Língua ferina e politicamente incorreta

Quem fala o que quer, ouve o que não quer, já diz o ditado. Um ditado bastante verdadeiro, no meu entender. Eu não gosto de ouvir qualquer coisa, e portanto, fui aprendendo a segurar um pouco a minha onda. Nem sempre consigo, pelo menos tento. Mas, às vezes, fico pensando onde está o limite entre o respeito e a omissão.

Sorte ter um blog, me dá a oportunidade de colocar quase tudo para fora sem grandes censuras, pelo menos que tenha consciência, porque nossas verdades podem ser bastante seletivas. Conto a verdade que lembro ou interpreto, mas sempre há muitos lados inaceitáveis em sã consciência.

Noto que cada vez mais penso duas vezes em escrever ou dizer alguma coisa e não tenho certeza se é por respeito ou por falta de vontade em comprar uma briga. Sou boa em brigas, ou acho que fui um dia, a raiva me deixa forte pacas, diferente do que se prega. Não me lembro em que momento cansei delas e me bate a dúvida se foi maturidade ou descrença que me levassem a algum lugar. Ou talvez duvide que seja mesmo tão forte assim. É mais agradável acreditar que foi sabedoria.

E por que tenho que dar minha opinião? Por que quero tanto entender gente? Por que vivo na eterna incoerência de saborear a ignorância, adorar o sabor que tem, e mesmo assim não conseguir provar o prato pela segunda vez.

No ano passado aconteceu algo incrível, tomei fôlego de otimismo, coragem e apostei no futuro e nas pessoas. Na verdade, foi ao contrário, tomei a decisão que apesar dos pesares, tentaria ser mãe. E acho que essa realidade só era aceitável em um mundo melhor. Portanto, resolvi ver o melhor do mundo.

Minhas opiniões não mudaram, continuei achando mulher grávida horrorosa. Essa sensação que a mulherada descreve de ter uma vida dentro e tal, para mim é como ter um alien que explodirá a qualquer momento. Acho parto natural uma selvageria, mil vezes as drogas fortes e uma cesariana. Amamentação me dá nervoso. Detesto quando minhas amigas resolvem amamentar muito à vontade na minha frente, preciso fixar meus olhos no horizonte! Acho que trocar fralda deve ser insuportável, nunca troquei nenhuma na vida! Não gosto de acordar cedo. Não quero perder a prioridade para sempre.

Seria capaz de passar por cima de tudo isso? Seria. E não acho que seria uma mãe ruim.

Mas quando não é para ser, não é e pronto. Não vou carregar mais comigo a culpa e a dúvida de nunca haver tentado. Isso é um alívio.

A questão é, que da mesma maneira que o mundo precisou ficar melhor antes, agora não precisa mais. O mundo é o que é, as pessoas são o que são. Eu também não sou toda boa e ando bastante amarga, mas não estou triste. Talvez tenha cansado de forjar minha natureza. Nesse momento, ser uma pessoa melhor não me leva a lugar nenhum.

Pode ser a crise dos 40, que não é exatamente uma crise, mas um momento, um marco. Você tem conhecimento e maturidade suficiente para arrancar, teoricamente ainda tem saúde e tempo, mas também tem a consciência que se não for agora, dificilmente será depois ou será bem mais difícil depois. E para que lado eu arranco?

Sei um monte de coisas, aprendi um monte de coisas, vivi um monte de coisas, o que faço com tudo isso agora? Eu sei que o importante do caminho é o trajeto, mas não compensa caminhar a esmo.

Tenho pensado seriamente em voltar para negócios. O foda é esse verbo, voltar. Tem um sabor estranho e contraditório, porque por um lado, me dá uma meta, alguma coisa que sei fazer, ou acho que sei. Por outro lado, é como se decidisse jogar a toalha, admitir que a vida é essa, não há outros caminhos, sonhos são bobos. E talvez sejam. Eu sei que se despertar a konga, mulher gorila, vai ser complicado controlá-la outra vez.

Posso tentar algo novo, sempre posso tentar, mas tudo tem seu preço e risco.

Posso continuar igualzinha, minha vida não é ruim. Não se pode dizer que não aproveito. Pois até nisso notei diferença. Ando mais seletiva, desconfiada. Não sou cega nem ingênua, sabia dos problemas antes, mas estava tão tranquila no meu escudo protetor que relevava. Repito sempre que o melhor amuleto que uma pessoa pode levar é a crença que nada de mau pode acontecer.

Meu círculo social está se alterando, levei um tempo para entender o que me incomodava. Existe um problema sério com grupos, um ciclo cruel e repetitivo. No primeiro momento, as pessoas se juntam por objetivos comuns, é aconchegante e divertido. Logo, sentem a necessidade de garantir seu status quo e se protegem. E aí é que mora o perigo, é muito comum que essa proteção seja feita por exclusão. Esse é o berço do preconceito. Não posso aceitar essa postura, é humana, mas não quero ser conivente. Se acho que as pessoas fazem isso em plena consciência? Nem sempre, mas não importa, o resultado é o mesmo, ainda que a intenção não seja.

E será que também não excluo? Será que também não sou preconceituosa? Eu sei que sou cruel, mas não sei qual é o meu limite. Sei que não sou psicopata porque sinto empatia, me arrependo. Perdôo, ainda que por egoísmo. O que me faz mais humana, errar ou acertar?

Por que insistimos em organizar um mundo que parece completamente fora de ordem?

2 comentários em “Língua ferina e politicamente incorreta”

  1. Oi Bianca

    Eu demorei muito pra aceitar as pessoas como elas são, então assim não sofro tanto, mas com certeza mudar pra agradar alguns nem pensar.
    Aceito meus poucos amigos com tudo de bom e de ruim que tem, eu também não sou perfeita.
    E o jantar ficou bom? O Michel já chegou?
    Manda um beijos pra ele.

    Beijos

    Marianne

  2. Oieeeee Bi!!

    Nossa, há séculos eu não lia teus textos… (isso porque não sei mais quando atualizas o blog – já que saí do “Sefodeaí.com”). Estou tão atrasada que não vou ler tudo agora. Abri apenas os que me chamaram mais a atenção e este, inevitavelmente, li inteiro.

    Putz, genial! Para mim, um dos melhores textos que você já escreveu. Te entendo completamente e me identifico com boa parte dele. Com outra parte não, claro, porque são questões muito tuas…

    Cacilda, viu… me senti na tua casa, contigo me falando essas coisas. Muito bacana!

    Por que insistimos em colocar ordem no caos? Putz, vai saber. Acho que é mais um vício do que uma necessidade – ainda que, também, seja uma necessidade. Além do mais, vamos combinar que é divertido querer entender as coisas, encaixar as peças dos quebra-cabeças. Vícios, vícios…

    Também acho que o importante foi teres tentado (a respeito da A.). O lance de voltar… sempre parece meio que uma derrota, não é mesmo? Mas não sei… acho que devemos assumir com coragem nossas necessidades. E se algumas vezes elas passam por uma volta – que, “ojo”, nunca será pelo mesmo caminho -, tudo certo.

    E para finalizar, comento o lance dos círculos de amizade. Francamente? Acho que existe uma diferença entre uma seleção natural entre as pessoas e uma exclusão por pura competição. No primeiro caso, acho que a seleção faz parte da vida, porque ninguém que se valoriza continuará com pessoas que lhe fazem mal por perto – ou em uma convivência quase diária. Acho que isso passa até por uma questão de saúde, sobrevivência mesmo. Agora, o lance da competição é foda… e triste. Honestamente, acho que adultos não deveriam brigar tanto por espaço (inclusive na amizade) porque, afinal de contas, há muito espaço para todo mundo. Putz, acho que me enrolei… 😉

    Bem, menina, boa sorte com tuas andanças e paciência com teus vícios… serenidade!

    Beijos grandes
    Alê.

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