Esquentando o umbigo no fogão e ainda por cima gostando!

Engraçado como é diferente a gente fazer as coisas por opção ou por obrigação. O trabalho é absolutamente o mesmo, mas a relação com tempo, com cansaço, com prazer, é totalmente relativa.

Eu odeio acordar cedo com todas as minhas forças, sempre odiei. E cá estou eu, acordando no escuro! Tem gente que simplesmente não suporta cozinhar, erra a água do miojo e sofre quando se depara com essa obrigação. Pois eu escolhi acordar no escuro e sair para cozinhar de propósito!

O primeiro dia do curso na Le Cordon Bleu, amanheceu assim.

(PS: a foto foi tirada às 8:00hs, no caminho. Eu devo ter tacado pedra na cruz!)

Um pequeno detalhe fundamental: era sábado! Um ser humano precisa ter muita vontade para levantar da cama! Mas sim, eu tinha uma vontade danada.

Veja bem, isso está muito longe de ser uma lamentação e é exatamente esse meu ponto. Porque escolhi estar aqui, acho uma oportunidade do caramba e os inconvenientes parecem ridículos perto da recompensa em fazer alguma coisa na qual acreditamos. Qualquer coisa. Não tenho a menor idéia do que vou fazer com essa experiência no futuro, mas nesse momento, me dá absolutamente no mesmo. Em termos práticos, estou no mesmo lugar, sem grandes definições do que fazer da minha vida depois, mas ter essa sensação de motivação outra vez é de um poder gigantesco. Nada que me deixe tão feliz pode estar errado e talvez esse seja um sinal de que pelo menos estou na direção certa. Minha pele mudou, minha cara mudou e, como não poderia deixar de ser, cortei o cabelo. Mulheres que mudam por fora, já mudaram por dentro.

Mais cedo ou mais tarde, outras crises virão, porque a vida é assim. Mas isso não me interessa agora, porque tenho muita coisa para aprender.

E o que há de tão especial nos cursos que estou fazendo? Nada. Não há nada de fantástico ou excepcional, a única coisa é que eu quero muito. Às vezes, a gente se frustra porque tem expectativas surreais em um mundo que é comum. O que faz as coisas extraordinárias é a forma com que a gente olha e o quanto conseguimos experimentar e nos desenvolver com esse conhecimento.

Há algum tempo na minha vida, resolvi eliminar o: sempre quis fazer isso, mas… Nas coisas mais bestas, do tipo “sempre quis tocar percussão, mas meu pai não queria barulho em casa”. Quando me dei conta, havia uma lista enorme de coisas que não fiz por motivos que não existem mais. E não sei porque diabos a gente continua se prendendo durante anos, com pequenos sonhos guardados por impecílios abstratos. Depois é por falta de tempo, ou falta de dinheiro, ou preguiça, ou vergonha, ou um milhão de coisas que poderíamos administrar ou nos planejar. Pequenos sonhos são viáveis e quando alcançados podem trazer realização, confiança e motivação para outras grandes metas.

Nem tudo que queremos é possível, nossos gostos e prioridades também mudam. Mas acho que todo mundo que já quis muito alguma coisa um dia, deveria se perguntar de vez em quando, por que não tentar agora? Não sei para as outras pessoas, mas para mim, cada dia é mais difícil ter um sonho novo para realizar e viver sem planos não é uma boa idéia. Talvez seja um bom exercício começar pelos sonhos antigos.

Eu queria falar francês, queria saber como era morar em Paris e queria ter aulas na Le Cordon Bleu. Há algum tempo, isso seria impossível, ou pelo menos bastante difícil. Mas da última vez em que me perguntei, de repente, era acessível. Então, por que não?

Sobre o curso de francês, já contei um pouco e vai muito bem, obrigada. Hoje vou contar sobre a Le Cordon Bleu. Para início de conversa, e como boa parte das atrações por aqui, são muito mais famosas fora do que dentro da França. Muita gente nem sabe que é uma escola de gastronomia, porque em francês existe o termo “ele(a) é um(a)  Cordon Bleu“, usado para alguém bom em alguma coisa, como um “faixa preta“, usando um exemplo parecido em artes marciais. Mas fora da França, até onde sei, se não for a escola mais renomada, está entre elas.

É um prédio, não muito alto, com jeito de faculdade. A estrutura me pareceu ótima! E achei muito legal ver todos aqueles estudantes uniformizados como chefs, para lá e para cá, com apostilas, jogos de facas, pratos preparados dentro de algum compartimento transparente. De vez em quando, escutei português, os brazucas estão marcando presença. Mas esses são os estudantes dos cursos mais longos, o que infelizmente, ainda não é meu caso.

Nos cursos intensivos, nos pedem para ir de calças e mangas compridas e sapatos fechados. Recebemos um avental, um chapéu descartável e um pano com o logotipo da escola. Ao final do curso, recebemos um diploma.

Certamente, tenho alguma sósia, porque umas três pessoas diferentes me reconheceram de cursos que nunca fiz. Engraçado que no ano passado, no Lenôtre, me disseram a mesma coisa. Espero que minha gêmea perdida seja gente boa e cozinhe bem.

As aulas, pelo menos as que fiz, são dadas em francês e traduzidas em inglês. As turmas variam em uma média de dez pessoas, nem todas profissionais do ramo. Você pode fotografar, ainda que tenha gente que exagere e pareça tratar as aulas como uma atração turística. Uma ou outra foto de recordação, dos pratos que fez, do diploma, vá lá, mas um pouco de simancol ia bem. Não chegou a atrapalhar, mas achei o maior mico. Eu mesma tirei algumas fotos, mas poucas.

Bom, junto com os aventais, nós também recebemos apostilas com as receitas que serão tratadas no dia. O chef, que normalmente só fala francês, dá uma explicação rápida do que se trata, fala sobre os ingredientes e faz uma demonstração. Em seguida, cada um vai para seu posto de trabalho e manda ver! É tudo bem rápido e dá para ter um gostinho da pressão e velocidade de um restaurante. No final do dia, recebemos o diploma e levamos para casa o que preparamos durante as aulas.

O primeiro curso que fiz foi sobre pães. Trouxe para casa pães para um exército inteiro! Não sei como consegui carregar sozinha aquilo tudo. Meu plano inicial era dar algumas coisas para mendigos no caminho. 

Aliás, desculpa, esqueci, Paris não tem mendigo, tem SDF! Algo que traduzido seria como “sem domicílio fixo”. Gente chic é outra coisa, né? Cassilda, toda esquina de Paris tem um SDF, mas nesse dia não havia nenhumzinho de nada! Todos os mendigos da cidade se esconderam e fui toda desengonçada carregando sacola, caixa, bolsa e o escambau para casa.

Fiz um outro curso sobre croustillants salés, não sei muito bem como traduzir, mas são aquelas trouxinhas crocantes recheadas, no caso, com comida salgada. Meu forte costuma ser salgados, doces me aborrecem um pouco.

E na quarta-feira, terei um curso chamado Les Secrets du Chef, que imagino tratar mais sobre técnicas e dicas. Bom que no final há uma degustação, incluindo o vinho.

E agora vou dormir porque estou exausta e amanhã acordo de noite outra vez!

10 comentários em “Esquentando o umbigo no fogão e ainda por cima gostando!”

  1. Bisnagueira hein? Carregou o pão no sovaco e ficou surpresa que os mendigos sumiram. Ah Bianca… você virou européia mesmo.

    Tô adorando ver a motivação!!! Aproveite a chance que você está tendo. A minha tia já dizia “a felicidade é tão pouco” – assim como no anúncio do Mastercard.

  2. Chicaaaaaaaaaaaaaaaaaa, cortou cabelo de novo??? Voce ou foi em algum por ai? Ai que delicia toda essa motivaçao , aproveita tudooooo!!!
    Beijosss

  3. Claudinha, no anúncio da Mastercard, a felicidade custa um pouco mais caro 🙂 Infelizmente, na vida real também!

    Didis, cortei outra vez! 🙂 Fui a um cabelereiro Parisiense que uma amiga indicou e gostei muito. Agora preciso vir sempre aqui para cortar o cabelo… heheheh…

    Besitos

  4. Oi Bianca,
    Só queria deixar um recadinho, dizendo que gosto muito das suas estórias e essa em particular me tocou fundo, já que me identifiquei muito com ela. Bem, engraçada a vida. Eu sempre adorei cozinhar e não perco a oportunidade de experimentar uma nova receita. Recentemente vi o filme “Julie & Julia” sobre uma americana que frequentou o Cordon Bleu e depois escreveu um livro de receitas chamado “Mastering the Art of French Cooking” e acabou ficando famosa na TV Americana apresentando um show de culinária. Bem, depois de ver o filme , que adorei, fui na internet e achei a receita de “Boeuf Bourguignon ” e cozinhei semana passada. Nossa, ficou uma delicia. Tudo de bom pra vc. bjs.
    Carmen

  5. Oi, Carmem! Pois seja bem vinda! Todo mundo me fala para assistir esse filme e ainda não consegui. Na Le Cordon Bleu, inclusive, agora montaram um curso de um dia chamado “En l’Honneur de Julia Child”. Certamente, aproveitando a onda do filme. Boas receitas para você! Aqui no blog, na categoria “Tá na Mesa”, de vez em quando coloco alguma receita também. Assim que tiver um tempinho, colocarei as que aprendi esse mês. Besitos

  6. Que Delícia!!!
    Aproveita cada minuto… e quando chegar por aqui quero provar.. srsrsr !!

    Saudades … muitas!!

    bjos

  7. Menina,
    Não é só aí que clochard virou SDF. Aqui, na linguagem politicamente correta, mendigo virou PSR (Pessoa em Situação de Rua).
    Beijos,
    Luiz

  8. Eu ia falar a mesma coisa, pra vc assistir “Julie e Julia”, hahahaha… é um filme bacana (apesar que nao gostei do fim), e acho que, agora que vc está no Cordon Bleu, vai gostar. Eu sinceramente nao gosto de culinária, e gostei do filme, entao acho que pra quem gosta entao, é prato cheio (eta trocadilho).

    Bacana estar assim entusiasmada com algo, curta muito mesmo!

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