O primeiro dia de aula

Dia 4 de janeiro, segunda-feira, começaram as aulas. No website da Aliança Francesa, dizia que pessoalmente a inscrição poderia ser feita até um dia antes do início do curso. Chegamos em Paris uma semana antes e fomos até lá para fazer a tal inscrição. Para nossa surpresa, estava tudo fechado e, por sorte, consegui entrar no prédio por algum distraído que deixou o portão aberto. Encontramos o vigia, que nos falou que não havia problema, que a inscrição poderia ser feita no próprio dia 4, pois seria o primeiro dia útil do ano para eles.

Bom, essa informação não me deixou absolutamente tranquila, mas se não tinha outro jeito…

Na segunda-feira, acordei bem cedo, ainda estava escuro, me despedi do Luiz que pegaria a estrada de volta para casa pouco depois e pedi um taxi. Era muito cedo e muito frio para caminhar. Esperei pelo taxi poucos minutos na recepção do hotel.

Chega a taxista, uma mulher elegante, negra e toda de negro, com um casacão que ia até os pés e um tipo de turbante bem amarrado na cabeça. Pensei, legal, Madame Matrix vai me levar. Entramos no carro e ela parecia simpática, acho que se eu soubesse falar francês um pouco melhor, iríamos conversando. Ela ligou o rádio em uma estação animada e dava umas dançadinhas nas paradas dos sinais. No intervalo, o programa dava o horóscopo, ouvi o meu: scorpion, no trabalho, tudo se resolverá com bom humor. Então, tá, né? Bianca, positiva, qualquer encrenca na inscrição, bom humor!

Fui pelo caminho observando a cidade acordar e prestando atenção como poderia voltar à pé. E na rádio tocando The Locomotiondo it nice and easy now, don’t loose control… a little bit of rhythm and a lotta soul… so come on, come on, do the locomotion… come on, come on, do the locomotion… come on, come on, do the locomotion with me… Muito apropriado!

Muito bem, cheguei na escola cedo, com aquele friozinho na barriga gostoso e estranho de primeiro dia de aula. Já havia gente na fila, mas fui uma das primeiras a ser atendidas na recepção. Podia fazer minha inscrição na hora, mas antes precisava passar por um teste de nível. Subi rápido com um formulário para a biblioteca e comecei a fazer a prova. A parte de questões objetivas foi razoavelmente simples, mas havia também uma parte escrita. Pensei que poderia fazer melhor, mas ia me tomar muito tempo e já estava perdendo aula. Quer saber, deixei em branco e fui falar diretamente com a pessoa responsável em corrigir o teste e definir em que turma você entra. Para tudo isso você tem que entrar em filas diferentes, com um monte de gente perdida em uma babel de idiomas.

No fim das contas, achei que foi bom ter deixado a parte escrita em branco e ganhar tempo direto com a professora. Porque sou iniciante mesmo, no meu caso não ia fazer tanta diferença. Falando com ela, conseguia me expressar muito melhor. Bom, resumo da ópera, não havia mais vagas para o curso intensivo, que era de 4 horas por dia, todos os dias. Perguntei se havia alguma outra opção, porque gostaria de preencher toda a semana e ela me sugeriu o curso geral, três vezes por semana, 3 horas por dia e adicionalmente dois dias de atelier oral ou escrito. Preferi o atelier oral, duas vezes por semana, 3 horas por dia. Ela me encaixou em uma turma do curso básico, mas que já havia começado antes, ou seja, não era totalmente de iniciantes. Os cursos são dados por semana, começando sempre na segunda-feira. Tudo bem, tendo aula todos os dias, por mim está ótimo! E talvez se tivesse demorado mais na prova não houvesse mais vagas nem para esses cursos.

Com essa etapa terminada, fui para uma outra fila fazer o pagamento e preencher oficialmente a vaga.  E de lá, subi direto para a aula, que já estava na metade.

Entrei mais perdida que cego em tiroteio, mas não demorei muito a me encontrar. Já tentei participar logo de cara, antes que desse vergonha. E a verdade é que a turma era razoavelmente equilibrada. Descobri que tinha que comprar um livro e um caderno de exercícios, mas não foi um problema, fiz isso no intervalo de 10 minutos da aula. Uma aluna italiana, que regula idade comigo, se ofereceu para me mostrar onde comprá-lo. Fiquei feliz por ter alguém me dando alguma orientação e por saber que não seria a única adulta da sala.

Na volta do intervalo, com as coisas mais definidas, pude observar melhor quem eram meus companheiros de classe. As idades são diversas e as nacionalidades também, mas apenas um ou dois alunos pareciam ser menores de idade. Acho que a média está pelos seus 25 anos, com uma ou outra extremidade, como eu, fugindo para cima ou para baixo. A turma do atelier oral é outra, mas o perfil é parecido.

E tem de tudo! Meus colegas dos dois cursos são assim, um brasileiro de uns 16 anos muito bonitinho em férias escolares e que também quer estudar gastronomia; uma italiana simpática, talvez um pouco mais velha que eu, que veio morar em Paris; uma bailarina australiana altíssima, magra e linda de dar raiva que mora aqui há 4 anos e não fala chongas; outra bailarina etíope, que tem um jeito de brasileira e quando a professora disse a ela e a australiana que eram bailarinas, elas mal se olharam; um anão libanês que desce as escadas rápido como um foguete e não entendo como ele consegue; um indiano que não tem nem idéia do que a professora pede, mas seu amigo paquistanês traduz, ainda que ele também não entenda; um americano que vai se formar em comércio exterior, mas trabalha como garçon para pagar os estudos, adora fotografia e tem uma quedinha pela bailarina australiana; uma russa-americana (isso é que é globalização!) com jeito de filhinha de papai, que usa botas Prada, é um pouco fútil, mas de raciocínio rápido e prático;  uma japonesa simpática que mora em Paris há séculos, mas só agora que os filhos sairam de casa tomou coragem para estudar o idioma; uma japonesa modernosa, elegante e inteligente que vai, mais cedo ou mais tarde, conduzir os negócios da família; uma japonesa com voz de piada, maquiadérrima e assustadora; um vietnamita que a professora não entende absolutamente nada que ele fala, mas faz de conta que sim; uma missionária polonesa, estudando para ser freira, que no primeiro dia achei que fosse um rapaz gordinho, mas depois achei simpática e é uma das que fala melhor; uma acho-que-dinamarquesa estudante de MBA que quer trabalhar com moda; uma finlandesa que pinta o cabelo de negro e que usa uma trancinha lateral todos os dias; uma marroquina que não sei o que está fazendo lá, porque fala muito melhor que o resto da turma; uma saudita que vai de véu e tênis… e a cada segunda-feira, a turma dá uma ligeira mudada.

Mas vamos ao que realmente interessa, estou aprendendo. Consigo perceber melhora a cada semana, sinto que se pudesse ficar mais um mês, o progresso seria geométrico, mas acho que sempre é assim. Com dois meses, pensaria que se pudesse ficar três… E estou uma tremenda de uma CDF! Nem na escola fui assim, imagina! Faço os deveres, estudo em casa, participo na aula, tudo direitinho. É uma oportunidade difícil que não quero disperdiçar.

O duro é acordar! Sério, o despertador toca às 7:30hs, mas lá fora é escuro como a noite, não parece nem madrugadinha, é negro! Complicado abrir os olhos, sempre ponho o despertador para mais cinco minutos e acendo o abat-jour, para ir acostumando. Coloco a roupa de cebola, camadas em sua ordem monótona, tudo decidido na noite anterior, quando assisto a previsão do tempo. Quando você mora em países com estações definidas, assistir a previsão do tempo é importante e normal, você precisa decidir que sapatos e casacos usar ou terá problemas bastante desagradáveis.

Sair de casa é um exercício de diciplina, mas depois que clareia, melhora tudo. E foi bom escolher a aula tão cedo ou dormiria toda à manhã. Dessa maneira, posso aproveitar à tarde para aulas de gastronomia, mas essa já é outra história que contarei depois.

11 comentários em “O primeiro dia de aula”

  1. Uau! Que bom te ler de novo, principalmente com toda essa motivação.

    Tá doida de curiosidade pra saber das aulas de gastronomia.

  2. Bianca voce esta me dando ideias, e eu uma bruja aposentada ja estou achando que devia estar em Paris ou sei la onde fazendo coisas, isso me da inquietudes, que bela ideia voce teve.
    Continue aproveitando, eu tambem quero ir, mas so que na primavera ou no outono.
    Um beijo
    antonia

  3. Carajo! Uma bailarina etíope, um anão libanês e uma russo-americana que usa botas Prada …
    Você tem certeza que isso é um curso de alguma coisa?
    Quero me inscrever!

  4. Oi Bianca

    Ai que sarro ler suas historias, dou muita risada, ahahahaha.
    Sabe que estou como a japa que só resolveu fazer o curso que sempre adiou por causa dos filhos, eu vou começar um este ano.
    Onde voce esta é longe da casa do Michel? Que bairro que é mesmo?
    Beijos

    Marianne

  5. Oi, Antonia! Inquietudes movem o mundo, que você tenha várias! Aposentada, melhor ainda, menos cobranças e obrigações 🙂 Besitos

  6. Luiz Paulo, te juro que é um curso de francês… hehehe… e na Alliance Française! Mas também achei as pessoas meio bizarras, imagino o que elas acham de mim, né? Deve ser a mesma coisa! Besitos

  7. Oi, Marianne! Pois também me divirto! Que curso você vai começar esse ano? Quanto ao Michel, moro longe caminhando, mas perto de metrô. Ele está do outro lado do rio, fico em Montparnasse e ele está por Bastille. Mas a gente se encontra, ontem almoçamos em um italiano na Rue Lepic e depois fomos tomar café no mesmo lugar que trabalhava a Amélie Poulain, do filme. Besitos

  8. Hahaha, dei muita risada…que legal essa sua nova experiência deliciosa em todos os sentidos!!!
    Aproveite muito e não deixe de nos contar!!!
    Bjos

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