A Fábula da Torta de Chocolate

Tenho pensado muito na vida. Essa é minha última semana em Paris, pelo menos, nessa temporada, porque no futuro, nunca se sabe. Daqui levarei mais um idioma (ou uma porta para ele), receitas, sabores, diplomas e novos amigos. Acontece que outra vez, mais do que tudo, levo a experiência, e essa foi das extraordinárias, das que nos viram ao contrário.

Realmente, sinto muito que o mundo não seja justo e nem todos possam ter uma oportunidade como essa. Um pouco pior quem pode e não tem, mas esse não é o meu ponto agora. O fato é que toda pessoa deveria, uma ou algumas vezes, poder parar, sair do próprio corpo, da própria rotina e se olhar por outro ângulo. Não sou o umbigo do mundo, mas não sei compreendê-lo quando não me entendo. E eu vivo me perdendo. Mas sempre volto para casa,  porque lembro que gosto da minha vida. Tenho muito orgulho de conseguir ser feliz ao máximo possível, no limite da estupidez. Eu gosto de ser casada, amo Luiz, sou louca pelo meu gato, acho que meus pais fizeram o melhor que puderam, reclamo do meu irmão mas fico puta se alguém reclama, gosto de ser família, queria ter mais primos, adoro meus amigos e adoro alimentá-los a todos.

Sou do tipo que acha divertido as refeições de família em mesas barulhentas; entendo conversas estridentes a cinco vozes de uma só vez; gosto de imitar meus parentes pelas costas (pela  frente ainda melhor); gosto de crianças que se sujam; gosto de rir em fotografia; gosto de rir; acho gostoso sentir minhas bochechas esquentarem a cada taça de vinho; fico excitadíssima quando descubro um sabor novo e necessito dividí-lo; adoro dar festas em que os convidados se sintam reis. Não é que só goste de gente, preciso de gente! Me ocorreu, de repente, perguntar, mas será que eles precisam de mim? E se precisam, estou fazendo certo?

As coisas não acontecem por um motivo único, é sempre um conjunto de razões que deixa determinado momento mais ou menos propício. Justo ou não, saí de Madri magoada. No fundo sabia disso, mas era difícil admitir, até para mim. Questionei se era boa amiga, boa filha, boa mulher. O que pinto nesse quadro? Que falta faço? Que função tenho? Porque às vezes a gente pensa que está contribuindo e não está adicionando nada a ninguém. O papel de vítima nunca me coube, o mundo não fica inteiro contra você de repente e não estava contra mim, se comecei a vê-lo assim, o problema era meu. Beleza, mas e aí? Ataque de insegurança? Falta de confiança repentina? Crise dos quarenta? Tudo era possível e aos poucos a vida ia se acertando, mas faltava algo para resolver essa questão de uma vez. Ou pelo menos, até a próxima crise.

Quando surgiu a idéia de vir para Paris, mais do que a possibilidade de realizar alguns sonhos, também era uma oportunidade de sair da areia movediça. Não sabia que era movediça quando mergulhei, mas foi minha escolha pular e esse é o preço que a gente paga quando arrisca. Não era toda minha vida, apenas um momento dela, mas difícil, importante e bem mais longo do que imaginei.

E a propósito, se havia alguma insegurança da minha parte, não existe mais. Temporariamente, questionei se deveria acreditar nas pessoas, mas tenho a sensação que elas não deixaram de acreditar em mim e isso fez muita diferença. Às vezes, a gente precisa se ver no olhar do outro para se reconstruir.

Cada final de ano, elejo alguma característica ou objetivo que me guiará no próximo.  Por exemplo, tem ano que acho que preciso exercitar a generosidade, outro a paciência… Geralmente, procuro algo que acredito ter pouco, mas que considero fundamental para evoluir. Esse ano escolhi a coragem. A principal diferença é que pela primeira vez acho que é uma característica inerente à minha natureza, normalmente, nem percebo. Acontece que tudo que não se exercita, se enfraquece, e é de coragem que vou precisar.

Porque quero mergulhar muitas vezes mais e agora já sei que do outro lado pode ser areia movediça. Mesmo assim, vou pular e vou precisar de coragem. Está na hora de ser mais atrevida.

A primeira vez que me dei conta que possuía o tal do atrevimento, foi em uma bronca do meu pai, que nem me lembro mais porque, mas me lembro dele dizer entre outras coisas, que eu era atrevida, mas isso ele não ia tentar mudar, porque era meu. Fiquei meio na dúvida se isso era bom ou mau e por que mesmo eu era atrevida? Ficou registrado o comentário na minha cabeça.

Anos mais tarde, uma história bobinha fez cair uma ficha que me serviu bastante depois. Nessa época, trabalhava em consultoria e estava em um desses eventos enormes para empresas, realizados em hotéis. Na hora do almoço, havia aquelas filas para se servir no buffet, separado entre saladas, pratos quentes e sobremesas. Muito bem, ainda que estivesse concentrada, e como todos meus companheiros de mesa, tentando parecer inteligente e contribuir com alguma opinião profissional interessante, a verdade é que minha antena estava focalizada em uma torta de chocolate ma-ra-vi-lho-sa que havia no fim da mesa. O engraçado é que havia outras tortas ao redor, que me pareciam menos apetitosas, sendo consumidas e ninguém tocava na bendita torta de chocolate. Por mim, ótimo.

Finalmente, lá fui eu e um colega consultor para a fila das sobremesas. Íamos conversando sobre trabalho e tal, eu numa ansiedade infantil de chegar logo na torta, porque a fila era grande e ela podia acabar. Para minha agradável surpresa, ninguém havia ousado tocá-la. Quando chegou minha vez, vi que a torta não havia sido cortada, como as outras haviam, mas a espátula estava ao lado. Fiz o que me pareceu absolutamente óbvio, peguei a espátula, cortei um pedaço e me servi. Meu amigo consultor começou a rir e me disse: mas você é atrevida mesmo! Na sequência, se serviu da mesma torta e me disse que ainda bem que cortei porque ele ficaria sem graça em começar. Imediatamente, comecei a prestar atenção e percebi que não foi um esquecimento ou uma coincidência, era estratégia do buffet. Porque, após essa mesma torta ser cortada, por mim, evaporou e precisou ser reposta. As outras tortas, foram praticamente ignoradas. Ou seja, eles contam com a falta de iniciativa do grupo para equilibrar a saída das sobremesas. Se no primeiro momento a torta de chocolate estivesse cortada, as outras sobrariam muito mais.

Veja bem, o público era de adultos, executivos, de ótimo nível intelectual, os recursos estavam lá e disponíveis. Tudo bem, devia ter meia dúzia que amava torta de limão, outra meia dúzia que nem gostava de sobremesa, mas o fato da torta ter evaporado logo depois me fez pensar que não era por acaso. A maioria das pessoas, por motivos diferentes, não quer tomar a iniciativa. Toda iniciativa implica em um risco, de diferente importância, mas definitivamente um risco.

Moral da fábula: atrevidos eventuamente caem na areia movediça, mas sempre comem o melhor pedaço da melhor torta.

São opções, não há uma mais certa que outra, mas, simplesmente, gosto de torta de chocolate.

9 comentários em “A Fábula da Torta de Chocolate”

  1. Texto mais que precioso nega Branca, volta correndo pra casa que vc faz muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiita faltaaaaaaaaaaaa por aqui :-).
    Beijos e uma otima viagem de volta!

  2. Claro que as pessoas acreditam em você, pois as suas características de iniciativa e coragem você não perdeu. Na minha opinião a única coisa que andou faltando nesse tempo foi a torta de chocolate.

  3. sensacional , acompanho seus textos a algum tempo e sempre gostei, mas este em especial saiu precioso.
    obrigado pela chance de pensar no assunto.

  4. Achei muito bom este post, até coloquei nos meus compartidos…
    Muitas pessoas deveriam ser atrevidas, moça! Ser atrevida é sensacional. Nao perca isso nunca!

  5. Didis, já tô em terras madriles. A cabeça ainda meio lá meio cá, mas tudo bem. Nos vemos em breve 🙂

    Claudia, concordo plenamente, andou faltando torta… pode ser que eu também não tenha visto, sei lá… o que importa é que agora dei uma bela de uma abocanhada nela!

    Ernesto, seja bem vindo!

    Obrigada, Alessandra! Vou lá me atualizar no seu blog. Esse último mês andei com pouco tempo, como já deu para perceber, né?

    Besitos

  6. Adorei o seu texto!!!
    Tb acho que ás vezes é dificil continuar acreditando nas pessoas, mas se a gente parar, aí acho q nada mais vale á pena. Um dos prazeres da vida é descobrir que boas coisas podem acontecer quando e de onde menos esperamos.

  7. Oi Bianca

    Demorou pra escrever ou fui eu que demorei pra te acompanhar? sei lá. Estou de férias e os meus filhos começaram as aulas, minha empregada pediu as contas, ou seja umas férias maravilhosas estou tendo.
    Assim não tive muito tempo pra ler suas cronicas, coisa que para mim é lei!!
    Acredita que por tudo isso tive que mais uma vez adiar meus planos já tanto tempo adiado, mas tudo bem vai ver não era pra ser agora mesmo, foda-se.
    Falei com Michel ao telefone que me contou que saiu com voces esses dias. Me disse para entrar no facebook dele pra ver as fotos que ele tem com voces, coisa que irei fazer logo logo.
    Beijos

    Marianne

  8. eu gostei da parte q vc diz que gosta de alimentar os teus amigos e fazer barulho. vc faz isso (e muitomais) muito bem, tao bem que as pessoas te adoram!!!
    saudades!

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