O mistério do fogão de indução e seu manual

Tem mais alguém que ame de paixão manuais de aparelhos elétricos ou eletrônicos? Porque, na boa, cada vez que vejo aquelas verdadeiras enciclopédias, em diversos idiomas, tenho vontade de voltar ao tempo das cavernas!

Até bem pouco tempo, não lia bosta de manual nenhum! Saía apertando o que parecia lógico e o que não funcionava, perguntava ao Luiz, que aliás, lia todos os manuais! Parecia até gostar, o que sempre me deixou desconfiada que podia ser algum distúrbio, sei lá…

O problema é que o mundo se tornou complexo! Qualquer merreca de espremedor de frutas tem 47 funções! Há telefones celulares com tantas possibilidades que me surpreende que ainda por cima se consiga falar através dele! A propósito, o carro do Luiz fala!

O que quero dizer com tudo isso é que eu, uma das últimas dinossauras resistentes, fui obrigada a me render aos manuais! Admito que melhoraram muito, principalmente a parte de ilustrações. Ainda assim, é um saco! Aliás, alguém poderia tentar fazer um manual como histórias em quadrinhos, seria bem mais divertido.

Pois é, daí estou no apartamento atual, aprendendo a utilizar os aparelhos novinhos em folha. O proprietário caprichou e chegou tudo de última tecnologia, até aí, maravilha! Tudo lindo! E, obviamente, tudo acompanhado dos respectivos manuais. Ui! 

A máquina de lavar louça ficou para o Luiz, só tive que dar um ou outro pitaco. Para mim, sobrou a lavadora e o fogão. Não adiantava pedir para ele, sou eu que uso e achei que ia tirar de letra. A lavadora foi mais simples, afinal, já havia quebrado a cabeça quando mudei para a Espanha e entendido que símbolo significava o que. Já o fogão…

Começa que nem o fogão nem o forno tem nenhum botão! Pelo menos, nenhum visível, é tudo camuflado ou embutido. O fogão é uma placa de indução, que a besta aqui só entendeu que era diferente de uma placa de cerâmica agora. Olhando para os dois é a mesma coisa, mas o funcionamento é totalmente distinto. Ah, tá… Taquiupariu, vou ter que ler o manual!

Pego o manual em 32 idiomas e nem tento me exibir, fui logo para o português mesmo! De abrir e achar as instruções na minha língua já me deu sono. Tudo bem, Bianca, atitude por favor! Comecei a ler com alguma boa vontade.

Primeiro, o fogão não liga se não tiver uma panela sobre a placa, no local dos bocais. Todo mundo entendeu que o bocal é um desenho, né? Ok, lá vou eu catar uma frigideira para fazer o teste. Coloco a frigideira, aperto que que tinha que apertar e nada! Tudo liga, mas fica piscando e apaga em seguida. Essa bosta veio com defeito, não é possível!

Passa Luiz, dá uma olhada no manual e diz qualquer coisa que a panela precisa ser de um material específico que o fogão de indução reconheça. Bom, li alguma coisa assim no manual, mas me pareceu um completo absurdo! Panela é panela! Achei que quando se dizia ser fundamental que a panela fosse específica para aquele fogão, se tratasse do seu melhor aproveitamento. Nunca imaginei que um fogão pudesse reconhecer uma… panela!

Não quis entrar na discussão, porque só gosto de comprar as brigas que tenho certeza, me restringi a aceitar meio contragosto e buscar outra panela maior. Dessa vez funcionou! Como se tratava de uma panela de pressão relativamente antiga, achei que não tinha nada a ver com tecnologia, simplesmente era mais pesada. Cheguei a colocar uma outra frigideira sobre a que não funcionava para ver se era o peso. E nada!

Cassilda! Onde foi parar o bom e velho fogão de fogo? Eu quero FOGO! Fo-go! Ele é feinho, chato de limpar, mas cozinha que é uma beleza!

Muito bem, pelo menos com alguma panela consegui que o fogão funcionasse, logo concluí que não tinha nenhum defeito, a defeituosa era eu! Resolvi entender o forno. Depois da surra do fogão, o forno foi mais dedutivo. Para algo serve a curva de aprendizagem!

Bom, tínhamos que comprar alguma coisa na loja de ferragens, que aqui se chama ferretería, e Luiz sugeriu que tentássemos também comprar outra panela apropriada. Entre nós, achei uma bobagem, mas para não parecer implicante, concordei. De qualquer maneira, já precisava mesmo de outra frigideira. Chegamos na loja e a primeira coisa que o vendedor nos disse é que se o fogão era de indução, só funcionaria com as panelas apropriadas! Lógico!

Solucionado o mistério do fogão, poderia ter ficado quieta, mas preferi não perder a piada e contei para Luiz o que se passou pela minha cabeça quando ele veio com aquele negócio que o problema era da panela. Para que? Ele ficou todo satisfeito porque finalmente tinha razão e agora quer contar essa história para absolutamente todo mundo, claro que adicionando alguns detalhes por sua conta, para dar um pouco mais de graça, digamos assim.

No mais, tudo bem, ainda não temos pia, mas acredito que até o fim da semana se resolva. Enquanto isso, a gente faz o sacrifício de conhecer um restaurante novo a cada dia. É um sofrimento, mas alguém tem que passar, né?

Mudamos!

…quer dizer, pelo menos a primeira fase da mudança.

Às vezes, eu mesma me surpreendo com a facilidade em que navego no caos, parece que é meu elemento mais produtivo, vai entender! Não é que não me preocupe ou não me canse, mas sempre é mais estimulante.

Fizemos tanta coisa que nem sei por onde começar a contar, essa é a desvantagem de levar mais de uma semana sem escrever. Vamos pela cronologia, que assim vou me lembrando.

 

No último fim de semana de março, começamos a trazer algumas coisas para o apartamento novo. Tinha feito meu dever de casa e deixado o indispensável empacotado e separado para trazermos antes da mudança definitiva. Em princípio, Luiz queria alugar uma perua, recrutar dois amigos que se ofereceram para ajudar e carregar aquele monte de tralha. Achei a maior roubada! Cheio de gente forte precisando de trabalho, vamos combinar, tem economias que honestamente não compensam. Alguns dias antes, ele chegou a sugerir que eu deveria dirigir a furgoneta! Engraçado como há 16 anos casados e ele ainda não perdeu o medo da morte! Eu? Euzinha? Esquece, contrata ajuda!

 

Pois acho que foi a melhor coisa. No domingo pela manhã, chegaram três indivíduos bem dispostos, dois deles brasileiros, e carregaram o que tínhamos de mais pesado. Acabamos por incluir algumas coisas e assim ter maior conforto para esperar a mobília.

 

Entre nós, acho que até o momento que a bagagem saiu de casa, Luiz não estava muito convencido que deveríamos ter contratado alguém. Acontece que eu sabia muito bem a quantidade e o peso das coisas que estávamos mandando, além de já haver subido e descido algumas vezes as novas escadas. Estive limpando antes o apartamento e esperando encomendas, como por exemplo, os móveis da cozinha e eletrodomésticos, cujas caixas tomaram meia sala. Os carregadores chegavam no apartamento com um palmo de língua para fora!

 

Por outro lado, logo que começamos a subir os três andares de escada e Luiz resolveu dar uma mãozinha para os rapazes, percebeu a encrenca que seria subir tudo aquilo. Eu nem quis saber! Não sou preguiçosa, mas esse negócio de me matar de fazer força com quatro cavalheiros robustos, três deles pagos para isso! O feminismo que se dane! Luiz, solidário, caprichou na gorjeta gorda, que verdade seja dita, foi merecida. Eles tiveram muito boa vontade e trabalharam para valer em pleno domingão.

 

Bom, missão parcialmente cumprida, porque por mais que eles tenham levado o grosso, sempre sobra algum rabo para ser levado depois. Muito bem, à noite um amigo passou em casa para levar algumas coisas e sobrou para ele dar uma forcinha, aliás, um forção!

 

A gente chegou a considerar dormir no apartamento novo, já que os colchões estavam por lá. Mas não tinha condição, não tinha água e a cozinha não estava montada. Então, simplesmente, arrumei os armários e dei mais uma limpada.

 

O que acontece é que o apartamento está em fim de reforma e obra faz um tipo de pó muito fino que custa a sair, parece que são camadas e camadas de pó! Até aí, nenhuma surpresa.

 

Certo, mas se os colchões estavam lá, onde a gente ia dormir? Forrei um feather bed, que é como um edredon grossinho, com uns travesseiros e um colchão de acampamento por baixo do Luiz. Eu encarei o edredon diretamente sobre o tatame (nossa cama é japonesa). Bom, dormindo com a barriga para cima não é tão mau, as costas ficam esticadinhas, mas não dava para virar de lado que doía tudo! Tenho os ossos meio pontudos. Super confortável, né? Tudo bem, duas noites não matam ninguém.

 

Domingo à noite, descobrimos que sim, havia água quente e fria no apartamento. Inclusive, foi o único dia em que o mestre de obras apareceu. No restante, furou conosco e não atendeu mais quando Luiz telefonou.

 

O que importa é que com água, tudo melhora e, com isso, sabíamos que poderíamos nos instalar. Coisa que até esse momento, não tínhamos certeza.

 

Segunda-feira, veio o montador da cozinha e alguns eletromésticos que faltavam. Vi com esses olhos, que a terra há de comer, o super-homem-tartaruga, um baixinho de metro e meio, truncado, subir três andares de escada, em um só tirão, com uma máquina de lavar louça e um fogão nas costas! Luiz, eu e o montador ficamos apostando se ele também subiria sozinho com a máquina de lavar roupa, que é mais pesada. Mas para essa, teve ajuda de um segundo homem.

 

O rapaz da cozinha montou tudo no mesmo dia. Bom, tudo que tinha, né? Porque não veio a pia nem o exaustor. Sim, nossa cozinha não tem pia ainda, a gente usa a do banheiro. Mas melhorou muito o fato de ter máquinas de lavar louça e roupa. Claro que nada na vida é simples e houve alguns pepinos para resolver e decidir, mas quando há solução, é normal. Pequeno detalhe, havia uma serra elétrica no meio da sala! Alguém tem idéia da quantidade de pó e serragem que isso faz? Eu tenho. Mas saímos na segunda à noite com tudo limpo.

 

Na terça-feira, saiu toda nossa mudança do apartamento antigo para um guarda móveis. Logo após o almoço, a casa já não nos lembrava. Estranha essa capacidade que as pessoas tem de transformar uma casa em um lar e vice-versa. Todo mundo quando mora em algum lugar deixa um tipo de energia, que chamo assim por não ter outro nome melhor. É algo intangível, mas que a gente nota quando chega nos lugares.  A cada casa que me mudo, trabalho para arrumar essa energia da mesma maneira como arrumo os móveis. Trabalho os cheiros, os ângulos dos olhares, as quinas, a facilidade para limpeza, a privacidade, os acessos. Um lar precisa de vida, pode ser gente, animais, plantas, crianças, música, precisa de movimento. É como água, que é vital, mas parada não gera boa coisa. Um lar precisa ser um lugar para o qual você tenha vontade de voltar quando acaba o dia. Se em algum momento você não quer mais voltar para casa, melhor modificá-la ou mudar-se, porque já não é mais seu lar.

Lembro quando nos mudamos para o apartamento anterior, em um bairro bastante tranquilo, havia todo um sistema de segurança montado. A porta da terraza era trancada à chave e tinha grade, o que me fazia pensar quem entraria por ali? O Homem-aranha? Por que tanto medo? Uma das primeiras coisas que fiz foi pedir a proprietária que desligasse esse sistema e ela me perguntou se tinha certeza que não queria nenhuma proteção. Não respondi, mas pensei, como assim? Tenho na porta cinco moedas chinesas e duas fitas do senhor do bonfim! Quem entra se depara com um espelho, o que deseja recebe de volta. Estou muito bem protegida! Não nos descuidamos, uma vida em um país sul americano faz a gente desenvolver defesas e instintos que nem nos damos conta. Mas aqui há um ditado que gosto muito: mariconadas, las justas! Que o medo seja apenas o da prudência, a paranóia que fique do lado de fora!

Mas voltando à atual mudança, entramos de mala, algumas cuias e o Jack! Nosso felino finalmente conheceu sua nova residência. Chegou desconfiado, como é bom que seja, foi identificando possíveis esconderijos, entendendo os cheiros e ruídos. Depois de ter um gato, aprendi a prestar mais atenção aos cheiros e ruídos que cada casa tem. Aos poucos foi relaxando e se aventurando a buscar as frestas de sol, mas ainda passa a maior parte do tempo em nosso quarto, onde se sente mais seguro normalmente. Cada dia conquista um pouco mais de espaço e deu seu aval de aprovação, ainda ficará mais feliz quando os móveis terminarem de chegar.

Passamos toda a semana limpando e limpando. Tenho a sensação que dissolvi minhas digitais! E não adianta, nesse comecinho, tenho que fazer eu mesma ou com ajuda do Luiz. Minha necessidade de limpeza beira à doença! Quero ter certeza absoluta que está bem feito.

Mas nem tudo foi só trabalho, também aproveitamos bastante as redondezas. Estou simplesmente a-do-ran-do! Cada dia conhecemos um lugar diferente e até agora, nada me decepcionou.

Até visitas já recebemos! Na quarta-feira, foi o show de dois amigos no Kabocla, que agora é super perto daqui. Marcamos com um casal de amigos em casa para irmos juntos. Lógico que abrimos uma champagne para comemorar, afinal, os móveis não chegaram, mas todas as bebidas sim! Uma questão de prioridades. Legal que esse mesmo casal também inaugurou o último apartamento, então melhor manter a tradição!

Seguimos para o Kabocla e nos deparamos com um show particular, porque praticamente todo mundo que chegava era amigo! Juro! Virou a sala de casa e, adicionando-se algumas caipirinhas, todo mundo se meteu! Pedimos música, cantamos, tocamos… e tudo em um tom muito sereno, é lógico! Bom encontrar os amigos e pagar os habituais micos tão redentores. Bom saber que fofocas se dissipam no tempo quando não alimentadas. Bom voltar para a casa com Luiz quase de manhã, completamente tortos e caminhando. Não me lembro se foi difícil subir as escadas, mas acho que nem senti.

Na quinta-feira, tivemos mais um casal de visitantes e daqui fomos jantar juntos. Na sexta, rodamos tudo em volta, mas não encontramos ninguém, ainda pensamos em esticar no Kabocla, mas deu preguiça. Estou gostando desse negócio de passear um pouco a cada vez que descemos para comer. No sábado, fomos almoçar na casa de amigos, até para lembrar que existe vida além do centro da cidade, coisa que nesse momento está difícil de acreditar.

No domingo, mais um faxinão para não perder o hábito e o resto do dia, morgação total. Saímos para almoçar e passear, mas resolvi fazer o jantar em casa. Não dá para caprichar muito, porque sem o exaustor a casa ficaria muito esfumaçada. Então, rolou um macarrão de pacote e um assado desses congelados. Até que não foi mau.

Hoje tirei para escrever e dar mais uma arrumada na casa. Agora vou ver se descubro que dia teremos pia!

E chegou a primavera!

Morar em um país de estações definidas me deixou meio piegas. Chega a primavera e me sinto carregada por passarinhos como em um desenho da Disney. Não tem uma semana que a temperatura começou a mudar e as árvores estão pipocando brotinhos, flores explodindo.

Todas as gatas da vizinhança entraram no cio ao mesmo tempo. Vejo da janela e me divirto com o constrangimento dos adultos que passam ao lado meio desconcertados. Achei surpreendente que os homens pareçam mais incomodados que as mulheres. Talvez as fêmeas entendam melhor os ciclos e que não há quem segure a fertilidade da primavera. Às vezes, acordo à noite com os gritos histéricos felinos e me dá vontade de rir das gatas despudoradas e decididas, ainda que bastante seletivas.

Daqui a mais ou menos um mês, as rosas devem começar a desabrochar no Retiro e também poderei comprar os gerânios para a próxima janela.

Meu gato já entendeu que algo vai mudar. Viu malas pela casa, me acompanha empacotando coisas, cheira as caixas, se mete nelas e sente que a energia está em pleno movimento. Acho bonitinho ele perceber e ficar mais agarrado conosco, como se fosse para confirmar que ainda faz parte dos nossos planos. Claro que faz.

Fim de semana movimentado

Na Espanha tem feriado para cassilda! Acho que na maioria são feriados católicos, mas como nunca sei quando é o que, não posso garantir essa informação. Muito bem, na última sexta feira, 19 de março, foi dia dos pais aqui, se não me engano, dia de São José.

Ótimo para a gente, porque pudemos comemorar nosso aniversário de casamento, no dia anterior, sem a preocupação de acordar cedo na sexta.

O plano A era fazer um jantar em casa mesmo e abrir algum dos vinhos enfurecidos, mas ando sem grandes inspirações na cozinha. Como já disse, minha cabeça está em outro lugar e, com a proximidade da mudança, não quero fazer compras. A geladeira anda uma pobreza, coitada!

Entre nós, também não me animava muito comemorar as bodas em um apartamento disputado por um divórcio. Sei lá, meio uruca, né?

Luiz havia visitado algum cliente pelo centro da cidade e passou em uma rua com restaurantes que agradaram. Sugeriu que saíssemos sem grandes planos e escolhêssemos algum lugar que parecesse legal. Normalmente, não é uma boa idéia sair para jantar sem reserva, mas quer saber, bem que gostei da proposta. Fazia algum tempo que não saíamos sem destino certo pelas ruas de Madri e a conotação me agradou.

Fomos primeiro ao coral, onde ganhamos um “Carinhoso” ao fim da aula. Já fomos sem carro para nem ter preocupação com nada. De lá, pegamos o metrô para o centro e caminhamos até encontrar um restaurante italiano que me agradou, chamado La Creazione.

Gostei do lugar e depois, estava feliz. Bom, Luiz tratou de pedir logo um Brunello di Montalcino. Algo que tem o poder de melhorar instantaneamente o atendimento. Minha clássica resistência à bebida anda mais ou menos, por causa de umas tonturas malucas que melhoraram, mas não passaram. Mas quer saber, por um lado são dezesseis aninhos de casório, por outro, era um Brunello! Meu fígado cutucou o estômago, deu aquela piscadinha: a gente aguenta, vai? De entrada, comi um tartar de atum, muito bom. Mas o campeão da noite foi um tagliolini (aquela pasta fininha, como o cabelo de anjo) com lâminas de trufa bianchetta, de ajoelhar!

Ainda puxamos papo com um garçon de Cabo Verde. Conversamos sobre o que gostávamos no país, reclamamos das leis de imigração que andam enlouquecidas e saímos de lá fechando o local.

Muito bem, como na sexta-feira era feriado, aproveitamos e marcamos uma comemoração em casa com os amigos. Assim ficava uma festinha dupla, porque também funcionou como despedida do apartamento. Por mais que queira mudar e tal, a verdade é que aproveitei muito morar aqui, tivemos momentos bastante legais e acho que devemos cumprir com alguns rituais de passagem para fechar os ciclos. Dessa vez foi uma recepção pequena e durante o dia. De maneira que quando o pessoal chegou, ainda estávamos meio de ressaca da noite anterior. Tudo bem, porque eles também estavam.

Mas sabe como é, uma coisa puxa a outra… Luiz colocou uma Salineira na mesa… a evaporação aqui em casa é alta… e chutamos o balde outra vez!

Pela meia noite e alguma coisa, quando só restava um casal de convidados, botei pilha para irmos ao Kabocla, no show de uns amigos. E lá fomos nós!

Duas caipirinhas depois, durante o intervalo, esses amigos músicos nos chamaram para tocar alguns instrumentos que estavam sobrando. Bom, acho que foi mais ou menos assim, porque meu nível de compreensão poderia não estar muito preciso. O fato é que, ao lado da banda, se reuniu toda uma equipe de chocalhos! Alternei com um tamborim e Luiz com um pandeiro. Não sei que raio de barulho fizemos ali, mas me diverti muito!

Para variar, saímos com a casa fechando e aproveitamos uma carona providencial dos amigos que foram conosco. A temperatura estava ótima, foi o primeiro dia do ano que pude usar camiseta sem manga. Sempre me lembro desses dias, porque apesar do frio não ser tão incômodo para mim, depois de meses usando casacos, acho a sensação do fresco direto na pele uma delícia! Logo fica normal, mas os primeiros dias assim são libertadores.

Até chegar em casa, tomar banho e tal, era quase de manhã. Em algum momento, acordei com a voz de susto do Luiz! Caraca, são duas e meia da tarde!

Nenhum problema se não tivéssemos combinado de participar do show infantil de uma amiga que começava às cinco.

Levantamos com aquela cara amarrotada e nos arrumamos no reflexo. Tomei um não-sei-o-que de vitamina com ginseng, aspirina e um balde de café! A gente ainda precisava ensaiar uma música, mas não dava tempo! Peguei o CD e fomos treinando pelo caminho no carro.

Resultado, o show foi ótimo, como sempre. Mas a música que cantamos foi um micão daqueles! Entrei sem um pingo de segurança e com a voz baixíssima (se aumentasse desafinava), Luiz esqueceu a letra… putz! Sorte que era como um desafio, então errar ficava um pouco engraçado, tudo bem. Nos redimimos nos tamborins, que aí sim, acho que ficou bonitinho.

Terminado o show, e aí, saímos para tomar alguma coisa? Ai, meu deus! Olha, saio amarradona, mas no momento, até coca-cola está forte para mim!

Fomos a um restaurante mexicano ali perto e comemos bem. Não havia me dado conta que estava com fome, pois acho que não tive tempo para pensar no assunto, mas só de ler o cardápio, meu estômago começou a participar ativamente da conversa. De lá, emendamos em uma vinoteca, onde juro e tenho testemunhas, que não bebi nada além de água. Luiz guerreiro, ainda sobreviveu a uma taça de vinho.

As meninas estavam engraçadas e a imagem campeã da noite foi na hora da conta, quando as duas disputavam quem pagaria. Até dedo no olho rolou! O golpe de misericórdia foi uma delas literalmente arremessar uma nota de 20 euros no pobre do garçon, que olhava completamente perplexo a cena!

Demos uma carona para elas e voltamos para casa, mortinhos! Luiz, amanhã vamos não fazer nada?

E sim, no domingo, não fizemos nada além de morgar e nos recuperar de três dias seguidos de movida.

Hoje, começo a empacotar algumas coisas para a mudança. Bom que amanheceu um dia lindo de sol, com a temperatura bastante amena e isso sempre anima a começar o dia melhor.

16 aninhos!

Hoje é 18 de março de 2010, completamos 16 anos de casados. Confesso que as cifras me impressionam, em dois anos nosso casamento adolescente atingirá a maior idade!

Para quem decidiu casar porque ia mudar de carro e morou o primeiro ano de casório em cidades diferentes, não vamos nada mal!

Outro dia, uma amiga brincou dizendo que nasci casada com Luiz. Engraçado, porque hoje é até difícil me lembrar de histórias ou ocasiões onde não estivemos juntos. Soa quase como uma vida passada. E ao mesmo tempo, honestamente, nunca senti que abri mão da minha liberdade.

Resolvemos os problemas impossíveis, achamos espaço para as diferenças irreconciliáveis, sofremos com as crises intransponíveis… e demos festas depois para debochar do provável. No fim das contas, a gente sabe que é só uma questão de querer e tentar se divertir pelo caminho.

Eu quero e me divirto.

Próximos capítulos: a mudança!

Na nossa divisão de tarefas matrimoniais, a mudança é responsabilidade minha. Não que a faça sozinha, sempre conversamos sobre as possibilidades, mas como reza o ditado, cachorro de dois donos morre de fome, então melhor definir quem alimenta cada bicho. Pela prática, tenho as coisas esquematizadas na cabeça, o que facilita um pouco nossa vida. Essa próxima é especialmente divertida.

É assim, o próximo apartamento está fechado na palavra, mas não assinamos o contrato, o que nesse momento, por conhecer as pessoas em questão e ter uma relação de confiança, honestamente não me preocupa. Mas como sou filha dos meus pais, para mim negócio só está 100% fechado depois de assinar.

Muito bem, mas vamos continuar, o apartamento que estou nesse momento está em plena disputa judicial. Todo mundo sabe disso. Pois bem, a proprietária, com quem temos maior afinidade, já trocou a fechadura da porta com medo do louco do ex-marido tentar invadir. Pequeno detalhe, como ele não sabe exatamente quando sairemos, se cogita a possibilidade do indivíduo aparecer na minha porta enquanto nós ainda moramos aqui. Por via das dúvidas, o taco de baseball está bem acessível e não seria a primeira vez que partiria para a porta bem acompanhada. Sei que não é muito razoável, mas ele é meio doido e eu sou doida e meia. Luiz ainda tenta ser o policial bonzinho da história e tem uma relação civilizada com o indivíduo, mas de bobo não tem nada e já tem auxílio jurídico na manga, caso seja necessário. Afinal, estamos totalmente legais nessa confusão.

Diante das circunstâncias, estamos tentando adiantar o máximo possível nossa saída do imóvel. Acontece, que o próximo apartamento fica em uma zona bastante central, em uma rua estreita, onde o caminhão da mudança bloqueará toda a passagem. Ou seja, precisamos de uma autorização especial que tarda cerca de um mês, para bloquear o trecho da rua, no quarteirão do edifício. Sim, meus amigos, para mudar a gente precisa fechar uma rua!

Luiz não quer esperar mais um mês aqui nem que a vaca chegue no nosso ouvido e faça cof cof… Bianca, se vira! Seu marídio quer porque quer mudar até o fim desse mês! Tudo bem, melhor assim, porque a verdade é que já começa a me agradar a idéia de dar umas pauladas no ex-marido-louco-da-proprietária. E isso não é coisa que se deva passar na cabeça de uma mocinha educada.

Lá vou eu ligar para a empresa de mudanças e negociar soluções. A menina tem até boa vontade, mas maneiras diferentes são muito confusas para quem faz sempre as coisas do mesmo jeito. Acontece que é a terceira vez que contrato essa mesma empresa, o que me dá alguma credibilidade e margem para negociação.

Então, o plano é o seguinte, empacotar tudo e enviar para o guarda móveis da transportadora. Enquanto isso, já pedir as autorizações necessárias para a mudança, e assim que saírem, fazer uma segunda mudança, do guarda móveis para o próximo apartamento. Para um brasileiro isso pode parecer bastante lógico, inclusive, melhor para empresa que me cobra duas mudanças, mas pode acreditar, não foi nada simples explicar isso aqui.

Bom, e até aí, nem estou me preocupando que a mudança no novo apartamento subirá por três andares de escada! Isso é problema da empresa! Estão sendo pagos para fazer força ou para colocar aquele elevador que sobe por fora da janela, que não é exatamente uma novidade na europa.

Está fácil? Ah, então vamos complicar mais um pouquinho?

O novo apartamento ainda não está pronto, simples assim. Falta pouca coisa, mas as obras por essas bandas são demoradas. Pelo que entendi, falta o box do banheiro, alguns espelhos e todos os armários e eletrodomésticos da cozinha. Daí, o mais complicado seria mesmo a cozinha, mas como a obra suja já terminou, é viável.

Isso quer dizer o seguinte, assim que a nossa mudança sair daqui, ou nos instalamos na casa de amigos ou vamos para o apartamento sem móveis e sem cozinha!

Era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada…

Olha Luiz, seguinte, topei encarar essa mudança maluca, tudo bem, até levo com bom humor, mas a gente não sabe quanto tempo realmente levará essa tal de autorização. Não vou me enfurnar na casa dos outros por um mês, com um gato, assim na cara de pau, hotel por esse período nosso orçamento fica estratosférico, então prefiro levar meia dúzia de coisas para o apartamento novo e a gente se vira por lá. No máximo, podemos contratar uma furgoneta mané dessas e levar o kit básico de sobrevivência na selva: colchão, laptop, roupas e cafeteira. O fundamental é a cafeteira, porque o café não pode me faltar, sinto muito! Nas duas vezes que mudamos de país juntos foi assim, chegamos antes dos móveis, nem é novidade. Lá vamos nós acampar! Ele topou, acho até que preferiu dessa maneira.

Bom, só faltava a gente ter hóspedes, né? Não falta, teremos um casal de hóspedes em abril. Tudo bem, é minha prima e temos intimidade. Além do mais, acho que quando eles chegarem a cozinha estará pronta.

Considerando tudo isso, minha cabeça anda a mil, normal. Acontece que é curioso como o que me afeta se reflete na cozinha. Por exemplo, se estou de mau humor ou com raiva, minha comida sai salgada. Se estou preocupada ou distraída, queimo tudo. Na semana passada, consegui queimar o feijão de ficar aquela crosta preta no fundo da panela de pressão. Hoje, quase incendiei a casa, juro! Inventei de fazer torrada… o telefone tocou… era a empresa de mudanças… esqueci… me toquei com o cheiro de queimado chegando na sala.

Corri para a cozinha e já saía fumaça preta do forno, putz! É que pão queimado vira carvão. Imagina queimar carvão dentro de casa! Desliguei tudo, abri o forno e fui correr para abrir as janelas, ligar o exaustor e a ventilação do ar condicionado. Na boa, se fosse uma vizinha vendo a quantidade de fumaça negra que saía, teria chamado os bombeiros sem nem pestanejar! Felizmente, meus vizinhos fofoqueiros estavam ocupados, era hora da siesta, e dei conta da fumaceira sozinha. Não sabia se ria, chorava ou abanava. Jack se defende, tratou de sumir do caminho e foi para perto de uma das janelas abertas.

Baixada a fumaça, fui procurar se restou algum dano colateral, mas não, nada além daquele cheiro de queimado indisfarçável.

Pergunta se depois me atrevi a cozinhar hoje? Estou com uma fome do cão, mas nem chego na cozinha! Assim já vou me acostumando à vida no mês que vem!

Rumo ao 34

Aproveitando o sol que abriu, deixa me animar um pouco também e contar como andam as coisas. Pelas minhas contas e anotações, estamos no meu endereço número 32, acontece que efetivamente morei em Paris por pouco mais de um mês e acho que contou como o número 33. Logo, estamos partindo para o trigésimo quarto.

Nos últimos dois finais de semana, ficamos basicamente por conta de visitar apartamentos. No primeiro deles, vimos um apartamento praticamente do lado da nossa casa, com um bom tamanho, mas o estado de conservação incomodava um pouco. Marcamos de ver outro em La Vaguada, no domingo, mas estava um pouco reticente em relação à localização, por ser mais afastado do centro do que gostaria.

Tudo de metrô é muito fácil, mas o planeta sabe que gosto mesmo é de caminhar.

Na noite de sábado, fomos a um reunião na casa de uma amiga. Divertido, ainda que não conseguimos ficar muito tempo, porque Luiz estava gripado e meio cansado. Mesmo assim, foi legal porque alguns dos convidados estavam no nosso desfile improvisado de carnaval e é muito engraçado lembrar dos episódios, digamos, peculiares, que sempre somos protagonistas. Outra coisa que foi boa, é que duas mães de amigos moravam em Vaguada, e nos falaram bem do bairro, o que me animou um pouco mais.

Muito bem, domingo de manhã, lá fomos nós ver o tal apartamento em Vaguada, que tinha a vantagem de ser no condomínio de outro amigo. Gostei do apartamento e meio que entubei andar de metrô. O preço era bom e era grande, paciência. Saí de lá crente que ia fechar negócio.

De lá, fomos almoçar na casa de um casal de amigos, um filet à Daniel, daqueles com bastante alho! Uma delícia e bem propício, já que Luiz estava gripado e eu ameaçando a ficar também. Bom para conversar, desabafar um pouco da encheção de saco que estava de Madri. Aparentemente, o humor feminino está em conjunto naquela fase tepeêmica, pode ser o tempo chuvoso, sei lá, ou então aquela onda de energia que sempre afeta as pessoas com afinidades. Aproveitei para tirar uma casquinha de um neném gorduchinho simpático, naquela fase que está por um triz para começar a andar.

No caminho para casa, Luiz me perguntou se não queria dar uma última olhada na internet, para ver se algo de novo havia surgido no mercado imobiliário. Por que não?

E já que era por desencargo de consciência, resolvi olhar bem no centrão mesmo, coisa que não havia feito antes por acreditar que seria impossível encontrar um apartamento com garagem. Essa era uma condição para a gente, é um complicador, mas acontece que Luiz tem que trabalhar de carro e não acho justo ele chegar tarde e ainda sofrer para achar uma vaga.

Caraca, e não é que de cara acho um apartamento do jeito que a gente queria, com garagem, perto do Palácio Real. Putz! Até sonhei com o apartamento! No dia seguinte, pela manhã, Luiz ligou para lá e o dito cujo do apartamento estava apalavrado, para assinar contrato na quinta-feira. Não acreditei! Que vacilo!

Tudo bem, Bianca, sem pânico! Você já conhece esse jogo! Mais importante do que conseguir ou não algo específico é entender o que a gente quer e focar esforços. A verdade é que até esse momento, estava atirando para todos os lados. Sabia que não era o melhor, mas é que não conseguia querer nada, queria mesmo era ir embora. Estava procurando apartamentos por absoluta diciplina, vontade não tinha um pingo! O que valeu desse apartamento perdido foi sentir essa vontade de morar por ali, trouxe alguma motivação.

Então, está bem, vamos dar mais uma procurada antes de fechar com o imóvel de Vaguada. Achei outro interessante em Salamanca, fizemos proposta, mas a dona queria um pouco mais, nos pediu alguns dias. Enquanto isso, continuamos buscando. A época é vantajosa para a gente, tem muita oferta no mercado e os preços cairam bastante. Você até vê muito anúncio com preço alto, mas não alugam nunca, quem quer de verdade alugar, precisa baixar.

Apareceu um em Las Rozas, muito perto de onde Luiz trabalha. O apartamento era realmente ótimo, enorme! Mas tão longe quanto bom. Outra vez, ficamos muito divididos.

Nisso, uma amiga fala que seu marido tem um apartamento em um local que para nós seria ótimo. Só que tinha um problema, o edifício não tinha elevador. Putz, mas aí não dá! Sem elevador, nem a pau Juvenal! Nem quis ver porque sabia que seria tentada.

O tempo passando e eu começando a ficar preocupada com prazos, não dá para ficar até sempre esperando o apartamento perfeito, uma hora a gente precisava decidir.

Tive a idéia de ir visitar garagens para ver se havia vagas para alugar e depois buscar apartamentos na redondeza. Com isso, aumentávamos nossas opções, já que é difícil encontrar edifícios com garagem no próprio prédio, pelo menos, nas zonas centrais onde estava interessada. Uma idéia muito simples, que deveria ter tido antes, mas paciência, talvez as coisas tenham seu tempo e, honestamente, essa decisão pelo local custou a aparecer.

Achamos possibilidades de garagem e achei um apartamento próximo a uma delas, perto da San Bernardo, uma zona bem central e de bom tamanho. Lá fomos nós visitá-lo na sexta-feira, às 20:00hs. Chegamos lá e o apartamento era bem razoável, mas só alugava mobiliado, coisa que nos impossibilitava. Sempre tem alguma coisa. A pessoa que nos mostrou nos disse que ele mesmo tinha um imóvel bem perto dali, mas que era algo diferente, menor e em um prédio mais antigo. Não havia me interessado até ele falar o preço, quase metade ao que estávamos visitando. Pensei que a longo prazo não toparia, mas por um tempo e por aquele preço, até que encarava. Fomos visitá-lo.

Chegamos lá, era um edifício sem elevador, respirei fundo e pensei, eu posso! Acontece que não cabiam nossas coisas, nem com muito boa vontade. Agradecemos e saímos, meio desanimados.

Justo em frente, havia um restaurante que Luiz leu não sei onde que era bom, comida de Nova Orleans, ou algo assim. A essa altura, estava com um pouco de fome, chovia para cassilda e ainda era cedo para ir ao Kabocla, tínhamos um aniversário para ir por ali. Então, resolvemos sentar um pouco e tomar fôlego.

Aproveitei para tentar relaxar com uma taça de vinho e ouvir as vozes da minha cabeça. E, a propósito, o restaurante é legal, chama Gumbo e fica na Calle Pez 15.

Lembrei do apartamento que minha amiga tinha dito, aquele lá atrás que não queria ver porque não tinha elevador. O único impecílio que ele oferecia, havia acabado de me provar que seria capaz de conviver, não a longo prazo, mas por um tempo e por alguma razão.

Resolvi falar em voz alta o que estava pensando, Luiz, você acha que nosso amigo toparia um contrato por um prazo menor? Um contrato de um ano, por exemplo? Porque se não me acostumar, um ano não mata ninguém e estou careca de mudar de casa mesmo. Além do mais, é um prazo para a gente ter as coisas mais claras na nossa cabeça. Para ele talvez seja bom, não tem risco nem preocupação de alugar para um estranho. E se eles resolverem que querem mudar para lá, um ano também não é muito para esperar.

Senti que Luiz gostou da idéia, parecia um alívio. Quando quero alguma coisa, a vida dele é muito mais simples. Dali mesmo ligou para nosso amigo, que estava próximo e disse que podia passar no restaurante para nos encontrar. Beleza! Já nem durmo com essa curiosidade.

Não vou mentir, subir três andares de escada é broca! Mas o apartamento está uma graça, todo novinho e com uma boa distribuição e espaço. Tem um jeito de loft, com duas colunas de madeira descobertas e uma parede de tijolos aparentes que é um charme. Nosso amigo tem uma garagem dupla que pode dividir com o Luiz ali perto, ou seja, a única concessão mais complicada é realmente o elevador.

Quer saber, tudo bem, vou encarar. Dane-se, talvez seja bom para emagrecer! Às vezes, a gente precisa quebrar alguns paradígmas. Por agora, temos a sorte de ser saudáveis e jovens o suficiente para subir umas escadas. Estou vendo como uma experiência de vida diferente, não apenas pelas escadas, mas pelo local. É mais alternativo, onde imagino que as pessoas devam ou deveriam ter a cabeça mais aberta. Vai ser bom uma mudança de ares.

Agora a gente precisa acertar alguns detalhes. O apartamento está terminando de reformar, faltam algumas coisinhas e hoje pedirei um orçamento para uma empresa de transportes. Só não sei como será essa mudança, porque não vi nenhum local para parar um caminhão sem impedir a passagem dos outros veículos, é uma rua antiga e apertadinha. Fora uns móveis pesados para burro que a gente tem! Mas enfim, quando chegou nossa primeira mudança no país, também não tinha a menor idéia de como seria e eles tinham solução para tudo. Estou tentando acreditar nisso.

Duro está cuidar do apartamento atual e sua rotina, meu desapego é um clássico e minha cabeça já foi, não moro mais aqui. A vantagem é que não sofro, mas esse período intermediário é chato pacas! Paciência, Bianca, paciência…

Aprendendo os jargões e eufemismos imobiliários espanhóis

Edifício Senhorial = prédio velho

Edifício Histórico = velho para burro e caro

Edifício Representativo = mas representa quem ou o que?

Apartamento com muito caráter = nunca foi reformado

Mobiliado = nem o dono quis levar aquele monte de móvel-merda

Janela dupla = rua barulhenta para cassilda

Bem comunicado (por meios de transporte) = longe

Bom estado de conservação = deram uma limpadinha, talvez uma pintura nova

Muita luz = um sol do caramba

Diálogos bizarros procurando apartamento para alugar

Muito bem, estou naquela fase agradabilíssima de procurar apartamento para morar. Isso sem falar da motivação em buscar algo que por antecipação já sei que será pior ou mais caro, e para completar, com a boa vontade que estou no momento de relevar os, digamos, aspectos culturais nativos.

A gente faz assim, vasculho novecentos apartamentos pela internet e seleciono os que me parecem melhores, o que nunca passa de uns três ou quatro. Passo essa meia dúzia de dois apartamentos para o Luiz ver se a ele também agrada. Ele liga para confirmar se ainda está para alugar, se é aquilo mesmo, e vê quando pode visitar.

Em um desses, me liga ele, escuta, a pessoa, uma tal de Amparo, falou que pode estar no apartamento daqui uma meia hora se você quiser visitar, o telefone é tal. Eram umas quatro horas e ligo eu para a Amparo.

_ Sou Bianca, meu marido acabou de ligar e gostaria de visitar o apartamento.

_ Mas que horas você vem? (assim, na lata!)

_ Posso estar aí em uma hora, são quatro horas agora, marcamos às cinco?

_ …às cinco no mais tardar, hein? (com voz de briga)

_ Bom, posso tentar chegar um pouco antes, mas já são quatro…

_ É, mas às cinco tem que voltar ao trabalho!

_ Ok, como disse, farei o possível para chegar antes.

_ Mas você vem ou não vem? Porque preciso saber e às 5 no mais tardar…

_ Sim, mas é exatamente isso que estamos falando. É para eu ir ou para não ir?

_ Porque às 5 você tem que voltar para seu trabalho!

_ Não, não tenho nenhum trabalho para voltar.

_ Mas você não tem que voltar para seu trabalho?

… taquiupariu, essa mulher já está me irritando!

_ Não, quem está no trabalho é meu marido, posso voltar a qualquer hora. Achei que a senhora é que precisasse voltar ao SEU trabalho (afinal, até esse momento, não sabia se estava falando com uma corretora).

_ Eu  não, você vem às 5 então (mandando eu ir às 5).

_ Confirmando o endereço é rua tal, número tal?

_ Isso

_ Quando chegar, telefono?

_ Claro que não, quando chegar você toca o interfone!

_ No anúncio não consta o apartamento, nem a senhora me disse. Toco o interfone para qual apartamento?

Resposta em tom de quem está me dizendo algo óbvio.

_ Mas é o 9 A, claro! Se é o 9 A é só apertar o 91 e tocar a campanhia, ué!

Ah, bom, claro, vou na sua casa todos os dias, por que não advinharia seu apartamento? E lógico, se o apartamento é 9 A, o código tem que ser 91! Que burra que sou, putz!

Por outro lado, queria mesmo ir ao centro e dar uma olhada em outros lugares, ver se havia alguma placa de aluga-se e sentir um pouco a região. Então, eu vou e aproveito a viagem.

_ Muito bem, estou saindo agora de casa.

Peguei um taxi, para ir mais rápido, já me preparando psicologicamente para mandar a indivídua a tomar por culo. Prontinha para dizer, minha senhora, tem milhões de apartamentos para alugar, uma crise de dar gosto, não preciso alugar esse, quer mostrar, mostra, não quer, não me enche o saco!

Cheguei, apertei o 91, claro! Toquei a campanhia e da porta se ouvia aquele esporro de cachorro, que não parecia pequeno. Logo pensei, melhor abandonar o plano de mandá-la a tomar por culo! Abre a porta uma senhora, até sorridente, da idade da minha mãe. Pronto, agora, pela prerrogativa da idade, nem posso ser mal educada!

Bom, não deu tempo de pensar em muita coisa, porque minha atenção estava direcionada a um cão com aparência de mistura de pit bull com fila brasileiro, agarrado pelo pescoço pela tal senhora, avançando e rosnando – não latindo, eu disse rosnando – para minha pessoa. A senhora sorrindo, agarrada ao pescoço canino, me dizendo que podia passar que ele não fazia nada!

Ninguém merece! E eu nem vou ficar nesse apartamento de doidos mesmo!

Paciência, por sorte estava naquele espírito meio puta da vida e lembrei do Cesar, o  “Encantador de Cães”, que Luiz adora assistir, gosto também, mas menos que ele. Adotei logo a postura fria de cadela Alfa, colocando o animal em seu lugar. Pior é que funcionou e logo ele ficou tranquilo.

Em pouco tempo, percebi que a senhora não fazia por maldade, era bronca mesmo. Essa coisa da lógica ibérica, que já expliquei algumas vezes. Não deixa de ser cansativo, mas me esforço para ter um pouco mais de boa vontade quando vejo que não é uma questão pessoal, e principalmente por ser uma pessoa um pouco mais velha.

_ O apartamento é seu?

_ Claro que o apartamento é meu? Vai ser de quem se estou aqui?

Vai ser de quem? Está escrito na testa dela que é a dona do apartamento! Ela não pode ser a mãe da proprietária, corretora… Com a vontade que me mostrava o imóvel, poderia ser até inquilina!

_ Pergunto porque estou vendo que o imóvel está ocupado, e se a senhora mora aqui, quando o imóvel estaria livre?

_ Ah, bom! Não, não, sou a dona! Só saio daqui quando alugar! (lógico)

Começou a me mostrar o apartamento com um pouco de pressa e ansiedade. Não é à toa que seu bicho é nervoso, tadinho. Havia parado de latir e me olhava um pouco confuso, me seguia, mas respeitava meu espaço vital. Para ser sincera, a essa altura eu também já estava com um pouco de pressa e vontade de ir embora.

No anúncio dizia que o apartamento tinha duas terrazas. Ela me mostrou a primeira e comentei, perguntando.

_ São duas varandas, não é mesmo?

_ Mas a outra está fechada! (definitiva)

Pensei, por que raios ela anuncia duas terrazas se a outra está fechada? Mas nem sei porque ainda perguntava alguma coisa, me restringi a seguir e terminar a visita o antes possível!

Até que entramos em outra varanda enorme, quando entendi que simplesmente estava fechada com janelas!

Gente, a doida devo ser eu, não é possível!

Continuamos a visita, vendo os quartos e banheiros e, ao terminar de passar por eles, muito rapidamente, ela ia fechando as portas. Cheguei a pensar que ela não devia querer me alugar, talvez por ser estrangeira, sei lá, até que ela me pergunta:

_ É só você e seu marido ou tem mais gente?

_ Não, só eu, meu marido e um gato.

_ Então, para vocês está bom dois quartos! Você não precisa mais do que isso! (ela decidiu)

_ Mas temos muitos móveis e trabalho em casa, como artista plástica. Preciso de espaço para uma mesa grande. Talvez pudesse colocá-la na terraza fechada…

_ Você trabalha como artista plástica? E isso dá dinheiro? (afinal, com tanta intimidade que nós tínhamos, era uma pergunta previsível, ne’?)

Diante dessa pergunta, não resisti e resolvi me divertir um pouco.

_ Não, mas não preciso, meu marido ganha bastante dinheiro por nós dois.

Acho que ela esperava qualquer resposta, menos essa. Ainda que fosse a única que ela realmente entendesse, por estar dentro do seu universo limitado de compreensão. E me respondeu, sem despeito, mas com uma pontinha de inveja tranquila.

_ Ah, bom, quando alguém pode se permitir…

_ Pois é, posso me permitir… tenho a sorte de poder seguir minha vocação… (caprichei no tom mais frívolo e fútil possível) Muito obrigada por mostrar o apartamento, vou pensar, conversar com meu marido e qualquer coisa telefono. Seu cão está mais calmo.

_ É, ele fica nervoso sempre que vem alguém no apartamento…

Não falei, mas pensei, a culpa é sua, ele só te imita.

O apartamento não era mal, mas já imaginou negociar a sério com a cidadã? Pois me inclua fora dessa!

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem?

Acordei com a sensação de que se não escrevo hoje, não escrevo nunca mais! Nem sei porque está tão difícil, geralmente é algo que me faz falta e agora está custando a dar vontade de contar as coisas. Pode ser esse tempo úmido e frio, mas sei lá, acho que estou meio de saco cheio mesmo.

Entre o primeiro e esse parágrafo, já fui umas três vezes ver se nasceu algo na geladeira, procurei meu gato, procurei os gatos da vizinhança pela janela, passei na fazenda do Facebook, pensei que as compras feitas pela internet estão demorando a chegar… beleza, chegaram, mais uma desculpa… caramba, Bianca, se concentra!

Vamos lá, até o carnaval, acho que ia tudo bem. A volta de Paris foi um pouco complicada, todas as voltas são um pouco complicadas, mas tudo bem.

Aqui, comemoramos um único dia de carnaval, o sábado. Geralmente, se organiza um desfile no Paseo de la Castellana de países sul americanos. Já participamos uma vez e foi bem divertido. Entretanto, como estão na fase de putear imigrantes, resolveram algora pedir documentação de todo mundo que participa. É razoavelmente absurdo você controlar a documentação de toda uma parada, além da intenção de colocar a galera no seu devido lugar. Não tenho idéia de como foi esse ano, porque nos recusamos a participar. Fizemos nosso próprio bloco independente, concentrado no Kabocla. Dali, fomos tocando percussão até a Plaza de España, subimos a Gran Vía, descemos a Preciados, paramos em Sol e finalmente, fizemos todo o percurso de volta. Devia estar frio, mas francamente, não senti nada. Também, alcoolicamente abastecidos como estávamos, podia nevar que não  ligava! Sei que nos divertimos, cantamos, batucamos, fizemos muitas amizades e, mais uma vez, chutamos o balde! No dia seguinte, descobri que as baquetas estavam quebradas de tanta energia, digamos assim, que massacramos os tamborins. Antes disso, ainda na concentração do Kabocla, consegui tocar um pouco de tantam e provei um surdo – o instrumento – da casa. Definitivamente, gosto de instrumentos de marcação, mas para a nossa avenida improvisada, o tamborim era muito mais fácil. Luiz tocou caixa e repinique, e houve um momento onde carregou os dois ao mesmo tempo, sem perder a pose.

No domingão, morgamos, mas sem consequências tão graves, além das baquetas destruídas e alguns hematomas inexplicáveis pelo corpo.

No início da semana, começaram as notícias chatas. Primeiro, o absurdo na renovação dos nossos documentos, que já contei em alguma crônica atrás. Enfim, como se costuma dizer, há males que vem para bem. Algumas vezes, fico me questionando se não sou muito rígida em pensamento e que talvez aqui fosse um bom lugar para ser minha casa. Viajando de vez em quando, respirando um pouco de ar puro, até que dá para aguentar. Mas tudo  na vida tem um limite e tenho certeza que aqui não é meu lugar. Tudo é uma questão de tempo e oportunidades.

Diante disso, mudei um pouco de idéia em relação a onde morar. Porque para complicar, precisamos achar um novo apartamento e não consigo me motivar nem me decidir. É que nem tenho vontade de olhar nada. Mas estive pensando que é melhor ir para algum bairro fora do centro, onde podemos estar em um apartamento maior por um preço melhor. Antes me fazia falta estar em um local central, para andar, ver gente, experimentar, ter histórias. Confesso que não ando me animando a por o nariz na rua, parece que me despertou alguma origem árabe desconhecida e minha vontade é de viver para dentro de casa.

Prefiro acreditar que vou melhorar na primavera e essa má vontade é só pelo inverno. Mas em Paris também era inverno, na verdade, bem mais cinza e frio que aqui. Enfim, difícil comparar, o que nos move são os objetivos, não o lugar. O problema é que cada vez fica mais difícil encontrar algum objetivo aqui. Não vou fechar portas, continuo atenta, só que cética.

Muito bem, durante a semana recebo a notícia que meu pai começou com febre outra vez. Putz grila! No dia 23, dia do seu aniversário, tinha uma cistoscopia marcada. Estávamos preocupados, porque ele já fez duas antes dessa, na primeira, descobriu que estava com câncer; na segunda tirou mais três tumores; por otimistas que estivéssemos, difícil estar absolutamente tranquilos. E com a febre, pensamos que poderia ser outra infecção urinária, o que adiaria tudo. Bom, fez os exames e descobriu que estava era com pneumonia. Parece meio louco, mas essa era uma notícia razoavelmente boa, a preocupação era se isso adiaria ou não a tal da cistoscopia.

Luiz perguntou se eu queria ir ao Brasil, achei que era precipitado, melhor aguardar os resultados.

Nisso, um amigão que conheci na primeira vez que fiz o Caminho de Santiago, estava fazendo o Caminho Português, por mais ou menos uma semana. Meio loucura, porque essa época é um frio do cão e chove, mas ele deu sorte. Ficou de passar aqui em casa na volta, coisa que fomos nós quem convidamos. O trágico cômico dessa história, é que da última vez que isso aconteceu – afinal, como eu, ele também já voltou ao Caminho – fui embora de urgência um dia antes dele chegar em Madri, exatamente quando se suspeitou que meu pai tinha um tumor e marcaram a primeira cistoscopia. Óbvio que todo mundo entende essa situação, mas repetí-la me parecia piada de mau gosto. Nem falei nada e resolvi assumir que as coisas poderiam dar certo.

No sábado pela manhã, ele chegou e até que foi bom para mudar um pouco o assunto. Havia prometido um jantar e um super vinho há bem uns dois anos, ainda no Caminho, e promessa, principalmente as gastronômicas, é dívida. Durante à tarde, ainda fomos dar uma palhinha no show do Telaraña, o levamos conosco e demos uma volta pelo centro da cidade. A verdade é que o frio não estava animador para uma caminhada mais longa.

Fiz o prometido jantar, com menos pratos do que gostaria, mas Luiz diz que sou exagerada e nosso amigo também não come muito. De entrada, uma gema pochet sob um creme de batata e escalope de foie gras; de prato principal, um crostillant de vacío com champignons ao porto. O vinho, um que estava babando para abrir desde meu último aniversário, o português Pera Manca. Ainda arrematamos com o espanhol Mauro, para continuar a conversa. Foi dando sono em todo mundo, até meu gato ficava nos chamando para o quarto e nos demos por vencidos. No dia seguinte, pela manhã, ele se foi.

Nesse domingo, nem saímos de casa. Um dia chuvoso, como quase todos ultimamente. Deixei algumas coisas encaminhadas para o jantar de Lulus que teria na segunda-feira, bom que ocupava a cabeça. Cozinhar me relaxa. Quando estou triste ou aborrecida, não. Mas não era o caso, estava só preocupada.

Na segunda, tentei levantar e quase caí outra vez na cama, completamente tonta. Mas que diabos é isso? Será ressaca? Mas não bebi nada além de água ontem! Desconfio que tenho labirintite meio fraca, nunca confirmei, mas explicaria o aparecimento tardio das minhas vertigens com altura. A semana não havia sido exatamente tranquila, às vezes acho que estou normal e administrando bem o estress, mas o corpo te sinaliza que nem sempre é bem assim. É possível que isso tenha desencadeado a tal tontura. E aí, que faço? Também não confio em médicos aqui. Resolvi dar um par de dias e ver se melhorava sozinha. Enquanto isso, procurei não levantar nem deitar muito de repente. Engraçado, porque acho que sou muito inquieta e fazer movimentos lentos me cansa, tenho que pensar. Dormi mais um pouco e levantei – devagar – bem melhor.

Chequei os e-mails e descobri que o encontro à noite havia sido cancelado. Pombas, logo agora que já tinha adiantado as coisas desde ontem! Da mesma maneira que cozinhar me relaxa, acho decepcionante cozinhar à toa. Paciência.

Acompanhei as notícias do Brasil, meu pai estava melhor, sem febre, mas sem confirmação se faria mesmo a cistoscopia ou não. Fomos nesse suspense até terça-feira, o dia originalmente marcado, quando o médico resolveu que não havia motivos para adiar mais. Ainda bem, porque no fim da tarde recebi a melhor notícia do ano, nenhum tumor encontrado! A data escolhida era ambígua, seu aniversário, poderia ser um balde de água fria a ser lembrando anualmente dali para frente, mas não foi. Na verdade, foi um presentão.

Diante disso, meus problemas ficaram menores. Às vezes, a gente precisa colocar as coisas em perspectiva, o que para mim é sempre um esforço.

Na quarta-feira, me toca o correio na porta. Era o livro que escreveu esse mesmo amigo que recebemos no fim de semana, contando a experiência de trilhar o Caminho de Santiago. Levou mais de dois meses para chegar, e chega justamente em seguida à sua visita. Por se tratar de uma história real e termos trilhado uma parte juntos, sou uma das personagens nos últimos 200km do livro, coisa que não vou negar, gostei muito. Claro que o livro é muito mais do que isso e é a sua versão dos fatos, além de um recorrido histórico genial. As folhas já foram devidamente devoradas em menos de dois dias, e mesmo já tendo lido por internet antes, é diferente ter o papel na mão. Acho legal ver meu nome em um livro e saber que sou eu, pode ser vaidade, talvez seja, mas juro que é muito mais pelo registro. Parece que quando as coisas estão escritas valem mais, se concretizam e te dão a oportunidade de reviver, se quiser.

Ainda me lembro o que se passava na minha cabeça naqueles momentos, da sensação de dor, da dúvida se era capaz, do cheiro de merda de vaca, dos latidos dos cachorros trabalhadores e do que me fez voltar para fila, da lama nas botas… e ainda me impressiona pensar que tantas coisas que parecem ser horríveis foram tão boas. Era só uma questão de por em perspectiva. Não sei porque, mas tudo meu é viceral, o que tem a vantagem da intensidade, mas dificulta ver a imagem inteira de tão perto. De lá para cá, já mudei de idéia muitas vezes, minha tolerância a dor aumentou muito, fisicamente inclusive, e não me afasto muito tempo das minhas botas.

E para quem não estava lá muito afim de escrever, acho que por hoje está bom.

Como putear um imigrante: manual prático espanhol

Putear é um termo espanhol bastante utilizado. Não tem o peso de um palavrão, soa mais como o sacanear brasileiro.

Quero falar de um tema que ando evitando, porque sempre me aborrece. Mas não tem jeito, mais cedo ou mais tarde ele aparece na vida de uma i-mi-gran-te! Hoje foi dia de solicitar o novo visto. Quer dizer, teria sido o dia, se não tivessem mudado as regras no meio do caminho. Um pequeno detalhe, as datas foram mudadas através de uma circular interna. Isso mesmo, não importa o documento que você recebe do Ministério do Trabalho. Vale mais um papel que o Don das Coves resolveu circular internamente no seu departamento.

E por que mesmo isso aconteceu? Posso dar explicações técnicas absurdas, mas a verdade, todos nós sabemos, é para putear os imigrantes.

Nisso eles são mestres! Poderiam, no mínimo, utilizar essa energia para fazer de maneira mais inteligente, pois com a atual cabecinha de ostra, não se favorece a ninguém, nem aos próprios espanhóis. Outra vez, a velha conhecida atitude provinciana, que a meu ver é o pior defeito que encontro aqui e não há cão que faça com que eu me adapte! Até porque é muito difícil me adaptar à burrice. Não tenho mais como ser condescendente, insistir em se negar a ver o que acontece no resto do planeta é insano. Porque, claro, como tudo aqui só pode ser o que há de melhor no mundo, quem vem de fora só pode ser pior! Tudo que muda só pode ser horrível! O que em uma primeira análise parece orgulho nacional, mas na prática é uma grande covardia em tentar e fazer feio. Então, melhor nem tentar. O bom é esse jeito que eu sei. Então, vamos alimentar a mediocridade.

Não consigo entender porque raios usam o pseudo patriotismo para andar para trás! Patriotismo, em teoria e mesmo com ressalvas demagógicas, visa unir um país para crescer, para ser melhor. Como você pode ser melhor em qualquer coisa se só olhar para o próprio umbigo? Como você sabe que é melhor se não sabe o que há em volta?

E meu ponto hoje, como incentivar a vinda de tecnologia e conhecimento de fora com a atual política burra de imigração? Não vai acontecer!

Já disse e repito, não há nada mais injusto que tratar pessoas diferentes da mesma forma. E é absolutamente estúpido escolher a pior forma para tratar a todos. Apesar de todas as mudanças e aprendizado com esse último período de imigração que passa pela Espanha, a lei vigente continua se baseando exclusivamente em quem chega ao país ilegalmente em uma patera.

Vamos dar exemplos concretos. Suponhamos que um cidadão estrangeiro consiga o visto de trabalho espanhol. Nem vou entrar no mérito de que para isso ele precise provar que nenhum outro espanhol pode ocupar seu lugar, o que inclusive, estou de acordo. Muito bem, se esse cidadão é casado e quiser que a esposa venha para o país legalmente, precisa esperar um ano (sim 12 meses) para que o visto de sua esposa saia. Existem algumas razões para isso, uma é obviamente o intuito de freiar a entrada de mais gente, mas também porque se parte do princípio que alguém veio antes ilegalmente e ralou aqui até conseguir trazer a família paupérrima e ignorante.

Agora, vamos analisar meu caso, que no universo de empresas internacionais nem é tão raro assim. Aliás, é cada dia mais normal. Meu marido foi convidado por sua empresa para vir para cá. Ele não pediu para vir, ele provou que não há um espanhol que tenha suas qualificações, ou seja, ele vem aportar conhecimento, é – ou deveria ser – do interesse do país. Sabe como é a lei? Exatamente a mesma. Em tese, eu deveria esperar um ano separada do meu marido para residir legalmente na Espanha. É óvio que essa condição não foi aceita, nem por nós, nem por ninguém na mesma situação. Então, criou-se uma exceção à regra por pressão das empresas. Ainda que a lei permaneça a mesma.

Ainda havendo essa exceção, que é quase considerada um favor que eles fazem, o restante do processo é igualzinho, com filas e prazos absurdos. Menos mal que temos direito a advogados que nos auxiliam. Inclusive, olha que beleza, sou uma das sortudas que está passando pelos processos no momento em que eles estão sendo criados. E a parte mais divertida da história, as regras mudam quando eles querem.

Muito bem, enquanto a Espanha buscou por mão de obra barata, que os espanhóis não estavam dispostos a ser, vamos abrir a porteira! Alguém selecionou essa entrada? Imagina! Fizeram vista grossa à vontade para passar deus e o mundo.

Em seguida, precisava se incrementar o ingresso de pessoas que sustentassem uma população que envelhecia sem quem bancasse suas aposentadorias. Beleza, impostos! Vamos legalizar a galera! Alguém se preparou para esse processo? Outra vez, alguém se preocupou em selecionar o que era realmente bom para o país? Não, colocaram todo mundo na mesma cesta, a mesma boiada!

Agora o país está numa crise de dar gosto! Cheio de desempregado! De quem é a culpa? De um monte de gente, mas o mais fácil e menos desgastante politicamente é mandar essa imigrantada toda de volta! Quem investiu aqui, quem trabalhou, quem teve interesse em se integrar à cultura, foi traído. Esteja ou não contribuindo com o desenvolvimento do país, que volte para sua terra!

Alguém pensou em como incentivar esse movimento contrário de uma maneira inteligente e estruturada? Imagina! Se na entrada que eles precisavam, ninguém pensou, que dirá na saída! Qual é o plano? Vamos putear os imigrantes! Assim a gente passa o recado que está difícil! Vamos sacanear nos aeroportos, porque dá imprensa. Vamos mudar as regras de quem está tirando a documentação, porque esse boca à boca corre. Vamos mandar o pessoal para cá e para lá, assim se perdem dias de trabalho e há mais chance de serem despedidos. Vamos pedir documentos pelas ruas para criar um clima tenso.

Mas, continuando, vamos lá, alguém com mais de dois neurônios, por favor me acompanhe. Quem está ferrado em seu próprio país, vai ser puteado à vontade e não vai voltar. Simplesmente, perderá um pouco mais de dignidade. E, aparentemente, são esses que a Espanha manterá aqui, os pais dos Latin Kings.

Porque os demais, quem tem poder de consumo, quem tem potencial intelectual e outras opções, não precisam disso. São esses que vão embora. Brilhante, né?

Interessante que nessa loucura sumiram também os turistas brasileiros. Sim turistas, que gastam, não estou falando de imigrantes pobrezinhos, os turistas mesmo, sumiram daqui. Madri era o segundo destino favorito para turismo dos brasileiros. Não vem mais ninguém. Duvido que algum imbecil local tenha se tocado do fato, provavelmente, culparão a crise! Sempre tem uma desculpa. Mas a verdade é que viajo bastante e continuo vendo os brasileiros passeando em outros países.

Muito bem, mas as pessoas na rua, o espanhol normal e corrente, tem alguma coisa com isso? Porque esse é um problema específico meu, como estrangeira. Pois eu acho que tem sim. Na sua rotina, concordo que o espanhol tem outras coisas e outros problemas para se preocupar, mas não vejo isso como fato isolado. É só mais um exemplo. Na verdade, estou falando de uma atitude provinciana, que insiste em se refletir em tudo.

A Espanha precisa decidir de uma vez se quer ser um grande país ou um conjunto de pueblos. Não há como fazer tortilla sem quebrar os ovos! Não há desenvolvimento sem investimento, tudo tem um custo. Não há melhora sem mudança. Ficar no meio do caminho, alimentando complexo de inferioridade e com desculpas esfarrapadas baseadas na cultura e na tradição não levarão o país a lugar nenhum. ¡Hay que mojarse!

Se vou esperar por isso? Provavelmente, não.

Mudanças, mudanças e mais mudanças!

Acho que toda viagem que faço, a cabeça é a primeira a ir e a última a voltar. Há sempre esse período limbo onde estou no meio do caminho, flutuando em algum universo paralelo.

Na última noite na França, nosso amigo fez um jantar para a gente, que além de estar uma delícia, ainda serviu para me dar algumas dicas. Sempre é bom ver quem sabe cozinhar em ação, porque todo mundo tem algum truque que não é secreto, mas a gente faz tão naturalmente que não lembra de contar para os outros. Sei que foi a melhor maneira de fechar uma viagem memorável, ao redor de uma mesa bem servida.

Daí vem o que chamo de glamour da volta, que consiste naquela pilha de roupa para lavar, compras para fazer, casa para organizar… enfim, mas não é de todo mau, porque também é um tempo para encaixar a cabeça no pescoço outra vez.

Chegamos em Madri com dias bonitos de sol, algo que aprendi a valorizar já faz um tempo. O céu da Espanha é muito bonito, mesmo quando está frio. Por mais que seja apaixonada por Paris, é impossível não notar que esteve como de costume, com o céu variando em graduações de cinza. Como estava feliz e ocupada, não chegou a me afetar, mas afetou meu gato, que apesar de se comportar muito bem, estava tristinho no final da viagem. Para o Jack, fez falta a luz e mais ainda o Luiz, eles dois me lembram que alguma rotina é importante.

Luiz foi nos buscar e ajudar a trazer a bagagem de mais de 40 dias. Viemos de trem, mais ou menos doze horas de viagem em uma cabine privada. Gostei, apesar de ser menos romântico e mais balançante do que imaginei. Mas preferi do que o avião, que chega tão rápido que não me daria tempo de mudar o canal. Jack não adorou a viagem, mas não causou nenhum problema, ficou grudado comigo praticamente a noite toda. Quando chegou em casa, nosso felino arrebitou logo o rabo, feliz da vida, dormiu praticamente três dias sem parar e quase sem querer sair do quarto. Agora está normal, ronronante, e já encontrou todas as frestas de sol que atravessam o apartamento.

Ainda de Paris, conversei com a amiga imparável que se dizia meio paradinha, temos mais ou menos aquele efeito da pólvora e o fósforo, que isoladamente são quase inofensivos. Enfim, resolvemos que seria bom uma festa para encontrar o pessoal, afinal de contas, não sei o que deu nesse ano, mas cada um foi para um lado diferente do mundo. E por que não outro reveillon?

Então tá, né? Marcado para o final de semana seguinte ao da nossa chegada, o reveillon em fevereiro. Todo mundo de branco, com direito a abrir champagne e pular as sete ondas (pode acreditar, nós pulamos!). Marcamos a festa durante o dia, a partir das 14:00hs, para não assustar muito os vizinhos com a nossa volta.

Pelo meio da semana, descobrimos que precisaremos deixar nosso atual apartamento. Pois é, outro capítulo da velha saga mudança de endereços, pois de uma só tacada aumentarei logo dois na minha lista, o de Paris e o próximo. Tenho que rever minhas anotações para confirmar se iremos para o número 35 ou 36!

Munidos dessa informação e, portanto, menos preocupados em incomodar os vizinhos, o ensaio para a batucada do carnaval foi liberado. Não sei como não fizemos chover nesse dia! Mas que foi uma delícia rever os amigos, isso foi. Infelizmente, o couro do meu tantam amanheceu todo furadinho, acho que alguém batucou com anel, sei lá, pelo menos não afetou o som. Agora precisamos pensar na festa de despedida dessa casa, mas melhor encontrar um lugar para morar antes.

Não está fácil, porque esse apartamento é muito bom e tem uma relação de preço, tamanho e localização quase imbatível. Por outro lado, tem uma coisa que me chateia há algum tempo, ele é objeto de disputa em um divórcio e nós não estamos nem um pouco afim de ficar no meio desse fogo cruzado. Já tivemos que mudar de telefone, já acordei com a polícia na porta para confirmar quem mora aqui, enfim, já deu. Não me apeguei ao local, só estou com um pouco de preguiça para achar outro.

No domingo, logo após nosso reveillon fora de época, não levantamos muito tarde. Um pouco de ressaca, mas nada tão grave, só cansaço mesmo. De qualquer forma, queria passear de carro pela cidade e ver se sentia alguma preferência diferente por algum novo lugar para morar. Chegamos a ver fora de Madri também, pensamos na possibilidade de uma casa mais afastada, considerando que minha carteira de motorista agora é válida aqui. Mas logo no caminho vi que não estou preparada psicologicamente para uma vida não urbana. Acho que estava esperando aquela cidadezinha linda e charmosa do interior da França, coisa que só existia na minha imaginação. Uma parte considerável dos pueblos não tem muito mais charme além do que as pessoas guardam na memória afetiva.

No comecinho da noite, ainda fomos para o Kabocla, no show de despedida de uma amiga que está voltando para o Rio. Mas uma que se vai e nem posso ficar mais triste, é egoísta não querer que as pessoas sigam seus caminhos e já vi tanta gente chegando e partindo. Sinto saudades, mas realmente aprendi que é bom ter amigos espalhados pelo mundo que nem é tão grande assim. Se eles estão bem, por que eu não ficaria?

Definitivamente, esse ano iniciou com um poder de mudança impressionante. Sorte de quem perceber a onda e pular na sua crista.

E falando em comida, onde comer em Paris?

Bom, como boa parte das decisões que a gente toma, onde comer é uma eleição muito pessoal. Depende do gosto de cada um e de quanto está disposto a investir em determinado momento.

No meu caso, que não me incomodo em cozinhar, inclusive gosto e levo jeito, a opção de sair para comer precisa ser boa. Ou melhor ficar em casa!

Acho que boa comida é obrigação em qualquer restaurante. O preço deve variar em função da complexidade do prato, tipo de ingredientes, ambiente em geral, serviço e por aí vai. Ou seja, barato ou caro, um restaurante precisa oferecer uma comida honesta e o preço precisa ser compatível com que se oferece.

Vou começar pelo que não gostei. Le Relais de l’Entrecôte, é uma cadeia de restaurantes, fui no de Montparnasse. Recebi uma boa indicação, vi filas e filas na porta e deduzi que só poderia ser um bom lugar. Fui com a expectativa alta e achei fraco. É assim, primeiro só existe uma opção que é uma saladinha verde meio safada de entrada, o tal do Entrecôte que chegou flutuando em molho e batata frita, que sim estava bem feita. Como sobremesa, a super especialidade da casa, um profiteroles que tinha o mesmo sabor de qualquer outro congelado. Tomei uma taça (não uma garrafa, uma tacinha) de vinho tinto e um café. Saiu por 40 euros! A comida estava ruim? Não, mas não valia esse valor mesmo. Será que dei azar no dia? Talvez, mas não tenho a intenção de voltar para confirmar. 

Então, vamos aos que recomendo, alguns já contei por aqui em algum momento. Pasco http://restaurantpasco.com/ , ótima comida, tradicional com certa criatividade, serviço simpático. Chez Andre, 12 rue Marbeuf, 0147205957, apertado como qualquer bistrot parisiense ainda que o local nem seja tão pequeno, melhor fazer reserva, a comida é ótima e bem servida. Chez Janou, http://www.chezjanou.com/, uma graça, público um pouco mais jovem, mas nada incômodo. Chez Marcel, 7 rue Stanislas, 0145482994, um bistrot mais típico seria impossível, pequenininho, é levado por um casal simpático de senhores, o preço é mais do que justo e a comida é ótima, achei romântico. Les Papilles, http://www.lespapillesparis.fr/, considerado um dos melhores bistros de Paris e acho que com justiça, mantém a informalidade, mas os pratos são mais complexos e muito bem elaborados. Vini Lounge, http://www.vinilounge.fr/, é um bar à vin, modernoso, sempre aberto, bom atendimento, pratos bem cuidados, ótimos vinhos e preço justo. New Jawad, http://www.newjawad.com/, comida da indiana e paquistanesa, para variar um pouco, né? La Place Royale, 2 bis. Place des Vosges, 0142785816, bom, só de ser na Place des Vosges já ganha pontos, mas ainda por cima, a comida é boa e o atendimento atencioso, é correr para o abraço!

Qualquer creperia da rue Monptparnasse, deve haver pelo menos uma meia dúzia. São simples, apertadinhas, baratas e legais. Aliás, qualquer creperia do meio da rua também serve. Aquele crepe quentinho, feito na hora, com o queijo derretendo e uma pimentinha do reino é o céu!

Também como maravilhosamente bem na casa do nosso amigo francês, mas esse, infelizmente não posso recomendar.

A Fábula da Torta de Chocolate

Tenho pensado muito na vida. Essa é minha última semana em Paris, pelo menos, nessa temporada, porque no futuro, nunca se sabe. Daqui levarei mais um idioma (ou uma porta para ele), receitas, sabores, diplomas e novos amigos. Acontece que outra vez, mais do que tudo, levo a experiência, e essa foi das extraordinárias, das que nos viram ao contrário.

Realmente, sinto muito que o mundo não seja justo e nem todos possam ter uma oportunidade como essa. Um pouco pior quem pode e não tem, mas esse não é o meu ponto agora. O fato é que toda pessoa deveria, uma ou algumas vezes, poder parar, sair do próprio corpo, da própria rotina e se olhar por outro ângulo. Não sou o umbigo do mundo, mas não sei compreendê-lo quando não me entendo. E eu vivo me perdendo. Mas sempre volto para casa,  porque lembro que gosto da minha vida. Tenho muito orgulho de conseguir ser feliz ao máximo possível, no limite da estupidez. Eu gosto de ser casada, amo Luiz, sou louca pelo meu gato, acho que meus pais fizeram o melhor que puderam, reclamo do meu irmão mas fico puta se alguém reclama, gosto de ser família, queria ter mais primos, adoro meus amigos e adoro alimentá-los a todos.

Sou do tipo que acha divertido as refeições de família em mesas barulhentas; entendo conversas estridentes a cinco vozes de uma só vez; gosto de imitar meus parentes pelas costas (pela  frente ainda melhor); gosto de crianças que se sujam; gosto de rir em fotografia; gosto de rir; acho gostoso sentir minhas bochechas esquentarem a cada taça de vinho; fico excitadíssima quando descubro um sabor novo e necessito dividí-lo; adoro dar festas em que os convidados se sintam reis. Não é que só goste de gente, preciso de gente! Me ocorreu, de repente, perguntar, mas será que eles precisam de mim? E se precisam, estou fazendo certo?

As coisas não acontecem por um motivo único, é sempre um conjunto de razões que deixa determinado momento mais ou menos propício. Justo ou não, saí de Madri magoada. No fundo sabia disso, mas era difícil admitir, até para mim. Questionei se era boa amiga, boa filha, boa mulher. O que pinto nesse quadro? Que falta faço? Que função tenho? Porque às vezes a gente pensa que está contribuindo e não está adicionando nada a ninguém. O papel de vítima nunca me coube, o mundo não fica inteiro contra você de repente e não estava contra mim, se comecei a vê-lo assim, o problema era meu. Beleza, mas e aí? Ataque de insegurança? Falta de confiança repentina? Crise dos quarenta? Tudo era possível e aos poucos a vida ia se acertando, mas faltava algo para resolver essa questão de uma vez. Ou pelo menos, até a próxima crise.

Quando surgiu a idéia de vir para Paris, mais do que a possibilidade de realizar alguns sonhos, também era uma oportunidade de sair da areia movediça. Não sabia que era movediça quando mergulhei, mas foi minha escolha pular e esse é o preço que a gente paga quando arrisca. Não era toda minha vida, apenas um momento dela, mas difícil, importante e bem mais longo do que imaginei.

E a propósito, se havia alguma insegurança da minha parte, não existe mais. Temporariamente, questionei se deveria acreditar nas pessoas, mas tenho a sensação que elas não deixaram de acreditar em mim e isso fez muita diferença. Às vezes, a gente precisa se ver no olhar do outro para se reconstruir.

Cada final de ano, elejo alguma característica ou objetivo que me guiará no próximo.  Por exemplo, tem ano que acho que preciso exercitar a generosidade, outro a paciência… Geralmente, procuro algo que acredito ter pouco, mas que considero fundamental para evoluir. Esse ano escolhi a coragem. A principal diferença é que pela primeira vez acho que é uma característica inerente à minha natureza, normalmente, nem percebo. Acontece que tudo que não se exercita, se enfraquece, e é de coragem que vou precisar.

Porque quero mergulhar muitas vezes mais e agora já sei que do outro lado pode ser areia movediça. Mesmo assim, vou pular e vou precisar de coragem. Está na hora de ser mais atrevida.

A primeira vez que me dei conta que possuía o tal do atrevimento, foi em uma bronca do meu pai, que nem me lembro mais porque, mas me lembro dele dizer entre outras coisas, que eu era atrevida, mas isso ele não ia tentar mudar, porque era meu. Fiquei meio na dúvida se isso era bom ou mau e por que mesmo eu era atrevida? Ficou registrado o comentário na minha cabeça.

Anos mais tarde, uma história bobinha fez cair uma ficha que me serviu bastante depois. Nessa época, trabalhava em consultoria e estava em um desses eventos enormes para empresas, realizados em hotéis. Na hora do almoço, havia aquelas filas para se servir no buffet, separado entre saladas, pratos quentes e sobremesas. Muito bem, ainda que estivesse concentrada, e como todos meus companheiros de mesa, tentando parecer inteligente e contribuir com alguma opinião profissional interessante, a verdade é que minha antena estava focalizada em uma torta de chocolate ma-ra-vi-lho-sa que havia no fim da mesa. O engraçado é que havia outras tortas ao redor, que me pareciam menos apetitosas, sendo consumidas e ninguém tocava na bendita torta de chocolate. Por mim, ótimo.

Finalmente, lá fui eu e um colega consultor para a fila das sobremesas. Íamos conversando sobre trabalho e tal, eu numa ansiedade infantil de chegar logo na torta, porque a fila era grande e ela podia acabar. Para minha agradável surpresa, ninguém havia ousado tocá-la. Quando chegou minha vez, vi que a torta não havia sido cortada, como as outras haviam, mas a espátula estava ao lado. Fiz o que me pareceu absolutamente óbvio, peguei a espátula, cortei um pedaço e me servi. Meu amigo consultor começou a rir e me disse: mas você é atrevida mesmo! Na sequência, se serviu da mesma torta e me disse que ainda bem que cortei porque ele ficaria sem graça em começar. Imediatamente, comecei a prestar atenção e percebi que não foi um esquecimento ou uma coincidência, era estratégia do buffet. Porque, após essa mesma torta ser cortada, por mim, evaporou e precisou ser reposta. As outras tortas, foram praticamente ignoradas. Ou seja, eles contam com a falta de iniciativa do grupo para equilibrar a saída das sobremesas. Se no primeiro momento a torta de chocolate estivesse cortada, as outras sobrariam muito mais.

Veja bem, o público era de adultos, executivos, de ótimo nível intelectual, os recursos estavam lá e disponíveis. Tudo bem, devia ter meia dúzia que amava torta de limão, outra meia dúzia que nem gostava de sobremesa, mas o fato da torta ter evaporado logo depois me fez pensar que não era por acaso. A maioria das pessoas, por motivos diferentes, não quer tomar a iniciativa. Toda iniciativa implica em um risco, de diferente importância, mas definitivamente um risco.

Moral da fábula: atrevidos eventuamente caem na areia movediça, mas sempre comem o melhor pedaço da melhor torta.

São opções, não há uma mais certa que outra, mas, simplesmente, gosto de torta de chocolate.

Esquentando o umbigo no fogão e ainda por cima gostando!

Engraçado como é diferente a gente fazer as coisas por opção ou por obrigação. O trabalho é absolutamente o mesmo, mas a relação com tempo, com cansaço, com prazer, é totalmente relativa.

Eu odeio acordar cedo com todas as minhas forças, sempre odiei. E cá estou eu, acordando no escuro! Tem gente que simplesmente não suporta cozinhar, erra a água do miojo e sofre quando se depara com essa obrigação. Pois eu escolhi acordar no escuro e sair para cozinhar de propósito!

O primeiro dia do curso na Le Cordon Bleu, amanheceu assim.

(PS: a foto foi tirada às 8:00hs, no caminho. Eu devo ter tacado pedra na cruz!)

Um pequeno detalhe fundamental: era sábado! Um ser humano precisa ter muita vontade para levantar da cama! Mas sim, eu tinha uma vontade danada.

Veja bem, isso está muito longe de ser uma lamentação e é exatamente esse meu ponto. Porque escolhi estar aqui, acho uma oportunidade do caramba e os inconvenientes parecem ridículos perto da recompensa em fazer alguma coisa na qual acreditamos. Qualquer coisa. Não tenho a menor idéia do que vou fazer com essa experiência no futuro, mas nesse momento, me dá absolutamente no mesmo. Em termos práticos, estou no mesmo lugar, sem grandes definições do que fazer da minha vida depois, mas ter essa sensação de motivação outra vez é de um poder gigantesco. Nada que me deixe tão feliz pode estar errado e talvez esse seja um sinal de que pelo menos estou na direção certa. Minha pele mudou, minha cara mudou e, como não poderia deixar de ser, cortei o cabelo. Mulheres que mudam por fora, já mudaram por dentro.

Mais cedo ou mais tarde, outras crises virão, porque a vida é assim. Mas isso não me interessa agora, porque tenho muita coisa para aprender.

E o que há de tão especial nos cursos que estou fazendo? Nada. Não há nada de fantástico ou excepcional, a única coisa é que eu quero muito. Às vezes, a gente se frustra porque tem expectativas surreais em um mundo que é comum. O que faz as coisas extraordinárias é a forma com que a gente olha e o quanto conseguimos experimentar e nos desenvolver com esse conhecimento.

Há algum tempo na minha vida, resolvi eliminar o: sempre quis fazer isso, mas… Nas coisas mais bestas, do tipo “sempre quis tocar percussão, mas meu pai não queria barulho em casa”. Quando me dei conta, havia uma lista enorme de coisas que não fiz por motivos que não existem mais. E não sei porque diabos a gente continua se prendendo durante anos, com pequenos sonhos guardados por impecílios abstratos. Depois é por falta de tempo, ou falta de dinheiro, ou preguiça, ou vergonha, ou um milhão de coisas que poderíamos administrar ou nos planejar. Pequenos sonhos são viáveis e quando alcançados podem trazer realização, confiança e motivação para outras grandes metas.

Nem tudo que queremos é possível, nossos gostos e prioridades também mudam. Mas acho que todo mundo que já quis muito alguma coisa um dia, deveria se perguntar de vez em quando, por que não tentar agora? Não sei para as outras pessoas, mas para mim, cada dia é mais difícil ter um sonho novo para realizar e viver sem planos não é uma boa idéia. Talvez seja um bom exercício começar pelos sonhos antigos.

Eu queria falar francês, queria saber como era morar em Paris e queria ter aulas na Le Cordon Bleu. Há algum tempo, isso seria impossível, ou pelo menos bastante difícil. Mas da última vez em que me perguntei, de repente, era acessível. Então, por que não?

Sobre o curso de francês, já contei um pouco e vai muito bem, obrigada. Hoje vou contar sobre a Le Cordon Bleu. Para início de conversa, e como boa parte das atrações por aqui, são muito mais famosas fora do que dentro da França. Muita gente nem sabe que é uma escola de gastronomia, porque em francês existe o termo “ele(a) é um(a)  Cordon Bleu“, usado para alguém bom em alguma coisa, como um “faixa preta“, usando um exemplo parecido em artes marciais. Mas fora da França, até onde sei, se não for a escola mais renomada, está entre elas.

É um prédio, não muito alto, com jeito de faculdade. A estrutura me pareceu ótima! E achei muito legal ver todos aqueles estudantes uniformizados como chefs, para lá e para cá, com apostilas, jogos de facas, pratos preparados dentro de algum compartimento transparente. De vez em quando, escutei português, os brazucas estão marcando presença. Mas esses são os estudantes dos cursos mais longos, o que infelizmente, ainda não é meu caso.

Nos cursos intensivos, nos pedem para ir de calças e mangas compridas e sapatos fechados. Recebemos um avental, um chapéu descartável e um pano com o logotipo da escola. Ao final do curso, recebemos um diploma.

Certamente, tenho alguma sósia, porque umas três pessoas diferentes me reconheceram de cursos que nunca fiz. Engraçado que no ano passado, no Lenôtre, me disseram a mesma coisa. Espero que minha gêmea perdida seja gente boa e cozinhe bem.

As aulas, pelo menos as que fiz, são dadas em francês e traduzidas em inglês. As turmas variam em uma média de dez pessoas, nem todas profissionais do ramo. Você pode fotografar, ainda que tenha gente que exagere e pareça tratar as aulas como uma atração turística. Uma ou outra foto de recordação, dos pratos que fez, do diploma, vá lá, mas um pouco de simancol ia bem. Não chegou a atrapalhar, mas achei o maior mico. Eu mesma tirei algumas fotos, mas poucas.

Bom, junto com os aventais, nós também recebemos apostilas com as receitas que serão tratadas no dia. O chef, que normalmente só fala francês, dá uma explicação rápida do que se trata, fala sobre os ingredientes e faz uma demonstração. Em seguida, cada um vai para seu posto de trabalho e manda ver! É tudo bem rápido e dá para ter um gostinho da pressão e velocidade de um restaurante. No final do dia, recebemos o diploma e levamos para casa o que preparamos durante as aulas.

O primeiro curso que fiz foi sobre pães. Trouxe para casa pães para um exército inteiro! Não sei como consegui carregar sozinha aquilo tudo. Meu plano inicial era dar algumas coisas para mendigos no caminho. 

Aliás, desculpa, esqueci, Paris não tem mendigo, tem SDF! Algo que traduzido seria como “sem domicílio fixo”. Gente chic é outra coisa, né? Cassilda, toda esquina de Paris tem um SDF, mas nesse dia não havia nenhumzinho de nada! Todos os mendigos da cidade se esconderam e fui toda desengonçada carregando sacola, caixa, bolsa e o escambau para casa.

Fiz um outro curso sobre croustillants salés, não sei muito bem como traduzir, mas são aquelas trouxinhas crocantes recheadas, no caso, com comida salgada. Meu forte costuma ser salgados, doces me aborrecem um pouco.

E na quarta-feira, terei um curso chamado Les Secrets du Chef, que imagino tratar mais sobre técnicas e dicas. Bom que no final há uma degustação, incluindo o vinho.

E agora vou dormir porque estou exausta e amanhã acordo de noite outra vez!

O primeiro dia de aula

Dia 4 de janeiro, segunda-feira, começaram as aulas. No website da Aliança Francesa, dizia que pessoalmente a inscrição poderia ser feita até um dia antes do início do curso. Chegamos em Paris uma semana antes e fomos até lá para fazer a tal inscrição. Para nossa surpresa, estava tudo fechado e, por sorte, consegui entrar no prédio por algum distraído que deixou o portão aberto. Encontramos o vigia, que nos falou que não havia problema, que a inscrição poderia ser feita no próprio dia 4, pois seria o primeiro dia útil do ano para eles.

Bom, essa informação não me deixou absolutamente tranquila, mas se não tinha outro jeito…

Na segunda-feira, acordei bem cedo, ainda estava escuro, me despedi do Luiz que pegaria a estrada de volta para casa pouco depois e pedi um taxi. Era muito cedo e muito frio para caminhar. Esperei pelo taxi poucos minutos na recepção do hotel.

Chega a taxista, uma mulher elegante, negra e toda de negro, com um casacão que ia até os pés e um tipo de turbante bem amarrado na cabeça. Pensei, legal, Madame Matrix vai me levar. Entramos no carro e ela parecia simpática, acho que se eu soubesse falar francês um pouco melhor, iríamos conversando. Ela ligou o rádio em uma estação animada e dava umas dançadinhas nas paradas dos sinais. No intervalo, o programa dava o horóscopo, ouvi o meu: scorpion, no trabalho, tudo se resolverá com bom humor. Então, tá, né? Bianca, positiva, qualquer encrenca na inscrição, bom humor!

Fui pelo caminho observando a cidade acordar e prestando atenção como poderia voltar à pé. E na rádio tocando The Locomotiondo it nice and easy now, don’t loose control… a little bit of rhythm and a lotta soul… so come on, come on, do the locomotion… come on, come on, do the locomotion… come on, come on, do the locomotion with me… Muito apropriado!

Muito bem, cheguei na escola cedo, com aquele friozinho na barriga gostoso e estranho de primeiro dia de aula. Já havia gente na fila, mas fui uma das primeiras a ser atendidas na recepção. Podia fazer minha inscrição na hora, mas antes precisava passar por um teste de nível. Subi rápido com um formulário para a biblioteca e comecei a fazer a prova. A parte de questões objetivas foi razoavelmente simples, mas havia também uma parte escrita. Pensei que poderia fazer melhor, mas ia me tomar muito tempo e já estava perdendo aula. Quer saber, deixei em branco e fui falar diretamente com a pessoa responsável em corrigir o teste e definir em que turma você entra. Para tudo isso você tem que entrar em filas diferentes, com um monte de gente perdida em uma babel de idiomas.

No fim das contas, achei que foi bom ter deixado a parte escrita em branco e ganhar tempo direto com a professora. Porque sou iniciante mesmo, no meu caso não ia fazer tanta diferença. Falando com ela, conseguia me expressar muito melhor. Bom, resumo da ópera, não havia mais vagas para o curso intensivo, que era de 4 horas por dia, todos os dias. Perguntei se havia alguma outra opção, porque gostaria de preencher toda a semana e ela me sugeriu o curso geral, três vezes por semana, 3 horas por dia e adicionalmente dois dias de atelier oral ou escrito. Preferi o atelier oral, duas vezes por semana, 3 horas por dia. Ela me encaixou em uma turma do curso básico, mas que já havia começado antes, ou seja, não era totalmente de iniciantes. Os cursos são dados por semana, começando sempre na segunda-feira. Tudo bem, tendo aula todos os dias, por mim está ótimo! E talvez se tivesse demorado mais na prova não houvesse mais vagas nem para esses cursos.

Com essa etapa terminada, fui para uma outra fila fazer o pagamento e preencher oficialmente a vaga.  E de lá, subi direto para a aula, que já estava na metade.

Entrei mais perdida que cego em tiroteio, mas não demorei muito a me encontrar. Já tentei participar logo de cara, antes que desse vergonha. E a verdade é que a turma era razoavelmente equilibrada. Descobri que tinha que comprar um livro e um caderno de exercícios, mas não foi um problema, fiz isso no intervalo de 10 minutos da aula. Uma aluna italiana, que regula idade comigo, se ofereceu para me mostrar onde comprá-lo. Fiquei feliz por ter alguém me dando alguma orientação e por saber que não seria a única adulta da sala.

Na volta do intervalo, com as coisas mais definidas, pude observar melhor quem eram meus companheiros de classe. As idades são diversas e as nacionalidades também, mas apenas um ou dois alunos pareciam ser menores de idade. Acho que a média está pelos seus 25 anos, com uma ou outra extremidade, como eu, fugindo para cima ou para baixo. A turma do atelier oral é outra, mas o perfil é parecido.

E tem de tudo! Meus colegas dos dois cursos são assim, um brasileiro de uns 16 anos muito bonitinho em férias escolares e que também quer estudar gastronomia; uma italiana simpática, talvez um pouco mais velha que eu, que veio morar em Paris; uma bailarina australiana altíssima, magra e linda de dar raiva que mora aqui há 4 anos e não fala chongas; outra bailarina etíope, que tem um jeito de brasileira e quando a professora disse a ela e a australiana que eram bailarinas, elas mal se olharam; um anão libanês que desce as escadas rápido como um foguete e não entendo como ele consegue; um indiano que não tem nem idéia do que a professora pede, mas seu amigo paquistanês traduz, ainda que ele também não entenda; um americano que vai se formar em comércio exterior, mas trabalha como garçon para pagar os estudos, adora fotografia e tem uma quedinha pela bailarina australiana; uma russa-americana (isso é que é globalização!) com jeito de filhinha de papai, que usa botas Prada, é um pouco fútil, mas de raciocínio rápido e prático;  uma japonesa simpática que mora em Paris há séculos, mas só agora que os filhos sairam de casa tomou coragem para estudar o idioma; uma japonesa modernosa, elegante e inteligente que vai, mais cedo ou mais tarde, conduzir os negócios da família; uma japonesa com voz de piada, maquiadérrima e assustadora; um vietnamita que a professora não entende absolutamente nada que ele fala, mas faz de conta que sim; uma missionária polonesa, estudando para ser freira, que no primeiro dia achei que fosse um rapaz gordinho, mas depois achei simpática e é uma das que fala melhor; uma acho-que-dinamarquesa estudante de MBA que quer trabalhar com moda; uma finlandesa que pinta o cabelo de negro e que usa uma trancinha lateral todos os dias; uma marroquina que não sei o que está fazendo lá, porque fala muito melhor que o resto da turma; uma saudita que vai de véu e tênis… e a cada segunda-feira, a turma dá uma ligeira mudada.

Mas vamos ao que realmente interessa, estou aprendendo. Consigo perceber melhora a cada semana, sinto que se pudesse ficar mais um mês, o progresso seria geométrico, mas acho que sempre é assim. Com dois meses, pensaria que se pudesse ficar três… E estou uma tremenda de uma CDF! Nem na escola fui assim, imagina! Faço os deveres, estudo em casa, participo na aula, tudo direitinho. É uma oportunidade difícil que não quero disperdiçar.

O duro é acordar! Sério, o despertador toca às 7:30hs, mas lá fora é escuro como a noite, não parece nem madrugadinha, é negro! Complicado abrir os olhos, sempre ponho o despertador para mais cinco minutos e acendo o abat-jour, para ir acostumando. Coloco a roupa de cebola, camadas em sua ordem monótona, tudo decidido na noite anterior, quando assisto a previsão do tempo. Quando você mora em países com estações definidas, assistir a previsão do tempo é importante e normal, você precisa decidir que sapatos e casacos usar ou terá problemas bastante desagradáveis.

Sair de casa é um exercício de diciplina, mas depois que clareia, melhora tudo. E foi bom escolher a aula tão cedo ou dormiria toda à manhã. Dessa maneira, posso aproveitar à tarde para aulas de gastronomia, mas essa já é outra história que contarei depois.

O Velho Galego

Da última vez que passei por Sarria, no Caminho de Santiago, chegamos muito cedo na cidade e paramos em uma cafeteria para fazer hora. Entra um senhor  distinto, pelos arredores dos 80 anos, de blazer e cachecol, uma boina bem arrumada e uma bengala conduzida com a naturalidade de quem substituiu o cajado. Viajei na cena lúdica, até que ele inicia a conversa com um conhecido que já estava no balcão, de uma maneira bastante singela. Em um gallego enrolado, disse com a voz rouca a pérola que soou assim: fáá un frii du caraio!

Quase engasguei com o café! Não sei o que esperava que ele fosse dizer, quem sabe um trecho de Cervantes? Mas ele tinha razão, fazia frio. Daí para frente, ele se posicionou ao lado desse conhecido e de tempos em tempos um falava alguma coisa, o outro demorava a responder e essa sequência se repetia alternadamente. A entonação era grosseira e seca, o que parecia uma discussão de gente muito aborrecida. Parei para prestar atenção no que diziam e era algo como: Fulano, pensei em passar na sua casa ontem… E por que não passou?  Você pode passar a hora que quiser, beltrano…

Eles eram amigos, era simplesmente uma conversa. Pela velocidade do diálogo e a quantidade de temas interessantes que diziam um para o outro, fiquei pensando porque se visitariam? O que raio eles iriam conversar? Devia ser a conversa mais monótona do planeta! E ainda por cima, salteada de eternos momentos de silêncio. Mas não demorei a mudar de idéia. É preciso ser muito amigo e ter muita intimidade para compartilhar o silêncio confortavelmente.

E por que contei toda essa história? Porque desde que começaram as aulas, não há um só dia em que não me lembre da sabedoria do velho galego. Primeiro, porque sinto saudade das pessoas que não me exigem explicações, certezas ou genialidade. Mas principalmente, porque a cada vez que coloco meu nariz na rua, que ainda está escura na hora que saio, penso meio desanimada, o que estou fazendo aqui? E a primeira frase que me vem à cabeça é: fáá un frii du caraio!

A lembrança da voz rouca e embolada de avô, me dá vontade de rir e me animo a encarar a neve e o vento congelante. Chego muito rápido no meu destino. Pouco depois clareia e meus dias tem sido muito bons e produtivos.

Tudo bem, fáá un frii du caraio, mas estou aqui, firme e forte.

Reveillon em Paris

No dia 27 de dezembro, logo após o café da manhã, tomamos o rumo para Paris. Precisávamos chegar na cidade até umas cinco da tarde, horário que os donos do apartamento que ficamos sairiam para sua viagem.

Engraçado como são as coisas, custamos a encontrar apartamento para ficar durante o reveillon, chegamos a fechar com dois imóveis, mas sempre acontecia algum problema e furava. Finalmente, um amigo do trabalho do Luiz, que mora em Paris, soube que estávamos procurando apartamento para alugar e ofereceu o dele, gratuitamente, pelo período em que estivesse viajando com a família. Maravilha! Um casal simpático com duas filhas lindinhas e uma gata que ficou em ambiente separado ao do Jack até eles partirem. Não sei se a Mia (sua gata) e o Jack se entrosariam, pareciam tranquilos, mas essas coisas é melhor não arriscar. Esse apartamento fica em Puteaux, a pronúncia para quem fala português não é convidativa (putô), mas a região é uma graça e fica a uma estação de Concorde, já dentro de Paris.

Uma vez instalados, começamos a fazer contatos para saber como encontrar com nosso sobrinho e os amigos. Primeiro encontramos nosso sobrinho, de sangue do Luiz, meu por afinidade. É muito curioso quando a gente conhece as pessoas enquanto são ainda crianças, porque a primeira imagem é sempre muito forte. Luiz, obviamente, o conheceu nenén e eu quando ele tinha por volta de seus 9 ou 10 anos, ou seja um menino. Só nos demos conta da sua idade real, quando ele nos disse que já tem 27 anos! Um homem!

Imagino que seja assim quando a gente tem filhos, não importa a idade que tenham, é muito difícil visualizá-los adultos. Eu já era casada com Luiz e me lembro de escutar meu pai avisar para minha mãe, falando sobre nós e meu irmão: vou descendo com as crianças! O pior é que não era pejorativo, foi absolutamente natural e na mesma entonação que ouvi minha vida inteira.

Mas enfim, achei muito divertido saber que sou tia de um marmanjo! Mas não achei tanta graça assim quando a faxineira que foi fazer a limpeza do apartamento nos perguntou se ele era nosso filho. Caraca, mãe de um cidadão de quase 30 anos, também não me sacaneia,né? Vaca míope!

Continuando, jantamos juntos no León de Bruxelles, conversamos um pouco, depois ele seguiu para balada com os amigos e Luiz e eu ficamos por Puteaux mesmo.

No dia 28, acordamos tarde e iniciamos uma mais ou menos rotina que durou até o reveillon. Os outros dois casais de amigos chegaram de procedências diferentes. Na verdade, um desses casais, ela está passando alguns meses em Paris e ele veio encontrá-la, nós saímos mais com eles. Durante o dia, cada um fazia seu próprio programa e à noite jantávamos juntos. Cada noite um casal deu uma sugestão. Fomos no “Pasco”, no “Chez André” e em um Café muito bonitinho que não lembro agora o nome, mas depois vou revirar meus cartões.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas não conseguíamos decidir onde ir na noite de reveillon. Só uma coisa era ponto em comum, ninguém queria passar na rua, porque na Champs-Elysées é uma roubadaça total! Começamos a ver os preços dos jantares e nada era menos que 160 euros, com direito a uma mera taça de champagne. Havia um par de festas que o preço era razoável, mas sem jantar nem bebida. Fizemos uma conta simples, estávamos em 7 pessoas, se considerássemos esse valor médio por pessoa, dava para tomar champagne até sair pela orelha! Disse que não me importava em cozinhar, a única coisa é que estávamos em Puteaux, um pouco longe. Eles toparam. O trato era jantar em Puteaux, romper o ano por lá mesmo e depois ir para Paris para alguma festa.

Sendo assim, no dia 30 fomos Luiz e eu para as compras e chutamos todos os baldes possíveis! Entre Moët Chandon, Veuve Cliquot, Taittinger e Jacquesson, foram umas quinze garrafas. De comidas, ingredientes para um salpicão de frutos do mar, salmão defumado com diversos molhinhos, salmão enrolado com creme azedo, caviar do enfurecido, folhados de foie gras e de queijo, torta de frango defumado, vários queijos,  pães, torradas e biscoitinhos. Velas para enfeitar, afinal um pouco de charme também conta. Considerando que éramos sete pessoas, pode-se dizer que estávamos mais do que bem servidos.

Dia 31, marcamos de nos encontrar cedo, por volta dàs 19:00hs, para aproveitar tudo com calma e a locomoção ser mais fácil.

A noite foi divertidíssima, pelo menos do meu ponto de vista. Aproveitei para burro! Para início de conversa, não sobrou nem uma garrafinha de champagne para contar história e nos acabamos em um banquete farto e com que havia de melhor. Por volta das duas ou três da matina, não sei exatamente, pois o teor alcóolico já fazia seu efeito, deixamos o apartamento e fomos para a estação de trem, direção Paris.

Acontece que não chegava nenhuma condução, ainda que tivesse sido anunciado que funcionaria por toda a noite. Resolvemos irresponsavelmente, ir de carro. Luiz nunca, jamais, em tempo algum, dirige quando bebe, mas nesse dia, não tínhamos muita escolha. Mais do que isso, precisavam caber sete pessoas dentro do carro! Foi mais ou menos no esquema da piada dos sete elefantes no fusca, três na frente e quatro atrás!

Muito bem, a essa altura, as bolhas da champagne começaram a subir rapidamente. Porque em casa, as pessoas (e eu) estávamos alegres, mas bem lúcidas. Quando a gente saiu, não sei o que raio aconteceu, que fiquei muito para lá de Marrakech! Só me lembro que no caminho fui com nosso sobrinho no colo – sim, havia um homem no meu colo, mas acho que na minha cabeça era o menino, porque nem achei pesado, só lembro que era impossível me mexer –  batendo o maior papo às gargalhadas, até porque ele não estava nem um pouco melhor que eu. No dia seguinte, Luiz me contou que falávamos dele como se houvesse um cone do silêncio à nossa volta e ele não pudesse escutar nada, sentado ao volante justo do lado! Ai, meu Deus, que exemplo!

Enfim, chegamos na tal festa e antes de entrar, um dos casais desistiu e resolveu pegar um taxi. Achei que seria muito improvável que eles conseguissem um taxi ali e àquela hora, mas não tinha muita condição de argumentar com ninguém. Depois, estava em meu planeta feliz e tudo bem! Entramos em cinco pessoas e começamos a dançar em um lugar grande e cheio, era uma festa brasileira.

Na minha cabeça, isso durou uns quinze minutos, mas na verdade, durou horas, porque já saímos com o lugar fechando de manhã. Avisamos ao nosso sobrinho que estávamos indo, ele nos disse que ia ficar com os amigos. É verdade que depois ele esqueceu e ficou nos procurando, mas isso só soubemos no dia seguinte. Realmente, acho que não tinha ninguém muito bem nem falando coisa com coisa.

Próximo passo: achar o carro. Cassilda, ninguém lembrava onde o carro estava estacionado!  Depois da primeira procurada em dois casais, ficamos as meninas na frente do local da festa e os meninos foram atrás do veículo perdido!

Um frio do cão, a gente tentando sentar em um parapeito alto de no máximo uns 10 cm. É lógico que quando conseguíamos subir, escorregávamos em seguida, mas acho que só desisti depois da quarta ou quinta tentativa. E os maridos passando para cima e para baixo e nada do carro! Eu deveria estar achando ruim, mas só conseguia rir da situação absurda. Até que, finalmente, o carro apareceu!

Demos uma carona para esse casal e seguimos para casa. Lembro de olhar o Arco do Triunfo e pensar, nossa, deve estar difícil passar por aí com tanta gente, mas estava absolutamente vazio. Foi quando olhei o relógio e me toquei que passava dàs 6:30hs! Foi só então que percebi o tamanho da noite.

No dia seguinte, ou melhor, pouco depois, uma ressaca daquelas! Além da quantidade de champagne, esqueci completamente de beber água, ponto fundamental para a recuperação. O dia primeiro foi inútil para todos nós!  Mas não me arrependi nem um pouquinho, bebi por mim e pelos meus. Que o ano seja farto, feliz, com a família e com os amigos. Sobretudo com saúde e bom humor para quando as coisas não forem tão bem quanto planejamos. Espero que Iemanjá tenha recebido meu recado e ainda tenha paciência em me esperar para alguma próxima noite de ano novo, em areias cariocas.

Dia 2, limpeza do apartamento, afinal queríamos entregar tudo impecável. Cuido muito bem do que é meu e melhor ainda do que é emprestado, principalmente com tanta gentileza. Deixamos tudo nos trinques e fomos de mala e cuia para um hotel pequeno que gosto muito, o Etats-Unis Opéra, é um três estrelas simples, limpo e bem localizado. Fiquei nesse hotel até o dia 5 de janeiro, quando liberou o apartamento que alugamos por um mês.

No dia 3, foi a primeira leva embora, um casal e o marido da menina que está morando aqui por um período. Pelo menos mais alguém ficou, que bom! Em um futuro próximo nos encontraríamos.

No dia 4, acordei bem cedo, era meu primeiro dia de aula. Despedi do Luiz, porque na volta já não encontraria nem ele nem meu sobrinho que aproveitou a carona para Madri e fez companhia em uma viagem longa de carro. Daí para frente, era Jack, eu e a casa nas costas.

Senti saudade antecipada, não solidão porque sei que Luiz me apoia no máximo que pode. E juntos a gente sempre pode muito mais, talvez seja esse o motivo principal de sermos um casal. Mas era algo que precisava fazer. Às vezes, tenho a sensação que Madri é aquele apartamento bem decorado, confortável, mas com o teto muito baixo. De tempos em tempos, fico claustrofóbica e preciso sair, me alongar, ou começarei a pensar pequeno. Preciso por a cabeça para fora d’água ou me afogo, mas posso chegar longe com um pouco de fôlego.

É bom começar o ano aprendendo e cheia de planos. Alguns deles podem não dar certo, mas não importa, porque é sempre o caminho que interessa e hoje, mais do que nunca, sei disso.

Natal em Grenade sur l’Adour

Dia 24, logo pela manhã, pegamos a estrada Luiz, eu e nosso felino. A previsão era de 6 horas de viagem, que se transformaram em 7, porque um dos pneus furou. Ainda assim, foi uma boa viagem. Jack se comportou melhor do que nunca, quer dizer, ele sempre se comporta, mas dessa vez além disso estava surpreendentemente relaxado, até dormiu.

Nos hospedamos em um hotelzinho que para mim é um oásis gastronômico no meio do nada, chamado Pain, Adour et Fantaisie. O lugar tem mais cara de casa do que de hotel, os quartos são grandes e com vista para o rio Adour. O preço é mais do que razoável, porque o carro chefe mesmo é o restaurante. O cardápio é  baseado em três opções que levam o nome do local, ou seja, há o menú “pain”, o “adour” e o “fantaisie”, que variam em relação ao tipo e número de pratos.

Sempre sento à mesa jurando que vou pedir o menú “adour”, que é o menor deles, ou seja, entrada, prato principal e sobremesa. Mas é sempre mentira. Era Natal e acabei não resistindo, caí na tentação do “fantaisie”, que nesse dia foi o amuse bouche, carpacio de vieiras como entrada, seguido por uma lagosta divina, uma ave de caça como prato principal, queijos, sobremesa, que era um tipo de suspiro em forma de bola recheada com sorvete, café e macarons. Claro, tudo acompanhado dos respectivos vinhos, que vão mudando ao longo do jantar. Isso quer dizer que além da orgia gastronômica de seis etapas mais o café, tomei sozinha o equivalente a uma garrafa de vinho. Arrependimento? Nenhum. E também imagino que nem precisasse dizer que Luiz consumiu exatamente o mesmo.

Achei que fosse difícil pegar no sono depois, mas nada, dormi que foi uma beleza! Verdade que era difícil virar de lado e impossível de bruços, mas tudo bem.

Dia seguinte, café da manhã na cama. Essa é a vantagem de ficar em hotel pequeno, para eles é muito mais fácil levar seu café que montar toda a estrutura no restaurante, portanto, o café no quarto é exatamente o mesmo preço. E vamos combinar, existe luxo maior no mundo do que café da manhã na cama?

Fomos dar uma caminhada pela cidadezinha, simplesmente para ter alguma fome na hora do almoço, porque a essa altura eu era pura gula. E para quem espera algo diferente de comida desse texto, pode esquecer, esse lugar é absoluta e unicamente gastronômico.

Dia 25 de dezembro, o restaurante estava cheio para o almoço. Em princípio, eles não abririam, mas imagino que com a procura eles resolveram mudar de idéia. E mais uma vez, me acabei! Destaco um tipo de maki de homard, ele fez assim, desfiou toda a lagosta, enrolou com uma lâmina de polvo cozida quase transparente e em volta a alga japonesa, o molho levava algo de leite de côco, mas muito suave. Um escândalo! E felizmente, um prato leve. Notei esse ano que ele está com uma tendência oriental, uma cozinha mais fusion. Também comi uma pintade, que parece uma galinha d’angola, recheada de foie gras. Aliás, Luiz pediu a picata de foie gras, o prato pelo qual ele é famoso. Trata-se de 4 escalopes de foie fresco, o básico, mas feito à perfeição. Só porque sou muito legal e para ajudar meu marido que já não tinha mais fome, comi um dos seus escalopes.

Muito bem, o restaurante do hotel fechava nessa noite e eles mesmo reservaram para a gente na cidade vizinha, que é outra chutação de balde gastronômica que estou até com preguiça de explicar. Mas para quem quiser pesquisar, só digo que é em Eugénie Les Bains, e o responsável é o Michel Guerard, papa da nouvelle cousine.

O engraçado é o seguinte, só a gente estava hospedado em Grenade nesse dia, as outras pessoas foram só para o almoço. Simplesmente, quando acabou a função do restaurante, todos os empregados foram embora e ficamos com a chave da porta do hotel! Se soubesse, tinha organizado uma festa e ninguém ia notar! Enfim, foi bizarro e divertido saber que éramos as únicas almas viventes por ali, me deu a maior vontade de ir fuçar na cozinha, mas me comportei como uma mocinha.

Mas voltando ao jantar, na cidade vizinha, o local se chama Les prés de Eugénie e, apesar de tudo pertencer ao Guerard e sua esposa, não é um único hotel. Há a opção de três tipos de hospedagem diferentes e dois restaurantes. lkmjn09———————————————nb                         hjuuuuuuuuu (e esse foi o Jack passeando no teclado, ele também quer participar) Continuando…

Há o restaurante mais tradicional, muito elegante, de comida e atendimento perfeitos! É normal que o próprio Guerard venha à sua mesa durante o jantar. É formal, e ainda que eles não cometam a indelicadeza de exigir, todos ou quase todos os homens estarão de blazer ou paletó. É bastante caro, dificilmente sairá a menos de duzentos euros por pessoa, mas vale cada centavo.

A segunda opção é mais despojada e informal, sem perder uma gota de charme. Se chama La Ferme aux Grives e tem o ambiente de cozinha de fazenda do sudoeste francês. Foi nesse que jantamos no dia 25.  Quando eu disser pelo que sou completamente louca, tarada de pedra nesse restaurante, vai parecer deboche, mas juro que não é. Eles fazem o melhor purê de batata do universo! O simples também pode ser um luxo. Mas vamos do começo, um caldinho de amuse bouche, seguidos por um souflé pequeno com sabor de pão-de-queijo e um embutido fatiado. Na sequência, Luiz tomou uma sopa com vieiras, com base em leite de côco (olha o oriental aí outra vez!), comi um carpaccio de salmão com um molho divino. De prato principal, a tal da pintade temperada com hervinhas frescas e o ma-ra-vi-lho-so purê de batata! O prato do Luiz não ficava atrás, uma carne grelhada com pasta ao queijo gratinada, outra delícia que belisquei. Luiz abriu mão da sobremesa, mas eu não desisto nunca, jamais! Tortinha de maçã quentinha e café.

Voltamos para nosso hotel-fantasma, em comum acordo que no dia seguinte não almoçaríamos nem em Grenade, nem em Eugénie! Não há dieta (nem bolso) que resista!

Muito bem, no dia 26 de dezembro, acordamos e fomos passear em uma cidade próxima, Mont-de-Marsan. Bem bonitinha, pequena, mas com uma estrutura mais que razoável.  Ali realmente só passeamos, almoçamos sem abusar. Compramos uma champagne para os amigos onde ficaríamos hospedados, o dono da loja nos recomendou a Jacquesson, dizendo que não era tão comercial e tinha muita personalidade. Aceitamos a dica, e no futuro próximo, não nos arrependeríamos.

Bom, mas já que não abusamos no almoço… era o último jantar antes de seguirmos viagem, então, dava para fazer mais um sacrifíciozinho, né? Comemos novamente no Philippe Garret, mas dessa vez mantivemos a palavra de seguir o menu “Adour”, com um número de pratos na escala humana. O engraçado é que nesse dia o cardápio estava inspirado na Espanha, é possível que tenha sido por nossa causa, porque viemos de Madri.

Dia 27, pela manhã, deixamos Grenade um pouquinho mais pesados e bem mais felizes.

Direção: Paris!