Diálogos bizarros procurando apartamento para alugar

Muito bem, estou naquela fase agradabilíssima de procurar apartamento para morar. Isso sem falar da motivação em buscar algo que por antecipação já sei que será pior ou mais caro, e para completar, com a boa vontade que estou no momento de relevar os, digamos, aspectos culturais nativos.

A gente faz assim, vasculho novecentos apartamentos pela internet e seleciono os que me parecem melhores, o que nunca passa de uns três ou quatro. Passo essa meia dúzia de dois apartamentos para o Luiz ver se a ele também agrada. Ele liga para confirmar se ainda está para alugar, se é aquilo mesmo, e vê quando pode visitar.

Em um desses, me liga ele, escuta, a pessoa, uma tal de Amparo, falou que pode estar no apartamento daqui uma meia hora se você quiser visitar, o telefone é tal. Eram umas quatro horas e ligo eu para a Amparo.

_ Sou Bianca, meu marido acabou de ligar e gostaria de visitar o apartamento.

_ Mas que horas você vem? (assim, na lata!)

_ Posso estar aí em uma hora, são quatro horas agora, marcamos às cinco?

_ …às cinco no mais tardar, hein? (com voz de briga)

_ Bom, posso tentar chegar um pouco antes, mas já são quatro…

_ É, mas às cinco tem que voltar ao trabalho!

_ Ok, como disse, farei o possível para chegar antes.

_ Mas você vem ou não vem? Porque preciso saber e às 5 no mais tardar…

_ Sim, mas é exatamente isso que estamos falando. É para eu ir ou para não ir?

_ Porque às 5 você tem que voltar para seu trabalho!

_ Não, não tenho nenhum trabalho para voltar.

_ Mas você não tem que voltar para seu trabalho?

… taquiupariu, essa mulher já está me irritando!

_ Não, quem está no trabalho é meu marido, posso voltar a qualquer hora. Achei que a senhora é que precisasse voltar ao SEU trabalho (afinal, até esse momento, não sabia se estava falando com uma corretora).

_ Eu  não, você vem às 5 então (mandando eu ir às 5).

_ Confirmando o endereço é rua tal, número tal?

_ Isso

_ Quando chegar, telefono?

_ Claro que não, quando chegar você toca o interfone!

_ No anúncio não consta o apartamento, nem a senhora me disse. Toco o interfone para qual apartamento?

Resposta em tom de quem está me dizendo algo óbvio.

_ Mas é o 9 A, claro! Se é o 9 A é só apertar o 91 e tocar a campanhia, ué!

Ah, bom, claro, vou na sua casa todos os dias, por que não advinharia seu apartamento? E lógico, se o apartamento é 9 A, o código tem que ser 91! Que burra que sou, putz!

Por outro lado, queria mesmo ir ao centro e dar uma olhada em outros lugares, ver se havia alguma placa de aluga-se e sentir um pouco a região. Então, eu vou e aproveito a viagem.

_ Muito bem, estou saindo agora de casa.

Peguei um taxi, para ir mais rápido, já me preparando psicologicamente para mandar a indivídua a tomar por culo. Prontinha para dizer, minha senhora, tem milhões de apartamentos para alugar, uma crise de dar gosto, não preciso alugar esse, quer mostrar, mostra, não quer, não me enche o saco!

Cheguei, apertei o 91, claro! Toquei a campanhia e da porta se ouvia aquele esporro de cachorro, que não parecia pequeno. Logo pensei, melhor abandonar o plano de mandá-la a tomar por culo! Abre a porta uma senhora, até sorridente, da idade da minha mãe. Pronto, agora, pela prerrogativa da idade, nem posso ser mal educada!

Bom, não deu tempo de pensar em muita coisa, porque minha atenção estava direcionada a um cão com aparência de mistura de pit bull com fila brasileiro, agarrado pelo pescoço pela tal senhora, avançando e rosnando – não latindo, eu disse rosnando – para minha pessoa. A senhora sorrindo, agarrada ao pescoço canino, me dizendo que podia passar que ele não fazia nada!

Ninguém merece! E eu nem vou ficar nesse apartamento de doidos mesmo!

Paciência, por sorte estava naquele espírito meio puta da vida e lembrei do Cesar, o  “Encantador de Cães”, que Luiz adora assistir, gosto também, mas menos que ele. Adotei logo a postura fria de cadela Alfa, colocando o animal em seu lugar. Pior é que funcionou e logo ele ficou tranquilo.

Em pouco tempo, percebi que a senhora não fazia por maldade, era bronca mesmo. Essa coisa da lógica ibérica, que já expliquei algumas vezes. Não deixa de ser cansativo, mas me esforço para ter um pouco mais de boa vontade quando vejo que não é uma questão pessoal, e principalmente por ser uma pessoa um pouco mais velha.

_ O apartamento é seu?

_ Claro que o apartamento é meu? Vai ser de quem se estou aqui?

Vai ser de quem? Está escrito na testa dela que é a dona do apartamento! Ela não pode ser a mãe da proprietária, corretora… Com a vontade que me mostrava o imóvel, poderia ser até inquilina!

_ Pergunto porque estou vendo que o imóvel está ocupado, e se a senhora mora aqui, quando o imóvel estaria livre?

_ Ah, bom! Não, não, sou a dona! Só saio daqui quando alugar! (lógico)

Começou a me mostrar o apartamento com um pouco de pressa e ansiedade. Não é à toa que seu bicho é nervoso, tadinho. Havia parado de latir e me olhava um pouco confuso, me seguia, mas respeitava meu espaço vital. Para ser sincera, a essa altura eu também já estava com um pouco de pressa e vontade de ir embora.

No anúncio dizia que o apartamento tinha duas terrazas. Ela me mostrou a primeira e comentei, perguntando.

_ São duas varandas, não é mesmo?

_ Mas a outra está fechada! (definitiva)

Pensei, por que raios ela anuncia duas terrazas se a outra está fechada? Mas nem sei porque ainda perguntava alguma coisa, me restringi a seguir e terminar a visita o antes possível!

Até que entramos em outra varanda enorme, quando entendi que simplesmente estava fechada com janelas!

Gente, a doida devo ser eu, não é possível!

Continuamos a visita, vendo os quartos e banheiros e, ao terminar de passar por eles, muito rapidamente, ela ia fechando as portas. Cheguei a pensar que ela não devia querer me alugar, talvez por ser estrangeira, sei lá, até que ela me pergunta:

_ É só você e seu marido ou tem mais gente?

_ Não, só eu, meu marido e um gato.

_ Então, para vocês está bom dois quartos! Você não precisa mais do que isso! (ela decidiu)

_ Mas temos muitos móveis e trabalho em casa, como artista plástica. Preciso de espaço para uma mesa grande. Talvez pudesse colocá-la na terraza fechada…

_ Você trabalha como artista plástica? E isso dá dinheiro? (afinal, com tanta intimidade que nós tínhamos, era uma pergunta previsível, ne’?)

Diante dessa pergunta, não resisti e resolvi me divertir um pouco.

_ Não, mas não preciso, meu marido ganha bastante dinheiro por nós dois.

Acho que ela esperava qualquer resposta, menos essa. Ainda que fosse a única que ela realmente entendesse, por estar dentro do seu universo limitado de compreensão. E me respondeu, sem despeito, mas com uma pontinha de inveja tranquila.

_ Ah, bom, quando alguém pode se permitir…

_ Pois é, posso me permitir… tenho a sorte de poder seguir minha vocação… (caprichei no tom mais frívolo e fútil possível) Muito obrigada por mostrar o apartamento, vou pensar, conversar com meu marido e qualquer coisa telefono. Seu cão está mais calmo.

_ É, ele fica nervoso sempre que vem alguém no apartamento…

Não falei, mas pensei, a culpa é sua, ele só te imita.

O apartamento não era mal, mas já imaginou negociar a sério com a cidadã? Pois me inclua fora dessa!

7 comentários em “Diálogos bizarros procurando apartamento para alugar”

  1. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!

    Adorei!!!!!!!
    É assim mesmo, tem uns que sâo louquissimos e as conversas sâo assim de loucas e bizarras!!

    KKKKKKKKKK, amei….
    Mas eles sâo assim….meio gozados mesmo.As pessoas mais velhas principalmente. Sâo bonzinhos mas sâo gozados….Tem que ter paciencia….

    Hahahaha….quem sabe vcs vâo mesmo pra esse apartamento deles?
    E fica a energia gozada la? E as festas vâo sendo cada vez mais loucas, gozadas, bizarras e surreais????

    Hahahaha…
    Beijao

  2. Hahaha, esse post me fez rir muito! Como espanhol é sem noçao, mesmo! Essa de perguntar se o nosso trabalho dá dinheiro é clássica! Tadinha de você, Bianca, ainda vai sofrer muito procurando esse apê! 🙂
    Escuta, por que vc nao dá uma olhada por aqui em Rivas? É perto de Madrid, tem metrô, ônibus e parece uma cidade do interior, tem muita gente jovem, eu acho que vocês iriam gostar! Vc já deu uma olhada?

  3. Kkkkkkkkkkkkkkk to chorannnnnnnnnnnnnnndo de rir srsrs esperei a tarde inteira por esse diálogo rsrsrsrs
    Ai e a Van me mata de rir mais um pouquinho falando do astral das nossas festas rsrsrsrss

    Affeeee , Madridddddddddd, Essssssssspañaaaaaaaaaaaa rsrrsr

    Beijos chica e paciencia, muitaaaaaaaa paciencia

  4. 🙂 🙂 :-)……
    Imagino a baita situaçao pela mala da doña española, mas foi HILÁRIO ! Ainda mais com as tuas respostas e pensamentos para ela (adorei!).
    Gente! Realmente esse povo é assim mesmo.
    Será q no geral ,ou apenas com relaçao aos madrileños? Pois as pessoas do norte da España (Astúrias e Cantábria) sao queridos.

  5. Olá!

    Meu nome é Renata, sou consultora comercial da Media Direct One. Nós trabalhamos com o gerenciamento de mídia para nossos clientes. Sendo assim, gostaria de saber se você possui algum espaço para anunciantes em seu site onde poderíamos divulgar e promover banners ou links do nosso cliente.

    Penso que poderíamos lhe oferecer um valor mensal por esse tipo de anúncio. O que você pensa sobre?
    Obrigada. Bjs!

  6. Oi, Renata! Obrigada pelo interesse! Por enquanto, não pensei em trabalhar com anunciantes. Talvez no futuro e, nesse caso, guardei seu e-mail para te procurar, ok? Um abraço, Bianca

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