes em pó. Também pode ser colocado depois, por cima da massa.

–          Quando a massa tiver descansado e crescido, abra como se fosse uma pizza e recheie de queijo, geléia, carne moída, calabresa… o que der vontade de experimentar. Depende se é para um café da manhã ou um lanche. Detalhe, se for rechear com algo doce, melhor por menos sal na massa, por exemplo, uma colher de sobremesa. Depois enrole como um rocambole e feche bem as pontas para o recheio não vazar.

–          Pode ser pincelado gema de ovo por cima do pão antes de assar, fica uma cor bonita.

 

Enfim, o pão é seu! Arrisque um pouco, divirta-se e bom apetite!

Massa crua, com gergelim por cima
Massa crua, com gergelim por cima
Massa crua recheada
Massa crua recheada

Munique e a Oktoberfest 2009

Na sexta-feira, acordamos não muito tarde e já recuperados. A Oktoberfest só abriria no sábado.

 

Luiz não liga para café da manhã, no seu dia a dia toma um copo de leite e sai. Eu amo café, mas só costumo caprichar nos fins de semana ou quando tenho visitas. Meu normal é comer umas torradinhas com manteiga, café preto (muito!) e, de uns tempos para cá, incluí suco fresco de laranja. Portanto, quando sou hóspede, não costumo ter grandes exigências e me adapto ao cardápio dos anfitriões. A única coisa que não consigo abrir mão é da cafeína, ou simplesmente não acordo.

 

Assim que quando nossa amiga perguntou sobre o nosso café da manhã, foi o que expliquei. Acontece que os pães alemães são uma delícia! Fora que adoro uma novidade, então aquele nosso cafezinho básico virou toda uma refeição. E Luiz, que nunca come nada, comeu mais do que eu!

 

Não ligo muito para os pães espanhóis. Eles aqui tem paladar para coisas meio secas, tanto os pães como os queijos. Para mim, tenho sempre a impressão que o pão está meio velho. Há exceções, é claro, mas na média é assim, é uma questão de gosto. Os pães alemães me parecem um orgulho nacional, mais até do que as famosas salsichas – que também adoro. São diferentes cores, sementes, cereais, até puros são saborosos. Resultado, a dieta foi para o brejo.

 

Saí com minha amiga para dar uma caminhada e conversar, Luiz ficou em casa. A gente fala mais do que a língua e por alguma coincidência dos astros, passamos por situações muito semelhantes em épocas parecidas, apesar de sermos muito diferentes. Foi bom pelo papo e pela caminhada, maneira que gosto de entrar no clima das cidades.

 

Pela hora do almoço, voltamos ao apartamento dela para encontrarmos com Luiz e irmos a um museu-não-lembro-de-que no centro da cidade. Nunca chegamos ao tal museu. Andamos pela cidade e estacionamos em um bistrot charmosinho, onde conseguimos confundir bastante o garçon, que misturava alemão, francês e inglês. Já não era exatamente verão, mas um friozinho suportável que nos fez sentar do lado de fora e aproveitar os últimos dias de ar livre.

 

O caso é que ficamos ali até bem umas cinco da tarde, enrolando com um borgonha muito bom. Mas precisávamos voltar para casa porque tínhamos planejado jantar em um restaurante alemão que Luiz conhecia.

 

Aliás, esse foi um capítulo a parte, nunca imaginamos que o fato de sair para jantar pudesse se transformar em algo tão complexo! Minha amiga reclamava sem parar que era no outro lado da cidade, pedíamos outra sugestão e nada! Porque eles não conheciam restaurantes alemães, nem tão longe de casa. Então vamos nesse, vamos de taxi que ninguém precisa se preocupar em não beber, não pode ser tão complicado assim. No final, fomos de carro, Luiz e eu acreditando que sairíamos da cidade! Ou do país, sei lá! Quando ele olha no gps, constata que o restaurante ficava a 10Km da casa deles, 15 minutos dirigindo. Caraca! Isso era o do-outro-lado-do-mundo-difícil-para-cacete? O coral que frequento fica a 6km… e vou a pé! Se precisasse viver em um raio de 5km2 acho que morria de claustrofobia!

 

Enfim, chegamos ao restaurante e achei ótimo, se chama Sankt Emmerams . Não comi nada tão cheio de gordura ou esquisito. Na verdade, me deu pena estar com pouca fome, porque não dei conta de tomar vinho outra vez e fiquei curiosa para provar outros pratos. Comi um faisão recheado divino, em um prato cheio de detalhes e matizes agridoces.

 

Finalmente, chegou sábado, dia da abertura da famosa Oktoberfest. Não guardava enormes expectativas a respeito, mas era uma festa que tinha curiosidade em conhecer. Havíamos combinado outras vezes de ir, mas sempre acontecia alguma coisa, ou esquecia que apesar do nome, era em setembro e não outubro. Até que agora, por acaso (e juro que foi por acaso), começamos a combinar de nos encontrar e tal. Falei com Luiz que estava afim de ir, ele se animou também e só depois percebemos que coincidiria com a abertura da Oktoberfest. Beleza! Melhor ainda.

 

A única coisa é que como decidimos sem grandes antecedências – e é na Alemanha! – não conseguiríamos entrar nas tendas. Funciona da seguinte maneira, você só consegue beber se estiver sentado nas mesas, dentro dessas tendas. Como era o dia da abertura, estava totalmente lotado. As pessoas que não tinham reserva, chegavam super cedo para se estapear e guardar algum lugar, o que não seria nosso caso.

 

Por mim, tudo bem. Honestamente, achei até melhor. Porque não tomo cerveja e não gosto de estar no meio da muvuca muitas horas. Acho que se estivéssemos em um grupo grande e conseguisse beber alguma coisa, até encarava, mas acordar de madrugada, passar o maior perrengue, para simplesmente sentar ali e ver o povo tomar cerveja, não fazia a menor questão. Eles moram lá há nove anos, ou seja, devem estar carecas de ir! Provavelmente, estavam quebrando nosso galho aturando a quermese.

 

O que achei uma pena é que minha amiga tinha um vestido típico extra e eu estava doida para pagar esse mico, mas infelizmente, não coube em mim. Ela é brasileira, a única do nosso grupo vestida tipicamente como uma alemã.

 

Enfim, resumo da ópera, chegamos pouco antes do meio dia, horário da abertura oficial, e ainda pegamos o finalzinho da parada.

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Escutamos o prefeito ou algo do gênero inaugurando a feira e nos dirigimos para a tenda de onde vinha a sua voz. Demos a maior sorte e conseguimos entrar. Segundo minha amiga, normalmente esse horário você já não consegue mais, eles fecham as portas. Não ficamos muito tempo lá dentro, mas deu para ver como funcionava. De vez em quando, precisávamos desviar das garçonetes que passavam com trocentas canecas de cerveja enormes do nosso lado. Visto isso, começou a ficar muito apertado e resolvemos sair.

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Do lado de fora estava bem cheio também. É como se fosse um imenso parque de diversões, parece muito com uma quermese. Vários quiosques de comidas típicas e, acredite se quiser, até um que vendia caipirinha. Na verdade, caipirinha faz muito sucesso na Alemanha, tomamos uma bem correta. Encontramos um quiosque que vendia cerveja também, mas segundo nosso amigo alemão, era uma cerveja han$sgros##&*  que ele não tomava. Como não entendo chongas de cerveja…

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Não podia sair de Munique sem comer uma salsicha, né? Aproveitei e comi uma wurst muito gostosa, que foi meu almoço. Nesse dia, resolvi não marcar bobeira e me guardar para um bom jantar. Gosto das salsichas alemãs e sempre que viajo, tento comer o que é da região, é bom variar um pouco.

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De lá, fomos procurar algum lugar para sentar fora da Oktoberfest e tomar alguma coisa. Não entendi muito bem, acho que o plano inicial era um biergarten, mas acabamos passando por uma terraza bonitinha que parecia oferecer opções além da cerveja. Ali ficamos tomando um vinhozinho, curtindo meia dúzia de nesgas de sol que apareceram e começamos a decidir onde jantar.

 

Sim, porque veja bem, definir um local para jantar era a operação mais complexa de toda a viagem! Minha amiga, que deve estar lendo meu blog, sofrerá na minha mão agora. Primeiro, porque intimidade é uma merda; segundo, porque vai ter dificuldade em escolher um lugar para ir lá na PQP! Cassilda! Na boa, a gente conversava em português, todos conversávamos em inglês, os dois trocavam idéias em alemão… e nada! Tentava fazer algumas perguntas para facilitar, do tipo, qual é o seu restaurante favorito? Mas daí parece que complicava mais! Não sei, definitivamente, deve haver algum esquema alemão para se definir onde jantar, mas o processo precisa ser realizado com três semanas de antecedência e em um formulário xpto, em duas vias de cores diferentes…

 

Eu sou coelho! Eu sou coelho! Só quero um lugarzinho para jantar! Qualquer lugar! Qualquer nacionalidade! Pode ser andando, de metrô, de carro, de bicicleta, de helicóptero! Não me importa! Socorro!

 

O esforço compensou. Eles lembraram de um francês fusion que não-sei-quem foi comemorar o aniversário de casamento. Fechado! Esse! Está ótimo! Demos sorte mais uma vez e desconfio que eles conseguiram reservar a última mesa do restaurante, porque estava lotado.

 

O lugar era uma graça, se chama Makassar e já ganhou o posto de meu restaurante preferido em Munich. Atendimento simpatissíssimo, dois dos três donos atendiam as mesas, falavam um inglês perfeito e conheciam bem o Brasil. O ambiente era um charme e a comida divina! Companhia perfeita, viagem fechada com chave de ouro. Show!

 

Meu paupérrimo vocabulário alemão aumentou. Agora sei falar genau (exatamente), lecker (gostoso), danke (obrigada) e bitte (por favor, de nada). 

 

No domingo, tomamos o rumo de casa. Dessa vez, o vôo estava marcado em um horário civilizado e o tempo de espera na conexão em Roma era bem razoável. Nossos amigos nos levaram ao aeroporto e esse sim é bem longinho. De carro, sem trânsito, uns 40 minutos.

 

Tanto no aeroporto alemão, quanto no italiano, compramos vinhos. Imagina se perderíamos a chance. Uma meia dúzia de garrafas no total, afinal de contas, no dia seguinte estreiaríamos nossa vinoteca. Aqui, por motivos óbvios, é mais fácil e mais em conta comprarmos vinhos espanhóis. Eu gosto, mas também gosto de variar. Vinhos e gastronomia são prazeres que Luiz e eu temos em comum, acho que é nosso luxo. Não somos muito consumistas com outras coisas, esse é nosso fraco.

 

No aeroporto de Roma, recebemos uma mensagem da amiga que ficou aqui em casa com o Jack. Pedia que chegássemos com fome. Então tá, né? A figuraça fez almoço, sobremesa e prendeu faixas de papel de boas vindas! Pode? Muito bom ser mimada, adoro, nem faço doce.

 

E é isso, agora preciso segurar a onda porque no fim do mês vamos a Paris. Daí já viu, outro chute no balde! Meu plano malévolo é fazer um workshop culinário, será que rola?

E aí, colocamos ordem no barraco?

Pois então, vamos por partes. Depois da feijoada, a casa tinha uma boa energia. É sempre uma pena não poder chamar todo mundo, mas a gente faz o que pode. O legal é que alguns amigos sairam daqui com vontade de dar festa também, acho que é contagioso.

 

Faxinão na casa, incensos cheirosos comprados em um árabe de Granada, cada coisa indo para seu lugar. Congelador e geladeira liberados, doidinhos para serem novamente recheados. Semana tranquila, de arrumação.

 

Fomos fazer compras, Luiz se animou e comprou uma adega. A gente vem adiando essa compra há anos e nem é nada demais. Simplesmente, uma geladeira pequena para vinhos. Com tanto arruma de cá, arruma de lá, vagou espaço para ela. A propósito, nosso novo brinquedo chegou hoje, mais ou menos após uma semana.

 

Tudo muito bom, tudo muito bem, fomos a um churrasco na casa de amigos no sábado. Domingo, morgação.

 

Segunda-feira, Luiz viajou bem cedo a trabalho para Barcelona. Fiquei fazendo hora na cama até mais tarde, acordo e vou abrir meu e-mail. Meu pai na UTI outra vez, entrou no domingo à noite. Cassilda!

 

Respirei fundo e fiquei fazendo hora para ligar para o Brasil, são 5 horas de diferença de fuso. Enquanto isso, toco a limpar casa para ocupar a cabeça. Na boa, acho que desinfetei tudo! Dava para literalmente comer no chão!

 

Finalmente, consegui ter notícias. Eram preocupantes, mas não pareciam gravíssimas, melhor aguardar. Ele teve novamente uma infecção urinária. Pelo que entendi, é relativamente normal, porque toda a medicação para o câncer na bexiga é tomado via sonda, daí fica propício a infecções. Mas pelo histórico dele, é sempre conveniente ficar sob uma maior atenção no início para que a coisa não se complique.

 

Na terça-feira, esperávamos um hóspede e na quinta, tínhamos passagens compradas para Munique. Que faço? Resolvi não fazer nada e monitorar os acontecimentos.

 

No dia seguinte, acordei na expectativa que meu pai tivesse alta da UTI, o que seria bastante tranquilizador. Notícia que chegou por volta das 15:00hs daqui. Ótimo, porque quando nosso hóspede chegou, pouco antes do Luiz, já estava mais tranquila e otimista. E sorte a deles, porque enquanto precisava esperar, não queria sair de casa e precisava fazer alguma coisa para o tempo passar logo. Resultado, cozinhei para um exército!

 

Beleza, na quarta-feira soubemos que meu pai não só teve alta da UTI, como não precisou passar pela semi-intensiva, foi direto para o quarto. Isso era um bom sinal. Tinha expectativa de ir para casa entre quinta e sexta-feira.

 

Ok, então resolvemos manter a viagem para a Alemanha.

 

De quarta para quinta, veio uma amiga aqui para casa para ficar com o Jack enquanto viajávamos. Ela está se separando do marido e é uma situação bem complicadinha. De maneira, que era conveniente para todos nós que ela dormisse aqui.

 

Na quinta, o relógio tocou às 3:30 da matina. Sim, nosso vôo decolava às 6:00hs. Claro que não dormi bosta nenhuma durante à noite e ainda nos aguardava uma pequena escala de 7 horas no aeroporto de Roma. Queria matar o Luiz! Tudo bem que as passagens nos saíram de graça por milhagem, mas foi praticamente como injeção na testa!

 

Um frio do cacete! Alguém me explica como a gente sai de um calor de 30 graus para um frio de 8? Porque em Madri é assim. Será que deveria viajar mesmo? E se desse merda no Brasil? E se não desse? Ta-quiu-pariu!

 

Tudo bem, Bianca, respira cachorrinho, se acalma, tudo vai dar certo, relaxa!

 

No aeroporto de Barajas, descobrimos que havia um vôo antes em Roma, saindo às 9:00hs. Seria meio corrido, mas talvez nos desse tempo. Não quis me estressar muito com isso, mas não custava tentar.

 

Chegamos a tempo, saímos esbaforidos para um balcão da Alitalia, mas como era milhagem da Delta, não podia ser trocado, mesmo havendo lugar de sobra no avião. Ninguém merece!

 

Quer saber? Estamos aqui mesmo, chegamos cedo, vamos tentar aproveitar. Nos informamos se havia como ir de trem para o centro da cidade. Havia e só levava meia hora. É porque os taxistas romanos são muito bandalheiros e me irrita!

 

Troquei um SMS com minha mãe, meu pai estava bem, com possibilidade de alta naquele mesmo dia. Yes!

 

Deixamos a bagagem no aeroporto, pegamos um trem e lá fomos nós para o centro de Roma. Passeamos um bom trecho a pé e sentamos na Piazza Navona para almoçar. Era cedo, mas pela hora que havíamos acordado, estava com a maior fome.

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Na própria Piazza Navona, na embaixada do Brasil, estavam montado uma exposição em homenagem ao Ayrton Senna. A gente até conseguiu ver alguns carros chegando.

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E aí, tomamos um vinho? Porque não. Luiz tem uma excelente qualidade masculina, não é mesquinho. Eu odeio gente mesquinha! E, sinto muito pelo sexismo, mas homem mesquinho ainda é pior! Pois muito bem, olha a carta daqui, olha de lá, quer saber, estamos almoçando em Roma, não pagamos um centavo de passagem, que tal um Barolo?

 

Perguntar para mim se quero um Barolo? Macaco, quer banana?

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No fim das contas, até que já não estava achando nada mal aquela conexão em Roma. Por outro lado, depois de uma noite não dormida, um jet lag básico e uma garrafa de vinho, minha habilidade de raciocínio estava bastante resumida. Fora que parecia uma míope sem óculos em movimentos lentos e programados, o que não seria nenhum problema se não tivéssemos que voltar para o aeroporto e pegar mais um vôo.

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Lá fomos nós! Chegamos a tempo no aeroporto e não precisamos esperar muito. Não consigo dormir no avião, mas desconfio que babei um pouco.

 

No aeroporto de Munique, nosso amigo foi nos encontrar e seguimos de trem para a casa deles. Minha amiga estava fazendo jantar, um couscous marroquino.

 

Na estação do metrô que saltamos, a maior chuva. Tentamos ligar para nossa amiga vir nos buscar e nada dela atender o telefone. Tudo bem, já deu tudo certo hoje, não temos do que reclamar, pegaremos um pouco de chuva.

 

Começamos a caminhar e escutei uma buzina insistente, olhei na rua e não vi nada. Continuou, olhei outra vez e nada. Nosso amigo alemão, ignorando a buzina, seguia rápido para casa. Até que de repente, vem um carro a toda pela calçada, atrás da gente, buzinando. Pensei, não é possível, um alemão não faria isso, tem que ser ela! Luiz e eu a reconhecemos e tentamos avisar ao seu marido, que não acreditava e continuava seguindo para casa. A gente já estava dentro do carro quando ele resolveu aceitar que era mesmo a sua esposa! Foi engraçado e o melhor, não nos molhamos. Achei até romântico aquele carro buzinando a toda velocidade em uma calçada (alemã) para nos dar uma carona!

 

Na mesa do jantar, outro recado no celular, meu pai recebeu alta e estava chegando em casa. Beleza, acho que agora dá para relaxar e curtir bem a viagem.

 

Mais uma garrafa de espumante alemão rosé, que aliás, foi a primeira vez que tomei e achei interessante, combinou com o prato. Em seguida, mais duas garrafas de um riesling. Um couscous ótimo, um bolo de chocolate… e uma maca por favor!

 

Vamos combinar, café da manhã em Madri, almoço em Roma e jantar em Munich, isso é globalização!

 

Pelas 22hs havia perdido minha capacidade de comunicação em qualquer idioma. Capotei.

 

E como foi em Munique? Foi ótimo, conto na próxima.

Como andar de bicicleta

 

 

Festeiro que se preze não perde a mão. É como andar de bicicleta, você dá as primeiras pedaladas e o resto sai naturalmente. 

Intervalo nos problemas pessoais e mundiais, crises que esperem um pouquinho, porque tradição é tradição, e em setembro aqui em casa tem feijoada! E tem que ser completa!

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Fizemos novamente o abadá, distribuído logo na chegada. Deixei disponível tesoura para quem quisesse personalizar o seu. A maioria das meninas optou por modificar a camiseta. Bom, sou zero à esquerda com qualquer coisa parecida à costura, mas uma amiga me ajudou com o meu e com o de outras convidadas.

Estampa da camiseta 2009

Estampa da camiseta 2009

 

Foram 5 kgs de feijão preto, 2 pacotes de arroz, 3 kgs de farinha, 9 bolsas de acelga (para fazer a falsa couve), 3 kgs de laranja e duas gavetas do congelador em carnes variadas. Uma semana na cozinha, fazendo aos poucos e congelando. O feijão, foi feito na véspera e refogado no dia. Nada de panela de pressão, feijão sem pressa, cozido devagarinho com cada carne ao seu tempo. 

Quanto às sobremesas, uma amiga veio dormir aqui em casa desde quinta-feira e fez pudim, mousse de limão, torta alemã, pavê e um bolo maravilhoso com o símbolo do flamengo (ela é vascaína, fazer o que? Ninguém é perfeito e promessa é dívida!). Outra amiga trouxe um creme de abacaxi.

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Enquanto o pessoal chegava, servimos frutos secos, linguicinhas, azeitonas, queijo e batata frita. Nada demais, porque vamos combinar, não faltava comida, né?

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De bebida, foram 130 latas de cerveja, 9 garrafas de cachaça, 1 garrafa de vodka, ½ garrafa de rum, 20 lts de refrigerante, resfriados em 35 bolsas de gelo. Colocamos instruções para a caipirinha self service e o pessoal se virou. Da próxima vez, melhor ter mais cerveja, não faltou, mas não sobrou.

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Os pratos e talheres foram descartáveis, sinto muito. Pessoalmente, detesto coisas de plástico, mas com 40 amigos presentes, ficava impossível ser diferente. 

Muito bem, o fato é que 85% do meu trabalho é antes dos convidados chegarem. Na hora da festa, relaxo e curto. Alguma coisa sempre tem para fazer, mas para ser sincera, gosto de ter funções ou atividades. Até servir a comida, cuidei da festa, a partir daí, todos já estavam à vontade e com intimidade suficiente para que o barco seguisse sozinho. 

Depois do almoço, começou a música ao vivo e lá fui eu para o meio deles batucar. Imagina se vou perder essa oportunidade? Agarrei meu djembe e fui para o meio dos percussionistas tentar aprender por osmose. Não sei como raios estava tocando, mas estava me sentindo a própria! De vez em quando, precisava me lembrar que era a dona da casa e ia atender alguém. Claro que outra pessoa se apoderava do instrumento e eu ficava marcando sob pressão com cara de cachorro magro até recuperá-lo de volta.

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... fui ao ar, perdi o lugar! :P
... fui ao ar, perdi o lugar! 😛

Lá pelas tantas, achei que já havia saído muita bebida e que ainda tinha gente que dirigiria para casa. Brilhante idéia, vou esquentar a feijoada outra vez! E lá foi o caldo de feijão na cumbuca! 

Mais ou menos pela meia noite, os últimos convidados se foram. Nossa amiga que dormiu aqui em casa ajudou com a louça, Luiz com a arrumação e o lixo, passei pano na casa e fomos dormir com tudo resolvido. 

Acordei tarde, nem vi minha amiga sair. Ficamos morgando o domingo inteiro. Havia planejado fazer um jantar especial só para Luiz e eu, e tomarmos um Pera Manca, que estava reservado para seu aniversário. Imagina se a gente aguentou? Claro que não! Essa semana, quando a feijoada estiver devidamente expulsa desse corpito, dou uma caprichada.

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Uma feijoada para quebrar o jejum

Continuo meio ostra, mas o calendário não se baseia no nosso estado de humor e chegou setembro, mês da tradicional feijoada do Luiz.

 

A gente se prometeu que não ia chamar tanta gente, foi a mesma escolha de sofia de sempre, mesmo assim, ficou impossível reduzir a lista para menos de 40 pessoas. Para ser sincera, havia pelo menos mais umas 20 que queríamos chamar, mas chegamos a conclusão que não iam caber. Ano passado vieram pouco mais de 50 amigos e tínhamos 2 sofás a mais.

 

E lá fui eu cozinhar para o exército!

 

Acontece que já gosto de esquentar o umbigo no fogão e, no final das contas, o trabalho compensa. Levo uma semana cozinhando para que não fique muito pesado fazer de uma vez só. O arroz e a falsa couve estão congelados, a farofa também está pronta, as carnes, devidamente contrabandeadas, estão desalgadas e vão para o fogo daqui a pouco com a estrela da festa, o feijão.

 

Uma amiga veio me ajudar com as sobremesas, parte que é mais complicada para mim, que não consigo seguir receitas, não dá para fazer doces de olho. Ela está fazendo bolo, pudim, pavê e torta alemã, nesse momento inclusive, fui expulsa da cozinha. Daqui a pouco é minha vez.

 

E sabe que me animei? Estou curtindo receber o pessoal e é bom quebrar o jejum das festas maiores.

 

Vem alguns amigos novos, grupos que ainda não se conhecem e mais espanhóis do que ano passado. Vamos ver no que dá, mas costuma dar certo. Nesse sentido, nossa casa é bem brasileira e adoramos uma mistura. Pessoalmente, acho legal misturar profissões, interesses, idades, caso contrário, corre-se o risco de virar festa institucional.

 

Bom, melhor voltar para o tronco que ainda faltam algumas coisas e a feijuca é amanhã.

Eu e a ostra

Estou ficando com medo do mês que vem. Será meu inferno astral dos fatídicos quarenta, coincidindo com entrada emblemática de outono e ausência depressiva de luz. Pior, em algum momento entrarei na TPM! Talvez seja prudente pedir ao Luiz que me amarre na cama para evitar que corte os pulsos!

 

Sério, andei pensando nisso. Estou tão preocupada sobre o que fazer da vida nos próximos anos, melhor me concentrar em como sobreviverei no mês seguinte!

 

Para começar, estou uma ostra. Saio o mínimo possível, falo o mínimo possível. Poderia também comer o mínimo possível, mas nessa parte infelizmente continuo a mesma gulosa.

 

Assistir DVD no ar condicionado tem me parecido um pro-gra-ma-ço! Ler um livro então, o cúmulo da aventura! Não me lembro mais quando a gente deu a última festa. Agora, só reuniões com um ou dois casais. Isso pode parecer normal para muita gente, mas posso afirmar que para mim não é!

 

Será que estou mudando ou será apenas uma fase? Porque o que mais me assusta é o fato de estar bastante confortável assim. Isso pode ser grave! Até me auto analisei para saber se estou deprimida, mas cheguei a conclusão que era procurar pêlo em ovo, não estou deprimida. Pelo contrário, acho que os problemas mais sérios que enfrento hoje estão se resolvendo, de uma maneira ou de outra.

 

Passei a me preocupar mais com a saúde. Acho até que já me cuidava, mas isso vem ganhando prioridade. Em parte, pode ser pela péssima condição médica espanhola, mas sinto que vai além disso. Estou mais sensível aos problemas do mundo, as coisas me doem mais, levo mais tempo para me acalmar, fico arrasada e impressionada com a crueldade humana… Putz, os sintomas são claros: definitivamente, devo estar ficando velha! A diferença é que acreditava que a idade e experiência me fariam mais preparada para enfrentar o mal, digamos assim, mas na prática você tem mais consciência do tamanho que ele tem e isso é mais frustrante que encorajador.

 

Decidi que não vou fazer o Caminho de Santiago completo agora em outubro, por motivos diferentes aos que imaginava. Não tem nada a ver com a saúde do meu pai. Simplesmente, não está na hora. Engraçado porque tomei a decisão definitiva com a chegada de uma amiga do mesmo Caminho, me fez pensar que ele está lá e não sairá de lá. Do mesmo jeito que aprendi a decifrar os sinais de quando preciso ir, também estou percebendo quando não tem que ser. Nesse momento, o que preciso aprender e resolver está onde estou e vai para onde eu for.

 

Não quer dizer que ficarei em Madri, já tenho duas viagens planejadas. Uma para Munich, onde finalmente conseguirei participar da Oktoberfest. Que a propósito, é em setembro e não em outubro. E outra para Paris (ah… Paris…). Ambas viagens serão curtas, mas estou com muita vontade de ir. Na segunda, tentarei fazer algum curso de culinária, tenho buscado pela internet, mas ainda não encontrei nenhum que casasse datas e interesses.

 

Ou seja, setembro não me parece nada mal e o tempo está bem preenchido. Isso sem falar do aniversário do Luiz, que é esse fim de semana.

 

Depois vem o buraco negro de outubro, que nem quero pensar agora. E finalmente, novembro, quando as coisas parecem que irão melhorar.

 

Após quase cinco anos morando na Espanha, foi aprovada e regulamentada a validação da carteira de motorista brasileira. Como não precisava de carro, na verdade, seria uma trabalheira e um custo desnecessário, não tirei carteira novamente aqui. Mas agora com a validação, resolvi fazer a minha. Ficou marcado para o início de novembro, não havia data antes, será praticamente um presente de aniversário. Não me importava muito não ter a carteira aqui, mas agora que sei que poderei, me animei toda.

 

Luiz também se informou que na próxima renovação do NIE, que será nosso visto de residência permanente, independente da condição anterior, passo a ter direito ao visto de trabalho.

 

Não vou negar que a possibilidade de novamente possuir dois documentos com direitos fundamentais importantes é uma cenoura e tanto! Dá até medo ter expectativas porque já me frustrei um bocado com isso, mas agora está tão perto que talvez não seja ruim acreditar um pouco.

Bolo individual na xícara – rápido e fácil

Até o presente momento, porque isso sempre pode mudar, gosto de cozinhar comidas salgadas. Doces são sempre meu fraco por um motivo muito simples, a grande maioria você precisa seguir uma receita ou a coisa não vai funcionar.

Uma vez, por acaso, experimentei bater um ovo e colocar no microondas e ele cresceu como um soufflé. Pensei, puxa, podia fazer um bolo assim. Fui para internet procurar se alguém havia tido essa idéia e felizmente, sim. Há algumas receitas disponíveis, gosto dessa:

Ingredientes:

– 1 ovo

– 3 colheres sopa de farinha de trigo

– 1 colher café de fermento em pó

– 3 colheres sopa de chocolate em pó

– 2 colheres sopa de açúcar

– 5 colheres sopa de leite

– 1 colher café de óleo

Modo de Fazer:

– bater o ovo com um garfo

– acrescentar o óleo e o leite, misturar

– acrescentar o açúcar e o chocolate, misturar

– acrescentar a farinha e o fermento, misturar até incorporar

– colocar toda a mistura em uma xícara de, no mínimo, 250 ml e levá-la diretamente ao microondas. O bolo é servido nessa própria xícara.

– 3 minutos no microondas na potência máxima

– dica: não é necessário, mas gosto de untar a xícara com manteiga

Blue Eyed – O melhor documentário que já vi

Há cerca de uns 10 anos, morávamos ainda em São Paulo, vi um documentário que me pareceu, ao mesmo tempo, devastador e extraordinário. Devastador por tratar de um tema complicado, o racismo. Na verdade, por extensão, acaba tratando de diferenças, de preconceito de uma maneira geral, machismo, nazismo e outros “ismos”. E extraordinário, porque foi capaz de mudar minha percepção e atitude imediatamente.

 

Depois de tanto tempo, Luiz conseguiu o mesmo documentário através de um amigo. Ontem, o assisti mais uma vez e me chocou igualmente, ainda que soubesse o que seria dito. Agora, além de mais 10 anos de vivência, adicionei as lentes de imigrante, que mesmo não se chamando imigrantismo, traz também essa carga de preconceito e toda a maneira que a gente se comporta com ele. Não somos nada originais.

 

Difícil reproduzir seu conteúdo, reconheço minha incapacidade de passar os detalhes e me dá pena ver algo tão importante virar apenas um texto. Vou tentar, mas realmente recomendo quem possa buscar o documentário original e assistí-lo. No Brasil, sei que passou pela GNT, se chama Blue Eyed. No Youtube, se pode encontrar trechos e referências sobre a experiência de Jane Elliot.

 

Jane Elliot era professora da 3a. Série nos EUA quando Martin Luther King foi assassinado, ou seja, estamos falando de 1968. Muito bem, ela buscou uma maneira de explicar para as crianças brancas o que era racismo e chegou a conclusão que a melhor maneira seria que elas sentissem na pele a experiência. Desenvolveu um exercício que dividia a turma em “olhos azuis” e “olhos castanhos”. No primeiro dia, os “olhos azuis” eram melhores e tinham todo o tipo de benefícios; no dia seguinte se invertia. O resultado, melhor assistir.

É preciso muita coragem para expor as crianças a tamanha crueldade. Em um primeiro momento, imaginei se fosse uma mãe como reagiria. Ao mesmo tempo, pensei que era um exercício temporário e controlado, muito duro, mas algo a ser suportado por um único dia. Sorte a delas, porque as crianças negras suportariam (ou suportam) por anos. Há sensações que podemos ter alguma idéia, mas é impossível realmente entender até calçar seus sapatos.

 

Pois bem, imaginem essa experiência nos EUA dos anos 70, ainda por cima com crianças! A reação foi violenta. O louco e ao mesmo tempo previsível, é que a retaliação não era feita diretamente à Jane, e sim contra sua família. A propósito, ela é branca e de olhos azuis.

 

Ela não parou, felizmente, hoje realiza workshops com adultos e é quase engraçado como se comportam de maneira muito parecida às crianças. É impressionante como ela é capaz de arrasar com a auto estima de adultos barbados em alguns segundos. O assustador é que não é violenta, é uma senhora, simplesmente utiliza mensagens que soam bastante familiares, mas que provavelmente nunca paramos para pensar na avalanche de efeitos em outras pessoas.

 

Daí pensamos, mas eu não faço isso ou não penso assim. A questão é, ok, talvez não, mas o que fazemos a respeito? Um dos pontos que ela coloca é que basta a omissão dos bons para que o mal se perpetue. Uma verdade tremenda! Quantas pessoas que não se consideram preconceituosas sorriem diante a uma piada racista? Para não serem antipáticas? Quantas mulheres contam piadas de loira? Mesmo sabendo que no fundo estão se chamando de burras. Quantos absurdos a gente escuta e aceita com muito pouco ou nenhum questionamento, às vezes repete!

 

Olha que exemplo interessante, dessa vez em relação à imigração. Aqui, uma vez escutei que a reação espanhola aos imigrantes se devia ao fato de ser uma coisa nova, eles não estavam acostumados a conviver com gente de outra cor ou de outras culturas, e que esse processo de adaptação leva um tempo mesmo, é normal. Juro, a primeira vez que escutei isso achei muito razoável! Aceitei. Até que depois escutei mais meia dúzia repetir, e ouvi na televisão, e ouvi da boca de amigos brasileiros… Caraca! O mal já havia se propagado com uma rapidez impressionante, e o que é pior, através da boca de gente boa e que não era preconceituosa. Veja bem, o preconceito na Espanha contra os imigrantes não é ruim, é só porque não estamos acostumados! Ah, bom, então enquanto a gente se acostuma, eles que se mantenham em seu lugar. E assim, a gente se acostuma com eles, mas em outro lugar.

 

Um detalhe, se resolver entrar nessa discussão, pode esperar o chavão clássico seguinte: se não está satisfeito aqui, por que não volta para seu país? Esse para mim é especialmente interessante, porque saiu da minha boca algumas vezes quando decidimos morar fora do Brasil. Caramba, como já mudei a maneira de pensar!

 

Vamos combinar uma coisa, uma imensa maioria de imigrantes hoje legais na Espanha já estavam no país antes, simplesmente eram ilegais. A falta de direitos os deixava invisíveis? O espanhol só percebeu que eles estavam aqui depois da legalização? Eles trocaram a cor da pele ou mudaram o sotaque depois? Ui, tem um negro do meu lado! Como ele é diferente, não tinha notado… Ah, vá a merda, né? Não parece um pouquinho conveniente? O argumento sobre o processo de adaptação é verdadeiro? Claro que sim, em parte. O problema é que existe uma série de aberrações e mentiras pregadas com partes de verdade. Isso acontece só na Espanha? Claro que não, é só outro exemplo. Acontece em qualquer país, no trabalho, na sua casa e na minha também.

 

Não estou segura se sei o que fazer, mas não fazer nada parece ser uma péssima opção. Um outro questionamento que a Jane lança é sobre um pastor luterano que, na época do nazismo alemão, diz algo como “primeiro eles vieram atrás dos judeus, não fiz nada, não era judeu. Depois vieram atrás dos homossexuais, não fiz nada, não era homossexual. Depois vieram atrás dos ciganos, não fiz nada, não era cigano. Um dia vieram atrás de mim e não havia ninguém para me ajudar”.

 

O poder está nas mãos de muito poucos e é bem provável que não seja nas suas. Portanto, melhor pensar duas vezes com quem se aliar e no custo de nunca ajudar. E muito cuidado, ajudar não é infantilizar, não é fazer caridade. As pessoas respondem de acordo como são tratadas.

 

Um pouco de esperança também, porque havia um detalhe no documentário que me pareceu uma luz no fim do tunel. Um dos participantes se sente impotente e em dúvida sobre a possibilidade de se mudar uma realidade injusta. Bom, naquele dia as pessoas mudaram suas percepções, eu mudei, Luiz mudou, portanto é possível.

 

E olha que interessante, acredito que isso fosse por volta de 1996, porque se falava na candidatura do Colin Powell. A Jane questiona se os EUA estavam preparados para eleger um presidente negro e uma vice-presidente mulher, e parecia impossível!

 

Pois é, parecia.

PS: Esse é um pequeno trecho do documentário, quem se interessar, sugiro assistir até o final. As outras partes também se encontram no Youtube.

Mundo pequeno de encontros e desencontros

Tivemos hóspede nos últimos dois dias, um amigo francês que morou muitos anos no Brasil.

 

Nos conhecemos em Paris, depois de uma trajetória interessante. Quando morávamos em São Paulo, ele era amigo próximo da nossa família paulista, mas já havia se mudado de lá. Acontece que não havia um jantar (e olha que foram muitos!) que nós estivéssemos na casa desses amigos em comum que seu nome não fosse citado de alguma maneira.

 

Um dia, falei brincando, gente não é possível, essa pessoa existe mesmo? Porque ele parece uma entidade! Nunca está pessoalmente, mas sempre está entre nós! Estava começando a acreditar que ele era meu amigo também e nunca o havia visto!

 

Um belo dia, fomos de férias para a França, passar um mês rodando de carro pelo país. Levamos seu telefone para nos encontrar por lá. Não me lembro que raios aconteceu, mas a gente se desencontrou em Paris. Entretanto, nos falamos por toda a viagem por celular, com ele nos dando dicas ótimas de onde jantar, o que fazer etc. Ou seja, deixou de ser uma entidade para ser uma voz!

 

Trocamos e-mails, telefones, sempre sabíamos notícias uns dos outros através dos amigos paulistas. Mas pessoalmente que é bom, nada!

 

Finalmente, deve ter uns dois ou três anos, nos encontramos em Paris. Uma felicidade, porque estava começando a imaginar que ele era o Charlie das Panteras ou algum espião internacional! Brincadeiras a parte, nos demos bem, talvez porque já fôssemos amigos por osmose.

 

Muito bem, o mundo dá muitas voltas e a filha dele veio morar onde? Em Madri, é claro! Consequentemente, ele quis vir até aqui para encontrá-la e queria nos apresentar. Nós, que já gostamos de conhecer gente, topamos logo e oferecemos para ele ficar aqui em casa se quisesse.

 

Como não poderia deixar de ser, isso foi há meses! Toda vez havia algum imprevisto e a viagem era adiada. Quando estávamos viajando de férias agora para Andalucía, ele telefonou. Ai, meu deus, não estou acreditando que ele irá para Madri conosco viajando! Outra vez, isso parece piada! Mas não, era só para confirmar a data, que felizmente, já estaríamos de volta.

 

No final, deu certo e foi bastante divertido. Conhecemos sua filha, e acabou rolando a maior afinidade também, tudo indica que seguiremos a nos encontrar. Olha que engraçado, ela vai trabalhar literalmente atrás da rua onde moramos!

 

Pontos em comum? Um que, hoje em dia, é primordial para que uma amizade floreça: gostar de comer bem! Não preciso nem dizer que chutamos todos os baldes, né? Gastronômicos e etílicos!

 

Resultado, estou me programando para ir com Luiz até Paris em outubro, comer um prometidíssimo foie gras definitivo! Na verdade, tenho certeza que foram prometidas outras iguarias que adoro, mas depois da quinta garrafa de vinho, não consigo me lembrar mais quais eram!

Língua ferina e politicamente incorreta

Quem fala o que quer, ouve o que não quer, já diz o ditado. Um ditado bastante verdadeiro, no meu entender. Eu não gosto de ouvir qualquer coisa, e portanto, fui aprendendo a segurar um pouco a minha onda. Nem sempre consigo, pelo menos tento. Mas, às vezes, fico pensando onde está o limite entre o respeito e a omissão.

Sorte ter um blog, me dá a oportunidade de colocar quase tudo para fora sem grandes censuras, pelo menos que tenha consciência, porque nossas verdades podem ser bastante seletivas. Conto a verdade que lembro ou interpreto, mas sempre há muitos lados inaceitáveis em sã consciência.

Noto que cada vez mais penso duas vezes em escrever ou dizer alguma coisa e não tenho certeza se é por respeito ou por falta de vontade em comprar uma briga. Sou boa em brigas, ou acho que fui um dia, a raiva me deixa forte pacas, diferente do que se prega. Não me lembro em que momento cansei delas e me bate a dúvida se foi maturidade ou descrença que me levassem a algum lugar. Ou talvez duvide que seja mesmo tão forte assim. É mais agradável acreditar que foi sabedoria.

E por que tenho que dar minha opinião? Por que quero tanto entender gente? Por que vivo na eterna incoerência de saborear a ignorância, adorar o sabor que tem, e mesmo assim não conseguir provar o prato pela segunda vez.

No ano passado aconteceu algo incrível, tomei fôlego de otimismo, coragem e apostei no futuro e nas pessoas. Na verdade, foi ao contrário, tomei a decisão que apesar dos pesares, tentaria ser mãe. E acho que essa realidade só era aceitável em um mundo melhor. Portanto, resolvi ver o melhor do mundo.

Minhas opiniões não mudaram, continuei achando mulher grávida horrorosa. Essa sensação que a mulherada descreve de ter uma vida dentro e tal, para mim é como ter um alien que explodirá a qualquer momento. Acho parto natural uma selvageria, mil vezes as drogas fortes e uma cesariana. Amamentação me dá nervoso. Detesto quando minhas amigas resolvem amamentar muito à vontade na minha frente, preciso fixar meus olhos no horizonte! Acho que trocar fralda deve ser insuportável, nunca troquei nenhuma na vida! Não gosto de acordar cedo. Não quero perder a prioridade para sempre.

Seria capaz de passar por cima de tudo isso? Seria. E não acho que seria uma mãe ruim.

Mas quando não é para ser, não é e pronto. Não vou carregar mais comigo a culpa e a dúvida de nunca haver tentado. Isso é um alívio.

A questão é, que da mesma maneira que o mundo precisou ficar melhor antes, agora não precisa mais. O mundo é o que é, as pessoas são o que são. Eu também não sou toda boa e ando bastante amarga, mas não estou triste. Talvez tenha cansado de forjar minha natureza. Nesse momento, ser uma pessoa melhor não me leva a lugar nenhum.

Pode ser a crise dos 40, que não é exatamente uma crise, mas um momento, um marco. Você tem conhecimento e maturidade suficiente para arrancar, teoricamente ainda tem saúde e tempo, mas também tem a consciência que se não for agora, dificilmente será depois ou será bem mais difícil depois. E para que lado eu arranco?

Sei um monte de coisas, aprendi um monte de coisas, vivi um monte de coisas, o que faço com tudo isso agora? Eu sei que o importante do caminho é o trajeto, mas não compensa caminhar a esmo.

Tenho pensado seriamente em voltar para negócios. O foda é esse verbo, voltar. Tem um sabor estranho e contraditório, porque por um lado, me dá uma meta, alguma coisa que sei fazer, ou acho que sei. Por outro lado, é como se decidisse jogar a toalha, admitir que a vida é essa, não há outros caminhos, sonhos são bobos. E talvez sejam. Eu sei que se despertar a konga, mulher gorila, vai ser complicado controlá-la outra vez.

Posso tentar algo novo, sempre posso tentar, mas tudo tem seu preço e risco.

Posso continuar igualzinha, minha vida não é ruim. Não se pode dizer que não aproveito. Pois até nisso notei diferença. Ando mais seletiva, desconfiada. Não sou cega nem ingênua, sabia dos problemas antes, mas estava tão tranquila no meu escudo protetor que relevava. Repito sempre que o melhor amuleto que uma pessoa pode levar é a crença que nada de mau pode acontecer.

Meu círculo social está se alterando, levei um tempo para entender o que me incomodava. Existe um problema sério com grupos, um ciclo cruel e repetitivo. No primeiro momento, as pessoas se juntam por objetivos comuns, é aconchegante e divertido. Logo, sentem a necessidade de garantir seu status quo e se protegem. E aí é que mora o perigo, é muito comum que essa proteção seja feita por exclusão. Esse é o berço do preconceito. Não posso aceitar essa postura, é humana, mas não quero ser conivente. Se acho que as pessoas fazem isso em plena consciência? Nem sempre, mas não importa, o resultado é o mesmo, ainda que a intenção não seja.

E será que também não excluo? Será que também não sou preconceituosa? Eu sei que sou cruel, mas não sei qual é o meu limite. Sei que não sou psicopata porque sinto empatia, me arrependo. Perdôo, ainda que por egoísmo. O que me faz mais humana, errar ou acertar?

Por que insistimos em organizar um mundo que parece completamente fora de ordem?

Saúde em Madri (ou a falta dela)

Aprendi a não confundir longevidade com saúde pública. As pessoas aqui vivem mais porque ficam menos doentes e não porque os médicos sejam bons.

 

Há duas questões principais, uma é cultural, mas a outra, vai me desculpar, é falta de conhecimento mesmo.

 

A cultural eu tolero, porque não há outra maneira, mas não se justifica. Essa lógica literal e restrita, até aceito. Mas quando as pessoas se sentem o máximo em suas conclusões pequenas, realmente me irrita. E ainda te tratam como se fosse você que não tivesse entendido bem, sem perceber que você já seguiu a larga distância.

 

Se você se intimidou daí, se ferrou, mas se cutucar um pouco mais e começar a questionar, descobre que muitas vezes esse pseudo mau humor e firmeza escondem uma tremenda falta de visão. Não sabem a resposta? Falam bem alto e  firme o que sabem (ou acham que sabem), mesmo que seja o óbvio e não tenha a ver com o que você precise. O problema é que esse comportamento, que pode ser engraçadinho em um bar, se repete nos hospitais, e isso é inaceitável!

 

Já contei o absurdo que foi o atendimento ao meu pai em três hospitais madrileños diferentes e “bem conceituados” por essas bandas. Cheguei ao cúmulo de optar por levar um senhor de 70 anos, que acabou de ter um AVC e uma arritmia cardíaca, em um vôo de 10 horas para o Brasil. Sabe o que é pior? Provavelmente, foi o que salvou a vida dele.

 

Contei também sobre meus dois cistos que a médica sugeriu observar e esperar crescer. Que a propósito, eram cinco! Tive que extrair e fazer a biopsia no Rio.

 

Contei das minhas amigas que pariram? Porque sinto muito, dessa maneira medieval ninguém dá a luz, é parido mesmo. Depois das trinta horas em trabalho de parto, nenhuma recebeu uma gota de anestesia. Claro, quanto mais procedimentos, mais possibilidade de erro, a mãe que sinta dor, depois passa. A suturada foi a seco, afinal de contas, o parto era “natural”. A parte da sutura foi causada por rasgo e não por um corte. As mulheres morrem de parto? Não. Mas honestamente, precisam passar por esse sofrimento todo?

 

O filho de uma amiga, que deve ter por volta de uns 5 anos, quando foi internado tinha uma ou duas horas de visita ao dia. A mãe não podia ficar com ele. Você não pode ficar com o paciente, independente da idade que ele tenha. Melhor assim, menos gente testemunhando a quantidade de aberrações que devem acontecer lá dentro!

 

Dor aqui é frescura. Há uma forma de fazer as coisas, a de toda la vida! Se o mundo evoluiu e tem milhões de outras alternativas, francamente, vai dar muito mais trabalho!

 

Se gabam de tratar igual a todos. Eu acho esse negócio de igualdade uma bela porcaria que a gente traga há séculos. Nada é mais injusto e autoritário que tratar igualmente a pessoas diferentes. É tudo muito padronizado, só que por baixo.

 

Minha última experiência foi hoje mesmo, na ginecologista, a quinta médica que tento. O mau atendimento já não me atinge, não saio mais do consultório me sentindo uma idiota, mas também não escuto mais chorradas calada. Agora respondo cinicamente, e quanto mais ela completa a frase com um “vale? “, com aquele tom de pode-ir-logo-que-tenho-outras-pacientes, putz, aí é que me dá vontade de perguntar coisas. Se alguém tem que se irritar por aqui, então seremos as duas.

 

Para quem tem paciência, o diálogo foi mais ou menos assim:

 

_ Os exames estão todos bem.

 

Achei que fosse uma maneira positiva de começar a frase, legal. Mas não, era a conclusão. Tudo que ela tinha para me dizer de um hemograma completo (o qual fui eu que pedi e incluí um TSH), preventivo (com um mioma de 10mm), mamografia e ecografia (com cistos) foi… bem.

 

_ Vale? (me mandando embora, claro)

 

Não, não vale. Não estou esperando um mês essa bosta dessa consulta para alguém me dizer “bem”? Isso sei ler!

 

_ Então, não apareceu nenhum cisto? Perguntei.

_ Ah, um ou outro é normal.

_ …

 

Lendo a mamografia, constava que não havia alterações em relação à do ano anterior. Muito bem, alguém me explica como depois de tirar cinco quistos não havia nenhuma alteração?

 

Mas vamos seguir com a conversa que vai ficando cada vez mais divertida.

 

_ Parei de tomar anticoncepcionais porque pensava engravidar, mas estou na dúvida, e se quiser voltar a tomá-los, queria conhecer as opções.

_ Pílula, anel e parches. Vale?

_ Não passo bem com pílulas, o melhor para mim é a injeção depo provera, mas…

_ Isso aqui na Espanha não é assim!

 

Nossa, eu amo de paixão essa frase! Ela é sempre repetida em tom de orgulho, como alguém que está te ensinando alguma coisa. Você não sabe nada, aqui na Espanha ninguém faz assim! Nunca será possível novas invenções, evoluções, maneiras diferentes, a Espanha é diferente de todo o planeta!

 

Quer saber, vamos jogar um pouco?

 

_ … essa injeção mensal nós aqui não aplicamos.

_ É trimestral. Nos Estados Unidos e no Brasil é bem comum. Aqui na Espanha, uma médica espanhola me receitou, cheguei a comprá-la, só não continuei porque era complicada a aplicação.

_ Qual método afinal você quer?

_ Não sei, quero conhecer as opções.

_ Pílula, anel e parches. Vale? (vamos repetir essa frase com insistência, quem sabe funciona, né?)

_ Passo mal com a pílula, como disse. Aqui tentei a Cerazet porque era… (tentei dizer que era porque não tinha estrogêneo)

_ A Cerazet é para lactância…

_ Hein?

_ Aqui (na Espanha é claro) nós usamos para lactância…

_ Foi uma ginecologista espanhola quem me receitou.

_ Ah… bueno… pues… puede… mas não é boa no seu caso porque é só progesterona.

 

Pois é, cassilda! Isso que tentava explicar, é a merda do estrogêneo que me ferra! Mas enfim, também não queria continuar com a Cerazet mesmo, pelos meus próprios motivos, então, vamos continuar o jogo de quem se irrita primeiro.

 

_ E esse anel vaginal?

_ Um anel que se põe pela vagina. Vale? (me mandando embora outra vez)

 

Ah, bom! Agora ela tinha me explicado, porque pelo nome, anel vaginal, eu não tinha a menor idéia de em que orifício utilizá-lo! Puxa, que esclarecedor! Vai que confundo com um brinco?

 

Continuei impassível, juro. Mas também não me levantei nem fiz menção de quem ia embora. A atendente não se conteve e começou a me explicar, acho que ela não pensou, saiu pela boca. E verdade seja dita, era o que queria saber.

 

_ Se coloca como um tampão…

_ Tenho que tirar ou dissolve?

_ Não, você tira, dura 3 semanas…

_ É fácil para tirar?

_ É fácil…

 

De repente, a médica se interou que estava me consultando melhor com sua atendente. Só aí se deu ao trabalho de tirar um anel da gaveta e me mostrar.

 

_ Quer uma receita?

_ Não estou decidida se voltarei agora aos anticoncepcionais

_ A receita é válida por um ano, assim você não precisa voltar só para isso (olha o medo dela de me atender novamente! Mal sabia que já havia decidido há muito tempo que jamais seria minha médica! Mais fácil me consultar com a atendente!)

_ Então eu quero.

_ Vale?

 

Não, ainda não vale, você vai me aturar um pouco mais.

 

_ E se decidir engravidar?

_ Mas você não disse que desistiu?

_ Eu disse que tenho dúvidas.

 

Não tenho dúvidas. Daqui para frente era pirraça. Eu não disse a ela em nenhum momento que havia desistido e que eu saiba, qualquer médico na área de ginecologia e obstetrícia é, ou deveria ser, a favor que uma mulher engravidasse.

 

_ Na verdade, tenho um pouco de medo. Minha última médica me disse que simplesmente parasse com o anticoncepcional e ….

_ Tomasse ácido fólico (falamos juntas)

_ Pois é, me pareceu uma solução muito simples para uma mulher de 39 anos. Há riscos e alternativas…

_ Não, é assim dessa maneira (só faltou me dizer outra vez que na Espanha é assim). Não se pode simplesmente te virar de cabeça para baixo e sair um filho…

_ Certo, e também não há maneiras de saber se estou ovulando? Ou incentivar ovulação? Verificar se não tenho endometriose? (vamos combinar que você não está falando com alguém desinformado? Não me trate como retardada!)

_ Ah, bem, mas aí você precisaria ir a um centro especializado em fertilização…

_ Como assim? Você pode me indicar a um centro de fertilização? Isso é fertilização artificial ou em geral?

_ E tem mais, o plano de saúde não cobre tudo, esses exames são muito caros… (se não tenho argumentos, vamos tentar assustar pelo preço)

_ Não é um problema para mim, posso pagar. (essa doeu, senti que incomodou e admito que gostei)

_ Mas isso só depois de você tentar um tempo, não é assim, você decide e engravida! (que bom que ela me explicou outra vez, outra coisa que nunca imaginaria)

_ Faz mais de um ano que parei o anticoncepcional, consta aí na minha ficha (que você não leu!).

_ Mas você precisa decidir se quer engravidar ou não. Você não sabe se quer engravidar, isso não é assim… (isso, vamos mudar de assunto e colocar a culpa em mim, porque você é uma incentivadora e tanto, né? Dá para responder o que estou perguntando?)

_ Há alguma maternidade com algum tipo de especialização em mulheres com mais idade que decidam ser mães?

 

Ah, agora era a hora dela ser irônica. Que resposta brilhante, a melhor de todas!

 

_ Claro que não existe um centro só para mulheres de 39 anos que querem engravidar!

 

Que coisa mais absurda eu estava falando! Porque lógico que tirei da minha cabeça, um setor  no hospital só para mim!

 

_ Não apenas as mulheres de 39 anos. Mas, por exemplo no Brasil, nos melhores hospitais (e você podia dormir sem essa!), há setores especializados no processo de fertilização de mulheres com mais de 40 anos ou nessa faixa etária.

 

Poderia entrar no discurso que as mulheres do planeta vem adiando a maternidade e, portanto, surgiu uma nova necessidade em atendê-las. Porque não, ser mãe aos 26 não é igual a ser aos 39! Existem alternativas diferentes à fórmula: ácido fólico e trepem! Mas claro, na Espanha não deve ser assim!

 

E no caso de não querer ser mãe, a hipótese de saber se sou fértil ou não, nem pensar! Muito caro! Na dúvida, melhor me entupir de hormônios à toa.

 

De qualquer maneira, essa conversa já tinha me cansado. Agora podia ir embora. Dei boa tarde e agradeci (à atendente).

 

Pelo caminho fui pensando que não quero aguentar esse tipo de atitude indeterminadamente. Sei que não se pode julgar toda uma população por uma pessoa, mas é que não é só uma pessoa. Reproduzi um diálogo que poderia ser no taxi, na loja de roupas, no restaurante…

 

Quando você está de férias é engraçadinho. Morando, por um tempo a gente entuba que é cultural, mas quando penso em conviver com essa atitude provinciana, me cansa muito. Tem outras vantagens? Claro que sim, vou tentar pensar um pouco nelas. Sei que em outro lugar existirão outros problemas, mas caramba, às vezes queria mudar um pouco de problemas.

 

Para amenizar, antes de chegar em casa, meus pensamentos foram interrompidos no sinal por um mendigo me pedindo alguma moeda. Respondi com educação, mas disse que não. Ele era magrelo, parecia um pouco maluquinho, dos mansos, e era menor que eu, não assustava. Insistiu, olha, ali na frente tem um bar, é que estou com fome, você me compraria um lanche?

 

Não nego e espero nunca negar comida para ninguém, isso já é uma questão de honra. Então tá, hombre, un bocadillo te lo compro. Ali na frente?

 

Fechou o sinal e ele me acompanhou, alertando que tomasse cuidado com os carros, que sempre há acidentes. Falava compulsivamente: nunca sofri um acidente de carro, meu pai nunca sofreu um acidente de carro, ele morreu em casa, mas não foi em um acidente de carro…

 

Ai, meu santo! Onde fui amarrar minha égua? Cadê o bar?

 

Na porta me perguntou, você pode me pagar também uma coca-cola? Respondi, posso.

 

Entramos, ele pegou uma coca e na hora de escolher o sanduíche, olhando para a oferta do balcão, relutou. Melhor não, vou ficar só com a coca, me alimento só de pão e de leite, esse aqui – apontando um tipo de croissant – tem muita manteiga, faz mal para sua saúde!

 

Para tudo! Deixa eu entender, um mendigo preocupado com o colesterol?

 

Continuou me apontando um donnut, você não deve comer esse, tem muito açucar, faz mal para você! Vou tomar só a coca-cola, muito obrigada, já vou. Olhou para a vendedora, me apontou: ela vai pagar. E sumiu. Foi muito educado e vou pensar duas vezes antes de querer abocanhar um donnut!

 

Mas, definitivamente, quando um mendigo maluquinho se preocupa mais com minha saúde do que uma médica, alguma coisa está fora da ordem.

 

Barata voa total!

As pessoas tem dons, é uma questão de fuçar até descobrir os seus. Tenho dom para atividades manuais. Há uma exceção para costura, na qual sou uma verdadeira retardada, mas tudo bem, disso eu já desisti. Agora, no resto, quase tudo posso olhar o resultado ou alguém fazendo, aprendo e aplico. Sou boa também em corrigir, desde a comida à uma escultura. Essa é uma vantagem, deu errado? Sem pânico, só corrigir.

 

Isso me faz uma excelente operária. Sério, sou uma pedreira de mão cheia e sou louca por uma obra. Aliás, acho que em qualquer trabalho mal remunerado e de baixo reconhecimento, sou craque! Uma especialista!

 

No Brasil, em todos, absolutamente todos os apartamentos que tivemos, fiz obra. E não eram aquelas obras em que você contrata um arquiteto e delega não, eu me meto no meio da poeira e discuto no dialeto apropriado (tauba, ademão, massiá…).

 

Mesmo quando trabalhava em consultoria, quantas vezes depois de ralar dez horas no escritório não varei madrugadas pintando paredes, só para relaxar. Quem não acredita que pergunte ao Luiz. Nos fins de semana, contava com sua ajuda para segurar o balde de massa enquanto me pendurava na escada. No que ele dizia debochado, tanto estudo para virar ajudante de pedreiro! Nem o mestre de obras eu sou…

 

Acontece que todas essas casas eram nossas e, desde que saímos do Brasil, moramos de aluguel. Sendo assim, tive que colocar minha violita no saco e me conformar com o que já estava. Menos mal que trouxemos nossos móveis, assim pelo menos havia algo de personalidade. Claro que não foram todos os móveis, no máximo 1/3 deles, porque sabia que não teríamos o mesmo padrão de espaço que em São Paulo. E o curioso, hoje quase todos eles tem rodas, temos uma casa literalmente móvel!

 

Resumindo, há quase cinco anos sou restrita a mudar coisas de lá para cá, não pintava nem uma paredinha de nada.

 

Até que nessa semana bati a cabeça no meu limite, chega, não aguento mais! A energia dessa casa está toda errada!

 

Comecei singelamente com as cortinas, logo inverti toda a sala. Comecei a olhar um canto, e se eu desse uma pintadinha só naquele cantinho… Pois é, começou assim, despertou o monstro! Já temos uma parede verde musgo e um quarto de hóspedes a la Mondrian.

 

E ainda não guardei as tintas…

Fim de férias

Aqui, no início de setembro, é muito comum as pessoas sofrerem de “stress pós férias”, cujo nome já define do que se trata. Pois é, doença de primeiro mundo. Sempre que escuto algo assim me dá vontade de dizer, deixa de frescura e vai lavar um tanque de roupa suja!

 

E o conselho serviu para mim. Cheguei de férias cheia de afazeres domésticos! Roupa para lavar, casa empoeirada, compras para fazer, ai que preguiça!

 

Tudo bem, também não me esquentei tanto e estou fazendo as coisas em ritmo andaluz. Aproveitei e comecei a tocar um barata voa em casa, mudando tudo de lugar. Nem estou falando só dos móveis, mas das funcionalidades, da iluminação, até do cheiro!

 

Essa semana vou limpar os armários e me desfazer de roupas e sapatos.

 

E no meio dessa onda de mudanças, não resisti. Estava louca para cortar o cabelo já faz um tempo, mas ficava nessa de qual corte, qual cabeleireira e tal. Quer saber, me bateu os cinco minutos, fui para o banheiro, forrei a pia e me transformei no Edward Mãos de Tesoura! Se ficasse bom, ótimo; se não ficasse, pretexto para cortar joãozinho. Cabelo cresce! Depois, todo mundo aqui gosta dos cortes, digamos, irregulares. Então, para cortar torto, faço eu mesma!

 

E fiz. Daqui a pouco chega o Luiz, não sei se torço para ele perceber ou não. Mas sabe que até que gostei.

 

PS: Ok, ok, vamos ao mico do dia… atendendo a pedidos, esse abaixo foi o corte de cabelo.

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