O Velho Galego

Da última vez que passei por Sarria, no Caminho de Santiago, chegamos muito cedo na cidade e paramos em uma cafeteria para fazer hora. Entra um senhor  distinto, pelos arredores dos 80 anos, de blazer e cachecol, uma boina bem arrumada e uma bengala conduzida com a naturalidade de quem substituiu o cajado. Viajei na cena lúdica, até que ele inicia a conversa com um conhecido que já estava no balcão, de uma maneira bastante singela. Em um gallego enrolado, disse com a voz rouca a pérola que soou assim: fáá un frii du caraio!

Quase engasguei com o café! Não sei o que esperava que ele fosse dizer, quem sabe um trecho de Cervantes? Mas ele tinha razão, fazia frio. Daí para frente, ele se posicionou ao lado desse conhecido e de tempos em tempos um falava alguma coisa, o outro demorava a responder e essa sequência se repetia alternadamente. A entonação era grosseira e seca, o que parecia uma discussão de gente muito aborrecida. Parei para prestar atenção no que diziam e era algo como: Fulano, pensei em passar na sua casa ontem… E por que não passou?  Você pode passar a hora que quiser, beltrano…

Eles eram amigos, era simplesmente uma conversa. Pela velocidade do diálogo e a quantidade de temas interessantes que diziam um para o outro, fiquei pensando porque se visitariam? O que raio eles iriam conversar? Devia ser a conversa mais monótona do planeta! E ainda por cima, salteada de eternos momentos de silêncio. Mas não demorei a mudar de idéia. É preciso ser muito amigo e ter muita intimidade para compartilhar o silêncio confortavelmente.

E por que contei toda essa história? Porque desde que começaram as aulas, não há um só dia em que não me lembre da sabedoria do velho galego. Primeiro, porque sinto saudade das pessoas que não me exigem explicações, certezas ou genialidade. Mas principalmente, porque a cada vez que coloco meu nariz na rua, que ainda está escura na hora que saio, penso meio desanimada, o que estou fazendo aqui? E a primeira frase que me vem à cabeça é: fáá un frii du caraio!

A lembrança da voz rouca e embolada de avô, me dá vontade de rir e me animo a encarar a neve e o vento congelante. Chego muito rápido no meu destino. Pouco depois clareia e meus dias tem sido muito bons e produtivos.

Tudo bem, fáá un frii du caraio, mas estou aqui, firme e forte.

2 comentários em “O Velho Galego”

  1. Menina,
    Não gostei dessa história do fáá un frii du caraio!
    Lembrou-me que vou fazer o Caminho Português agora em fevereiro e deve estar fazendo un frii du caraio!
    Beijos,
    Luiz

  2. … é mon chére, vou te enganar não, fáá un friii du caraio… neva… clareia quase 9hs da manhã e começa a escurecer às 17hs.

    Enfim, torço para que o tempo melhore até lá e você faça um bom Caminho. Mas realmente acho prudente você ter um plano B na manga. Pesquisa bastante os possíveis pontos de parada, leva telefone de taxi, essas coisas. Com o Caminho Português não sei como te ajudar, não tenho nenhuma dica, mas posso dar apoio moral por telefone… heheheh…

    Falando nisso, consegui ouvir sua mensagem de Ano Novo, mas muuuuiiitos dias depois. Afinal, agora tenho um super master mega plus celular novo, mas não sabia ouvir a secretária eletrônica… ahahahah… agora já consigo.

    Feliz 2010 para vocês!

    … e cadê meu livro? Achei que ia trazê-lo para Paris!

    Besitos

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