As idas e vindas, melhor cantar

Setembro tem sido um mês de mudanças, ou pelo menos de vontade ou planejamento delas. Não parece ser só comigo.

 

Em parte, acho que é porque o ano aqui começa em setembro. Por isso, às vezes, a gente adia os planos e empurra um pouco com a barriga até o verão terminar. Mas penso que é mais do que isso. Tenho a sensação que é uma daquelas nuvens universais que você olha em volta e está todo mundo muito parecido.

 

Primeiro sintoma, a mulherada sai tosando ou pintando o cabelo. Se não há possibilidade de uma transformação mais radical, no mínimo, ajeitam ou prendem de uma maneira diferente. Mas definitivamente, algo na região da cabeça começa a incomodar e se altera visivelmente. Homens, vou logo avisando, mulher quando muda a aparência, é porque quer mudar (ou já mudou) por dentro. Nem sempre é mau sinal, é apenas um ritual de passagem.

 

Não estou muito segura se isso também acontece com a ala masculina, não que eles não mudem, mas o processo é diferente.

 

Outro sintoma feminino, tendência ao isolamento temporário. Isolamento é exagero, é mais como uma reserva, dá menos vontade de encarar uma multidão. Você quer estar com menos gente, quieta, caseira. Estou falando de mim, mas sei que estou falando de outras pessoas também. É como um momento que você quer olhar mais para dentro, reforçar seus relacionamentos, entender seus limites. Tudo te deixa mais sensível, parece uma TPM a médio prazo. Enfim, remexer a caixa de Pandora nos deixa mais vulneráveis, então melhor nos preservarmos um pouco.

 

Sei que estou mais séria. Olhar para dentro nos traz a tona nossa real natureza, às vezes eu gosto e outras não. É minha decisão eleger o que manter e o que voltar para a caixa. Antes, meu critério consistia em me perguntar se fazia minha vida melhor; agora me pergunto se faz minha vida mais fácil. A lógica me diz que deveria ser ao contrário, segundo o amadurecimento, mas não foi assim para mim. Talvez seja uma questão semântica ou talvez seja minha natureza cética e prática falando mais alto. De uma maneira ou de outra, quero mais é facilitar minha vida. Só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder…

 

Nessa única semana, tive notícia de três amigas que se vão de Madri. Não me entristeço mais, nem cobro, a vida é assim, as pessoas vão e vem.  Eu venho e vou. Tive vontade de ir também e nem sei para onde. Você não é dono dos seus amigos, nem de ninguém.

 

Nosso último hóspede holandês me disse que você só toma mesmo a decisão de qual seu lugar quando constrói sua casa do chão. Engraçado ele falar isso, porque ele não sabe que penso igual e tenho na cabeça a casa dos meus sonhos, que não sei onde poderia plantar. Mas sei que não é aqui, nem agora. Infelizmente, porque estou pronta para ela e para as mil metáforas que ela traz.

 

Uma dessas amigas fez uma festa de despedida no Kabocla, nessa quarta-feira. Ela vai para o Panamá pela ONU. Luiz estava viajando, fui representando a família.  A conhecemos no coral e alguns participantes estavam por lá. Como não poderia deixar de ser, demos uma palhinha de três músicas que, considerando nossas férias e nenhum ensaio, não foi de todo mal. Foi gostoso cantar outra vez, mesmo meio desorganizado.

 

E falando no coral, no dia seguinte, fizemos uma reunião com os integrantes para decidir nossos rumos para esse próximo ano. Como disse antes, o ano letivo espanhol começa agora em setembro. Achei legal, o grupo vem amadurecendo e foi muito mais simples conversar agora que da última vez. Vamos combinar, com tantas mulheres participando, de vez em quando precisamos parar e discutir a relação. Agora chamamos “Dumbaiê”, eliminamos o cantoria. Uma maneira de nos rebatizar, sem perder o nome e a identidade. Há a possibilidade também de se abrir outra turma só para percussão, o que iria adorar. Soltar a voz e o braço me faz muito bem.

 

Hoje é sexta-feira, comecei o dia animada, depois me decepcionei e doeu, mas pelo menos entendi. Não tenho porque me esconder, eu sempre mostro a minha cara e é a única que tenho. Decidi não aceitar o peso do mico nas costas, não é meu. Tomada essa decisão, fiquei em paz.

 

Mais tarde vamos sair para jantar com um casal de amigos espanhóis. Gosto muito deles e temos um tipo de acordo gastronômico, intercalamos quem vai decidir onde será o próximo restaurante que conheceremos. O de hoje é um nipo-tailandês. Ótimo, estou com a boca para comida oriental!

8 comentários em “As idas e vindas, melhor cantar”

  1. Oi Bianca, minha filha sempre me elogia dizendo que tudo que faço da certo, e eu digo que prerrogativa da experiencia, agora eu so faço o que da certo, o que me incomoda nem me acerco. Tambem i isolamento ajuda e ate as vezes acho que è muito, eu so saio de casa pra viajar e nao saio por menos de quatro estrelas, conexao de preferencia direta, ou de minima espera, estou agora pensando que ja è tempo de começar a viajar sò de cruzeiros, me incscrevi nma pagina e estou vendo ofertas.
    Minha casa esta em Galicia, no monte, em cima da rocha firme que è como se constroi por aqui.
    Concordo plenamente com seu amigo, eu ja vivi em muitos lugares mas so agora tenho a estabilidade, incrivel, longe da cidade, longe de tudo nem vizinhos tenho, e comosou feliz. Um beijo.
    Antonia

  2. Oi Bianca!
    Achei engraçada 🙂 a parte de “Primeiro sintoma, a mulherada sai tosando ou pintando o cabelo”. Tu tens razao! Mas ñ lembro se no Brasil era assim também (?)
    Devido a correria q eu tinha lá, foi só aqui em Madrid que aprendi a andar de metro, notar, olhar gente e estilos diferentes.
    Sábias palavras as tuas e com certeza tu ñ a única a pensar assim.
    Ah! Tem um outro blog q também sigo (Vicky mundo afora) e adoro a mensagem de abertura …
    “Vicky Mundo Afora ou Mundoafora? Nao importa. É vida de imigrante. O mundo eh tao grande. Por que deveria passar minha vida inteira no Rio de Janeiro? Preciso viver e falar outras linguas, viver com e como outras pessoas. Um dia eu volto. Para onde? Ora, para casa. Onde eh casa mesmo?

    Bom fim de semana,
    fica bem
    Ana

  3. Oi Bianca

    Vi suas fotos da feijoada por que o Michel mandou, não consegui identificar quem era a filha dele. As fotos das viagens estão ótimas, aquele casal de costas com roupas típicas é um barato.
    Ando com muitos problemas pra resolver e parece que o ano encurtou derrepente, mas a culpa é minha sempre querendo ajudar e acabo me f….
    Essa casa dos sonhos será que todos tem ou é coisa feminina?
    Que bom que seu pai já melhorou, essas infecções urinárias são comuns mesmo, lembro da minha avó e agora o irmão da minha mãe também, mas fica bom logo, que bom.
    Bom espero mais noticias nas proximas páginas.
    Beijos

    Marianne

  4. Oi, Antonia! O tempo passa, a vida vai melhorando e fica complicado sair por menos conforto do que se tem em casa, né? Vamos combinar que é difícil competir com uma casa sobre um monte gallego 🙂

    Oi, Ana! Acho que no Brasil era igual, pelo menos nessa questão capilar, mulheres podem ser muito parecidas em alguns pontos 😛 Também não sei muito bem onde é minha casa, por enquanto, é onde eu durmo. Boa semana para você!

    Oi, Marianne! Quem mandou ser boa em resolver problemas? As pessoas contam contigo e você faz diferença para elas. Não sei se a casa dos sonhos é coisa feminina, mas acho que está mais na cabeça das mulheres sim. Meu pai está melhor (isola!) e espero que assim siga. Essa semana vamos a Paris e encontraremos o Michel.

    Besitos a todas

  5. Oi Bi!!!

    Nossa, fiquei uns 10 dias sem internet e pronto, tem um milhão de e-mails e textos seus para ler… bem, textos seus, menos, mas também vi por aqui vários. Por hora, não lerei todos, por falta de tempo, mas li alguns… como este, claro.

    Vi algumas fotos suas, acho que em viagens recentes de vocês, e notei sim que estás mais séria. Só não fica séria demais, viu? hehehehehehehehe
    Mas enfim, são momentos da vida. É assim mesmo. Sabes bem como esses ciclos funciona. Acho que essa é a vantagem do tempo, não é mesmo? Ficamos mais calmos a respeito destes altos e baixos, mais conscientes sobre como tudo funciona.

    Adorei a frase de música que citaste… há muito, muito tempo, ela é uma das minhas favoritas. E a levo como lema. Sempre só quero saber do que pode dar certo. O problema é que tanta coisa pode dar certo, né? hehehehehehe. Por mais controverso que isso possa parecer, mas algumas vezes ter muitas possibilidades também é um problema. 🙂 Bem, vou deixar de filosofar.

    Passo por aqui – e ainda deixarei outros dois comentários – só para dizer que estou viva, que estou bem, e que adoro te acompanhar, ainda que de leve, de longe, e meio sem saber, muitas vocês, sobre a nuance exata de cada fato… mas tudo bem, um dia você me atualiza.

    Beijos grandes e até o próximo comentários…

  6. Oi Bi
    Já disse que amo seus textos? Nãããão??? Como assim? Euamomuitotámeentendendo???

    Sempre que passo como cada palavra parecido a um penitente que ficou 40 dias no deserto , rssss

    Esse ciclo de intronspecção e a mudança de cabelos é ótimo. Sempre quis pintar meu cabelo de vinho, um dia pintei uma mechinha e ficou rosa, imagina minha cara de assustada, voltei correndo pro casco de loiratodavidasempre.

    Bjus, que as palavras te acompanhem (/Pathy momento starwars)

  7. …ahahahahah… Pathy, você é muito engraçada! E obrigada! Se quiser, te ajudo a pintar seu cabelo de vermelho 😛 Besitos

  8. Oi, Alê! … pois é, está faltando aquela terrazita com vinho, né? O principal está contado, mas sabe como é, o diabo mora nos detalhes… hahahahahah… Tranquila, tuo controlao!

    Besitos

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