Tem mais alguém que ame de paixão manuais de aparelhos elétricos ou eletrônicos? Porque, na boa, cada vez que vejo aquelas verdadeiras enciclopédias, em diversos idiomas, tenho vontade de voltar ao tempo das cavernas!
Até bem pouco tempo, não lia bosta de manual nenhum! Saía apertando o que parecia lógico e o que não funcionava, perguntava ao Luiz, que aliás, lia todos os manuais! Parecia até gostar, o que sempre me deixou desconfiada que podia ser algum distúrbio, sei lá…
O problema é que o mundo se tornou complexo! Qualquer merreca de espremedor de frutas tem 47 funções! Há telefones celulares com tantas possibilidades que me surpreende que ainda por cima se consiga falar através dele! A propósito, o carro do Luiz fala!
O que quero dizer com tudo isso é que eu, uma das últimas dinossauras resistentes, fui obrigada a me render aos manuais! Admito que melhoraram muito, principalmente a parte de ilustrações. Ainda assim, é um saco! Aliás, alguém poderia tentar fazer um manual como histórias em quadrinhos, seria bem mais divertido.
Pois é, daí estou no apartamento atual, aprendendo a utilizar os aparelhos novinhos em folha. O proprietário caprichou e chegou tudo de última tecnologia, até aí, maravilha! Tudo lindo! E, obviamente, tudo acompanhado dos respectivos manuais. Ui!
A máquina de lavar louça ficou para o Luiz, só tive que dar um ou outro pitaco. Para mim, sobrou a lavadora e o fogão. Não adiantava pedir para ele, sou eu que uso e achei que ia tirar de letra. A lavadora foi mais simples, afinal, já havia quebrado a cabeça quando mudei para a Espanha e entendido que símbolo significava o que. Já o fogão…
Começa que nem o fogão nem o forno tem nenhum botão! Pelo menos, nenhum visível, é tudo camuflado ou embutido. O fogão é uma placa de indução, que a besta aqui só entendeu que era diferente de uma placa de cerâmica agora. Olhando para os dois é a mesma coisa, mas o funcionamento é totalmente distinto. Ah, tá… Taquiupariu, vou ter que ler o manual!
Pego o manual em 32 idiomas e nem tento me exibir, fui logo para o português mesmo! De abrir e achar as instruções na minha língua já me deu sono. Tudo bem, Bianca, atitude por favor! Comecei a ler com alguma boa vontade.
Primeiro, o fogão não liga se não tiver uma panela sobre a placa, no local dos bocais. Todo mundo entendeu que o bocal é um desenho, né? Ok, lá vou eu catar uma frigideira para fazer o teste. Coloco a frigideira, aperto que que tinha que apertar e nada! Tudo liga, mas fica piscando e apaga em seguida. Essa bosta veio com defeito, não é possível!
Passa Luiz, dá uma olhada no manual e diz qualquer coisa que a panela precisa ser de um material específico que o fogão de indução reconheça. Bom, li alguma coisa assim no manual, mas me pareceu um completo absurdo! Panela é panela! Achei que quando se dizia ser fundamental que a panela fosse específica para aquele fogão, se tratasse do seu melhor aproveitamento. Nunca imaginei que um fogão pudesse reconhecer uma… panela!
Não quis entrar na discussão, porque só gosto de comprar as brigas que tenho certeza, me restringi a aceitar meio contragosto e buscar outra panela maior. Dessa vez funcionou! Como se tratava de uma panela de pressão relativamente antiga, achei que não tinha nada a ver com tecnologia, simplesmente era mais pesada. Cheguei a colocar uma outra frigideira sobre a que não funcionava para ver se era o peso. E nada!
Cassilda! Onde foi parar o bom e velho fogão de fogo? Eu quero FOGO! Fo-go! Ele é feinho, chato de limpar, mas cozinha que é uma beleza!
Muito bem, pelo menos com alguma panela consegui que o fogão funcionasse, logo concluí que não tinha nenhum defeito, a defeituosa era eu! Resolvi entender o forno. Depois da surra do fogão, o forno foi mais dedutivo. Para algo serve a curva de aprendizagem!
Bom, tínhamos que comprar alguma coisa na loja de ferragens, que aqui se chama ferretería, e Luiz sugeriu que tentássemos também comprar outra panela apropriada. Entre nós, achei uma bobagem, mas para não parecer implicante, concordei. De qualquer maneira, já precisava mesmo de outra frigideira. Chegamos na loja e a primeira coisa que o vendedor nos disse é que se o fogão era de indução, só funcionaria com as panelas apropriadas! Lógico!
Solucionado o mistério do fogão, poderia ter ficado quieta, mas preferi não perder a piada e contei para Luiz o que se passou pela minha cabeça quando ele veio com aquele negócio que o problema era da panela. Para que? Ele ficou todo satisfeito porque finalmente tinha razão e agora quer contar essa história para absolutamente todo mundo, claro que adicionando alguns detalhes por sua conta, para dar um pouco mais de graça, digamos assim.
No mais, tudo bem, ainda não temos pia, mas acredito que até o fim da semana se resolva. Enquanto isso, a gente faz o sacrifício de conhecer um restaurante novo a cada dia. É um sofrimento, mas alguém tem que passar, né?






