Décimo dia: a retirada dos óvulos!

Acordamos cedo, a cirurgia estava marcada para às 8 horas. Na verdade, nem dormi muito.

 

Mas não estava ansiosa ou nervosa, na verdade o final para mim tem sido uma etapa mais tranqüila. Ajuda muito o fato de não estar mais tomando hormônios, assim as coisas tomam uma perspectiva real e a gente não se sente uma adolescente alucinada em que tudo parece ser intenso e definitivo.

 

É muito bom acordar lúcida novamente!

 

Enfim, chegamos ao hospital e fomos encaminhados para um Box, onde há uma cama, uma pia, uma cadeira e uma cômoda pequena. Meu Box era o número 3, ótimo, equilíbrio! Ali eu deixo minha roupa normal e coloco aquela camisola de paciente.

 

Aliás, vamos abrir um parênteses, quem inventou aquele camisolão culos al aire só podia estar de sacanagem, né? Tem coisa mais patética do que aquele camisão aberto na bunda? Fala sério! Ainda por cima, tinha que colocar aquele chapeuzinho verde, que parece uma touca de banho. Fiquei realmente uma gracinha, sexy de los cojones! Uma verdadeira inspiração para o Luiz se lembrar mais tarde…

 

Bom, daí veio uma enfermeira e me colocou soro, com alguma medicação que nem quis saber o que era. Você se mete na cama e é nessa mesma cama que te levam para o centro cirúrgico.

 

Enquanto isso, na sala de justiça… Luiz volta ao consultório do médico com um potinho, que parece aquele de exame de fezes, com nossos nomes. Digamos que é a hora da sua contribuição espermatozóica. Pois é, ainda chegou lá com outros dois maridos e seus potinhos, os três com aquelas caras de nádegas esperando a chave dos seus quartinhos e todo mundo sabendo para que! Putz, vamos combinar, tem que ser muito macho!

 

Obviamente não se falaram, porque se fossem mulheres, a gente já saberia tudo uma da vida da outra, tínhamos dado dicas de maneiras mais fáceis que a gente leu não sei onde, desejaríamos boa sorte com risadinhas nervosas… somos mais divertidas!

 

Voltando à minha parte, fui encaminhada para uma sala de cirurgia com uma cama engraçada, parecida a dos consultórios ginecológicos, com aquele apoio para as pernas. O médico se apresentou, é da equipe do meu médico, mas ainda não o conhecia, simpático por sinal. Perguntou se eu estava tranqüila e eu disse que sim, não tinha que fazer mais nada… agora é contigo! Ele riu e me apresentou à anestesista, também bastante gentil. Ela me perguntou se tinha alguma alergia, disse que só a pó, pólen e tabaco, mas que havia tomado anestesia geral antes e tudo bem. A única coisa é que acordei muito enjoada, mas isso foi há mais de 30 anos atrás.

 

Ela me falou que a anestesia seria um sono agradável, achei que ela estava sendo otimista, mas tudo bem. Dormi logo em seguida e ela tinha razão, foi um sono agradável. Na verdade, adoraria ser assim normalmente, fechar o olho, relaxar e dormir.

 

Acordei quando acabou tudo, já na cama de rodinhas que cheguei ali. Como se tivesse dado um cochilo depois do almoço, sem sentir nada de enjôo ou sensação ruim. Perguntei ao médico quantos óvulos ele tinha tirado e ele me falou que isso eles ligavam durante a tarde para informar direitinho.

 

Fui encaminhada para uma sala de recuperação comunitária, tinha algumas pessoas dormindo. Eu cheguei completamente acordada e puxei papo com a enfermeira na tentativa de convencê-la que já podia ir embora. Ela tirou minha pressão, 10/7, conversou um pouquinho, mas disse que precisava me manter ali por pelo menos uns 20 minutos. Ok, esperei acordada do mesmo jeito, meio entediada, mas feliz por estar me sentindo bem.

 

Vi entrar as duas esposas, que havia visto na recepção e começaram o procedimento antes de mim, ambas dormindo. Uma delas parecia normal, a outra era muito nervosa. Fui a primeira a deixar a sala de recuperação e a nervosa foi a última.

 

Voltei ao Box 3, onde Luiz já me esperava. Pedi para ele enviar um SMS para minha mãe, avisando que estava tudo bem. Ainda era muito cedo no Brasil, mas assim ela já acordava tranqüila. Novamente, tentei convencer a enfermeira que já podia ir para casa, mas tinha que terminar de tomar a medicação por soro. Ela fez com que o soro corresse um pouco mais rápido e algo depois das 10 horas, estava liberada.

 

Estava com fome e fomos para a cafeteria fazer um lanche. Comi misto quente e tomei suco de laranja e café descafeinado com leite.

 

Passamos no consultório do médico para dizer que estava tudo bem, que havia terminado o procedimento e não estava mais em jejum. Fomos liberados para voltar para casa e a atendente me disse que ligariam por volta das 15 horas para contar quantos óvulos foram retirados e em que qualidade.

 

Cheguei em casa, avisei à família e aos  amigos que estava tudo bem e fomos dar uma cochilada. Luiz tirou o dia de folga.

 

Passei muito bem, a única coisa é que dá um pouco de cólica e a barriga estava bastante inchada, como se estivesse com gases (que glamour, não?). Assim que para sentar e caminhar era um pouco desconfortável, mas deitada não sentia nada. Quer saber? Não preciso fazer repouso, mas um pouco de descanso me virá bem.

 

Pelas 15 horas, como eles disseram, me ligaram do hospital dizendo que retiraram 6 óvulos. Não é uma quantidade enorme para a fertilização artificial, mas até melhor do que nossas previsões. Desses 6 óvulos, um estava muito imaturo, então foram aproveitados um total de 5.

 

Há duas técnicas possíveis a serem aplicadas, uma é a micro injeção e a outra é a fertilização convencional. Na micro injeção, eles escolhem um espermatozóide e fecundam diretamente o óvulo; na convencional, deixam o óvulo exposto a um conjunto de espermatozóides e o mais “esperto” chega primeiro, muito parecido ao processo natural do corpo humano. Bom, eles não sabem que técnica seus óvulos responderão melhor, por isso, optam por utilizar as duas. No meu caso, 3 óvulos foram fecundados por micro injeção e 2 óvulos por fertilização convencional.

 

Daí, você precisa esperar o dia seguinte para saber quem virou embrião e que óvulo não deu em nada.

 

Lá fui eu avisar para a família e os amigos! Olha, sou da filosofia que ou você tem um segredo e não conta para absolutamente ninguém, ou relaxa e conta para todo mundo. Meio segredo não existe e dá um trabalho danado! E para quem você já contou, não é justo deixar na expectativa de uma resposta.

 

Eu realmente acredito que a família e os amigos estão torcendo para nosso bem, do jeito que sabem, com boas energias, com pensamento positivo, rezando, orando, falando mais ou calados, não me importa a maneira que cada um acredita. Quem sou eu para julgar? Mas sim, acredito que a boa intenção atrai coisas boas! E me sinto privilegiada pelo carinho que tenho recebido de todos os cantos, até de gente que nunca vi!

 

Assim que seja o que tiver que ser, mas quem vier será concebido com centenas de padrinhos! Praticamente uma suruba cósmica! Porque nunca tivemos tanta gente no nosso quarto!

 

Brincadeiras à parte, obrigada por quem participou de alguma maneira (mais ou menos declarada) desse processo.

Décimo dia: a retirada dos óvulos (provisório)

Queridos amigos, passo por aqui só para dizer que foi tudo bem. Foi  tranquilo e o pós operatório foi melhor do que esperava. Já cheguei na sala de recuperação acordada e batendo papo com as enfermeiras, tentando convencê-las que estava boa para vir para casa.

Pelas 15h de Madrid, alguém deve me ligar dando notícias sobre a quantidade e a qualidade dos meus óvulos e só aí terei alguma notícia mais concreta.

Mas enfim, sei que tem muita gente legal torcendo pela gente, assim que fiz questão de dar uma passadinha rápida pelo menos para dar alguma informação e agradecer. Vocês são show!

Pode deixar que mais tarde passo por aqui e substituo esse texto por um decente, contando tudo direitinho com mais calma. Agora vou ficar quieta e sossegar um pouco o facho, que é o melhor que eu faço!

Besitos miles 😉

Nono dia: só descansar!

Hoje acordei bem, sem grandes alterações, se o humor está bom ou mau será parte da minha natureza. Até porque, a dose hormonal diminuiu consideravelmente. Ontem só tomei uma injeçãozinha de nada e um antibiótico em comprimido.

Tinha um concerto para ir na Sala Clamores, queria comparecer por ser a despedida de uma amiga querida. Mas não demos conta, mais por minha causa. Pelas 23h eu capotei e o show começava às 0h30. Para Madri, não é tão tarde, mas nesse momento para mim é.

Depois, estou um pouco desconfortável, inchada. Nada demais, mas desde ontem, ficar com roupa larga espalhada no sofá tem me parecido um programaço! Vou tentar dar pelo menos uma caminhadinha mais tarde para não ficar tão preguiçosa. Nem grávida estou ainda!

Assim que hoje tirei o dia para descansar, sem hora, sem remédio e sem grilos! E ainda por cima, feriado, ou seja, perfeito.

Minha única tarefa do dia é fazer um tipo de lavagem vaginal com Rosalgin à noite e parar de comer às 24h.

Amanhã, acordo cedinho e minha parte está praticamente feita. Agora é com os médicos, Luiz e o destino.

Teoricamente, a gente só pode dizer que valeu à pena no final, porque costuma depender do resultado. Mas vou antecipar esse julgamento para agora. Porque sim, valeu muito à pena. Como não sei se vai funcionar e posso estar bastante triste para falar sobre isso no futuro, prefiro fazê-lo nesse momento, porque é o mais adequado.

A potencial gravidez ou a falta dela é uma outra etapa, completamente diferente. E já disse outras vezes que uma guerra não costuma ser ganha em uma única batalha. E cada batalha precisa ser comemorada individualmente.

Eu fui aquela que era completamente contra a fazer qualquer tipo de tratamento de fertilidade. Achava que se viesse naturalmente bem, se não, era porque não tinha que ser.

Veja bem, cada mulher deve saber seus próprios limites e o quanto é capaz de tolerar a frustração, que sim está inerente ao processo, independente do resultado final. Não vou dourar a pílula nem dizer que é um conto de fadas, você se frustra durante o processo também e dá um nó na sua cabeça.

Outro detalhe importante, já não achava e continuo não achando que uma mulher ou um casal precise ter um filho para serem completos e felizes.

Entretanto, se você quer, é outra história. Melhor pegar o touro pelos chifres do que tentar correr dele e dar as costas.

O tratamento não é fácil, mas não é um bicho de sete cabeças, é possível. E se a ciência está a seu favor, por que brigar com ela? Por que resistir? Qual é o seu medo de verdade, porque para quase todos tem resposta. Se por um lado, o tratamento é angustiante, não tentar tampouco é tranquilizador.

Se você tem vinte e poucos anos, maravilha, você tem tempo e minha experiência não é para você. Mas se já passou dos trinta, não confie que a tecnologia vá te ajudar seguramente no futuro, nem conte com a sorte.

Um pouquinho de estatísticas, os especialistas afirmam que aos 35 anos, a fertilidade feminina é a metade da que era aos 25 anos. E que aos 40 anos, essa fertilidade cai para a metade do que era aos 35. Vou traduzir, esperar um ano quando você tem 25 anos é nada, esperar um mês quando você tem 40 anos é significativo.

Se você está na casa dos 35 a 40 anos e não engravidou naturalmente, não espere para pedir ajuda médica. E se suas chances são muito maiores com um tratamento, não resista por besteira.

Qual é o problema de você enfrentar duas semanas histérica, vai passar. Que mulher nunca sobreviveu a uma TPM? Tem que tomar injeções, é um saco, mas dói menos que a depilação, pode acreditar.

O foda é a frustração, mas vamos combinar que é o bom e velho chavão piegas de sempre, é muito melhor se frustrar por ter tentado do que ficar no “e se”. E pode acreditar também, o “e se eu tivesse tentado antes” virá e é duzentas vezes mais frustrante!

Pronto falei!

Eu não sei se vou engravidar, mas sei que hoje estou pronta para lidar com essa realidade com a cabeça resolvida.

E se tiver que vir e vier, sei que serei uma mãe melhor.

Estou em paz e agora vou curtir meu restinho de quarta-feira!

Oitavo dia: seguimos no páreo!

Depois de uma segunda-feirazinha-de-merda, desculpe o francês, a terça amanheceu melhor.

 

Dormi mais ou menos, mas acordei calma de se estranhar. O que tivesse que ser, já não teria que ficar esperando mais, a sorte estava lançada. Minha parte eu fiz e sigo fazendo.

 

No dia anterior, me preocupava que o médico não quisesse seguir o procedimento e preferisse adiar. Porque, entre nós, ainda que não goste de afirmar que dessa água não beberei, não tenho a menor intenção de repetir essa história. Tem gente que tenta três, quatro, cinco vezes, mas a Bianquinha aqui não tem estrutura, nem tempo, nem grana para isso. Nada contra, pelo contrário, admiro a coragem da mulherada, mas uma vez para mim é o suficiente para me virar do avesso.

 

Acontece que acordei com o seguinte pensamento na cabeça, se tiverem só os dois óvulos e isso não for suficiente para seguir o tratamento, não significa que eles não estejam lá. Simplesmente, que estatisticamente, não compensaria entrar na sala de cirurgia e fazer a fertilização in vitro, porque seria uma questão de sorte. Pensei, mas acontece que os óvulos seguiriam lá, coisa que eu não tinha nos últimos meses. E loteria por loteria, de qualquer maneira eu tentaria engravidar, só que do modo mais divertido!

 

Minha linha de raciocínio nem sempre segue a lógica tradicional, mas funciona para me tranqüilizar. No fundo, acreditei que fosse o que fosse, não era definitivo, era só mais um passo.

 

Enfim, cheguei no médico preparada para ouvir a conversinha pessimista e fazer ouvido de mercador e cara de nada, mas fui logo encaminhada a fazer novo exame de sangue. Opa, acho que ainda estou no páreo!

 

Resumindo a ópera, sim sigo no processo. É o seguinte, tenho 2 folículos grandes em cada ovário e, no meu ovário melhor, mais uns 3 pequenos. Muito bem, o ideal seria esperar que esses 3 pequenos crescessem, mas tem 2 que já estão bem desenvolvidos e se continuo a estimular, há o risco de rompê-los, sem a certeza que os outros 3 irão crescer. Ou seja, melhor tirar os 4 bons e 3 mais ou menos do que se arriscar.

 

Como eu já dei até nome para cada um dos 2 óvulos melhores, não me preocupou não haver vários óvulos, tenho os que preciso. Sim, sei que é precoce, não há nenhuma garantia e blá blá blá… mas foda-se! Para mim são os gêmeos, até que se prove o contrário!

 

Aliás, um parênteses: meninas que pretendem fazer o tratamento, palavrões são terapêuticos para aliviar o efeito dos hormônios!

 

Mas vamos à prática. Hoje suspendo o Fostipur e o Orgalutran. Tomo uma única injeção de Ovitrelle, pontualmente às 21h. Esse medicamento, desencadeia a maturação final dos folículos estimulados. No mesmo horário, Luiz e eu temos que tomar Azitromicina, antibiótico, 1 comprido (finalmente um comprimido!) de 500mg.

 

E de medicação, esses são os últimos remédios até a fase de implantar os embriões.

 

Na verdade, falta só uma lavagem vaginal amanhã à noite, com Rosalgin Pronto, antes de me deitar. Mas isso é fácil e não tenho que me furar, nem que tomar nada! É só a preparação para extrair os óvulos na quinta-feira.

 

Ou seja, na quinta-feira, dia 13 de outubro, tenho o procedimento cirúrgico da retirada dos óvulos. Adorei o dia, era o número favorito da minha avó que acendi a vela ontem. Não queria que fosse no dia 12, não gosto muito desse número. Tudo bem, já estou viajando na maionese outra vez, eu sei, mas novamente, é essa lógica maluca que me deixa mais otimista.

 

A previsão é me internar às 8h, com jejum de 8 horas anteriores, tomo anestesia geral e retiro os óvulos por punção folicular. É feito com um aparelho como os da ecografia transvaginal, só que ele mesmo leva uma agulha que faz a punção dos dois ovários internamente. A cirurgia em si é simples, deve durar uns 15 minutos. Daí vou para uma sala de recuperação e devo passar mais umas duas horas até me recuperar totalmente da anestesia. Volto para casa no mesmo dia, provavelmente, ainda na parte da manhã.

 

Depois vou contando com mais calma. Mas entre hoje e amanhã, parece mais tranqüilo.

 

Na minha barriga, parece que instalaram uma fina camada de gelatina… putz! Mas tudo bem, é por uma boa causa.

 

Vamos ver se os hormônios me deixam um pouco em paz por hoje!

Sétimo dia: expectativa

O finzinho de domingo foi gostoso. Pelas 19h30, fomos para o Siroco cantar. Foi um encontro de coros e também a reabertura da casa, que aliás, ficou bem legal.

 

Chegamos cedo para esquentar um pouco a voz, ver como nos posicionaríamos no palco, que música cantaríamos em conjunto com os outros dois coros, enfim, acertar os detalhes. Não estavam duas participantes do nosso grupo, fizeram falta, mas não fizemos feio. Algumas coisas para ajustar, mas honestamente, saiu melhor do que esperava.

 

Quando acabou fomos comer coxinha e cachorro quente no Mr. Dog da Calle San Bernardo. Assim terminamos de chutar o pau da barraca no final de semana. E sim, acho que já ganhei peso, nem quis me pesar para não me deprimir mais!

 

Minha barriga está inchada e estou retendo líquido. Adicionei gengibre na dieta, amanhã vou ver se compro abacaxi.

 

Ontem foi aniversário de morte da minha avó, havia me lembrado antes, eu costumo acender uma vela para ela nesse dia. Mas com toda essa confusão rolando, justamente ontem eu esqueci, estava na Siroco no horário que costumo fazer isso.

 

Enfim, lembrei hoje e me senti miserável por ter deixado passar. Na verdade, o dia hoje não está  nada fácil para mim. Desde que comecei o tratamento, é quando tive mais baixos que altos, perdi um pouco da confiança e está difícil manter o bom humor.

 

De qualquer maneira, mesmo atrasada, acendi sua vela de costume, acendi uma cor de rosa e cheirosa. Claro que chorei um balde, mas talvez tenha sido até bom, assim não fico guardando nada. Depois, se não consigo rezar normalmente, pelo menos para as minhas avós eu posso, porque eu não tenho fé, mas elas tinham.

 

Amanhã tenho consulta cedo para saber se desenvolvi os tais folículos, se tenho óvulos suficientes para seguir o tratamento. E para ser bastante sincera, não estou pessimista, mas estou decepcionada.

 

Minha última consulta não foi nenhuma maravilha. Não foi suficientemente ruim para me tirar as esperanças, mas no fundo, acreditava que superaria qualquer expectativa. Estou acostumada a romper limites e barreiras, modéstia às favas, acontece que já não tenho controle sobre isso. Vai ser o que tiver que ser e não tenho nada além a fazer do que já estou fazendo.

 

Sigo com as injeções nossas de cada dia. Ontem tentei tomar a mais dolorida primeiro para ver se era mais fácil. Foi pior, porque a barriga já estava ardendo para a segunda. O Emla ajudou um pouco, mas mesmo assim, a agulha mais grossa atrapalha e deixa um ematoma (pequeniníssimo, mas deixa). Amanhã, se tiver que seguir com ela, vou perguntar se posso trocar de seringa. Também comecei a colocar música enquanto preparo tudo e me aplico, me ajuda a relaxar. Outra coisa que alivia é colocar gelo no final de tudo, dá uma anestesiada.

 

Ontem não quis medir minha pressão durante o dia, ela vinha aumentando e fiquei grilada. À noite não resisti e começou a dar uns resultados malucos, quer saber, nem sei se o aparelho estava funcionando direito. Resolvi deixar para lá. Mas medi hoje e voltou ao meu normal 110/71 e temperatura de 36,3.

 

Tinha ensaio do coral hoje à noite, mas estou sem saco. Não estou com vontade de cantar nem de conversar, quero ficar quieta em casa. Amanhã eu devo estar melhor e aí retomo tudo.

Sexto dia: na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba…

Antes de chegar no sexto dia, vou contar um pouco sobre o sábado à noite e ao longo da semana.

 

Fala sério, alguém teve a semana passada fácil? Porque para mim e a torcida do flamengo, foi uma semaninha do cão. Nem posso dizer que foi ruim, mas foi difícil, vamos, foi foda mesmo!

 

Mas sobrevivemos e chegamos ao final dela, entre mortos e feridos, salvaram-se todos!

 

Pela sexta-feira, e-mail de um casal de amigos e outro que a mulher viajou, e aí o que fazemos amanhã? Todo mundo meio duro para sair e querendo animar um outro casal, que passa por um período complicado, ela acabou de fazer um aborto meio tardio, por problemas com o feto. A idéia de um dos amigos era passar na casa deles de surpresa.

 

Veja bem, de surpresa não vou de jeito nenhum! Em condições normais de temperatura e pressão, surpresas já são bem complicadinhas. Ok, então perguntamos a eles se preferiam que a gente passasse na casa deles ou que nos reuníssemos aqui em casa? Eles acabaram topando, mas preferiram vir aqui.

 

Para  reles mortais amadores, seria uma certa saia justa. O que a gente diz para a ex-futura-mãe nesse momento? E ainda por cima, eu no meio de um tratamento de fertilidade! Pois é, mas para gente isso é parte da vida, se é para confrontar os problemas, muito melhor entre os amigos que se querem bem.

 

Quando ela chegou, nos abraçamos, choramos, pagamos um certo mico, enxugamos as lágrimas e seguimos a conversa, como deve ser. Se alguém está pensando que isso estragou nossa noite ou que ficou um clima pesado, aviso que não aconteceu.

 

Um dos amigos trouxe os ingredientes para fazer um strogonoff de frango e ele mesmo se encarregou de ir para o fogão executá-lo. Eu fiz arroz normal, arroz com gengibre, frango assado na cerveja e vagem na manteiga. Outra amiga trouxe um feijão para tomar como caldinho de entrada, aliás, seu primeiro feijão cozinhado sozinha! E todos trouxeram o que queriam beber.

 

E assim foi nosso jantar do sábado à noite, mais familiar impossível!

 

Esquecemos da sobremesa! Quer dizer, eu que esqueci, né? Também a gente nem sabia que ia ser jantar! Resolvemos com uns chocolatinhos deliciosos da nespresso.

 

Sentamos em volta da enorme mesa de centro da sala e sem nenhum planejamento, começou a sair os problemas de infância de cada um, basicamente físicos. Quem nasceu com o pé torto, com a língua colada no céu da boca, com os testículos que não desceram… enfim, um monte de aberrações, mas que ficaram para trás! E cada vez que um contava um problema pior, mais a gente se acabava de rir! Quanto mais absurda era a história, parece que mais engraçado ficava e um sacaneava o outro e a si mesmo.

 

O que acontece é que enquanto colocávamos para fora, ou pelo menos falo por mim, mas acho que era um sentimento geral, mas leve ficávamos. Porque além de compartilhar, a gente vê que não somos os únicos com problemas, coisa que a gente sabe, mas se esquece na hora do olho do furacão. Eu realmente acredito que é rindo que a gente consegue exorcizar o mal que nos fazemos com as mágoas, com a dor e com tudo que nos prejudica.

 

No final das contas, nossos assuntos não foram só problemas, mas foram neles que mais nos sintonizamos e nos divertimos.

 

Pelas três e alguma coisa da madrugada dividimos o que sobrou de comida e bebida, limpamos a mesa e nos despedimos.

 

Eu, certamente, mais leve.

 

Aproveito para comentar um tema que é um pouco delicado e que devo voltar nele em algum momento, mas ontem me lembrei. Essa amiga que precisou abortar ficou sabendo ontem que estou tentando engravidar e ficou bastante contente e tenho certeza que estará na torcida positiva.

 

E é sobre isso que quero falar. Muitas vezes a gente conhece uma amiga que perdeu um bebê ou que está tendo problemas sérios para engravidar e se sente mal em contar que está grávida, ou que acabou de ter filhos. Enfim, parece que dividir nossa alegria com alguém que tem um problema relacionado vai magoar a pessoa. Há amigas que se afastam nesses momentos e acho esse um erro terrível!

 

Sim, é verdade que há mulheres que não seguram a onda, ou não seguram por um tempo e se afastam. Pessoalmente, acho que o espaço de cada uma deve ser respeitado. Mas na grande maioria das vezes, somos nós que tememos machucar o outro com a nossa alegria e nos afastamos, com a melhor das intenções, mas deixamos sós quem queria nossa companhia (e nossa alegria também).

 

Quando eu não queria ter filhos, nunca desanimei ninguém que queria tê-los e sempre, sempre e sempre, fiquei na maior alegria com as minhas amigas que engravidaram. Se eu tiver problemas para engravidar, não quero me afastar das minhas amigas grávidas ou com nenéns, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!

 

Vou ficar triste sim e vai ser duro no primeiro momento, vou pensar por que não aconteceu comigo, mas vai passar. Isso é um problema meu com meu umbigo, não tem nada a ver com os problemas das minhas amigas ou da minha família. Acho que as pessoas devem continuar agindo como antes, com normalidade, porque é uma coisa normal. Problemas são desagradáveis, mas são normais, todo mundo tem.

 

E dito tudo isso, sigo com meu sexto dia, o domingo.

 

Acordei com meu humor de altos e baixos igualzinho. Alguns momentos mais tranqüila, outros com vontade de chorar por idiotices, outros com fome, outros relaxada… enfim, um dia normal, acentuado por hormônios.

 

Pensei um pouco no meu médico, às vezes, sua responsabilidade em me informar a todo momento sobre as estatísticas, os riscos e minha senilidade ovular, me irritam profundamente. No fundo, queria que ele acreditasse mais que o processo fosse dar certo. Mas a verdade é que ele não me conhece, está no seu papel. Quem tem que acreditar que isso tudo vai dar certo sou eu.

 

Hoje tenho que tomar as injeções um pouquinho mais cedo. Aliás, a segunda injeção, a do Orgalutran, é um pouco mais dolorida. A agulha é ligeiramente mais grossa e senti diferença na hora de aplicar. Para facilitar, lembrei de passar Emla, uma pomada anestésica que a gente passa para fazer tatuagens menos doloridas. Vamos ver como funciona, amanhã eu conto.

 

E por que vou tomá-las um pouco mais cedo? É que hoje a gente canta na Sala Siroco. Será um encontro de três coros regidos pela nossa maestra. Duas das participantes mais fortes do nosso coro, o Dumbaiê, não estarão. Farão bastante falta, mas como todo esse texto conta, nada é perfeito, daremos nosso jeito.

 

E, na pior das hipóteses, riremos juntos disso no futuro.

 

 

Casa de Bamba (Martinho da Vila)

 

Na minha casa
Todo mundo é bamba
Todo mundo bebe
Todo mundo samba…

 

Na minha casa
Não tem bola prá vizinha
Não se fala do alheio
Nem se liga prá candinha…

 

Na minha casa
Todo mundo é bamba
Todo mundo bebe
Todo mundo samba…

 

Na minha casa
Ninguém liga prá intriga
Todo mundo xinga
Todo mundo briga…

 

Macumba lá na minha casa
Tem galinha preta
Azeite de dendê
Mas ladainha lá na minha casa
Tem reza bonitinha
E canjiquinha prá comer

Se tem alguém aflito
Todo mundo chora
Todo mundo sofre
Mas logo se reza
Prá São Benedito
Prá Nossa Senhora
E prá Santo Onofre…

Mas se tem alguém cantando
Todo mundo canta
Todo mundo dança
Todo mundo samba
E ninguém se cansa

Pois minha casa
É casa de bamba
Pois minha casa
É casa de bamba…

Quinto dia: menor idéia se isso é bom ou mau

Hoje pela manhã, fui à consulta médica. Fiz uma ecografia e exame de sangue (para uma lista de coisas! No resultado eu verei tudo que ele pediu.).

Muito bem, na ecografia deu que no ovário esquerdo, o meu pior, havia um folículo se desenvolvendo. No ovário direito, havia 2 folículos se desenvolvendo e mais 3 com possibilidades.

E isso é bom ou mau? Cheguei à conclusão que não sei.

A parte boa é que o organismo está reagindo rápido. Poderia estar tomando esses hormônios e os ovários nem tchum.

A parte ruim é que se ficarem só nos 2 óvulos bons, é muito pouco para seguir o tratamento. Não é impossível, mas as chances ficam remotas. Agora, se os outros 3 que estão lá seguirem se desenvolvendo, já é bem melhor.

Portanto, sim as coisas vão caminhando, mas ainda não tenho certeza se poderei tirar os óvulos na semana que vem. Estou marcada para voltar à consulta na próxima terça-feira, dia 11 de outubro e aí tomar alguma decisão .

Resumindo é uma notícia boa, mas meio brochante.

Enquanto isso, sigo com o Fostipur, que é um estimulador para a produção de óvulos e hoje começo a tomar uma nova injeção de Orgalutran 0,25mg/0,5 ml. Esse remédio é utilizado para evitar a ovulação prematura (liberação antecipada de óvulos para o ovário) em mulheres submetidas a tratamento de fertilidade, cujos ovários foram estimulados (pelo Fostipur) a produzir mais óvulos. No caso de uma ovulação prematura, os ovários liberam óvulos que podem não estar maduros ou não serem adequados para o uso na fertilização in vitro.

Ou seja, no total, sigo com duas ampolas de 150 ml de Fostipur e mais o tal do Orgalutran. São duas injeções diárias, entre 20 e 22 horas, ambas na barriga, logo abaixo do umbigo e sou eu mesma quem aplico.

Hoje perguntei se poderia alternar os lados de aplicação da injeção. Porque a área abaixo do umbigo está ficando um pouco sensível. Ele recomendou que não. Que tentasse um pouco mais para cima ou para baixo. Mas essa seria a região menos dolorosa e de menor risco. Não sei risco de que, não perguntei. Deve ser por causa dessa minha barriga tanquinho, né? Vai que atinjo um órgão ou a agulha não penetra nesses abdominais de aço!

Sigo acompanhando a pressão, está 131/79 e a temperatura 36,7. A pressão é normal, mas sobe um pouquinho a cada dia.

Bom, por hoje chega! Não quero pensar mais nisso! Só vou tomar as injeções mais tarde  e assunto encerrado.

Quarto dia: altos e baixos, mas pelo menos é sexta feira.

Hoje acordei normal, humor nem mau nem bom. Sigo com mais sono que o habitual.

 

Ao longo do dia o humor deu sua oscilada. Perto da hora do almoço fui à farmácia buscar mais uma caixa de injeções, a primeira caixa de Fostipur acaba amanhã. Caro para cassilda!

 

Aliás, para quem quer saber, o tratamento todo mais os remédios, custa por volta de cinco mil euros, aqui em Madri. Uma paulada!

 

Na volta, passando pela bendita loja que quero comprar roupas de nenén, resolvi entrar, que saco, e se eu quiser comprar alguma coisa, ninguém nem precisa saber! Depois eu posso só olhar, né? Acontece que era hora da siesta e estava fechada. Historinha ridiculamente banal, mas que foi o suficiente para me abalar a confiança.

 

Enfim, devem ser os hormônios, ou pelo menos tenho uma boa desculpa até semana que vem!

 

Depois melhorei outra vez, pensei que era sexta-feira e não tem como uma sexta-feira ficar ruim, me animei.

 

Logo lembrei que amanhã tem nova consulta. Ótimo porque estamos caminhando, mas uma ansiedade daquelas em saber o que ele vai me dizer. É a primeira consulta após os remédios.

 

Falei com minha mãe pela internet e mães fazem muita falta em uma hora dessas! Tenho minhas amigas e amigos que são uns anjos da guarda, mas não é a mesma coisa. Luiz conta muito, é lógico, só que também tem suas próprias preocupações, a gente conversa, mas não acho justo desabafar tudo nas costas dele. Já basta esse humor do cão!

 

Hoje conversei com uma amiga que precisou abortar por problemas genéticos com o feto. Ela não sabe que estou em tratamento e é um momento horrível para contar, enfim, a vida segue e não vou me omitir para os amigos que também precisam, mas não tem como não mexer comigo. E sei que, mesmo que tudo dê certo, ainda ficarei nessa ansiedade até o terceiro mês, no mínimo. Tenho que aprender a lidar com esse medo para ele não crescer mais do que deve e, ao mesmo tempo, não ignorá-lo por negação. Ele precisa estar ali, me mantém lúcida, mas não quero que esteja em primeiro lugar.

 

Não sei se foi por isso, minha pressão subiu um pouco, foi para 128/76 e a temperatura para 36,9. Ainda assim é um nível normal, não me preocupa, mas é bom para eu saber que essa ansiedade me afeta fisicamente.

 

De qualquer maneira, acho que amanhã, depois da consulta e sendo final de semana, devo melhorar outra vez. Esse processo é intenso, mas pelo menos é rápido. E a partir de amanhã, pelo que entendi, também devo ganhar nova injeçãozinha para tomar (oba, yes, show! -> isso é uma ironia). Mas quem dá uma, dá duas, né? Aliás, daqui a pouco é hora de tomar o Fostipur.

 

Vamos seguindo. Era de se esperar uma certa oscilação de humor e nem posso reclamar, porque estou passando bem. Não tenho enjôos, não fico indisposta, só sono mesmo.

 

Uma coisa boa: ainda não engordei! Aliás, uma coisa ótima! E estou me alimentando muito bem.

 

E é isso, lá vou eu matar o leão do dia! Uma deliciosa injeçãozinha na barriga…

Terceiro dia: a vida parece melhorar…

Felizmente, ao contrário das minhas previsões, acordei de bom humor. O sono persiste, mas já não parece que levei uma surra. Na verdade, estou com vontade de ir para a rua. O dia ensolarado ajuda muito.

Depois de conversar com uma amiga ginecologista e outra amiga que fez o tratamento, decidi parar com as corridas de vez, bem como qualquer atividade de maior impacto aeróbico. Em compensação, fiquei mais tranqüila em relação ao pilates. Porque minha maior preocupação era a quantidade de abdominais que a gente faz, e minha amiga médica me disse que isso inclusive era bom, porque não influenciava no útero e até dava maior sustentação para a barriga. Então, beleza, sofrimento totalmente justificado! Bora para o pilates!

Aplicar as injeções já não me assusta. Continuo achando desagradável, mas vi que dou conta. Para ser sincera, até que gostei da sensação de saber que sou capaz de fazê-lo, me senti corajosa. E sei lá, às vezes precisa aplicar em alguém da família, na casa dos meus pais já aconteceu várias vezes e meu pai sabia fazer. Então, achei bom desenvolver essa habilidade. É meio freak, mas achei importante. Não confundir com que achei fácil, porque não acho, é um saco, mas é possível.

Meu gato parece que percebeu que algo está diferente na energia da casa, está um grude! Ele é bastante carinhoso normalmente, mas está parecendo como quando a gente viaja e volta e ele não larga a gente para nada! Depois se acostuma e volta à sua rotina.

E sim, a energia da casa mudou. Não acho que seja apenas por isso, mas quando a gente se abre à mudança, tudo que está a nossa volta parece que se movimenta junto e portas diferentes se abrem ao mesmo tempo.

E o vento da mudança parece que chegou até o Brasil, ontem tive duas excelentes notícias das casas dos nossos pais.

Acho que não comentei por aqui, mas logo que voltamos de férias do Rio, minha sogra soube que estava com um tumor maligno no seio. O prognóstico era bom, parecia encapsulado, mas até tirar e resolver tudo, lógico que foi uma preocupação. Enfim, ela operou, foi tudo bem e ontem ela recebeu o resultado final dos exames, todos negativos, não vai precisar fazer radio nem quimioterapia. Ela estava exultante, com toda razão!

Do lado dos meus pais, meu pai andava bastante deprimido, ainda que ele não aceite esse termo. Mas o fato é que não queria deixar de dormir o dia inteiro e não saía para absolutamente nada! Bom, ele finalmente aceitou que uma psiquiatra fosse lá em casa. É que ele nunca acreditou nesse negócio de psicólogos ou psiquiatras, de maneira resumida, para ele psiquiatra era para doido e psicólogo para fresco! Dessa vez, minha mãe pressionou um pouco e ele acabou topando. A médica foi ao apartamento deles, escutou toda a história, tomou conhecimento dos remédios que ele toma e receitou medicação. Parece bobagem, mas é um passo imenso! Agora é esperar um pouco os resultados, mas ontem já falei com ele por telefone e deu para fazer algumas brincadeiras. Falei para ele tratando de ficar bom logo porque nas férias vou mandar os gêmeos para lá!

E falando em gente doida, estou surtando para comprar duas roupinhas de nenén! É que aqui embaixo tem uma loja de roqueiros motoqueiros que teve a grande sacada de também fazer algumas roupinhas para criança pequena. Acho o máximo! Sai daquela coisa infantilóide e angelical, é original. Sempre compro os presentes para minhas amigas que acabaram de ser mamães ali.

Enfim, passo todos os dias por essa loja, considerando que é ao lado da minha portaria, e fico me controlando para não entrar. É louco, eu sei, nem sabemos ainda se ovularei! E se tudo der certo, também não sabemos se estamos falando de um ou dois, ou uma ou duas!

Fora que se não funcionar, isola, olha que coisa mais mórbida, né? Vou ficar parecendo essas psicopatas com roupinhas de nenén na gaveta… ai, ai… nem sei porque conto essas coisas!

Deixa eu ir para meu santo pilates suar um pouco que é o melhor que faço!

 

PS: Pressão 122/66; temperatura 36.7

Segundo dia: um sono do cão!

Sei que ainda é tudo muito recente e pode até ser psicológico, mas já notei algumas diferenças. Minha barriga ficou um pouco mais dura e tenho muito, mas muito sono.

 

Hoje resolvi não correr, na dúvida, melhor não arriscar. Seguirei com o Pilates, ontem eu fui, achei que me custou um pouco mais, mas fiz tudo. Talvez faça algumas caminhadas, nunca fui nenhuma super atleta, não me custa segurar a onda por algum tempo. Pelo menos até me sentir segura do que estou fazendo.

 

O problema de ficar em casa sem muito o que fazer é que também te dá mais fome. Acho que terei que inventar alguns compromissos na rua para me forçar a sair. E também para ter outras coisas em que pensar que não seja o tratamento. Penso nisso o dia inteirinho! É meio neurótico.

 

Fiquei ensaiando um monte de vezes como seria a aplicação da injeção da noite, é a primeira que tinha que fazer sozinha, sem uma médica para empurrar minha mão se eu travasse. Caraca, uma mulher tem que ser muito macho, viu? Mas se as outras fizeram, eu também tenho que conseguir, né?

 

O problema não é a dor, nem dói tanto e não daria a mínima se outra pessoa me aplicasse. O caso é que me furar de propósito é anti-natural, é como me cortar! Minhas mãos transpiram só de imaginar.

 

Falando nisso, também achei que minhas mãos estão um pouco trêmulas. Não é perceptível para outras pessoas, é como se tivesse menos firmeza ou se tomasse uma overdose de café.

 

Se já é efeito dos hormônios ou ansiedade pela situação, não saberia dizer, acho que um pouco dos dois.

 

Tenho um medidor de pressão em casa e resolvi acompanhar por minha conta. Minha pressão foi 108/67 e a temperatura foi 35.7, bons resultados. E o que também quer dizer que esse sono louco que estou sentindo não tem nada a ver com minha pressão.

 

Bom, mas vamos ao leão do dia que foi a aplicação da injeção sozinha pela primeira vez. Olha, não foi a melhor coisa do mundo que já fiz, mas o importante é que consegui. Achei que ardeu um pouquinho, no hospital não havia sentido isso, devia ser a adrenalina. Mas é muito mais nervoso de me furar que qualquer outra coisa.

 

Esqueci de contar um pequeno detalhe de quando a médica (ou enfermeira, ainda não sei) me ensinou a aplicar. Quando terminasse, ela falou para tirar a agulha e passar um pouco de saliva no local da aplicação. Sim, gente, juro! Fui ensinada a desinfetar o local no final com cuspe! Às vezes me pergunto que milagre fez com que a civilização espanhola sobrevivesse razoavelmente saudável, sério! Mas enfim, se é a indicação… fiz o que me disseram, né?

 

Para dar um pouco de drama, uns dois minutos de relógio depois que apliquei a injeção, a luz da casa toda caiu. Estava sozinha e teria passado um perrengue se não tivesse terminado de aplicar. Lição aprendida: esperar Luiz chegar do trabalho para me medicar!

 

Tudo bem, o que importa é que vamos seguindo e está dando tudo certo. Um dia de cada vez!

Diário de bordo: primeiro dia da fertilização in vitro

E foi dada a largada rumo aos gêmeos! Ambiciosa, né? Mas nesse momento, tudo é possível, depois vamos ajustando as expectativas.

Muito bem, na verdade, conta-se como o dia 1, o primeiro dia que desce sua menstruação. Daí, no dia 3, inicia-se o tratamento. Por uma coincidência, o “dia 3” caiu no dia 4 (de outubro).

Eu e as vozes da minha cabeça, não gostamos muito do número 4, assim que fiquei meio ressabiada. Acontece que logo soube de outra informação que deixou esse dia perfeito. Então, vou contar uma historinha rápida resumida e verídica. Eu não queria ter filhos nem a pau! Estava bastante segura dessa decisão, até que um belo dia conheci a filha da minha prima, que estava com uns dois anos mais ou menos. O que acontece é que sabe-se lá porque, ela era muito parecida comigo nessa idade, juro que não estou inventando! Depois ela mudou, mas assim pequenininha parecia. Sou uma pessoa muito visual e quando olhei para ela tive essa sensação bizarra de ver concretamente minha filha! Não foi apenas isso que me fez mudar de idéia, depois muita água rolou, mas definitivamente, essa sensação foi o pontapé inicial, quando nasceu aquela dúvida do será que não quero mesmo? Pois é, e porque contei tudo isso? Porque exatamente hoje, quando comecei o tratamento, é dia do seu aniversário de 7 anos! De maneiras que é como um ciclo se encerrando e outro recomeçando, não poderia ser melhor.

A vida dá realmente muitas voltas. Eu ainda me lembro por alto de assistir no Fantástico, em 1978, o nascimento da Louise Brown, o primeiro bebê de proveta, como chamávamos na época. Quem diria que anos depois, em 2011, seria eu tentando o mesmo método ou algo bem parecido.

Hoje é terça-feira, dia 04/10. Minha consulta foi marcada para às 9h30. Assim que acordei cedo, tomei meu café, não é necessário estar em jejum, e segui para o hospital com todos os remédios comigo.

Cheguei lá e o médico me fez aquela ecografia transvaginal (que nome lindo, né?) e verificou que o endométrio estava ok, viu os ovários, meu ovário direito está melhor que o esquerdo e útero bem.

Deu entrada nessas informações no computador dele, me avisou que eu começaria a tomar a medicação e que no sábado (08/10) tenho que voltar ao hospital. Pelo que entendi, no sábado faço novos exames, incluindo um exame de sangue, e aumento a medicação. Mas já chegaremos lá, vamos dia a dia.

Dessa consulta ele me encaminhou a uma outra sala com uma pessoa que não sei se era médica assistente ou enfermeira, mas enfim, foi ela que ensinou a dar a injeção em mim mesma. Na verdade, ela me falou sobre todos os remédios, mas que eu podia ir memorizando de fase em fase, para não fazer confusão.

Nessa primeira fase, entre hoje (4) e sábado (8), só preciso tomar uma injeção de Fostipur. Por minha conta, estou tomando ácido fólico. Perguntei se era um problema e o médico disse que não. Na verdade, disse que por enquanto, não era necessário, mas não atrapalhava nada.

Portanto, voltando, hoje tomei minha primeira injeção de Fostipur, que é um indutor de ovulação. Eu devo tomar 300 ml ao dia. São duas ampolas de 150 ml, que junto em uma única seringa. Pelo que entendi, essa injeção tomo até o dia da retirada dos óvulos, vou atualizando essa informação. Ela deve ser tomada entre 20 e 22 horas. Essa primeira, tomei pela manhã mesmo, mas a partir de amanhã, será sempre à noite.

A injeção não dói. Dá um pouco de nervoso na hora de enfiar a agulha, mas como é bem fininha, você vê que não tem motivos para se preocupar com o reflexo de uma pontada dolorida ou algo do gênero. É só manter a mão firme e não recuar, não precisa força. E fui eu mesma quem já me apliquei, com ela vendo e me orientando. É assim, você dá tipo um beliscão abaixo do umbigo, com seu polegar no umbigo e o dedo indicador mais embaixo. É nesse bolinho de barriga, na linha do umbigo, uns 2 ou 3cm abaixo, que você enfia a agulha. Logo tem que pressionar devagar, sem ser muito forte nem leve demais, você encontra o jeito na hora. O importante é não apertar de uma vez, ou corre-se o risco da seringa voltar e/ou o líquido espalhar onde não deve. Realmente, não parece ser nenhum mistério. Acredito que na segunda ou terceira vez eu já devo estar tirando de letra (espero!).

E foi só isso. Logo depois da injeção fui liberada para vir a casa.

Meu humor está uma montanha-russa e acho que vai piorar. Porque, por enquanto, é mais ansiedade natural. No mesmo dia estou feliz, tenho vontade de rosnar, não tenho paciência, quero chorar por coisas estúpidas, volto a ficar tranqüila, quero sair correndo, relaxo e por aí vai. Certamente, os hormônios não vão melhorar essa sensação. Eu acho uma sacanagem com os maridos não receitarem nenhum calmantezinho para eles! No mínimo, deveria rolar um Rivotril básico…

Com tudo isso, juro que estou bastante animada e acho que Luiz também. Ambos estamos meio assustados, mas acredito que faça parte.

Outra coisa, estou liberada para vida normal, ou pelo menos, o que eles chamam de normal. Posso fazer exercícios, posso correr, posso dançar, posso tomar aspirina se tiver dor de cabeça e até beber. Não poderia fumar, nem consumir drogas. Veja bem, eu considero álcool uma droga, ainda que legal. Portanto, já entubei que não vou beber, mesmo liberada. Fumar, eu não fumo mesmo, nenhum sacrifício.

Mais tarde, tenho Pilates e não vou faltar, estou bem e quero continuar assim.

E até amanhã, com cenas dos próximos capítulos da Megera Imparável!

Um ritualzinho de passagem para a fase nova que começa amanhã

Na quinta-feira, tive ensaio do coral e depois havia um concerto de forró perto de casa. Era um dia bom para ir porque, apesar do Luiz não dar conta durante a semana, iriam um monte de amigos nossos.

Mas, acredite se quiser, não tive vontade. Estava afim de ficar sossegada. Queria dormir cedo e acordar cedo para correr. Foi o que fiz.

Na sexta-feira, saí para jantar só com o Luiz, fomos ao Nikkei 125, um restaurante fusão de comida peruana e japonesa. Excelente! Aproveitei para comer todos os crus que tinha direito. Até onde saiba, grávidas não podem comer carne crua.

No sábado, queria ir para a rua. Fomos a uma festa na casa de novos amigos, o tema era Oktoberfest. Luiz ficou até umas duas da matina, mas precisava viajar no domingo pela hora do almoço e ainda tinha que terminar de arrumar mala.

Acontece que, em tese, seria meu último fim de semana irresponsável, digamos assim. Sabia que no seguinte já estaria em tratamento, então a bebida alcoólica, por exemplo, provavelmente sairá do meu cardápio todo próximo ano. Brinquei que era “minha despedida de solteira” e fiquei na festa até o final. De lá, ainda saímos para tomar a saideira pela rua mesmo e por sorte, bem perto da nossa casa.

Pelas 5 da madrugada, decidi que era hora de voltar e me despedi dos amigos que ainda seguiram. Sim, a noite madrileña não é para amadores, tem que ser iniciado!

Cheguei em casa, avisei ao Luiz que já estava, fechei a porta do quarto para não fazer muito barulho e fui preparar algo para comer. Não dava para ser um quebra-galho, queria comer bem. Fiz uma pasta cabelo de anjo, molho de bacon, manteiga e trufas brancas. Sentei na sala e comi devagar.

Ritual completo, estou pronta para não me arrepender e não sentir que perdi nada! Aliás, posso me orgulhar de que na vida, conscientemente, eu não perdi nada!

Não deu em outra, dia seguinte, domingo pela manhã, finalmente minha regra desceu e posso começar o tratamento.

Luiz foi para Holanda, volta na terça-feira à noite. Passei o domingo em casa. Havia dois concertos para ir, mas me fiz de morta. Queria ficar sozinha e de preferência sem falar com ninguém a não ser que fosse minha mãe ou Luiz. Não estava nem aborrecida, é que queria curtir o momento mesmo, pensar em alguns passos, providências que talvez tenha que tomar, cozinhar, pensar no cardápio que devo seguir para estar saudável. É que as próximas variáveis que terei que enfrentar são absolutamente fora do meu controle, então, me prendo um pouco nas coisas que posso contribuir e assim não me sinto tão vulnerável. Afinal, estou fazendo meu papel.

Hoje, na primeira hora, telefonei para o médico. Minha consulta está marcada para amanhã, às 9h30. É quando vou saber direitinho que medicação tomar, quando e como. Inclusive, terei que aprender a me aplicar injeções, algo nem um pouco agradável, mas vim essas duas semanas me convencendo que não será nenhum bicho de sete cabeças (no máximo umas cinco… cabeças, porque injeções são umas 15!).

Acho que amanhã também começo um tipo de diário de bordo, assim vou espantando os fantasmas e, se alguém quiser saber como funciona o processo de fertilização in vitro no detalhe, terá sua chance de aprender. Ainda que cada mulher responda de maneira diferente, mas algo em comum haverá.

E é isso, amigos, amanhã começa o jogo de verdade. Agora é bola para frente e força na peruca!

E a vida segue…

E a vida segue. Ainda que esteja monotemática, por motivos óbvios, tento não perder a programação madrileña, que de tranqüila não tem nada.

 

Fim de semana, dois aniversários para ir e um concerto de música e dança brasileira no parque. O primeiro aniversário, na sexta e felizmente pertinho de casa, sossegado, agradável e um bolo maravilhoso. O outro no sábado, começou pela hora do almoço e entrou pela noite. Na sequência, uma das convidadas tinha um show para fazer e lá fomos para dar um apoio moral com nossos caxixis e tamborins! E quando acabou o show, para onde ir? Ué, aqui para casa, lógico! Resultado, seguimos cantando e tocando até às 5 da matina.

 

Domingo, já havíamos marcado de ir ao parque com alguns amigos. Uma preguiça daquelas e Luiz de ressaca! Mas como dispensar o ar livre do começo de outono? Em breve o frio vai complicar, melhor termos reservas de luz.

 

Chegamos lá e os amigos tinham armado o maior esquema, mantas no chão, geladeirinha portátil com comidinhas e bebidas. Ok, no Brasil a gente chama isso de farofa, né? Pode ser, mas é uma delícia.

 

Muito bem, eu juro que fui toda animada para assistir aos shows  e dançar, mas foi só olhar aquelas mantas convidativas espalhadas na grama que não resisti a me integrar a elas. Ou seja, fui até o Parque de Aluche simplesmente para cochilar na companhia de amigos.

 

Até aí, tudo ótimo! Num bom humor daqueles! Cheguei a me surpreender comigo mesma de como estava levando esse período tão leve e tão segura do que quero.

 

Daí chegou segunda-feira e não tinha vontade de tirar o nariz da cama! Agoniada, querendo que o tempo passasse logo. Como de um dia para o outro meu humor muda dessa maneira? E na hora em que começarem os hormônios? Putz! Bom, tive umas notícias chatas no fim de semana de duas amigas que precisaram abortar por problemas genéticos. Será que fiquei impressionada? Mas isso eu já sabia que era assim. Tive pesadêlo com meu pai, pára de pensar nisso! Será que é TPM? Será a lua? Nem vontade de sair para correr eu tive!

 

Mas no fim da tarde teve ensaio do coral e deu para espantar os fantasmas. Uma amiga chamou para uma roda de samba, achei que Luiz não fosse animar em plena segundona, mas ele animou. E na volta para casa ainda paramos para comer fora e dar uma baixada de adrenalina. Conversarmos um pouco sobre todas as mudanças que estão prestes a acontecer e, na verdade, em muitas frentes ao mesmo tempo. Aliás, é sempre assim, uma mudança puxa a outra, que puxa a outra…

 

Na terça-feira, não conversei, despertador para bem cedo! Fui correr! E à tarde, pilates! Vamos malhar!

 

Luiz conseguiu chegar um pouco mais cedo do trabalho e me chamou para jantar fora. Tinha algumas boas notícias, nada definitivo, mas a gente aprendeu a comemorar cada etapa e nisso somos muito bons. Jantamos no Paralelo Cero, acompanhados de um belo Bourgogne Premier Cru.

 

Quarta-feira, lá fui eu correr e gastar o jantar da noite anterior!

 

No que estou escrevendo em casa, me chamam pelo Facebook, uma amiga perguntando se queria pegar um cineminha. Por que não? Vamos nessa!

 

Fui assistir a Árvore da Vida, não sei como se traduziu no Brasil, mas é o filme do Terrence Malick que andou gerando algumas polêmicas. Bom, para mim não teve polêmica nenhuma, achei chatérrimo mesmo! Verdade que visualmente é lindo, mas me deu a sensação de passar duas horas e meia olhando um aquário!

 

Na sequência, um amigo em comum havia chamado para uma apresentação, ele é bailarino de salão. Lá fomos nós achando que seria uma apresentação de samba. Quando a gente entra no local, está rolando uma palestra… ops! Caraca, será que entramos em uma roubada?

 

Acabou que nem foi roubada. Realmente, o iniciozinho foi uma palestra, mas logo começaram as apresentações. E além desse nosso amigo bailarino, outros amigos músicos, muito feras, também tocaram. Acabou valendo bem à pena! No final, todo mundo se conhece.

 

Voltei caminhando toda nostálgica e pensando na ambigüidade de sentimentos que tenho por essa cidade. Essa coisa provinciana que me irrita profundamente, mas ao mesmo tempo, é bastante confortável. Como é ruim a sensação de estacionar no tempo e como é boa a certeza de encontrar o conhecido.

 

Tem coisas que as pessoas “normais” não percebem mais, como o alívio de saber de cor o caminho para casa, desviar da pedra solta na calçada com antecedência, reconhecer os cachorros da redondeza, os horários dos seus vizinhos. São detalhes que, por princípio, não deveriam ser mais que rotina, mas entram e saem da minha vida a todo momento e por isso eu presto mais atenção nessas bobagens. No final das contas, são essas mesmas bobagens que nos trazem a sensação de lar, de pertencer.

 

E eu vivo nesse dilema entre aproveitar meu momento atual, meu lar de agora, e o comichão de buscar algo novo.

 

Não sei se me explico bem, eu realmente aproveito cada momento, não tenho dúvidas disso, mas na hora em que entro naquele quentinho confortável do ninho, não é que eu não goste, mas pressinto que a mudança virá. Então já não resisto, porque não há alternativa, a vida seguirá e me arrastará com ela. Melhor ir de boa vontade.

Um dia bom

Pois é, passado o furacão de dúvidas, decisões e feijoada do Luiz, entrei em uma fase diferente, a de começar a visualizar as mudanças.

 

Sei que tudo é muito recente e a gente não tem idéia dos possíveis resultados, mas eu sou aquela pessoa que detesta surpresas. Gosto de me preparar, de me antecipar. Não acho que por isso a gente deva deixar de viver o presente, mas digo no sentido te ter uma estratégia. Acho bom ter o plano A, o B e o C. Na hora do vamos ver a gente pode improvisar um pouco, mas sempre melhor improvisar com algumas cartas na manga.

 

E vamos combinar, se depender do apoio da família e da torcida dos amigos, é sucesso garantido! Nesse aspecto, não posso reclamar da sorte que temos.

 

No início do mês que vem, provavelmente por volta da primeira semana de outubro, a gente começa o tratamento de fertilidade para valer. Sei que com tudo que está envolvido e com o turbilhão de hormônios que se aproxima, não deve ser um período simples. Olho para uma sacola de compras cheia de caixas de remédios e penso, quanta coisa tem que entrar para sair um bebê! Não tenho como evitar os inconvenientes que virão, mas posso tentar fazer com que as coisas não cresçam mais do que o necessário.

 

Acho que, a partir de agora, passaremos umas duas semanas de calmaria e logo chegará a tempestade. Tudo bem, sabendo que ela vem, melhor armar os guarda-chuvas, não é mesmo?

 

Estou me cuidando em muitas frentes, no que só tenho a ganhar. Por exemplo, acho que de um modo geral somos bastante corretos com a comida. Sempre tem um dia ou outro de excesso, mas na média me alimento muito bem. Ainda assim, redobrei esse cuidado e estou tentando ser o mais saudável e equilibrada possível.

 

Também aumentei o ritmo de exercícios para 5 vezes na semana. Normalmente, ou corro, ou vou ao Pilates. Alguns dias, inclusive, faço as duas coisas. Acho que isso vai me ajudar a não implodir com os hormônios, além de aumentar o nível de endorfina que é uma mão na roda! E o principal, para uma mulher, nesses momentos complicados e de possíveis frustrações, convenhamos, ajuda muito ter a bunda dura!

 

O que me faz lembrar de uma brilhante amiga carioca, que em um período de crise pessoal tinha orçamento para fazer terapia com um bom analista ou se matricular em uma academia de ginástica. Elegeu a segunda opção e me ilustrou com a seguinte pérola: minha cabeça está ferrada mesmo, vou continuar tendo problemas com ou sem analista… então, pelo menos é melhor ter problemas com a bunda dura! Uma sábia!

 

Muito bem, voltando ao tema, com tudo isso rolando, obviamente é meu principal pensamento todos os dias, fica difícil ter qualquer outra prioridade.

 

Daí, duas coisas me ocorreram, a primeira é que o caminho começa quando decidimos caminhar e não quando colocamos o pé na estrada. E a segunda é que, em breve, todas minhas prioridades vão mudar. Não serei outra pessoa, mas terei novos hábitos, horários, compromissos e por aí vai.

 

No que diz respeito ao caminho, me dei conta que já estou nele desde a hora em que disse sim. Entretanto, todo o contexto me distraiu e acho que é hora de começar a desfrutá-lo (ou, eventualmente, me assustar!). O jogo não vai começar, já começou, estejamos prontos ou não. Eu já sou mãe e Luiz já é pai, simplesmente estamos de altas por alguns meses e não sabemos por que buraco essa criança vai sair, aliás, literalmente. Podemos aproveitar esse tempo para resistir, adiar, sofrer ou aprender. Eu quero aprender.

 

Algumas fichas começaram a me cair, como por exemplo, em uma situação normal, você fica esperando para ver se sua regra desce e, com isso, se engravidou. No meu caso, se chegarmos até a etapa de implantar os embriões, já saio do médico tecnicamente grávida! Ou seja, minha espera é para saber se aborto ou não. É forte e é melhor me preparar.

 

Pois bem, mas sejamos otimistas e vamos acreditar que tudo dará certo. Nessa hipótese, comecei a pensar no segundo caso, que minhas prioridades vão mudar. Comecei a imaginar como seria meu dia, o que deveria fazer, quais seriam as atividades nas coisas mais básicas como ter tempo para comer ou ir ao banheiro de porta fechada. Resumindo, acho que terei dias de querer sair correndo e outros de felicidade extrema, mas em ambas situações, tudo será diferente.

 

Minha rotina é bastante livre e meus horários muito flexíveis e é bem provável que estranhe voltar a ter compromissos inadiáveis. Ao mesmo tempo, pensei que ainda assim, com toda essa liberdade, eu dificilmente estou desocupada. Ninguém tem todos os dias de férias ou fim de semana. É interessante notar que de uma maneira ou de outra, a gente se ajusta à semana de trabalho, mesmo se não tiver um trabalho fixo.

 

Daí eu pensei, por que vou esperar ficar totalmente ocupada com a família para reclamar que não tenho tempo para mim? Se tenho hoje a liberdade, por que não aproveitá-la? Depois é outra coisa, não quero ter do que me lamentar.

 

Tenho um casal de amigos que teve gêmeos, há cerca de um ano. Desde o princípio, ele e a mulher tiram uma  noite da semana para eles. Faça chuva ou faça sol, nas quintas-feiras está contratada uma  babá e eles saem os dois para jantar sozinhos. Achei sensacional! Está anotado no meu caderninho, não esquecer que tenho vida própria e também uma vida de marido e mulher!

 

Inspirada neles, pensei que também podia tirar um tempo para mim. Decidi ter um dia para fazer coisas legais! Assim do nada, no meio da semana e porque sim.

 

Acordei cedo, esperei o ruído que Luiz estava indo trabalhar e levantei. Muito bem, adoro tomar um super café da manhã, mas nos fins de semana estamos sempre com sono para fazer isso fora de casa. Pois me arrumei com a roupa de ginástica e fui tomar café no Le Pain Cotidien, sozinha e curtindo minha companhia, modéstia às favas! Ovo quente, capucchino com café descafeinado, pão de cereais com manteiga e presunto, suco de laranja e algumas frutas e um tomate que vieram na decoração. Eu sempre como os enfeites!

 

De lá, fui para o parque correr. Adorei passear pelas calçadas e ver as lojas ainda abrindo e tudo começando devagar.

 

Na volta para casa, depois de suar a refeição que foi meu café, parei em uma loja de sucos e tomei um de manga com abacaxi e laranja. Geladinho, amo sucos naturais, sem açúcar nem nada!

 

Abrindo a porta de casa e já pensando em tomar um bom banho, outra idéia me ocorreu, por que não ir a um hamman? Assim, ao invés de um banhozinho qualquer de chuveiro, me banho em três piscinas térmicas! Ainda rola uma sauna e uma massagem básica! Fechado!

 

E lá fui eu para o hamman!

 

No trajeto observei as ruas que tanta gente atravessa o oceano para conhecer e eu tenho embaixo da minha porta. Acho que devia passear mais, inclusive é grátis!

 

Depois de relaxar na água, meu elemento, e soltar toda a musculatura em uma massagem de meia hora, saí pelo centro da cidade leve e achando tudo lindo!

 

Só tinha um detalhe me incomodando, começou a me dar a maior fome. Seguindo minha linha do dia, pensei, o que eu quero comer? Já sei, sushi! Bom, mas são 16 horas, onde vou achar comida japonesa agora?

 

Achei, no Mercado de San Anton. Aliás um lugar elegante, moderno e agradável. Verdade que tudo é um pouco caro, mas não tem milagre e era o meu dia de fazer coisas legais!

 

Comi devagar observando a arquitetura e os cabos de metal que se entrelaçavam em linhas tensas, como nos meus trabalhos de arte. Deu vontade de voltar a criar, de fazer outra exposição. Sinto que não vou demorar a me debruçar sobre o papel de seda, estou com vontade de voltar a esse mundo.

 

E assim voltei para casa, pensando que deveria ter outros dias como esse, por que não?

 

Não preciso de um dia inteiro sempre, ninguém normal tem tempo nem dinheiro para isso, mas tem pequenos atos que estimulam a mudança. O que posso tentar fazer diferente hoje? Comprar flores no caminho de casa, resolver subir de escada ao invés de elevador, começar a ler um livro, usar uma roupa de outra cor. Tem coisas muito simples que a gente vai deixando de lado sem perceber e quando vê, caiu em uma rotina chata.

 

E esse é um risco maior para quem tem filhos. Não por causa dos filhos, é o casal mesmo que acaba usando a desculpa fácil do cansaço e da falta de tempo, ou espaço, ou dinheiro, ou qualquer coisa.

 

Não tenho certeza do que vou inventar amanhã, mas estou disposta a começar meu dia com essa pergunta: o que quero fazer diferente agora?

A Já Tradicional Feijoada Anual do Luiz 2011

Setembro tem o aniversário secreto do Luiz, meu marido que gosta de festas… desde que não seja a do seu aniversário. Foi como nasceu a já tradicional feijoada anual do Luiz! Que já expliquei também pelo blog algumas vezes e estou sem paciência de contar tudo outra vez.

 

O que importa é que em um sábado por ano, logo após seu aniversário, aqui em casa rola uma feijoada completa para ele. Ingredientes contrabandeados diretamente do Brasil, carne seca, costelinha defumada, paio, lingüiça portuguesa, tudo de direito! Importantíssimo uma farofinha, falsa couve à mineira, feita com bastante alho, azeite e bacon e, por último mas não menos importante, um arroz bem refogado com cebola e alho!

Algumas entradinhas para segurar a fome enquanto chega todo mundo: torresmo, frutos secos, vinagrete com pão, batatinha, azeitonas e salaminho. Uma amiga trouxe umas esfihas caseiras deliciosas, então aproveitei e fiz um tipo de kafta (porque para ser sincera precisava esvaziar o congelador), não era exatamente brasileiro, mas o povo aqui tem preconceito não, se for gostoso a gente come!

 

Como todos os anos, fizemos camiseta e tudo, ou seja, a feijuca tem abadá para entrar!

Ao longo dos anos, essa história ganhou fama e o número de convidados foi aumentando, chegando até umas 50 pessoas.Tem gente que nem espera convidar, entrou setembro já começam a perguntar que dia cairá a feijoada! Considerando que cozinho sozinha em um apartamento normal e corrente, começou a complicar.

 

Esse ano fomos um pouco mais rigorosos com o número de convidados, além disso, pedimos que ninguém trouxesse o amigo do amigo, porque não cabe! A gente gosta muito de conhecer gente nova e tal, mas fala sério, deixar de convidar amigos queridos nossos para vir alguém que a gente nunca viu e provavelmente não verá novamente… Enfim, sempre tem uma ou outra exceção negociável, acontece e é normal quando você mora em um país estrangeiro, mas seguramos o máximo. Em outras festas, não costumo me importar, todo mundo é bem vindo! Mas na feijoada anual tem regulamento, precisa merecer! Sem falar de quem inclusive merece, simplesmente não cabe e ponto final!

 

Assim que não fizemos muito alarde, tínhamos 40 convidados cravados e vieram 36 pessoas. Movimentado, mas confortável.

 

De qualquer maneira, cozinhei umas 50 porções, porque apesar de ser um almoço, conheço bem nossos amigos (e a mim mesma), nunca é uma rodada só. Não me lembro de nenhuma festa em casa que tenha durado menos de 9 horas, contadas no relógio. Portanto, é de costume que quando caia a noite, a fome aperte novamente e daí esquento uma segunda rodada. Ninguém se faz de rogado e começamos tudo outra vez!

 

Não precisei me preocupar com a sobremesa, duas amigas trouxeram torta de três chocolates, pavê de abacaxi, mousse de limão, brigadeiros e beijinhos. Bolo de aniversário estava proibido! Quebrou um galhão, porque me libera de ter que pensar nos doces. E se alguém está achando que depois de uma feijoada ninguém ia agüentar sobremesa, aviso que foi tudo! Quem ficou até o final ainda conseguiu levar quentinha, no esquema festa na casa de avó!

Temos muitos amigos que são músicos, algo que aconteceu naturalmente, porque a gente participa de um coral e também porque saímos bastante e vamos a vários concertos por Madri. Então, um conhece o outro, que conhece o outro… Resultado, sempre tem música ao vivo em casa. Costuma ter alguém que realmente sabe e um monte de amadores que tentam acompanhar. Acontece que dessa vez havia uns 5 profissionais e muito bons! De maneira que o nível musical subiu bastante. Lógico que é informal e a maioria está para se divertir, mas houve momentos que realmente me senti privilegiada de conhecer gente tão talentosa. Bom, e claro que aproveito para dar minhas batucadas e aprender um pouco.

 

Tomei minha cachacinha. Andei abstêmia um bom período e nem foi difícil, honestamente falando. Mas considerando que nosso tratamento só começa no mês que vem, achei que não era grave dar uma relaxada, afinal, não estou grávida ainda, nem fazendo promessa. Estava bem e feliz, por isso desceu sem problemas e no dia seguinte estava nova em folha!

Mas continuando com a feijoada, quando a música ao vivo acabou, Luiz assumiu o DJ que mora no interior de sua pessoa e deu sequência a uma festa Ploc! Músicas dos anos 80, quando a mulherada enlouqueceu e se organizou em coreografias bem para lá de marraquesh! Sim, participei de algumas delas, Paquitas e Menudo era um pouco demais para mim, afinal eu já era mocinha nessa época e era meio mico. Mas Rosana, como uma deusa, Flash Dance e otras cosillas más… não ia me negar, certo? Bem que foi divertido e, no futuro, tenho fotos para chantagear deus e o mundo!

 

Acho que pelas duas da manhã se foram os últimos convidados, que inclusive já nos ajudaram com a arrumação e a descer o lixo. Sabe como é, a intimidade permite essas coisas e a verdade é que nos ajuda bastante. Fomos dormir com a casa bem ordenada. Vamos combinar que não há nada pior que acordar no dia seguinte com a sala do avesso, né? Preferimos esticar um pouco e resolver na mesma noite, ou melhor, madrugada.

 

E assim foi a Já Tradicional Feijoada Anual do Luiz 2011! Para mim, com certo ar de nostalgia antecipada. Como e onde estaremos no ano que vem? Seremos só Luiz e eu ou estaremos enlouquecidos com uma família? Estaremos ainda em Madri? Alugaremos um galpão e cobraremos ingressos para chamar todo mundo?

 

Vida louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve…

Sigo no talvez, o que é boa notícia

Muito bem, acordei na quarta-feira, ou melhor, levantei, porque dormir que é bom, nada!

Luiz ainda teve uma reunião com cliente pela manhã, mas conseguiu sair a tempo para me buscar e irmos juntos ao médico.

Resumindo a ópera porque de suspense já basta, foi uma boa consulta. Sim, somos férteis. Entretanto, seria bem difícil engravidar por vias normais. Nada é impossível, tem gente que ganha na loteria, certo? Estatisticamente, seriam probabilidades parecidas.

No início de toda essa história, não queria nem imaginar tratamentos, fertilizações artificiais, provetas e afins! Demais para minha cabeça.

Acontece que me peguei em plena consulta, onde descobri que dos quatro tratamentos existentes, eu já não era apta a dois. E os outros dois que eu posso tentar, um é doação de óvulos, o que vai muito além dos meus limites. Situação em que preferia adotar uma criança. Vamos combinar, se nem seria minha mesmo, para que suportar uma gravidez? Nada contra a técnica, acho até uma boa alternativa para uma mulher que tenha essa necessidade de parir, mas francamente, não é meu caso. Para mim, aquele barrigão desinteressante é só o meio para um objetivo maior.

Ou seja, se for para ser do nosso sangue, só me resta uma alternativa e é agora ou não é mais!

Vamos lá, funciona mais ou menos assim, em linguagem leiga, no terceiro dia após a menstruação, começo a tomar uma porrada de hormônios para estimular os folículos. Dependendo desses folículos, tomo outra porrada de hormônios para estimular a ovulação. Depois, também dependendo de quantos óvulos saiam, talvez precise tomar um inibidor, porque tem um mínimo, mas também tem um máximo de óvulos, ou parece que enfraquece as possibilidades. Muito bem, esse óvulos são retirados cirurgicamente e fertilizados pelo sêmen do meu digníssimo marido. Falando assim não é muito poético, né? Daí precisa esperar para ver se rola uma química entre as partes e saem embriões. Acho bom os espermatozóides do Luiz gostarem dos meus óvulos; ou meus óvulos não fazerem muito doce, porque é o jeito! Esses embriões são classificados em A,B,C e D, quanto mais perto do A, maior a probabilidade da gravidez vingar. E de acordo com o número e qualidade de embriões, se implantam, também cirurgicamente, até um máximo de 3 deles de cada vez. Os embriões que sobram, quando sobram, são congelados para futuras implantações. Pelo que entendi, meu “pacote” inclui até 3 tentativas de implante de embriões. Você que decide quantos quer implantar, por isso há maior incidência de gêmeos que em uma gravidez natural. Essa confusão toda leva mais ou menos um mês, entre começar a tomar a medicação e a primeira tentativa de implante dos primeiros embriões. Ufa!

Enquanto o médico te explica esse procedimento, ele faz questão de te dizer que durante o tratamento, é vida normal! Hã, hã… qual a parte do normal aí que não entendi? Normal para quem, cara pálida?

Bianca, para de pensar, simplifica: just do it! Melhor nem olhar para o Luiz, senão começo a especular! Se ele não está dizendo não é porque concorda!

Portanto, me vi aceitando condições como se nem controlasse as palavras que saiam da minha boca. No carro, perguntava ao Luiz em que momento mesmo o impensável há umas semanas virou o próximo passo? Desconfio que foi na noite anterior, quando me dei conta que talvez é melhor que não.

Pois é, depois de escutar tudo isso na consulta e ainda por cima concordar, vim para casa e Luiz seguiu para o trabalho. Eu achava que estaria exultante em saber que ainda era possível, mas minha reação foi meio bizarra, acho que fiquei em estado de choque, meio paralisada e com a cabeça a mil por hora. Sem rir, sem chorar, só absorvendo.

Falei primeiro com minha mãe por telefone. Tomei coragem de ler os comentários do blog e responder rapidamente. Mas só conseguia pensar que queria sair correndo!

Então saí! Coloquei um tênis e fui para o parque correr e suar como uma louca! E viva a endorfina!

Cheguei exausta, consegui cozinhar um pouco e sem salgar a comida, o que é um excelente sinal! Sim, porque abrindo parênteses, sábado tem aniversário do Luiz e faço sozinha uma feijoadinha básica para umas 50 pessoas! E isso, porque como de costume, fomos super restritos no número de convidados, mas essa é uma outra história.

Durante a noite, dormi que foi uma beleza! Acordei descansada, fui buscar na farmácia os remédios que futuramente terei que tomar, adiantei um pouco mais a feijuca, fiz ginástica puxada… e de repente, percebi que estava feliz.

Entubei! Pensando bem, na pior das hipóteses, não dará certo. E nesse caso, perdemos algum dinheiro, ganharei alguns quilos pelos hormônios, choro os três dias de protocolo e a vida segue sem arrependimentos.

De uma maneira ou de outra, minha decisão já foi tomada e em ambas as possibilidades, vou ser mãe. Agora vou concentrar meus esforços para engravidar, não sei se é a melhor alternativa, mas é a que tenho no momento. Se não der certo, vai me fortalecer e amadurecer a idéia da adoção, e se der certo, estarei mais preparada para uma gravidez também. Assim que pensando bem, só tenho a ganhar.

Acontece que pode dar certo e, sabe que no fundo, começo até a achar que se tivéssemos gêmeos ia ser bem legal!

Essa noite ainda é talvez

Amanhã saberemos se somos um casal fértil ou não. Assim, na bucha!

 

Enrolei para chegar esse dia por mil razões que nem me arrependo. Cada um sabe que nível de frustração é capaz de tolerar. Cada um sabe seu momento de se testar e elegemos o nosso.

 

Eu sou de encarar os problemas, tenho coragem para isso normalmente. Mas sou péssima em lidar com a frustração. Eu odeio saber que não posso qualquer coisa e a cada dia que passa não posso mais alguma coisa. A gente supera, mas é foda!

 

Já houve o tempo que eu acreditava que podia tudo e sei que isso não tem volta. Não sou mais especial que ninguém e é assim para todo mundo. A gente simplesmente envelhece. Tem um monte de outras vantagens, é verdade, mas continua sendo foda!

 

Hoje não sei se prefiro a certeza do não ou a esperança do talvez.

 

Meu lado racional sabe que se a resposta for não, melhor saber logo e tomar outra direção. Eu não vou morrer por causa disso, só que dói um bocado, dói só de imaginar.

 

E essa noite não quero dormir, porque pode ser minha última noite de talvez.

 

Não quero desabafar com o Luiz, ele já sabe, tem as preocupações dele e esse assunto preciso resolver entre eu e meu umbigo. Já quis escrever para minha mãe, já me imaginei conversando com amigas, com estranhos, mas no fundo no fundo, o que preciso mesmo é um pouco de solidão. A mesma que encontrei no meu enorme muro das lamentações, foi muito bom poder falar com a parede. Assim que aqui estou com minha parede particular para ordenar as idéias.

 

E aí, parede, e se for não?

 

Se for não, mais uma vez, vai ser foda! Estou repetitiva, mas essa é a frase que domina meu pensamento agora. Vai ser complicado levantar da cama, principalmente no outono. Vai ser difícil brincar com crianças por um tempo. Vai me dar medo de encontrar com as grávidas e não ser capaz de afastar do pensamento o por que não foi comigo. E mais uma lista de absurdos que não quero nem pensar.

 

Vou passar três dias chorando e felizmente, sei que meu prazo para depressão é de três dias. Daí acordo melhor, levanto, dou uma sacodida na poeira e seguiremos. Vai passar.

 

E era isso que precisava me lembrar, não preciso de força para o resto da minha vida, só um pouco de serenidade para amanhã e kleenex para os próximos três dias. Pronto.

 

E se for talvez? Nada garantido, mais uma série de decisões pela frente e também não vai ser fácil. A diferença é que para conseguir alguma coisa que tenho a mínima chance o ânimo é outro.

 

Ainda, que para ser bastante sincera, também me borro de medo do sim. As estatísticas são assustadoras. Na minha idade, a possibilidade de ter uma criança com síndrome de Down, por exemplo, é por volta de 1 em 100 e sobe a cada dia (com 20 anos é de 1/1925; com 45 é de 1/32). Eu farei 42 anos em novembro.

 

Eu não sei o que fazer. O não me derruba e o sim me enche de dúvidas.

 

Tudo pode dar certo e correr às mil maravilhas? Claro que pode! Conheço um monte de gente que simplesmente prefere ignorar os possíveis problemas e fazer de conta que nada de ruim pode acontecer. Me pergunto se essas mulheres nasceram em marte! Porque me parece um completo absurdo e inconseqüência sequer pensar na encrenca que podemos estar nos metendo. Estou disposta a encarar, mas não de maneira leviana ou ingênua.

 

Tenho vontade de bater a cada vez que escuto um: ih, sei da amiga da amiga da irmã da minha prima que teve filho com 47 anos e deu tudo certo! Como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo! Parece conversa de fumante que sempre conhece um velho de uns 98 anos de um povoado do fim do mundo que fumou e bebeu a vida inteira e é super saudável… Conhecer alguém que teve essa experiência e as mesmas dúvidas, talvez realmente me ajudasse; lendas urbanas, não me levam a lugar nenhum, por melhor que sejam as intenções, só me irritam.

 

E cada vez que tento recorrer aos meus instintos sobre o que sinto de verdade, minha cabeça vira uma bagunça, não consigo ver com clareza. Só me volta a pergunta do por que complico tanto? Desde que o mundo é mundo as mulheres engravidam, é parte da vida! Por que para mim é todo esse drama? E daí me irrito comigo mesma!

 

A bola da adoção ainda está no ar, continua sendo uma possibilidade. Ao mesmo tempo, ao pensar mais a respeito, também penso que não é nada simples nem rápido. A responsabilidade é exatamente a mesma.

 

Não tenho dúvidas que poderia amar igual, mas me questiono se seria capaz de me conter caso notasse alguém olhando diferente para essa criança, ou se pularia em seu pescoço como uma onça raivosa defendendo a cria! E isso pode acontecer, na verdade, dependendo do quanto formos fisicamente diferentes, pode acontecer todos os dias.

 

Muito bom, parede, agora não tenho apenas uma dúvida para me preocupar, tenho um milhão delas!

 

Uma coisa de cada vez e um leão só por dia. Lição do Caminho de Santiago, no início, você vai dormir cheia de dores e acha que não vai agüentar o dia seguinte. Quando amanhece, a noite de sono e o descanso te curaram em boa parte. Você levanta nem que seja porque não tenha outra alternativa, começa a andar e esquenta a musculatura. Nada te dói mais, a endorfina te anima e você segue. Tanta coisa acontece durante o dia que você só se importa com os próximos passos. À noite vai doer outra vez, mas você já não pensa que não poderá, confia que amanhecerá melhor.

 

Hoje eu não posso fazer mais nada. Não preciso fazer nada, tenho o conforto embriagante do talvez.

 

… E eu corri para o violão, num lamento, e a manhã nasceu azul… Como é bom poder tocar um instrumento…

 

Para Caetano é bom saber tocar um instrumento, para mim é um alívio poder escrever.

 

Melhor dormir e guardar forças para o leão de amanhã. Menos mal que não confronto ele sozinha.

Algumas considerações após a viagem e encerramos esse assunto!

Eu tenho um lado meio camelo, depois de ingerir rapidamente as informações, gosto de revisitá-las e fico ruminando e espremendo significados que sei que estão lá, mas não me aparecem de forma tão evidente. Preciso ir juntando as pontas soltas até digerir realmente o alimento.

Por uma questão logística, visitamos dois países culturalmente bastante diferentes entre si, Israel e Jordânia. Não são exatamente inimigos nesse momento, mas também não podemos dizer que sejam amigos. A tensão não é imaginária, ela existe e tem seus motivos em ambos os lados.

Não tenho conhecimento suficiente para julgar quem está certo, ou quem estaria certo em que ponto especificamente. E acho que nem vem ao caso. Não tenho a intenção de comparar duas nações, porque não se compara chocalho com banana! Diferenças são mais ricas quando entendidas e não quando comparadas.

Mas posso traçar analogias com experiências que vivi e é o que vou fazer agora.

Meninas tem a mania de ter uma melhor amiga, não sei se é universal, mas era algo recorrente na minha infância. Com a adolescência isso foi perdendo o sentido e na fase adulta chega ser bobo você querer categorizar seus amigos.

Mas o que importa no momento é que a minha primeira melhor amiga no colégio era judia. A conheci no primário da Escola Paroquial Santo Antônio. Sim, ambas estudávamos em um colégio católico.

Certo dia minha mãe foi chamada à direção para conversar, nada raro de acontecer, porque  vira e mexe eu arrumava alguma confusão. Mas dessa vez, a diretora sabendo dessa amizade e afim de evitar mal entendidos, queria avisar minha mãe que minha melhor amiga era judia e filha de pais separados. Queria saber se ela tinha algum problema em relação a isso. Não, minha mãe já sabia dessas duas informações, afinal frequentávamos as casas mutuamente, e não tinha a menor restrição a respeito. Vale comentar que além do colégio ser de freiras, naquela época, pouca gente se separava, ainda era um tabu. E quanto à religião, acredite se quiser, era motivo de medo ou vergonha se dizer que não era católico. Portanto, mais do que preconceito, honestamente acredito que a diretora estava se adiantando para mediar uma possível situação constrangedora para todos os lados. Hoje isso parece abominável ou ridículo, mas estamos falando de trinta e tantos anos atrás.

Em relação à nossa amizade, não fazia a mínima diferença. Ela me dizer que era judia e não católica era como se me contasse que preferia sorvete de baunilha ao invés de chocolate. Só entendi que havia algo relacionado a uma maneira diferente de pensamento quando descobri que ela era liberada de fazer os deveres de casa e as provas de religião (católica).

Obviamente, no mesmo dia cheguei em casa pedindo para minha mãe: quero ser judia!

_ Hein? E por que você quer ser judia?

_ Não precisa fazer dever de casa de religião. Minha amiga não faz!

_ Bianca, ela não estuda a religião católica, mas ela estuda a religião dela. Se você quisesse ser judia ainda ia estudar mais!

Já não me pareceu tão bom negócio e assim perdi meu interesse em me converter! Mas ela continuava sendo minha melhor amiga.

No ano seguinte, ela foi estudar no turno da manhã e segui no turno vespertino, portanto, acabamos por nos separar. Até que houve uma gincana entre todas as turmas do primário e finalmente nos reencontramos.

Só tinha um problema, como agora éramos de turmas diferentes, também estávamos em times diferentes, competidores! E para completar, a torcida da sua turma se sentava bem ao lado da minha, em uma arquibancada de ginásio. Ficamos completamente divididas e achando aquela gincana um saco!

Até que resolvemos ignorar a competição, fomos nos aproximando e sentamos lado a lado, abraçadas, bem na escada que funcionava como corredor, separando as duas torcidas. Escutamos reclamações dos dois lados, que éramos traidoras, essas coisas de criança. Nos defendemos mutuamente e continuávamos querendo que nosso time ganhasse, mas seguimos abraçadas até o fim.

Eu juro que não me lembro quem ganhou. E não tinha idéia de como esse gesto me serviria várias vezes como metáfora, muitos anos depois.

O tempo passou e não sei onde ela foi parar, perdemos o contato. Uma pena, mas isso tudo aconteceu bem antes da internet e dessa facilidade em localizar as pessoas.

Mas enfim, pela adolescência comecei a estudar sobre o holocausto e foi só então que descobri que ser judeu não era apenas como torcer por um time diferente. A coisa era bem mais complexa. Talvez até por causa da minha amiga de infância, me solidarizei à causa.

Vou ser bastante sincera e provavelmente politicamente incorreta, mas alguns anos mais tarde e bastante mais crítica, comecei a notar certo corporativismo no mundo empresarial. E mesmo socialmente, vi nesse universo judaico um espaço fechado e restrito. Interpretei como um tipo de preconceito às avessas que não gostei. Como assim? Eu não devo ser preconceituosa com eles, mas eles podem ser comigo?

E novamente com o tempo, isso já não me fazia diferença, não era algo que me fizesse pensar tanto a respeito e tive pela vida outros bons amigos judeus, que muitas vezes nem sabia que o eram.

Mas agora, com a ida a Israel, não houve como não pensar que poderia ser tratada diferente ou com certa frieza no país. Esperei por isso, talvez de maneira inconsciente. Coisa que não aconteceu e, portanto, me sinto na obrigação moral de ressaltar esse ponto.

Fui muito bem tratada, não sofri absolutamente nenhum tipo de preconceito. As pessoas eram naturalmente simpáticas e abertas. Tem sua cultura? Claro que sim, talvez disso tenha valido sua sobrevivência. E entendendo um pouco melhor essa questão agora que moro na Europa. Todos os países aqui são protecionistas, que não se tenha ilusões a esse respeito. E sim, esse protecionismo em algum momento pode gerar preconceito, mas não é a mesma coisa e não necessariamente o geram.

A grande mensagem que recebi é: se você não me quer o mal, nem me mudar, seja o que quiser e seja bem-vinda. Diga-se de passagem, meu lema de vida!

E agora, mudando o lado da fronteira, vamos até a Jordânia, que dentro do mundo árabe, está entre os mais liberais. Ainda assim, estamos falando de um país muçulmano.

Não é o primeiro país muçulmano que visito e já havia quebrado esse mito de que todos estão prontos para colocar uma bomba na cintura!

A gente escuta muita coisa e acredito que parte deva ser verdade, mas não me sinto confortável em falar do que eu imagino que é, só posso falar com propriedade sobre o que vi e como foi minha experiência.

E na minha experiência, fui tratada com amabilidade, respeito e simpatia.

Uma coisa é fato, absolutamente todas as pessoas que se relacionaram conosco de alguma maneira, a primeira pergunta que faziam era: de onde vocês são? Depois que respondíamos que éramos brasileiros, nos diziam sempre que éramos bem-vindos. Leio isso de duas formas, existe uma preocupação com sua origem além da simples curiosidade. Tenho minhas dúvidas se todos seriam bem-vindos e isso poderia ser categorizado como preconceito. Por outro lado, o Brasil não é um país muçulmano e eles sabem muito bem disso. E ainda assim, nos aceitavam abertamente.

Nós éramos turistas e eles dependem do dinheiro do turismo para viver, certo? Certo, mas sério, me senti infinitamente menos explorada do que quando visitamos a Itália, por exemplo. Existe a abordagem, mas não sofremos nenhum tipo de assédio. E pode acreditar, mais de uma vez nos ajudaram e para nossa surpresa, sem nenhuma expectativa em receber nada em troca.

Tive esse sentimento que eles gostam e se orgulham que você saia de lá com uma boa impressão do país e deles. Um detalhe me chamou a atenção, estão constantemente sorrindo. O brasileiro tem muito dessa atitude também.

Na Jordânia não é obrigatório o uso do véu, nem a rainha usa. Ainda assim, é comum ver as mulheres locais de cabeça coberta e os homens também. Sim, é verdade que funciona como identificação de tribos e origens, mas vai encarar aquele sol a pino sem estar com sua cabeça coberta para ver o que te acontece! Nem sempre é uma questão religiosa. E por não sê-lo, me deu vontade de amarrar minha cabeça também, sabe por que? Eu acho bonito e protege do sol.

Com ou sem a cabeça coberta, as pessoas me olhavam igualzinho. Inclusive fisicamente, não senti nenhuma barreira. Gostavam de fotos e de sair nas fotos conosco, tinham vontade de se relacionar.

Não percebi ninguém nos julgando, ninguém tentou me converter e ninguém me tirou nenhum pedaço. Ah, mas se você for para o interior… mas no fundo no fundo… mas outras 32 mil hipóteses que não aconteceram. Como já disse anteriormente, só posso avaliar o que vivi.

Muito bem, fizemos praticamente toda a viagem por nossa conta e risco, mas em dois dias tivemos guias nos conduzindo. Um deles em Jerusalém e outro em Wadi Rum; um judeu e um muçulmano.

Conversando com o judeu, lembro dele falando algo como que no fim das contas a religião de cada um pouco importava, cada qual que acreditasse em suas verdades e respeitasse os demais. No fundo, o que provocava todo conflito era o dinheiro e não a religião. Atrás de todas as guerras, conspirações e afins, sempre há alguém ganhando economicamente e será o que regerá a direção. O resto segue a boiada. Não foi exatamente com essas palavras, mas a idéia era essa.

Do outro lado da fronteira, o muçulmano, em jejum pelo Ramadán, reclamava que o mundo árabe era muito unido contra seus inimigos, mas entre si, cada um seguia seus interesses. Que o dinheiro estava estragando as pessoas que perderam o foco do que importava de verdade.

O judeu simplesmente queria circular sem medo de ser atacado em sua casa, ficar em paz com sua família e suas crenças. O muçulmano queria ficar em paz no seu deserto, com sua família e seus cavalos. Se alguém ganhava com o conflito, certamente não era nenhum dos dois e tinham bastante clareza quanto a isso.

Eles nem sabem que desde pontos antagônicos, acreditavam na mesma coisa. Porque o ser humano é muito mais parecido do que imagina.

Mesmo Luiz e eu, pela nossa aparência, poderíamos ser um casal  de uma judia e um muçulmano. Não somos, mas temos nossas diferenças e nem sempre são tão pequenas. Tem dias que me lembro da oração das mulheres casadas: deus, daí-me paciência… porque se me deres força, mato ele! Não tenho dúvidas que ele terá suas queixas também, mas no fundamental nos parecemos em muita coisa. Chega uma hora que você já não faz questão absoluta de ter razão, não quer mudar mais ninguém, só quer que te aceitem como você é e ficar em paz na sua casa.

Pode ser entre duas amigas, um casal ou dois países, mas o conceito é muito parecido, respeito.

Sei que é uma utopia quase ingênua, mas tem dias que a gente descobre que vale mais a pena sentar no meio da escada e assistir a partida abraçados. Afinal, há muito mais chance de você recordar desse momento do que se lembrar de quem ganhou o jogo.

Chegando ao fim da saga!

Só havia se passado 10 dias e parecia que estávamos fora há uma vida! Chegou a hora de atravessar a fronteira novamente no caminho inverso e tomar o rumo a Madri.

 

Acordamos tardíssimo nesse dia, assim, umas oito da manhã! Tomamos café, nos despedimos do gerente do acampamento em Wadi Rum e pegamos a estrada em direção a Aqaba.

 

É estranho quando você está chegando na cidade, porque como vem de uma região mais alta, vê Aqaba, o mar vermelho e Eilat por detrás. O contraste é gigante! Estão coladas, cortadas por uma linha divisória fina e ao mesmo tempo totalmente diferentes!

 

Deve ser parecido quando os gringos chegam ao Rio e se deparam com o morro e o asfalto lado a lado, a tensão que, por conviver a cada dia, não lembra mais o quanto é tensa, nem percebe quão bruto é o contraste.

 

Deixamos o carro na locadora e um dos atendentes nos deu uma carona até a fronteira com Eilat. Luiz todo estressado com medo de não passar!

 

Fizemos todos os controles, assim como na ida, nem mais nem menos. Cruzamos a fronteira a pé e ainda demos sorte de haver um taxi do lado israelense disponível, nem tivemos que esperar.

 

Nosso vôo era só no fim do dia, porque quando marcamos não tínhamos idéia do quanto seria fácil ou difícil a trajetória da volta. Acontece que tudo acabou sendo mais simples do que pensamos e chegamos cedo para burro no aeroporto.

 

Pensamos em guardar as malas ali e sair para passear na cidade. Nem lembramos que com a possibilidade de atentados, não existe um lugar para você deixar sua bagagem! Seria o ponto perfeito para se deixar um explosivo, por exemplo. Além do mais, o aeroporto é minúsculo, até um pouco confuso.

 

Lá fomos nós tentar embarcar mais cedo, mas antes… claro que havia um controle de segurança. Tudo bem que é necessário e tal, mas para ser sincera, começava a me encher o saco.

 

Dessa vez, ainda tínhamos o carimbo da Jordânia no passaporte para enriquecer o diálogo com o agente!

 

_ Tá vindo da onde tá indo para onde? Blá, blá, blá…Para que time torce? O que foram fazer na Jordânia?

_ Visitar Petra.

_ Conheceram alguém durante a viagem?

_ (Veja bem meu amigo, você sabe quem está entrevistando? Eu falo com deus e o mundo!) Só gente do hotel…

_ Receberam algum presente ou encomenda de alguém?

_ Não! (Bom, eu ganhei uma pedra de uma nômade, mas acho que isso não conta, né?)

_ Compraram alguma coisa?

_ Sim, os lenços de colocar na cabeça!

_ Algum motivo religioso?

_ Não, acho bonito e protege do sol.

_ Vocês entendem que estamos fazendo essas perguntas porque estamos sob ameaça de bomba e podem ter utilizado vocês?

_ (Glup!) Entendo, pode perguntar à vontade.

_ Ok, boa viagem!

 

Depois desse controle, fomos ao balcão entrar em uma fila de espera e tentar um vôo mais cedo. É como uma ponte aérea e achamos que tínhamos boas chances de conseguir.

 

Esperança que foi diminuindo à medida que o tempo foi passando e o aeroporto não parava de encher!

 

Sentados, esperando, conhecemos o casal que estava ao lado, ele era brasileiro, maior coincidência. Até que queria conversar mais, mas a essa altura, você fica tão paranóico que alguém pode estar te observando que se restringe ao limite da educação. Logo chegou a hora do vôo deles e nos despedimos.

 

Luiz ia pedir informações no balcão de tempos em tempos. Em um desses intervalos, um rapazinho com uma mala grande me pediu se podia vigiar a mala dele enquanto ele ia não sei onde. Desculpa amigo, mas não vai rolar nem a pau Juvenal! Ele franziu o rosto, mas não se queixou, saiu com sua mala. Desconfio que era um policial disfarçado me testando.

 

Aliás, no meio dessa muvuca, fica passando alguns agentes, checam atrás dos painéis e cantos do aeroporto, procuram bombas. Se existe alguma mala um pouco afastada de alguém, perguntam de quem é. E se não há um dono, isolam a área e explodem a bolsa. Felizmente, não presenciamos esse fato.

 

Enfim, quando já estávamos desanimando, escutamos nosso nome! Conseguiram nos encaixar em um vôo mais cedo! Lá vamos nós!

 

Mas antes, claro, novo controle na hora de ir para a sala de embarque! Uma coisa me chamou a atenção positivamente, eles não barram as garrafas de água nesses controles de segurança. A água é muito preciosa para você jogar fora.

 

É curioso porque esse aeroporto é bem pequeno e simples. No salão de embarque chegam a complementar os assentos com cadeiras de plástico, dessas de praia. Gente saindo pelo ladrão, parece uma estação rodoviária! A rodoviária mais segura do mundo!

 

Embarcamos em um avião daqueles pequenos e balançantes. Mas não sei, talvez pela quantidade de coisas que havíamos passado nos últimos dias, incluindo um passeio de balão pelo deserto, me pareceu fichinha! Nenhum sinal de medo ou vertigem.

 

Chegamos bem a Tel Aviv. Tomei um banho caprichado e lavei meus enormes cabelos, coisa que em Wadi Rum seria bastante complicado.

 

À noite, saímos com o casal de amigos israelenses para jantar e nos despedir. Nos levaram ao Porto, em Old Jaffa. Um lugar agradável, em frente a uma marina de pescadores. A música ao vivo era um pouco mais pesada do que nós quatro esperávamos, mas incomodou mais a eles do que a nós.

 

Manhã seguinte, aeroporto internacional para pegarmos o vôo para Madri. No caminho, um taxista completamente tarado por futebol! Muito simpático e, quando viu que Luiz levava uma camisa do Brasil, a única que ainda estava limpa, ficou todo empolgado e engatou na conversa. Ficou feliz quando dissemos que nos sentimos em casa na cidade e que a praia lembrava bastante as praias do Rio (o que é a mais pura verdade!).

 

Antes de entrar no aeroporto, advinha o que tem? Controle de segurança é claro! Nem falamos nada, o próprio taxista que se comunicou com o guarda. Mas já abri as janelas logo para eles olharem para a gente e adiantar a história. Foi rápido.

 

Na entrada do aeroporto, tem controle novamente, mas é aleatório, não pediram para a gente parar. Achei interessante os avisos de proibições na porta. Não podia fumar, não podia levar animais, nem armas. Achei que cigarros, cachorros e armas não deveriam estar na mesma categoria, mas enfim…

 

Lá fomos nós para a fila do check in e… mais um controle!

 

_ Tá vindo da onde, tá indo para onde, para que time torce? Falou com alguém, conhece alguém… blá, blá, blá…

 

Passamos pelo raio X, dessa vez a mala do Luiz foi aprovada direto e a minha não, precisava abrir. Fiquei pensando o que raios eu tinha na mala que poderia levantar suspeita? Os carregadores de celular?

 

O que levantou suspeita foi um livro! Ela me perguntou se eu tinha um livro na mala. Eu pensei que tivesse entendido errado. Ao invés de responder já abri logo a mala para ela olhar o que quisesse e encurtar o caminho.

 

Ela queria realmente saber do livro. Que por acaso era um guia da Jordânia. Me perguntou onde havia comprado, respondi que no aeroporto de Madri. No mesmo segundo ela perdeu o interesse e disse que podia fechar a mala.

 

Muito bem, finalmente, fizemos o check in. Agora era ir para o salão de embarque!

 

Mas antes… outro controle! Taquiupariu lá longe! Lá vamos nós outra vez, mais uma vez, de novo! Uma fila do caramba, pelo menos não foi tão demorado.

 

Lá dentro é legal, bem grande e com boas opções de lojas e de onde comer. Comprei um vestido maravilhoso da Michal Negrin! Nunca me imaginei comprando roupa em aeroporto, mas não é que me encantei pela loja?

 

O vôo da volta foi tranquilo, voltamos em uma segunda-feira, o avião vazio que deu para nos espalharmos pelas poltronas livres.

 

Confesso que chegar em Madri foi um certo alívio. Mostrar meu passaporte espanhol e simplesmente passar direto! Sem filas, sem perguntas, sem stress! A mesma sensação que tinha antes quando mostrava meu passaporte brasileiro no Brasil, de ser reconhecida, como se estivesse usando um crachá ou soubesse a senha de entrada!

 

Não sei por quanto tempo, mas é bom sentir essa sensação de chegar em casa, independente de onde ela seja. Nem sempre a tenho, nem sempre terei, mas hoje sim.