O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem?

Acordei com a sensação de que se não escrevo hoje, não escrevo nunca mais! Nem sei porque está tão difícil, geralmente é algo que me faz falta e agora está custando a dar vontade de contar as coisas. Pode ser esse tempo úmido e frio, mas sei lá, acho que estou meio de saco cheio mesmo.

Entre o primeiro e esse parágrafo, já fui umas três vezes ver se nasceu algo na geladeira, procurei meu gato, procurei os gatos da vizinhança pela janela, passei na fazenda do Facebook, pensei que as compras feitas pela internet estão demorando a chegar… beleza, chegaram, mais uma desculpa… caramba, Bianca, se concentra!

Vamos lá, até o carnaval, acho que ia tudo bem. A volta de Paris foi um pouco complicada, todas as voltas são um pouco complicadas, mas tudo bem.

Aqui, comemoramos um único dia de carnaval, o sábado. Geralmente, se organiza um desfile no Paseo de la Castellana de países sul americanos. Já participamos uma vez e foi bem divertido. Entretanto, como estão na fase de putear imigrantes, resolveram algora pedir documentação de todo mundo que participa. É razoavelmente absurdo você controlar a documentação de toda uma parada, além da intenção de colocar a galera no seu devido lugar. Não tenho idéia de como foi esse ano, porque nos recusamos a participar. Fizemos nosso próprio bloco independente, concentrado no Kabocla. Dali, fomos tocando percussão até a Plaza de España, subimos a Gran Vía, descemos a Preciados, paramos em Sol e finalmente, fizemos todo o percurso de volta. Devia estar frio, mas francamente, não senti nada. Também, alcoolicamente abastecidos como estávamos, podia nevar que não  ligava! Sei que nos divertimos, cantamos, batucamos, fizemos muitas amizades e, mais uma vez, chutamos o balde! No dia seguinte, descobri que as baquetas estavam quebradas de tanta energia, digamos assim, que massacramos os tamborins. Antes disso, ainda na concentração do Kabocla, consegui tocar um pouco de tantam e provei um surdo – o instrumento – da casa. Definitivamente, gosto de instrumentos de marcação, mas para a nossa avenida improvisada, o tamborim era muito mais fácil. Luiz tocou caixa e repinique, e houve um momento onde carregou os dois ao mesmo tempo, sem perder a pose.

No domingão, morgamos, mas sem consequências tão graves, além das baquetas destruídas e alguns hematomas inexplicáveis pelo corpo.

No início da semana, começaram as notícias chatas. Primeiro, o absurdo na renovação dos nossos documentos, que já contei em alguma crônica atrás. Enfim, como se costuma dizer, há males que vem para bem. Algumas vezes, fico me questionando se não sou muito rígida em pensamento e que talvez aqui fosse um bom lugar para ser minha casa. Viajando de vez em quando, respirando um pouco de ar puro, até que dá para aguentar. Mas tudo  na vida tem um limite e tenho certeza que aqui não é meu lugar. Tudo é uma questão de tempo e oportunidades.

Diante disso, mudei um pouco de idéia em relação a onde morar. Porque para complicar, precisamos achar um novo apartamento e não consigo me motivar nem me decidir. É que nem tenho vontade de olhar nada. Mas estive pensando que é melhor ir para algum bairro fora do centro, onde podemos estar em um apartamento maior por um preço melhor. Antes me fazia falta estar em um local central, para andar, ver gente, experimentar, ter histórias. Confesso que não ando me animando a por o nariz na rua, parece que me despertou alguma origem árabe desconhecida e minha vontade é de viver para dentro de casa.

Prefiro acreditar que vou melhorar na primavera e essa má vontade é só pelo inverno. Mas em Paris também era inverno, na verdade, bem mais cinza e frio que aqui. Enfim, difícil comparar, o que nos move são os objetivos, não o lugar. O problema é que cada vez fica mais difícil encontrar algum objetivo aqui. Não vou fechar portas, continuo atenta, só que cética.

Muito bem, durante a semana recebo a notícia que meu pai começou com febre outra vez. Putz grila! No dia 23, dia do seu aniversário, tinha uma cistoscopia marcada. Estávamos preocupados, porque ele já fez duas antes dessa, na primeira, descobriu que estava com câncer; na segunda tirou mais três tumores; por otimistas que estivéssemos, difícil estar absolutamente tranquilos. E com a febre, pensamos que poderia ser outra infecção urinária, o que adiaria tudo. Bom, fez os exames e descobriu que estava era com pneumonia. Parece meio louco, mas essa era uma notícia razoavelmente boa, a preocupação era se isso adiaria ou não a tal da cistoscopia.

Luiz perguntou se eu queria ir ao Brasil, achei que era precipitado, melhor aguardar os resultados.

Nisso, um amigão que conheci na primeira vez que fiz o Caminho de Santiago, estava fazendo o Caminho Português, por mais ou menos uma semana. Meio loucura, porque essa época é um frio do cão e chove, mas ele deu sorte. Ficou de passar aqui em casa na volta, coisa que fomos nós quem convidamos. O trágico cômico dessa história, é que da última vez que isso aconteceu – afinal, como eu, ele também já voltou ao Caminho – fui embora de urgência um dia antes dele chegar em Madri, exatamente quando se suspeitou que meu pai tinha um tumor e marcaram a primeira cistoscopia. Óbvio que todo mundo entende essa situação, mas repetí-la me parecia piada de mau gosto. Nem falei nada e resolvi assumir que as coisas poderiam dar certo.

No sábado pela manhã, ele chegou e até que foi bom para mudar um pouco o assunto. Havia prometido um jantar e um super vinho há bem uns dois anos, ainda no Caminho, e promessa, principalmente as gastronômicas, é dívida. Durante à tarde, ainda fomos dar uma palhinha no show do Telaraña, o levamos conosco e demos uma volta pelo centro da cidade. A verdade é que o frio não estava animador para uma caminhada mais longa.

Fiz o prometido jantar, com menos pratos do que gostaria, mas Luiz diz que sou exagerada e nosso amigo também não come muito. De entrada, uma gema pochet sob um creme de batata e escalope de foie gras; de prato principal, um crostillant de vacío com champignons ao porto. O vinho, um que estava babando para abrir desde meu último aniversário, o português Pera Manca. Ainda arrematamos com o espanhol Mauro, para continuar a conversa. Foi dando sono em todo mundo, até meu gato ficava nos chamando para o quarto e nos demos por vencidos. No dia seguinte, pela manhã, ele se foi.

Nesse domingo, nem saímos de casa. Um dia chuvoso, como quase todos ultimamente. Deixei algumas coisas encaminhadas para o jantar de Lulus que teria na segunda-feira, bom que ocupava a cabeça. Cozinhar me relaxa. Quando estou triste ou aborrecida, não. Mas não era o caso, estava só preocupada.

Na segunda, tentei levantar e quase caí outra vez na cama, completamente tonta. Mas que diabos é isso? Será ressaca? Mas não bebi nada além de água ontem! Desconfio que tenho labirintite meio fraca, nunca confirmei, mas explicaria o aparecimento tardio das minhas vertigens com altura. A semana não havia sido exatamente tranquila, às vezes acho que estou normal e administrando bem o estress, mas o corpo te sinaliza que nem sempre é bem assim. É possível que isso tenha desencadeado a tal tontura. E aí, que faço? Também não confio em médicos aqui. Resolvi dar um par de dias e ver se melhorava sozinha. Enquanto isso, procurei não levantar nem deitar muito de repente. Engraçado, porque acho que sou muito inquieta e fazer movimentos lentos me cansa, tenho que pensar. Dormi mais um pouco e levantei – devagar – bem melhor.

Chequei os e-mails e descobri que o encontro à noite havia sido cancelado. Pombas, logo agora que já tinha adiantado as coisas desde ontem! Da mesma maneira que cozinhar me relaxa, acho decepcionante cozinhar à toa. Paciência.

Acompanhei as notícias do Brasil, meu pai estava melhor, sem febre, mas sem confirmação se faria mesmo a cistoscopia ou não. Fomos nesse suspense até terça-feira, o dia originalmente marcado, quando o médico resolveu que não havia motivos para adiar mais. Ainda bem, porque no fim da tarde recebi a melhor notícia do ano, nenhum tumor encontrado! A data escolhida era ambígua, seu aniversário, poderia ser um balde de água fria a ser lembrando anualmente dali para frente, mas não foi. Na verdade, foi um presentão.

Diante disso, meus problemas ficaram menores. Às vezes, a gente precisa colocar as coisas em perspectiva, o que para mim é sempre um esforço.

Na quarta-feira, me toca o correio na porta. Era o livro que escreveu esse mesmo amigo que recebemos no fim de semana, contando a experiência de trilhar o Caminho de Santiago. Levou mais de dois meses para chegar, e chega justamente em seguida à sua visita. Por se tratar de uma história real e termos trilhado uma parte juntos, sou uma das personagens nos últimos 200km do livro, coisa que não vou negar, gostei muito. Claro que o livro é muito mais do que isso e é a sua versão dos fatos, além de um recorrido histórico genial. As folhas já foram devidamente devoradas em menos de dois dias, e mesmo já tendo lido por internet antes, é diferente ter o papel na mão. Acho legal ver meu nome em um livro e saber que sou eu, pode ser vaidade, talvez seja, mas juro que é muito mais pelo registro. Parece que quando as coisas estão escritas valem mais, se concretizam e te dão a oportunidade de reviver, se quiser.

Ainda me lembro o que se passava na minha cabeça naqueles momentos, da sensação de dor, da dúvida se era capaz, do cheiro de merda de vaca, dos latidos dos cachorros trabalhadores e do que me fez voltar para fila, da lama nas botas… e ainda me impressiona pensar que tantas coisas que parecem ser horríveis foram tão boas. Era só uma questão de por em perspectiva. Não sei porque, mas tudo meu é viceral, o que tem a vantagem da intensidade, mas dificulta ver a imagem inteira de tão perto. De lá para cá, já mudei de idéia muitas vezes, minha tolerância a dor aumentou muito, fisicamente inclusive, e não me afasto muito tempo das minhas botas.

E para quem não estava lá muito afim de escrever, acho que por hoje está bom.

7 comentários em “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem?”

  1. Affee chica, vc devia ter falado pra nós né!!
    Bom, acho que realmente ta todo mundo meio esquisito , eu espero também que seja o clima louco . Ja marquei medico na semana que vem, coisa que venho enrolando já faz tempo.
    Estou desanimada, falta algo pra dar uma reviravolta na vida , affee preciso de objetivos e nao os encontro, o clima nao ajuda , enfim, vou fuçar pra ver se isso pode ser alguma vitamina ou hormonios que estao faltando ou estao desequilibrados !
    Estava sentindo falta dos teus escritos, todos os dias passo por aqui e estava um silencio …
    Bom , espero te ver no sabado!
    Beijos

  2. Oi Bianca

    Sabe que toda vez que voce demora pra escrever eu fico logo pensando, chiiii que será que ta acontecendo? Penso logo no seu pai, mas como noticia ruim chega logo, rapidinho penso que é a sua preguiça novamente, ainda bem!
    Realmente pra quem não queria escrever até que voce fez um bom trabalho.
    Beijos

    Marianne

  3. Oi, Marianne! Eu sei 🙂 Na verdade, também começo a receber os e-mails dos amigos me perguntando o que está acontecendo… heheheh… Tenho trabalhado na exposição de São Paulo. Besitos

  4. Oi, Didis! É sempre bom dar uma investigada. Não acho que é a única coisa, mas todas nós sabemos que esse tempo não ajuda em nada. E sim, vamos lá no sábado, tô preparando um kibe para levar. Luiz tá meio gripado, baixou a resistência, mas acho que até amanhã melhora. Besitos

  5. Os amigos que se conhecem no Caminho ficam pra sempre! E os que se conhecem antes e POR CAUSA do Caminho tb 🙂 nao consigo parar pra sentar e escrever cada dia do Caminho, mas eu chego lá… beijo Bi!

  6. Nossa, há séculos eu não passava por aqui.

    Foi bom ler esse desabafo teu. O mundo dá voltas e vamos amadurecendo, mesmo quando achamos que não, que nos falta isso, aquilo, como perspectiva ou a capacidade de entender ou não aquilo que não podemos mudar.

    Estes dias estava relendo, mais de uma vez, a Oração da Serenidade. Pois é, o caminho é longo, mas vamos aprendendo com ele. Talvez nos demos conta disso só muito depois…

    Fiquei mega feliz com a ótima notícia do teu pai. É isso aí!! Grande lutador. Ele e, por consequência, todos vocês. Parabéns por mais esta vitória.

    E não sei, mas por mais que algumas pessoas achem bacana as pessoas se tornarem mais equilibradas com o tempo, acho importante também mantermos a nossa dose de “insatisfação”, “rebeldia” ou esse “toque visceral” que comentavas. Do contrário, seremos tão mornos… e daí não tem graça.

    Beijos grandes e sorte no caminhar – a direção, você sabe, às vezes pouco importa.

  7. Oi Bianca que bom ter voce por aqui, os cursos de Paris ja se notam no cardapio.
    Sera que voce nao esta com um pouco de pressao alta, è muito dificil chegar aos 40 com uma labirintite nao diagnosticada, terias muitos mais sintomas nem que fosse uma leve labirintite, mire sua pressao pode ser por ai.
    Quando estamos bem o tempo nao importa, mas quando algo vai mal em nossa cabeça ai sim tudo importa.
    Eu acho que vc precisa atividade, na Italia acabam de inaugurar a Universidade do Sorvete, bom sitio pra fazer um curso.
    Bem em minha modesta opiniao vc devia buscar algo que te gratifique pra fazer.
    Um beijo
    Antonia.

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