Como putear um imigrante: manual prático espanhol

Putear é um termo espanhol bastante utilizado. Não tem o peso de um palavrão, soa mais como o sacanear brasileiro.

Quero falar de um tema que ando evitando, porque sempre me aborrece. Mas não tem jeito, mais cedo ou mais tarde ele aparece na vida de uma i-mi-gran-te! Hoje foi dia de solicitar o novo visto. Quer dizer, teria sido o dia, se não tivessem mudado as regras no meio do caminho. Um pequeno detalhe, as datas foram mudadas através de uma circular interna. Isso mesmo, não importa o documento que você recebe do Ministério do Trabalho. Vale mais um papel que o Don das Coves resolveu circular internamente no seu departamento.

E por que mesmo isso aconteceu? Posso dar explicações técnicas absurdas, mas a verdade, todos nós sabemos, é para putear os imigrantes.

Nisso eles são mestres! Poderiam, no mínimo, utilizar essa energia para fazer de maneira mais inteligente, pois com a atual cabecinha de ostra, não se favorece a ninguém, nem aos próprios espanhóis. Outra vez, a velha conhecida atitude provinciana, que a meu ver é o pior defeito que encontro aqui e não há cão que faça com que eu me adapte! Até porque é muito difícil me adaptar à burrice. Não tenho mais como ser condescendente, insistir em se negar a ver o que acontece no resto do planeta é insano. Porque, claro, como tudo aqui só pode ser o que há de melhor no mundo, quem vem de fora só pode ser pior! Tudo que muda só pode ser horrível! O que em uma primeira análise parece orgulho nacional, mas na prática é uma grande covardia em tentar e fazer feio. Então, melhor nem tentar. O bom é esse jeito que eu sei. Então, vamos alimentar a mediocridade.

Não consigo entender porque raios usam o pseudo patriotismo para andar para trás! Patriotismo, em teoria e mesmo com ressalvas demagógicas, visa unir um país para crescer, para ser melhor. Como você pode ser melhor em qualquer coisa se só olhar para o próprio umbigo? Como você sabe que é melhor se não sabe o que há em volta?

E meu ponto hoje, como incentivar a vinda de tecnologia e conhecimento de fora com a atual política burra de imigração? Não vai acontecer!

Já disse e repito, não há nada mais injusto que tratar pessoas diferentes da mesma forma. E é absolutamente estúpido escolher a pior forma para tratar a todos. Apesar de todas as mudanças e aprendizado com esse último período de imigração que passa pela Espanha, a lei vigente continua se baseando exclusivamente em quem chega ao país ilegalmente em uma patera.

Vamos dar exemplos concretos. Suponhamos que um cidadão estrangeiro consiga o visto de trabalho espanhol. Nem vou entrar no mérito de que para isso ele precise provar que nenhum outro espanhol pode ocupar seu lugar, o que inclusive, estou de acordo. Muito bem, se esse cidadão é casado e quiser que a esposa venha para o país legalmente, precisa esperar um ano (sim 12 meses) para que o visto de sua esposa saia. Existem algumas razões para isso, uma é obviamente o intuito de freiar a entrada de mais gente, mas também porque se parte do princípio que alguém veio antes ilegalmente e ralou aqui até conseguir trazer a família paupérrima e ignorante.

Agora, vamos analisar meu caso, que no universo de empresas internacionais nem é tão raro assim. Aliás, é cada dia mais normal. Meu marido foi convidado por sua empresa para vir para cá. Ele não pediu para vir, ele provou que não há um espanhol que tenha suas qualificações, ou seja, ele vem aportar conhecimento, é – ou deveria ser – do interesse do país. Sabe como é a lei? Exatamente a mesma. Em tese, eu deveria esperar um ano separada do meu marido para residir legalmente na Espanha. É óvio que essa condição não foi aceita, nem por nós, nem por ninguém na mesma situação. Então, criou-se uma exceção à regra por pressão das empresas. Ainda que a lei permaneça a mesma.

Ainda havendo essa exceção, que é quase considerada um favor que eles fazem, o restante do processo é igualzinho, com filas e prazos absurdos. Menos mal que temos direito a advogados que nos auxiliam. Inclusive, olha que beleza, sou uma das sortudas que está passando pelos processos no momento em que eles estão sendo criados. E a parte mais divertida da história, as regras mudam quando eles querem.

Muito bem, enquanto a Espanha buscou por mão de obra barata, que os espanhóis não estavam dispostos a ser, vamos abrir a porteira! Alguém selecionou essa entrada? Imagina! Fizeram vista grossa à vontade para passar deus e o mundo.

Em seguida, precisava se incrementar o ingresso de pessoas que sustentassem uma população que envelhecia sem quem bancasse suas aposentadorias. Beleza, impostos! Vamos legalizar a galera! Alguém se preparou para esse processo? Outra vez, alguém se preocupou em selecionar o que era realmente bom para o país? Não, colocaram todo mundo na mesma cesta, a mesma boiada!

Agora o país está numa crise de dar gosto! Cheio de desempregado! De quem é a culpa? De um monte de gente, mas o mais fácil e menos desgastante politicamente é mandar essa imigrantada toda de volta! Quem investiu aqui, quem trabalhou, quem teve interesse em se integrar à cultura, foi traído. Esteja ou não contribuindo com o desenvolvimento do país, que volte para sua terra!

Alguém pensou em como incentivar esse movimento contrário de uma maneira inteligente e estruturada? Imagina! Se na entrada que eles precisavam, ninguém pensou, que dirá na saída! Qual é o plano? Vamos putear os imigrantes! Assim a gente passa o recado que está difícil! Vamos sacanear nos aeroportos, porque dá imprensa. Vamos mudar as regras de quem está tirando a documentação, porque esse boca à boca corre. Vamos mandar o pessoal para cá e para lá, assim se perdem dias de trabalho e há mais chance de serem despedidos. Vamos pedir documentos pelas ruas para criar um clima tenso.

Mas, continuando, vamos lá, alguém com mais de dois neurônios, por favor me acompanhe. Quem está ferrado em seu próprio país, vai ser puteado à vontade e não vai voltar. Simplesmente, perderá um pouco mais de dignidade. E, aparentemente, são esses que a Espanha manterá aqui, os pais dos Latin Kings.

Porque os demais, quem tem poder de consumo, quem tem potencial intelectual e outras opções, não precisam disso. São esses que vão embora. Brilhante, né?

Interessante que nessa loucura sumiram também os turistas brasileiros. Sim turistas, que gastam, não estou falando de imigrantes pobrezinhos, os turistas mesmo, sumiram daqui. Madri era o segundo destino favorito para turismo dos brasileiros. Não vem mais ninguém. Duvido que algum imbecil local tenha se tocado do fato, provavelmente, culparão a crise! Sempre tem uma desculpa. Mas a verdade é que viajo bastante e continuo vendo os brasileiros passeando em outros países.

Muito bem, mas as pessoas na rua, o espanhol normal e corrente, tem alguma coisa com isso? Porque esse é um problema específico meu, como estrangeira. Pois eu acho que tem sim. Na sua rotina, concordo que o espanhol tem outras coisas e outros problemas para se preocupar, mas não vejo isso como fato isolado. É só mais um exemplo. Na verdade, estou falando de uma atitude provinciana, que insiste em se refletir em tudo.

A Espanha precisa decidir de uma vez se quer ser um grande país ou um conjunto de pueblos. Não há como fazer tortilla sem quebrar os ovos! Não há desenvolvimento sem investimento, tudo tem um custo. Não há melhora sem mudança. Ficar no meio do caminho, alimentando complexo de inferioridade e com desculpas esfarrapadas baseadas na cultura e na tradição não levarão o país a lugar nenhum. ¡Hay que mojarse!

Se vou esperar por isso? Provavelmente, não.

2 comentários em “Como putear um imigrante: manual prático espanhol”

  1. Moro em Madrid há 2 anos e sei BEM do que vc tá falando. parabéns pelo texto/desabafo. É incrível como somos humilhados, deixados de lado e pisados. absurdo.

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